sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

NOVAMENTE A QUEIMA DOS LIVROS?


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O "Nouveau Magazine Littéraire" publica no seu nº 26, deste mês de Fevereiro, um artigo de Alain Dreyfus que apresento acima.

Trata-se de um texto que demonstra a hipocrisia reinante em França a propósito do "caso" Gabriel Matzneff. 

Todo o mundo literário, e político, francês sempre soube das aventuras sexuais de Matzneff, já que ele mesmo se encarregou de as descrever em vários dos seus livros ao longo do último meio século. O escritor, que conta hoje 83 anos, manteve em tempos relações consentidas com menores de 16 anos (Les Moins de seize ans é o título de um dos seus livros, publicado em 1974), de ambos os sexos, que constituíram tema para a sua obra diarística ou ficcional.

Ora os livros de Matzneff, durante este meio século, nunca foram objecto de qualquer reprovação oficial, suscitando mesmo o aplauso  de alguns dos maiores vultos da literatura francesa, como Sartre, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Michel Foucault e tantos outros que têm sido citados nas últimas semanas. Houve mesmo, nos anos 70, um movimento em França para baixar para os 14 anos (ou seria para os 12, não me recordo) a maioridade sexual, movimento que recebeu o apoio de grande parte da intelectualidade francesa. Ainda em 2013 Matzneff foi galardoado com o Prémio Renaudot e durante a presidência de François Mitterrand era recebido por este no Eliseu.

É claro que os costumes mudaram (nada é mais relativo do que a moral sexual) e o comportamento de Matzneff é considerado hoje não só altamente censurável mas mesmo criminoso. Aliás, já ao tempo certas relações cairiam sob a alçada do Código Penal, mas jamais a Justiça se incomodou ou os mais altos expoentes da Cultura se preocuparam.

Foi preciso Vanessa Springora, que manteve uma relação com o escritor quando tinha 13 anos, ter publicado agora, mais de trinta anos depois dos factos, um livro relatando a sua experiência, que os guardiões da moral pública rasgaram as vestes.

Como se pode ler no artigo acima, a sua editora, a Gallimard, mandou retirar de venda os seus livros, o Ministério da Cultura retirou-lhe uma subvenção anual que lhe atribuíra em 2002 e o Governo prepara-se para lhe retirar igualmente o grau de oficial da Ordem das Artes e das Letras. E a Justiça abriu uma investigação e procura saber agora o nome das pessoas que mantiveram relações íntimas com Matzneff.

No passado dia 14 de Janeiro, no jornal "Le Monde", Dominique Fernandez, notável escritor e membro da Academia Francesa, afirmou, a propósito da eliminação dos seus livros que isso «signifie pour un auteur la mort professionelle, le renvoi dans le néant». Curiosamente, a Gallimard tem no seu catálogo um bom número de escritores malditos, mas providencialmente todos já mortos.

Não está em causa, no artigo acima, a avaliação do comportamento de Gabriel Matzneff mas tão só a profunda hipocrisia da sociedade francesa que sistematicamente ignorou esse comportamento, convivendo amistosamente com o escritor, e, apenas porque uma das suas conquistas resolveu insurgir-se agora contra ele em livro (ao que parece com grande êxito de vendas) decidiu voltar-lhe ostensivamente as costas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

FELLARE ET IRRUMARE



Chegou às minhas mãos, por feliz acaso, La Fabuleuse Histoire de la Fellation (2014), do professor Thierry Leguay, que morreu em 2016, com 62 anos.

Trata-se de um livro curioso, e raro, já que, existindo milhares de livros sobre a vida sexual, são escassos os que abordam uma actividade praticada habitualmente desde a mais alta Antiguidade, mas escassamente referida nas obras literárias.

A designação culta em português é "felação", com tradução equivalente nas demais línguas ocidentais. Numa linguagem vulgar os portugueses dizem "broche", embora existam outras expressões correntes. O que não há hoje, pelo menos no Ocidente, é a existência de dois termos, consoante o acto é considerado activo ou passivo. Os romanos, como escrevi em posts anteriores sobre a vida sexual na antiga Roma, utilizavam dois verbos distintos: fellare, para qualificar o acto de chupar e irrumare, para o acto de ser chupado. O primeiro, considerado infamante, correspondia a uma posição passiva e o segundo, considerado nobre, a uma posição activa. Nos nossos dias, a palavra latina fellatio corresponde às duas posições, e o irrumatio latino não é utilizado.

O livro está escrito numa perspectiva heterossexual, mas não deixa de considerar a vertente homossexual, já que é nesta, por razões óbvias, que o acto é, proporcionalmente, mais praticado.

O autor percorre rapidamente a literatura francesa, para constatar que os escritores "oficiais" pouco têm referido nas suas obras a prática da felação. Cita Rabelais, Corneille, Maupassant, Verlaine, Apollinaire, Mandiargues, Emmanuelle Arsan, Pauline Réage e Marguerite Duras, entre os mais conhecidos.

Sobre a frequência das práticas Leguay remete para as percentagens do célebre Rapport Kinsey, hoje certamente desactualizado.

