terça-feira, 7 de julho de 2015

MARIA BARROSO




Maria de Jesus Barroso Soares, 90 anos, morreu esta manhã no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, na sequência de uma queda na sua residência.

Conheci pessoalmente Maria Barroso, há muitos anos. Foi uma mulher a todos os títulos excepcional, mas abstenho-me de fazer aqui o seu elogio fúnebre, de que a comunicação social se encarregará (aliás, já se encarregara logo após o seu grave acidente) com muito mais propriedade.

Quero apenas deixar um testemunho do inesquecível convívio com Maria Barroso, em Outubro de 2003, quando nos deslocámos, durante alguns dias, a Alexandria, para participarmos nas cerimónias comemorativas do 1º aniversário da nova Biblioteca daquela cidade.


Maria Barroso e eu na Sala Nobel da Biblioteca de Alexandria ( Outubro de 2003)

Recordo a intervenção de Maria Barroso num dos painéis promovidos pela direcção daquela instituição e recordo especialmente a ida, por sugestão minha,  ao Restaurante Elite, já então um pouco decadente mas ainda um dos símbolos da cidade.

Durante a nossa estada, tive ocasião de falar várias vezes (ficámos instalados no mesmo hotel, o Cecil, por onde passaram tantas ilustres figuras, como E.M. Forster e Lawrence Durrell) com Maria Barroso acerca de Constantine P. Cavafy, o célebre poeta grego de Alexandria, uma das figuras maiores da literatura mundial na passagem do século XIX para o século XX.

Maria Barroso, profunda conhecedora de Cavafy (traduzido pela primeira vez entre nós por Jorge de Sena, e vertido em numerosas línguas, entre as quais em francês, por Marguerite Yourcenar) apreciou essa troca de impressões e não havendo já tempo de eu lhe mostrar a Casa-Museu de Cavafy, manifestou interesse em conhecer o célebre Café-Restaurante Elite, na rua Safiyya Zaghlul, que a lenda aponta como tendo sido frequentado pelo imortal poeta.

Da esquerda para a direita: Eu, três membros da extinta associação portuguesa dos amigos da Biblioteca de Alexandria, Maria Barroso, Ana Maria Vieira de Almeida e Fernando Ramos Machado (embaixador de Portugal no Egipto) no Café Elite (Outubro de 2003)

Manda a verdade que se diga, como pude averiguar nas investigações a que procedi, que Cavafy nunca foi ao Elite, pela simples razão de que esta casa foi inaugurada em 1953 por Christina Constantinou, veneranda figura da comunidade grega de Alexandria, hoje já falecida, que ainda entrevistei pouco tempo antes da sua morte. Ora Cavafy morreu em 1933 e, frequentador de cafés e tertúlias literárias, como Fernando Pessoa (existem muitas semelhanças entre ambos), tinha os seus hábitos no Café Billiard Palace, alguns metros acima do Elite e hoje já demolido. Mas se o Elite existisse na altura, não duvido que o poeta o teria frequentado, pois habitava muito próximo, na rua Lepsius (hoje rua Sharm-El-Sheikh) e por lá passaram importantes figuras como Umm Khalthum, Edith Piaf, Dalida e mesmo as rainhas Farida e Narriman.

Todavia a jovem Christina, mais tarde Madame Christina, ainda conheceu pessoalmente Cavafy e o Café teve como cliente um amigo íntimo e herdeiro do poeta, Alexander Singopoulos, que lhe ofereceu o manuscrito do famoso poema "O deus abandona António", cuja cópia figura à entrada do estabelecimento e cujo original o filho de Madame Christina garante possuir na sua casa de Paris.

Tudo isto foi objecto do maior interesse por parte de Maria Barroso, e depois de um jantar oferecido pelo cônsul honorário de Portugal em Alexandria, por sugestão minha visitámos o Elite. É uma memória que partilho com os meus leitores, no dia do desaparecimento físico de Maria Barroso, já que a sua presença espiritual permanecerá entre nós.

