quinta-feira, 29 de julho de 2021

O SOLDADO PERDIDO

 


Revi, em VHS, Pelo Soldado Perdido, mas deveria ser Para um soldado perdido (For a Lost Soldier), em holandês Voor een verloren soldaat,  que gravara há largos anos, quando foi transmitido pela SIC.

Trata-se de um filme realizado em 1992, pelo cineasta holandês Roeland Kerbosch (n. 1940), a partir do romance homónimo do escritor e coreógrafo também holandês Rudi van Dantzig (1933-2012), onde este relata uma marcante experiência da sua vida.

Resumindo a ficção autobiográfica: em 1944, com os Países Baixos ocupados pelo exército alemão, o jovem Jeroen Krabbé, de onze anos, residente em Amesterdão, é enviado pela mãe para casa de uma família de acolhimento, na Frísia, lugar mais seguro do que seria permanecer na capital do país. Aconteceu então o mesmo a muitos rapazes e raparigas muito novos que os pais entendiam colocar a salvo.

O jovem aborrece-se com a convivência dessa família de pescadores de enguias e cristãos (protestantes) obssessivamente praticantes, mas a situação modifica-se com a chegada dos primeiros militares aliados que atingem o território em 1945, na sequência do desembarque na Normandia. Jeroen trava conhecimento com um jovem soldado canadiano, Walter Cook (Walt), de vinte e poucos anos, que logo o lobriga à chegada, dizendo-lhe serem ambos criaturas especiais. O soldado apaixona-se pelo rapaz, no que é plenamente correspondido, e durante os dias que o destacamento permanece na aldeia estabelece-se entre ambos uma relação amorosa que se consuma sem ambiguidades, segundo o romance descreve e a película claramente mostra, com os dois despidos e abraçados em cima da cama.

Pouco tempo depois, o destacamento é enviado subitamente para outra localidade e o rapaz não mais verá o soldado, que parte sem se despedir, por óbvias razões. Mas ficará, para o resto da vida, com a indelével recordação daqueles dias, conservando apenas os óculos de sol, uma fotografia e a chapa de identificação que o militar trazia ao pescoço. Passada a guerra, Jeroen regressará a casa de seus pais. Mais tarde, coreógrafo, evocará num bailado aquela que foi a grande, se bem que efémera, paixão da sua vida: o soldado que perdera para sempre. O assunto é tratado com infinita delicadeza na escassa hora e meia que a película dura.

A cópia exibida pela Sic, e que gravei, não era de boa qualidade e, com o passar do tempo, encontra-se já razoavelmente deteriorada. Pesquisei pelo filme nas diversas Amazon, encontrando apenas uma gravação holandesa, com legendas em alemão e uma outra, com legendas em inglês mas apenas legível em leitores de DVD multi-regiões. Tentarei pesquisar mais diligentemente, mas suponho que o filme deva estar como que sequestrado, e isto enquanto a sua venda não for proibida.

No clima moralmente totalitário que se vive no Ocidente este filme (que não é de alguma forma pornográfico) não poderia ser hoje produzido, e estou certo de que a SIC, que o apresentou em horário normal, jamais se arriscaria a repetir a exibição nos tempos que correm. Vivemos uma época de pretensa liberdade sexual, incluindo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas que exige, como moeda de troca,  o estabelecimento de uma ditadura dos costumes empenhada em encontrar todos os dias abusos, violações, assédios ou relações consideradas impróprias apenas porque não respeitam (independentemente do pleno conhecimento e consentimento) a data mencionada no cartão de identidade.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

RODOLFO II, SACRO IMPERADOR

Leio L'Empereur des Alchimistes - Rodolphe II de Habsbourg (1996), de Jacqueline Dauxois, que encomendara em 1998, depois da minha primeira visita a Praga em 1997 (ano da grande exposição obre o imperador), onde comprei vários livros sobre Rodolfo II. Permanecera este na minha biblioteca à espera de oportunidade, mas o facto de proceder agora a uma limpeza geral, que vai estender-se por meses, suscitou-me o desejo de lê-lo. Trata-se de um livro de muito agradável leitura, dividido em três partes: Le petit-fils de Charles Quint; Le Magicien de Prague; Le Lion de Bohème.

Curiosa figura a deste soberano do Santo Império Romano-Germânico, arquiduque de Áustria, rei da Boémia e da Hungria. Neto materno do imperador Carlos Quinto, neto paterno do imperador Fernando I, filho do imperador Maximiliano II, sobrinho de Filipe II de Espanha, segundo primo de Dom Sebastião de Portugal, Rodolfo II (1552-1612) ficará para sempre ligado a Praga, que elegeu para sede do Império, depois de deixar Viena, cidade que detestava.

A biografia de Jacqueline Dauxois tem características muito especiais. Não segue o padrão das biografias tradicionais, antes enfatizando a permanência de Rodolfo II em Praga e os seus contactos com o mundo "mágico" da época.

