quarta-feira, 15 de abril de 2015

EVOCAÇÃO DO "ORPHEU"




Realizou-se hoje na Academia das Ciências de Lisboa uma sessão comemorativa do centenário da publicação do nº 1 da revista "Orpheu", dirigida por Luiz de Montalvôr (Portugal) e Ronald de Carvalho (Brasil), editada por António Ferro, e que contou com a colaboração de Luiz de Montalvôr, Mário de Sá-Carneiro, Ronald de Carvalho, Fernando Pessoa, Alfredo Pedro Guisado, José de Almada-Negreiros, Côrtes Rodrigues e Álvaro de Campos (conforme Sumário), sendo a capa desenhada por José Pacheco.


O programa da sessão apresenta-se abaixo:


Oportunamente teceremos algumas considerações sobre as intervenções produzidas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

GÜNTER GRASS




Morreu hoje, em Lübeck, com 87 anos,  o escritor alemão Günter Grass, uma das mais importantes figuras da literatura alemã do pós-Guerra e também uma das mais controversas.

Autor de vasta obra (romancista, poeta, dramaturgo mas também artista plástico), tornou-se mundialmente famoso por Die Blechtrommel (O Tambor), publicado em 1959 e que Volker Schlöndorff, em 1979, adaptou ao cinema.

Em 2006, no primeiro volume das suas memórias, Beim Häuten der Zwiebel (Descascando a cebola), declarou ter pertencido na sua juventude às Waffen-SS do regime nazi, revelação que provocou algum mal-estar por ter sido considerada tardia.

Colaborou com o chanceler Willy Brandt mas foi mais tarde um activo opositor da reunificação alemã, com o sentido premonitório de que a Alemanha procuraria estabelecer de novo a sua hegemonia sobre o continente europeu. Era também inimigo declarado do Estado de Israel, que considerava uma ameaça à paz mundial, e um contundente adversário da política de Angela Merkel, conforme publiquei aqui em 28 de Maio de 2012.

Membro da Academia das Artes de Berlim, recebeu várias distinções literárias, entre as quais o Prémio Georg Büchner, em 1965, o Prémio Hermann Kesten, em 1995, o Prémio Literário Príncipe das Astúrias, em 1999 e o Prémio Nobel da Literatura, também em 1999.

Ao longo da sua carreira de escritor e de activista político, foi considerado, quer por compatriotas, quer no mundo, como a figura que incarnava a "consciência moral" da Alemanha.

domingo, 12 de abril de 2015

RECORDANDO ANTÓNIO FERRO

Devido a várias solicitações, e porque António Ferro volta a ser notícia, quando se completam 120 anos sobre o seu nascimento, reedito o post publicado em:

 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


ANTÓNIO FERRO


Passam hoje 114 anos sobre o nascimento de uma das mais interessantes figuras da vida político-cultural do século XX português: António Ferro.

Homem de pensamento e de acção, possuidor de um multifacetado talento, Ferro é o vanguardista que edita o Orpheu, o jornalista que percorre a Europa, o Brasil, os Estados Unidos, recolhendo o testemunho das mais célebres personagens da época, o inspirador e impulsionador de uma política cultural que, independentemente do ângulo por que se perspective, constituiu até hoje a única tentativa séria, consistente e duradoura de promover com o apoio do Estado a criação e a divulgação artística e literária.

A sua permanência à frente do Secretariado da Propaganda Nacional (S.P.N.), mais tarde Secretariado Nacional de Informação (S.N.I.), ao longo de 17 anos (1933-1950), permitiu-lhe fomentar a criatividade dos autores portugueses, nas artes e nas letras, difundir as correntes modernistas estrangeiras e estabelecer as estruturas básicas de uma acção cultural a nível nacional. O trabalho de Ferro abrange campos tão diversos como as artes plásticas, o teatro e o cinema, a música e o bailado, a poesia e a literatura em geral, a rádio, o turismo, o cartazismo, a arte de expor. Arquitecto da “política do espírito”, António Ferro é um homem de “bom gosto” que serve um Regime (o de Salazar) e que se serve do Regime para impor convicções próprias, nem sempre consonantes com a Figura Tutelar (mas que esta inteligentemente aceita até entender que não é possível prosseguir a coexistência de orientações que na ordem estética e no plano prático (por exemplo a Censura) ameaçam uma fissura no edifício do Estado Novo. Nunca ficou devidamente esclarecida a saída de Ferro do S.N.I. para a Legação de Portugal em Berna. Não teria de o ficar publicamente, para mais naquela época, mas mesmo em conversas com os filhos, há um quarto de século, nada consegui adiantar, porque no fundo estes também nada sabiam, para além do desejo do pai em ocupar um posto mais tranquilo.

Ao longo de três décadas, António Ferro é, de facto, uma figura intrinsecamente polémica, que desencadeia ódios e paixões, privilégio, aliás, daqueles que, sabendo o que querem, são os únicos capazes de despertar interesse na paisagem monótona e cinzenta das unanimidades castradoras. Navegando entre as tendências modernistas da sua juventude, em que acompanha Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o entusiasmo pelos regimes fortes, que o leva a admirar Mussolini, e o desejo de realizar em Portugal um renascimento cultural, que tenta com o apoio inequívoco de artistas e escritores e o apoio condicional de Salazar, primeiro, e com uma já translúcida oposição de parte da intelligentsia nacional e uma cautelosa reserva de Salazar, depois, António Ferro prossegue a (sua) política do espírito, discutível, sem dúvida, mas merecedora do reconhecimento nacional. Ele foi, avant la lettre e “avant Malraux”, o nosso primeiro ministro da Cultura.

* * *
Não é possível dar conta, aqui, da vida e obra (obra literária e obra de política cultural) de António Ferro. Por isso, limitar-me-ei a algumas indicações, escusando-me, desde já, das omissões indesejáveis:

Em 1895 nasce em Lisboa, a 17 de Agosto, filho de António Joaquim Ferro e de Maria Helena Tavares Afonso Ferro.

Em 1912, com 17 anos, publica (em colaboração com Augusto Cunha) Missal de Trovas, livro de quadras ao gosto popular.

Em 1913 escreve poesia e teatro, textos que se perderam. A esse respeito, Fernando Pessoa anota no seu diário, em 30-3-1913: “Das 2 ¼ às 4 ½ em casa de António Ferro a ouvir-lhe três (?) peças. – Leu duas. – Depois para a Baixa com ele.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, pág. 55 – Edições Ática, 1966). Ingressa na Faculdade de Direito, que frequentará até 1919, não tendo concluído o curso, que será preterido a favor do jornalismo.

Em 1915 é editor da revista Orpheu que, fundada por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, etc., constitui o marco inicial do modernismo em Portugal e da qual são publicados apenas dois números. Segundo Alfredo Guisado, um dos seus directores, convém que (o editor) seja ele (António Ferro) porque é menor e se surgir qualquer complicação a sua responsabilidade não tem consequências

Cinema Olympia

Em 1917, a 1 de Junho, profere no Salão Olímpia (que mais tarde, já velho cinema de reprise, se notabilizaria por outro tipo de espectáculos) a conferência As grandes trágicas do silêncio, dedicada às três maiores artistas do cinema mudo italiano, Francesca Bertini, Pina Menichelli e Lyda Borelli. Trata-se de uma manifestação histórica, por ter sido a primeira conferência sobre cinema pronunciada em Portugal, sendo editada nesse mesmo ano.


Em 1918 parte para Angola como oficial miliciano, sendo nomeado ajudante do governador-geral, o comandante Filomeno da Câmara, que pouco depois o nomeia (aos 23 anos), secretário-geral da Província.

Em 1919, regressado a Lisboa, é nomeado chefe de redacção de O Jornal.


Em 1920 é redactor de O Século e publica Árvore de Natal e Teoria da Indiferença, livro que o lança como escritor. Desloca-se ainda a Fiume para entrevistar Gabriele d’Annunzio.


Em 1921 publica Colette, Colette Willy, Colette e a famosa Leviana, que o consagra como modernista e mesmo futurista, e ainda o manifesto Nós, que mais tarde constituirá a contribuição portuguesa para o modernismo brasileiro.