À família de Maria Barroso, em especial a Mário Soares, Isabel Soares e João Soares, manifesto a expressão do meu profundo pesar.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A DEMOCRACIA CONFISCADA




Foi apresentado há dias o último livro de José Manuel Pureza Linhas Vermelhas - crítica da crise-como-política. Trata-se de uma obra da maior importância para a compreensão da situação do país e do mundo nos últimos anos. Neste livro, José Manuel Pureza reúne uma série de reflexões publicadas nos últimos cinco anos em diversos jornais e revistas, embora devidamente reelaboradas e sistematizadas, a fim de conceder uma maior unidade ao conjunto dos textos. Desse facto resulta a repetição de algumas asserções, o que não é propriamente um defeito, na medida em que permite enfatizar algumas ideias indispensáveis ao melhor entendimento dos tempos que vivemos.

O sub-título do livro é manifestamente elucidativo. Desde há cerca de dez anos, a crise financeira mundial, depois também económica e social, passou a servir de pretexto para a adopção de medidas que doutra forma dificilmente seriam aceites. Com o alastramento da ideologia neoliberal na Europa, que conquistou não só os governos conservadores mas, para espanto, também os governos sociais-democratas e socialistas, que hoje dificilmente já se distinguem, instalou-se o conceito de "crise" para promover a progressiva destruição do Estado Social.

Isto é, a "crise" passou a ser um programa político da governação europeia, e todas as medidas tomadas em detrimento das classes mais vulneráveis, que não das classes possidentes, que essas são sempre poupadas aos malefícios de tais decisões, passaram a ser justificadas pela existência de uma "crise" internacional. Foi levada ao extremo a máxima "Tina" (There is no alternative) proclamada outrora por Margaret Thatcher, uma das principais responsáveis, com Reagan, pela situação de desregulação financeira em que nos encontramos.

Não soube, e principalmente não quis, a União Europeia encontrar "alternativa" aos programas de austeridade impostos aos países de situação económica e social mais débil, Grécia, Irlanda, Portugal e, informalmente, Espanha e Itália, no fundo à Europa meridional, países cujos povos são considerados preguiçosos, desorganizados, corruptos, aldrabões, etc., etc. Os resultados estão à vista. As dívidas soberanas da Grécia e de Portugal, por exemplo, não cessam de aumentar e são tecnicamente impagáveis, qualquer que seja a argumentação que, no nosso caso, o governo de Passos Coelho propagandeie aos quatro ventos. Não consigo perceber como é que os políticos que superintendem as instituições europeias se atrevem a sustentar a viabilidade de medidas que o menos dotado economista sabe serem, por definição, inviáveis. Nem mesmo as afirmações demonstradas de alguns prémios Nobel da Economia conseguem convencê-los.

É um facto que a União Europeia se tornou, no conjunto das entidades que formal ou informalmente a dirigem, uma organização totalitária. Para "esta" Europa só existe uma via, a do cumprimento das regras comunitárias, nomeadamente do Tratado Orçamental, custe o que custar, independentemente das escolhas democráticas dos povos. A União Europeia CONFISCOU A DEMOCRACIA. O espectáculo, ainda em cena, das eleições de Janeiro na Grécia e do referendo de ontem mostram até que ponto chegou o desvario de dirigentes eleitos e não eleitos. Não se percebe, igualmente, para que existe um Conselho Europeu (e uma Comunidade Europeia) se as decisões são tomadas pela Alemanha ou, no melhor dos casos, pela Alemanha com o apoio da França. Hollande é uma nulidade política, além de outras coisas. Vivemos uma situação que seria inimaginável se fosse presidente francês o general De Gaulle.