A autora reserva numerosas páginas ao sacro imperador Carlos Quinto e a seu filho Filipe II, para descrever a atmosfera católica das Espanhas, onde Rodolfo seria "educado" por seu primo Filipe II, que era também seu tio, por ser irmão de sua mãe, a infanta Maria, que casara com Maximiliano II. Rodolfo é entregue aos cuidados do tio Filipe e da tia Joana (a mãe de D. Sebastião, viúva do infante D. João Manuel, de Portugal) com 12 anos (1564) e permanecerá em Espanha até aos 19 anos. Custou-lhe deixar Viena, mas sobretudo o seu pai. A corte de Madrid, muito (falsamente) puritana desagradar-lhe-á, tal como os sinistros autos-da-fé, de que guardará as piores recordação. 

A educação de Rodolfo em Espanha seguiu o mais estrito catolicismo, de acordo  com as convicções de Filipe II. Lá longe, em Viena, o imperador Maximiliano II, seu pai, oscilava entre uma aparência católica e um  discreto apoio aos luteranos, o que suscitava as maiores inquietações do Papa e da Corte de Madrid. Mas Maximiliano entendia preservar o difícil equilíbrio conseguido por Carlos Quinto (Paz de Augsburg, 1555), estabelecendo que os súbditos do Santo Império podiam praticar a religião dos seus soberanos (que na Alemanha eram ou católicos ou protestantes), segundo o princípio cujus regio, ejus religio, o que permitia, durante um tempo de transição, que os habitantes se mudassem para uma região governada por um príncipe da sua religião. Mas a Áustria era católica e não se concebia que o Sacro Imperador não fosse um católico convicto. A imperatriz Maria, irmã de Filipe II, horrorizava-se com o comportamento do marido, e após a morte deste regressou a Espanha, onde ingressou num convento. Mas as simpatias de Maximiliano II tendiam mais para o protestantismo, de tal forma que à hora da morte recusou confessar-se e receber os sacramentos, o que constituiu um escândalo que a Corte tentou dissimular, até para lhe poder ser feito um funeral católico.

Proclamado imperador após a morte de seu pai (1576), Rodolfo, que fora já coroado rei da Hungria (1572) e rei da Boémia (1575) começou a odiar Viena, e transferiu a sua residência para Praga (1583), conferindo à cidade uma importância de que ainda hoje desfruta. 

Em Praga, no ambiente de Hradčany, Rodolfo pôde desenvolver o seu gosto pela arte e pelo ocultismo. Adquiriu obras valiosíssimas, hoje dispersas pelos museus da Europa. Na sua colecção figuravam três mil quadros de pintores célebres e extraordinárias peças de ourivesaria. Encomendou a Jan Vermeyen a famosa coroa imperial que ficou conhecida como coroa de Rodolfo, e que foi usada pelos seus sucessores em alternativa à coroa do Santo Império, mandada confeccionar por Otão I. Acolheu em Praga notáveis artistas, como Giuseppe Arcimboldo, Bartholomeus Spranger ou Adrian de Vries. As ciências ocultas foram também uma das suas predilecções. Reuniu na capital alquimistas, astrólogos, mágicos, feiticeiros, necromantes, como John Dee ou Edward Kelley, e empenhou-se na realização da "obra ao negro". Também se interessou pela física e pela matemática, tendo atraído à Boémia Tycho Brahe e Johannes Kepler. O interesse de Rodolfo pelas ciências herméticas levou a que o chamassem Hermes Trismegisto.

Coroa imperial de Rodolfo II

Rodolfo II nunca contraiu matrimónio, embora chegasse a estar noivo de algumas princesas. Sabe-se que, quer em Viena quer em Praga, manteve relações com as chamadas "bonnes femmes" do Império, senhoras sujeitas aos caprichos do soberano. Houve, todavia uma relação prolongada com Katharina Strada (1567-1629), filha de Jacopo Strada, antiquário-chefe do Palácio. A rapariga foi apresentada a Rodolfo juntamente com seu irmão Octavio (1550-1607), quando eram jovens e o imperador terá ficado deslumbrado com a beleza de ambos. Mais tarde iniciou uma relação com Katharina, de que houve descendência ilegítima, onde se inclui Don Giulio Caesar d'Austria (1584-1609), que morreria cedo e louco. Não é mencionado nas biografias consultadas mas é referido em outras fontes que Rodolfo II manteve diversas ligações homossexuais, entre as quais com o seu camareiro Wolfgang von Rumpf, e também com vários criados, o mais conhecido Philip Lang, que durante muitos anos foi uma personagem chave para o acesso ao imperador. E também, possivelmente com Octavio, o irmão de Katharina, que o imperador muito apreciava.

(Na capa, o busto de Rodolfo por Adrian de Vries)

Outra biografia também sui generis é a de R. J. W. Evans, Rudolf II and his World (1973 e 1997). O autor informa que o seu estudo é uma tentativa de interpretação e não uma narrativa. «It is neither a poliical history of Central Europe and the Empire under Rudolf - though one is richly needed - nor yet an exhaustive analysis of the larger intellectual problems. I have offered some general exposition of the political issues in the first chapter, and return to the broad cultural questions in the two concluding ones; but between them I have divided the material by topics, moing out from the debate over Rudolf himself to a closer account of his entourage and its relation to the Bohemian background from which it is inseparable. The history of Rudolfine Prague is much more than merely an episode in the evolution of the lands of St. Wenceslas; it is a period when Bohemia, in common with Central Europe as a whole, stood on an international crossroads and took decisions of a lasting momentousness.» (p. 4) São dedicados capítulos específicos à política de Rodolfo, à sua religião, às suas relações com as belas artes e as artes ocultas, ao Maneirismo de Praga e, claro está, à situação dos Habsburg na Boémia e no Império.

