sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O EXÍLIO DE SALIM BACHI



O escritor argelino Salim Bachi, a residir em França, publicou recentemente L'exil d'Ovide, obra de que tive conhecimento através de uma recensão crítica. Como lera na minha juventude um livro que me marcou profundamente, Deus nasceu no exílio, do escritor romeno Vintila Horia (1915-1992), que obteve o Prémio Goncourt em 1960 (numa época em que este prémio ainda tinha algum significado) e que tratava exactamente do exílio do poeta romano, decidi encomendar a obra.


Devo confessar que ao lê-la, experimentei uma certa desilusão. É que Salim Bachi utiliza o exílio de Ovídio como pretexto para nos testemunhar quanto ele se sente também exilado, em França, país que o acolheu quando saído da sua terra natal, e na Argélia, das vezes que lá regressa e onde se considera um estrangeiro. Não viria grande mal ao mundo se o livro tivesse a profundidade da obra de Vintila Horia. Mas não tem.

O autor expressa o sentimento doloroso do exílio experimentado por Ovídio quando, por ordem de Augusto, foi desterrado para Tomis (a actual Constança, na Roménia), nas margens do Mar Negro, em 8 EC. Não são verdadeiramente conhecidas as razões do banimento, mas suspeita-se que estejam relacionadas com uma possível ligação do poeta a Júlia, a filha do imperador, ou a alguns dos textos do autor de Metamorfoses que Augusto considerasse imorais, num tempo em que este pretendia restabelecer as virtudes familiares e impor uma restrição à liberdade dos costumes em Roma.

É certo que Ovídio foi autorizado a levar para Tomis os seus bens e os seus escravos, e manteve no exílio uma confortável existência material, mas deixarar em Roma a mulher e os amigos e passou os restantes dez anos da sua vida, em que escreveu os Tristes e os Pônticos, quiçá amargurado pela solidão e pelo afastamento da pátria. E, morrendo depois de Augusto, nem mesmo o seu corpo, segundo determinação imperial, pôde regressar a Roma para ser inumado.

Esclarece-nos Bachi que para a austeridade moral de Augusto, e isso ajuda-nos a compreender a desgraça de Ovídio, pudesse ter contribuído uma progressiva dissolução dos costumes de que é um exemplo o grande escândalo que abalou Roma em 61 AC, por ocasião da festa da "Bona Dea". Esta festa, exclusivamente reservada a mulheres, era um pretexto para práticas sáficas que a cidade não ignorava mas a que fechava os olhos, enquanto não dessem motivo a especiais reparos.

Aconteceu que na festa então dada em casa de Júlio César por sua mulher Pompeia, Publius Clodius, suposto amante desta, resolveu travestir-se de tocadora de lira para a encontrar. Como ainda era imberbe, pensou enganar as convivas mas a voz acabou por traí-lo e foi desmascarado. Cícero comentou amplamente o caso e Júlio César entendeu repudiar Pompeia, pois a mulher de César deveria estar acima de qualquer suspeita, uma máxima que passou à posteridade.

À boleia do exílio de Ovídio, e do seu próprio, Salim Bachi evoca depois outros escritores exilados: James Joyce, Stefan Zweig, Thomas Mann, Fernando Pessoa, Hermann Broch (que escreveu A Morte de Virgílio, esse outro famoso poeta romano), Alfred Döblin. A propósito das viagens dos exilados, Bachi cita Sciascia (aliás é pródigo em citações): «J'étais parti sans rien comme le préconisait Sciascia, l'écrivain sicilian que plus personne ne lit à présent: "Voyager juste, c'est ne connaître personne dans les lieux où l'on va, ou fort peu de gens; n'avoir ni lettre de recommandation  à remettre ni rendez-vous auxquels se rendre; n'avoir d'engagements qu'avec soi, pour voir sans hâte les choses - d'une région, d'une ville - que nous avons désiré voir et qui d'ordinaire ne sont pas légion. Je parle aussi pour moi."» Salim Bachi não refere donde retirou a citação mas afirma, e isso não é verdade, que hoje já ninguém lê Leonardo Sciascia.