Em 1922 publica Gabriele d’Annunzio e Eu, que reúne as reportagens, entrevistas e conversas com o grande poeta italiano. Faz crítica teatral no Diário de Lisboa, é director da Ilustração Portuguesa e escreve a peça Mar Alto. Desloca-se ao Brasil com a Companhia Lucília Simões/Erico Braga e casa por procuração com a poetisa Fernanda de Castro (a cerimónia em Lisboa tem lugar na Igreja de Santa Isabel, com o cunhado Augusto Cunha a servir de duplo do noivo, sendo testemunha no Brasil a actriz Lucília Simões) que pouco depois vai reunir-se com ele no Rio de Janeiro. A 18 de Novembro, Mar Alto estreia-se no Teatro Sant’Ana, em S. Paulo, cidade onde Ferro profere as conferências A Idade do Jazz-Band e A Arte de Bem Morrer, posteriormente editadas em livro. A peça é depois representada no Teatro Lírico do Rio de Janeiro.
Fernanda de Castro

Em 1923 prossegue a tournée de conferências no Brasil e publica Batalha de Flores, em edição brasileira. José Lins do Rego e Carlos Drummond de Andrade dedicam-lhe entusiásticos artigos. A 10 de Julho Mar Alto tem a sua estreia em Lisboa, no Teatro de São Carlos. O argumento provoca um escândalo, há apupos e discussões exaltadas e para acalmar a tempestade o próprio Ferro é obrigado a vir à boca de cena. No dia seguinte a peça é proibida pelo governador civil de Lisboa, o que dá origem a um protesto dos escritores portugueses dirigido ao então presidente do Conselho de Ministros e ministro do Interior António Maria da Silva, subscrito por Raul Brandão, António Sérgio, Fernando Pessoa, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Alfredo Cortez, João de Barros, Luís de Montalvor, etc. Em Agosto a proibição é levantada mas a peça só voltará a subir á cena em 1984. Ainda neste ano entrevista Mussolini em Roma, no Palácio Chigi. A 14 de Julho, nasce o primeiro filho do casal, o futuro escritor António Quadros.

António Quadros
Em 1924 é publicado Mar Alto.


Em 1925, dedicado á memória de Mário de Sá-Carneiro, é publicado A Amadora dos Fenómenos. Funda com José Pacheco o Teatro Novo, a primeira tentativa de um teatro português de vanguarda, que funcionará no foyer do Cinema Tivoli, de saudosa memória. São apresentadas as peças Knock, de Jules Romain e Para Cada Um Sua Verdade, de Pirandello e programadas peças de Almada Negreiros, Bernard Shaw, Jean Cocteau, Tchekov, Alfredo Cortez, Carlos Selvagem, etc., mas dificuldades económicas impedirão a continuidade da iniciativa.

Cinema Tivoli

Em 1927 publica Viagem à Volta das Ditaduras, com as entrevistas e reportagens que fizera na Itália (Pio XI, Ezio Garibaldi, Mussolini), em Espanha (Jacinto Benavente, Primo de Rivera) e na Turquia (Kemal Atatürk). 



Em 1929 publica Praça da Concórdia, reunindo entrevistas realizadas em Paris entre 1924 e 1926.


Em 1930 publica Novo Mundo, Mundo Novo, reunindo reportagens efectuadas nos Estados Unidos em 1927.

Em 1931 publica Hollywood, Capital das Imagens, incluindo as reportagens e entrevistas efectuadas na capital americana do cinema.
Salazar e António Ferro

Em 1932 estreia no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a sua peça O Estandarte, com alguns dos melhores actores portugueses da época. E realiza para o Diário de Notícias as cinco famosas entrevistas com Salazar, em que este expõe as linhas gerais do seu programa político. No mesmo jornal, publica o artigo Política do Espírito, em que esboça os princípios de um novo tipo de acção cultural.


Em 1933 publica Prefácio da República Hespanhola, que é o inquérito realizado em 1930 para o Diário de Notícias em que entrevistara Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Ramón del Valle-Inclán, etc. Organiza em Lisboa o primeiro Congresso da Crítica Dramática e Musical, com a presença de Pirandello, Vuillermoz, Robert Kemp, etc. e publica Salazar. O Homem e a sua Obra, em que reúne as citadas entrevistas ao Chefe do Governo, livro imediatamente traduzido para francês, inglês, espanhol, italiano, polaco, etc. É convidado por Salazar para dirigir um novo organismo, o Secretariado de Propaganda Nacional (S.P.N.).

Sociedade Nacional de Belas Artes
Em 1934, na primeira festa de distribuição dos Prémios Literários do S.P.N., define a sua política do espírito, que será, disse, não só a defesa material da inteligência, da literatura e da arte e o apoio aos artistas e aos pensadores, mas também uma política que se oponha fundamental e estruturalmente à política da matéria, proclamando a independência do espírito.

Em 1935 organiza a I Exposição de Arte Moderna, anunciando, na Sociedade Nacional de Belas Artes, a sua intenção de apoiar sobretudo os artistas de vanguarda. Respondendo-lhe em nome dos premiados, Almada Negreiros afirma: “Mais do que com júbilo, é com grande respeito que vejo pela primeira vez na minha terra os poderes públicos ao lado da arte mais nova de Portugal”.

Em 1936 inaugura o Teatro do Povo, sob a direcção de Francisco Lage e de Ribeirinho. Convida um grupo de intelectuais a visitar Portugal, tendo aceite o convite Miguel de Unamuno, Pirandello, Maurice Maeterlinck, Gabriela Mistral, François Mauriac, Georges Duhamel, etc.

Em 1937 é comissário da Exposição de Paris, organizando o Pavilhão de Portugal com Keil do Amaral, Bernardo Marques, Carlos Botelho, Tom, Estrela Faria, Manuel Lapa, etc. Promove os Cinemas Ambulantes que iniciam a sua actividade, percorrendo as vilas e aldeias do país.

Em 1939 promove o Concurso da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, que não voltará a ser repetido, e cujo troféu, o Galo de Prata, é atribuído a Monsanto.

Exposição do Mundo Português
Em 1940 é secretário geral dos Centenários, sendo também responsável pelo Pavilhão de Portugal na Exposição do Mundo Português. Ainda neste ano, estreia-se no Teatro da Trindade o Grupo de Bailado Verde Gaio, que António Ferro imaginou segundo Os Bailados Russos de Diaghilev.

Em 1941 publica Homens e Multidões, reunião de entrevistas e reportagens sobre Franz Lehar, Lloyd George, o rei Afonso XIII de Espanha, a rainha Maria da Roménia, Primo de Rivera, o rei Leopoldo III da Bélgica, o Papa Pio XI, Mussolini e Salazar. É nomeado presidente da Direcção da Emissora Nacional e assina o I Acordo Cultural Luso-Brasileiro.

Em 1942 começa a ser publicada (até 1950) a revista luso-brasileira “Atlântico”, de que é o director português. Apresenta o plano das Pousadas de Turismo, aquando da inauguração da primeira, em Elvas.

Em 1943 é lançada a revista de arte e turismo “Panorama”, publicada pelo S.P.N., com direcção literária do poeta Carlos Queiroz e artística do pintor Bernardo Marques. O Grupo Verde Gaio estreia no Teatro de São Carlos o bailado D. Sebastião, com argumento de Ferro, música de Ruy Coelho, coreografia de Francis e cenários de Carlos Botelho e Milly Possoz.

Em 1944 o S.P.N. é remodelado e passa a designar-se Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (S.N.I.), continuando a ser dirigido por António Ferro.

Em 1945 iniciam a sua actividade as Bibliotecas Ambulantes do S.N.I.

Em 1946 o S.N.I. e o Círculo Eça de Queiroz, fundado por António Ferro, promovem as comemorações do centenário do nascimento do grande romancista português.

Palácio Foz

Em 1947 o S.N.I. instala-se no Palácio Foz.

Em 1948 é inaugurada nas novas galerias do Palácio Foz a Exposição “Catorze Anos de Política do Espírito”, procedendo Ferro a um balanço da sua obra à frente do S.P.N./S.N.I. É inaugurado o Museu de Arte Popular, em Belém, e é promulgada a Lei de Protecção ao Cinema Nacional, que cria, no âmbito do S.N.I. o Fundo do Cinema e a Cinemateca Nacional, cuja direcção é entregue a Félix Ribeiro.

Em 1949, a 6 de Maio, António Ferro inaugura, conjuntamente com o 13º Salão de Arte Moderna, o Salão retrospectivo de galardoados com os prémios artísticos do S.N.I; estão presentes Mário Eloy, António Soares, Dórdio Gomes, Jorge Barradas, Sarah Afonso, Carlos Botelho, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Frederico George, Maria Keil, António Dacosta, Manuel Bentes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, António Cruz, Tom, Manuel Lapa, Álvaro de Brée, António Duarte, Martins Correia, João Fragoso, Canto da Maya, Barata Feyo, etc. São criados os Prémios de Arte Dramática para as sociedades de recreio. Realiza-se no Teatro de São Carlos o primeiro concerto do Gabinete de Estudos Musicais, que Ferro criou na Emissora Nacional, encomendando obras aos compositores de música popular e erudita.

