terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A LOUCURA DE CHURCHILL





Por sugestão de um amigo, li agora (quando a situação no Médio Oriente não cessa de agravar-se), o livro de Christopher Catherwood, A Loucura de Churchill - Como Winston Churchill Moldou o Moderno Iraque e o Médio Oriente (2008), tradução portuguesa do original inglês publicado em 2004, na sequência da invasão do Iraque, Churchill's Folly - How Winston Churchill Created Modern Iraq. No meio da interminável bibliografia sobre o Médio Oriente, publicada nas últimas décadas mas nomedamente depois da invasão de 2003, este título passara-me despercebido.

Trata-se de uma obra curiosa, ainda que não excessivamente rigorosa e por vezes repetitiva. Todavia, o autor consegue dar-nos a imagem do que foi a criação do Estado do Iraque no território da antiga Mesopotâmia e o papel desempenhado por Winston Churchill na solução que (e não se pode abstrair do conjunto da Palestina, Síria, Líbano, Jordânia e Arábia Saudita) viria a revelar-se mais tarde um oceano de problemas e, um século depois, uma verdadeira tragédia.

Insiste Catherwood em focar o papel de Churchill na constituição do Iraque e na colocação no trono do emir Faisal, mas ele mesmo reconhece ser impossível dissociar o plano ocidental, sobretudo anglo-francês, para moldar segundo os interesses das potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial, o mapa do Médio Oriente. Recorre principalmente o autor à volumosa biografia oficial de Churchill, por Martin Gilbert e aos arquivos consultados, nomeadamente os Chartwell Papers, guardados nos arquivos do Churchill College, em Cambridge. O livro é abundante de citações, todas devidamente identificadas nas notas finais, e é em grande parte a partir dessas citações que Catherwood elabora a sua narrativa.

Alguns aspectos são especialmente enfatizados, tais como a eterna preocupação de Churchill com as despesas e a vontade de reduzi-las mesmo quando isso fazia perigar os objectivos globais do Governo de Sua Majestade, e o seu pavor perante o perigo bolchevique, o que não o impediu de se aliar à União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Aliás, Churchill mudou de opiniões sempre que tal lhe convinha, como igualmente de partido, tendo começado por ser um liberal radical e acabando num conservador convicto, e foi também uma personalidade bastante imprevisível em muitas acções, actuando por vezes precipitadamente, como na sua insistência no ataque aos turcos no fim do Império Otomano, que se saldou no desastre de Gallipoli, que o remeteu a um limbo político, donde só conseguiu sair, e vir depois a triunfar, devido à mão que lhe estendeu Lloyd George. Por isso, preconizou depois, contra George que era ferozmente pró-grego, uma política de desanuviamento e entendimento em relação a Atatürk, e igualmente em outras circunstâncias, tendo também aqui mudado radicalmente de ideias, nos anos 30 do século passado, altura em que, contrariamente à atitude conciliatória de Neville  Chamberlain, se opôs frontalmente a Adolf Hitler.

O livro começa com uma sumaríssima introdução à história dos territórios em causa, desde os tempos bíblicos até à Revolta Árabe de 1916, abordando a promessa feita ao emir Hussein do Hijjaz da criação de um grande reino árabe na região sobre os escombros do Império Otomano, cuja não concretização constituiu uma "grande traição" para os árabes, e cujas consequências perduram até aos nossos dias. São referidos os famigerados Acordos Sykes/Picot (1916), que partilharam clandestinamente o Médio Oriente entre britânicos e franceses (e russos, mas a Revolução de 1917 viria a afastá-los dessa pretensão) e a Declaração Balfour (1917), considerando que o Governo britânico via com bons olhos a criação de um Lar Nacional Judaico na Palestina. E não é omitido o papel do célebre T. E. Lawrence, personalidade enigmática, ardente defensor da causa árabe (por motivos talvez mais pessoais do que políticos), autor de uma autobiografia um pouco fantasiosa, Os Sete Pilares da Sabedoria, e que morreria mais tarde, num estranho acidente de mota, em Inglaterra, depois de se ter demitido, despeitado, de todas as funções que exercera no processo do Médio Oriente.

Um dos assuntos escalpelizados é a célebre Conferência do Cairo de 1921, convocada por Churchill, que reuniu todos os especialistas que o ministro das Colónias entendeu convenientes para se decidir que países formar e a quem entregar o governo daquilo que eram os territórios de mandato outorgados pela Sociedade das Nações. A esses convocados chamou Churchill os 40 ladrões, e certamente com perfeito conhecimento de causa.

Além do sharif de Meca, o emir Hussein ibn Ali, havia que contar com os seus filhos, Faisal, Abdullah, Ali e Zaid, e ainda com Abdel Aziz Al Saud (conhecido por Ibn Saud), e com outros dignitários menores.

Apesar de estarem presentes alguns especialistas da região e conhecedores do Islão e das rivalidades religiosas, familiares e tribais, alguns dos quais já com uma experiência de vida naquelas zonas (por exemplo, o general Allenby, que tomou Jerusalém aos turcos e os derrotou em Damasco, embora permitisse que a entrada se fizesse com as tropas de Faisal, mas não esteve presente na Conferência por ser Alto-Comissário no Egipto, dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros), o desconhecimento profundo de Churchill sobre a matéria, a sua ligeireza na apreciação das situações, a sua constante preocupação com o dinheiro que o levava, à semelhança do que se verificava na Índia, a colocar líderes fantoches nos territórios (os marajás) que os deviam administrar mas sempre sujeitos à tutela britânica, determinou a aplicação das soluções que de momento se afiguravam mais conformes aos ineresses da Coroa e aos seus.

