sábado, 8 de dezembro de 2018

AS FAMÍLIAS REAIS EUROPEIAS



Foi apresentado no passado dia 27 de Novembro, no Grémio Literário, o mais recente livro do embaixador José de Bouza Serrano, As Famílias Reais dos Nossos Dias - Tradição e Realidade. Profundo conhecedor das Casas Reais Europeias, tendo representado Portugal em alguns países de regime monárquico, o embaixador Bouza Serrano é um especialista na matéria, e tendo desempenhado, entre outras funções, a de chefe do Protocolo do Estado, a ele se deve O Livro do Protocolo, editado em 2011, obra do maior interesse, a mais completa do género publicada até hoje no nosso país, e de grande utilidade para todos quantos se movimentam em esferas que implicam o conhecimento das regras da etiqueta, mesmo nos acontecimentos de carácter não oficial.

Considerando que nas Casas Reais Europeias, ainda reinantes, se tem assistido, nas últimas décadas, a uma "vulgarização" dos comportamentos das Pessoas Reais, quer pelas suas atitudes, quer pelos casamentos que têm contraído, ainda impensáveis há meio século, Bouza Serrano interroga-se sobre a mudança de paradigma da Instituição Monárquica, e até que ponto encontra justificação a existência de uma monarquia num país em que a família reinante não se distingue das famílias plebeias, mesmo não considerando já que os monarcas o eram por direito divino, doutrina que prevaleceu na Europa Católica e Protestante e que foi abandonada, nomeadamente em Inglaterra, com a Revolução Gloriosa, e com a Revolução Francesa, mas que subsistiu ainda no Mundo Islâmico até à Primeira Guerra Mundial, em que o sultão otomano era também o Califa dos Crentes e no Japão até à Segunda Guerra Mundial, quando os americanos obrigaram o imperador a renunciar à sua qualidade de Filho do Sol, declaração que, curiosamente, não foi reconhecida pela maioria dos seus súbditos.

Esta mudança de paradigma tem consistido principalmente em casamentos morganáticos, isto é, casamentos de pessoas de sangue real com pessoas de origem plebeia, ou mesmo aristocrática, por um lado, e por outro, no desempenho de funções profissionais e de comportamentos individuais que, durante muito tempo, foram considerados não compatíveis com a realeza. Tem sido entendido que estas atitudes visam aproximar os soberanos e herdeiros dos respectivos súbditos, numa época em que a globalização avassaladora exige a modernização das instituições, e no caso dos casamentos,  a uma prevalência das razões do coração sobre as razões ditas de Estado.

«A monarquia deve certamente modernizar-se mas, de modo algum, vulgarizar-se», cita Bouza Serrano (de Jaime Peñafiel, um especialista espanhol da Realeza), e mais adiante escreve: « Hoje em dia, como já mencionámos e veremos, os casamentos "desiguais" não causam, por enquanto, demasiados problemas nas dinastias reinantes. São até, para muitos observadores, um elemento de sobrevivência e renovação da estirpe, pela assimilação e aproximação aos valores e estilos de vida da sociedade burguesa e uma educação universitária. No entanto, os seus "súbditos" ou "concidadãos" podem achar, por agora, natural que os seus príncipes e princesas escolham os consortes e futuros pais e mães dos seus filhos que num futuro reinarão no país, entre as pessoas comuns, com vidas e percursos cada vez mais semelhantes aos seus ou da vizinha do lado. Será que em determinado momento não se interrogarão sobre para que serve a monarquia se os soberanos são idênticos a eles? Podem os herdeiros prescindir de mais reserva, disciplina e resignação como fizeram os seus antepassados reais? O futuro dirá.» (p. 30)

Este livro foi inspirado ao autor pela entronização de Guilherme Alexandre como rei dos Países Baixos. Bouza Serrano era então embaixador de Portugal naquele país e constatou que os soberanos reinantes nas actuais dez monarquias da Europa são todos descendentes, por via masculina ou feminina, de Johan Willem Friso (1687-1711), príncipe de Orange, sobrinho de Guilherme III, também príncipe de Orange e rei de Inglaterra.

As Casas Reais apresentadas no livro são as seguintes: Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Luxemburgo, Suécia, Bélgica, Espanha, Inglaterra, Mónaco e Liechtenstein (as duas últimas são principados).

No início, Bouza Serrano faz uma alusão aos "exilados régios no Estoril" (incluindo Estoril, Sintra, Cascais, Carcavelos, Alcoitão e Manique), onde viveram durante anos, no pós-Segunda Guerra Mundial, alguns soberanos destronados ou pretendentes ao trono, como Umberto II rei de Itália, Carol II rei da Roménia, Simeão II rei da Bulgária, Miklós Horthy, regente da Hungria, Don Juan de Borbón (conde de Barcelona e pai do rei Juan Carlos de Espanha), Henri d'Orléans (Conde de Paris e chefe da Casa Real de França), o arquiduque José de Habsburgo, a princesa Dona Teresa d'Orléans e Bragança (da Casa Imperial do Brasil) e respectivas famílias, além da Família Real portuguesa que residia em Coimbra e em Lisboa.

A propósito  destes "exilados" recordo o livro que Júlio Sauerwein publicou em 1955, Exilados Régios no Estoril.


Não cabe obviamente aqui a narração das peripécias, descritas com fina ironia, que Bouza Serrano refere no livro, a propósito do casamento das reais figuras das dinastias abordadas, nem outras considerações sobre as casas reinantes. Por isso, e para simplificar, indicaremos apenas os aspectos mais polémicos dos casamentos mais recentes.

- Países Baixos: o rei Guilherme Alexandre, calvinista, casou, enquanto príncipe herdeiro,  com Maxima Zorreguieta, plebeia, católica e argentina, que acabou por ser aceite pelos futuros sogros e pelas instituições estatais. Em 2013, a rainha Beatriz abdicou no filho e passou a usar o título de princesa, como já fizera sua mãe, a rainha Juliana, quando igualmente abdicou em Beatriz. e sua avó, a rainha Guilhermina, quando abdicou em Juliana. Desde 1890 até 2013 (123 anos), os Países Baixos tiveram três mulheres a reinar: Guilhermina, Juliana e Beatriz. Seguindo uma tradição que considero incompreensível, mas os neerlandeses são uma gente muito especial, todas as rainhas que abdicam voltam à situação de princesas. Tal não se verifica, por exemplo, em Espanha, onde Juan Carlos abdicou em Felipe, mas continua a conservar o título de rei, ou na Bélgica, em que Leopoldo III, abdicou em Balduíno e mais tarde Alberto II abdicou em Philippe, continuando ambos a conservar o título de rei. Esta situação excêntrica dos Países Baixos é como se o papa Bento XVI, que resignou, não tivesse mantido o título de papa (emérito) e passasse, por exemplo, a cardeal. Há um caso em que o monarca perdeu o título de rei, mas que é compreensível atendendo a uma complexidade de circunstâncias que não é para aqui convocada: quando Eduardo VIII de Inglaterra abdicou, passando a usar o título de duque de Windsor, aliás a designação da dinastia. Tratou-se de uma situação absolutamente sui generis e não penso que Isabel II, se porventura abdicar, perca o título de rainha. A aceitação do casamento do príncipe Guilherme pela Família Real holandesa foi de alguma forma facilitada pelo facto de já a mãe, a rainha Beatriz, ter tido de vencer muitas resistências para se casar com o diplomata alemão Claus von Amsberg, depois príncipe-consorte, e que pertencera às Juventudes Hitlerianas. Também o casamento da avó, a rainha Juliana, suscitara grande contestação entre os súbditos, pelo facto do noivo, o príncipe alemão Bernhard de Lippe-Biesterfeld, ser também proveniente da Alemanha Nazi.