Percorrendo o tempo, refere que a felação seria praticamente ignorada na Pré-História, já que é quase inexistente a sua representação nas gravuras. Mas, entrando na História, verifica-se que ela seria corrente no Egipto, todavia menos na Mesopotâmia. Nas velhas Grécia e Roma era prática corrente, como na Índia (ver Kama-Sutra) e na China. No Islão clássico está praticamente ausente das obras literárias, o que não significa a sua inexistência. Por seu turno, os incas seriam largamente partidários desta forma de actividade sexual. No continente negro ela seria rejeitada (em tempos idos), mas não na Oceania, onde constituiria iniciação sexual. Leguay salienta ainda uma aceitação plena no Extremo-Oriente, mas não na Gronelândia.

O autor evoca depois o começo do mundo e o pecado original e faz alusão a Lilith, que Adão teria conhecido antes de Eva, e que terá sido a primeira feladora da História! E debruça-se depois sobre o conceito do pecado carnal, na perspectiva da Igreja Católica. Segundo esta, relações sexuais só com vista á procriação. O próprio onanismo foi fulminado durante séculos como atentatório da saúde e pecado mortal.

No capítulo "Les mots et les mets", é referido um tratado do mago Aleister Crowley (que se relacionou com Fernando Pessoa), de 1910, onde este apresenta 16 maneiras de fazer felação e é referida a correspondência entre o acto de comer e o de realizar felação. Assim, o gozo sexual seria equivalente ao prazer gastronómico. Ou seja, a boca, órgão da alimentação e da palavra seria também o do prazer sexual gratuito. «Le sperme est le mot du vocabulaire sexuel qui connaît le plus d'équivalences alimentaires: c'est le bouillon, la confiture, la crème, l'eau-de-vie (ou l'eau-de-vit!), le fromage, l´huile, la laitance, la liqueur, la semoule, le sirop... Donc, une substance destinée à être avalée.» (p. 120) . Escreve o autor: «Le sperme est un élixir, un nectar, une onction. Image sans cesse présente dans la littérature érotique: 'Je la remis dans ma bouche et la suçait très longuement, comme on suce son puce, le sein de sa mère, la vie, pendant qu'il gémissait et haletait, toujours, jusqu'à ce qu'il éjacule, dans une plainte aiguë, et que je boive son sperme, sa sève, son don.' (Alina Reyes, Le Boucher)» (pp. 121-122)

Seguem-se outras citações de obras, e uma referência ao apetite devorador que pode chegar à castração, como é o caso do filme de Nagisa Oshima, O império dos sentidos (1976). Depois, o autor analisa as relações sexuais com animais e dedica um capítulo às "Perversões". Remete-nos para os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Freud, onde este analisa o uso sexual das mucosas bocais e refere-se ao "phallus passif" evocado por Maria Bonaparte (que foi psicanalisada por Freud) em La Sexualité de la femme (1949)

Tratando da homossexualidade em especial, Leguay recorre a Le Sexe et l'Effroi, de Pascal Quignard, que analisámos em post anterior, e cita Renaud Camus, no seu livro Tricks: «Morgan a repris sans tergiverser sa posture antérieure, à genoux devant moi, mon sexe dans sa bouche. Il le suçait avec énormément de savoir-faire, complétant du pouce et de l'index l'oeuvre de ses lèvres et de sa langue, et se branlant de l'autre main. [...] je n'avais pas envie d'éjaculer dans sa bouche.» (p. 152)

É evocada ainda a auto-satisfação, lembrando a publicação em 1982, pelo jornal "Libération", de três fotografias de um homem nu, numa evidente proeza de ginástica, chupando-se a si mesmo. O livro refere ainda notícias dos séculos XIX e XX, em que alguns homens jovens praticavam felação activa e passiva com adolescentes.

O livro indica depois a felação representada em peças existentes em museus e apresentada em filmes. E debruça-se sobre as técnicas utilizadas quotidianamente na felação.

Termina com o fait-divers do presidente Clinton e com o episódio de Dominique Strauss-Kahn.

Há que reconhecer que a arrumação da matérias é um pouco confusa; esta obra necessitaria de um trabalho de edição. O próprio autor confessa no Post-Scriptum: «Un livre est avant tout une aventure. Loin de vouloir imposer un point de vue ou exposer un savoir, on va à la recherche de l'inconnu (en nous-mêmes aussi), dans le désir de l'offrir à quelques lecteurs. En ce sens, cette "histoire et géographie" de la fellation aura dessiné, pour moi, un voyage des plus séduisants, et des plus troublants, pour toutes les surprises et les questions découvertes au détour du chemin.»

sábado, 8 de fevereiro de 2020

GABRIEL MATZNEFF E AS FOGUEIRAS DA INQUISIÇÃO

 
 
 
O famoso escritor francês Pierre Assouline transcreveu hoje, no seu blogue "La république des livres", o artigo publicado também hoje, por Thomas Clerc, no jornal "Libération":
 
 

L'ÂGE PIVOT
 

par Thomas Clerc

Quel beau télescopage de l’actualité littéraire et politique : on est en France. Quoi qu’on pense de l’homme Gabriel Matzneff (et on en pense plutôt du mal ces jours-ci), on ne peut nier complètement l’auteur d’un journal pas désagréable à lire, où la pédophilie joue un rôle… mineur, entre potins littéraires et visites à Mitterrand (François), tout ce qui fait le sel d’un genre peu prisé aujourd’hui, remplacé par des blogs haineux ou fades. Matzneff appartient à un autre âge, celui de l’impunité de la littérature, mais aussi celui d’une certaine conception du débat. Appelons-le, en hommage à son incarnation, «l’âge Pivot».