Assim, resolveu criar um Estado chamado Iraque (a partir de Uruk, cidade da antiga Suméria), reunindo os três vilayet (províncias) do Império Otomano de Mossul, Baghdad e Basra (Bassorá), tendo em atenção as reservas de petróleo (na altura ainda não se conhecia bem a sua extensão) e ignorando, ou fingindo ignorar, que Mossul era uma zona de curdos, Baghdad, uma zona de sunitas e Bassorá uma zona de xiitas. Mas que viviam mais ou menos harmoniosamente sob a tutela de Constantinopla. E como Faisal fora expulso da Síria pelos franceses, que eram os detentores do mandato, colocou-o no trono do Iraque, atribuindo outro reino, o da Transjordânia (agora Jordânia) a seu irmão Abdullah. Entretanto, o pai, Hussein, abdicou do trono do Hijjaz em seu filho Ali, que acabaria por ser derrubado em 1925 por Ibn Saud, soberano do Nejd, que assim unificaria, para mal de todos nós, a Península Arábica, tornado Reino da Arábia Saudita, à excepção do Yemen, Oman, Emirados, Qatar e Kuwait, que por umas ou outras razões não quis ou não pôde conquistar. Ibn Saud impunha, e tem imposto, através dos seus filhos, até aos nossos dias uma versão fundamentalista do islão, da Escola Hanbalita, o Wahhbismo, a mais puritana e rigorosa interpretação do Corão, que está na origem do jihadismo actual e que os membros da inumerável família real (mais de mil pessoas, presentemente) despreza olimpicamente, fora de portas. Deve notar-se que a Arábia Saudita é o único país que tem no nome a indicação da família reinante.

Escreve o autor: «Por resolver ficou o estatuto da parte árabe não judaica da região situada a ocidente do rio Jordão, que os colonos judeus mais radicais consideram, segundo a sua interpretação da Bíblia, como parte de um Estado hebraico e onde hoje se assiste à intifada. Embora Churchill não pudesse antever o que viria a acontecer, o que para ele não foi mais do que um expediente temporário teve consequências nefastas a longo termo no plano militar, político e religioso. Podemos por isso afirmar que, juntamente com a criação de um Estado iraquiano unificado, a criação de entidades políticas com um estatuto ambíguo no território do mandato para a Palestina resultaram, em grande parte, da "loucura" de Churchill.» (p. 167)

Também Churchill menosprezou a criação de um Estado Curdo, como estivera previsto. Por questões do exclusivo interesse britânico, Churchill acabou por não considerar a sua instalação na parte norte do Iraque (Mossul), uma zona essencialmente curda, entendendo que um Iraque também com curdos seria mais fácil de administrar do que se tivesse apenas sunitas e xiitas. Esta decisão constituiu um erro profundo. Os curdos encontram-se disseminados não só no norte do Iraque, mas no leste da Síria, no noroeste do Irão e no sul e leste da Turquia, onde têm mantido acesa e duradoura luta contra o governo de Ancara. A existência de um Curdistão independente teria poupado muitas confrontações nas últimas décadas.

Um dos aspectos, felizmente documentado, do desprezo de Churchill em relação aos civis consta de uma carta a Sir Hugh Trenchard, o pai da Real Força Aérea (1920): «Penso que deverá seguramente prosseguir com o trabalho experimental sobre bombas de gás, especialmente o gás mostarda, com o qual será possível punir os indígenas recalcitrantes sem lhes causar graves danos.» (p. 89). Mesmo que Churchill não quisesse, talvez por ignorância, gaseá-los até à morte, o que é certo é que morreram muitas centenas de rebeldes iraquianos nos ataques.

Ainda mais grave. Quando o ajudante de Churchill, o coronel Richard Meinertzhagen, lhe sugeriu que a utilização do gás venenoso era desaconselhável, expondo-lhe as razões (1921), Churchill respondeu: «Estou pronto para autorizar a construção imediata desse tipo de bombas; a questão do seu uso será decidida quando a ocasião surgir. Na minha opinião trata-se de uma experiência científica para poupar vidas que não devia ser impedida pelos preconceitos dos que não sabem pensar com clareza. Os detalhes completos das recentes experiências americanas [devem] ser disponibilizados.» (p. 194-5)

Algumas semanas antes escrevera um memorando sobre o uso de gás venenoso contra manifestantes palestinianos: «Não consigo compreender porque se considera legítimo matar pessoas com balas e uma barbaridade fazê-las espirrar.» (p. 195)

A confrangedora ignorância de Churchill (se ignorância era) sobre as consequências do uso do gás e a sua completa ausência de escrúpulos, manifestar-se-iam mais tarde, aquando do bombardeamento aéreo intensivo de cidades civis na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, de que Dresden é um exemplo. Actos que constituem uma indelével mancha moral na sua biografia.

Referimos no início que, não obstante fornecer-nos uma panorâmica pormenorizada da acção de Churchill no período em questão (e apenas sobre esse período verdadeiramente se empenhou o autor), o livro, além de desnecessárias repetições, é muitas vezes impreciso e inexacto, nomeadamente em datas e nomes.

A título de exemplo retivemos os seguintes casos:

- O Império  Otomano nunca se estendeu até à costa atlântica de Marrocos; o seu território não foi além do que é hoje a Argélia. (p. 19)

- A morte de Maomé ocorreu em 632 e não em 626. (p. 27)

- O segundo cerco de Viena ocorreu em 1683 e não em 1689. (p. 32)

- O primeiro nome de Lord Rothschild, a quem foi endereçada a Declaração Balfour, era Lionel Walter e não James. (p. 47)

- Os peregrinos muçulmanos que vão (pelo menos uma vez na vida) a Meca (o Hajj), conservam as suas convicções religiosas e não se tornam por isso mais radicais ou antiocidentais pelo facto da Cidade Santa do Islão estar em território wahhbita. (p. 114)

Haveria muitos outros casos a mencionar, mas a lista seria bem longa, e se estes erros são graves para quem lê pela primeira vez algo sobre o assunto, tornam-se de menos importância para quem já está familiarizado com estas matérias.