- Dinamarca: Também o casamento do príncipe herdeiro Frederik foi rodeado de controvérsia, já que escolheu para mulher uma australiana que trabalhava em publicidade, Mary Donaldson, mas a noiva adaptou-se bem às suas novas funções. A rainha Margarida II não se opôs verdadeiramente a este casamento, já que ela mesma -  que pôde tornar-se rainha devido a uma emenda constitucional permitindo o acesso de mulheres ao trono, até então vedado, que se tornou imperativa quando se concluiu que o pai, o rei Frederico IX não teria filhos homens - se casara com um diplomata francês, o conde Henrique de Laborde de Monpezat, não oriundo de famílias reais.

- Noruega: Não cabe aqui historiar as relações das casas reais da Noruega e da Dinamarca, dois ramos da Casa Real de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. O príncipe herdeiro, Haakon, filho do rei Harald V, resolveu casar com Mette-Marit Tjessem Hoiby, uma norueguesa empregada de cafés e frequentadora de animados festivais de música mas, pior do que isso, toxicómana e mãe solteira do pequeno Marius, que serviu de pajem no casamento. O pai do rapaz, Borg, fora mesmo condenado e preso por posse de cocaína. Como o rei da Noruega é também o chefe da Igreja Luterana Norueguesa, o casamento suscitou não só um problema político mas também religioso, que acabou por ser ultrapassado. Aliás, já o rei Harald V se casara com uma plebeia norueguesa, Sônia Haraldsen, que trabalhava em costura e alfaiataria e é hoje rainha. Também por isso, Harald acabou por aceitar a decisão do filho, que ameaçou renunciar aos seus direitos ao trono se o não deixassem casar com Mette-Marit, que manifestou publicamente arrependimento pelo seu passado. Esta questão do "passado" foi outrora muito importante, mas parece que está a cair em desuso. O falecido conde de Barcelona afirmou uma vez, aludindo à Pragmática Sanção do rei Carlos III: «A rainha de Espanha não pode ter passado». E lembro-me, aquando das hesitações dos noivados do príncipe Felipe, ter ouvido o rei Juan Carlos afirmar: «Nenhum homem pode dizer que dormiu com a rainha de Espanha». Mas, afinal, não foi isso o que aconteceu.

- Luxemburgo: Descreve o autor a criação do Grão-Ducado do Luxemburgo (inicialmente ducado), desde o primeiro soberano, Adolfo I, filho de Guilherme de Nassau. O actual grão-duque. Henri, é casado com Maria Teresa Mestre Batista, de origem cubana mas naturalizada suíça, plebeia, rica, instruída e sem passado. Este matrimónio que contou inicialmente com a oposição do pai, o grão-duque Jean, e especialmente da avó, a grã-duquesa viúva Charlotte, que estava convencida que os Batista tinham sangue negro e que poderiam nascer bisnetos mulatos. Com a ameaça do príncipe de desistir dos seus direitos dinásticos, o casamento acabou por se realizar. O herdeiro do trono, Guilherme, hoje com 37 anos, casou com a condessa Stéphanie de Lannoy, da aristocracia belga, depois de alguns romances amorosos.

-Suécia: A Casa Real Sueca descende de Jean Baptiste Bernadotte, marechal de Napoleão, que reinou na Suécia como Carlos XIV João de 1818 a 1844 e como Carlos III João, rei da Noruega, que esteva reunida à Suécia até 1905. O rei actual, Carlos XVI Gustav, casou com uma plebeia de origem alemã-brasileira-espanhola, Sílvia Sommerlath, e tomou a decisão sendo já rei, pois de outra forma os pais teriam certamente impedido o casamento. No entanto, a rainha Sílvia tem desempenhado muito bem o seu papel. O rei desejava que lhe sucedesse o seu filho varão Carl Philip, mas havendo nascido anteriormente uma rapariga, Vitória, o rapaz foi príncipe herdeiro apenas 232 dias, pois entretanto o Governo legislou, com efeitos retroactivos, no sentido de que acabaria a precedência dos homens sobre as mulheres, estabelecendo a primogenitura como princípio sucessório. Vitória também entendeu que as razões do coração se sobrepunham às razões de Estado, e decidiu casar com o seu personal trainer Daniel Westling [como eu a compreendo]. Apesar do seu casamento morganático, o rei não viu com bons olhos esta união, nem a Corte, que o considerava provinciano e sem cultura. Mas Vitória persistiu na sua escolha e o casamento concretizou-se. O casal tem dois filhos, a princesa Estelle, que será sucessora, e o príncipe Óscar. Daniel Westling foi feito duque de Västergötland, com o tratamento de alteza real. Um ajudante de campo do rei Carlos Gustav comentou na altura: «A princesa do Mónaco casou com um guarda-costas, mas nem era a herdeira do trono nem a Suécia é um rochedo no Mediterrâneo».

- Bélgica: Quando morreu subitamente, sem descendência,  o rei Balduíno da Bélgica, especulou-se que o trono passaria para o sobrinho Philippe, como era desejo do falecido, que se encarregara da sua educação, ultrapassando na ordem dinástica o pai deste, Alberto, não muito vocacionado para os assuntos da Coroa. Mas tal não se verificou, respeitando-se a ordem sucessória, e o irmão de Balduíno subiu ao trono como Alberto II. O príncipe Philippe casou em fins de 1999, já com 39 anos, com a aristocrata belga Matilde d'Udkem d'Acoz, o que foi muito bem recebido pelos seus concidadãos, por ser a primeira futura rainha nascida no país. Em 2012, foi publicado um livro polémico do jornalista Frédéric Deborsu, Questions Royales, em que o autor faz afirmações polémicas, entre as quais a de que Philippe, "a quem não se conheceu qualquer namorada entre os 21 e os 35 anos", teria vivido "uma relação de amizade intensa com um homem", o conde Thomas de Marchante et d'Ansembourg, advogado e psicoterapeuta, dois anos mais velho. Verdade é que Philippe e Matilde têm hoje quatro filhos, sendo o mais velho a princesa Isabel, duquesa de Brabante e herdeira, uma vez que o pai subiu ao trono em 2013, devido à abdicação de Alberto II que, no entanto, já emérito, persiste em intervir publicamente, uma situação inédita. [Também existiram sempre rumores de que o falecido rei Balduíno era homossexual, embora tenha casado aos 30 anos com a aristocrata espanhola Fabíola de Mora y Aragón, de que não houve descendência.]

- Espanha: A Casa Real de Espanha é aquela a que Bouza Serrano dedica um maior número de páginas. Não só porque se trata do país vizinho mas, principalmente, devido aos problemas que têm ensombrado a monarquia nos últimos anos. O espaço permitir-me-á apenas apontar os aspectos fundamentais, que para os pormenores os leitores deverão comprar o livro e lê-lo. Em primeiro lugar, o comportamento do rei Don Juan Carlos. Devendo-se-lhe a consolidação do regime e a sua determinação na contenção da tentativa de golpe militar de 1981, a sua vida amorosa foi sempre complicada, ainda que contando com a benevolência da rainha Sofia, que foi aceitando as infidelidades do marido em nome das razões de Estado. Mas a relação do monarca com a "princesa" Corinna zu Sayn-Wittgenstein, na companhia da qual teve um acidente numa caçada no Botswana e com quem pensou mesmo casar, divorciando-se da rainha Sofia e abdicando, desgastou profundamente a sua popularidade, tanto mais que, pelo meio, existem rumores de irregularidades financeiras. Outro caso que abalou a monarquia foi a descoberta do esquema de corrupção envolvendo verbas do Estado montado pelo seu genro Iñaki Urdangarin, marido da infanta Cristina, antigos duques de Palma (o título foi-lhes retirado por Felipe VI). Foi a primeira vez na história de Espanha que uma pessoa da Família Real foi criminalmente imputada, e ainda que a infanta fosse absolvida o marido foi condenado a cinco anos de prisão. Acresce a estes casos o casamento de Felipe. Com várias namoradas sucessivas com quem, devido à sua condição social, Felipe foi sempre impedido pela família de se casar, resolveu o príncipe desposar finalmente Letizia Ortiz Rocasolano, jornalista, divorciada e filha de pais divorciados, ameaçando abdicar dos seus direitos dinásticos se tal não lhe fosse permitido. O casamento acabou por ser celebrado em 2004 e, devido à abdicação de Don Juan Carlos em 2014, o príncipe das Astúrias tornou-se o rei Felipe VI. O casal tem duas filhas, sendo a mais velha, Leonor, a actual princesa das Astúrias e herdeira presuntiva do trono