En revoyant la fameuse émission d’Apostrophes sur YouTube, qui fait scandale trente ans après (décidément la littérature n’est pas contemporaine), j’ai d’abord été saisi par la qualité du débat. Contrairement à ce qu’affirment les atrocités sur Internet, l’émission, d’une sobriété tendue, n’est pas à la gloire de Matzneff, taclé avec courage par Denise Bombardier. Profitant du décalage culturel passionnant entre l’esprit des années 90 et celui du vieux monde, elle a toute latitude pour renverser en sa faveur la rhétorique suintante d’un lettré trop sûr de lui. Or qu’entend-on partout ? Que l’émission est «ignoble», que Pivot est le valet de Matzneff, qu’il n’aurait jamais dû inviter, etc. Bref, on souhaite la mort des débats comme des pervers. Le problème, c’est que la littérature est le fruit de leurs amours.

Apostrophes était une émission géniale : grâce à elle, j’ai fait mon éducation littéraire contemporaine pendant mes années de formation. Nous regardions religieusement et ironiquement tous les vendredis soir, ma mère et moi, la reconstitution d’un télé-salon. Matzneff est-il le seul à en avoir profité ? Des sourds croient entendre des rires de complaisance pendant l’intervention de Bombardier ; ils émanent surtout des invités cachés derrière les écrivains (Jardin reste coi) : à la différence d’aujourd’hui où le public est sommé d’applaudir dans une arène fascisante, les réactions du public d’Apostrophes n’engagent que leurs auteurs. On n’était pas aux jeux du cirque, mais à une époque où la parole était ouverte, pivotante. Le malaise qui s’installe grâce au direct fait partie du jeu de la parole, qu’il ne s’agit pas d’interdire, mais d’écouter.

Apostrophes a beaucoup fait pour la littérature, la démocratie et la télévision. Pivot, d’abord, laisse parler ses invités : le temps n’est pas encore une denrée rare. Or rien ne dit que laisser parler quelqu’un, c’est l’approuver. Si Pivot n’avait dû inviter que les écrivains qu’il aimait, il n’aurait pas fait ce noble métier de journaliste. Mais à l’heure des flics de la Toile d’araignées, l’opinion publique ne tolère que des gens purs. Grâce à l’âge Pivot, j’ai pu former mon œil à l’éthique de l’écrivain. Godard disait justement qu’à la télé, on voit si quelqu’un ment ou non. Ainsi le personnage Matzneff joue-t-il sans le savoir en sa défaveur, en vertu de ce qui échappe à tout sujet parlant : sa manière d’être, son langage, son image de dandy faisandé qui exhale une complaisance qu’on retrouve dans son Journal, où autrui n’existe que comme faire-valoir. Mais, dans le même moment, ce rôle détruit en live par le clash de Bombardier, produit un très beau morceau de télévision. C’est là l’essentiel, et non l’immoralité de Matzneff, qui ne choquait personne à une époque où la pédophilie était souvent tolérée : à quoi sert-il de critiquer l’esprit d’un temps qui n’est plus le nôtre ? Il faut vivre au présent : dans vingt ans, on crachera sur nos mœurs.

La sobre mise en scène d’Apostrophes fut la garantie de son succès, créant des moments d’anthologie télévisuelle qui sont restés dans la mémoire collective, idéal moribond d’une culture commune : ce fut Nabokov caché derrière une pile de livres et révélant qu’on pouvait être un grand écrivain et un piètre orateur, l’esclandre du jeune Nabe, les bégaiements de Modiano, Bukowski ivre, Pacadis ou Annie Le Brun rivant leur clou aux féministes, moments paralittéraires grandioses. L’âge Pivot est hélas révolu : en face, l’émission insipide de François Busnel, dont pas un seul moment n’a jamais marqué et ne marquera jamais les mémoires, en raison de sa soumission aux lois du marché et de l’autopromotion, fait regretter sinon les «trois milliards de pervers» dont parlait le pro-pédophile Michel Foucault, du moins les quelques écrivains qui ont l’ignorance de leur propre bassesse, révélée par un chef-d’œuvre télévisuel.

THOMAS CLERC
 

(dans Libération du 8 février 2020)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

AUTOBIOGRAFIA DE PEDRO CANAVARRO




Li, esta semana, o recém-publicado livro de Pedro Canavarro, A Casa de Pedro, que reconstitui pormenorizadamente o seu percurso pessoal e profissional, desde os mais tenros anos até aos dias de hoje.

