terça-feira, 14 de agosto de 2018

RECORDAÇÕES DE INFÂNCIA



Para uns dias de férias na praia resolvi levar um livro há muitos anos adormecido na minha biblioteca: Un souvenir d'enfance de Léonard De Vinci, de Sigmund Freud, traduzido por Marie Bonaparte. Lera algumas das obras mais importantes do Mestre de Viena, mas esta, inexplicavelmente, permanecia em sossego numa estante. Leonardo, o homem que Freud considera o Fausto italiano, devido ao seu incansável e insaciável espírito de investigação. (p. 26)

Neste livro, Freud debruça-se sobre a sexualidade infantil (um dos seus temas de eleição) e enuncia as três possibilidades de curiosidade intelectual após o período de investigação da dita sexualidade infantil. (p. 34)

Insiste Freud, neste seu ensaio, que Leonardo se limitou, no decorrer da sua vida, a uma homossexualidade platónica (salvo, talvez, o período em que se iniciou nas artes, quando trabalhou como garzone, dos 14 aos 21 anos, no atelier de Andrea Del Verrocchio, à época o mais notável pintor e escultor florentino). Sabemos hoje que não foi assim, e Freud possivelmente o saberia também, mas a prática habitual da homossexualidade de Da Vinci ou não encaixaria nos seus esquemas mentais  ou a sua exposição pública não seria conveniente para os padrões da época.

Segundo Freud, uma única vez Leonardo inseriu nos seus escritos científicos um dado relativo à sua infância. É quando refere que, ainda no berço, um abutre se lhe dirigiu e lhe abriu a boca com a cauda, tendo-lha enfiado várias vezes entre os lábios. Transcrevo o original italiano da pena do artista: «Questo scriver si distintamente del nibbio par che sia mio destino, perchè nella mia prima infantia è mi parea che essendo io in culla, che un nibbio venissi a me e aprissi la bocca colla sua coda e molte volte mi percotessi con tal coda dentro alle labbra.» (Codex Atlanticus di Leonardo da Vinci - Biblioteca Ambrosiana di Milano). (p. 64)

Esta investida do abutre corresponde à ideia de um fellatio, até porque coda (cauda, em italiano) é o símbolo mais conhecido e a designação do ersatz do membro viril. (p. 53) Ao longo da obra, Freud discorre sobre as circunstâncias do nascimento de Leonardo, filho ilegítimo, arrancado aos cinco anos aos braços da mãe para passar a viver com o pai e com a madrasta que, aliás, cuidadosamente se ocupou dele. Todavia, a ligação à mãe biológica, que o amamentou, permaneceu para sempre em Leonardo. E sendo Freud um estudioso das civilizações orientais, em especial da egípcia, não deixa de salientar que na escrita sagrada hieroglífica os egípcios figuravam a Mãe sob a imagem de um abutre. A divindade maternal, com cabeça de abutre, era designada por Mut, sendo curioso que "mãe" se diga "Mutter" em alemão. (p. 57)

Escreve o Mestre: «Si nous tenons compte de la vraisemblance historique suivant laquelle Léonard se comporta toute sa vie sentimentalement en homosexuel, la question se pose: ce fantasme n'a-t-il pas trait à quelque lien causal entre les rapports de Léonard enfant avec sa mère et son ultérieure homosexualité, manifeste bien que platonique?» (p. 77) «Chez tous nos homosexuels hommes, nous avons retrouvé, dans la toute première enfance, période oublié ensuite par le sujet, un três intense attachement érotique à une femme, à la mère généralement, attachement provoqué ou favorisé par la tendresse excessive de la mère elle-même, ensuite renforcé par un effacement du père de la vie de l'enfant.» (pp. 78-9)

Ao longo da obra, Freud vai tecendo pertinentes considerações. Por exemplo: «Tout le monde, même l'être le plus normal, est capable du choix homosexuel de l'objet, l'a accompli à un moment donné de sa vie, puis, ou bien s'y tient encore dans son inconscient, ou bien s'en défend par une énergique attitude contraire.» (p.92) «La fable de la cicogne, du grand oiseau qui apporte les enfants, que l'on conte à ceux-ci quand leur curiosité s'éveille, les phallus ailés des anciens, l'expression "vögeln" (de Vogel: oiseau) dont on désigne en allemand populaire l'activité sexuelle de l'homme, le nom d'ucello (oiseau) donné par les Italiens au membre viril; autant de fragments d'un grand ensemble nous enseignant que le désir de voler ne signifie rien autre, dans nos rêves, que le désir ardent d'ètre apte aux actes sexuels. C'est là un souhait infantile très précoce.» (p. 129)

Ou ainda: «Mais même en possession de la plus ample documentation historique et du maniement certain de tous les mécanismes psychiques, l'investigation psychanalytique  en deux points importants resterait impuissante à rendre compte de la nécessité qui commanda à un être de devenir ce qu'il fut et de devenir rien d'autre. Nous avons dû admettre que, chez Léonard, le hasard de sa naissance illégitime et l'excessive tendresse de sa mère exercèrent l'influence la plus décisive sur la formation de son caractère et sur sa destinée, le refoulement survenu après cette phase d'enfance ayant conditionné et la sublimation de la libido en soif de savoir et l'inactivité sexuelle de toute sa vie.» (p. 148) «La psychanalyse reste donc impuissante à expliquer ces deux particularités de Léonard: sa tendance extrême au refoulement des instincts et son extraordinaire capacité à la sublimation des intincts primitifs.» (p. 149)