De Joyce, realça que o escritor deixou Dublin em 9 de Outubro de 1904, para não mais regressar, salvo episodicamente. E assinala que Joyce detestava a Itália, e que encontrou uma pátria provisória em Trieste, antes de viver em Paris, e finalmente em Zurich, onde morreu. Mas que, ao contrário de Ovídio, não abandonou tudo ao deixar a pátria, pois pôde levar consigo Nora, a sua companheira.

Pelo meio da narrativa, Bachi vai aludindo à Villa Médicis, de Roma, onde esteve como pensionista. E aproveita para dizer mal da Piazza di Spagna e da Piazza Navona. Mas parece que gostou da Piazza della Rotonda, da fonte de Giacomo Della Porta e do Panteão. Para evitar os colegas da Villa Médicis, vai almoçar na Via del Babuino, ou na Piazza del Popolo (e não Populo, mas Bachi engana-se muitas vezes na ortografia). 

Sobre Pessoa, Bachi, que conhece Lisboa, fala de Vasco da Gama e do seu piloto Ahmed Ibn Majid, sem o qual o navegador não teria chegado à Índia. Perde-se no dédalo das ruas e tenta reconstituir o trajecto de Pessoa entre a Rua Coelho da Rocha (e não Coehlo!!!) e os cafés Martinho da Arcada e A Brasileira. Do 3º andar que alugou na Calçada do Garcia ("à deux pas de la place Dom Pedro V", o que é mentira, a calçada é bem longe da praça), Bachi compara Pessoa a Cavafy, e aqui está certo, eu mesmo já referi em público e em privado essa extraordinária semelhança. E no grande café da Praça do Comércio, evoca com os empregados a figura de Pessoa, que aqueles já esqueceram, e a de Saramago, essa bem presente, (como se Saramago, que conheci e com quem privei alguns anos, fosse um frequentador de cafés!!!). Salim Bachi deveria melhor documentar-se antes de escrever disparates. Também não se afigura que Pessoa, embora tenha passado a infância na África do Sul, se possa considerar um exilado em Lisboa. O autor de Mensagem será um exilado, mas um exilado do Mundo. E nem as referências a Bréchon e a Tabucchi conseguem confirmar a sua tese. Nem mesmo o rápido mergulho no Livro do Desassossego.

No que a Thomas Mann respeita, Bachi não sabe se o exílio lhe foi feliz, mas entende que foi fecundo, por lhe ter permitido escrever o Doutor Fausto. Considera também célebre o irmão, Heinrich Mann, mas opina que o filho, Klaus, foi um escritor menor, devorado pelo álcool, ainda que ignore a sua homossexualidade. Como também, relativamente a Thomas, além do romance já mencionado, cita A Montanha Mágica e Os Buddenbrooks (e não Buddenbroks!!!), mas omite A Morte em Veneza, o que suscita a questão do autor ter algum problema mal resolvido em relação à homossexualidade. De resto, ignora também Erika Mann, a irmã de Klaus!

Sobre Stefan Zweig, acha que Thomas Mann o considerava um autor de segunda ordem, do qual até teria inveja, atendendo ao espantoso e súbito sucesso dos seus livros, obras breves, como Vinte e quatro horas na vida de uma mulher ou A Confusão de sentimentos. Recorda, e ainda bem, O Mundo de Ontem, seu verdadeiro testamento literário e uma evocação da Mitteleuropa. Zweig, esse austríaco que a ascensão de Hitler ao poder o levaria a deixar Viena, correu mundo e acabaria por fixar-se no Brasil, onde se suicidou.