* * * * *

Para os admiradores incondicionais de Winston Churchill este livro reveste o maior interesse, pois, ainda que não seja intenção real do autor ostracizar o antigo primeiro-ministro britânico, a sua objectividade de historiador não poderia deixar passar em branco os actos menos felizes e mais irreflectidos daquele que é considerado um dos grandes políticos do século XX. Afinal, um homem bafejado pela sorte, que lhe acudiu nos momentos mais difíceis, e a quem as circunstâncias alcandoraram para o panteão da imortalidade.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A RAZÃO E O SENTIMENTO



Foi agora publicado em tradução portuguesa, com o título A Estranha Ordem das Coisas - A vida, os sentimentos e as culturas humanas, o livro de António Damásio a editar em língua inglesa com a denominação The Strange Order of Things - Life, Feeling and the Making of Cultures.

O autor, famoso neurocientista português, dera já à estampa outras obras em que tem descrita a sua investigação relativamente à interacção entre a razão e a emoção nos comportamentos humanos. Assim, O Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro Humano (1995), O Sentimento de Si: o Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência (2000), Ao Encontro de Espinosa: as Emoções Sociais e a Neurologia de Sentir (2003) e O Livro da Consciência: a Construção do Cérebro Consciente (2010), traduzidos em mais de trinta línguas.

O presente livro exige do leitor conhecimentos especiais de fisiologia e de neurologia para se compreender o pensamento do autor.  De organização aparentemente fácil, a maneira como Damásio recorre aos conceitos e às ideias sucessivamente expressas obriga a um exercício difícil de permanente recapitulação dos capítulos anteriores. Diria que não é acessível ao leitor comum, ainda que possuidor de razoável cultura geral. Carece de um leitor cientificamente bem informado quanto às matérias expostas.

O livro divide-se em três partes: I) A vida e a sua regulação (homeostasia); II) A montagem da mente cultural; III) A mente cultural em acção. Cada parte subdividida em vários capítulos. «O termo "homeostasia" foi cunhado pelo fisiólogo americano Walter Cannon, várias décadas depois de Claude Bernard. Cannon também se referia aos sistemas vivos, e, ao inventar o nome "homeostasia" para o processo, escolheu a raiz grega homeo- (semelhante) e não homo- (mesmo) porque estava a pensar em sistemas criados pela natureza, cujas variáveis exibem amiúde variações possíveis - hidratação, glucose no sangue, sódio no sangue, temperatura, etc.» (p. 78)

A parte III é talvez a mais interessante para um leigo na matéria. «Quanto à inteligência criadora, responsável pelas práticas e pelos artefactos das culturas, não pode funcionar sem afetos e sem consciência. Curiosamente, afetos e consciência são também as faculdades que se perderam de vista, escondidas pelas revoluções racionalista e cognitiva.» (p. 229)

«No final do século XIX, Charles Darwin, William James, Sigmund Freud e Émile Durkheim, entre outros, reconheceram o papel da biologia no estruturar dos acontecimentos culturais. Pela mesma altura, e chegando às primeiras décadas do novo século, vários teóricos (entre eles Herbert Spencer e Thomas Malthus) invocaram factos biológicos para defender a aplicação do pensamento darwiniano à sociedade. Esses esforços, geralmente conhecidos como "darwinismo social", resultaram em recomendações eugénicas na Europa e nos Estados Unidos. Mais tarde, durante o Terceiro Reich, os factos biológicos foram adulterados e aplicados às sociedades humanas com o objectivo de produzir uma transformação sociocultural radical. O resultado foi o extermínio horrendo e massivo de certos grupos humanos, justificado por antecedentes étnicos ou por identidade política ou comportamental. Embora injusta mas compreensivelmente, a biologia foi acusada desta perversão desumana. Foi preciso que passassem décadas para que a relação entre biologia e cultura se tornasse de novo um tema aceitável no mundo académico.» (pp 229-30)

«No seu começo a medicina não estava preparada para lidar com os traumas da alma humana. No entanto, podemos bem dizer que as crenças religiosas, os sistemas morais e a justiça, e a governação política visavam, em grande medida, esses mesmos traumas e tinham como objectivo a sua recuperação. Concebo o desenvolvimento das crenças religiosas como estreitamente relacionado com a mágoa provocada por toda a espécie de perdas pessoais, perdas que obrigavam os seres humanos ao confronto com a inevitabilidade da morte e com o sem-fim de maneiras em que ela pode surgir: acidentes, doenças, violência perpetrada por outros, catástrofes naturais, tudo menos a velhice, uma condição bem rara na Pré-História. Mas note-se que grande parte dos traumas da alma humana eram infligidos por acontecimentos públicos no espaço social. As  crenças religiosas constituíram respostas apropriadas a esses traumas em diversos aspetos.» (p 241)

«O desenvolvimento de códigos morais, de sistemas de justiça e de modos de governação política, começando com as disposições igualitárias das primeiras tribos humanas e prosseguindo com as complicadas fórmulas administrativas dos reinos da Idade do Bronze ou dos Impérios Romano ou Grego, como está estreitamente associado ao desenvolvimento de crenças religiosas ligadas aos sentimentos e, através dos sentimentos, à homeostasia. Os deuses, e, a seu tempo, um só Deus, são uma maneira de transcender os interesses erráticos dos seres humanos e de procurar uma autoridade desinteressada que possa ser imparcial, e em que se possa ter confiança e respeito. Note-se que ao longo das últimas duas décadas, a investigação dos fenómenos neurais e cognitivos relacionados com a moralidade e a religião entrou em contacto com os sentimentos e as emoções, tal como podemos ver nos trabalhos do nosso grupo de investigação e nos trabalhos de Jonathan Haidt, Joshua Greene e Lianne Young. Todas estas descobertas são particularmente bem analisadas por Mark Johnson e por Martha Nussbaum, segundo o ponto de vista da filosofia moral.» (p.243)