Na capa do livro é apresentada a pintura de Leonardo da Vinci "A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana", exposta no Museu do Louvre. Freud tece diversas considerações sobre as pinturas inacabadas de Leonardo, sempre insatisfeito com as suas obras, o que é o caso do quadro em questão, da "Gioconda" ou da "Última Ceia". Relativamente ao primeiro, Freud enfatiza a ligação primordial entre a Virgem e o Menino (a Mãe e o Filho) considerando Santa Ana uma figura acessória. E estabelece uma comparação geométrica entre a pintura e o abutre dos seus sonhos. Reproduzimos abaixo a interpretação de Freud:


A parte tracejada do desenho representa o abutre. À esquerda, a cabeça e o pescoço do abutre, o corpo confunde-se com o manto azul da Virgem, e à direita alta, a cauda na direcção da boca do Menino. Insondáveis os desígnios de Freud e da psicanálise.

Em 2015, Mário Cláudio publicou Retrato de Rapaz, sobre a vida de Salaï, discípulo e amante preferido de Leonardo Da Vinci. Nesta obra de ficção, a todos os títulos exemplar, o escritor não só retrata Salaï como evidentemente Leonardo, utilizando as informações hoje existentes sobre o Mestre florentino e que não eram ainda conhecidas no tempo de Sigmund Freud. Sobre o livro de Mário Cláudio escrevi então aqui, à data em que o mesmo recebeu o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.


sábado, 11 de agosto de 2018

A QUEDA DO OCIDENTE




Acabou de ser publicado, com o título A Queda do Ocidente? Uma Provocação, o livro de Kishore Mahbubani, originalmente intitulado Has the West Lost It? A Provocation, editado também no corrente ano.

O autor é professor na Universidade Nacional de Singapura, foi embaixador do seu pais nas Nações Unidas e é especialista em relações internacionais.

A presente obra constitui uma lúcida reflexão sobre a situação actual do mundo, e ainda que não subscreva integralmente todas as conclusões de Mahbubani reconheço que este livro é uma contribuição inestimável para a compreensão da já tão anunciada decadência do Ocidente.

Mahbubani começa por se debruçar sobre a Nova Ordem Internacional (outros o têm feito), interrogando-se sobre a forma como o Ocidente tem tratado o Resto do Mundo (The West and the Rest) e considerando que o Ocidente pode e deve, no seu próprio interesse, melhorar as suas relações
com os outros países. E aponta como boa notícia que a economia mundial não está a encolher, embora se verifique uma inversão do crescimento. Durante as últimas décadas a primazia era do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido). Mas em 2015 o G7 contribuiu tão só com 31,5 %, enquanto o E7 (os Sete Emergentes: Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia), com 36,3 %.

Trata depois a forma como a sabedoria ocidental foi aproveitada pelos países então considerados subdesenvolvidos. A disseminação da razão ocidental acabou por desencadear três revoluções silenciosas que explicam o sucesso de muitos países não ocidentais nas últimas décadas. A primeira revolução foi de teor político: a passagem de um regime feudal para um sistema democrático, prevalecente na Ásia e cujas histórias de sucesso estão a influenciar os países da África e da América Latina. [pessoalmente acho algum exagero nesta apreciação]; a segunda revolução foi do foro psicológico, levando milhões de indivíduos a acreditar que podem garantir uma vida melhor para si e para os seus filhos; a terceira revolução foi no campo da governação. Os três países asiáticos mais populosos (China, Índia e Indonésia) tiveram líderes fortes na era pós-colonial, e assim era preciso: Mao-Tsé-Tung, Jawaharlal Nehru e Sukarno, que se focaram mais na política do que na governação. Por outro lado, os líderes actuais, Xi Jinping, Narendra Modi e Jokowi partilham a convicção de que a boa governação transformará e fará florescer as suas sociedades.

O autor passa em revista os principais acontecimentos políticos das últimas décadas e relembra ter alertado a Europa, há vinte e cinco anos, para cuidar melhor do Norte de África, caso contrário o pequeno Mediterrâneo começaria a ser atravessado por barcos carregados de refugiados [recordo que, há anos, Umberto Eco fez a mesma observação]. Refere também a explosão mundial das viagens, salientando que o turismo internacional é o derradeiro sinal de riqueza.

Mas é quando fala da húbris ocidental que o livro é mais certeiro. Com a queda da União Soviética, «os líderes ocidentais desligaram todos os sinais de alarme que os poderiam ter alertado relativamente a outras mudanças significativas» (p. 58). «O ensaio de Fukuyama, O Fim da História, provocou muitos danos cerebrais no Ocidente». Foi nessa altura que se ligaram os motores no resto do planeta, nomeadamente na China (Deng Xiaoping) e na Índia.

Um dos capítulos mais interessantes é o relativo aos erros estratégicos do Ocidente: o Islão, a Rússia e a interferência nas questões internacionais. A invasão mais insensata foi a do Iraque, em Março de 2003, na sequência do 11 de Setembro, liderado [supostamente] por Osama Bin Laden. E ao fazê-lo, depôs um líder secular forte e opositor de Osama: Saddam Hussein. «A invasão do Iraque foi um desastre. E as suas consequências foram piores ainda porque reforçaram a convicção entre 1,5 mil milhões de muçulmanos de que a perda de vidas muçulmanas não era relevante para o Ocidente. Uma questão pertinente para os historiadores futuros será a de tentarem perceber se o aumento de incidentes terroristas nas capitais do mundo ocidental não terá sido uma consequência indirecta desta imprudente campanha de bombardeamento de sociedades islâmicas.» (p. 66)

«O Ocidente comete um erro básico em todas as suas interações com o mundo islâmico: subestima a religião islâmica. Os analistas ocidentais observam estes países e veem apenas um conjunto de sociedades débeis. Associam o mundo islâmico a Estados falhados, como o Afeganistão e a Somália, ou a Estados devastados, como o Iraque e a Síria. Muito embora várias destas sociedades se estejam a debater com problemas complexos, a religião em si mesma está a crescer em força. Com efeito, sem rodeios, o islão pode muito bem ser atualmente a religião mais dinâmica e vibrante do planeta.» (pp. 66-7) Estima o autor que a população muçulmana, que em 2015 constituía 24,1 % da população mundial, será em 2060 equicalente a 31,1 % da mesma.