Não sei a que propósito figura García Lorca nesta galeria de exilados, a não ser porque Salim Bachi passou algum tempo na Andaluzia. Mas Lorca, que viajou, inclusive aos Estados Unidos, nunca se considerou um exilado. Nasceu e morreu em Espanha, que era para si não um lugar estrangeiro ou de adopção mas a sua verdadeira pátria. É claro que a referência a Lorca permite a Bachi lembrar o passado mourisco de Espanha, discorrer sobre Córdova e Granada, desfeitear os Reis Católicos e Carlos Quinto.

Como escrevi acima, Salim Bachi sente-se exilado em França e na Argélia, é feliz em Espanha, em Portugal, em Marrocos ou na Grécia, mas esse equilíbrio precário, incessantemente ameaçado, é destruído quando regressa a Paris.

Não conheço os outros livros de Salim Bachi, mas fico com a impressão de que o presente livro, mais do que uma obra literária é um desabafo do autor, que convocou para o efeito, a pretexto de Ovídio, alguns dos grandes exilados da literatura universal.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

SALÓNICA X - O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE PELLA



A cidade de Pella foi a capital do antigo reino da Macedónia, depois da sua transferência de Aigai (localizada junto à actual cidade de Vergina) pelo rei Arquelau, cerca de 400 AC., e aí nasceu Alexandre Magno. A cidade foi alargada por Filipe II (pai de Alexandre) e atingiu o seu esplendor no tempo de Cassandro e de Antígono II Gónatas.


Desde o século IV AC, Pella estava organizada em espaços ortogonais, segundo o sistema hipodâmico. A Agora, um largo quadrado de vastas dimensões, era o ponto de referência por excelência da cidade. Estava rodeada por quatro alas de galerias abertas sobre o espaço central. Estas alas (pórticos) albergavam lojas, oficinas e serviços públicos. Nas galerias leste, sul e oeste funcionavam oficinas de cerâmica e de metalurgia e lojas de venda de produtos (grão, carne, vinhos, perfumes etc.). Alguns estabelecimentos dispunham mesmo de caves. Os serviços públicos encontravam-sr nas galerias norte, onde se identificaram uma sala de reuniões dos magistrados e uma estrutura em arcadas destinada ao culto. No ângulo sudoeste da Agora estavam situados os Arquivos Públicos.


Ao sul da Agora encontravam-se duas das mais ricas residências da cidade: a Casa de Dionisos e a Casa do Rapto de Helena, ocupando cada uma a superfície de um bloco residencial. O chão das salas de simpósio estavam decorados com magníficos mosaicos, feitos de pedras naturais, e por vezes inspirados por grandes obras de pintura. Os mosaicos da primeira casa foram, como se escreveu em post anterior, transferidos para o Museu Arqueológico de Pella.  Os da segunda casa encontram-se no local onde foram descobertos. Outras duas residências da dimensão das anteriores, e situadas mais a sul, são a Casa dos Estuques e a Casa de Poseidon. Da primeira foi retirada uma parede revestida de estuque colorido e da segunda uma estátua de Poseidon, estando ambas as peças igualmente no Museu de Pella.



Além destes locais nas imediações da Agora, encontraram-se mais a sul oficinas de cerâmica, fornos para cozer os artigos de barro, bacias para limpeza da argila, etc. A norte deste bloco ficavam os Banhos Públicos, os mais antigos banhos conhecidos da época helenística. Este sítio conheceu três fases de construção, e foi ininterruptamente usado do século IV ao século I AC.


Dois dos mais antigos santuários públicos da antiga Pella encontram-se no perímetro do plano da cidade e abertos ao público: o santuário da Mãe dos Deuses e de Afrodite (as padroeiras da cidade), a norte da Agora, e o santuário de Darron (referido por Hesíquio), uma divindade local conhecida pelas suas propriedades de curandeiro, a sudoeste. Algumas partes do chão deste santuário estavam decoradas com mosaicos expostos no Museu de Pella. No nordeste da cidade foi investigado outro santuário, o Thesmophorion (do nome de um antigo festival religioso em honra da deusa Deméter e de sua filha Perséfone, divindades ligadas à agricultura e à fertilidade), uma área circular ao ar livre destinada a esse culto.