Outra biografia, hoje esgotada na edição original, é a de Philippe Erlanger, que possuo na tradução espanhola: Rodolfo II de Habsburgo, El Emperador Insolito. Foi este livro que inspirou o acima citado de Jacqueline Dauxois.

Um volume notável, e precioso, é o catálogo (com o célebre retrato de Rodolfo pintado por Hans von Aachen na capa) da grande exposição realizada em Praga em 1997 e dedicada a Rodolfo II. Composto por duas partes, "Imperial Court" e "Residential City", e com cerca de 400 páginas, é prefaciado pelo então presidente da República Checa, Václav Havel, e inclui largas dezenas de ilustrações, a preto e branco e a cores.

Um outro livro magnífico sobre Rodolfo II e Praga é Urbs Aurea - Prague of Emperor Rudolf II, de Jaroslava Hausenblasová e Michal Sroněk. Profusamente ilustrado, exibindo as principais obras de arte do imperador, foi publicado, também em 1997, sob os auspícios da Câmara Municipal de Praga. Traça uma panorâmica da vida de Rodolfo e da cidade nos seus e nos nossos dias.

Neste breve apontamento em que evoco Rodolfo II, não posso deixar de recomendar a todos os meus leitores que visitem pormenorizadamente Praga, sempre que puderem,  e que leiam todos os notáveis livros sobre a cidade, cuja justa celebridade se inicia exactamente a partir do reinado deste imperador excêntrico, que acabaria mentalmente debilitado e contestado pelos seus súbditos, tendo sido mesmo desapossado do trono da Boémia por seu irmão Matias, que viria a suceder-lhe no Santo Império Romano-Germânico.

 

domingo, 4 de julho de 2021

LUCIA DI LAMMERMOOR

Vi e ouvi hoje Lucia di Lammermoor, de Donizetti, gravação do espectáculo do Met de 13 de Novembro de 1982. Conhecia já esta produção, creio até que foi transmitida há semanas pela televisão, mas não constava da minha videoteca, razão por que a encomendei no fim do mês passado. Chegou agora.

Trata-se de uma das grandes gravações desta ópera, com um elenco excepcional: Joan Sutherland (Lucia), Alfredo Kraus (Edgardo), Pablo Elvira (Enrico) e Paul Plishka (Raimondo). Dirige a orquestra do Met o maestro Richard Bonynge e a encenação (felizmente convencional) é de Bruce Donnell.

O público não regateou aplausos e Sutherland (cuja carreira começava então a declinar, embora tivesse ainda um extraordinário desempenho) é considerada uma das maiores intérpretes do papel no último meio século e uma das cantoras com maior longevidade no activo operático.

Assisti, em São Carlos, à interpretação de Sutherland, em La Traviata, em Abril de 1974. Haveria depois uma récita "popular", no Coliseu dos Recreios, no dia 24 de Abril, véspera da revolução. Quando o público saiu à noite daquela sala de espectáculos, já os tanques marchavam sobre Lisboa. A diva ficou retida no seu hotel até à reabertura das fronteiras, creio que dois dias mais tarde, mas já não me recordo.

A ópera Lucia di Lammermoor estreou-se no Teatro di San Carlo, de Nápoles, em 26 de Setembro de 1835. O libretto é de Salvadore Cammarano, a partir do romance The Bride of Lammermoor (1819), de Walter Scott. É presença frequente nos repertórios operáticos dos principais teatros e teve como grandes intérpretes, na segunda metade do século XX, Maria Callas e a referida Joan Sutherland. Não existe qualquer gravação vídeo com Maria Callas.

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

"JE VEUX LA JEUNESSE"

A busca da "juventude", tema da história do Doutor Fausto e mito fundador da civilização ocidental, tem obcecado milhões de homens (e certamente também de mulheres) ao longo dos séculos. É uma das preocupações mais notórias do ser humano.

Isto a propósito de ter recebido hoje a última gravação em DVD da ópera Faust, de Gounod, que encomendara há mais de dois meses e que só agora chegou.

Explico: efectuara a compra no site da Amazon.fr, a uma loja virtual - Rarewaves.fr - onde costumo adquirir vídeos desde há muito tempo. Chegaram entretanto outras encomendas da Amazon mas este DVD não aparecia. Eis senão quando recebo um aviso dos CTT informando-me que tinha um objecto na Alfândega, sem qualquer indicação sobre o mesmo. Fiquei admirado porque nada tinha comprado nos últimos tempos à Amazon.uk (não há direitos para os países da União Europeia). Porque em certo momento não tinha qualquer obra em falta, resolvi criar (isto é indispensável) uma conta específica nos CTT, para se proceder ao desalfandegamento. Recebi depois a nota dos encargos: € 12.00 (verba fixa) para os CTT para apresentação à Alfândega e € 11.00 de direitos, importâncias que liquidei. O valor da minha aquisição (com portes) foi de € 33.18. Acabei por pagar € 56.18. Verifiquei, ao receber o pacote, que a expedição tinha sido realmente feita do Reino Unido, da Rarewaves.com. Estarei atento em encomendas futuras.