Não me proponho dissecar aqui o livro de José Manuel Pureza, tal a riqueza do seu conteúdo. Seria uma pretensão estulta. Mas não quero deixar de registar algumas passagens:

«O que está hoje em jogo no apodrecimento imparável da crise do euro já não é a sobrevivência de uma moeda nem mesmo a sobrevivência da integração europeia. É a sobrevivência da democracia. Pelas mãos de integristas que idolatram o equilíbrio das contas públicas como supremo bem, a gestão irresponsável desta crise está a levar à destruição dos fundamentos da democracia nos Estados europeus. Entrámos numa era de pós-democracia em que os critérios de legitimação da governação e dos seus protagonistas deixaram de ser a expressão do voto popular para passarem a ser o alinhamento com o setor financeiro e a suposta capacidade mágica de "tranquilizar os mercados". O argumento do "interesse nacional" é porventura o dispositivo maior de legitimação dessa mudança. À sua sombra, e à sombra dos moralismos que carrega e da novilíngua que instala, a democracia tornou-se num risco para os mercados. E, diante disso, a Europa está a desistir da democracia» (pp. 90-91)

Ou:

«A juntar a esta efabulação ideológica, a rábula do Portugal-bom-aluno está a cultivar entre nós um discurso totalmente perverso sobre a chamada "paz social". Ele formata-nos na convicção de que o que afunda os gregos é a mistura entre preguiça e tumulto, nunca a receita dos seus supostos salvadores. Cultivemos pois a paz social, aconselham os arautos da rábula do bom aluno. É a paz da quietude, do assentimento passivo, aquilo que nos recomendam, a paz do quanto menos ondas melhor que a nossa política é o trabalho, o trabalhinho muito lindo. A paz de um tempo em que se acabaram todas as ilusões. Exceto uma: a liberal.» (p.93)

Eu acrescentaria, evocando a resposta do marquês de Posa a Filipe II na ópera Don Carlo, de Verdi: "La pace dei sepolcri".

Muito interessante "A minha carta à Troika" (p. 193); ou este parágrafo:

«Em drástico contraste com o exemplo grego protagonizado pelo Syriza, a social-democracia europeia mostra o que não deve ser o comportamento da esquerda nesta fase. À pergunta sobre qual fora o maior sucesso da sua vida política, Margaret Thatcher terá respondido: "O New Labour." Nesta síntese letal fica enunciado todo o processo de capitulação do blairismo e a sua cooptação pelo pensamento único neoliberal e pela política por ele inspirada. A responsabilidade histórica do SPD alemão na consolidação desse processo de cooptação ficou patente na política de confronto com os sindicatos e de retração do Estado Social protagonizada por Gerhard Schröder e prolongada na coligação com a CDU de Angela Merkel. O que levamos de mandato de François Hollande como Presidente da República francesa é o episódio mais recente desta novela de rendição.» (p. 214)

Um livro de grande profundidade científica, honestidade intelectual e oportunidade política. Muito teria de escrever mesmo para um pálido resumo. Como não é possível, recomendo vivamente a leitura. Leitura e reflexão.


domingo, 5 de julho de 2015

NÃO !




O "Não" venceu no referendo da Grécia por cerca de 60% dos votos contra 40% . Após uma semana de expectativa, de pressões diversas, de contra-informação, os gregos optaram por recusar uma cedência (humilhante) aos credores internacionais. A diferença entre o "Não" e o "Sim", embora substancial, evidencia que a população, ou determinada ou confusa, se encontra praticamente dividida ao meio, não evidentemente quanto ao fundo da questão mas quanto à forma.

Aguardam-se agora, com um misto de ansiedade e curiosidade, os desenvolvimentos das próximas horas e dias. Independentemente das consequências imediatas para a Grécia, a ruptura das negociações que levou à convocação do referendo teve o inegável mérito de provocar a discussão pública, em toda a União Europeia, quanto aos chamados processos de ajustamento que apenas têm provocado sangue (algum), suor e lágrimas (abundantemente). Isto, sem a obtenção de qualquer dos resultados pretensamente invocados para justificar as drásticas medidas de austeridade adoptadas pelas "instituições".

Ao retirarem a questão da dívida do âmbito estritamente financeiro para a esfera política, os gregos contribuíram decisivamente para a clarificação, que já tardava, de uma situação verdadeiramente apodrecida e doutra forma certamente irregenerável.