Em 1950, ao fim de 15 anos de trabalho à frente do S.P.N./S.N.I., António Ferro solicita a Salazar um posto mais tranquilo e é nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Berna.

Em 1952/53 exerce uma acção em prol da cultura portuguesa na Suíça e prepara o livro Saudades de Mim. Escreve uma peça, que se perdeu, Eu Não Sei Dançar, cujos protagonistas deveriam ser Amália Rodrigues e João Villaret.
Em 1954 é transferido para ministro de Portugal em Roma. Publica D. Manuel II, o Desventurado.

Em 1955 escreve o livro, ainda inédito, Poemas Italianos e participa, a título particular, nos Décimos Encontros Internacionais de Genebra, dedicados ao tema “A Cultura estará em perigo?”, com Georges Duhamel, Ilya Ehrenbourg, Jean Wahl, etc. A Legação portuguesa em Roma é elevada a Embaixada e Ferro deverá apresentar novas credenciais como embaixador.

Em 1956 desloca-se a Lisboa para uma intervenção cirúrgica supostamente sem gravidade, mas morre uma semana depois, a 11 de Novembro, num quarto particular do Hospital de São José. Tinha 61 anos.

Em 1957 é publicado postumamente o livro Saudades de Mim.

Em 1958, no 25º aniversário do S.P.N./S.N.I., é descerrado
no Palácio Foz um seu busto, da autoria de Álvaro de Brée, réplica do que se encontra no Círculo Eça de Queiroz.

Em 1963 as Edições Panorama publicam a antologia António Ferro, incluindo alguns dos Poemas Italianos e excertos do seu Diário de Berna e Roma.

Em 1978 as Edições Tempo publicam uma nova edição de Salazar.

Em 1980 as edições Delraux publicam novas edições de Teoria da Indiferença e de Leviana.

Em 1984 o Teatro Primeiro Acto, de Algés, sob a direcção de Júlio de Magalhães, repõe Mar Alto (que não mais subira à cena desde a sua proibição em S. Carlos, em 1923) e organiza um ciclo de debates sobre a peça e a “Política do Espírito”, em que participam Afonso Botelho, António Braz Teixeira, António Lopes Ribeiro, António Quadros, António Rodrigues, Artur Portela, Cecília Barreira, Dórdio Guimarães, Duarte Ivo Cruz, Franco Nogueira, Jorge Borges de Macedo, Martins Correia, Natália Correia, Ruy de Matos, etc.

Em 1986, a 11 de Novembro, no 30º aniversário da sua morte, o Círculo Eça de Queiroz organiza uma sessão de homenagem a António Ferro. São oradores António Lopes Ribeiro, Domingos Mascarenhas e Luiz Forjaz Trigueiros. Intervêm também Jorge Borges de Macedo, Arnaldo Ródo e João Bigotte Chorão, a nora Paulina Roquette Ferro e o neto António Roquette Ferro, que leu uma mensagem do pai, António Quadros, ausente no Brasil em missão cultural.

Em 1987 a Editorial Verbo inicia a publicação das Obras de António Ferro, sob orientação de António Rodrigues, tendo sido publicado apenas um primeiro volume.
* * *
Esta cronologia bio-bibliográfica resumida dá uma ideia do que foi a vida e a obra de António Ferro. E permite avaliar das linhas mestras do que constituiu a sua política do espírito, uma intervenção absolutamente inovadora em Portugal pela qualidade e globalidade dos temas abordados.
Não é comum no nosso país alguém desenvolver uma intensa actividade na esfera político-cultural e ser ao mesmo tempo um criador cultural em domínios tão diversificados como António Ferro o foi. 

Acusam-no hoje de não ter sido um verdadeiro democrata. Talvez não o tenha sido pelo actual paradigma, mas importa não esquecer que o conceito de Democracia sofreu diversas interpretações ao longo da História, desde a antiga e precursora Atenas às democracias populares do Leste Europeu. Estaria Ferro porventura mais próximo da chamada “democracia orgânica” de Salazar do que das chamadas “democracias representativas”, que neste dealbar do século XXI são, antes de tudo, as defensoras estrénuas da teologia do dinheiro e do monoteísmo do mercado? Com certeza que sim! 

Mas ainda hoje se não sabe exactamente se Ferro ao trocar o S.N.I. por uma missão diplomática o fez por vontade própria, ou por vontade de Salazar, ou pela vontade de ambos. Se o fez apenas para ocupar um posto mais tranquilo ou antes por ter constatado a impossibilidade de ir mais além, como se depreende de muitos dos seus escritos, num regime autoritário que o entusiasmou mas que, mercê de circunstâncias de vária ordem, não poderia permitir-lhe a concretização final dos projectos que no íntimo sempre acalentara.

Para os interessados, referimos a seguir a lista das obras de António Ferro:

As Grandes Trágicas do Silêncio - 1917
Teoria da Indiferença – 1920
Árvore de Natal – 1920
Nós - 1921
Colette, Colette Willy, Colette – 1921
Leviana – 1921
Gabriele d’Annunzio e Eu – 1922
A Arte de Bem Morrer – 1923
A Idade do Jazz-Band – 1923
Batalha de Flores – 1923
Mar Alto – 1924
A Amadora dos Fenómenos – 1925
Viagem à Volta das Ditaduras – 1927
Praça da Concórdia – 1929
Novo Mundo, Mundo Novo – 1930
Hollywood, Capital das Imagens – 1931
Salazar – 1933
Prefácio da República Hespanhola – 1933
Homens e Multidões – 1941
Política do Espírito – 1950
D. Manuel II, o Desventurado – 1954
Saudades de Mim – 1957 (editado postumamente)
Obras de António Ferro: 1 – Intervenção Modernista (Cartas do Martinho; Teoria da Indiferença; O Elogio das Horas; Batalha de Flores; Nós; A Arte de Bem Morrer; A Idade do Jazz-Band; Uma Hora com Asas; Ilustração Portuguesa) - 1987

16 comentários:

Carlos Freitas Almeida Nunes disse...
Ferro inventou o país turístico recuperando algumas ideias desenvolvidas por Magalhães Lima através da Sociedade Propaganda de Portugal. É talvez a sua faceta menos conhecida mas uma das mais importantes.
Anónimo disse...
Grande homem, António Ferro. Parabéns ao autor do post.
Mafalda disse...
Comemorámos, no dia 17 de Agosto, 114 anos sobre o nascimento do grande Homem que foi António Ferro e alegro-me em saber que a data foi lembrada por tantos; a sua actividade não pode e não deve ser esquecida.
Também a newsletter de Agosto da Fundação António Quadros achou por bem assinalar esta data, demonstrando que a obra de António Ferro continua a constituir objecto de estudo para inúmeros investigadores.
A biografia, aqui publicada, representa uma justa homenagem a António Ferro. Parabéns ao seu autor, cujo nome gostaria de conhecer.
Mafalda Ferro
Anónimo disse...
Ferro foi o melhor ministro da cultura de Portugal. Foi também um escritor inovador e progressista. A nação deve-lhe muito.
Anónimo disse...
No actual panorama "rasca" da blogosfera portuguesa,sem dúvida este post sobressai pelo estudo e investigação que subjazem,pela magnífica iconografia,até pelo entusiasmo quiçá excessivo do autor pelo retratado. Mais,atendendo a que está por fazer uma história séria da cultura portuguesa na época do Estado Novo,os elementos pacientemente coligidos pelo autor virão certamente a servir para um futuro investigador. Ainda antes de algumas sumárias observações,insistiria na estranheza da ausência (a meu conhecimento,claro) dessa história da cultura. Curiosamente duas das principais fontes para o estudo da época salazariana,o suplemento ao "Dicionário da História de Portugal"(vols 7 a 9)coordenado por Barreto e Mónica,tal como o Dicionário de Rosas e Brito, nada,mas mesmo nada apresentam como rubrica "Cultura". Espantoso,mas verdadeiro. Verdade seja que o Dicionário de Barreto e Mónica contem uma excelente entrada intitulada "Intelectuais e Estado Novo" da responsabilidade de Rui Ramos,elaborada com informação,objectividade e equilíbrio. Poderá ser uma boa base de trabalho,mas não é obviamente a História que se desejaria. Há tambem apontamentos sobre cultura nas grandes Histórias coordenadas por Mattoso e outros,mas tudo disperso e insuficiente para a visão de conjunto que se aguarda.
Breves observações: Poderia ter assinalado,como curiosidade biográfico-política, que Ferro,não só foi ajudante militar de Filomeno da Câmara,como terá activamente conspirado na célebre "Revolta dos Fifis" em Agosto de 27 (Filomeno da Câmara e Fidelino de Figueiredo).
Ponto mais relevante: a Saída de Ferro do SNI em 50. Houvesse ou não razões pessoais, a sua linha de acção estava esgotada num regime em involução. O Portugal de 32 a 45,em traços gerais,tem um regime,melhor ou pior,"do seu tempo". A partir daí inicia-se um longo processo de anquilosamento,de rigidez,de afastamento do "seu tempo". Não vamos agora discutir se sim ou não Salazar tinha razão em mantermo-nos "orgulhosamente sós",mas Ferro tinha sido o homem da modernidade,do "mundo",do "actual" e apesar de promover as tradições populares,dificilmente se reveria na cada vez maior rigidez política e censorial dessa fase do regime.É no fim dos anos 40 que muitos escritores e artistas se afastam definitivamente do SNI,aparecem nas listas do MUD e similares. É nessa altura que falha a "política do espírito" e,diria,que falha o regime e se inicia o processo da sua decadência. O regime não tinha de copiar servilmente os modelos da Europa civilizada,mas devia ter-se adaptado,e isso não o soube fazer. O fim do Ferro do SNI marca assim o começo do fim do regime, e a sua derrota, provavelmente às mãos dos "duros",significou a inadaptabilidade irreversivel do Estado Novo. Isto tudo não é incompativel com o texto do autor do blog,nem pretende sê-lo,é outra maneira de sintetizar as coisas numa perspectiva mais política.
Tambem não sei se o autor utilizou as Memórias de Fernanda de Castro,dos livros mais "simpáticos" que conheço,e bem útil para o conhecimento da vida cultural da época. Aí se vê como os Ferros mantiveram até ao fim um convívio de grande abertura com intelectuais e artistas de todos os quadrantes,mesmo os que se tinham afastado do SNI e se opunham activamente ao regime. Ah se Ferro e mais alguem(mas quem?) tivesse prevalecido sobre os "duros"!
(Continua)
De Portugal disse...
Sendo importante e diversificada a obra de António Ferro, porque não se reedita a mesma?