O autor, que conta 82 anos, terá certamente uma memória privilegiada, pois a evocação que faz de situações ocorridas há muitas décadas, minuciosamente descritas, chegaria a causar-me inveja, se fosse um sentimento que eu cultivasse. Há uma outra hipótese: Pedro Canavarro terá alimentado um diário, registando, desde muito novo, os factos que menciona. Acresce que o livro se encontra recheado de fotografias, cartas, poemas e muito outro material, o que indicia que o autor coleccionou os elementos essenciais para publicar, já na casa dos oitenta, o seu livro de memórias.


Pedro Canavarro e Eu - Teatro Primeiro Acto (1983)

Conheci pessoalmente Pedro Canavarro em 1983, aquando da XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura do Conselho da Europa, de que ele era Comissário-Geral, sendo eu director do Teatro Primeiro Acto, onde organizei, com ele, um ciclo de colóquios sobre aquele evento, com a participação de todos os colaboradores da exposição. E dele guardo a melhor impressão como pessoa e como homem de cultura. Já lá vão quase quarenta anos, e desde então poucas vezes nos temos cruzado, ainda que tenha acompanhado a sua actividade, nomeadamente quando foi presidente do Partido Renovador Democrático (PRD), criado por inspiração do general Ramalho Eanes.

Regressando ao livro, de quase 500 páginas, ele encontra-se dividido em oito capítulos, reportados a lugares seleccionados e com os quais o autor se relacionou, com enquadramento nas diferentes etapas da sua vida.

Assim, temos:

- O Jardim: da Infância à Flor de Laranjeira (1937-1966)
- O Terraço: dos Amores-Perfeitos ao Império do Sol Nascente ( 1966-1968)
- A Biblioteca: do Saber ao Mal-me-quer, Bem-me-quer de Abril (1968-1979)
- A Casa de Jantar: Do Poder à Dança das Cadeiras (1980-1989)
- Salas: Vivências de Tudo e de Nada (1989-1999)
- Sala Passos Manuel: As Gerações Passo a Passo (Séculos XVI-XXI)
- Sala do Piano: Da Casa do Porco à Casa Museu (2000-2017)
- O Quarto: Sol-Pôr (2018-......)

[Não sei se intencionalmente, o livro não tem índice dos capítulos]

Não vou descrever aqui a trajectória de Pedro Manuel Guedes de Passos Canavarro, trineto de Passos Manuel e aparentado com algumas ilustres famílias portuguesas, mas importa salientar alguns aspectos desta sua autobiografia.

Em primeiro lugar os anos de infância e juventude, os pais, a ligação à velha Casa de Santarém (construída por Passos Manuel), hoje transformada por ele em Casa-Museu, o tempo em que cursou, em Lisboa, as Faculdades (Direito e depois Letras).

A seguir, o casamento, a ida para Tóquio como primeiro Leitor de português numa das universidades da capital nipónica, as viagens ao estrangeiro, o interesse pela Arte.

Depois, os filhos, o divórcio, a assunção da homossexualidade e os primeiros companheiros de vida.

Um momento relevante foi o exercício das funções de Comissário-Geral da XVII Exposição, uma realização de envergadura que, dadas as circunstâncias da minha actividade, acompanhei de perto. O espaço reservado pelo autor à descrição detalhada de como tudo aconteceu relativamente a este evento talvez seja excessivo para o leitor comum, mas será, para o autor, o indelével registo de um tempo.


Pedro Canavarro com Yasser Arafat - Tunis, 1993

Também importante a sua experiência como presidente do Partido Renovador Democrático e deputado ao Parlamento Europeu, ainda que a vida político-partidária tenha sido, segundo o autor, em certa medida decepcionante. Mas a condição de eurodeputado proporcionou-lhe muitas viagens (Canavarro teve o privilégio de muito viajar durante toda a sua vida), entre as quais uma ao Norte de África, para reuniões na Argélia (então com recolher obrigatório e onde ficou em casa do nosso embaixador Ruy de Brito e Cunha) e na Tunísia, país que achou com mentalidade muito mais aberta. Em Tunis, teve ocasião de encontrar Yasser Arafat (que aí estava exilado), com quem teve uma interessante conversa, considerada mesmo íntima. Também em Tunis, durante uma conferência de imprensa ministerial, revela-nos Pedro Canavarro um curioso episódio (p. 363). Trocando olhares cúmplices com um belo e jovem agente policial da segurança, abandonou por algum tempo a mesa da sessão onde se encontrava e dirigiu-se para o átrio do hotel para onde o rapaz logo a seguir se dirigiu. Aí puderam depois conversar em privado, num discreto recanto do hall, como era, aliás, intenção de ambos. [A Tunísia é um país de inesperados e frutuosos encontros e os tunisinos considerados como dos mais simpáticos e amáveis árabes do Norte de África (não sei se hoje ainda é exactamente assim), razão porque, antes da revolução da "primavera árabe", a sua taxa de turismo aumentava de ano para ano. André Gide, já há um século, escreveu sobre as virtudes do povo tunisino e Michel Foucault chegou a ser professor na Universidade de Tunis.]