Desde há muito tempo que a União Europeia (no conjunto das suas instituições) se tornou uma organização totalitária, onde não há lugar para a democracia, o que significa uma contradição profunda nos próprios termos da sua constituição. Numa corrida veloz para o abismo, aprovando (inexequíveis) tratados sobre tratados a fim de consagrar o neoliberalismo como opção única de governação, os dirigentes europeus foram cavando sucessivos palmos de terra para melhor sepultarem o caixão da Europa. Ainda mais do que mal intencionados, foram verdadeiramente medíocres e alucinados.

Toda a gente sabe (sempre soube) que a dívida grega, tal como a portuguesa, é impagável. A insistência no seu pagamento releva da insanidade mental. Argumentar-se-á que as dívidas devem ser pagas, e é verdade. Mas as entidades que emprestaram dinheiro à Grécia, desde há largos anos, sabiam de antemão que o país nunca estaria em condições de solver, em condições normais, os compromissos assumidos, independentemente das cores políticas dos governos que consecutivamente se sucederam. Mesmo com as medidas violentas impostas aos gregos, roçando uma economia de guerra, a dívida soberana não cessou de aumentar. Tal como se verifica em Portugal.

Espera-se e deseja-se que, a partir de amanhã, algum bom senso regresse à pretensa Casa Comum do Velho Continente. Que não se utilize o caso grego para influenciar os resultados das próximas eleições legislativas portuguesas e espanholas. Que, naquilo que nos diz respeito, Passos Coelho modere a sua obstinação, que decorre com certeza de "motivações profundas", quanto ao cumprimento "custe o que custar" de uma agenda de que o povo português não é responsável, e que deixe de utilizar a mentira sistemática para sustentar a sua argumentação.

A crise da dívida que assola a Europa, nomeadamente alguns dos seus países, deriva essencialmente de uma crise bancária que os cidadãos europeus foram chamados a resolver. A sua solução através da austeridade a qualquer preço, tem sido um processo indigno, conduzido por governantes infames.

O que está agora em jogo é não só o futuro da Grécia e o dos outros países sujeitos a resgate mas também o futuro da Europa enquanto entidade política. Mais do que isso, a turbulência financeira a nível internacional. E ainda, supremo desafio, a posição geoestratégica da Europa e a paz mundial.

O conflito na Ucrânia, a questão não "definitivamente" resolvida dos Balcãs após o desmembramento da Jugoslávia, a situação no Médio Oriente, a agitação no Norte de África, o fundamentalismo islâmico, o caso do Irão nuclear, o problema das migrações, a crise humanitária na África sub-sahariana e por aí fora auguram dias muito difíceis. Não é uma figura de retórica a afirmação repetida do Papa Francisco que nos encontramos já numa Terceira Guerra Mundial.

Espera-se, assim, que a partir de amanhã os líderes europeus reajam de cabeça fria à inequívoca escolha do povo grego a favor de uma negociação sem ultimatos.

O pior que poderia acontecer seria a manutenção de uma posição de intransigência que a nada conduziria. Ou melhor, apressaria o fim de uma União que já se movimenta a muito custo.

Em qualquer caso, os gregos escreveram hoje uma página corajosa da sua história.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

AINDA A GRÉCIA

REPUBLICO ESTE POST, NUM MOMENTO CRUCIAL PARA OS GREGOS. ESTE LIVRO, EMBORA ANTIGO E SATÍRICO, CONVIDA À MEDITAÇÃO.

 

 

quarta-feira, 16 de maio de 2012


É UMA INFELICIDADE SER GREGO ?



Os gregos vão ser novamente chamados às urnas, a fim de se tentar eleger um parlamento que proporcione um governo ao país, tarefa que se afigura cada vez mais irrealizável, sendo contudo certo que a Grécia não poderá permanecer indefinidamente sem um Executivo, com ou sem euro, dentro ou fora da União Europeia, in extremis com um governo militar, de que existem precedentes não muito distantes.

A propósito da crise grega, que é o sinal mais evidente da crise europeia, e mesmo mundial, que estamos a viver, é oportuno referir o livro ΗΔΥΣΤΥΧΙΑ ΤΟΥ ΝΑ ΕΙΣΑΙ  ΕΛΛΗΝΑΣ, publicado em 1975 por Nikos Dimou, que já conheceu 30 edições e foi agora editado em francês com o título Du malheur d'être Grec.