Voltando ao disco. Trata-se da gravação efectuada em 2019 na Royal Opera House Covent Garden, com uma interpretação vocalmente correcta de Michael Fabiano (Fausto), Erwin Schrott (Mefistófeles) e Irina Lungu (Margarida). O desempenho instrumental esteve a cargo da orquestra da Casa, dirigida (com um ritmo demasiado lento) por Dan Ettinger.

A encenação de David McVicar (comprei o DVD por causa dele), esquisita e de mau gosto, desiludiu-me, ao contrário de outros trabalhos seus que apreciei devidamente. Situações como um Cristo gigante a jorrar vinho das chagas (no Acto II) ou Fausto a injectar-se na veia (no Acto IV) são inovações que pretendem fazer "moderno" e diferente, mas que só comprometem os espectáculos.

 

domingo, 20 de junho de 2021

UM ESCRITOR CONFESSA-SE

O escritor Dominique Fernandez, membro da Academia Francesa, à beira de completar os 92 anos, publicou há poucas semanas L'Homme de trop, uma espécie de testamento sexual, que coroará a sua vastíssima e notável obra.

Autor de cerca de 90 livros, dedicados à arte e à música, aos países de sua eleição e à vida de homens notáveis, e ainda especificamente à questão homossexual, ainda que esta percorra mais ou menos explicitamente toda a sua produção literária, Dominique Fernandez (n. 25 de Agosto de 1929) consagrou prioritariamente a sua obra ao mundo italiano e ao mundo eslavo, sem esquecer uma especial simpatia pelos árabes. Cultivou o romance, a biografia, a literatura de viagem (em muitos casos fotograficamente ilustrada com as imagens de Ferrante Ferranti), o ensaio, e escreveu mesmo um libretto de ópera. Devem-se-lhe ainda várias traduções da língua italiana.

A obra que ora se aprecia, e que presumo ser a derradeira, é uma espécie de testamento literário de carácter sexual. Apresentando-se como romance, e é, desvia o género literário para uma incursão ensaística, em que o autor molda a ficção à medida da necessidade de incorporar a sua erudição clássica na defesa da condição do homossexual. Obra também biográfica, onde Dominique Fernandez se oculta por trás da personagem do protagonista para descrever a sua adolescência, a sua educação sentimental e significativos episódios da sua vida, até que uma certa libertação dos costumes ocorreu nos anos 1970. Através deste livro, percorremos meio século de história da França, sob o signo da homossexualidade.

Há um aspecto curioso no livro. O autor, a partir da predilecção do jovem "pupilo" do protagonista do romance por uma colecção de porcos de porcelana, elabora largamente sobre a condição dos porcos. Faz notar que os porcos têm sido considerados injustamente animais imundos ao longo da história, uma espécie de seres excluídos, tal como os homossexuais. Estabelece mesmo a igualdade porcofobia=homofobia e brinda-nos com uma extensa bibliografia (dos clássicos e da Bíblia até aos contemporâneos) sobre a forma como a literatura considerou os porcos ao longo dos séculos.

Dominique Fernandez

Sobre os cuidados da velhice, Dominique Fernandez escreve apropriadamente: «Jusqu'à trente-cinq, quarante ans, on fanfaronne, on n'a besoin de personne, on s'est fier d'être seul, et puis, peu à peu, vient le désir de s'appuyer sur quelqu'un, de compter sur lui, ne serait-ce que pour les choses pratiques, les ennuis de santé, les réunions avec les colocataires, les déclarations d'impôts à remplir, les valises à porter quand on part en voyage.» (p. 230)

E sobre o ensino: «Lucas constata que les élèves de Gaël (une première littéraire), déjà installés à leur place, ne se levaient pas à l'entrée de leur professeur, comme lui même et ses camarades le faisaient quarante-cinq ans plus tôt. En quarante-cinq ans, l'argent étant devenu la seule valeur, on jugeait un homme selon son revenu. Le corps enseignant étant toujours aussi mal payé, la modestie de leur salaire diminuait l'estime portée aux professeurs dont on appréciait autrefois le dévouement. Quant au savoir, ils n'étaient plus les seus détenteurs. Google en savait autant qu'eux, et souvent bien plus. Tout ce qui était dates, vie des auteurs, raccourci des personnages, résumé des intrigues, réception de l'oeuvre, etc., n'avait plus besoin d'être enseigné.» (p. 233)