A cidade da época helenística era o prolongamento da cidade clássica, uma grande cidade à beira-mar, dotada de um porto muito movimentado. Os limites da cidade de Filipe II e de Alexandre são indicados pelos vestígios da parte norte das muralhas da época clássica, sendo visíveis numa das ruas centrais da cidade helenística.


A presença acentuada de de artigos de cerâmica provenientes da Ática confirma as estreitas relações com Atenas na primeira metade do século IV AC. Igualmente se nota a influência da Ática em outros domínios, como na escultura, campo em que a influência ática se sucedeu à das ilhas da costa da Jónia. Na segunda metade do século IV AC, o incremento das oficinas de cerâmica, terracota, metalurgia e mosaicos para o solo determinou uma produção que floresceu continuamente até a cidade ter sido abandonada devido a um violento sismo nos começos do século I AC. A transferência das autoridades administrativas para a província romana vizinha não impediu que continuasse parcialmente habitada, pelo menos na parte sul, onde foram descobertas residências do período romano Séculos I a IV EC.


A cidade antiga ocupava uma área de cerca de 400 hectares e possuía um traçado rectangular, com os edifícios dispostos em blocos de dimensões semelhantes, separados por ruas com 6 a 9 m de largura. Foi a cidade mais desenvolvida do mundo grego. O seu comprimento norte/sul era de 2,5 km e leste/oeste de 1,5 km. As ruas principais estavam pavimentadas e rodeadas por passeios e colunatas e possuíam drenagem de águas. Túneis escavados nas rochas transportavam a água das montanhas para as fontes, cisternas e edifícios públicos e privados e muitas residências tinham instalações para banhos. A superfície das residências mais pequenas oscilava entre os 150 e os 200 m2 e das maiores entre 2.500 e 3.000 m2, com um peristilo central decorado com elementos arquitectónicos jónicos e dóricos, salas de banquete com o chão revestido de mosaicos, paredes pintadas no estilo mais tarde adoptado pelas cidades italianas (Pompeia é um exemplo), santuários domésticos, apartamentos privados, etc.


O palácio de Pella ocupava uma área de 60.000 m2 e compreendia cinco edifícios com vastos peristilos, salas de recepção, salas de reunião, espaços dedicados ao culto, armazéns e instalações de banhos incorporadas numa vasta "palestra". A Agora, acima referida, vasto centro comercial e administrativo, ocupava uma superfície de 70.000 m2, e era atravessada no sentido leste/oeste por uma rua de 15 m de largura, a maior da cidade.


Também foram encontradas várias oficinas em outras zonas da cidade exteriores ao complexo da Agora, o que confirma a continuação das indústrias de produção mesmo depois da conquista romana em 168 AC. e pelo menos até ao terramoto já mencionado.





Nos cemitérios de Pella encontram-se todos os tipos de arquitectura funerária, túmulos talhados na rocha, túmulos subterrâneos, túmulos cobertos por telhas, etc., e os artigos neles encontrados fornecem preciosas indicações sobre a estrutura da sociedade local, a economia, a vida privada, o custo das sepulturas e sobre as preocupações relativas ao pós-vida ou à vida pós-morte.












Além de dois modestos desdobráveis, não existe catálogo do Sítio Arqueológico de Pella.



O MÉDIO-ORIENTE E O CAOS




Foi publicado no fim do ano passado um novo livro do eminente arabista e islamólogo francês Gilles Kepel, com o título Sortir du Caos - Les Crises en Méditerrnée et au Moyen-Orient. Deve-se a Kepel uma vasta obra sobre o Mundo Árabe e o Islão, e não será exagero considerá-lo como um dos maiores especialistas contemporâneos na matéria.

