sexta-feira, 30 de março de 2018

A HOMOSSEXUALIDADE DE FERNANDO PESSOA





Comecei a ler o livro Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa, de Victor Correia. Quase 500 páginas compactas. A obra inclui uma introdução de 100 páginas e cerca de 400 páginas de transcrições dos livros hoje publicados de Pessoa (ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo e pseudónimos) e de manuscritos existentes no espólio da Biblioteca Nacional.

Do pouco que já li, infiro que o autor está plenamente convencido da homossexualidade de Fernando Pessoa, ainda que o poeta possa não ter passado do pensamento ao acto. O que é duvidoso, ainda que possível.

Desde que mergulhei, há muitos anos, na obra de Pessoa, que, aliás, não conheço integralmente, sempre estive convicto de que o autor de Mensagem era homossexual. O trabalho exaustivo de Victor Correia, agora dado à estampa, vem confortar-me nessa convicção.

Não haverá, na infinidade de papéis de Pessoa, algum manuscrito que comprove uma prática homossexual? Ainda existem, hoje, centenas ou mesmo milhares de papéis por exumar. Ou dar-se-á o caso de se terem ocultado alguns escritos para "salvaguardar a sua imagem"! Tudo é possível.

Vou prosseguir a leitura do livro.

4 comentários:

Zephyrus disse...

Que ocorreu na "iniciacao" de Pessoa e, creio, Raul Leal, por Aleister Crowley, quando este visitou o poeta em Lisboa?

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

Tenho de rever.

Zephyrus disse...

Fui espreitar o diario do Crowley, da sua estada em Lisboa, e ele refere que tera tido muito sexo. Resta saber: com quem? Convem nao esquecer como era os seus rituais de "sex magick".

ancst disse...

Muito provavelmente, Fernando Pessoa terá morrido virgem. Quanto a essa preocupação de encontrar provas/indícios escritos ou testemunhais de eventuais relações sexuais com A ou B, é inútil. Isso nada diz da orientação sexual de alguém. Os amigos mais próximos de Fernando Pessoa, António Botto e Raul Leal, eram homossexuais praticantes. O suicida Mário de Sá-Carneiro, seu grande amigo, pelos escritos e pela vida atormentada, também indiciava sê-lo (ou até mesmo transexual...), embora talvez não praticasse. O seu poema em inglês "Antinous" não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao fascínio que o assunto exercia sobre o escritor. A sua empenhada defesa dos seus amigos Botto e Leal, a marcada homossexualidade de Álvaro de Campos, seu heterónimo mais autobiográfico, são outros indícios fortes quanto à sua natureza mais profunda. Por fim, há um escrito autobiográfico em que o poeta praticamente se assume como homossexual imperfeito e egodistónico, em que diz que aquilo que em outros (Shakespeare e Rousseau) desceu ao corpo, nele lhe parou no espírito, mas que se eventualmente esse desejo se lhe manifestasse fisicamente, seria uma suprema humilhação... O romance com Ofélia foi um mero fingimento heteronímico, como confessou arrependido a Agostinho da Silva, que chegou a conhecê-lo.