Sobre a actual atmosfera de uma maior liberalidade nos costumes, Dominique Fernandez é manifestamente contra. Desde a chamada linguagem "inclusiva" (que afinal exclui) até ao Pacs (Pacte civil de Solidarité), a união civil de duas pessoas maiores independentemente do seu sexo, o autor manifesta fundadas reservas. Apesar de ter, na altura, defendido a legalização do Pacs, considera-o uma prisão, a ocasião aguardada pelos conservadores para restabelecer os valores da família e reforçar a protecção dos filhos. «Les pacsés vont devenir fidèles et mener une vie de couple qui leur ôtera l'envie d'aller draguer les jeunes dans le métro, les étudiants à la sortie de la fac. Les chers petits seront à l'abri de la menace. Les soeurs ne craindront plus pour leur frère, les fiancées pour leur promis, les épouses pour leur mari. Un célibataire, c'est toujours dangereux! Rien ne l'attache à son foyer, puisq'il n'a pas de foyer. Le Pacs lui en donne un. Le voilà pourvu d'un chez-nous. Pénatisé! Je ne dis pas ligoté, mais ficelé quand même! Rallié au modèle conjugal! Son domicile, ses sorties, ses loisirs, il les partage. La vie à deux l'amène à des scrupules, à des concessions, à des renoncements qui, mis bout à bout, rognent fatalement sur son indépendance et lui enlèvent le goût des infidelités. Finies les incartades...» (pp. 256-7)

«Sans Corydon, on en serait resté à la vision de Proust, et les homos passeraient pour des tarés, des types à se faire enchaîner, fouetter, empaler par des malabars dans des bordels clandestins.» (p. 259)

«À Montmartre, Gaël se blotissait contre Lucas et feignait de l'embrasser sur la bouche. Cette manoeuvre, qu'il avait essayée dans les jardins du Palais-Royal, n'avait etonné personne. Les habitués en avaient vu d'autres! À peine si quelque passant occasionnel l'avait remarquée. Mais le dimanche, sur la butte envahie par la foule des badauds, l'opération réussissait à tout coup. On les pointait du doigt, les Américains vérifiaient dans leur vade-mecum si exhiber aussi publiquement son désir fait partie de "l'exception française", les Russes se poussaient du coude en constatant la décadence de l'Occident, les Japonais les prenaient en photo, les Chinois crachaient par terre, en signe de désaprobation (mais peut-être le contraire, on ne sait jamais avec eux). Quant aux mères de famille, elles ordonnaient à leurs rejetons de regarder ailleurs et se hâtaient de les entraîner plus loin. Un cadre en complet-veston et cravate à rayures, qui promenait ses deux fils mineurs, regretta tout haut de ne pouvoir appeler les agents.» (p. 267)

Em resumo: Dominique Fernandez lutou pela "emancipação" dos gays (não gosto desta palavra anglo-saxónica, mas uma vez ou outra utilizo-a) e pelo reconhecimento dos seus direitos; todavia, a "normalização" a que se assiste (normalização aliás fingida), desgosta-o. Quando os homossexuais começavam a lutar pelo direito à diferença, já Michel Foucault proclamava o direito à indiferença.  Está esta aparentemente adquirida (em alguns países). Mas Fernandez preferia uma certa cultura da ambiguidade, a única capaz de suscitar paixões, de conduzir à arte absoluta. A matéria é complexa e os tempos são outros.

Também as questões da identidade e do género arrepiam Dominique Fernandez. Importadas das universidades americanas, tentam fazer caminho na Europa Ocidental, que a Leste encontram obstáculos. É a vontade de construir um mundo novo que se perfila no horizonte, com a intenção de transformar (e destruir?) a sociedade actual. A imposição do "politicamente correcto", que determina o discurso, derruba estátuas, cancela livros e tentará proibir filmes, eliminar pinturas e esculturas, e os demais horrores que se avizinham nesta torrente demencial, prenuncia tempos sombrios. Se não houver homens que lhe ponham termo!

No século XX francês, distinguem-se escritores e intelectuais notáveis, como Proust e Céline, Sartre e Beauvoir, Gide e Camus, Yourcenar e Duras, Cocteau e Malraux, Aragon e Montherlant, Genet e Peyrefitte, Foucault e Barthes, e tantos outros cujo nome agora não me ocorre. Dominique Fernandez figurará indelevelmente entre eles, com a virtude de ter conseguido passar ao século XXI. 

 Previne-nos o autor, no fim do livro, que será publicado um segundo volume.

 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

SALAZAR

Foi publicado há dias Salazar - O Ditador que se Recusa a Morrer, de Tom Gallagher, tradução portuguesa de Salazar - The Dictator Who Refused to Die (2020).

Trata-se de uma biografia de António de Oliveira Salazar (1889-1970) que pode situar-se entre os trabalhos de Filipe Ribeiro de Meneses e de Bernardo Futscher Pereira, que utilizam o método científico da investigação histórica, e a obra de Franco Nogueira, que é uma aproximação mais memorialística, até porque o autor, estando no exílio, não tinha acesso às fontes primárias. Há ainda os livros de Fernando Dacosta que consagram uma visão algo intimista da personagem.

A leitura do livro é agradável, embora a organização das matérias careça, por vezes, de alguma continuidade, verificando-se repetições desnecessárias, e também omissões que, não sendo certamente intencionais, decorrem de lapsos ou da desatenção do autor. Não conheço o original, mas o texto português que, em geral, se lê fluentemente, encalha por vezes na construção das frases, o que parece dever-se mais à tradução do que à escrita inicial, ainda que esta proponha, de quando em vez, parágrafos menos bem articulados.