O segundo maior erro estratégico do Ocidente foi o de continuar a humilhar a Rússia. A dissolução da União Soviética por Gorbachev fora um presente em especial para os Estados Unidos. «Contrariamente às garantias implícitas dadas a Gorbachev e aos líderes soviéticos em 1990, o Ocidente expandiu a NATO até aos países anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia, entre os quais a República Checa, a Hungria, a Polónia, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia e a Eslováquia. Tom Friedman tinha toda a razão quando afirmou: "Opus-me à expansão da NATO na direcção da Rússia depois da Guerra Fria, num momento em que a Rússia atravessava o seu período mais democrático e menos ameaçador. Continua a ser uma das atitudes mais idiotas que tomámos e, claro, abriu caminho à ascensão de Putin."» (pp. 69-70) Quando o Ocidente ameaçou expandir a NATO até à Ucrânia, até mesmo indivíduos de duvidosíssima reputação como Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski se manifestaram contra. «Estes avisos foram ignorados. Os Estados Unidos apoiaram as manifestações contra o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia quando o seu regime colapsou em 2014. Putin sabia que o governo ucraniano seguinte poderia levar o país a aderir à NATO. O resultado poderia ser o de a Crimeia, que pertencera à Rússia entre 1793 e 1954, ser usada pela NATO contra a Rússia. Putin sentiu que não tinha outra hipótese senão reapropriar-se da Crimeia. Até mesmo Gorbachev o apoiou.» (pp.70-1)

«O episódio da Crimeia mostrou que há um limite para a humilhação que um país pode suportar. Era inevitável que o povo russo dissesse "basta!", e a eleição de Putin refletiu a vontade das pessoas.... No verão de 2017, o líder russo foi aviltado pelos meios de comunicação social norte-americanos por ter interferido nas eleições dos Estados Unidos. Tal interferência representa claramente um comportamento errado. Por outro lado, nenhum líder norte-americano fez a pergunta óbvia nos debates de 2017: terão os Estados Unidos interferido nas eleições de outros países? Dov Levin, do Instituto de Política e Estratégia da Universidade Carnegie Mellon, compilou uma base de dados que prova que sim - mais de 80 vezes entre 1946 e 2000.» (pp. 71-2)

O terceiro erro do Ocidente são as intervenções imprudentes nos assuntos internos de vários países. Não foi uma coincidência o fim da Guerra Fria ter trazido as chamadas "revoluções coloridas". Vejamos as principais: Jugoslávia, 2000; Geórgia, 2003; Ucrânia, 2005; Iraque, 2005; Quirguistão, 2005; Tunísia, 2010; Egipto, 2011. Muitas destas revoluções foram geradas internamente, mas quando postas em marcha o Ocidente apressou-se a apoiá-las, visto que para os decisores políticos ocidentais, nomeadamente os norte-americanos, a exportação da democracia era em si um bem. [Isto é a opinião do autor. Claro que para os ocidentais é-lhes indiferente que haja democracias ou não nos terceiros países. Daí o incondicional apoio à Arábia Saudita. Quando dizem pretender exportar a democracia os ocidentais apenas desejam exportar a economia ultraliberal de mercado. O Ocidente há muito, designadamente os Estados Unidos, não possui valores morais mas tão só materiais. E a própria democracia representativa ocidental se converteu numa farsa.]

Aquando dos acontecimentos do 11 de Setembro a maioria dos norte-americanos achou-se vítima inocente de um ataque injustificado. Mas muita gente viu nele uma resposta aos atropelos cometidos pelo Ocidente no mundo islâmico.

Segundo o autor, os países ocidentais necessitam de adoptar uma nova estratégia em relação aos outros países, a estratégia dos "Três Emes": minimalista, multilateral e maquiavélica. O Ocidente já não é o dono do mundo e deverá deixar de se envolver em questões que não lhe dizem respeito. As interferências dos Estados Unidos no Médio Oriente não fazem qualquer sentido, como não fizeram no Sudeste Asiático. «O Resto do Mundo não precisa de ser salvo pelo Ocidente ou educado em função das suas estruturas governamentais e elevados padrões morais. E, seguramente, dispensa ser bombardeado.» (p. 81)

A dimensão multilateral implica a existência de instituições globais mais fortes e eficazes. A Assembleia Geral das Nações Unidas é um parlamento global que deveria exercer a sua actividade independentemente o que não acontece devido aos vetos do Conselho de Segurança. O autor saúda a eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU.

A terceira dimensão de uma nova estratégia ocidental terá de ser baseada numa estratégia maquiavélica, no sentido da promoção da virtù (virtude). Mahbubani salienta a astúcia estratégica e lembra Sun Tzu: "Conhece o inimigo, conhece-te a ti mesmo, e a vitória nunca estará em causa, nem em cem batalhas". E, no Ocidente, poucos estão conscientes de quão rapidamente a extensão do seu poder global está a diminuir.

