sexta-feira, 15 de novembro de 2019

TEIXEIRA DE SAMPAYO




Tive, por estes dias, necessidade de consultar os Estudos Históricos, do embaixador Luiz Teixeira de Sampayo (1875-1945), que foi secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 1929 a 1945, e que morreu, nas vésperas de atingir o limite legal de idade, vítima de uma síncope fulminante, aos pés da rainha D. Amélia, quando a antiga soberana visitou Portugal. A comoção que dele se apoderou ao beijar a mão da rainha foi-lhe fatal.

Estes Estudos Históricos, publicados em 1984 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, constituem o primeiro volume da Biblioteca Diplomática, criada em 1983 pelo então titular da pasta, o embaixador Vasco Futscher Pereira. A apresentação é do embaixador José Calvet de Magalhães e assina o prefácio o embaixador Eduardo Brazão. 

 
Luiz Teixeira de Sampayo


Não pretendo traçar a biografia de Teixeira de Sampayo nem possuo à mão dados que o permitam. Mas importa referir que o embaixador Teixeira de Sampayo foi o braço direito de Salazar para a política externa, durante o tempo em que o presidente do Conselho ocupou cumulativamente a pasta dos Negócios Estrangeiros, de 1936 a 1947. O meu propósito é tão só de mencionar os dez trabalhos incluídos no livro, alguns de relevante interesse, que foram publicados em diversas revistas e que agora surgem editados em volume próprio.

Indico, a seguir, os títulos e a data em que foram escritos:

I - A exclusiva nos Conclaves (1903)
II - Os Chavões (1921)
III - Os desafios do Duque João de Bourbon (1921)
IV - Para a História do Tratado de Methuen (1923)
V - Antes de Ceuta (1923)
VI - O Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros (1925)
VII - Em volta do processo dos Távoras (1929)
VIII - Elementos para o estudo da Aliança luso-britânica (1933)
IX - Cartas do Padre António Vieira no Arquivo Cadaval (1944)
X - Observações sobre as cartas de Prim (1944)

Sugere Eduardo Brazão, no prefácio, que seria de interesse reunir um dia, em volume, os apontamentos de conversa de Teixeira de Sampayo com diplomatas estrangeiros, muitos deles espalhados pelas páginas dos volumes de Dez Anos de Política Externa, e alguns dos seus telegramas com minuciosas instruções aos nossos Chefes de Missão. Uma tarefa ainda não concretizada.

Na Advertência Prévia do título VI, o autor escreve: «Nunca os diplomatas tiveram de desvelar-se por mais numerosos e mais transcendentes problemas. Contudo, todos os dias escritores vários nos dizem não ser presentemente grande a popularidade da diplomacia. "La diplomatie n'est pas à la mode en ce moment", escrevia, ao findar 1924, um diplomata historiador, Gabriel Hanotaux; "considerée longtemps comme le dernier mot de la politique, on lui reproche maintenant son secret, sa lenteur, et je ne sais quel arrière faix d'un vieux machiavélisme désuet". Assim será; mas algumas destas razões, que diminuem o aplauso quanto ao presente, mantêm o prestígio quanto ao passado. Ninguém supõe nos diplomatas de nossos dias a elegância de Metternich ou o espírito de Talleyrand; menos ainda se lhes atribui o génio de  Richelieu ou a habilidade de Mazarino; continua porém a ligar-se aos de outrora aquela ideia de maquiavelismo, e a conceder-se aos seus despachos o valor de depoimentos de testemunhas argutas, sabedoras dos mais recônditos segredos.»   

Este "capítulo" VI é, para mim, o mais importante do livro, e só a ele farei referência. Sampayo discorre sobre a origem do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao estabelecer as práticas da Governação, após 1640, D. João IV nomeou para o expediente de todos os negócios um Secretário de Estado, que foi o célebre Francisco de Lucena (1641), que, falsamente acusado do crime de lesa-majestade, foi decapitado em 1643. Ainda em 1643, foram retirados da Secretaria de Estado os assuntos relativos a mercês, tendo sido criada a Secretaria das Mercês.