Passados que são cinquenta anos sobre a morte do antigo chefe do Governo, Gallagher pretende ser um observador imparcial do homem e da época, objectivo que parece alcançado. Tantos e tão variados têm sido os textos publicados sobre Salazar no meio século transacto, que este não surge propriamente como novidade mas antes como a tentativa de uma leitura mais objectiva dos factos, sistematicamente distorcidos quer pelos apoiantes, quer pelos opositores do regime derrubado em 1974.

Não cabe aqui a análise do livro mas tem interesse registar alguns aspectos enfatizados pelo autor.

É do conhecimento geral que Salazar foi uma pessoa austera, mesmo puritana, na sua vida pessoal, mas com poucas ilusões sobre as "virtudes" dos homens. Por isso, nunca se preocupou muito com os costumes dos outros, logo que não ocorresse escândalo público, já que as aparências tinham de ser salvaguardadas. Assim, teve como colaboradores próximos muitas pessoas cujos costumes não se enquadravam na doxa, desde que fossem leais e competentes. Uma posição bastante distante da de alguns dos principais vultos do regime, como Marcelo Caetano e Pedro Theotónio Pereira, empenhados na defesa da "moralidade pública".

Um aspecto normalmente distorcido é o que respeita às relações com a Igreja Católica, que é considerada geralmente como um suporte do Regime. Chefiando Salazar o Governo e o Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, a Igreja (de facto que não de direito, já que desde há muitos anos todos os bispos reportam directamente a Roma) e sendo velhos amigos, é costume ouvir dizer-se que contou sempre com o apoio da instituição eclesial. Nos primeiros tempos, não refeita dos atropelos que sofreu durante a I República, este suporte foi real, mas desvaneceu-se com o passar dos anos, até ao momento em que se constituíram grupos católicos de oposição e mesmo a crítica de alguns bispos e as acções de distanciamento da própria Santa Sé. Aliás, e importa salientar, o Cardeal Cerejeira era realmente muito mais liberal do que Salazar.

Também é reduzida à sua dimensão a figura de Aristides de Sousa Mendes, que foi cônsul de Portugal em Bordéus durante a Guerra, e a quem se atribuem hoje feitos heróicos relacionados com a concessão de vistos a judeus. Não só o antigo diplomata foi uma figura particularmente controversa, como a concessão de vistos não teve a extensão que hoje se proclama, nem os vistos foram concedidos exclusivamente a judeus mas a pessoas de várias origens. Houve nesse conturbado período outras acções tão ou mais meritórias, como as de Sampaio Garrido (que Gallagher não cita) e de Teixeira Branquinho, que foram, em 1944, respectivamente embaixador e encarregado de negócios em Budapeste.

Outras faceta pertinente do livro é a análise das relações de Portugal com o Reino Unido, ligados pela velhíssima Aliança Inglesa, que verdadeiramente só funcionou a favor dos britânicos desde que foi firmada há mais de 600 anos. O autor conta a pressão dos britânicos para evitar a venda de volfrâmio à Alemanha, quando Salazar pretendia manter a neutralidade e o facto de Churchill e outros políticos ingleses terem considerado a hipótese de um golpe de Estado em Portugal que promovesse a sua destituição, aquando das reticências à instalação de bases nos Açores, que os americanos haveriam de obter, através de um ultimato. Registe-se que Salazar nem era anti-britânico, pelo contrário, mas ninguém é perfeito. Tinha sim uma especial aversão pelos americanos, atitude de que eu comungo inteiramente. Os americanos desde há mais de um século que se consideram os donos do mundo e como tal têm actuado, mas a sua hegemonia aproxima-se do fim. 

Em 1949, Salazar hesitou em aderir à OTAN. «Vieram-lhe à cabeça temores de que o rumo desta aliança poderia, em última análise, enfraquecer a soberania portuguesa. [...] Ironicamente, os primeiros tiros que a OTAN disparou a valer ocorreriam no que pode ser visto justamente como um desses conflitos internos, aquele que envolveu a violenta fragmentação da Jugoslávia.» (p. 218)

Há duas coisas que este livro não explica, tal como as precedentes biografias. Uma é a obstinação de Salazar em considerar que o Império Colonial Português se manteria pelos tempos; outra, a sua recusa em encarar a sucessão. Sabemos que Salazar, que era indiscutivelmente um homem inteligente e cultivado, era também muito teimoso e persistente nas suas convicções, embora soubesse ser pragmático quando as circunstâncias o exigissem. Ora a política internacional convergira no sentido de considerar encerrada a época colonial. As colónias francesas de África tornaram-se independentes em 1958 e as inglesas nos princípios do anos 60. O Congo Belga tornou-se independente em 1960. A própria Argélia, que para os franceses nem era uma colónia mas uma extensão da França metropolitana, obteve a independência em 1962. Não era expectável que Portugal mantivesse indefinidamente as suas colónias de África, mesmo com a designação de províncias ultramarinas.