«Os meus amigos asiáticos, africanos e latino-americanos vão ficar perturbados com o meu apelo à astúcia do Ocidente: temerão que eu esteja a tentar prolongar o domínio ocidental sobre a ordem mundial. Não é esse o meu motivo para apelar a uma maior astúcia estratégica. Faço-o porque um Ocidente ingénuo e ideológico é perigoso. A incapacidade do Ocidente em proceder a importantes correcções estratégicas é responsável por muitos dos reveses que o mundo sofreu nos últimos tempos. O planeta tornar-se-á mais instável se o Ocidente não mudar radicalmente de rumo.» (p. 105)

»As democracias não foram concebidas para assumirem desafios a longo prazo. Conseguem responder a ameaças imediatas, como Hitler ou Estaline. No entanto, mesmo se a ameaça vier a ter de ser enfrentada pelos netos dos votantes, estes não elegerão um político que declare: "Vamos sacrificar o presente para salvarmos os nossos netos".» (p. 105)

«Uma das manifestas incongruências do nosso tempo é o facto de o Reino Unido e a França continuarem como "membros permanentes" do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), aprovando resoluções obrigatórias que os restantes países têm de cumprir. Ambas as nações apenas ocupam aquele lugar pelas suas façanhas no século XIX, e não por serem grandes promessas para o século XXI... A melhor maneira de reforçar a credibilidade do CSNU é o Reino Unido ceder o seu lugar à Índia e, tal como defendo no livro The Great Convergence, a França partilhar o seu assento com a UE.» (p. 112)

«O cerne do problema que o Ocidente enfrenta é que nem os conservadores nem os liberais, nem a direita nem a esquerda, compreenderam ainda que a história tomou outro rumo no início do século XXI. A era do domínio ocidental está a chegar ao fim. Os responsáveis destes países deviam levantar a cabeça, deixando de se centrar somente nos seus conflitos internos, para se focarem nos desafios mais abrangentes a nível mundial. Em vez disso, estão a acelerar, de várias maneiras, a sua irrelevância e desintegração.» (p. 125)

«É por isso que este livro pretende ser, em última análise, uma oferenda ao Ocidente, lembrando-o de quanto ele fez para elevar a condição humana a um ponto sem precedentes. Seria trágico, portanto, se o Ocidente se transformasse no principal instigador de agitação e incerteza no período mais promissor da nossa história. Se tal viesse a acontecer, os historiadores vindouros ficariam intrigados com o facto de a civilização mais bem sucedida de sempre ter sido incapaz de aproveitar a maior oportunidade alguma vez apresentada à humanidade. Uma pequena dose de maquiavelismo é tudo do que precisamos para salvar o Ocidente e o Resto do Mundo. Caso contrário, o Ocidente terá mesmo caído.» (p. 126)

Procurei apontar os principais aspectos do livro de Mahbubani, que aborda muitas matérias que é impossível especificar neste post. O autor procede a uma análise pertinente de muitos dos eventos verificados nos últimos tempos, análise que naturalmente subscrevo. Há, todavia, outras apreciações que me confundem e cuja dificuldade de compreensão Mahbubani, ele mesmo, reconhece no fim do livro. Donde parece resultar uma contradição. Em todo o caso, ficam expostas algumas das ideias deste livro que me foi recomendado por um amigo.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

EUNICE MUÑOZ




Completa hoje 90 anos Eunice Muñoz, uma das maiores actrizes portuguesas das últimas décadas, de quem tenho o privilégio de ser amigo.

Não tem este post a pretensão de recensear a sua extraordinária carreira artística. Sobre Eunice tudo já foi dito e escrito e a minha prosa nada acrescentaria ao brilho de uma vida dedicada ao teatro. Destina-se tão só a evocar a data, enviando-lhe um abraço da maior amizade.


domingo, 29 de julho de 2018

CRISTO RECRUCIFICADO



Nas minhas férias em Creta costumo ficar instalado num hotel em Ammoudara, a cerca de 10 km de Heraklion (ou Iraklio), a capital da ilha. Em estadas anteriores, desloquei-me algumas vezes à cidade, onde visitei os mais importantes locais de interesse cultural (monumentos, museus, igrejas, etc.), como igualmente visitei as ruínas de Cnossos, onde emergiu a célebre civilização Minoica, exumada por Arthur Evans no século XIX. Dessas deslocações dei conta aqui, aqui, aqui e aqui.



Havia, contudo, uma lacuna nas peregrinações por essas terras que albergaram uma das mais antigas civilizações conhecidas. E que, desta vez, me apressei a colmatar. Nunca visitara o túmulo de Nikos Kazantzakis, o célebre romancista (e dramaturgo) grego (1883-1957), natural de Creta, e autor de obras famosas como O Destino de Deus (São Francisco de Assis), Alexis Zorba, A Liberdade ou a Morte, A Última Tentação de Cristo ou Cristo Recrucificado.



O facto de o Teatro Experimental de Cascais (TEC) ter agora em cena uma adaptação da adaptação ao teatro de o Cristo Recrucificado (Ο Χριστός Ξανασταυρώνεται), livro publicado em francês em 1948 e em inglês em 1964, obra também conhecida no mundo anglo-saxónico como The Greek Passion, reforçou a minha vontade de me dirigir ao sul de Heraklion para visitar a sepultura.