Também durante a permanência em Estrasburgo e Bruxelas, Canavarro visitou váris vezes a Holanda e a Alemanha, especialmente Bona, onde era nosso embaixador o seu amigo António Pinto da França. Refira-se também a estada de Canavarro na Grécia, onde teve a oportunidade especial de ficar alguns dias no Monte Athos, local de mosteiros bizantinos apenas acessível por mar, que tem um privilégio de extraterritorialidade (depende do Patriarca de Constantinopla)  e onde só podem penetrar homens. «Não é permitido o acesso sequer a uma galinha» (p. 370)

De regresso a Portugal, o autor resolveu fixar-se em Santarém, dedicando-se à Associação de Defesa do Património e ao Círculo Cultural Scalabitano. E também à Casa da Europa do Ribatejo. Refere também um bar que decidiu abrir em Santarém mas que foi obrigado a encerrar tempos depois, devido ao grande número de drogados que o frequentavam e começavam a perturbar a tranquilidade do lugar. Era uma época em que proliferavam nas ruas muitos drogados.

Em 1999, utilizando parte da sua fortuna, entretanto já reduzida por motivo de sucessivas partilhas mas ainda significativa, Pedro Canavarro decide constituir uma fundação para perpetuar a sua experiência de vida e a lembrança e o património restante da família. Ela será oficializada em 2000, com a designação Fundação Passos Canavarro - Arte, Ciência e Democracia. Ficará instalada na velha casa de Santarém, onde viveu Passos Manuel e por onde passou Almeida Garrett, doravante uma Casa-Museu, albergando o rico espólio familiar.

Em 2007, Canavarro celebrou o seu 70º aniversário,  com um jantar íntimo de família, antecipado por um almoço com os antigos empregados da casa e seus familiares. E, logo a seguir escreve: «No dia seguinte, partimos os dois para um local mágico, Veneza, onde não ia há mais de três décadas, em função de uma história, já relatada nos anos 70, deliberando, então, não voltar a essa cidade, já que a havia visitado, embora sozinho, numa atitude tão grande e intensa de amizade platónica. Após ver e ouvir, no Fenice, a "Morte em Veneza", de Benjamin Britten, jurei não mais voltar, a não ser que fosse de uma forma completamente distinta, ou seja, num acto de amor. Só uma tal atitude é que podia ultrapassar todo esse passado de amizade e morte.» (p. 443). Mas Canavarro não diz com quem foi, por distracção ou omissão.

O autor refere também insistências junto da Academia Nacional de Belas Artes, no sentido de motivar o interesse desta na trasladação de seu trisavô, Passos Manuel, para o Panteão Nacional. De facto, não faz o mínimo sentido que Passos Manuel, fundador desta Academia e do Panteão Nacional, não permaneça ali sepultado, quando já lá se encontram, com muito menos, ou nenhuma, justificação Humberto Delgado, Amália Rodrigues, Eusébio e Sophia de Mello Breyner.

A Casa-Museu de Santarém foi inaugurada em 14 de Maio de 2010, com a presença do Secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle e de outras personalidades. 

O livro termina com a reflexão do autor sobre o Quarto onde nasceu e onde espera morrer. Oportunidade para relembrar a vida já passada, meditando junto ao Cristo outrora oferecido por sua mãe.




A Casa de Pedro é um livro muito interessante, ainda que porventura demasiado extenso para o leitor comum. Compreendo bem a preocupação de Pedro Canavarro em registar com pormenor os passos da sua já longa vida, uma vida que se pode considerar bem vivida, recheada de sensações e aventuras, pontuada por inúmeras visitas ao estrangeiro e pelo conhecimento de algumas das mais importantes figuras suas contemporâneas. Uma vida vivida na cultura. Mas creio que tal detalhe é inimigo de uma abrangência global mais útil para a compreensão da sua actividade. A páginas tantas, o leitor fica um pouco perdido nos detalhes que o autor refere. Eu sei que se trata de uma autobiografia, mas que por vezes releva mais de um diário e, no que à vida pública respeita, de uma espécie de relatório, talvez deformação provocada por tudo o que Pedro Canavarro teve de escrever a propósito dos muitos lugares que desempenhou.

São relevantes os factos que menciona relativamente à sua vida privada, que deve ter sido muito rica, mas neste campo as evocações são escassas. Poderia o livro resultar mais estimulante se fosse dado um lugar de maior importância ao império das paixões e dos sentidos (Canavarro é um apaixonado do Japão) em detrimento das minúcias da vida pública.

Mas há que reconhecer uma certa coragem ao revelar alguns dos seus episódios homo-afectivos, embora o faça sendo já octogenário, dado que a nossa sociedade, apesar das aparências, é ainda profundamente conservadora. Recordo, a propósito, que o grande escritor Julien Green, que manteve um diário desde os seus 20 anos, e que morreu, em 1998, prestes a concluir os 98 anos, apenas permitiu a publicação em vida das partes expurgadas do seu Journal, e que as edições sucessivas, a cargo dos herdeiros, mantiveram essa mesma reserva. Só em finais do ano passado foi editada, pela primeira vez, a versão integral dos primeiros 20 anos desse diário, em que são mencionadas, com o pormenor adequado, todas as aventuras sexuais do escritor, nos mais inimagináveis lugares e com os mais improváveis parceiros, bem como as suas conversas com os grandes escritores franceses seus contemporâneos, maxime com André Gide, quase todos eles também homossexuais.