No reinado de D. Afonso VI, foi restabelecido o lugar de Escrivão da Puridade, nele sendo provido o conde de Castelo Melhor, Luís de Vasconcelos e Sousa, que se tornou o verdadeiro ministro dos Negócios Estrangeiros,  ficando o Secretário de Estado, então Pedro Vieira da Silva, com as atribuições largamente reduzidas. Pelo afastamento de D. Afonso VI e do Conde seu valido as coisas regressaram à situação anterior.

Com D. João V houve necessidade de reorganizar o despacho. Segundo um parecer do Cardeal da Mota, na sequência de um plano do Cardeal Cunha, foi passado um Alvará, em 28 de Julho de 1736, criando as Secretarias de Estado. «Estabeleceu este diploma que as Secretarias passariam todas elas a ter o título de Secretarias de Estado; que secretários de Estado seriam os respectivos ministros; e que pela natureza dos assuntos que a cada uma ficavam pertencendo as secretarias seriam divididas em Secretaria dos Negócios Interiores do Reino, Secretaria da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, e Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Destas repartições, a dos Negócios do Reino era a mais complexa na sua acção. Competiam-lhe, além dos negócios que permaneceram sempre seus privativos na monarquia constitucional, os que vieram com o tempo a pertencer à secretaria da Justiça, à da Fazenda e à das Obras Publicas. Daí vem talvez a impressão que o Secretário de Estado do reino era o Primeiro Ministro, como que o Presidente do Conselho moderno.»

«Assim continuou tudo até 1801, sem que deixassem os soberanos de tratar negócios importantes com os seus privados ou com um ministro valido como Pombal. Em 1801, porém, por  carta régia de 6 de Janeiro, o Príncipe Regente, ao nomear Ministro da Guerra o Duque de Lafões, separou o expediente da Guerra do dos Estrangeiros, formando duas secretarias independentes uma da outra, reforma pouco duradoura, logo anulada pelo aviso de 28 de Julho de 1801, que juntou de novo as duas repartições.»

Na Portaria da Junta Provisória do Governo de 27 de Setembro de 1820, os Negócios Estrangeiros e os da Guerra aparecem novamente como administrações distintas sob a gerência de pessoas diversas. A carta de Lei de 12 de Junho de 1822, organizando as Secretarias de Estado, confirmou a separação, que foi expressamente mantida pelo Alvará de 30 de Setembro de 1828 e não mais foi alterada. 

O autor refere-se depois aos problemas verificados com o Arquivo Diplomático e aos formulários da correspondência diplomática. A correspondência diplomática obedecia a fórmulas rigorosas que não poderiam ser ignoradas. Tal como os discursos na entrega de cartas credenciais e coisas afins. «Os ministros e os embaixadores estranhos à carreira diplomática, confiados nos seus méritos literários, afastam-se por vezes dos modelos consagrados, e alargam os seus discursos adornando-os em pensamentos e palavras. Nesse género, o discurso de Chateaubriand em Roma, no conclave por morte de Leão XII, anda citado como um dos mais belos que têm sido proferidos. Mas, posto que constitua uma calorosa apologia do Cristianismo, dizem algumas memórias ter escandalizado o Sacro Colégio. A reserva e o respeito das tradições são de boa regra, ainda mesmo para homens como Chateaubriand, e poucos eles são.» 

Suponho que a rigidez das fórmulas e dos costumes esteja hoje um pouco atenuada e que as missões dos diplomatas ficaram um tanto esvaziadas do seu conteúdo original devido aos frequentes encontros de ministros dos Negócios Estrangeiros e de Chefes de Governo e de Estado. A rapidez das deslocações e as facilidades de comunicação nos nossos dias, devido às novas tecnologias, alteraram substancialmente os hábitos do passado.

Mas voltemos a Sampayo: «Foi Veneza a criadora das missões diplomáticas permanentes desde o século XVI. Os seus embaixadores ordinários em Viena, em Paris, Madrid e Roma, foram os primeiros com residência prolongada nas Cortes para onde iam. À presença dos embaixadores venezianos nas suas Cortes correspondiam os príncipes com a nomeação de embaixadores seus em Veneza. Questões de precedência e de economia levaram porém aqueles países a nomear representantes diplomáticos de categoria mais modesta, ou ministros de segunda ordem, nos postos de menor importância. Este exemplo foi seguido pelas Cortes menos ricas. Apareceram, assim, na Europa representantes diplomáticos de classe inferior à dos Embaixadores e que se tornaram mais frequentes à medida que se generalizou a prática das missões permanentes.