Porque apenas foi publicado o I volume da sua obra completa?

São graves as lacunas da edição em Portugal, onde se publica toda a merda, passe a expressão, e não vêem a luz do dia os textos dignos de ser lidos.

Mas é este o país infeliz onde vivemos. Esperemos que mude rapidamente... e em força.
Anónimo disse...
Ainda bem que alguém nos relembra António Ferro que foi uma figura extraordinária em Portugal. É preciso reler as suas afirmações sobre a política do espírito, ver o que foi feito e o que não pôde ser e também o estado a que chegámos. E depois tirar conclusões.
Anónimo disse...
Continuando o comentário da 1.57,resta-me dizer que os limites das caixas de comentários não permitem os desenvolvimentos de ideias que certas afirmações suscitam. Em "concentrado" fico-me por assinalar a a minha discordância com as considerações do post sobre os conceitos de democracia.Há regimes democráticos e há regimes ditatoriais de esquerda ou de direita que se intitulam "democratas" para supostamente fingir que enganam o seu próprio povo ou a plateia internacional.Não se trata aqui de "conceitos de democracia" mas de mal amanhadas falsificações da palavra "democracia". É o caso dos regimes comunistas(as pseudo "democracias populares")muitas "democracias" africanas,e a nossa "democracia orgânica",que nunca enganou ninguem.
A democracia preza antes de mais o valor da Liberdade,que parece algo esquecido,liberdade individual e social.E procura,tanto quanto possivel,garanti-lo,o que não é tão óbvio como isso. Procura tambem que os poderes políticos mudem sem revoluções sanguinolentas,mas por meios certamente imperfeitos,como as eleições,mas não destrutivos do tecido social. Muito,muito,haveria mais a dizer,mas devo estar a esgotar a capacidade da "caixa". Talvez se possa prosseguir noutra ocasião.
Do Médio-Oriente e afins disse...
A propósito, e em abono, do último parágrafo do comentário do Anónimo da 1:57, quero notar que José Carlos Ary dos Santos me disse, por mais de uma vez, que sendo perseguido pela PIDE, esteve vários dias escondido em casa de Fernanda de Castro, viúva de António Ferro, mulher de rara sensibilidade e cultura, que muito o estimava e que o acolheu nesse momento difícil, num sítio onde a polícia dificilmente imaginaria que ele estivesse.
Anónimo disse...
Embora os posts tenham normalmente vida curta na blogosfera (ainda bem para a maioria e injustamente para este) venho ainda associar-me ao protesto de um comentador anterior quanto à não prossecução da edição da Obra completa pela Verbo.Parecia bem encaminhada,apesar do esquelético comentário e quase inexistente aparato crítico,mas ficou-se pelo I volume. Nunca percebi porquê. Seria esta uma boa ocasião para a Fundação de Mafalda Ferro exigir, ou da Verbo,se ainda existir(o que ignoro) ou de qualquer editora responsãvel a continuação da Obra. E porque não utilizar para essa promoção este excelente post,devidamente excisado das considerações políticas,resumida mas lucidamente rebatidas pelo comentador das 23.57,ao que o seu autor certamente não se oporia? Neste momento não vejo melhor introdução à obra e à personalidade de Ferro, e a sua difusão ajudaria a quebrar a estupidificante lacuna que é o desconhecimento dos seus textos. Aqui fica a sugestão,que espero frutifique.
Mafalda disse...
Caro anónimo
Começo por partilhar a dificuldade que sinto em conversar com um anónimo. Como saber se estamos a responder a alguém com quem já falámos porque, como calcula, há mais que um anónimo.
Durante muitos e longos anos foi tabu elogiar António Ferro. Creio que, enfim, ultrapassámos essa fase mas entendo a necessidade de reservar a sua opinião (como sua) para os seus amigos. Um pseudónimo resolveria o problema e dar-lhe-ia uma identidade própria. É só uma ideia. Pense nisso.
A bibliografia e o espólio documental de António Ferro, património da Fundação António Quadros, estão abertos à consulta e são investigados quase diariamente por historiadores e particulares, nacionais e estrangeiros. A dificuldade de adquirir a sua obra impressa é expressa por todos eles por isso já reuni com um editor a fim de estudar a possibilidade de concretizar a publicação da obra completa de António Ferro mas, obrigada pela ideia, guardarei os vossos comentários para fundamentar a importância do projecto.
É com imenso orgulho e alegria que, depois de tantos anos de silêncio, me apercebo através das suas palavras e das de todos os admiradores da obra de António Ferro que, António Ferro ocupa em termos históricos o lugar que merece. Obrigada por lhe fazerem justiça.
Mafalda Ferro
Do Médio-Oriente e afins disse...
A Obra Completa de António Ferro, na Verbo, estava a ser publicada sob a orientação do meu amigo António Rodrigues, crítico de arte e professor de História da Arte na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, recente e prematuramente falecido com 50 anos.

Não foi contudo a sua morte, agora ocorrida, que motivou a suspensão da publicação da Obra, já que o I e único volume saiu em 1987. Outras razões terão motivado essa decisão.

Por isso, congratulo-me com o que acima escreveu Mafalda Ferro, quanto a uma reedição da obra completa, a fim de dar ao público português, que o desconhece, como aliás desconhece, hoje, a maior parte das coisas da cultura, um pensamento e uma estética que marcaram, goste-se ou não, os meados do século passado.
Anónimo disse...
Tambem me regozijo com as notícias de Mafalda Ferro sobre o projecto de edição das Obras Completas. Esperemos que melhor apresentadas,comentadas e criticamente analisadas do que o volume da Verbo que,pese embora à amizade do autor do blogue pelo coordenador,que respeito,é pobrezinho apesar das boas intenções.
Tem ainda razão a Mafalda Ferro quanto aos anonimatos,frequentemente de mau cariz. Julgo não ser o caso,e os meus leitores costumam reconhecer-me pelo estilo. No meu caso,é apenas um desejo de neutralidade no contexto blogosférico,ou seja que liguem mais ao que digo do que a quem sou. Bom trabalho!
Anónimo disse...
Será que alguém me pode indicar o nome de quem assina este texto?
Anónimo disse...
Será que alguém me pode indicar o nome de quem assina este texto?
Do Médio-Oriente e afins disse...
Para o Anónimo das 12:48, de 22/03/2010:

Queira fazer o favor de indicar concretamente o que pretende; a responsabilidade do texto é globalmente do blogue.

sábado, 11 de abril de 2015

DO PAGANISMO EM FERNANDO DACOSTA




Começo por uma declaração de interesses. Sou amigo de Fernando Dacosta há perto de meio século, o que naturalmente não me impede de uma apreciação isenta.