Terminada a leitura, colhi a impressão de que a narrativa se encontra mais bem estruturada no que consideraria a primeira metade do livro, o que contribui para sustentar a minha convicção que as páginas relativas aos primeiros tempos foram escritas em ocasião anterior ao resto do livro. Numa segunda metade, há por vezes alguma confusão cronológica e desnecessárias repetições, o que, todavia, não retira o valor da obra.


REGISTA-SE QUE PEDRO CANAVARRO UTILIZA A VERDADEIRA ORTOGRAFIA PORTUGUESA, NÃO SACRIFICANDO NO ALTAR DO INFAME ACORDO ORTOGRÁFICO 90, PERPETRADO ESPECIALMENTE POR MALACA CASTELEIRO E QUE CONTOU COM A CUMPLICIDADE DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA E DO GOVERNO PARA A SUA PROMULGAÇÃO E RATIFICAÇÃO.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O REINO UNIDO E A EUROPA




Depois de um atribulado processo, o Reino Unido deixou oficialmente, a partir de hoje, de fazer parte da União Europeia. Haverá um período de transição, cujo desenvolvimento é imprevisível, e, em seguida, uma separação mais ou menos absoluta, consoante a conclusão das negociações.

A finalização do Brexit terá certamente consequências na estrutura política do Reino Unido. A mais óbvia será a próxima independência da Escócia. Em 2014, teve lugar um referendo sobre a questão, vencendo os partidários da manutenção no Reino Unido por uma ligeira percentagem. Sendo os escoceses maioritariamente favoráveis à permanência na União Europeia, a primeira-ministra da Escócia avançou já com a ideia de um novo referendo que, para ser legal, deverá ser aprovado pelo governo de Londres. Boris Johnson manifestou-se contrário e sugeriu um prazo de duas gerações. Creio que serão dois anos e não duas gerações, dependendo da pressão que a Escócia exercer nesse sentido. Não penso que a Escócia pretenda mudar o regime, isto é, continuará a aceitar como chefe do Estado o monarca britânico, mas desejará ter um governo autónomo, uma vez que as competências do governo e do parlamento de Edimburgo são limitadas. Todavia, pode prevalecer a tentação republicana. O futuro o dirá.

A Irlanda do Norte (o Ulster) é outro problema, já que vai ficar numa situação híbrida face à União Europeia, decorrente das suas fronteiras serem ou marítimas ou terrestres junto ao Eire. Esbatidas que são as diferenças entre católicos e protestantes, afigura-se provável que o Ulster venha a ser integrado na República da Irlanda.

Quanto ao País de Gales, parece não surgirem por agora problemas sobre uma desejada autonomia.

Perfila-se também no horizonte, mas nada tendo a ver com o Brexit, uma outra alteração na monarquia britânica. Na sequência do desmembramento do Império Britânico, foi criada a figura jurídica de Domínio, que foi então aplicada ao Canadá, à Austrália, à Índia e à África do Sul. Os dois últimos territórios evoluíram rapidamente para repúblicas, ainda que no seio da Commonwealth. O Canadá e a Austrália, embora com governo próprio, dotado de plenos poderes, mantiveram o regime monárquico, sendo o soberano britânico representado por um governador-geral. Perspectiva-se, porém, a ideia de que, por morte da rainha Isabel II, os dois países, através dos instrumentos jurídicos adequados, proclamarão a república, não obstando a que permaneçam na Commonwealth.

Assim sendo, a Monarquia Britânica ficará praticamente reduzida à Inglaterra e País de Gales. Que novo nome adoptará, concretizando-se todas estas modificações? Reino Unido de Inglaterra e Gales não faz sentido porque Gales é um principado. Então, talvez só, como antigamente, e como sempre muita gente disse e continua a dizer: Inglaterra.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CORONAVÍRUS, A GLOBALIZAÇÃO DA DOENÇA




A declaração de uma situação de emergência internacional por parte da Organização Mundial de Saúde, devido à rápida propagação do coronavírus, aparecido numa cidade da China, em circunstâncias ainda não identificadas, obriga-nos a reflectir sobre os benefícios da globalização.

Desde o início deste século que a globalização tem sido incensada como o último estádio civilizacional, uma espécie de "fim da História" na terminologia de Fukuyama. Com a desregulação dos mercados, patrocinada pelo tandem Reagan/Thatcher, começou a operar-se a globalização económica e financeira do planeta, com todas as implicações daí decorrentes, mais evidente na União Europeia, dada a livre circulação de pessoas e bens. Tem sido também relevante a deslocalização dos serviços, a que há a acrescer o espantoso incremento conferido ao turismo de massas nos últimos anos, com a multiplicação de ligações aéreas entre todos os países. A Terra move-se, como diria Galileu, ou, mais prosaicamente, as pessoas movem-se na superfície terrestre.