O espectáculo que o TEC apresenta é uma adaptação da peça de François Daviel, que adaptara ao teatro o romance de Kazantzakis (1962). Existe também uma versão cinematográfica da obra, realizada por Jules Dassin, intitulada Celui qui doit mourir (1957), e uma ópera de Bohuslav Martinů, com o título A Paixão Grega (Řecké pašije).


Celui qui doit mourir (El que debe morir, na edição espanhola)

Nikos Kazantzakis foi um infatigável combatente pela independência da Grécia, um lutador solitário que colocou a pena ao serviço dos ideais que nortearam a sua vida, a defesa dos pobres e dos oprimidos contra as injustiças, os egoísmos, as humilhações. Esta sua derradeira obra é também uma interrogação sobre uma questão fundamental, de grande pertinência num país maioritariamente ortodoxo praticante à altura em que foi escrita: Ainda há lugar para Cristo no mundo moderno?


domingo, 1 de julho de 2018

OS ESPIÕES ASSASSINOS





O nº 2797 de "L'OBS" (14 a 20 de Junho) consagra um dossier aos serviços de espionagem israelitas, britânicos, franceses, americanos e russos. E aos assassinatos efectuados por estes serviços. O Mossad israelita é um dos mais poderosos serviços secretos. Nada nem ninguém o detém. Eliminou Wadie Hadad, chefe do braço armado das FPLP e tentou, aparentemente sem sucesso mas persistem dúvidas, assassinar Yasser Arafat. A CIA utiliza prisões secretas para torturar à vontade presumíveis terroristas. Mesmo em França, recentemente, François Hollande declarou aos jornalistas que ordenara pessoalmente operações "homo", isto é, execuções sumárias sem julgamento. O MI6, à beira do Tamisa e a DGSE do boulevard Mortier, no coração de Londres e de Paris, pretendem estar ao serviço da sociedade. A violência arbitrária de certas operações colocam a questão da sua legitimidade e da sua legalidade. Os serviços de informações destinados a proteger os Estados, logo as democracias, são por natureza anti-democráticos??? Quais as missões que se podem confiar aos serviços secretos e como definir os limites a respeitar? O segredo e a urgência, noções fundamentais neste tipo de operações, complicam muitas vezes o controle que as instituições democráticas têm a obrigação de efectuar. O que confere um imenso poder aos seus agentes, cuja actuação pode não respeitar os valores e as leis do Estado. Tanto mais que as ordens são muitas vezes susceptíveis de interpretações diversas.

Os dossiers negros do Mossad são vastos. Registemos algumas operações. O rapto e assassinato do líder oposicionista marroquino Mehdi Ben Barka, inimigo nº 1 do rei Hassan II, em 1965, em frente da brasserie Lipp, em Paris, como moeda de troca pelo facto do rei ter autorizado o Mossad a colocar escutas nas salas de reuniões em que ocorreu uma reunião da Liga Árabe, em Casablanca. Este caso, que teve obviamente cumplicidades francesas, provocou a fúria do general De Gaulle, que decapitou o serviço de contra-espionagem francês. Outro caso foi o assassinato no seu hotel de Paris, em 1975, do cientista iraquiano Yahya Al-Meshad, que preparava a instalação de um reactor nuclear no seu país, a pedido de Saddam Hussein. Seguiram-se dois outros cientistas iraquianos, igualmente mortos pelo Mossad: Salman Rashid, envenenado em Genève e depois Abd Al-Rahman, envenenado em Paris. Como todos foram substituídos por outros mais bem pagos e mais bem protegidos, Israel decidiu-se a uma operação militar, em 1981, bombardeando o reactor nuclear a sudeste de Baghdad. Ariel Sharon, primeiro-ministro (e criminoso de guerra) mandou abater um avião civil por presumir que viajava a bordo YasserArafat, mas o comandante das forças aéreas hesitou, e ainda bem, porque não só não viajava Arafat mas o seu irmão, como o avião levava a bordo 30 crianças que iam receber tratamento ao Cairo. Quando o movimento Setembro Negro abateu 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, a primeira-ministra Golda Meir jurou vingança e todos os membros do comando acabaram por ser abatidos pelo mundo fora. Mas uma das operações foi um fiasco. O Mossad matou em Lillehamer, na Noruega, em 1973, Ahmed Buchiki, diante da sua companheira grávida, porque o confundiu com Ali Hassan Salameh, líder do Setembro Negro. Este facto abalou um pouco o Mossad, até porque os agentes israelitas foram presos pela polícia norueguesa.

Em 1978, Wadie Haddad (Abu Hani) morreu em grande sofrimento em Berlim-Leste. Líder da Frente Popular de Libertação da Palestina, fora ele que ordenara, em 1976, o desvio para Entebbe de um avião da Air France ligando Tell-Aviv a Paris. Foi morto graças a uma arma indetectável, conforme relatório da autópsia transmitido à Stasi, não tendo sido descoberta a substância que poderá ter causado a sua morte. Verificou-se depois que o Mossad tinha introduzido um dos seus agentes na comitiva de Abu Hani, que lhe trocara o tubo de pasta dentífrica por um outro de aparência idêntica mas contendo uma toxina mortal fabricada nos laboratórios israelitas. Cada dia que Haddad lavava os dentes ia-se envenenando lentamente.