Posto isto, algumas palavras sobre o seu mais recente livro, Viagens Pagãs, acabado de chegar às livrarias.

Para este volume, seleccionou o autor crónicas de viagens que efectuou, algumas em tempos já remotos, publicadas na época e que surgem agora reunidas nesta obra. As regiões evocadas são a zona do Douro, a ilha do Corvo (Açores), o Brasil, Marrocos, Angola e Moçambique. E duas incursões especiais: na nossa epopeia atlântica e no universo mineiro português.

Em verdade se diga que os locais visitados, para além do interesse intrínseco para o texto, são também o pretexto para Fernando Dacosta elaborar, no seu estilo peculiar e com a arte que lhe é reconhecida, sobre a condição de "ser português" e sobre a nossa relação com outros povos.

No Douro, terra da sua infância, salienta a paisagem e evoca os escritores que viveram ou escreveram sobre essa região. E lembra um acidente fluvial que lhe ia custando a  vida.

No Corvo, destaca a singularidade dos seus habitantes, para a qual muito contribuiu o largo período de grande isolamento provocado pela extrema insularidade, e recorda a ironia popular: quando o marechal Carmona visitou um dia o Corvo, foi recebido por um cartaz gigante que dizia "Seja bem-vindo a esta terra!". Só que o cartaz, sendo uma pequeníssima ilha, estava colocado no cemitério.

Sobre o Brasil, onde se deslocou na companhia de Agustina e de outros escritores, realça, citando Agostinho da Silva, "a subversão, a liberdade, a ousadia" do povo. Recorda de Agustina a resposta que deu a Salustiano Lopes, um dos "cicerones" nesta visita ao país e que a interrogava sobre a injustiça de não haver nenhum Nobel na literatura portuguesa: «Quem o vai receber é o Saramago, tudo aponta nesse sentido. Houve uma altura em que eu gostaria de o ganhar, mas apenas para dançar com o rei, como fez a Pearl Buck, que valsou com ele no Palácio de Oslo.»  Aqui Agustina deveria estar distraída, o Nobel da Literatura é atribuído em Estocolmo, o da Paz é que é em Oslo.

Subtraindo-se à comitiva literária, Dacosta ouve Salustiano Lopes, que acompanhou de perto Marcelo Caetano durante o período em que este viveu no Rio de Janeiro e que o leva até ao cemitério de São João Baptista, onde se encontra o mausoléu do antigo presidente do Conselho. Por ironia do destino, o túmulo encontra-se contíguo ao do célebre dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, que Marcelo detestava. Escreve o autor (p. 84-5): «Marcello era, perante assuntos fracturantes, um espírito retraído. Desde muito novo que se indignava (Salazar mostrava-se mais arejado) com eles. Pertenceu, por exemplo, ao grupo dos que atacaram António Botto e Raul Leal por terem assumido, em livros, a sua homossexualidade. Entrou igualmente em boicotes a espectáculos "esquisitos", como A Garçonete, que Lucília Simões representou no Trindade, e Mar Alto, peça de António Ferro retirada, por "indecente", à terceira representação. Detestaria mais tarde, pelas suas "inconveniências", Jorge de Sena e Natália Correia. A esta, chegou a virar costas, recusando cumprimentá-la devido à publicação da Antologia da Poesia Erótica e Satírica - objecto de processo judicial.»

Marcelo Caetano era um homem de personalidade complexa, de feitio muito difícil, simultaneamente teimoso e hesitante, de estreitos horizontes humanísticos, ainda que conceituado administrativista. Não admira que tenha sido incapaz de manter o regime, antes apressou a sua queda.

No que toca a Marrocos, a viagem fora organizada pelo Centro Nacional de Cultura. Para lá de se deslumbrar com os locais, Dacosta aproveita para recordar as relações dos portugueses com Marrocos, desde a conquista de Ceuta, em 1415, à batalha de Alcácer-Quibir, em 1758, que custou a vida a D. Sebastião, uma curiosa figura da nossa monarquia. Sempre tivemos uma grande curiosidade (e atracção) pelos "mouros", aliás nossos vizinhos. Tenho dito e escrito muitas vezes que os portugueses, e os povos do sul da Europa em geral, são muito mais próximos dos norte-africanos do que dos nórdicos, apesar dos universos religiosos distintos. A presente crise da União Europeia demonstra-o cabalmente. Escreve o autor (p. 153): «Os leilões de escravos banalizavam-se. Nas épocas de fome  (como a de 1521), os pais vendiam os filhos, os idosos ofereciam-se a si mesmos e os adultos suplicavam que os levassem para Portugal; só os mais jovens, rapazes e raparigas, tinham, se esbeltos, interessados. O corpo sempre foi aqui uma arma. Assumido com ênfase, tornou-se de objecto (enganadoramente) submisso em objecto (exuberantemente) dominador - reverenciado por artistas e poetas de todo o Ocidente...»

E o corpo tem sido no mundo árabe (reflicta-se sobre o Orientalismo), até aos dias de hoje, uma poderosa arma. Nem mesmo as correntes extremistas islâmicas que agora se manifestam no mundo muçulmano conseguem evitar o poder da sedução. Ao invés dos europeus, os árabes sempre foram menos preconceituosos relativamente ao sexo, foram mesmo precursores de uma liberdade que os "colonizadores" invejavam. Continuando a citar Dacosta (p.155): «As paixões e as aventuras amorosas atingiam especial vibração; o calor, a indolência, o isolamento, a sensualidade de África, tornavam-nas agrilhoamentos de imprevisível tumultuosidade. Para animar os feridos, os físicos mandavam pôr belas raparigas (ou rapazes) mouras junto deles, ao mesmo tempo que lhe dobravam as rações.».

São muito interessantes as reflexões de Fernando Dacosta sobre as nossas incursões em Marrocos, nomeadamente sobre a expedição de D. Sebastião. Recordo uma peça do escritor belga Paul Dresse, Sébastien de Portugal ou Le capitaine de Dieu (1976), que foi traduzida para português e em tempos representada pelo Grupo de Teatro de Carnide, e que também se faz eco da obsessão do rei de Portugal pelo Magrebe. E não nos esqueçamos que até ainda não há muito tempo Marrocos foi um dos destinos extra-Europa mais procurados pelo turismo português.

O último capítulo é reservado a África. Foi em Angola que Fernando Dacosta nasceu e o seu fascínio pelo continente negro é conhecido. Aliás, a epígrafe que escolheu para esta viagem a Angola e Moçambique é uma citação de Alda Lara: "África é o berço de todos os paganismos". A sua análise da situação nas antigas colónias portuguesas é lúcida e implacável. Transcrevo alguns parágrafos:

«Há quatro décadas, África cortou as vias do desenvolvimento colonialista; depois, as do desenvolvimento socialista; a seguir, impôs as do ultra-liberalismo.» (p. 180)

«Os africanos falam da democracia com displicência. Sempre acreditaram com displicência na "felicidade" que os brancos lhes levaram, do Oeste e do Leste - entre armas, crucifixos, votos, divisas, idiomas, culturas, tecnologias, ludíbrios.» (p. 181)

«"Os velhos colonos portugueses tratavam-nos melhor do que nos tratam os africanos que estão no poder", exclama-me um negro do Cacuaco, quatro anos preso pela PIDE e três pela DISA. "Os humilhados humilham, não é?"» (p. 184)

«"Os únicos que conheciam Angola eram os portugueses. A sua saída, provocada pelos soviéticos e pelos norte-americanos, foi a nossa ruína. Os primeiros fomentaram-na para melhor dominarem o país, os segundos para provocarem o colapso do regime socialista e poderem, depois, explorar o país. Como aconteceu", sublinha-me a poetisa Maria Alexandre Dáskalos, natural de Angola.» (p. 198)

«Ramalho Eanes foi o político português que mais dignificou África. Profundo conhecedor dela, foi a ela que dedicou a sua primeira viagem como Presidente da Republica. Recebido festivamente em Maputo, Samora Machel apresentou-o aos seus de forma surpreendentemente expressiva: "Camaradas, este é o nosso antigo patrão!"» (p. 204-5)

Fiel a uma linguagem de algum modo barroca, Fernando Dacosta navega (é de viagens que aqui se trata) num universo onírico sem deixar de ter os pés bem assentes no chão. Cruzando o real com o sobrenatural surpreende-se e surpreende-nos ao longo das páginas deste livro.