A questão da sucessão, porque verdadeiramente de sucessão se tratava, não foi ignorada por ele mas constantemente adiada, à medida que mudava de opinião sobre os potenciais sucessores. Ela dependia também da correlação de forças em cada momento e as Forças Armadas teriam necessariamente um papel a desempenhar na escolha. Muito mais do que a Igreja Católica, foram aquelas o verdadeiro sustentáculo do Regime e as que haveriam de determinar o seu fim, embora não fosse já Salazar quem detivesse o poder. Mesmo quando criou um ministro da Presidência escassas foram as responsabilidades que lhe foram cometidas, pois sempre Salazar receou uma intromissão na sua capacidade decisória. Apesar de muitos percalços internos e externos, a sua habilidade política e o seu indubitável conhecimento do povo português permitiram-lhe conservar-se no poder durante quatro décadas.

Por curiosidade, transcreve-se da página 240 uma afirmação de Salazar a André de Staercke, funcionário belga da OTAN. A uma pergunta deste sobre a sucessão, considerando uma afirmação de Salazar demasiado fatalista, este responde-lhe: «Sabe, há muito sangue árabe neste país.»

Há ainda outro aspecto sobre o qual os seus biógrafos não se debruçam:  a sua vida sexual. Não se lhe conhecem paixões, nem mesmo verdadeiras paixonetas, se é que tudo o que se conta (e é pouco) não passou de um platónico encantamento. O único caso mais visível, mas inconsequente, foi o da jornalista Christine Garnier. Também nunca constou que se sentisse atraído por homens. Não teria Salazar vida sexual??? Chegaram a insinuar que haveria um caso com a sua governanta Maria de Jesus, mas segundo as fontes, esta, quando morreu, estava virgem. Tirando a hipótese de uma castidade mantida ao longo de toda a vida, sobra que Salazar tivesse satisfações solitárias, o que não deixa de ser estranho. 

Em jeito de balanço, dir-se-á que Tom Gallagher, não escondendo o lado autoritário e conservador de Salazar, o seu horror ao desenvolvimento (a que só moderadamente acedeu quando muito pressionado), a sua profunda obsessão quanto ao perigo comunista, revela-nos todavia os aspectos positivos de uma governação empenhada em manter o equilíbrio financeiro, em assegurar uma neutralidade na Segunda Guerra Mundial que nos evitasse o horror do conflito, em defender corajosamente a independência do país e uma integridade territorial, que se manifestaria impossível dada a existência das parcelas coloniais.

Não conferi as datas, mas pareceu-me que algumas não são exactas. Também a abordagem dos assuntos, não seguindo rigorosamente uma ordem cronológica, dificulta por vezes o entendimento do texto.

domingo, 13 de junho de 2021

À SOMBRA DE IRMINSUL

Recebi na semana passada mais um DVD de Norma, de Bellini, uma das mais notáveis óperas do repertório do bel canto.

Trata-se da gravação do espectáculo apresentado no Gran Teatre del Liceu, de Barcelona, em Fevereiro de 2015, com a orquestra da casa, dirigida por Renato Palumbo. Interpreta a protagonista a soprano americana, de origem checa, Sondra Radvanovsky, de quem possuo outros desempenhos operáticos em DVD, incluindo uma outra Norma, de 2017, apresentada no Met, com direcção musical de Carlo Rizzi e encenação de David McVicar.

Como é conhecido, a acção decorre numa Gália um pouco fantasiada, à sombra de Irminsul, o carvalho sagrado, que encarnava a ligação entre o céu e a terra. A ópera, com libretto de Felice Romani (a partir do poema Norma, ou L'infanticide, do francês Alexandre Soumet)  foi estreada no Scala, de Milão, em 26 de Dezembro de 1831.

Gravação de 1954

A prestação vocal é de elevado nível (não revi a gravação de 2017 mas tenho em memória que suplanta a presente) mas faltou a Sondra Radvanovsky o golpe de asa que lhe permitiria alcançar o sublime. Também digno de apreço o desempenho de Ekaterina Gubanova, em 'Adalgisa'. É claro que ninguém ainda conseguiu superar a interpretação de Maria Callas, em 'Norma' (que conheço de disco) e estou certo que a mais notável 'Adalgisa' do último meio século foi Fiorenza Cossotto, que ouvi no papel, em São Carlos, contracenando com Mara Zampieri, num espectáculo memorável.

Gravação de 1961

A encenação do americano Kevin Newbury hesita entre o convencional e o moderno, resultando híbrida, embora, globalmente, não desmereça o texto e a música de Bellini. O conflito entre o amor e o dever, o "patriotismo" dos gauleses e a ocupação romana, a paz e a guerra é bem claro nesta tragédia lírica que continua a suscitar pelo mundo o aplauso de multidões.

 

sábado, 5 de junho de 2021

QUEM MATOU PUSHKIN?

Aleksandr Pushkin

Aleksandr Sergeyevitch Pushkin (1799-1837), pai da moderna literatura russa, morreu em 29 de Janeiro de 1837, na sequência dos ferimentos recebidos no duelo que manteve dois dias antes com Georges Dantès, a quem desafiara por uma questão de saias.

Georges d'Anthès

Segundo as fontes coevas, Georges Dantès (1812-1895), foi um militar francês, oriundo de família nobre, que após a abdicação de Carlos X e a instauração da Monarquia de Julho, sob Luís Filipe, em 1830, se recusou a servir o novo regime,  emigrando para a Prússia e logo a seguir para a Rússia onde, com autorização do Governo de Paris, ingressou (1834), com apenas 22 anos, no Regimento dos Cavaleiros da Guarda da Imperatriz, criado por Catarina II.