Grã-Bretanha e Irlanda do Norte: O autor detém-se especialmente na rainha Isabel II e na sua descendência. O casamento do príncipe Carlos com Diana Spencer foi um desastre, tendo esta acabado por morrer num desastre de viação em Paris, acidente então largamente comentado em todo o mundo. Em minha opinião, Diana não tinha o perfil para princesa herdeira e eventualmente futura rainha. Apesar de louvada por toda a ignara imprensa cor-de-rosa, a sua posição impunha-lhe um comportamento que não soube, ou não quis, manter. Também Carlos nunca se desligou totalmente de Camilla Shand (ex-Parker-Bowles). Assim, um casamento votado ao fracasso. A morte de Diana, um ano após o divórcio, fez correr rios de tinta, mas não é este o lugar para comentários a latere. Carlos casaria depois com Camila. Da união com Diana nasceram dois filhos: Guilherme, duque de Cambridge e Henrique (conhecido por Harry), duque de Sussex. Ambos tiveram casamentos fora dos meios aristocráticos: Guilherme casou com Kate Middleton (assistente de vendas numa cadeia de roupas), inglesa e sem passado e já têm três filhos: Jorge, Carlota e Luís. Henrique casou com Meghan Markle (actriz), norte-americana e divorciada, ainda sem geração.  Os outros filhos da rainha Isabel também realizaram uniões plebeias. A princesa Ana (princesa real) casou em primeiras núpcias com Mark Phillips, de quem se divorciou e a segunda vez com Timothy Laurence. Tem dois filhos do primeiro casamento: Peter e Zara. O príncipe André (duque de York) casou com Sarah Ferguson e tem duas filhas: Beatriz e Eugénia. O príncipe Eduardo (conde de Wessex) casou com Sofia Rhys-Jones e tem dois filhos: Luísa e Jaime. A rainha Isabel II é que teve um casamento principesco, ao desposar Philip de Battenberg (o nome foi depois mudado para Mountbatten, por causa das conotações germânicas), príncipe da Grécia e Dinamarca, filho do príncipe André da Grécia e Dinamarca e da princesa Alice de Battenberg. Recebeu, pelo casamento, o título de duque de Edimburgo, e depois o de príncipe consorte.

Mónaco: A Família reinante no Mónaco é a antiquíssima Família Grimaldi (de origem genovesa), que remonta ao século XII, tendo o principado sido fundado em 1297. O actual soberano é o príncipe Alberto II, filho do príncipe Rainier III e de sua mulher a actriz norte-americana Grace Kelly. Dada a popularidade de Grace o casamento foi bem recebido. Além de Alberto o casal teve mais duas filhas: Caroline e Stéphanie. O primeiro casamento de Caroline foi com o banqueiro francês Philippe Junot, de quem se divorciou,mantendo a seguir várias relações amorosas. Casou segundamente com o desportista italiano Stefano Casiraghi. com quem teve três filhos: Andrea, Charlotte e Pierre. Tendo Stefano morrido, casou pela terceira vez, agora dentro da aristocracia, com o príncipe Ernesto Augusto V, de Hanover, de quem tem uma filha, Alexandra. A princesa Stéphanie teve dois filhos do seu guarda-costa, Daniel Ducruet, antes de casar com ele: Louis e Pauline. Divorciou-se um ano depois. Teve também uma filha de outro dos seus guarda-costas, Jean Raymond Gottlieb, chamada Camille. Casou pela segunda vez com o trapezista português Adans Lopez Peres, de quem também se divorciou. O príncipe Alberto, hoje reinante como Alberto II, casou, já com 52 anos (constava que não se casaria; até 2002, não havendo herdeiros da Casa Grimaldi, o principado passaria para a França) com a nadadora sul-africana Charlene Wittstock, com geração: Jacques (actual príncipe herdeiro) e Gabriela. Tem dois filhos ilegítimos: Alexandre Coste e Jazmin Grace Rotolo, de mães respectivamente togolesa e americana. Os romances amorosos são uma constante da Casa do Mónaco, no presente e no passado.

Liechtenstein: É uma casa principesca que conserva a tradição. O actual soberano é o príncipe Hans-Adam II casado com a condessa Marie Aglaë Kinsky de Wchinitz e Tettau. Têm quatro filhos: Aloïs, o herdeiro, Maximiliano, Constantino e Tatiana. Segundo as disposições constitucionais o príncipe governa o seu Estado minúsculo com poderes absolutos. O príncipe herdeiro Aloïs casou com a princesa Sofia, duquesa da Baviera e tem quatro filhos: José, Maria-Carolina, Jorge e Nicolau. Em 2004, o príncipe Hans-Adam II transferiu os poderes efectivos para seu filho Aloïs.

Ao escrever este texto, privilegiei a descrição dos casamentos e descendências das Famílias reinantes na Europa, embora o livro de Bouza Serrano seja naturalmente mais abrangente. E incluí algumas observações pessoais. Sendo o autor monárquico, é interessante verificar que não se coíbe de equacionar a questão da permanência dos regimes monárquicos tendo em consideração os matrimónios "híbridos" que tiveram lugar nas últimas décadas. De facto, a Instituição Real exige o cumprimento de regras, a realização de cerimoniais, a adopção de comportamentos que são inerentes à tradição monárquica, que não se compadece do estilo de vida das gentes comuns. E o autor cita Antonio Gala: "Se as famílias reais, para além dos seus altos privilégios querem ter os dos pequenos burgueses (amores, ciúmes, cornos, divórcios e outros modestos aditamentos da vida) vão por mau caminho. Porque se todos fôssemos iguais, é evidente que todos seríamos iguais para tudo." A Realeza exige alguma "servidão" para poder desempenhar convenientemente o seu papel. Os casamentos "desiguais" dos últimos tempos, porque isso convinha sentimentalmente aos interessados e também com o pretexto de uma aproximação ao "povo", para tornar as monarquias mais populares, acabará por ter consequências  contrárias às pretendidas. Para ser respeitada, a Instituição Real necessita de uma encenação adequada, tal como acontece na Igreja Ortodoxa e acontecia na Igreja Católica, que perdeu muito da sua magnífica liturgia depois do Concílio Vaticano II. Eu sei que já lá vai o tempo em que os soberanos europeus eram todos "primos" (o que também acarretou inconvenientes), mas não se pode ignorar completamente a Tradição. Como escreve Bouza Serrano, "Não se pode medir o êxito ou a continuidade de uma monarquia, senão pela utilidade da instituição e as qualidades dos seus protagonistas, que resultem uma referência sólida, um exemplo inspirador ou sejam úteis aos seus concidadãos."

Muitas das monarquias europeias já desapareceram, por razões diversas, mas nos países onde ainda existe a instituição monárquica, a maioria dos cidadãos é, em geral, favorável à sua manutenção. Pelo menos assim tem sido até aos nossos dias. E os monarcas actuais reinam mas não governam, pois já não são considerados soberanos de direito divino. E essa circunstância empresta-lhes uma outra autoridade, dado que estão acima das disputas partidárias que são a essência da democracia. Não pretendendo alongar-me, concluo com mais uma citação do autor, com a qual ele encerra o seu livro: "Os governos sejam de esquerda ou de direita, são apenas para uma ou duas temporadas; os reis ou rainhas para uma geração; mas uma dinastia é para a História!"