Para sustentar a sua narrativa, apoia-se em numerosas e expressivas citações. Sei que não é seu hábito, que é mesmo contrário ao estilo que cultiva, referenciar as obras dos autores que menciona. Por mim, não resistiria a fazê-lo.


sábado, 4 de abril de 2015

HOMENAGEM A ANTÓNIO FERRO




O jornalista Orlando Raimundo acabou de publicar um livro, António Ferro: O Inventor do Salazarismo - Mitos e falsificações do homem da propaganda da ditadura, onde pretende demonstrar, como se depreende do título, que a obra de António Ferro, quer literariamente, quer culturalmente, não passou de uma falácia. Ao longo das quase 400 páginas do livro, o autor procede à completa demolição da figura do criador português da "política do espírito", expressão cunhada por Paul Valéry, abstraindo do princípio genérico de que se não há homens completamente "bons" também não os há completamente "maus".

Trata-se de um livro inegavelmente bem escrito e bem revisto (facto para assinalar nos nossos dias), em que, à parte raras gralhas tipográficas, encontrei poucos lapsos. Refiro, a título de exemplo, na p. 97, Rue Furstemberg em vez de Rue Furstenberg, na p. 114, comandante Sinel de Cordes em vez de general Sinel de Cordes ou, na p. 221, Couteline em vez de Courteline. Na p. 175 é referido um filho de António Ferro, Pedro, mas os filhos chamavam-se António e Fernando, Pedro era o irmão. Os factos históricos mencionados pelo autor, que não tive oportunidade de confirmar, afiguram-se correctos para qualquer pessoa razoavelmente informada, e presumo que Orlando Raimundo, na investigação a que necessariamente procedeu, se tenha documentado devidamente. Todavia, gostaria de conhecer o texto (não referenciado) em que Fernando Pessoa «sugere o internamento psiquiátrico do "imbecil" António Ferro» (p. 188).

Mas o problema deste livro não são propriamente os factos, ele reside essencialmente nas interpretações e conclusões apresentadas pelo autor. Orlando Raimundo pode detestar Ferro, pode detestar Salazar, pode detestar o Estado Novo, mas não pode, objectivamente, achar, para agora me limitar apenas a Ferro, que tudo o que este realizou foi mau. Ou que todas, ou quase todas as pessoas com que Ferro se cruzou na vida eram medíocres e/ou fascistas ou aparentados, desde Manoel de Oliveira (um "cineasta de talentos duvidosos", p. 131) a Luigi Pirandello, Júlio Dantas, D'Annunzio, Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro, Maeterlinck, Carlos Malheiro Dias, Bernardo Marques, Beatriz Costa, Ribeirinho, Augusto de Castro, Mário Eloy, Jorge Segurado, Frederico de Freitas, Carlos Botelho, Mário Beirão, Adolfo Simões Müller, Amélia Rey-Colaço, Couto Viana, Raul Lino, Colette, Cottinelli Telmo, Henrique Galvão, Jacques de Lacretelle, Eduardo Viana, Pedro Homem de Mello, Alfredo Cortez, Carlos Selvagem, Joaquim Paço d'Arcos, Martins Barata, T.S. Eliot, Alfredo Pimenta, Carlos Queiroz, João Ameal, Ruy Coelho, Amália Rodrigues, Marinetti, Leopoldo de Almeida, Ivo Cruz, e a enumeração seria infindável, sem esquecer, obviamente, Fernanda de Castro. De alguma forma, são igualmente menosprezados os criadores artísticos e literários da época, independentemente do seu incontestável valor, porque, através de António Ferro e do SPN (Secretariado da Propaganda  Nacional), receberam encomendas ou prémios do "regime". E eles são a maior parte dos modernistas, incluindo Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Nem mesmo estes se salvam!

Ninguém, praticamente, escapa à crítica arrasadora e sistemática de Orlando Raimundo. Se retirássemos do panorama cultural português da época os nomes mencionados, o país ficaria vazio. Ocorre-me que o autor se esqueceu da realidade nacional no tempo do Estado Novo. As figuras apontadas no livro não eram todas apoiantes entusiastas do regime mas viviam no regime e trabalhavam no regime. Exigia-se-lhes que não fossem declaradamente opositoras, mas importa recordar o que era a Europa à época. Não é legítimo comparar a situação de então com a situação actual, ainda que agora se verifiquem alguns paralelismos. O que nesse tempo era censura política transformou-se hoje num tipo de censura ainda mais insidioso, porque disfarçado, a censura económica, que dispensa ou afasta quem não comunga dos ideais do neoliberalismo por ora triunfante.

Orlando Raimundo não se exime mesmo de tecer considerações sobre a vida íntima de António Ferro. A propósito de uma carta confidencial em que Marcelo Caetano se teria queixado dele a Salazar, escreve (p. 338): «Marcello detesta Ferro desde os tempos de Mar Alto, que considera uma obra lamentável. O ódio decorre também da presumida bissexualidade de António Ferro e Fernanda de Castro, que mantêm relações de grande proximidade com intelectuais e artistas supostamente homossexuais, como Virgínia Vitorino e Tomás Ribas, visitas de casa; Natália Correia, companheira de férias de Fernanda de Castro no Algarve, ou Judith Arvelos, que acaba por se instalar na casa da Calçada dos Caetanos. Moralista e homófobo, Marcello critica em diversas ocasiões a protecção de Ferro a homossexuais reconhecidos, como Leitão de Barros e o bailarino Francis Graça, do Verde Gaio.»

Há, também, uma afirmação clamorosa que importa ser convenientemente denunciada. Referindo-se a Salazar, Orlando Raimundo escreve (p. 324): «O ditador, que não tem o mínimo sentido de humor...». Ora se há coisa em que são unânimes todos os que conviveram com Salazar é na referência ao seu profundo sentido de humor, manifestado nas mais diversas ocasiões.

Considerar que António Ferro era oportunista, ambicioso, mistificador, que falsificou todas as tradições portuguesas ou passou a vida a inventar novas tradições não cola à personagem. Nem é aceitável o último parágrafo do livro (p. 360): «Manhoso e de aparência suave, e por isso mesmo mais resistente do que os modelos nazi-fascistas, apostados no culto da personalidade, o salazarismo sobreviveu ao tempo e ao seu inventor. Criando a ilusão, ainda hoje presente entre nós, de que Ferro foi um homem de cultura que vendeu a alma ao diabo e não um agente do diabo no território da cultura.»

Para escrever este texto, Orlando Raimundo teve de elaborar uma espécie de biografia de António Ferro, assinalando a sua acção como jornalista e, depois, como secretário da Propaganda Nacional. Além, é claro, de referir os livros que ele publicou ao longo da vida. Resulta daqui, mesmo para o leitor mais distraído, que a actividade de Ferro à frente do SPN, cobrindo variadas áreas culturais (à excepção da cultura erudita que não cabia nas suas atribuições), foi obra de imenso fôlego, só possível por um empenhamento total na promoção das mais diversas iniciativas, na realização de manifestações culturais por todo o país e na divulgação pelo mundo de aspectos essenciais da cultura portuguesa. Como escritor, Ferro co-introduziu o modernismo na linguagem literária e apoiou indefectivelmente os artistas modernistas. Foi também o editor da revista "Orpheu" (embora isto seja um pormenor circunstancial), cujo centenário se comemora este mês. Se a incansável actividade de António Ferro se enquadrava no regime salazarista isso não é susceptível de causar espanto. Nem a poderia ele desenvolver de outra forma. Argumentar-se-á que Ferro foi nutrindo, pouco a pouco, uma especial veneração por Salazar. Mas importa relembrar os mais esquecidos que depois do período turbulento da I República (à qual se devem, todavia, algumas importantes reformas), os portugueses ansiavam por um tempo de tranquilidade e que Salazar incarnou sabiamente esse desejo, ganhando inequivocamente o apoio popular (pelo menos até ao fim da Segunda Guerra Mundial) e conquistou mesmo para a sua causa a maior parte dos espíritos mais avessos a um regime autoritário. Escreve o autor, no início, citando Leitão de Barros, que sem «as manobras e expedientes» de António Ferro o salazarismo seria um "quadro sem moldura". Não penso que assim seja. O salazarismo tinha vindo para ficar por muito tempo, ficaria com Ferro ou sem Ferro, e ficou. Ainda bem que foi com Ferro, o que permitiu algum brilho ao que teria sido uma governação asséptica.

Nem tudo o que António Ferro realizou terá sido obviamente bem feito, ninguém é perfeito, mas o saldo é largamente positivo. Julgo mesmo poder afirmar-se que Ferro (na sua circunstância) foi o primeiro ministro da Cultura que houve no nosso país.

Assim, creio que o livro de Orlando Raimundo, escrito com o intuito de demolir total e absolutamente a figura e a obra de António Ferro (mas posso estar enganado), acabou por lhe prestar inestimável serviço, ao enunciar uma carreira fecunda que muito contribuiu (nos limites traçados e com os recursos disponíveis) para o desenvolvimento cultural de Portugal.