O título destes ministros variou bastante. "Agentes" ou "Encarregados de Negócios" se lhes chamou primeiramente; mas essa designação caiu em desuso. Substitui-se-lhe a de "Residente", que compreendia também às vezes os "Embaixadores ordinários" para os distinguir dos "extraordinários". Em regra ficaram sendo os "Residentes" os representantes diplomáticos abaixo dos Embaixadores.

Em meados do século XVII o título de "Enviado" não era muito mais prezado do que o de "Residente". Mas assim como o "Residente" relegara para um plano inferior o "Agente", assim o "Enviado" (com a designação de "extraordinário", que de começo foi apenas uma maneira de os distinguir dos residentes ou enviados permanentes) passou a ter superioridade sobre o "Residente".

Não se prestaram todas as Cortes, desde logo, a reconhecer esta distinção, e a de Luís XIV foi uma delas. Mas, a pouco e pouco, a diferença firmou-se. Os Enviados deram-se então ares de "petits ambassadeurs", dizia Wicquefort. No século XVIII, além das categorias de Enviado Extraordinário e de Residente, vêem-se as de Ministros Residentes e Plenipotenciários. No congresso de Nimegue apareceram pela primeira vez reunidos na mesma pessoa os títulos de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, que passaram a ser a denominação vulgar dos agentes diplomáticos abaixo dos Embaixadores. Mas nos começos do século XVIII ainda o nome de Plenipotenciário tinha uma acepção restrita. Nas suas Memórias notava D. Luís da Cunha estas diferenças: "O carácter do Plenipotenciário é diferente do de Embaixador, porque pode haver Embaixador sem ser Plenipotenciário, e Plenipotenciário sem ser Embaixador, ou para melhor dizer a qualidade de Plenipotenciário não é um carácter representativo no primeiro grau e somente mostra a extensão do poder e autoridade do que a tem, sem acrescentar alguma coisa ao carácter do Enviado".

Ministros públicos, considerava D. Luís da Cunha naquela época, 1714, os Embaixadores, os Enviados, Residentes e Comissários, mas não os Agentes, embora estes gozassem por cortesia, até certo ponto, dos mesmos privilégios. Procuradores dos Príncipes eram os Plenipotenciários, e procurações eram os Plenos poderes. Por esta definição compreende-se a importância que D. Luís atribuía aos termos e formalidades de tais diplomas.

Em França, o Enviado apresentava credenciais ao Soberano, mas o simples Ministro Residente, ou "agente", como "chargé d'affaires" moderno, entregava-as somente ao Ministro dos Estrangeiros.

O Congresso de Viena em 1815, e o de Aix la Chapelle em 1818, regularam a classificação do Corpo Diplomático tal como ainda vigora. Nas referências que houvemos de fazer à correspondência dos diplomatas abstrairemos destas diferenças de categoria. Quando falamos genericamente dos "representantes" estrangeiros ou portugueses, ou até dos "ministros" de Portugal e do estrangeiro, compreenderemos todos os agentes com carácter representativo, desde o Agente ao Embaixador.» 

O autor trata depois das Instruções públicas e das secretas e dos Despachos, das cartas dos diplomatas, dos estilos, e da própria linguagem diplomática. E de muitas outras coisas que não cabem neste texto.


Debruça-se a seguir sobre as Colecções do Arquivo. E escreve: «A correspondência histórica conservada no Arquivo está dividida em quatro corpos, ou núcleos principais, a saber: os Processos; a Correspondência das séries ou das caixas; os Registos; e a Correspondência avulsa ou diversa. A estes quatro corpos podemos adicionar o grupo especial dos Arquivos das Legações. E resume: Os Processos (raros na época de que nos ocupamos), dão a negociação em conjunto. As Caixas fornecem a correspondência recebida de diplomatas e cônsules portugueses e estrangeiros, de Ministérios e de outras procedências. Os Registos facultam os documentos expedidos pela Secretaria de Estado. As lacunas dos Registos e das Caixas serão supridas (nem sempre, infelizmente) pelos Arquivos das Legações e pela Correspondência avulsa ou diversa, arrumada em livros encadernados ou em maços catalogados. Nesta última colecção incluímos todas as espécies que não teriam cabimento no outros corpos.»