«Karl Marx terá supostamente descrito a religião como "o ópio das massas" (embora não tenha dito exatamente isso; o que disse foi que a religião era "o ópio do povo", com as "massas" a serem, provavelmente, uma correção pós-leninista). O que poderia ser mais inspirado na homeostasia do que a ideia de receber opiáceos para tratar a dor e o sofrimento humanos? Antes dessa famosa frase, Marx também escreveu que "A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, e a alma das condições que a não têm". Trata-se de uma interessante mistura de análise social e de poderosa intuição sobre a mente cultural. Combina a sua rejeição da religião com o reconhecimento pragmático de que a religião pode ser o refúgio de um mundo desumanizado e sem alma. Trata-se de uma expressão notável, sobretudo se tivermos em conta que Marx não fazia ideia de como o mundo se tornaria desumanizado e frio, sobretudo o mundo que ele próprio viria a inspirar. Notável também devido à ligação transparente entre estado de vida, sentimentos e respostas culturais. O facto de a história das religiões estar cheia de episódios em que as crenças religiosas levaram, e continuam a levar, ao sofrimento, à violência e às guerras, resultados que não são de todo humanamente desejáveis, não contradiz, de modo algum, o valor homeostático que tais crenças tiveram, e, claramente, ainda têm, para uma grande parte da Humanidade.» (pp 244-5)

«Dizer que os organismos vivos são algoritmos é, pelo menos, enganador, e em termos estritos é falso. Os algoritmos são fórmulas, receitas, enumerações de passos na construção de um resultado particular. Os organismos vivos, incluindo os organismos humanos, constroem-se segundo algoritmos e usam algoritmos para operar a sua maquinaria genética. No entanto, NÃO são eles próprios algoritmos. Os organismos vivos são consequências da interação de algoritmos e exibem propriedades que podem ou não ter sido especificadas pelos algoritmos que lhes orientaram a construção. O mais importante a reter é que os organismos vivo são conjuntos de tecidos, órgãos e sistemas em que cada célula componente é uma entidade viva, vulnerável, composta por proteínas, lípidos e açúcares. Não são linhas de código; são coisas palpáveis.» (p 275)

«A promoção da causa humana não põe qualquer problema para quem acredite que estamos a entrar numa fase "pós-humanista" da História, uma fase em que a maioria dos indivíduos humanos perdeu a sua utilidade para a sociedade. No quadro pintado por Yuval Harari, em que os seres humanos já não são precisos para travar guerras - a guerra cibernética substitui-los-á - e em que os seres humanos perderam os seus empregos graças à automatização, a maioria da Humanidade vai, pura e simplesmente, definhar e desaparecer. A História pertencerá aos que tiverem adquirido a imortalidade - ou, pelo menos, uma enorme longevidade -, e que assim receberão os lucros de uma tal situação. Emprego o termo "lucrar" e não "gozar", pois imagino que o estatuto dos seus sentimentos será ambíguo. O filósofo Nick Bostrom avança outra visão alternativa, em que robôs muito inteligentes e destrutivos dominarão o mundo e acabarão com a miséria humana do modo mais direto possível: acabando com a Humanidade. Seja como for, pressupõe-se que as vidas e as mentes futuras virão a depender, pelo menos em parte, de "algoritmos eletrónicos" que simulem artificialmente aquilo que os "algoritmos bioquímicos" agora fazem. Além disso, segundo a perspetiva de tais pensadores, a descoberta científica de que a vida humana é comparável na sua essência, à vida de todas as outras espécies enfraquece a tradicional plataforma do humanismo: a ideia de que os seres humanos são excecionais e distintos das outras espécies. É esta aparente contradição de Harari, e, se assim é, é uma conclusão seguramente errada. Os seres humanos partilham numerosos aspetos do processo de vida com toda as outras espécies, mas são realmente distintos numa série de características. O âmbito do sofrimento e das alegrias humanas é unicamente humano, mercê da ressonância dos sentimentos nas memórias do passado e nas memórias que os seres humanos construíram em relação ao futuro antecipado. Claro que é possível que Harari só nos queira aterrorizar com a sua fábula do Homo deus e espere que possamos resolver o problema antes que seja demasiado tarde. Nesse caso, concordamos, e eu espero, certamente, que assim seja.» (pp 280-1)

António Damásio preocupa-se ainda com a actual condição humana. E interroga-se como depois das destruições de duas guerras mundiais e com os progressos científicos e tecnológicos, os seres humanos continuam indiferentes aos dramas dos seus semelhantes que vivem na miséria. E escreve: «Embora a literacia científica e tecnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances e de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de refletir sobre aquilo que somos ou que podemos vir a ser. Ao que parece, não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser.» (p 290). Também o autor refere que nunca houve tanta informação disponível, ainda que cada vez menos imparcial, mas igualmente que o pú-blico não possui nem o tempo nem o método para converter as quantidades imensas de informação em conclusões razoáveis e de uso prático. E também que a disponibilidade quase instantânea da informação reduz o tempo necessário para a reflexão sobre a mesma. Fala da resistência à mudança, da aceleração do ritmo de vida, que contribui para o declínio da civilidade, e para a natureza viciante dos media electrónicos. Refere ainda as quebras de privacidade que acompanham o uso universal das redes sociais e de todos os tipos de vigilância, não só a necessária, por questões de segurança mas a que é praticada com toda a impunidade pelo sector privado. E alude ainda à possibilidade de conflitos catastróficos que envolvam armas nucleares e biológicas, aos riscos do terrorismo e da guerra cibernética e de infecções resistentes aos antibióticos. E a concluir: «Podemos culpar a modernidade, a globalização, a desigualdade da riqueza, o desemprego, a educação a menos, o entretenimento a mais, a diversidade, e a rapidez e ubiquidade radicalmente paralisantes das comunicações digitais, mas atribuir culpas não reduz os riscos, de imediato, nem resolve o problema das sociedades ingovernáveis, sejam quais foram as causas.» (p 296). António Damásio considera que esta visão desoladora pode ser atenuada pela perspectiva do famoso sociólogo Manuel Castells, que acredita que os media digitais abriram caminho para uma profunda remodelação dos sistenas governativos. Segundo este cientista, as democracias liberais estão a passar por uma crise de legitimidade, um problema que importa ser resolvido o mais rapidamente possível.