É famosa a divergência que tem mantido, desde há tempos, com o seu colega Olivier Roy, também ele um profundo conhecedor da mesma área do saber. Para Kepel, a violência djihadista é a "radicalização do islão", enquanto que para Roy é a "islamização do radicalismo". Diríamos a este respeito que ambos tem uma quota-parte de razão, que o mundo não é a preto e branco, que as tendências se interpenetram e que a complexidade da nossa época acaba por impedir se determine exactamente o que é a causa e o que é o efeito.

Neste novo livro, grosso de 500 páginas e escrito em Julho de 2018, Kepel divide o texto em três partes: 1) Le baril et le Coran; 2) Des "Printemps arabes" au "Califat" jihadiste"; 3) Après Daesh: désagrégation et recompositions.

Na primeira parte o autor analisa «A islamização da ordem política (1973-1979)», "A irrupção da jihad internacional: contra "o inimigo próximo" (1980-1997)», «A segunda fase jihadista: Al-Qaïda contra "o inimigo distante" (1998-2005)» e «A terceira geração djihadista: redes e territórios (2005-2017)».

Na segunda parte são tratadas «As insurreições do primeiro tipo: da queda dos déspotas à transformação das sociedades» e «As insurreições do segundo tipo: fissura entre xiismo e sunnismo e colapso das rebeliões».

Na terceira parte é desenvolvida «A fractura do "bloco sunnita"» e «O desafio planetário da batalha do Levante».

Em Conclusão da obra, Gilles Kepel expõe «Failles du Moyen-Orient et tectonique mondiale».

O livro inclui uma preciosa cronologia, resumida, desde a Hégira (622) à publicação de L'or de Paris (1836), pelo sheikh Rifaat al-Tahtawi, e largamente desenvolvida, desde a assinatura dos Acordos Sykes-Picot (1916) ao encontro de Helsínquia entre Donald Trump e Vladimir Putin (2018). E um não menos precioso índice onomástico.

Após algumas generalidades introdutórias, Gilles Kepel procede a uma descrição pormenorizada, e culta, da evolução da situação no Médio Oriente, desde o fim dos nacionalismos árabes (de que Nasser e Bourguiba foram os grandes protagonistas) até às convulsões dos nossos dias.

O Médio Oriente tem sido, ao longo dos séculos, uma das regiões mais perturbadas do globo. Talvez não por acaso, foi no seu epicentro que nasceram as três religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islão, que haveriam de provocar, directamente ou através dos seus ramos, as mais sangrentas guerras da História. Aí coexistem hoje árabes, turcos, persas, curdos, judeus. Com o predomínio esmagador do islão, dividido entre sunnitas, xiitas e subdivisões: alauítas, ismaelitas, ibaditas, zayditas. E também cristãos católicos, protestantes, ortodoxos, maronitas, arménios, coptas. E ainda os drusos, os yezidis e os zoroastrianos.

A exposição do autor é clara, geralmente objectiva, por vezes um pouco repetitiva, mas com a intenção, em tão longa descrição, de relembrar os factos. Como bom arabista, procede à indicação de muitos termos em árabe, o que facilita a intelecção do leitor.

Um dos pontos mais aprofundados é a criação do "Estado Islâmico" ou Daesh, ISIS, ISIL, ou como se quiser chamar, com a capital em Raqqa, que funcionou, espantosamente, de 2014 a 2017, com a inicial complacência, ou conivência, ou estupidez, do Mundo Ocidental. O conflito do Levante, pela sua extensão universal, constitui para o autor (p. 279) uma espécie de guerra mundial pós-moderna.