Trata-se de um conjunto de 193 aforismos satíricos sobre a identidade grega, as principais facetas dos indivíduos e da sociedade, num registo de grande ironia, cruel por vezes, certeiro em alguns aspectos, injusto em muitas apreciações, mas que, segundo o autor, é, afinal, uma "declaração de amor à Grécia".

Afirma Dimou que o livro não é de alguma forma o de um "anti-heleno", mas o de um homem profundamente preocupado com o seu país e que tenta ajudar os seus compatriotas a realizar o oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo".

Escrito ainda no tempo da ditadura dos coronéis, que acabou em 1974, é hoje um best-seller na Grécia e até contém uma irónica referência a Portugal. O que não deixa de ser curioso, dado que decorreram mais de 30 anos.

Traduzo o aforismo 32: «No fundo, o grego ignora a realidade. Vive duas vezes acima dos sues meios financeiros. Promete três vezes mais do que pode cumprir. Afirma conhecer quatro vezes mais coisas do que realmente sabe. Ressente-se (e compadece-se) cinco vezes mais do que é capaz de se ressentir».

Nos tempos que correm, esta apreciação poderá ser julgada cruel, e é obviamente excessiva, mas evidencia uma realidade cujas consequências são agora dramáticas. E mostra também como é difícil para os gregos contemporâneos arcar com o peso dos seus antepassados clássicos, herança de que duvidava Jakob Philipp Fallmerayer (1790-1861), historiador alemão que sustentava que depois das invasões eslavas dos séculos VI e VII na Grécia, não tinha restado "uma só gota de puro sangue grego".

segunda-feira, 29 de junho de 2015

ATAQUE BOMBISTA NO EGIPTO MATA PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA




O Procurador-Geral da República do Egipto, Hisham Barakat, morreu hoje em consequência de um ataque bombista contra a sua viatura, no cortejo automóvel em que se deslocava em Heliópolis, zona residencial a norte do Cairo.

Do atentado resultaram também diversos feridos entre polícias e civis.

A violência da explosão estilhaçou os vidros de todos os imóveis vizinhos.

Aguardam-se pormenores sobre este atentado, ainda não reivindicado.

sábado, 27 de junho de 2015

DISCURSO DE ALEXIS TSIPRAS EM ATENAS






Transcreve-se o discurso do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, hoje em Atenas:

A tradução deste discurso foi feita por Isabel Atalaia a partir da tradução não oficial para inglês de Stathis Kouvelakis. Em ambos os casos, as traduções foram feitas com grande urgência, por se entender prioritário difundir um discurso de importância fundamental. Por esse motivo, este texto será actualizado caso se verifique a necessidade de fazer qualquer alteração que salvaguarde a sua fidelidade ao original.
Compatriotas,

Durante estes seis meses, o governo grego tem travado uma batalha em condições de asfixia económica sem precedentes para implementar o mandato que nos foi dado, a 25 de Janeiro, por vós.

O mandato que negociávamos com os nossos parceiros visava acabar com a austeridade e permitir que a prosperidade e a justiça social regressassem ao nosso país.
Era um mandato com vista um acordo sustentável que respeitasse quer a democracia, quer as regras europeias comuns e que conduzisse à saída definitiva da crise.

Ao longo deste período de negociações, fomos convidados a executar os acordos concluídos pelos governos anteriores através dos memorandos, embora estes tenham sido categoricamente condenados pelo povo grego nas recentes eleições.

Apesar disso, nem por um momento pensámos em render-nos. Isso seria trair a vossa confiança.

Após cinco meses de duras negociações, os nossos parceiros, infelizmente, lançaram, na reunião do Eurogrupo de anteontem, um ultimato à democracia grega e ao povo grego.

Um ultimato que é contrário aos princípios e valores fundamentais da Europa, aos valores do nosso projecto comum europeu.

Pediram ao governo grego que aceitasse uma proposta que representa um novo fardo insustentável para o povo grego e boicota a recuperação da economia e da sociedade grega, uma proposta que, não só perpetua a instabilidade, mas acentua ainda mais as desigualdades sociais.