O autor refere-se ainda aos conflitos com origem no interior de cada indivíduo e alude a Freud, que entendia que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. O pai da psicanálise começara a delinear os seus argumentos n'O Mal-Estar na Civilização, publicado em 1930. Damásio evoca também a tragédia grega, em que os problemas que atormentavam os homens não eram causados pelas suas decisões mas por forças exteriores, deificadas, incontroláveis e inevitáveis. Estudioso do teatro, avança até Shakespeare, que, já no século XVI, regressa a esse espírito trágico no tratamento das emoções maléficas (Macbeth, Otelo, Coriolano, Hamlet e Rei Lear), tragédias só ligeiramente resgatadas pelo cómico da personagem de John Falstaff, de Henrique IV e de As Alegres Comadres de Windsor.

E conclui, comentando que o título do livro nada tem a ver com a obra de Michel Foucault, Les Mots et les Choses, que na versão inglesa se intitula The Order of Things (A Ordem das Coisas).

Muito e muito mais haveria a dizer sobre A Estranha Ordem das Coisas, mas o leitor interessado nestes problemas encontrará na leitura do livro matéria bastante para satisfazer  sua curiosidade intelectual.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

OS CRISTÃOS DO ORIENTE (III)




Continuando o post anterior:

Nos últimos tempos do Império Otomano, o regime suprimiu o estatuto de dhimmi, reservado aos  cristãos e judeus desde o início do Islão. Assim, os cristãos tornaram-se formalmente iguais aos muçulmanos, ainda que estes não o reconhecessem.

Nos anos 1840 a Bíblia foi traduzida em árabe pelos missionários ingleses instalados em Beirute. A partir de então, e devido ao impulso de Butros Al-Bustani e dos seus companheiros, foi empreendido um imenso trabalho lexicográfico destinado a adaptar a língua árabe ao mundo moderno. Com a edição de dicionários e gramáticas, a língua árabe deixou de ser apanágio dos sheikhs muçulmanos o que foi considerado intolerável pelos meios tradicionais. Nem as reformas de Mehemet Ali haviam provocado semelhante abalo.

Na década de 40 do século passado os cristãos criaram partidos transcomunitários ou pan-árabes (Partido Baath, Partido Nacional Sírio, etc.). Muitos cristãos aderiram ao Partido Comunista. Só o Líbano viu nascer partidos confinados à comunidade cristã, embora defendendo, segundo a sua própria visão, o interesse nacional.

A insegurança dos cristãos levou-os muitas vezes a apoiar regimes ditatoriais, o que criou atritos com os muçulmanos, que viram e vêem nesses regimes a influência do Ocidente.

O mosaico do Mashrek compreende numerosos grupos religiosos cristãos que pertencem a diferentes Igrejas independentes umas das outras. Cada um desse grupos possui um património diferente. Mas têm todas uma cidade em comum donde as Igrejas tiraram o nome: Antioquia  (Antakia), que ocupava o quarto lugar na Pentarquia, depois de Roma, Constantinopla e Alexandria e antes de Jerusalém. No seio da Igreja de Antioquia existem dois grandes patrimónios que se dividiram ao longo dos séculos: o património síriaco e o património bizantino (ou grego).

A Igreja de Antioquia distingue-se das outras Igrejas ortodoxas, porque estava presente no momento da expansão do islão. Foi o que deu origem ao nascimento de uma teologia ortodoxa de língua árabe.

As nações modernas apareceram com o desmoronamento do Império Otomano mas Antioquia continuou a ser a Igreja de toda a região e não seguiu a divisão das nações nascentes. Ao contrário, ultrapassou as fronteiras e as nações. A unidade fez-se então entre os cristãos que falavam a língua árabe. Os laços dos libaneses, dos sírios e dos iraquianos verificaram-se mais fortes do que as fronteiras políticas e administrativas.

* * * * *

Procedemos, neste post e no anterior, à recolha de alguns aspectos que nos pareceram mais interessantes nos artigos publicados no dossier da revista "Qantara" dedicado aos Cristãos do Oriente. Os textos dos artigos, devido às posições dos seus autores, nem sempre se nos afiguraram absolutamente isentos (e académicos), contendo mesmo imprecisões e inexactidões que procurámos corrigir e esclarecer na medida do possível. É pena que o dossier não tenha incluído um panorama geral de todos os Cristãos do Oriente, indicando os ramos, as obediências, as regiões, a sua formação e evolução até aos nossos dias. Bem como todos os actuais dignitários e suas dependências. Um trabalho que, certamente, exigiria uma informação e coordenação que não estaria nos propósitos da direcção da revista. Contudo, o que se escreveu é suficientemente importante para todos aqueles que julgam que no Oriente não existem cristãos.

domingo, 26 de novembro de 2017

OS CRISTÃOS DO ORIENTE (II)



Escrevi neste blogue, em 24 de Agosto de 2010, um post dedicado aos Cristãos do Oriente. Durante os passados sete anos, a situação destes não parou de degradar-se. Consagra agora a revista "Qantara", do Institut du Monde Arabe, um dossier sobre "L'avenir incertain des chrétiens arabes", a propósito da exposição promovida por aquele instituto, com o título "Chrétiens d'Orient - 2000 ans d'histoire", patente ao público de 26 de Setembro passado a 14 de Janeiro próximo. Regressemos, pois, ainda que rapidamente, ao tema.

Nos dias que correm, tornou-se normal muita gente espantar-se com o facto de existirem cristãos no mundo árabe. Apenas concebem que lá existam muçulmanos. Ora, antes da religião muçulmana surgir na Arábia (século VII DC) e se espalhar pelo Médio Oriente e o Norte de África, as populações eram cristãs ou, eventualmente, pagãs. Converteram-se depois ao islão, mas não totalmente. Minoritariamente, perduraram até hoje naquelas regiões muitos habitantes de confissão cristã, nomeadamente no Egipto, onde o seu número é estimado acima dos 10%. E também no Iraque, na Síria e no Líbano. Nos outros países árabes, a sua expressão é diminuta.