Recordo que o texto do embaixador Teixeira de Sampayo é de 1925, o que significa que desde então, há quase cem anos, algumas coisas possam ter mudado. 


Trata ainda o texto de Sampayo das Investigações e das Publicações (Tratados e Livros Brancos) e termina com a inclusão de vários quadros:

I - Representantes diplomáticos portugueses no estrangeiro e estrangeiros em Portugal de 1640 a 1834 e Secretários de Estado (1641-1834)

II - Séries denominadas "Correspondência das Caixas" (anteriores a 1833); Legações portuguesas; Legações estrangeiras; Consulados de Portugal; Consulados Estrangeiros

III - Colecções de livros de registo e de documentos compreendidos na mesma série, anteriores a 1833

IV - Correspondências avulsas não compreendidas nas Colecções das caixas, e Processos Diversos (anteriores a 1834); Extractos de correspondência aberta nos Correios de 1823 a 1826 e de 1829 a 1833; Processos

De tudo isto, e de muito mais que nem o tempo nem o espaço permitiram aqui consignar, se ocupam as 91 páginas deste "ensaio" do embaixador Luís Teixeira de Sampayo.

Vale a pena ler.

 

sábado, 9 de novembro de 2019

A QUEDA DO MURO DE BERLIM





Completam-se hoje 30 anos sobre a queda do Muro de Berlim. Recordo-me perfeitamente das imagens que passaram nas televisões e deram a volta ao mundo. Foi um acontecimento porventura inesperado e não duvido de que a maioria dos que celebraram entusiasticamente o facto não adivinhavam então as consequências que dele decorreriam.

A queda do Muro prenunciou a reunificação da Alemanha, a dissolução das democracias populares do Leste europeu e, menos previsivelmente, o colapso da União Soviética. Para estes acontecimentos contribuíram de forma decisiva os Estados Unidos da América e o Mundo Ocidental em geral, com destaque para o papa João Paulo II (Polónia oblige). A ideia mítica de que os países comunistas acabavam de adquirir a democracia e a liberdade não foi então acompanhada da ideia mais realista de que o desmoronamento do sistema comunista implicaria o fim do sistema social que vigorava nesses países. Nem os países da esfera ocidental, que usufruíam de um estado social razoável previram que o mesmo começaria a minguar quando já não era preciso seduzir os povos de Leste.

Aliás, a intensificação da campanha contra o bloco comunista começou com a desregulação do sistema financeiro internacional levada a cabo por Reagan e Thatcher e que seria coroada pela globalização económica e pela instauração do monoteísmo do mercado. O mundo bipolar da guerra fria era substituído por um mundo unipolar ocidental, sob a égide dos Estados Unidos, que provocaria o desmembramento da Jugoslávia, a invasão do Iraque, o bombardeamento da Líbia, a guerra civil na Síria, e mesmo a criação do Daesh. Só muito recentemente, com a liderança de Vladimir Putin na Rússia e de Xi Jinping na China, com as peripécias do Brexit e a crise da União Europeia, com o enfraquecimento da NATO e a imprevisibilidade de Trump, com a tentação imperial de Erdoğan e o desenvolvimento da Índia de Modi, se começou a restabelecer um mundo multipolar.

O quase meio século de regime comunista na Alemanha criou raízes e são muitos os que, ainda hoje, por ele nutrem saudades. Basta viajar pela antiga Alemanha Oriental para confirmá-lo. A República Federal da Alemanha não conseguiu homogeneizar, ou não quis, todo o território do país. São grandes as assimetrias sociais, predominando a Oeste uma perspectiva mais consumista e a Leste uma preocupação mais cultural. Já era assim no período transacto.

Muito haveria a dizer sobre tudo o que ocorreu desde 1989 ou desde 1991, quando a União Soviética foi dissolvida, acontecimento que Putin classificou como «a maior tragédia política do século XX». Julgo poder afirmar-se mesmo que o dito século XX terminou nessa data. Mas estas breves considerações são tão só um apontamento para recordar uma data e não pretendem discorrer sobre as ambições e loucuras de homens julgados insuspeitos e que se revelaram neste tempo pretérito verdadeiros criminosos de guerra.


sábado, 2 de novembro de 2019

JORGE DE SENA, O FÍSICO PRODIGIOSO




Ocorre hoje o centenário do nascimento de Jorge de Sena, a mais notável figura da cultura da segunda metade do século XX português, pela qualidade, quantidade e diversidade da sua obra.