Barão Jacob van Heeckeren

Os laços familiares permitiram-lhe a frequência dos salões aristocráticos, onde conheceu o Barão Jacob van Heeckeren van Bewerweerd (1792-1884), embaixador dos Países Baixos na Corte de São Petersburgo, celibatário e sem descendência, com quem iniciou um prolongado e frutuoso comércio bíblico. Georges Dantès era um jovem muito bonito, a quem a natureza prodigalizara especiais dotes físicos, o que suscitou o especial interesse do Barão que, com a anuência dos pais de Dantès e a permissão do rei holandês, instituiu o rapaz como herdeiro universal dos seus bens, com direito à transmissão do título. A partir da data de adopção, Georges Dantès, passou a assinar Georges-Charles de Heeckeren d'Anthès. A ligação entre ambos foi muito bem sucedida, apesar da diferença de idades (o Barão tinha mais vinte anos que o jovem) e era do conhecimento geral. A propósito, o Príncipe Aleksandr Trubetskoy escreveu nas suas notas pessoais: «...d'Anthès was known for his antics, quite inoffensive and appropriate to youths except the one, of which we learnt much later. I don't know what to say: whether he took Heeckeren or Heeckeren took him... All in all, ... in the intercourse with Heeckeren he was ever a passive partner».

Nataliya Goncharova

Talvez esta estreita ligação ao Barão tenha levado Dantès a um excesso de assiduidade junto das damas, (hoje seria considerado assédio sexual) mais do que recomendava a elementar cortesia. Percebe-se a razão: distrair as atenções do seu relacionamento "inapropriado". Uma das senhoras objecto dos seus galanteios era precisamente Nataliya Goncharova, a jovem e bela mulher de Pushkin. Houve boatos de que esta manteria uma relação extra-conjugal com Dantès. O próprio Pushkin recebeu uma carta nesse sentido, avisando-o também da condescendência da sua mulher para com o atraente francês e, mais do que isso, com o próprio Czar Nicolau I, o que justificaria a protecção dispensada ao escritor pelo imperador. Diga-se que, entretanto, Dantès se casara com Ekaterina Goncharova, a irmã de Nataliya. Todo este enredo conduziu Pushkin a desafiar Dantès para um duelo, em defesa da honra. Para evitar um drama familiar, Dantès propôs retirar-se, mas o poeta recusou. Nicolau I ainda tentou evitar o confronto, mas era tarde.

Escritório de Pushkin

O duelo teve lugar às 16 horas de 27 de Janeiro de 1837, num lugar conhecido como Rivière Noire, perto de São Petersburgo. O tiro de Dantès, que ficou ligeiramente ferido, atingiu Pushkin no ventre e foi-lhe fatal.

Secretária de Pushkin

Preso na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, aguardando julgamento, foi, depois de ter protestado a sua inocência, agraciado pelo imperador e conduzido à fronteira (acompanhado pela mulher que nunca duvidou da sua inocência), não mais regressando à Rússia.

Eu, à entrada da Fortaleza de São Pedro e São Paulo

Melhor fora que dois homens tão jovens e atraentes, Pushkin com 38 anos e Dantès com 25 anos, tivessem ido para a cama em vez de se terem batido em duelo.

A obra literária de Pushkin é notável e significa a inovação da literatura russa. Ele inspirou Gogol (1808-1852), Lermontov (1814-1841), Turgeniev (1818-1883), Dostoievsky (1821-1891), Tolstoi (1828-1910), para apenas citar alguns dos nomes cimeiros das letras russas dos dois últimos séculos.

Diversas obras de Pushkin foram passadas à música: Russlan i Liudmila (ópera de Glinka), O Prisioneiro do Cáucaso (ópera de César Cui), As Ciganas (ópera de Rachmaninov), Poltava (ópera de Tchaikovsky, com o título de Mazeppa), A Pequena Casa de Kolomna (ópera de Stravinsky), Tsar Saltan (ópera de Rimsky-Korsakov), Boris Godunov (ópera de Mussorgsky), O Convidado de Pedra (ópera de Dargomyjski), Mozart e Salieri (ópera de Rimsky-Korsakov), Festim em Tempo de Peste (ópera de César Cui), Rusalka (ópera de Dargomyjski), O Cavaleiro Avarento (ópera de Rachmaninov), A Dama de Espadas (ópera de Tchaikovsky), Eugeni Oniegine (ópera de Tchaikovsky).

A casa de Pushkin, no nº 12 do Cais Moïki

Registe-se, como curiosidade, que o bisavô de Pushkin, Abraham Hannibal (1696-1781), era africano, natural do Chade (ou dos Camarões ou mesmo da Etiópia, a origem permanece incerta). Capturado em 1703 (quando tinha sete anos), por mercadores de escravos, e levado para Constantinopla, sendo um rapaz de grande beleza foi comprado secretamente por Pedro o Grande, que se lhe afeiçoou, tendo-se tornado afilhado e secretário do Czar. De grandes aptidões físicas e intelectuais, foi mais tarde general do Exército Imperial Russo.

Abraham Hannibal, em Petrovskoïe