As Igrejas Cristãs do Oriente são provenientes de dois cismas. O primeiro deu origem ao nascimento, no século V, da Igreja dita Persa, ou Nestoriana, da Igreja Jacobita Ortodoxa da Síria e da Igreja Copta, todas em ruptura com a Igreja Bizantina. Estas Igrejas, devido à acção de missionários latinos, cindiram-se em duas nos séculos XVII e XVIII e originaram ramos católicos ligados a Roma mas preservando a liturgia própria. A Igreja Maronita, do Líbano e da Síria, saída dos primeiros cismas, está em comunhão com Roma desde o século XII.

Vejamos, em primeiro lugar, o Egipto.

A discriminação da minoria cristã vem desde a conquista muçulmana, com períodos mais brandos ou mais severos, mas importa-nos agora o nosso tempo. A exclusão dos cristãos das funções públicas começou nos anos setenta do século passado, com Anuar Al-Sadat, ainda que um copta, Butros Butros-Ghali (antes de ser secretário-geral da ONU), tivesse sido ministro do seu Governo, inclusive ministro interino dos Negócios Estrangeiros, quando o titular da pasta se recusou a acompanhar Sadat na polémica visita a Jerusalém.

Mas a retirada de estrangeiros começou com a nacionalização da Companhia do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser. Foram mais ou menos expulsos os judeus e também os italianos, gregos, libaneses, etc. que detinham grande parte da actividade económica e estavam especialmente concentrados em Alexandria. É a altura do começo de uma grande emigração, nomeadamente para a Austrália e os Estados Unidos. Nasser nacionalizou também os bens dos coptas que, verdade seja dita, tinham em suas mãos dois terços da economia do país.

Nasser não era marxista mas pretendia uma governção não alinhada com o Ocidente e o Bloco de Leste. E empenhava-se na justiça social. Sadat, que lhe sucedeu, era muito diferente de Nasser.e fizera parte da Irmandade Muçulmana. Assim, libertou os Irmãos presos no tempo de Nasser, que retomaram a sua influência,  e iniciou uma discriminação dos cristãos. Foi ele que colocou em residência fixa o Papa Copta Chenuda III.

O único momento de real união entre muçulmanos, cristãos e judeus foi em 1919, aquando da revolução contra a ocupação britânica. Realizaram-se manifestações à frente das quais figuravam estandartes com a cruz e o crescente. Os padres pregavam nas mesquitas e os sheikhs faziam alocuções nas igrejas.

Registe-se, por curiosidade, que a Lei da Nacionalidade Egípcia só foi promulgada em 1926.

Um dos grandes responsáveis da difusão de um islamismo mais radical ficou a dever-se, inadvertidamente, a Nasser, quando resolveu dotar a Universidade de Al-Azhar de cursos "profanos" com o intuito de promover um melhor conhecimento da língua árabe por parte dos estudantes e de "misturar" matérias religiosas e laicas. Até então a Universidade dispunha apenas de três faculdades: direito religioso, teologia e língua árabe, e o sheikh de Al-Azhar era nomeado pelo rei. Nasser promoveu a criação das faculades de farmácia, medicina, comércio, engenharia e agricultura.

A Universidade de Al-Azhar tem hoje três milhões de pessoas, das quais dois milhões de estudantes e dispõe de nove mil institutos. Ela constitui, pela doutrinação dos seus alunos, um dos grandes obstáculos à modernização do Egipto.

Os católicos do Egipto, hoje, são poucas dezenas de milhares (talvez 200.000), quando comparados com os mais de dez milhões de coptas. São na maioria católicos provenientes das antigas províncias do Império Otomano, quase todos maronitas, caldeus, sírios-católicos, melkitas (gregos católicos) e arménios-católicos.

No começo do século XIX, Muhammad Ali (Mehemet Ali), que governou o Egipto em nome do sultão durante 44 anos, procurou uma modernização do país, tentando prendê-lo à Europa, especialmante à França.

Uma segunda tentativa de modernização ocorreu com Jamal Al-Din Al-Afghani e Muhammad Abduh (franco-maçon e que foi Grande Mufti do Egipto), na segunda metade do século XIX. O seu pensamento preconizava um entendimento das três religiões do Livro.

A Nahda (Renascimento), no fim do século XIX, princípios do século XX, especialmente promovida pelos sírio-libaneses constituiu uma terceira tentativa de reforma. O Egipto desenvolveu a imprensa, a literatura, o teatro, as belas-artes, mas a cultura foi travada pela islamização progressiva do país. Um dos grandes obstáculos ao diálogo inter-religioso tem sido a atitude preconizada pela Universidade de Al-Azhar, e a posição do seu Imam Sheikh Ahmed Muhammad Al-Tayeb. O actual presidente da República, Abdel Fattah Al-Sisi tem-se esforçado por estabelecer pontes de entendimento, até porque, por óbvias razões, recebeu um especial apoio dos cristãos à sua tomada do poder.

Curiosamente, a Turquia conhece agora uma regressão semelhante com Recep Tayyip Erdoğan, que vem destruindo sistematicamente a modernização imposta (muitas vezes à força, reconheça-se) por Mustafa Kemal Atatürk.


* * * * *

Continuaremos a discorrer sobre este número da revista "Qantara" num próximo post.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

PIERINO DA VINCI




São raros os livros dedicados a Pierino da Vinci, um artista relativamente pouco conhecido, que nasceu em Vinci, cerca de 1530 e morreu em Pisa, apenas com 23 anos, em 1554.

Sobrinho do grande Leonardo da Vinci, o pai colocou-o junto de Baccio Bandinelli, apenas com doze anos, como aliás era hábito na altura, para aprender a arte do desenho. Mais tarde, tornou-se discípulo de Niccolò Tribolo e chegou a trabalhar com Miguel Ângelo.

Tendo nascido doze anos depois da morte do tio, não lhe foi alheia a inspiração familiar e iniciou muito cedo uma carreira, que prometia ser brilhante não tivesse ele morrido tão jovem, vítima de malária.



Típico jovem do Renascimento, de compleição franzina mas muito belo, diz-se que foi uma das grandes paixões do célebre Bronzino, cerca de 30 anos mais velho. Mas as relações com consideráveis diferenças de idade eram quase uma norma na época.