* * * * *

NOTA: Tendo em vista uma futura reedição da obra, não quero deixar de assinalar algumas imprecisões e incorrecções constantes da árvore genealógica do príncipe João Guilherme Frísio, que antecede o texto do livro e que creio não ser da exclusiva responsabilidade do autor:

1) Os nomes dos soberanos são indicados indistintamente em português ou na língua original, inclusive dentro da mesma dinastia;
2) Não é costume colocar-se o nº I quando só houve um soberano do mesmo nome até ao presente;
3) Na Dinastia Belga foi omitido o nome do rei Balduíno entre seu pai, Leopoldo III e seu irmão Alberto II;
4) Ainda na Bélgica, uma vez figura (rei) da Bélgica e outras dos Belgas (que é a forma correcta);
5) Na Dinastia do Luxemburgo está omitido o nome da grã-duquesa Maria-Adelaide entre Guilherme IV e Charlotte;
6) O falecido príncipe do Mónaco chamava-se Rainier e não Ranier. E era III e não II.

Não fiz propriamente uma revisão mas foi o que me saltou à vista.

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

MACRON, UM SER INEXISTENTE



Foi publicado há precisamente um mês um interessante livro de Juan Branco, Contre Macron, em que o autor traça oportunamente o retrato de Emmanuel Macron, uma personalidade verdadeiramente inexistente, que conseguiu, por exclusão de partes, alcandorar-se à chefia do Estado francês.

Juan Branco

O autor, de 29 anos, natural de Málaga, filho de pai português e de mãe espanhola e naturalizado francês, foi aluno da École Normale Supérieure (onde se doutorou em 2014 - tese sobre o Tribunal Penal Internacional), diplomou-se em Sciences-Po (tendo feito parte do gabinete do antigo director Richard Descoings), obteve mestrados em Paris-Sorbonne (literatura moderna) e Paris-Panthéon (filosofia política e geopolítica), trabalhou no Quai d'Orsay e é conselheiro jurídico de Wikileaks e de Julian Assange e advogado de Jean-Luc Mélenchon, além de exercer muitas outras actividades que não cabem neste texto.

O livro agora dado à estampa, por vezes com uma linguagem demasiado rebuscada, dá-nos a imagem do vazio que habita Emmanuel Macron, do seu narcisismo, da sua plasticidade,   «C'est ainsi que ses seuls faits de gloire, en trente-neuf ans d'existence, s'étaient jusqu'a son éléction réduits à la séduction des gardiens du temple, d'un système parfaitement huilé et délié de tout rapport à agir sur le réel et l'améliorer, de concours en agréables entretiens, notes ephémères et dîners en ville, opérations financières et réthorique sans support, afin de, doucement, se placer, et, se laissant aduler, avancer.»

«De Jean-Pierre Jouyet à Jacques Attali en passant par François Hollande, Henri Hermand, son frère ennemi et protecteur Manuel Valls, la banque Rothschild et le prestigieux corps de l'inspection des finances, ses origines extraordinairement bourgeoises, les relais invisibles qu'il en a tiré à son passage par l'école privé puis par le temple de la méritocracie, Henri IV, de son échec à Normale Sup à son admission à l'ENA, en passant par son amitié avec Xavier Niel, Arnaud Lagardère et de nombreux autres oligarques sa fusion relationelle avec sa professeure et héritière d'un empire chocolatier, détentrice du capital culturel et économique nécessaire à toute intrusion dans les temples de la méritocratie républicaine, ses tentatives évanescentes d'union avec des philosophes au capital symbolique puissant, M. Macron sait à quel point tout son parcours, constitué par la séduction et la servitude à l'intérêt du tiers, afin de l'aspirer n'est en soi, rien, et n'a en soi, rien produit. Il cherche par la puissance écrasante qu'il vient de conquérir à s'en émanciper, mais découvre alors ce que trente-neufs ans de soumission emportent de servitude non pas factuelle, mais individuelle, et le creux qui, en toutes ces années, en son sein pourtant bien prédisposé s'est nécessairement formé.»

«Distinguant à des fins formelles l'Élysée de Matignon, la cheffature de l'État et du gouvernement, afin de préserver en cette première, l'aparence seule du tranché, pour impliquée et emplie de réelle qu'elle soit, l'architecture politique française vise à maintenir le chef de l'état en dehors du "nous" qui l'a constitué, de ces espaces décisionnels qu'il est censé recouvrir. Toute incursion dans le gouvernement, toute sortie de l'espace de la décision, est ainsi durement sanctionnée.»

«Or cette distinction n'est pas qu'institutionelle, et s'impose aussi dans les fonctions d'incarnation. La séparation de la sphère publique et de la sphère privée pour le détenteur du pouvoir présidentiel, ce double corps du roi auquel Kantorowicz ne faisait pas référence, est d'autant plus exigible qu'en un tel cadre, son abandon susciterait un trop grand danger d'effondrement, ouvrant à une versatilité et une incertitude potentielles qui risqueraient de faire vriller la fonction projective de l'incarnation...»

«Que gêne alors dans l'exercice du pouvoir, tel qu'il a été mis en place, par le nouveau président de la République, Monsieur Emmanuel Macron? L'ensemble des dispositifs d'incarnation que nous venons de décrire permettent de s'assurer que le changement régulier de l'impétrant incarnant la fonction offre non seulement une respiration bienvenue, mais une réactualisation régulière de l'image projective qui ne suscite l'effondrement des pouvoirs faisant société.»

«Or non content de vouloir exercer l'ensemble des pouvoirs qui lui sont attribués, confondant octroi symbolique et réel, gouvernement et exceptionnalité, M. Macron a voulu bouleverser sa fonction d'incarnation, en plaçant sur soi, poutant inexistant, au coeur des dispositifs en question, et en s'offrant dès lors comme porte-voix maximaliste, écrasant, subversif, des intérêts qui l'ont constitué.»

«Rajoutons à cela la confusion qui visiblement règne en l'esprit du nouveau Monarque souverain, convaincu que son passage par les rituels institutifs au sein des élites non-politiques et non incarnantes de la société française - haute administration et puissances financières chargées de le propulser - valent sceau et intronisation au sein de l'espace commun, et nous commençons à comprendre la confusion autoritaire et jupitérienne, délirante cette fois factuellement et en rapport aux règles mêmes établies par son pouvoir, qui a pris cette nouvelle incarnation.»

«Aperçu jouant du tennis handisport puis classique, faisant de la boxe, défiant plus saluant le Président de la première puissance mondiale, s'y soumettant en verité après l'avoir défié symboliquement afin de conforter son pouvoir suzerain, humiliant les forces armées en leur faisant jouer une chanson d'opérette lors du défilé du 14 juillet, mais aussi incarnant le bonheur conjugale parfait, main dans la main lors d'une promenade maritime ou dans le cadre de séances photographiques en noir et blanc parfaiteent léchées; (...) M. Macron s'inscrit dans un modèle absolutiste dans un cadre où tous les codes et habits de la modernité conquérante sont reproduits, du corp idéal au costume bien taillé en passant par l'humeur constante, l'ambition démesurée et l'incapacité à l'échec, et ce dans une époque, une société et un moment où ces prestations ont une fonction ordonnatrice déjà écrasante (...)»

«(...) M. Macron ne s'érige pas seulement en dirigeant du temps présent: il créé une confusion volontaire aux effets parfaitement catastrophant où la société se voit mise sous la tutelle d'un modèle individuel dont la confirmation ne réponds pas aux critères du pouvoir mais des dominants de la société de son temps, écrasant toute possibilité de distinction entre l'un et l'autre et apparaissant ainsi dans un modèle englobant parfaitement étouffant.»

«Par la perfection apparente d'un dispositif où le moindre élément de trouble est contrôlé et neutralisé d'avance, dans une société où l'ensemble des relais poitiques et médiatiques sont maîtrisés et où le contrôle de la dissémination de l'ínformation est devenu un pré-requis assumé, M. Macron met ainsi en scène, sans s'en cacher, une forme renouvelée d'autoritarisme visant à écraser l'espace politique et à n'autoriser aucune contestation symbolique de sa figure, dont l'ambition ne s'arrête pas aux portes de l'espace politique traditionnel, mais aussi son effectuation.»