Regista a história muitas epidemias no passado, algumas que são já dos nossos dias. Mas parece, e ainda estamos no princípio, que não foi acautelada a possibilidade de uma epidemia supostamente muito contagiosa se desenvolver num país com mais de mil milhões de habitantes e cujos cidadãos se deslocam pelos cinco continentes.

Tanto quanto sabemos, a cidade onde terá tido origem este surto epidémico (com uma população superior à de Portugal) encontra-se encerrada ao exterior, completamente paralisada, e dentro da própria China foram entretanto adoptadas medidas drásticas para evitar o progresso da contaminação. Mas o vírus foi já detectado noutros continentes e a sua disseminação ameaça colocar cidadãos, cidades, ou até mesmo países em situação de quarentena. 

Parece que a nova ordem internacional, na sua hubris alucinada, não previu que os proveitos da globalização poderiam estar sujeitos aos malefícios de uma "mercadoria" invisível, não constante de acordos ou tratados e dispensando passaportes ou vistos para a sua circulação.

É evidente que o país económica e socialmente mais afectado será, para já, a China, e não deixará de haver quem pense tratar-se este vírus de uma conspiração contra a emergência de Pequim como a nova superpotência mundial.

Ouvi, há momentos, que está um navio de cruzeiro, com centenas de passageiros, impedido de atracar em Civittavecchia (o porto de Roma) porque se encontram a bordo dois passageiros chineses supostamente contaminados. [Civittavecchia, exactamente o porto por onde Floria Tosca queria fugir de Roma com Mario Cavaradossi, mas isso é uma história de Sardou e Puccini]. Se vier a verificar-se, nos próximos dias, uma vertiginosa propagação do vírus, acontecerá que deixaremos de poder circular pelo mundo como até aqui. E por quanto tempo?

Estas são perguntas a que ninguém antecipou respostas. Mas que se trata de um sério problema, isso é indesmentível. De um problema e de um aviso!


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

SENATUS POPOLUSQUE ROMANUS




Um das obras importantes sobre a história de Roma Antiga é o livro SPQR, da académica britânica Mary Beard (n. 1955). A sigla SPQR significa "Senatus PopolusQue Romanus", isto é, "O Senado e o Povo Romano". Era a insígnia que figurava nos estandartes das legiões, e também nas moedas e em vários documentos e monumentos. Começou a ser usada no início da República Romana, continuou a figurar durante o Império,  e simbolizava a união da cidade e do povo.

O estudo da história de Roma é capital para a compreensão da Civilização Ocidental. Tal como o estudo da Grécia Antiga, cujo legado Roma parcialmente absorveu. E o mesmo se diga das civilizações orientais, que transmitiram às clássicas um saber e um gosto em que ainda hoje nos revemos.

Escreve Mary Beard no Prólogo da sua obra: «Roman history is always being rewritten, and always has been; in some ways we know more about ancient Rome than the Romans themselves did. Roman history, in other words, is a work in progress. The book is my contribution to that bigger project; it offers my version of why it matters. SPQR takes title from another famous Roman catchphrase, Senatus PopolusQue Romanus, "The Senate and People of Rome". It is driven by a personal curiosity about Roman history, by a conviction that a dialogue with ancient Rome is still well worth having and by the question of how a tiny and very unremarkable little village in central Italy became so dominant a power over so much territory in three continents.

This is a book how Rome grew and sustained its position for so long, not about how it declined and fell, if indeed it ever did in the sense that Gibbon imagined. There are many ways that histories of Rome might construct a fitting conclusion; some have chosen the conversion of the emperor Constantine to Christianity on his deathbed in 337 CE or the sack of the city in 410 CE by Alaric and his Visigoths. Mine ends with a culminating moment in 212 CE, when the emperor Caracalla took the step of making every single free inhabitant of the Roman Empire a full Roman citizen, eroding the differences between conqueror and conquered and completing a process of expanding the rights and privileges of Roman citizenship that had started almost thousand years earlier.»

O livro inicia-se com Cícero e a conspiração de Catilina. Passa depois a Rómulo, à fundação de Roma e ao tempo dos reis. Percorre a seguir a República e a expansão de Roma. Debruça-se sobre os políticos e as suas lutas e chega ao Império. São depois analisadas as transformações introduzidas por Augusto e revisitados os seus sucessores. É estudada a vida em Roma e nos territórios do Império. Tudo explicado em 600 páginas, porque a matéria é vasta.

O Epílogo é dedicado ao Primeiro Milénio Romano. A autora escreve no último parágrafo: «We do the Romans a disservice if we heroise them, as much as if we demonise them. But we do ourselves a disservice if we fail to take them seriously - and if we close our long conversation with them. This book, I hope, is not just a History of Ancient Rome but part of that conversation with its Senate and People: SPQR


A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO




Embarcado que estou nesta onda romana, aproveito para mais uma vez recorrer à sabedoria de Michael Grant, autor de diversas obras sobre a antiga Roma, matéria em que é um dos maiores especialistas a nível mundial.

Referi anteriormente o seu livro sobre os imperadores romanos; é agora ocasião de inquirir porque caiu, de forma aparentemente pouco perceptível, o Império Romano (do Ocidente).