Um outro homicídio espectacular, preparado pelo Mossad com a ajuda da CIA, foi o de Imad Moughnieh, libanês, dirigente do aparelho militar do Hizzbullah, que organizara os ataques de 1983 em Beirute contra o Quartel-General americano, o Quartel-General francês e a embaixada dos EUA.  E também os atentados anti-israelitas de Buenos Aires em 1992 e 1994. Tornara-se um homem a abater pelos serviços secretos israelitas, franceses e americanos. Estando Moughnieh em Damasco, o Mossad, com a ajuda da CIA (aval de Bush pai) colocou um explosivo indetectável (entrado clandestinamente na Síria pela mão dos americanos) na parte de trás da sua viatura, numa zona normalmente não revistada pelos seus guarda-costas. Em 12 de Fevereiro de 2008, quando entrou no carro, Moughnieh explodiu, num dos locais mais bem guardados do país. Um triunfo para o Mossad e uma humilhação para os sírios.

As páginas seguintes da revista são dedicadas ao affaire Sergueï Skripal, que todos conhecemos, permanecendo a dúvida se a ordem foi emanada do Kremlin ou não, já que não é hábito agentes de um serviço atacarem ex-colegas, já retirados da actividade de espionagem. Kripal era um agente russo ao serviço (duplo) do MI5 britânico. Pode ter acontecido que, violando as regras do jogo, Kripal tenha prosseguido a sua actividade, agora sediado no Reino Unido, e isso tenha sido intolerável para o FSB (sucessor do KGB) que resolveu punir de forma evidente, e simultaneamente, o MI5 e Kripal, actuando em solo britânico mas não utilizando arma dissimulada, antes a utilização de um produto não mortal. Assim sendo, terá sido um golpe de mestre, e um aviso para dissuadir aventuras futuras de eventuais traidores.

Sobre a França, relata o jornalista que as operações "homo" começaram no país, de maneira profissional, aquando da guerra da Argélia. É então que o SDECE (antigo serviço de contra-espionagem) estrutura um Serviço Acção, que vai utilizar militares clandestinos, reservistas ou homens contratados pontualmente, para eliminar os inimigos da República. As suas operações mataram centenas de pessoas. Inicialmente, as regras eram não intervir em França, não matar cidadãos franceses e não deixar rasto. Mas tudo evoluiu. Em 1959 foi assassinado em Paris o advogado argelino Ould Aoudia. No fim da guerra da Argélia o feitiço voltou-se contra o feiticeiro, e vários membros do SDECE tentaram mesmo assassinar o general De Gaulle. Durante a V República, apenas Chirac se opôs a esta prática: raptar, sim, mas matar, não. Mas De Gaulle e Giscard autorizaram os homicídios e Mitterrand, que teoricamente se opunha, tudo permitia com a conhecida "ambiguidade mitterrandiana". Com Sarkozy, idem e Hollande viria mesmo a declarar em entrevista publicada recentemente em livro (Un président ne devrait pas dire ça...), que autorizara pessoalmente vários assassinatos. Segundo o articulista, Macron segue a mesma linha de Hollande, ainda com mais dureza, já que não tem estados de alma e não hesita em empregar qualquer tipo de forças, sejam clandestinas ou não. É isto a política da V República e a Justiça, dado o tipo de operações, nada pode fazer. As represálias sistemáticas, estejam os inimigos onde estiverem, é uma coisa que hoje se pratica às claras e se assume já politicamente.

A CIA actua também livremente através do Special Activities Center (SAC), capturando ou assassinando em qualquer parte os inimigos dos Estados Unidos. Foram os homens do SAC que capturaram Saddam Hussein, que neutralizaram numerosos líderes da Al-Qaida no Iraque e que localizaram e assassinaram Ben Laden (com cobertura televisiva em directo para a Casa Branca). Passaram agora a utilizar drones com autorização de George W. Bush e Barack Obama. O novo presidente, Trump, interessou-se bastante pelos drones e declarou que, para vencer os terroristas "é preciso eliminar as suas famílias".

Não permite o tempo, e o espaço, determo-nos mais demoradamente sobre a actividade dos espiões assassinos, mas os interessados poderão sempre adquirir a revista e ler, na íntegra, este curioso trabalho de investigação.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

A NOVA DESORDEM MUNDIAL





Na impossibilidade da transcrição online, e pelo seu grande interesse, publico as páginas de "L'OBS" (nº 2797 - 14 a 20/6/2018) contendo a entrevista de Marie Lemonnier ao politólogo e especialista das religiões, Olivier Roy, professor do Instituto Universitário Europeu de Florença.


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Uma entrevista de excepcional lucidez que procura derramar luz sobre o obscuro mundo em que vivemos.


GENET EM EXPOSIÇÃO



Uma exposição sobre Jean Genet (1910-1986) no Fort Saint-Jean, em Marselha - Jean Genet et la Méditerranée -  organizada pelo Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée (MuCEM) e pelo Institut Mémoires de l’édition contemporaine (IMEC), em 2016, está na origem do recém-publicado livro Apparitions de Jean Genet, de Emmanuelle Lambert.

Segundo os organizadores, « L’exposition cherche à faire comprendre comment la Méditerranée, avec ses appels au voyage et à la liberté, avec la diversité de ses cultures, avec les rencontres qu’elle a suscitées à plusieurs moments de sa vie… constitue un pôle magnétique du parcours littéraire de Jean Genet, auquel il revient obstinément. Elle a pour ambition de montrer comment la Méditerranée représente pour lui une « échappée belle ». Articulée autour de quatre thèmes dont chacun fait se croiser un moment de sa vie, une de ses oeuvres et un territoire méditerranéen (Le Journal du voleur – L’Espagne ; Les Paravents – L’Algérie ; Un captif amoureux – La Palestine ; la fin de sa vie au Maroc), l’exposition rassemble également des oeuvres qui témoignent de la sensibilité de Jean Genet, de ses rencontres avec les artistes plasticiens (notamment Alberto Giacometti) et avec le monde des arts du spectacle (évocation de la figure du Funambule).