A situação na Síria, consequência da invasão do Iraque, das "primaveras árabes", e de outros factores acessórios, onde o conflito começou em Deraa, em 18 de Março de 2011, levou à quase destruição do país, provocou milhões de mortos, feridos, estropiados, deslocados, emigrantes, pôs em grave perigo o regime de Bashar Al-Assad (que subsistiu à contestação em que Ben Ali e Mubarak foram afastados e Qaddafi foi assassinado; Saddam Hussein já havia sido enforcado) e determinou uma vaga migratória inédita para os países da Europa. O papel da Rússia foi fundamental no combate ao Daesh e Raqqa caiu em 17 de Outubro de 2017. Agora, as cartas estão sobre a mesa, para uma nova distribuição das zonas de influência de russos, turcos e iranianos no Médio Oriente. O Ocidente, que, em diversas fases, se envolveu na contenda, saiu desprestigiado e derrotado.

Também a Arábia Saudita teve de rever a sua política de alianças, bem como os Emirados Árabes Unidos, o Egipto e o Qatar. E também a Turquia. No Iraque, as duas principais tendências do partido Da'wa, relativas às linhagens principais dos ayatollahs iraquianos, os Sadr e os Hakim, disputam o poder. Moqtada Al-Sadr, que entretanto renunciou à violência, visitou em 2017 os príncipes herdeiros saudita e emirati, Mohammed Bin Salman e Mohammed Bin Zayed, e aliou-se mesmo ao Partido Comunista Iraquiano na sua lista para as eleições de Maio de 2018, Sa'iroun, que significa "En Marche" (p. 373), e cujo nome, longe vá o agouro, lembra Emmanuel Macron.

O leitor interessado encontrará nesta obra os dados para a compreensão do caos que se instalou na região depois da famigerada intervenção no Iraque, em 2003, protagonizada pelo americano George W. Bush e pelo britânico Tony Blair. Não terá necessidade de consultar, dia após dia, os jornais da época. E este é um dos méritos da obra, a que acresce o conhecimento e a visão que o autor possui desde há muitos anos da política no Médio Oriente.

Na impossibilidade de resumir o livro, não desejo terminar o texto sem anotar um pormenor chocante. Na sua viagem a Moscovo, a primeira deslocação à Rússia de um soberano saudita, em 5 de Outubro de 2017, o rei Salman Ben Abdelaziz Al-Saud desceu do seu avião particular por uma escada em ouro!!! (p. 425).


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

SALÓNICA IX - O MUSEU ARQUEOLÓGICO DE PELLA



O Museu Arqueológico de Pella fica situado próximo do sítio arqueológico da antiga cidade de Pella, capital do reino da Macedónia, depois da sua transferência de Aigai, no fim do século V AC e que se expandiu na segunda metade do século IV AC.  Pella, local onde nasceu Alexandre Magno, dista cerca de 45 km de Salónica.



O edifício, desenhado pelo arquitecto Kostas Skroumpellos, possui um átrio rectangular, evocando o peristilo das antigas casas da cidade.



A exposição compreende seis unidades: uma de introdução e as outras cinco partes principais relativas aos diversos aspectos de Pella, mostrando a vida quotidiana, através de objectos encontrados nas habitações e a vida pública, ilustrada pelos objectos revelados pelas escavações da Agora, santuários, sepulturas e o palácio. No primeiro andar do Museu existe um espaço dedicado a exposições temporárias.



A unidade de introdução apresenta ao visitante o ambiente, a evolução geomorfológica e a história da cidade. Os objectos expostos são principalmente moedas de reis, de Alexandre a Perseu, ilustrando diversos períodos da história da cidade antiga. A unidade de introdução e a primeira unidade estão ligadas por um corredor onde se encontra uma cabeça de Alexandre - um dos seus retratos mais fiéis (talvez obra do escultor Lysippos) - datando do fim do século IV AC e uma estatueta de mármore onde o soberano figura com as características do deus Pan.