A proposta das instituições inclui: medidas conducentes a uma maior desregulamentação do mercado de trabalho, cortes nas pensões, reduções adicionais aos salários do sector público e um aumento do IVA sobre os alimentos, a restauração e o turismo, enquanto elimina alguns benefícios fiscais das ilhas gregas.

Estas propostas violam directamente os direitos sociais e fundamentais europeus: elas são reveladoras de que, no que diz respeito ao trabalho, à igualdade e à dignidade, o objectivo de alguns dos parceiros e instituições não é um acordo viável e benéfico para todas as partes, mas a humilhação do povo grego.

Estas propostas manifestam, sobretudo, a insistência do FMI na austeridade severa e punitiva e tornam mais oportuna do que nunca a necessidade de que as principais potências europeias aproveitem a oportunidade e tomem as iniciativas que permitirão o fim definitivo da crise da dívida soberana grega, uma crise que afecta outros países europeus e ameaça o futuro da integração europeia.

Compatriotas,

Pesa, agora, sobre os nossos ombros uma responsabilidade histórica face às lutas e sacrifícios do povo grego para a consolidação da democracia e da soberania nacional. A nossa responsabilidade para com o futuro do nosso país.

E essa responsabilidade obriga-nos a responder a um ultimato com base na vontade soberana do povo grego.

Há pouco, na reunião do Conselho de Ministros, sugeri a organização de um referendo, para que o povo grego decida de forma soberana.

A sugestão foi aceite por unanimidade.

Amanhã, será convocada uma reunião de urgência no Parlamento para ratificar a proposta do Conselho de Ministros de um referendo a realizar no próximo domingo, 5 de Julho, sobre a aceitação ou rejeição das propostas das instituições.

Já informei desta minha decisão o presidente francês e a chanceler alemã, o presidente do BCE, e amanhã farei seguir, por carta, um pedido formal, aos líderes e às instituições da UE, para que prolonguem por alguns dias o programa actual, para que o povo grego possa decidir, livre de qualquer pressão e chantagem, como é exigido pela Constituição do nosso país e pela tradição democrática da Europa.

Compatriotas,

À chantagem do ultimato que nos pede para aceitar uma severa e degradante austeridade sem fim e sem qualquer perspectiva de recuperação social e económica, peço-vos para responderem de forma soberana e orgulhosa, como a história do povo grego exige.

Ao autoritarismo e à dura austeridade, responderemos com democracia, calmamente e de forma decisiva.

A Grécia, o berço da democracia, irá enviar uma retumbante resposta democrática à Europa e ao mundo.

Estou pessoalmente empenhado em respeitar o resultado da vossa escolha democrática, qualquer que ele seja.

E estou absolutamente confiante de que a vossa escolha honrará a história do nosso país e enviará uma mensagem de dignidade ao mundo.

Nestes momentos críticos, todos temos de ter em mente que a Europa é a casa comum dos povos. Na Europa, não há proprietários nem convidados.

A Grécia é e continuará a ser uma parte integrante da Europa e a Europa é uma parte integrante da Grécia. Mas, sem democracia, a Europa será uma Europa sem identidade e sem rumo.

Convido-vos a demonstrar unidade nacional e calma para que sejam tomadas as decisões certas.

Por nós, pelas gerações futuras, pela história do povo grego.

Pela soberania e a dignidade do nosso povo.

Atenas, 27 de Junho, 1h00.


VIOLENTO SISMO NO EGIPTO




Um violento sismo (5.2), às 17.34 (hora local) com epicentro no Sinai, abalou todo o norte do Egipto, a Arábia Saudita, a Jordânia e Israel. O abalo, no Cairo, foi acompanhado por uma tempestade de areia.

Não existem, de momento, notícias sobre vítimas ou especiais prejuízos materiais.

Os serviços competentes foram colocados em alerta máximo.