A exposição foi comissariada por Albert Dichy, director literário do IMEC e um dos grandes especialistas da vida e obra de Genet e por Emmanuelle Lambert, escritora, organizadora do catálogo (que à época não consegui adquirir) e autora do presente livro.

Num récit de 110 páginas, Lambert conta a sua paixão pela obra deste "escritor maldito" do século passado e o convite que lhe endereçaram para participar na aventura que foi a obtenção da vasta documentação, muitas das peças inéditas, que permitiu organizar um itinerário de Genet, do seu nascimento à sua morte. As consultas dos arquivos e dos ficheiros, nomeadamente instituições sociais, polícia, exército, etc., foi tarefa complexa mas era certamente indispensável, ainda que muita informação constasse já de duas das obras fundamentais sobre o sulfuroso escritor: Jean Genet - Essai de chronologie, de Albert Dichy & Pascal Fouché e Jean Genet, de Edmund White.


Analisando as cartas da mãe de Jean Genet dirigidas ao director da Assistência, Lambert recolhe um curioso pormenor: na terceira e última carta da mãe, Camille Genet, esta pede notícias de Jean "et de son frère Frédéric", um irmão (?) que não consta de quaisquer ficheiros da administração. Talvez essa dúvida sobre a existência de um outro filho tivesse impedido a consulta do dossier Genet muito para lá dos prazos legais estabelecidos. (p. 29)

O livro de Lambert está semeado de pequenas curiosidades obtidas no seu trabalho de pesquisa do material para a exposição. Mas, no geral, todos conhecemos já o percurso de Genet, até nos mais ínfimos pormenores, graças às investigações prosseguidas após a sua morte.

A obra em apreço vem juntar-se à imensa bibliografia passiva de Jean Genet. Desde o livro de Sartre, Saint Genet, Comédien et Martyr, até hoje, a vida e a obra de Genet têm sido dissecadas, mas surgem sempre novos factos, novas interpretações, como se o homem sepultado em Larache permanentemente nos desafie a compreendê-lo nas contradições de que foi, e é, o protagonista.


domingo, 24 de junho de 2018

A IRRESISTÍVEL ASCENSÃO DE EMMANUEL MACRON




Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron (n. 21.12.1977) foi eleito presidente da República Francesa em 7 de Maio de 2017, com 66,10 % dos votos expressos contra 33,90 % a favor de Marine Le Pen. O escrutínio registou 11,52 % de votos brancos ou nulos e a taxa de abstenção foi de 25,44 %. Isto é, em  47 568 693 cidadãos eleitores, Macron apenas obteve 20 743 128 votos, o que significa que tão só 43 % dos franceses o elegeram para a chefia do Estado, menos de metade dos eleitores inscritos.

Tendo sido membro do Partido Socialista e ministro da Economia no governo de Manuel Valls, sob a presidência de François Hollande, abandonou o Governo em 2016 (já se tinha demitido do partido) para fundar o seu próprio partido, La République en Marche, e preparar a sua candidatura à presidência em 2017.

Antes da experiência governamental, Macron foi inspector de Finanças e depois, protegido pelo influente conselheiro de Mitterrand, Sarkozy e Hollande, o economista judeu Jacques Attali, tornou-se sócio do Banco Rothschild em França, tendo recebido entre 2009 e 2013, a quantia de 3,3 milhões de euros.

Habitado por um narcisismo doentio, possuído por uma ambição desmedida, cínico quanto baste, exibicionista e megalómano, meticuloso na programação da sua carreira, a falta de comparência de candidatos credíveis dos partidos tradicionais possibilitou-lhe alcandorar-se à chefia do Estado.

Profundamente calculista, simulou aos 15 anos uma paixão pela sua professora Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha, casada e com três filhos mais velhos do que ele, com quem passou a viver depois dos 18 anos e com quem viria a casar em 2007, após o divórcio desta. Criou assim um primeiro caso de notoriedade que serviu para alimentar a lenda de menino-prodígio, aliada a outra, também afincadamente trabalhada, de que é um espírito brilhante. Daí a tão propagada notícia de que foi "colaborador" do falecido filósofo Paul Ricoeur.

Declarando após a eleição que não seria Júpiter, como se alguém o pudesse alguma vez tomar pelo pai dos deuses, passou a governar a França despoticamente (mas não iluminadamente), quiçá convencido que é mais importante do que Luís XIV ou Napoleão Bonaparte. Todavia, para mal dos franceses, o rei vai nu.

Julgo que Emmanuel Macron anseia pelo seu 18 de Brumário, que Marx descreveu como farsa a propósito de Luís Bonaparte. Não creio que o mesmo evento tenha lugar três vezes na História. E se tivesse, como o classificaria o velho filósofo de Tréveris?

Seguindo as instruções dos mestres que o apoiaram na sua aventura para a Presidência, Macron, destituído de quaisquer princípios, usando uma falsa espontaneidade, desprovido de escrúpulos, vai progressivamente liquidando o que resta do edifício do Estado francês, a favor do ultraliberalismo destruidor da economia da nação. Um seu antigo colega de Governo, em livro já publicado, afirmou que Macron tem um algoritmo no lugar do coração.