A primeira unidade é consagrada à vida quotidiana, apresentando os objectos domésticos encontrados nas residências da cidade antiga. Assim, uma estátua de Poseidon e uma parede restaurada com revestimentos coloridos, proveniente do local das recepções oficiais. O chão está coberto por mosaicos de excepcional qualidade artística, originários das residências de "Dionisos" e de "Helena". Os mosaicos da primeira residência foram transferidos para o Museu, enquanto os da segunda estão conservados no local onde foram descobertos, sendo representados por fotografias em tamanho natural. Pode também ver-se reproduções de mobiliário e as vitrinas exibem objectos ligados às actividades dos habitantes (homens, mulheres e crianças), aos desportos, à educação, aos lazeres e aos cultos domésticos. As estatuetas de terracota representando mulheres fornecem preciosas informações sobre o vestuário e os penteados da aristocracia macedónica, do IV ao II século AC. Aliás, foi este o período do grande esplendor de Pella como capital do reino da Macedónia.



A segunda unidade, que se ocupa da vida pública, apresenta uma reprodução da Agora. A maior parte dos objectos expostos provém das escavações realizadas nesse local. Estão relacionados com as instituições administrativas (selos de documentos em terracota, inscrições, moedas), e com as actividades produtivas e comerciais (vasos de conservação e de transporte de vinho e de azeite, vasos de uso quotidiano destinados aos simpósios e às cerimónias de culto, moldes para produção de estatuetas, equipamentos das oficinas de cerâmica e de metalurgia). 



A terceira unidade apresenta elementos do culto da cidade antiga, provenientes dos santuários. Foi para aqui transportado o chão em mosaico do santuário de Darron, um herói e curandeiro local. Igualmente se podem ver vasos e inscrições dos santuários da Mãe dos deuses, de Afrodite e do Thesmophorion, que mostram as divindades que eram adoradas e ilustram as actividades que tinham lugar nos santuários.



A quarta unidade é consagrada ao mundo dos mortos. À entrada são expostas duas sepulturas descobertas na zona da Agora, uma indicação que o sítio servia de cemitério desde o começo da história de Pella. Trata-se de um túmulo em terracota em forma de jarra, datando da era do bronze e de um túmulo em forma de paralelepípedo do fim do século V AC. Além do cemitério da Agora foram identificados outros sítios de sepultura escavados ao longo da "estrada real", onde se encontravam os túmulos dos aristocratas macedónios ilustres. Ainda hoje se podem ver esses locais, de ambos os lados do caminho que liga Chalkidona a Pella. As vitrinas desta unidade apresentam objecto pessoais dos defuntos e oferendas dos parentes e amigos que foram encontradas nas sepulturas e que datam dos séculos IX a II AC. Estes objectos fornecem preciosas informações sobre as estruturas sociais e os costumes funerários da grande capital. A maior parte dos objectos é constituída por estatuetas de terracota que desempenhavam certamente uma função simbólica, por jóias em ouro, por vasos de cerâmica. por cofres, por leitos, etc. Entre estes objectos, figura o katadesmos (maldição) em chumbo, datando do começo do século IV AC, encontrado numa sepultura e que é um dos mais importantes do museu. Está escrito em dialecto dórico (macedónico) do começo do século IV AC, mostrando a língua que falavam as pessoas comuns de Pella, antes dos reinados de Filipe II e Alexandre Magno.



A quinta unidade evoca o palácio, um complexo de vários edifícios construído em terraços, incluindo a habitação real e os serviços administrativos, políticos, diplomáticos e religiosos do estado da Macedónia. Alguns elementos arquitectónicos e algumas telhas do palácio de Pella permitem identificar que este foi usado entre meados do século IV AC, ou mesmo antes, até ao ano de 168 AC, quando os macedónios foram derrotados pelos romanos na batalha de Pydna, os quais pilharam a cidade, nomeadamente o palácio.



No primeiro andar existe uma sala para exposições temporárias. 



Lamentavelmente, como na maioria dos locais, não existe um catálogo do Museu. Todavia, são permitidas fotografias, o que já não acontece em Vergina, onde, no interior de um monte, se encontram os túmulos reais de Filipe II e de outros soberanos da Macedónia. Escreveremos sobre Vergina num próximo post.




































































O desdobrável fornecido na recepção só tem interesse por inserir a planta do Museu.