«La limite, y compris si nous le suivions dans la croyance qu'il se trouverait en mesure d'effectivement réussir un tel exercice de pouvoir sans détruire la société et les institutions qui le lui ont octroyé, apparaît très rapidement comme en tout régime autoritaire, dont le Russe est l'incarnation par excellence. »

«Il s'agit bien d'une menace de dissolution.»

«La reconfiguration annoncée de la société française plutôt que de ses pouvoirs, la substitution de l'un par l'autre apparaissent en ce cadre d'autant plus dangereux qu'ils émergent dénués d'approbation sociale préalable, du fait même de cette extirpation paradoxale que M. Macron a imposé à l'espace politique français. Verticale et autoritaire, dissolvante de l'ensemble des espaces intermédiaires qui en fondent le pouvoir, une transformation sociétale majeure ferait en ces circonstances courir un risque de désintégration massive, aux antipodes de l'aspiration à l'apaisement et au renouveau que, tel Janus, M. Macron a prétendu et continue de prétendre, incarner.»

«Prions pour qu'une dys-, et nécessairement -fonction, intervienne auparavant, et qu'à la modernité galopante que l'on nous promet, nos structures primitives et archaïques sachent résister, ou autrement, se bouleverser.»

Escrito antes das manifestações dos gilets jaunes este breve ensaio de Juan Branco tem um carácter premonitório dos acontecimentos em França. O autor disseca o funcionamento da V República, salienta a ausência de corpos intermédios, e denuncia o comportamento arrogante de Emmanuel Macron, que tendo-se tomado por um deus olímpico, confundiu os poderes que a Constituição lhe outorgou, atraiçoou os pressupostos da plataforma em que se fez eleger, privilegiou os ricos, afirmando sempre que en même temps compensaria os pobres. Macron é o verdadeiro responsável do caos em que a República mergulhou nos últimos dias. A tentativa de atribuir à extrema-direita e à extrema-esquerda as manifestações violentas do passado fim de semana, já que não poderia atribuí-las a negros ou a árabes, que estiveram ostensivamente ausentes dos confrontos, é uma tentativa desesperada mas inconsequente do Poder, uma vez que é público e notório que foi a França profunda que protestou nas ruas, ainda que se lamente os actos de vandalismo que ocorreram, e sempre ocorrem, em actos deste género, provocados quer por oportunistas quer por instigadores convenientemente doutrinados.

O texto de Juan Branco, de que transcrevemos algumas passagens (sic), denuncia uma escrita apressada, e não revista, mas nem por isso deixa de constituir uma interessante e oportuna análise da forma como o desempenho das funções presidenciais tem sido exercido por uma não-figura criada pelos poderes mediáticos e financeiros para servir interesses alheios ao povo francês e que, olvidando a sua vacuidade, se convenceu de possuir uma estatura olímpica.

Nota: Nas transcrições não são mencionados os números das páginas pela elementar razão das páginas não estarem numeradas.


domingo, 2 de dezembro de 2018

OS TUMULTOS EM FRANÇA E A UNIÃO EUROPEIA



As manifestações das últimas semanas em França, nomeadamente os tumultos ocorridos ontem em Paris, denunciam um grave mal estar civilizacional e a contestação não é só às últimas medidas decididas pelo governo do abominável Macron mas ao próprio funcionamento das instituições. O aumento do preço dos combustíveis terá sido a gota de água que fez transbordar o copo e eclodir a violência urbana.

A ideia da criação de uma união dos Estados europeus, com a confessada finalidade última de evitar uma terceira guerra com a Alemanha, foi, de uma maneira geral, inicialmente bem acolhida pelas populações, apesar destas não terem sido consultadas para o efeito. E verificaram-se algumas vantagens para a maioria dos cidadãos, que não para todos, até à queda do Muro de Berlim e exorcizado que foi o fantasma do comunismo.

A partir da última década do século XX, com a entrada em declínio do Estado social e um progressivo acentuar da interferência de Bruxelas na vida quotidiana dos europeus, começou a manifestar-se um desagrado, sempre crescente, em relação à União Europeia. A actividade da Comissão deveria ser supletiva face às legislações nacionais e não uma constante invasão da ordem jurídica interna dos países, em nome de um suposto direito comunitário.

É um facto que sendo consideradas democráticas as nações que integram a UE, esta não é uma instituição democrática. Não são os cidadãos europeus que elegem a Comissão, o Parlamento Europeu é uma fantasia, e o Conselho, que se fundamentava especialmente no eixo franco-alemão, passou a depender quase em exclusivo, dos interesses da Alemanha.

O funcionamento das instituições europeias, que empregam milhares de pessoas, a maioria em tarefas inúteis, custa biliões de euros aos contribuintes, desperdiçados a remunerar actividades mais nocivas do que proveitosas ao interesse geral.

O comportamento da Alemanha, designadamente nas crises financeiras, é altamente criticável. A humilhação imposta à Grécia em 2011 por Merkel e Schäuble foi uma vergonha, tornada ainda maior porque pretendeu impedir o funcionamento democrático da República Helénica. Também é verdade que a crise das dívidas soberanas dos países da Europa meridional tem servido para a Alemanha arrecadar, através de troikas e quejandos, avultados proveitos que servem mais a banca e o establishment de que os próprios alemães. Sabemos que a política da Alemanha tem tido apoio nos países nórdicos, mas tal não é de estranhar devido a um insólito conúbio luterano/calvinista e parcialmente anglicano, que demonstra que as seitas protestantes possuem uma mentalidade restrita e puritana que torna as sociedades onde estão implantadas incapazes de se identificarem com os países católicos e ortodoxos do sul e de leste.

Não é pois de estranhar uma deriva anti-europeísta em muitos países da União, que só tenderá a crescer se Bruxelas não arrepiar caminho. Julgo mesmo que agora já é tarde. Dizia Salazar que Portugal, um país pequeno, não tinha recursos para sustentar uma democracia. Que pensar então do custo de uma "democracia" à escala europeia? Sem benefícios visíveis, realmente um progressivo aumento do custo de vida!

É urgente repensar o funcionamento da União Europeia, quiçá mesmo a sua existência. Antes que a vaga de contestação que se verifica em França alastre a todo o Velho Continente e se desencadeie uma onda de violência difícil de travar.


domingo, 25 de novembro de 2018

O PROBLEMA DELON



Foi recentemente editado o livro Un problème avec la beauté – Delon dans les yeux, de Jean-Marc Parisis, autor que desconhecia mas que tem alguma obra publicada.

Pretende este livro salientar o problema com que Alain Delon sempre se confrontou, a sua beleza, unanimemente apreciada por homens e mulheres. Segundo o autor, a extraordinária beleza de Delon terá de alguma forma condicionado a sua vida pessoal e profissional.

Existem diversos livros sobre Alain Delon, alguns controversos, e o visado tentou mesmo impedir a publicação de uma sua biografia. [Averiguei que se tratou de Les Mystères Delon, de Bernard Violet. A Justiça atendeu o seu pedido, um facto inédito na democracia francesa, mas o autor exigiu uma revisão do processo em nome da liberdade de expressão e o livro acabou por ser publicado, ainda que trucado, em 2000]. Por isso, não compreendo a necessidade desta obra, que nada de especial acrescenta ao que já é sabido ou verdadeiramente intuído do percurso da personagem.

É claro que Un problème avec la beauté – Delon dans les yeux, não é propriamente uma biografia, nem tão pouco um livro sobre as interpretações do actor ou a sua carreira cinematográfica. Trata-se de uma colectânea de instantâneos em que Jean-Marc Parisis regista episódios significativos da vida de Delon e das figuras que, na vida real e/ou artística, com ele contracenaram.

Conhecida uma proverbial rebeldia de Delon, insinua o autor, desde a primeira página, que nele se instilou a figura de Jean Genet, detido na prisão de Fresnes, quando ainda criança, Delon brincava no pátio daquela instituição, onde o seu “pai adoptivo” exercia funções de vigilante. Aventa mesmo Parisis que é muito possível que os olhos do autor de Notre-Dame des Fleurs possam ter cruzado alguma vez os do futuro intérprete de Rocco e i suoi fratelli.