Na verdade, António Ferro: O Inventor do Salazarismo é uma significativa homenagem a António Ferro, quando se completam 120 anos sobre o seu nascimento.


* * * * *

Nota: O livro insere em apêndice uma interessante colecção de fotografias de António Ferro, cedidas pela Fundação António Quadros: Fundo António Ferro/Fernanda de Castro e inclui um anexo com a Bibliografia Activa e Passiva de António Ferro.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA




Morreu hoje, com 106 anos, o cineasta Manoel de Oliveira. Era o mais velho realizador de cinema em todo o mundo e o mais antigo que ainda exercia a sua actividade.

Como titula o PÚBLICO, na notícia necrológica que pode ser consultada, «filmou até ao fim».

Colabora em Fátima Milagrosa (1928), de Rino Lupo, mas o seu primeiro filme, uma curta metragem, é Douro, Faina Fluvial (1931). Uma primeira longa metragem, Aniki-Bobó (1942), abre-lhe as portas da celebridade. Realiza mais de 50 filmes e torna-se mundialmente conhecido. A sua última película, O Velho de Restelo, é de 2014. Deixou três projectos por realizar, que  certamente concretizaria se a vida não lhe tivesse agora faltado.

A sua longa biografia está disponível neste "site".

De Manoel de Oliveira se poderá dizer que era uma força da natureza.


terça-feira, 31 de março de 2015

PEDAÇOS DA SÍRIA




Comprei, e li, o recentíssimo livro A Síria em Pedaços, de Bernardo Pires de Lima. Presumi que se tratava de um livro sobre a situação na Síria, desde o começo da guerra civil até ao presente. E, contrariamente aos meus hábitos e porque o assunto particularmente me interessa, não o folheei antes da aquisição.

Verifico, agora, que o título induz em erro. Trata-se, na realidade, de uma colectânea de textos de opinião (cerca de 200), publicados pelo autor no "Diário de Notícias" entre Janeiro de 2011 e Janeiro de 2015, e que não se referem precisamente à Síria mas à situação nos vários países do Médio Oriente e suas relações em especial com os Estados Unidos, a Europa, a Rússia e a China, desde a eclosão das chamadas "primaveras árabes". Apenas alguns deles se reportam directamente à Síria.

Para lá deste lamentável equívoco editorial, também a arrumação dos artigos não facilita o respectivo enquadramento. Optou o autor por agrupá-los em três secções: Janeiro de 2011 a Maio de 2012; Junho de 2012 a Agosto de 2013; Setembro de 2013 a Janeiro de 2015. Mas nenhum dos textos se encontra datado, o que impede o leitor de estabelecer uma correspondência entre a data de publicação dos mesmos e a ocorrência dos factos a que aludem.

Sendo textos escritos ao correr dos dias, expressam apenas a opinião do autor sobre o presente e as suas previsões quanto ao evoluir dos acontecimentos, aliás muitas vezes infirmadas pelas realidades subsequentes. Como seria inevitável num trabalho deste género, há numerosas repetições e até contradições, que tornam a leitura confusa e não favorecem a compreensão do desenrolar dos factos no terreno.

Quem estivesse à espera de um livro sobre a evolução da guerra civil no território da Síria, dia a dia, cidade a cidade, de um cabal esclarecimento sobre todos os actores em presença, tudo cronologicamente enquadrado, não poderá deixar de se sentir defraudado.

Ressalve-se, todavia, que algumas das interpretações de Bernardo Pires de Lima são correctas  e compensam, de algum modo, o equívoco do título. E que o erro em algumas das suas previsões poderia ser igualmente cometido por abalizados analistas, tal a imprevisibilidade que rodeou muitos acontecimentos. Desde logo pelos americanos que, por ingenuidade ou má-fé, ou ambas, predisseram evoluções que não se verificaram, ou que ocorreram precisamente em sentido contrário.

Registo a última frase do livro (a propósito do presidente sírio Bashar Al-Assad): «Vale mais um ditador a prazo do que um califa sem termo». Acrescentarei que a maioria dos sírios, que bem conheço, preferiria a continuação do regime (naturalmente autoritário) de Bashar à aventura de putativas oposições apoiadas do exterior. Isto antes do começo da guerra civil. Agora, nem será preciso perguntar.


quarta-feira, 25 de março de 2015

A NOVA REPÚBLICA



 

Por uma nova república
Senhoras e Senhores Jornalistas, Caros Amigos,



Agradeço a vossa presença para vos anunciar, e através de todos vós, ao País, que - depois de reflectir e de ouvir muitas pessoas de vários quadrantes políticos e sociais - resolvi candidatar-me na próxima eleição para a Presidência da República. Sou, como sabem, um cidadão que preza a independência, a liberdade, a honra e a rectidão. Fui um empresário industrial que sempre cultivou a iniciativa, o sucesso, o progresso e a solidariedade. As minhas forças de convicção e discernimento vêm da minha experiência e do meu trabalho de longos anos. E a minha força de vontade vem do amor pelo meu País e da triste constatação da situação em que Portugal se encontra.

São simples, portanto, as razões principais para esta minha decisão:

A primeira tem como motivo um sentimento de revolta pela situação de crise vivida pelo Pais e pelos portugueses, a que associo a profunda convicção de que tal crise se deve em grande parte a erros políticos que podiam ter sido evitados, erros originados pela falta de visão estratégica quanto ao futuro de Portugal num planeta em mudança e pela degradação do funcionamento do nosso sistema político, degradação que depois se estendeu à economia e ao conjunto da sociedade.

Vivi uma boa parte da minha vida em ditadura e a sonhar viver em liberdade e em democracia. Mas esse sonho era também o sonho de viver num Portugal moderno e desempoeirado, desenvolvido e solidário, que se reencontrasse com o melhor da nossa história como Nação.

De 1974 até hoje assisti a muitas transformações importantes no nosso País. Mas também verifiquei, sobretudo ao longo do último quarto de século, e com crescente preocupação, que estávamos a desperdiçar de forma imprudente as melhores oportunidades para nos aproximarmos dos outros povos europeus, tanto em desenvolvimento económico e social como em qualidade de vida e em justiça social, nomeadamente nos sectores da sociedade mais desfavorecidos da sociedade.

Nos últimos anos assisti revoltado à quase destruição da classe média, ao empobrecimento das famílias portuguesas e a um ataque insensível e sem sentido às pessoas que trabalham, aos funcionários públicos e aos reformados.

Estou agora a assistir, inconformado, ao desemprego sem subsídio de centenas de milhares de portugueses a uma nova vaga de emigração em massa, mais problemática do que aquela que conheci nos idos anos sessenta do século passado, em que os portugueses voltam a ter de sair de Portugal, numa batalha inconformada pela sobrevivência. Com a diferença que é preciso assinalar: é que agora a maioria dos que deixam o País são jovens das gerações mais capazes que se formaram em Portugal, nomeadamente devido ao mais fácil acesso a uma melhor educação.

Vejo tudo isto e penso que, na verdade, não tinha de ser assim.

Por força do meu trajecto e exigências  profissionais, viajei durante muitos anos e contactei com muitas pessoas e instituições dos países mais desenvolvidos do mundo, consolidando a consciência das causas do nosso atraso e dos erros sistemáticos cometidos por sucessivos governos.

Erros provocados em grande parte pela impreparação, pelo egoísmo e  pela venalidade de uma parte importante da nossa classe política. Erros permitidos por um sistema político organizado para se beneficiar a si próprio e aos sectores mais privilegiados  e protegidos da sociedade portuguesa.

Dizer agora que os portugueses, todos os portugueses, viveram acima das suas possibilidades, sabendo que os seus rendimentos não ultrapassam os mil - ou menos do que mil - euros mensais, é não apenas revoltante mas trágico, pelo que revela sobre a qualidade humana e a perspectiva política dos dirigentes.

Estas são, em síntese, as razões do meu inconformismo, que motivaram a decisão de me candidatar nas próximas eleições à Presidência da República.

São as mesmas razões que me levaram a escrever, ao longo dos últimos vinte anos, centenas de artigos em jornais e revistas, a participar em inúmeros programas de rádio e de televisão e a publicar livros e moções, sempre a denunciar as decisões erradas  e as omissões do poder político, mas apresentando sempre propostas alternativas.

Repito, não só denunciei os erros e as omissões – mas sempre propus,  simultaneamente, as alternativas, porque elas existiam.

Creio por isso poder dizer agora que me candidato com uma clara visão estratégica para o futuro de Portugal e com um programa amadurecido pelos anos e pela experiência,  com textos publicados,  que todos os portugueses podem consultar e conhecer ao pormenor. Ninguém pode seriamente dizer que não sabe ao que venho.