A EUROPA QUE NOS ENVERGONHA





ARTIGO DE PACHECO PEREIRA, HOJE, NO "PÚBLICO":


Bater nos gregos tornou-se uma espécie de desporto nacional. Tem várias versões, uma é bater no Syriza, outra é bater nos gregos propriamente ditos e na Grécia como país. As duas coisas estão relacionadas, bate-se na Grécia porque o Syriza resultou num incómodo e, mesmo que o Syriza morda o pó das suas propostas, – que é o objectivo disto tudo, – o mal-estar que existe na Europa é uma pedra no orgulhoso caminho imperial do Partido Popular Europeu, partido de Merkel, Passos e Rajoy e nos socialistas colaboracionistas que são quase todos que os acolitam. É isto a que hoje se chama “Europa”.

Se não fosse sinal de coisas mais profundas, e péssimas, seria um pouco ridículo que nós portugueses nos arrogássemos agora o direito moral de bater nos gregos. Somos mesmo um belo exemplo! Ah! Fizemos o “trabalho de casa” e isso dá-nos a autoridade moral, “sacrificamo-nos” para ter agora esta gloriosa “recuperação” e os gregos não, Passos Coelho dixit. Para além de estar certamente a falar para a Nova Democracia e para o Pasok e não para o Syriza, o balanço do “ajustamento” grego foi devastador para a economia e para a sociedade. Porquê? Nem uma palavra. Ninguém fala da “herança” do Syriza, recebida em princípios de 2015, das mãos de dois partidos da aliança dos “ajustadores”, a Nova Democracia irmã da CDU, do PP espanhol e do PSD e do CDS português, que governou a Grécia com a eficácia que conhecemos e pelo PASOK, irmão do PS, que a co-governou. Eram esses que a “Europa” queria que ganhassem as eleições.

Só que os gregos “não fizeram o trabalho de casa”… e por isso tem que ser punidos. Caia o Syriza na lama, e venha um qualquer outro governo dos amigos e ver-se-á como muita coisa que é negada ao Syriza será dada de bandeja ao senhor Samaras e os seus aliados. O problema não é o pagamento aos credores, não é a “violação das regras europeias” (quais?), não é uma esforçada dedicação pela “recuperação” da Grécia, é apenas e só político: não há alternativa, não pode haver alternativa, ninguém permitirá nesta “Europa” nenhuma alternativa que confronte o poder dos partidos do PPE e seus gnomos de serviço socialista, porque isso fragiliza aquilo que para eles é a Europa.

A ideia de que a Grécia não é um Estado ou que é um “país falhado” é um absurdo. A julgar por esses critérios muitos países da Europa não são Estados, a começar pelo “estado espanhol” aqui ao lado e a acabar nalgumas construções de engenharia política ficcional que a Europa ajudou a criar nos Balcãs, seja o Kosovo, seja mesmo a bizarra FYROM. É evidente que a Grécia não é a Alemanha, mas Portugal também não é. A Grécia não é a França, mas vá-se à Córsega perguntar pela França, ou mesmo às zonas dialectais do alemão na Alsácia. Ou então a esses territórios muito especiais da União Europeia, sim da União Europeia, que são por exemplo a Reunião e Guadalupe, “departamentos franceses do ultramar”.

A Grécia é a Grécia, muito mais parecida com Portugal naquilo é negativo que os que hoje lhe deitam pedras escondem, e bastante menos parecida com Portugal, numa consciência nacional da soberania, que perdemos de todo. No dia da vitória do Syriza, o que mais me alegrou, sim alegrou, como penso aconteceu a muita gente, à esquerda e à direita, não foi que muitos gregos tenham votado num “partido radical” ou num programa radical, ou o destino do Syriza, mas sim o facto de que votaram pela dignidade do seu pais, num desafio a esta “Europa” que agora os quer punir pelo arrojo e insolência. Escrevi na altura e reafirmo que mais importante do que a motivação de acabar com a austeridade, foi o sentimento de que a Grécia não podia ser governada por uma espécie de tecnocratas a actuar como “cobradores de fraque” em nome da Alemanha. Por isso, mais grave do que o esmagamento do Syriza, que a actual “Europa” pode fazer como se vê, é o sinal muito preocupante para todos os que querem viver num país livre e independente em que o voto para o parlamento ainda significa alguma coisa. Nisso, os gregos deram uma enorme lição aos nossos colaboracionistas de serviço, que andam de bandeirinha na lapela.