 
Alain Delon em jovem

Desfilam ao longo da obra as inúmeras personagens com quem Delon contactou na sua vida, de gente dos bas-fonds, dos bandos de gangsters e do mundo do crime a figuras do meio artístico, especialmente cinematográfico, e do meio político e social. Dada a estrutura do livro e porque essas pessoas não são, na generalidade, devidamente apresentadas, e estando quase todas mortas, elas são hoje desconhecidas do grande público. E não sendo os referidos instantâneos cronologicamente ordenados, e primando o autor por uma total ausência de datas, difícil se torna seguir a trajectória do sedutor (seduzido) e de compreender os relacionamentos que Parisis entende demonstrar. É pois um livro só verdadeiramente acessível aos felizes “iniciados”.

Também é um facto que esta teia, casual ou intencionalmente urdida, se presta a confusões, a meias verdades ou até a inverdades, pelo que se ignora o propósito do autor ao escrever a obra.

Sabemos todos que Alain Delon interpretou alguns filmes que constituíram marcos na história do Cinema. Dois deles, Rocco e i suoi fratelli e Il Gattopardo, em especial este último, são obras-primas da cinematografia. Ambos foram dirigidos por Luchino Visconti, esse realizador famoso que é, porventura, o maior de todos os tempos. Sendo Alain Delon indubitavelmente lindo e sedutor (apesar do seu mau feitio) e sendo Visconti um apreciador declarado da beleza masculina, é universalmente consensual que os dois mantiveram muito tempo, uma relação íntima. Nem outra coisa justificaria que Visconti tivesse, durante a sua vida, a fotografia de Delon sobre a mesa-de-cabeceira. É por isso estranho que Parisis enfatize (p. 52) a seguinte declaração atribuída a Romy Schneider, que viveu com Delon alguns anos: «Je crois qu’il n’y a jamais rien eu d’autre à voir dans leur rapport que ceci: Luchino aimait Alain parce qu’il flairait en lui la matière brute du grand acteur. Il entendait donner forme à cette matière, et ce, de façon tyrannique, avec une prétention à la exclusivité.»

Também é estranha estoutra afirmação de Parisis: «Delon préférait travailler avec Visconti qu’avec Malle, mais ne tounerait pas L’Étranger. Le producteur refusait son prix. Était-ce seulement affaire d’argent? Retrouver, travailler avec Visconti ne valait-il pas tout l’or du monde? Une rencontre avait changé la vie de Visconti en la compliquant. Après Le Guépard, il s’était épris d’un blondin d’une beauté diaphane, un peu molle, morbida. Affolé par celle plus tranchante de Delon, qu’il haïssait, Helmut Berger craignait que l’autre n’accapare son amant. Visconti avait-il cédé aux crises de Berger? Delon refusait-il de les essuyer? Mastroianni jouerait Meursault, à la Mastroianni, trop légèrement pour incarner le sombre héros de Camus, et Visconti désavouerait son film.» (p. 103). Não me lembro agora, exactamente, das peripécias para a escolha do protagonista de Lo Straniero, mas não creio que Delon tivesse recusado o papel, fosse por dinheiro, fosse pela eventual concorrência de Berger. Acho que Delon pretendia antes afastar-se do Mestre, pois era voz corrente que eram, ou tinham sido, amantes. E Delon, que desde a sua mais tenra juventude deve ter passado pela cama de inúmeros homens (a sua biografia permite sustentar esta convicção), estando agora no estrelato entendia distanciar-se de uma relação quiçá comprometedora. Recordo-me de ter assistido, há anos, na televisão, a uma entrevista a Alain Delon, em que este desvalorizava o que teria aprendido com Visconti, enaltecendo como seu grande mestre o realizador francês René Clément (que não era homossexual) e com quem fizera um filme também de sucesso, Plein Soleil, a partir do romance de Patricia Highsmith, The Talented Mr. Ripley. Aliás, a carreira de Delon teve sempre cruzamentos homossexuais. O seu segundo filme, tinha ele 23 anos, foi dirigido por Marc Allégret, que fora, aos 17 anos, amante oficial de André Gide. Mas, nos últimos anos, Delon tem-se caracterizado por declarações homofóbicas (ele lá saberá porquê) e reaccionárias, como o seu apoio ao Front National, que entretanto já não deve ser suficientemente de direita para o seu gosto. É evidente que René Clément foi um importante cineasta, mas não se pode comparar a Visconti, cujo rigor profissional, vastíssima cultura, gosto requintado e paixão pelos actores (característica que nunca se pode ou deve menosprezar), transportava ao sublime os filmes que realizou e, também, as peças de teatro e óperas que encenou, entre as quais uma célebre La Traviata, no Scala, cantada por Maria Callas. Ainda sobre Lo Straniero, que o próprio Visconti descartaria da sua filmografia, é evidente que Marcello Mastroianni, embora grande actor, não era, de alguma forma, o intérprete conveniente para encarnar o protagonista da imortal obra de Albert Camus.

Desde muito jovem, Alain Delon frequentou meios problemáticos e conviveu com pessoas de duvidosa reputação. Expulso de sucessivas escolas por mau comportamento, alimentou a ideia de ir com um amigo para os Estados Unidos, mas foram impedidos pelas autoridades. Aos 14 anos foi trabalhar para a loja do padrasto, aos 17 alistou-se na Marinha francesa e aos 18 embarcou para a Indochina como fuzileiro naval, tendo estado vários meses preso por indisciplina durante os quatro anos de serviço militar. De regresso a França, e sem dinheiro, trabalhou como criado, porteiro, assistente de vendas, secretário e prestou outros serviços ocasionais, para os quais não lhe faltariam clientes, actividades que lhe terão permitido estabelecer uma rede de contactos com algumas pessoas influentes. A relação com os irmãos Allégret possibilitou-lhe entrar nos seus dois primeiros filmes (1967), o que o tornou conhecido do público. Começava a ascensão ao estrelato. Em 1968, conheceu Romy Schneider, com quem viveu alguns anos. Mas a sua reputação internacional consagra-se com Plein Soleil, em 1960, e com a inestimável colaboração com Visconti. Esteve para interpretar Lawrence of Arabia, mas o papel foi dado a Peter O’Toole.

 
François Marcantoni

A sua carreira artística no cinema (e também ocasionalmente no teatro), como actor e também como produtor, foi longa (até há cerca de dez anos) e não cabe aqui descrevê-la. O proprietário corso de um bar (Delon tinha ascendência corsa) apresentou-lhe um dia, era ele muito jovem, o seu irmão, François Marcantoni, gangster corso que combateu na Resistência. Ficaram amigos. Mais tarde, Marcantoni apresentou-lhe um outro corso, Barthélemy Guérini, o “Mémé”, “padrinho” de Marselha e próximo de Gaston Defferre, o maire da cidade, e seu conhecido dos tempos da oposição ao regime de Vichy. Posteriormente, numa filmagem em Belgrado, Delon travou conhecimento com um bonito rapaz da rua, Milos Milosevic (1941-1966), que vivia de expedientes, queria fugir do regime de Tito e sonhava com o cinema. Sempre aberto para com as gentes da sua laia, Delon empregou-o como “doublure lumière” (actor complementar que substitui o actor principal durante a afinação da iluminação) e como guarda-costas. Atrás de Milosevic, veio outro jugoslavo, Stefan Markovic (1937-1968), que Delon se comprometeu também a ajudar, ficando igualmente como guarda-costas. Como era muito bonito (apanágio frequente dos sérvios), durante o seu período em França Markovic entrou em contacto com o jet-set francês, entregando-se também à prostituição. E Delon acabou por ficar rodeado pela rede jugoslava de Paris.