Como escreve Mathieu Morel, no site "Vu du Droit", do advogado Régis de Castelnau, a propósito de Macron, ESTE HOMEM SERÁ CAPAZ DE ABSOLUTAMENTE TUDO, SEM QUALQUER LIMITE.

Com a devida vénia, transcrevemos as palavras de Morel:


Macron : Jupitre est-il dangereux ?

 
«Le roi possédait un miroir magique, don d’une fée, qui répondait à toutes les questions. Chaque matin, tandis que le roi se coiffait, il lui demandait :
– Miroir, miroir en bois d’ébène, dis-moi, dis-moi que je suis le plus beau. Et, invariablement, le miroir répondait :
– En cherchant à la ronde, dans tout le vaste monde, on ne trouve pas plus beau que toi. »
Une fois de plus, on aurait tort de ne voir, dans les outrances répétées – et de plus en plus sidérantes – que nous sert frénétiquement notre distingué Jupitre Überschtroumpführer, que de bénignes maladresses, des erreurs de communication ou même un anodin excès de confiance qu’il suffirait de mettre sur le compte de son ardeur juvénile et « disruptive ».

On aurait tort également, sans doute, d’y déceler la fameuse preuve d’un esprit brillant, hors du commun, qu’on nous a copieusement vendu depuis son éclosion « miraculeuse », à grands renforts de feux d’artifice et de paillettes.

Ses insultes répétées, ses provocations grossières, ses initiatives ostensiblement débiles portent un message clair derrière cette fausse candeur faussement spontanée : « je suis votre chef, je fais ce que je veux, comme je veux, quand je veux et, pour commencer, je vous emmerde ». On pourrait évidemment, puisqu’on se targue d’être en démocratie, juger la méthode un peu culottée si on oubliait que, en bon élève des années « Mitterrand » (et lui-même « bébé Hollande/Attali »), ses provocations et initiatives visent également à repousser tous ses contempteurs, en bloc et sans la moindre espèce de nuance, dans les recoins forcément sombres de l’extrême-droite qui en rappelle d’ailleurs les heures, si l’on en croit l’adage éculé. Extrême-droite qu’en langage moderne, on aime qualifier plutôt de trucosphère ou autre machinosphère (ça sonne tellement plus « cool » et 2.0). Voilà plus de 30 ans que le camp du Bien se fabrique ainsi son adversaire favori, aussi inoffensif qu’efficace. Du moins jusqu’à la prochaine surprise funeste dont ils seront, une fois encore, les seuls responsables et les vierges les plus outragées (avant, une fois de plus, de retourner promptement leur veste).

Ce sire, au fond, est un parfait produit des années 80, une version aboutie – peut-être un peu tardive, c’est l’espoir qu’il nous reste – de l’Homme que ces 30 ou 40 dernières années ont tenté de fabriquer : une imposture, une illusion, un start-up-marabout, une uber-escroquerie. Le philosophe est un cuistre infantile, le « penseur » une machine à poncifs pompeux, le bâtisseur est un vandale, le centriste ouvert est un fanatique borné, l’esthète fin révèle un plouc fini, le « subversif dérangeant » n’est qu’un banal immature inconséquent, le démocrate est un mégalomane totalitaire, et le gendre idéal bienveillant un vicelard narcissique. On ne peut même pas dire qu’il sonne faux : il sonne creux, d’où qu’on toque.

Il ne lui reste plus qu’à compter sur l’effet de sidération que produisent ses pitreries scandaleuses pour – pendant que la plèbe s’offusque à bon droit de la mise à sac sauvage de tout le séculaire édifice sur lequel ce mal élevé s’est laissé hisser pour se goinfrer – engager mécaniquement toutes les liquidations que ses maîtres lui ont commandées.

Ce qu’il fera avec d’autant plus de zèle qu’il a été élu par dépit, vainqueur d’un concours de circonstances, rescapé d’une roulette russe tellement acrobatique qu’il est permis de se demander si le barillet était tout à fait réglementaire. Et soyons sûrs qu’il mènera l’entreprise de démolition bien plus loin que tous ses prédécesseurs puisque, absolument vain et dénué de tout ce qui ressemble à des principes, il est parfaitement polymorphe.

Ce roi nu, si prompt à rabrouer avec la violence puérile qui les caractérise les enfants qui le démasquent, n’est que le zélé valet, le reflet présomptueux d’une époque qui, poussant l’imposture et l’incohérence à des niveaux olympiques, a érigé en « valeurs fondamentales » l’exhibitionnisme pudibond et le puritanisme libertaire. Par son abyssale inconsistance, il est le parfait porte-voix – et le terrifiant porte-flingue – des opportunismes de ses maîtres insatiables. Et ce n’est que parce qu’il lui fallait une histoire, une légende, qu’on la lui a écrite, jusqu’à en faire le fils spirituel d’un philosophe dont il n’était, en réalité, qu’un marque-page. C’est le pion malléable sur lequel, faut-il croire, il était opportun de miser au bon moment. De diverses manières, quelques un(e)s ont su saisir leur chance et tirer le gros lot. Il ne faudrait pas en conclure pour autant qu’un tel individu ne présente qu’un danger « superficiel ». Au contraire.Mais ça n’est pas par son idéologie – quoi qu’on pense de celle à laquelle il s’est vendu – qu’il est dangereux. Il n’en a pas (ou plus exactement, il serait prêt à se vendre à toutes… c’est d’ailleurs ce qu’il fait, à certains égards).

C’est précisément par sa vacuité, pour elle, contre elle, à cause d’elle, ou un peu tout « en même temps », que cet homme sera capable d’absolument tout, sans aucune limite.