Voltemos ao não-pais. A Grécia é um país muito mais consistente na sua história recente do que muitos países europeus, principalmente do Centro e Leste da Europa. Tem dois factores fortíssimos de identidade nacional, a religião ortodoxa e a recusa do “turco”. E foi “feita” por eles. Vão perguntar ao fantasma de Hitler o que ele disse da Grécia quando a invadiu e não disse de nenhum outro país e vão perguntar aos ingleses que apoiaram os resistentes gregos, duros, ferozes e muitos deles, como em Creta, “bandidos da montanha”. Sem Estado.

Esta identidade nacional dá para o mal e para o bem, como de costume, mas existe. Muitas aventuras militares e políticas resultaram dessa forte identidade e da relação mítica e simbólica com o passado, como seja a invasão da Anatólia numa Turquia em crise pós-otomana para reconstituir a Grande Grécia clássica e bizantina, ou as reivindicações sobre o Epiro albanês, ou mesmo a pressão contra a existência da Macedónia como estado. A aventura de Venizelos e a Megali Idea foi uma das grandes tragédias do século XX, apoiada irresponsavelmente pelos ingleses, mas mostram como é ligeiro apresentar a Grécia como um “não país”, quando nesses anos as poucas cidades “civilizadas” nessa parte do mundo não eram Atenas, mas Salónica e Esmirna. Esmirna, incendida pelos turcos e Salónica purgada dos seus judeus por Hitler.

O argumento “geográfico” das ilhas para afirmar que a Grécia “não é um estado” então é particularmente absurdo. A Grécia tem centenas de ilhas e a Indonésia milhares. Então a Indonésia também não é um país? É-o certamente menos do que a Grécia, visto que a diversidade rácica, linguística e religiosa da Indonésia é muito maior e mais complicada do que as ilhas gregas cujo cimento, até mesmo a Rodes, que fica bem em frente da costa turca, é de novo, a religião e a história.

Os gregos, povo de comerciantes e marinheiros, são um alvo fácil, como os camponeses do Sul de Itália e os alentejanos, para os do Norte industrial e “trabalhador”. É um estereótipo conhecido: ladrões, vigaristas e, acima, de tudo preguiçosos. Por isso “enganaram a Europa” e querem viver á nossa custa. A Grécia enganou a Europa? Sim with a little help from my friends. A Europa ajudou activamente a Grécia a falsificar os números, a Alemanha em particular, enquanto isso lhe interessou. E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.

Os gregos não querem pagar impostos? Não, não querem, mas nós portugueses também não queremos. Há uma diferença, é que em Portugal se aceitou nos últimos anos, um poder fiscal muito para além do que é aceitável numa democracia. Será que é isso a que se chama “fazer o trabalho de casa”, ter um Estado? Já agora, as estatísticas da economia informal na Europa são muito interessantes. Sabem que Estados tem uma economia informal muito superior à grega? A Noruega, a Suíça, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Finlândia e… a Alemanha.

A questão mais importante e que merece ser analisada e discutida mais a fundo, não é a Grécia e muito menos o destino do Syriza. É a mudança de carácter da União Europeia, da “Europa”, nestes anos de crise. A hegemonia alemã é um facto, mas a principal mudança foi a substituição de um projecto europeu de paz e solidariedade, por um projecto de poder. A substância desse poder é a hegemonia política do Partido Popular Europeu que, apoiado pelo papel do governo alemão, mas indo para além dele, transformou o “não há alternativa” na legitimação de todos os governos conservadores, muitos dos quais viraram francamente à direita nestes anos. Esses governos recebem todas as complacências (como Portugal a quem se fechou os olhos nos falhanços na aplicação do memorando) e todos os apoios.

A “Europa” é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha, interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder “europeu”. Hoje qualquer passo que reforce a “Europa” reforça o PPE e o “não há alternativa”. Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.