Milos Milosevic

Por razões que não vêm agora ao caso, Markovic tornou-se o sérvio mais próximo de Delon, passando a viver em sua casa e gozando de um estatuto especial. A ligação a Markovic viria, contudo, a trazer os maiores dissabores a Delon e provocou um escândalo em França. Em 1968, o corpo de Stefan Markovic foi encontrado morto nos arredores de Paris. As relações de Markovic com Delon tinham entretanto esfriado, até porque este suspeitava de que, durante uma ausência, aquele mantivera um caso com a sua mulher Nathalie. Acontece que Stefan Markovic, antes de ser abatido, enviara uma carta, que foi presente à Justiça, a seu irmão Alexandre Markovic afirmando que se fosse morto seria 100% da responsabilidade de Alain Delon e de François Marcantoni. Entretanto, começaram também a circular em França rumores e fotos que envolviam Markovic em orgias, designadamente com Claude Pompidou, mulher do ex-primeiro-ministro e candidato à presidência da República Georges Pompidou. Parece que Markovic, além das suas funções junto de Delon e do tráfico de droga, tinha por hábito fotografar cenas íntimas das festas sexuais em que participava com mulheres e homens. Foi um escândalo nacional, que o casal Pompidou foi o último a conhecer, e que ficou conhecido como o Caso Markovic. A figura apresentada nas fotos como sendo Claude Pompidou seria afinal a de uma sósia. Supõe-se que os meios policiais franceses tenham estado envolvidos nesta mistificação, já que os gaullistas, apesar de De Gaulle, não gostavam de Georges Pompidou, que achavam demasiado mundano, muito dado a frequentar espectáculos, exposições, jantares e a conviver com artistas, literatos e, pelo meio, gente menos conveniente. E é um facto que o casal Pompidou conheceu pessoalmente Markovic e Delon, tendo mesmo sido convidado para casa deste último.
 
Stefan Markovic e Nathalie Delon

Marcantoni foi preso e Delon longamente interrogado, chegando a estar detido. Marcantoni foi libertado posteriormente e em 1976 obteve um “non-lieu” da Justiça. Chegou a aventar-se que a morte de Markovic fora ordenada por Pompidou para se vingar do ultraje. Mas poderia ter sido um ajuste de contas por negócios de droga ou de qualquer outro género, nomeadamente chantagem.

A morte de Stefan Markovic nunca foi esclarecida.

Em 1970, Alain Delon interpretou The Assassination of Trotsky, dirigido por Joseph Losey e contracenando com Richard Burton. Desempenhava o papel do assassino, Ramon Mercader, no filme Jackson, pois Mercader ainda estava vivo. Escreve Parisis (p. 170) com ironia: «En Mercader qui vivait encore, Delon voyait plutôt un “exécutant” qu’un “assassin” – il n’aimait pas ce mot de sinistre et récente mémoire. Assassin ou “héros”, au plan de l’Histoire les limites étaient floues selon lui, c’était une “question de timing”, tout dépendait des circonstances, du côté où l’on se plaçait.»

Em 1984, Delon interpretaria a figura do Barão de Charlus (a célebre personagem homossexual de Marcel Proust) no filme Un amour de Swann, realizado por Volker Schlöndorff. Um filme sobre uma adaptação de À la recherche du temps perdu, de Proust, fora um desejo nunca concretizado de Visconti. Também René Clément e Joseph Losey sonharam com a obra, cuja imensidão e complexidade tornavam muito difícil a passagem ao cinema. Coube a Schlöndorff a graça de a fazer, mas o filme não deu do livro senão uma pálida imagem.

Informa-nos Parisis que Delon utilizava a terceira pessoa para se referir a si mesmo. E adianta as justificações do próprio. Lembrei-me, de repente, de um jogador brasileiro que se tornou famoso em Portugal, Jardel, que também usava a mesma fórmula.

Além de Violet, também Henri Rode e Stéphane Guibourgé escreveram biografias sobre Delon, que não li e por isso não comento. Um capítulo da biografia de Rode intitula-se “Le danger d’être beau”.

Ao longo das 270 páginas deste livro, Jean-Marc Parisis faz desfilar perante os nossos olhos uma quantidade não negligenciável de pessoas, situações, comentários e acontecimentos relativos a Alain Delon, assinalando os aspectos positivos e negativos da sua carreira, mais os primeiros do que os segundos, não omitindo, obviamente, as pouco recomendáveis frequentações do actor, mas insinuando que elas constituíram o contraponto do seu enorme talento, e que os sarilhos em que esteve envolvido foram o preço que teve de pagar à sociedade pela sua indiscutível beleza. Não conheço as outras biografias de Delon, mas não encontro no livro qualquer revelação sensacional sobre o percurso pouco ortodoxo do actor, salvo talvez alguns pormenores semeados aleatoriamente. Neste apontamento, limitei-me a referir apenas certos aspectos que se me afiguraram mais relevantes, acrescentando algumas informações que não constam do texto: não constitui propriamente uma crítica da obra.

 
Alain Delon actualmente

Alain Delon nasceu em Sceaux (Seine) em 8 de Novembro de 1935, e tem hoje 83 anos. Entre 1959 e 1963 manteve uma relação com a actriz Romy Schneider. Em 1964 casou com Nathalie Barthélemy (Francise Canovas, de nascimento), de quem teve um filho, Anthony Delon. Divorciaram-se em 1969. De 1968 a 1982 manteve uma relação com a actriz Mireille Darc. De 1987 a 2002 manteve uma relação com o modelo Rosalie van Breeman, de quem teve dois filhos, Anouchka e Alain-Fabien. Durante a sua vida interpretou 87 filmes. Vive em Génève (Suiça), país de que possui a nacionalidade.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

SALÓNICA IV ~ A TORRE BRANCA





Construída em finais do século XV (versão inicial), depois da tomada da cidade pelos turcos de Murat II, em 1430, a Torre Branca (Beyaz Kule) é o monumento simbólico de Salónica, erguido junto ao mar. No seu lugar existira uma velha torre pertencente às fortificações bizantinas, no sítio onde a muralha oriental da cidade ficava sobranceira ao Golfo Termaico. Havia uma outra torre no lado ocidental e uma terceira no meio.


Ao longo do tempo, a Torre possuiu várias designações: Torre do Leão, no século XVI; Torre de Kalamaria, no século XVIII; Torre dos Janízaros (quando a guarnição destes soldados ali esteve instalada) e Torre do Sangue (Kanle Kule), quando se tornou prisão e lugar de execução dos condenados, no século XIX. Em 1826, o sultão Mahmut II mandou massacrar os janízaros revoltosos que ali se encontravam prisioneiros. Em 1880, num livro sobre os monumentos da cidade, o historiador Mihail Xatzi Ioannou chamou-lhe a Bastilha de Salónica, onde os condenados à morte eram executados e o seu sangue manchava as paredes de vermelho. Um tiro de canhão significava que a sentença de morte fora cumprida. Em 1883, por ordem do sultão Abdul Hamit II, a Torre foi pintada de branco e passou a chamar-se Torre Branca (Beyaz Kule), já que uma torre sanguinária não era um nome apropriado para os novos ventos que sopravam no Império Otomano. Curiosamente, foi um condenado, Nathan Guiledi, que pintou a torre de branco em troca da sua liberdade.


Segundo investigações recentes, a Torre (na sua forma actual) terá sido projectada pelo célebre arquitecto otomano Mimar Sinan, autor de muitos monumentos e de fortificações semelhantes. Até 1912, data da incorporação de Salónica no Estado Helénico, podia ver-se sobre a porta de entrada da Torre, que se tornou o símbolo da cidade, a seguinte inscrição em turco otomano: AH 942, o que equivale, na EC, ao período 1535-1536.

Foi nas proximidades da Torre Branca que foi assassinado, em Março de 1913, o rei Jorge I da Grécia.


Durante a Primeira Guerra Mundial, a Torre foi usada para armazenar antiguidades provenientes das escavações arqueológicas. Também alojou a defesa aérea, o laboratório de meteorologia da Universidade de Aristóteles e os grupos dos Escuteiros do Mar. Em 1983, a Torre passou para a dependência do Ministério da Cultura.