Fontana di Ercole

O seu primeiro trabalho foram os putti que decoram a famosa Fontana di Ercole, na Villa di Castello, em Florença, um monumento da autoria de Tribolo.

Deus fluvial

Não sendo vasta a sua obra, é notável o seu Deus Fluvial, que se encontra no Museu do Louvre, em Paris, ou o grupo Sansone e il Filisteo, que figura no Palazzo Vecchio, em Florença, ou ainda Pan e Olimpo ou La morte del conte Ugolino, ambos também em Florença, no Museu Nacional do Bargello.

Sansone e il Filisteo

A informação que possuímos a seu respeito, e de muitos dos seus contemporâneos, deve-se à obra de um artista do tempo, Giorgio Vasari (1511-1574), autor de Le Vite de' più eccelenti pittori, scultori e architettori, todavia pouco rigorosa, já que mistura factos reais com outros fruto da sua imaginação ou ainda dando crédito a lendas da época.

Pan e Olimpo

Uma das obras mais recentes e concisas sobre este precoce sobrinho do grande mestre, e donde extraímos as imagens, é Pierino da Vinci - Profilo interpretativo, de Mino Rosi, publicada em 2000. Existe um outro livro, Pierino da Vinci (Beiträge zur Kunstgeschichte des Mittelalters und der Renaissance), de Britta Kusch-Arnhold, que foi publicado em 2008, mas que não conhecemos.
 
La morte del conte Ugolino

terça-feira, 7 de novembro de 2017

NO CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO SOVIÉTICA




Passa hoje o centésimo aniversário da Revolução Comunista na Rússia, a chamada Revolução de Outubro, por ter ocorrido a 25 de Outubro de 1917, segundo o Calendário Juliano, correspondente a 7 de Novembro no mundo ocidental. Foi a primeira revolução comunista, inspirada nas teorias de Karl Marx, as quais rapidamente viria a abandonar parcialmente. A Revolução de Fevereiro levara à abdicação de Nicolau II e Kerensky ao poder, sem todavia alterar drasticamente a situação no país. Protagonizado por Lenin, com a colaboração de Trotsky, que viria a ser afastado e depois assassinado, o movimento dos Sovietes implicaria mudanças históricas e assustaria terrivelmente os países capitalistas. Era a primeira experiência do socialismo real que, com mão de ferro, Stalin impôs à Rússia, aos Estados que viriam a integrar a União Soviética, e aos países satélites que ficaram na órbita comunista depois da Segunda Guerra Mundial. Pode afirmar-se que foi o maior acontecimento político-social do século passado.

A guerra que se travou entre bolcheviques e "russos brancos", as deportações estalinistas, as purgas do regime, originaram milhões de mortos e deslocados, um preço demasiado elevado para os resultados obtidos. É certo que foram abolidos inexplicáveis privilégios de uma casta dirigente e que foi estabelecida uma maior justiça social, mas a União Soviética funcionou como um Estado policial, mesmo depois da morte de Stalin. A corrida aos armamentos face ao desafio ocidental estiolou a sua economia, a que fora retirada margem para qualquer iniciativa privada. O último chefe de Estado e secretário-geral do Partido, Mikhail Gorbatchov, não pôde, não soube ou não quis travar o desmoronamento da União Soviética. A Comunidade de Estados Independentes teve uma duração efémera e surgiu então à frente da Federação Russa um homem desprovido de quaisquer qualidades, Boris Yeltsin, que se transformou num vassalo dos interesses ocidentais, provocando profunda humilhação no povo russo.

Há milhares de livros sobre a Revolução Russa, sobre a União Soviética, e sobre a sua implosão. Estas linhas mais não se destinam do que a assinalar um acontecimento capital na História do século XX.

Vladimir Putin, desde 2000 à frente da Federação, tem procurado restaurar, não o regime comunista em que foi criado, mas o orgulho ferido da população russa, enfrentando, quando necessário, o Mundo Ocidental. Mas a queda do comunismo nos países soviéticos e satélites e a rápida instauração de um capitalismo selvagem em troca de algumas liberdades formais, não evitou uma profunda pauperização das populações, que a oligarquia vigente naturalmente não atenuou. A maioria daqueles que viveram ainda uma parte da sua vida sob o regime comunista, tantos imigrados em Portugal, não hesitam em dizer que se vivia melhor na vigência daquele regime.

Ainda não passou o tempo suficiente para se fazer um juízo definitivo do bem e do mal do regime comunista, que chegou a contar com a simpatia e apreço de uma larga parte da intelectualidade europeia e mundial, pelo menos até às intervenções na Hungria e na Checoslováquia, e de largas faixas das populações, e se projectou e radicou em países tão vastos como a China. Como tudo na vida, há quem exalte apenas os aspectos positivos, outros tão só os negativos. A proximidade dos acontecimentos impede o tal juízo sereno quanto ao balanço final. Se é que existem juízos definitivos na História!

Curiosamente, ou talvez não, não se verificarão comemorações, nem em são Petersburgo, nem em Moscovo.


domingo, 5 de novembro de 2017

A BÍBLIA ORTODOXA




A publicação de mais um volume da Bíblia (Antigo Testamento - Os Livros Proféticos) na tradução de Frederico Lourenço, efectuada directamente da versão grega conhecida como Septuaginta, é um trabalho do maior interesse para o conhecimento dos mais antigos textos hebraicos sem a intermediação da Vulgata, e a cujo tradutor devemos esse inestimável serviço. Suscita-se, todavia, a questão de saber quais os livros incluídos na Bíblia utilizada pelos cristãos ortodoxos.

Tem sido preocupação de Frederico Lourenço referir os livros constantes da Septuaginta, bem como os incluídos nas Bíblias utilizadas por católicos e protestantes. Mas até hoje os ortodoxos, um dos três grandes ramos da Cristandade, ficaram de fora.

Assim, e não dispondo de elementos que me permitam tecer comentários relativos aos paralelismos das Bíblias dos três "Cristianismos", enuncio, a partir das fontes de que disponho, os livros que integram a Bíblia Ortodoxa.