A melhor resposta encontra-se na introdução do seu livro The Fall of the Roman Empire (1976, revisto em 1990). A minha edição é de 1996.

Escreve o autor: «The fall of the Western Roman Empire was one of the most significant transformations (a favourite word for the whole process, especially in Germany) throughout the whole of human history.A hundred years before it happened, Rome was an immense power, defended by an immense army. A hundred tears later, power and army were vanished. There was no longer any Western Empire at all. Its territory was occupied by a group of German kingdoms.

Hundreds of reasons have been suggested for the collapse of the Roman West. Some indications of their variety can be obtained from reading Edward Gibbon's superb and never truly superseded History of the Decline and Fall of the Roman Empire (1776-88). He lists at least two dozzen supposed causes of that decline and fall - military, political, economical, and psychological. Many of these "causes" will be referred to in the pages that follow. But the historian himself made no attempt to marshal them one against another, or choose between them. That is rather disconcerting for the reader who is searching for quick answers. But it also shows a good deal of prudence. For an enormous, complex institution like the Roman Empire could not have been obliterated by any single, simple cause.

It was brought down by two kinds of destruction: invasions from outside, and weakness that arose within. The invasions are easy to identify, and they will be described in the preliminary section of the present volume. However, they were not sufficiently formidable in themselves to have caused the Empire to perish.

It perished because of certain internal flaws which prevented resolute resistence to the invaders: and the greater part of this book will be devoted to discovering those flaws.

I have identified thirteen defects which, in my view, combined to reduce the Roman Empire to final paralysis. They display a unifying thread: the thread of disunity. Each defect consists of a specific disunity which split the Empire wide apart, and thereby damaged the capacity of the Romans to meet external aggressions. Heaven forbid that we ourselves should have a monolithic society without any internal disunities at all, or any differences of character or opinion. But there can arrive a time when such differences become so irreconcilably violent that the entire structure of society is imperilled. Thar is what happened among the ancient Romans. And that is why Rome fell.

This theme has always attracted keen interest, largely because of the guidances and warnings it is supposed to offer to later generations, and this relevance has never seemed more visible than today. Britain thinks of its vanished empire. The United States of America think of their current leadership, and of how it might be in danger of coming to an end. The Soviet Union seems to be showing at this very moment how smaller peoples break away from empires. France is the country where, in ancient times, this first happened. Germany spans the east-west border, and is very conscious os its role as the destroyer of the Western Roman Empire. Italy is the country where that empire ruled and fell. And so on. I have not, in this revised edition, attempted to flag or discuss every echo, every sililarity. But one or another of them, in various parts of the world, readily leaps to the eye.»

[A propósito do último parágrafo, recorde-se que esta Introdução foi escrita em 1990]

As treze falhas apontadas por Michal Grant encontram-se detalhadas nos capítulos do livro:

I - THE FAILURE OF THE ARMY
1 - The Generals against the State
2 - The People against the Army

II - THE GULFS BETWEEN THE CLASSES
3 - The Poor against the State
4 - The Rich against the State
5 - The Middle Class against the State

III - THE CREDIBILITY GAP
6 - The People against the Bureaucrats
7 - The People against the Emperor

IV - THE PARTNERSHIPS THAT FAILED
8 - Ally against Ally
9 - Race against Race

V - THE GROUPS THAT OPTED OUT
10 - Drop-outs against Society
11 - The State against Free Belief

VI - THE UNDERMINING OF EFFORT
12 - Complacency against Self-Help
13 - The Other World against This World

Antes de entrar nos capítulos acima indicados, Grant apresenta um resumido "Historical Survey of the Roman Empire". E conclui a obra com dois apêndices (Some Religious Disunities e Why Did the Eastern and Not the Western Empire Survive?), uma List of Emperors and Popes, um A Who's Who of Ancient Writers e uma lista de Some Books on the Decline and Fall. Além de uma profusão de elucidativos mapas.



 O livro de Edward Gibbon (1737-1794), acima referido por Michael Grant, é sem dúvida um monumento de erudição e a obra mais importante que se escreveu sobre a queda de Roma. A ela foram beber todos os historiadores posteriores e ela mantém em geral plena actualidade, apesar de ter sido escrita há mais de duzentos anos. 

A minha edição em língua inglesa (1998) inclui os 71 capítulos, ainda que alguns não integralmente transcritos, e mesmo assim ocupa mais de 1.000 páginas, impressas em letra miudinha.



 Existe uma tradução portuguesa (mais resumida) publicada em dois volumes, o I de 1994 e o II de 1995, Declínio e Queda do Império Romano, que segue a versão inglesa organizada por D.M. Low, em 1960.

Não permite o espaço entrar em pormenores sobre a obra de Gibbon, publicada inicialmente em seis volumes e cobrindo quinze séculos de história (abrange também o Império Romano do Oriente). As suas opiniões religiosas - e o livro está delas recheado devido ao próprio objecto estudado - reflectem um certo espírito britânico da época: uma crítica ao Cristianismo, considerado mais intolerante do que o Paganismo, palavras muito duras para com os Judeus (o que o levou a ser acusado de anti-semitismo) e considerações pouco favoráveis ao Corão.