A Torre Branca tem a forma circular, com 33,9 m de altura e um diâmetro de 21,7 m. Possui um piso térreo e seis andares e é construída em pedra, gesso e tijolo. Uma escadaria em espiral, com 92 degraus, liga a base ao último andar. Quarenta janelas permitem a entrada da luz do dia no seu interior.

À parte a base e o último andar, que consistem apenas num espaço circular, os restantes possuem, envolvendo o espaço circular central (8,5 m de diâmetro), pequenas salas em torno do perímetro, comunicando com o espaço principal através de aberturas baixas. Arquitectonicamente, a Torre é constituída por dois cilindros, um interior e o outro exterior, elevando-se o segundo até ao quinto andar, e o primeiro até ao sexto andar, em cujo exterior existe um terraço donde se desfruta uma vista excepcional sobre a cidade. Até aos princípios do século XX, a Torre era rodeada por uma muralha octogonal baixa (camisa), provida de pequenos torreões octogonais em três dos seus cantos. Esta muralha, provavelmente construída em 1535, foi demolida em 1911.


Desde 2008, a Torre Branca acolhe uma exposição permanente sobre Salónica, desde a sua fundação, em 315 AC, até ao presente, apresentando cada andar um tema principal desenvolvido ao longo do tempo. O espaço central trata o núcleo do assunto, cujos pormenores são apresentados nas salas circundantes.

O Rés-do-Chão é dedicado a “Salónica: Espaço e Tempo”. Aborda a fundação da cidade e o meio ambiente desse tempo. A presença humana data do sexto milénio AC, encontrando-se já “colonatos” organizados na Idade do Bronze (3000-1100 AC). Cassandro fundou Salónica em 315 AC instalando na nova cidade habitantes de 26 colonatos existentes na área periférica.

O Primeiro Andar tem como tema “Salónica: Transformações”. Mostra a história do planeamento da cidade e das suas infra-estruturas. É assinalado o desenvolvimento da sua superfície, desde os 2.000 hectares originais até aos 3.000 hectares dos fins do século XIX. São ainda apresentados alguns objectos alusivos ao passado da cidade enterrado sob as fundações dos edifícios modernos. 

As pequenas salas circundantes da plataforma principal relatam as modificações dos fins do século XIX e princípios do século XX, incluindo a demolição das antigas muralhas, o Grande Incêndio de 1917 e o novo plano projectado pelo arquitecto francês Ernest Hébrard.


O Segundo Andar apresenta “Salónica: Monumentos e História”. Uma panorâmica da cidade é feita através da apresentação de sete importantes monumentos, descritos em projecções de vídeos:

. A Porta de Ouro (demolida em 1911, juntamente com uma parte das muralhas ocidentais) sublinha a importância de Salónica durante o período romano, quando os romanos lhe concederam especiais privilégios e a declararam “cidade livre”;
. A Agora Romana (séculos II a III) era o centro administrativo, financeiro e social da cidade;
. O Complexo de Galério (princípio do século IV) representa a transição gradual da religião antiga para o cristianismo, que se tornou uma componente essencial da fisionomia do Império Bizantino;
. A Igreja de São Demétrio (Agyos Demetrius) testemunha o papel importante desempenhado pelo culto deste santo (o padroeiro da cidade) na história da Salónica bizantina, de um ponto de vista religioso, social e financeiro;
. A Igreja dos Doze Apóstolos (Agyoi Apostoloi) que foi edificada em 1310/4,revela a importância de Salónica nos fins do período bizantino, quando esta era a segunda cidade do Império, depois de Constantinopla;
. A Igreja de Acheiropoietos (450-475), a mais antiga igreja cristã preservada em Salónica, foi a primeira igreja a ser convertida em mesquita depois da tomada da cidade pelo sultão otomano Murat II em 1430 (Eski cume camii) e conserva ainda, numa das suas colunas, uma inscrição mandada colocar pelo imperador. Outras igrejas tiveram depois o mesmo destino;
. O Heptapyrgion (Yedi Kule), que significa Fortaleza das Sete Torres (apesar de possuir dez), construído na Acrópole, data da Antiguidade tardia, tendo sido remodelado durante os períodos bizantino e otomano. Foi a sede do comando da guarnição otomana durante longo tempo, e depois convertido em prisão em fins do século XIX, a qual funcionou até 1989, altura em que foi transferida para fora da cidade. Começou a ser restaurado pelo Ministério da Cultura grego em 1973, e depois entre 1983 e 1985, para reparar os estragos provocados pelo terramoto de 1978.

Nas salas circundantes são apresentados importantes acontecimentos históricos de Salónica, como o massacre no Hipódromo, em 390, o Reino Latino (1204-1224), a revolta dos Zelotas (1342-1349), a Revolução de 1821, a Luta Macedónica (1904-1908), o Movimento dos Jovens Turcos (1908), a Libertação, em 1912 e a Primeira Guerra Mundial.


O Terceiro Andar apresenta “Salónica: A Pátria de um Povo”. O tema é o povo da cidade, as pessoas que a tinham por pátria ancestral e as que foram chegando de outras regiões e que nela se instalaram. Há uma apresentação de slides relativos às pátrias perdidas dos refugiados gregos de 1922, com referência à sua fé e à esperança de que um dia pudessem regressar às suas primitivas terras. É também projectado um filme sobre as memórias dos antigos salonicences e dos que adoptaram a cidade como a sua nova casa. E existem painéis com textos de escritores e viajantes, que descrevem a cidade do século VII até ao presente. 

Nas salas circundantes é fornecida informação sobre a vida dos salonicences durante a Antiguidade, nos períodos bizantino e otomano, aquando dos refugiados de 1922, durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial e as perseguições aos judeus, no período da urbanização dos anos 50 e 60 do século passado, e sobre os que foram repatriados em 1990.


O Quarto Andar tem por tema “Salónica: Nas Rotas do Comércio”. Trata do comércio e da economia da cidade, das pessoas e dos lugares envolvidos no comércio, e dos produtos e actividades comerciais. São apresentados objectos provenientes de escavações arqueológicas, como ânforas e moedas de várias épocas. São ainda mencionadas as trocas comerciais entre Salónica e outras cidades, os transportes comerciais, os mercados da cidade, as profissões e as actividades produtivas. 

As salas circundantes apresentam vídeos relativos à Feira Internacional de Comércio de Salónica, aos mercados da cidade através da história, às guildas profissionais, à modernização e industrialização do século XIX, à criação da classe operária, e às transformações sociais operadas pela era moderna.


O Quinto Andar trata de “Salónica: Lazer e Cultura”. Refere a vida intelectual e artística da cidade nos séculos XIX e XX. Existe um pequeno anfiteatro onde é apresentado um filme, “espectáculo na cidade”, com imagens da sua vida artística e atlética. 

As salas circundantes exibem elementos sobre a imprensa local, a Universidade de Aristóteles, as escolas da cidade, as fundações educativas, a literatura, o teatro, o cinema e a música de Salónica. Existe também uma projecção de slides sobre os jornais que têm circulado em Salónica, um vídeo sobre a rádio e a televisão e aplicações interactivas sobre as personalidades da vida intelectual e artística da cidade desde a Antiguidade aos nossos dias.


O Sexto Andar é dedicado a “Salónica: Sabores”. Trata dos “sabores” da cidade e reflecte a variedade de pessoas de diferentes antecedentes e cultura que aqui viveram. Uma parte do espaço está transformada em sala de jantar com quatro mesas. Os tampos das mesas são écrans que apresentam a preparação de receitas para comidas e doces característicos de Salónica. O espaço restante é ocupado pela Loja do Museu, onde se vendem livros e recordações da cidade. 


Do terraço que circunda este último andar desfruta-se uma magnífica vista sobre a cidade e estão colocados quadros de informação sobre localizações e monumentos do passado.


Esta descrição, necessariamente incompleta, pretende transmitir aos leitores uma ideia do conteúdo da Torre Branca, que continua a ser o monumento simbólico por excelência da cidade de Salónica.