O Novo Testamento é idêntico ao católico e ao protestante: Evangelhos, Actos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

O Antigo Testamento regista algumas diferenças, contando os seguintes livros:

Livros da Lei: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio

Livros Históricos: Josué, Juízes, Rute, Reinos (4 livros), Paralelipómenos (2 livros), Esdras (2 livros), Tobite, Judite, Ester e Macabeus (3 livros)

Livros Sapienciais: Salmos, Salmo 151, Odes, Oração de Manassés (que é incluída nas Odes), Job, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Sabedoria de Jesus (Eclesiástico) e Salmos de Salomão

Livros Proféticos: os Doze (Oseias, Amós, Miqueias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias), Isaías, Jeremias, Baruc, Lamentações, Epístola de Jeremias, Ezequiel e Daniel (completo)

Apêndice: IV Livro dos Macabeus


Por aqui se constata que a Bíblia Ortodoxa é praticamente idêntica à versão da Septuaginta. Aliás, seria estranho que tal não fosse, já que a religião ortodoxa é basicamente grega, donde se espalhou para as regiões vizinhas: Rússia, Bulgária, Roménia, Sérvia, etc.

Relativamente aos textos dos livros, que não conheço, poderá Frederico Lourenço, que está agora a traduzir a Septuaginta, esclarecer se os textos dos livros desta são ou não idênticos aos dos livros que integram a Bíblia Ortodoxa.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

AINDA AS IGREJAS DE BUDAPESTE



Igreja Calvinista

Concluo hoje o périplo por mais algumas igrejas de Budapeste, que se me depararam ocasionalmente no caminho, ainda que nem todas tenham sido ocasionais, caso das que referi em posts anteriores.

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Não pude visitar o Templo Reformista, na Kálvin tér, logo a seguir ao Museu Nacional, pois encontrava-se encerrado. Construído entre 1816 e 1830, a torre foi erguida em 1859, e tem sofrido algumas remodelações com o correr dos anos.

Estátua de Calvino

No largo fronteiro encontra-se uma estátua de Calvino.


Capela Ják

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No Parque Városliget, por trás da Praça dos Heróis, imediatamente antes do Castelo Vajdahunyad (de que faz parte), e onde está instalado o Museu da Agricultura, fica a Capela Ják, edifício que reproduz uma capela beneditina datando de 1214, que se encontra na região de Ják, perto da fronteira com a Áustria.
Não se reproduzem fotos do interior, porque um guarda exigiu o pagamento de bilhete de ingresso, o que normalmente recuso num templo religioso, ainda que este verdadeiramente o não seja.

Castelo Vajdahunyad
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O Castelo Vajdahunyad é constituído por um conjunto de construções de vários estilos arquitectónicos. Foi desenhado por Ignác Alpár para as Comemorações do Millennium da Hungria em 1896, reproduzindo detalhes de mais de 20 edifícios famosos na história do país. Por exemplo Vajdahunyad alude ao castelo de Hunyad, localidade da Transilvânia, hoje em território romeno.

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O Castelo situa-se numa ilha do grande lago do Parque Városliget. Inicialmente edificado em cartão e madeira, para constituir uma atracção, tornou-se tão popular que foi reconstruído em tijolo e pedra entre 1904-6. Os pavilhões estão agrupados por ordem cronológica de estilos: românico, gótico, renascentista, barroco, etc. Por falta de tempo (e também de verdadeiro interesse por este kitsch), não visitei.


Igreja Sérvia

Também não visitei o interior da Igreja Ortodoxa Sérvia de São Jorge por se encontrar encerrada quando lá passei. Edificada no meio de um jardim, foi o centro religioso de uma vasta comunidade sérvia que se instalou nesta zona, especialmente a partir de finais do século XVII.


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A actual igreja foi construída em 1698, em estilo barroco, para substituir a anteriormente existente, tendo desde então sido objecto de várias modificações. Situada na Szerb utca, 2 a 4, está interiormente organizada como todos os templos ortodoxos. A iconóstase data de 1850 e é da autoria do escultor sérvio Miahai Janich e as pinturas, de influência renascentista italiana, são obra do grego Károly Sterio.


Igreja de Santa Ana

A Igreja de Santa Ana fica situada na Batthyány tér 7, do lado de Buda, no sopé do monte, já sobre o Danúbio, no distrito de Víziváros (Cidade da Água). Começou a ser construída em estilo barroco pelos jesuítas em 1740, mas um terramoto, em 1763, danificou bastante o edifício. A dissolução da Companhia de Jesus atrasou a conclusão do templo, que só foi consagrado em 1805.

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No centro do tímpano encontra-se o brasão de Buda, encimado pelo símbolo da Santíssima Trindade. O portal está decorado com figuras alegóricas da Fé, Esperança e Caridade.


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No altar-mor, as esculturas representam a Virgem Maria a ser trazida por sua mãe, Santa Ana, para o Templo de Jerusalém, obra terminada em 1773 por Karóly Bebó.

Igreja Paroquial de Santa Ana (Servita)

Há uma outra Igreja de Santa Ana em Budapeste (esta do lado de Peste, no distrito de Belváros, próximo da Vaci utca), pertencente à Ordem dos Servitas e localizada na Déak Ferenc tér.

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Construída em 1725-32, segundo desenho de János Hölbling e Gyórgy Pauer, teve a fachada reconstruída em 1871, e a torre foi coberta com um novo telhado desenhado por József Diescher. É considerada um dos mais belos edifícios barrocos da Hungria. 

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Sobre as portas de entrada encontram-se imagens de São Peregrino e Santa Ana, e junto à torre estão, de cada lado, São Filipe e Santo Agostinho. À direita da entrada há um baixo relevo de János Istók, de 1930, dedicado aos heróis do VII Regimento Wilhelm Hussar, que morreram na primeira Guerra Mundial.

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No templo realizam-se regularmente concertos.


E com estas imagens dou por terminado o meu périplo pelas igrejas de Budapeste, realizado este ano.