Desde sempre, combati as opções de centrar o desenvolvimento económico nos bens não transaccionáveis, ( ou seja, protegidos da concorrência internacional), na construção, no imobiliário e nas obras públicas, processo que alimentou a especulação de terrenos, que criou fortunas e conduziu à corrupção generalizada, destruindo os centros urbanos das maiores cidades, ao mesmo tempo que defendi uma fiscalidade que entregasse ao Estado as mais valias criadas  pela alteração do regime legal de utilização dos terrenos;

Defendi a diversidade económica e os saberes adquiridos, quando assisti à destruição da nossa agricultura, das pescas e de uma parte da nossa indústria, apenas para sermos os pseudo bons alunos da Europa;

Sustentei a tese da necessidade  duma definição estratégica Euro Atlântica, que não nos deixasse ficar inteiramente dependentes da União Europeia;

Estive na primeira linha do combate contra a prioridade dada ao transporte rodoviário e à construção de mais auto estradas e sempre defendi a prioridade a dar aos transportes ferroviário e marítimo, como o modelo que melhor serve as sociedades modernas e mais se coaduna com a nossa geografia; 

Neste contexto, sempre me pareceu que o despesismo do Estado, para mais sem critérios de rentabilidade e sem respeito pelas futuras gerações, era o caminho para o desastre, até porque colocava os portugueses e a economia na dependência de um poderoso – e perigoso - sistema financeiro global, sem controlo do poder político nacional e europeu.

Defendi, nomeadamente no Parlamento, a diversidade económica e o potencial dos sectores tradicionais da economia portuguesa, como a agricultura, as pescas, o calçado, os têxteis e a confecção, mas também a metalomecânica pesada, os sectores da indústria da defesa, da aeronáutica, da marinha mercante e ferroviário, quando os governantes se convenceram de que eram sectores perdidos e privilegiaram uma economia de serviços, num afunilamento inaceitável do futuro da economia portuguesa;

Critiquei de todas as formas as nacionalizações sem sentido estratégico, e sem os cuidados mínimos que acautelassem o interesse nacional. Defendi por todas as vias os sectores de bens transaccionáveis e as exportações. Denunciei os interesses e as rendas que gravitam ao redor dos sectores protegidos de bens e serviços, como é o caso da energia;

Combati a falta de exigência na educação e na ciência, defendi a prioridade a dar ao ensino pré escolar, como a forma adequada de retirar da pobreza e da ignorância um terço da sociedade portuguesa, sem o que nunca teremos uma sociedade e uma economia desenvolvidas;

Fui sempre sensível à importância e ao papel da nossa cultura e em especial da língua portuguesa, vital como dimensão estrutural da identidade e da projecção de Portugal no quadro europeu, lusófono e global;

Não poucas vezes denunciei a corrupção. Defendi e continuo a defender a criminalização do enriquecimento ilícito. No caso das contrapartidas das aquisições militares, apresentei criticas e queixas junto dos governos, da Assembleia da República e da Presidência da República, sem encontrar qualquer apoio destes órgãos de soberania na defesa da economia nacional e da respeitabilidade dos contratos.

Denunciei das mais diversas formas – e recentemente através dum Manifesto de que fui subscritor – o funcionamento pouco democrático dos partidos políticos e a existência no seu interior  de grupos organizados de interesses. Convergência de interesses ilegítima e intolerável, que empurrou Portugal para um declive económico e financeiro, cujo triste epílogo foi o estado de pré-bancarrota  que colocou a nossa democracia, pela terceira vez, dependente dos credores internacionais.


Tenho, contudo, uma outra razão, porventura determinante para a decisão de me candidatar: Tenho uma grande confiança nos portugueses e no futuro de Portugal, tenho confiança nos nossos empresários e na capacidade das nossas empresas, na qualidade e na determinação dos nossos trabalhadores, dos nossos cientistas e investigadores, dos nossos professores, das nossas universidades e centros de investigação. E mais do que isso, acredito nos nossos jovens.

É um optimismo consciente e com os pés  bem assentes nesta terra que é a nossa.

O desafio que o Pais enfrenta não é mais exigente do que aquele que enfrentámos em raros e vitais momentos da nossa secular história, o que nos obriga a escolhas e a decisões, que não sendo fáceis têm de ser assumidas com coragem e com confiança nos portugueses e nas virtualidades da democracia.

 Chegou a hora da verdade e da coragem, da lucidez e da experiência se darem as mãos, para levar a cabo a transformação necessária e  mudar o que tem de ser mudado e que os portugueses reclamam.

Sei que a alguns isto pode parecer difícil, ou mesmo um pouco tarde. Acredito contudo que estamos a tempo de democratizar o regime, de forçar a reforma democrática de que carecemos, de definir uma orientação estratégica para os próximos vinte anos, de criar as condições para uma governação  exigente, na base  do cumprimento das promessas eleitorais, de que o Presidente da República deve ser o primeiro e o mais rigoroso garante.

Os portugueses já mostraram, em Portugal e em todo o  mundo, que quando vivem e trabalham em meios e em instituições exigentes e de qualidade, são capazes de vencer as maiores dificuldades e as maiores crises. Cerca de cinco milhões dos nossos concidadãos vivem e trabalham noutros países, enfrentando condições de grande exigência e dureza. E não o temem, na esperança de poderem vir a fazer mais e melhor no seu próprio Pais e a participar num processo de desenvolvimento condigno e honrado, com o orgulho do nosso trajecto de muitos séculos.

A humanidade está a entrar numa era de transformação, assente numa desafiadora evolução das ciências e das tecnologias, com impactos profundos nas nossas vidas e na economia. Portugal não pode ficar à margem desta  dinâmica. O País dispõe hoje de uma base científica, tecnológica, empresarial a laboral que nos permite não voltar a ficar para trás, e participar dessas transformações em benefício de todos os portugueses.

Não podemos desperdiçar recursos, nem oportunidades, por falta de competência ou em experimentalismos políticos,  aceitando más políticas sem verdadeiro controlo democrático, ou reconhecendo tardiamente a sua existência, como aconteceu, com consequências desastrosas e irreparáveis, nas últimas décadas.

Vivemos um momento histórico em que todos temos de assumir as nossas responsabilidades, fazendo o que deve ser feito, pensando nos nossos filhos e netos, definindo o que queremos para o nosso Pais, para  só depois escolhermos os que nos merecem a confiança suficiente para dirigirem politicamente Portugal.

Queremos um País que esteja, pela qualidade inovadora suas das ideias e pela eficácia das suas propostas, no centro dos debates do nosso tempo, na União Europeia e em todo o lado. Não queremos um Pais expectante, a viver num vazio estratégico e preso aos mais diversos tacticismos políticos e às ambições de índole pessoal e partidária.

A  minha Candidatura é dirigida a todas as portuguesas e portugueses, sem excepção. Mas não vos escondo que penso muito, muito especialmente nas famílias portuguesas que vivem hoje as maiores dificuldades da sua vida; nos reformados a quem reduziram os seus rendimentos e que vêm desesperados partir os filhos e os netos sem os poder ajudar; nos desempregados a quem foi cortado o subsídio de desemprego; nos trabalhadores e nos funcionários públicos a quem é retirado diariamente uma parte do fruto do seu trabalho e do  orgulho de servir Portugal; nos empresários portugueses de todos os quadrantes e sectores, esmagados pelos impostos e pela burocracia, negligenciados pelo poder político e a viver  um perigoso isolamento relativamente às grandes decisões nacionais, empresários de quem espero uma colaboração indispensável  para consensualizar uma estratégia de progresso e de desenvolvimento para o nosso País; nos jovens desempregados, ou aqueles  jovens que partiram à procura de trabalho e de justiça.

Por tudo isto, o meu compromisso é o de usar até ao limite os poderes presidenciais consignados na Constituição da República e que tantas vezes têm sido ignorados. Mas é também o de fazer uma verdadeira pedagogia do exemplo em contacto permanente com os diversos sectores da sociedade portuguesa, de forma a incentivar os portugueses a participarem nas mudanças politicas, económicas, sociais e comportamentais de que Portugal precisa para vencer na Europa e no Mundo, na reafirmação do legado universalista da nossa história.

É a construção de uma Nova República o que hoje proponho aos portugueses: uma República  de iguais, nos direitos e nos deveres. Uma República da verdade, da honradez e dos valores, uma República de que nos possamos orgulhar e legar aos nossos filhos.

Sinto e sei, que juntos podemos fazer acontecer.

VIVA PORTUGAL
 
Henrique Neto