Falecido prematuramente nos Estados Unidos com 58 anos, os seus restos mortais repousam hoje no Cemitério dos Prazeres. Num país decente, estariam certamente no Panteão Nacional, com mais forte razão da que assiste a muitos outros que lá estão inumados. Mas talvez seja melhor assim, para evitar importunas companhias.

Nunca foi reconhecida, em Portugal, a verdadeira importância do seu pensamento e do seu trabalho. Talvez porque tivesse mau feitio ou por quaisquer outras razões menos bem compreendidas à época. Assim, a sua carreira decorreu no Brasil, primeiro, nos Estados Unidos, depois. E uma boa parte da sua obra foi publicada postumamente, graças à persistência e dedicação de sua mulher, Mécia de Sena, que tive o prazer de conhecer aquando das suas visitas a Portugal, onde viviam alguns dos filhos. Não cheguei a conhecer pessoalmente Jorge de Sena, mas nos contactos que mantive com Mécia de Sena, já viúva, na sua casa do Restelo e em manifestações culturais, tive oportunidade de saber pormenores sobre a vida e obra do marido. E de com ela manter correspondência para a Califórnia. Devo-lhe a imensa gentileza de me ter convidado para passar algumas semanas nessa residência americana do casal, convite que, por razões várias, nunca viria a aceitar.

Poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, tradutor, crítico literário e cinematográfico, insigne camonista e pessoano, deve-se-lhe o inestimável serviço de ter sido a primeira pessoa a traduzir para a língua portuguesa os poemas de Constantin P. Cavafy, o imortal poeta grego de Alexandria.


Parece que foi, ou vai ser, publicada uma nova edição da novela  O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, um escrito com conotações autobiográficas, inspirado em Orto do Esposo, livro moralístico-religioso da literatura portuguesa da primeira metade do século XV. A edição que possuo desta novela é de 1979, volume que integra as "Obras de Jorge de Sena", publicadas pelas Edições 70. A novela tivera a sua 1ª edição em 1966, incluída na colectânea de contos Novas Andanças do Demónio, que se seguira a Andanças do Demónio, cuja data de publicação é 1960. A minha edição, que reúne as duas colectâneas, com a designação de Antigas e Novas Andanças do Demónio, é de 1981, e já não inclui O Físico Prodigioso, naturalmente por ter sido editado separadamente, naquelas "Obras", em 1979. Este conto, ou novela (como depois lhe chamou Sena) fora também incluído na Antologia do Conto Fantástico Português (1974), organizada por E. M. de Melo e Castro.


Este conto fantástico em que o protagonista, o Físico, mantém comércio sexual com o Diabo, empresta a Sena a oportunidade de discorrer sobre os mistérios da sexualidade masculina, tema recorrente em muitas das suas obras (Os Grão-Capitães, Sinais de Fogo). O erotismo foi sempre uma preocupação constante de Jorge de Sena (como o fora em Cavafy) e nunca ele se eximiu a tecer sobre o assunto as considerações que julgou convenientes.

No verbete "Jorge de Sena" da Wikipédia figura um texto sobre a sexualidade segundo Sena, extraído do livro de Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar (1997). Procurando o mesmo na obra, encontrei apenas alguns fragmentos. Talvez o texto integral tenha figurado na 1ª edição, rapidamente esgotada, já que o exemplar que possuo, oferecido pelo autor, é da 3ª edição, e Fernando Dacosta tenha expurgado nas edições seguintes as partes cuja frontalidade seria mais polémica.

Continua a aguardar-se a edição de uma biografia ou fotobiografia de Jorge de Sena.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

SALÓNICA XXXVII - ÚLTIMAS IMAGENS



Concluo com este post a descrição da minha viagem a Salónica em Outubro do ano passado. Durante um ano (não consegui ser mais rápido) publiquei as minhas impressões sobre os locais que visitei e as imagens correspondentes.

Os posts anteriores arrumavam as fotografias segundo os monumentos, os museus, os sítios arqueológicos, etc. Publico hoje algumas imagens dispersas que não justificavam uma apresentação individualizada.

Avenida Alexandre Magno
Idem
Avenida Aristóteles
Idem
Idem
Avenida Egnatia
Banco da Grécia
Catacumbas de São João
Idem
Cinema Olímpion
Idem
Hotel Electra
Idem
Hotel Makedonia (o meu hotel)
Idem
Idem
Idem
Idem
Idem
Livraria
Idem
Idem
Idem
Idem
Idem
Muralhas
Idem
Idem
Passeio Marginal
Idem
Idem
Idem
Praça Aristóteles
Idem
Idem
Idem
Praça da Democracia
Praça Eleftherias
Refugiados na Avenida Aristóteles
Teatro Nacional

Muito mais haveria para mostrar de Salónica, mas as imagens que recolhi, e das quais só publiquei parte, ocuparam já 37 posts.


ISABEL DE PORTUGAL



Tendo lido há dias Quatro Últimas Canções, de Vasco Graça Moura, que repousava numa das minhas estantes desde a sua aquisição (o tempo, ou a falta dele, obriga-nos a rigorosas selecções), como referi aqui, ao arrumá-lo agora reparei que ao lado se encontrava, do mesmo autor e também ainda não lido, Retratos de Isabel e outras tentativas, publicado em 1994, e que curiosamente não figura na relação das obras de VGM na Wikipédia.

Trata-se de um conjunto de ensaios, o mais relevante e que dá o título ao livro sobre D. Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, mulher do imperador Carlos-Quinto e mãe de Filipe II. O livro inclui reproduções de retratos da imperatriz, executados por Jos Van Cleve, Jan Cornelis Vermeyen, Jakob Seisenegger, Peter de Jode, Rubens (cópia de um quadro desaparecido do Ticiano) e do próprio Ticiano, entre os quais a famosa pintura que se encontra no Museu do Prado e que o artista realizou já depois da morte da soberana.

É um facto que D. Isabel era uma senhora de extraordinária formosura, a quem o marido dera como divisa "As Três Graças": a beleza, o amor e a fecundidade. Ela foi a grande paixão de Carlos-Quinto, que depois da sua morte (a esposa morreu prematuramente com 35 anos) nunca mais vestiu outra cor que não o preto.

Isabel de Portugal, pelo Ticiano

Ficou célebre uma frase do Duque de Gandia (depois São Francisco de Borja) que viu o corpo já decomposto de D. Isabel, quando ele chegou ao Panteão Real de Granada, ido de Toledo, para ser sepultado (os restos mortais encontram-se hoje na cripta do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial): «Nunca mas, nunca mas servir a Señor que se me pueda morir!». A partir desta exclamação, verdadeira ou lendária, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu o seguinte poema:


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

(A relação sentimental que o poema deixa entrever entre São Francisco de Borja e a imperatriz não assenta em base histórica)

Carlos-Quinto e Isabel de Portugal, de Rubens, a partir de um retrato de Ticiano


* * *


Os outros ensaios do livro, com graus diferentes de interesse, referem-se ao pintor Vasco Fernandes (Grão Vasco), às linhas divisórias dos Descobrimentos entre Portugal e a Espanha, às tapeçarias de D. João de Castro (com ilustrações), denotações de majestade nos retratos, Camões e os Descobrimentos, Camões e uma concepção da Europa, Fernando Pessoa e Camões, etc.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

SALÓNICA XXXVI - ALGUNS CAFÉS E RESTAURANTES



Café Gazia

Na minha estada em Salónica, faz agora um ano, frequentei alguns cafés e restaurantes de que conservei a imagem. Não foram especialmente escolhidos, já que utilizei os que ficavam no caminho das minhas deambulações pela cidade.

Todavia, não quero deixar de registar esses estabelecimentos, para memória futura.

Idem
Café Miki Vouli
Idem
Café Sosa
Café Stretto
Idem
Restaurante Estrella
Restaurante House of Grandma
Idem
Restaurante Kazaviti
Idem
Idem
Idem
Restaurante do Museu Bizantino
Restaurante Navona
Idem
Idem
Idem
Restaurante Plateia
Idem
Idem
Idem
Idem
Restaurante Tsarouxas
Idem
Restaurante Tselementes
Idem
Idem
Restaurante Zorba
Idem
Idem
Idem