sábado, 14 de outubro de 2017

PARA A HISTÓRIA DA MAÇONARIA




UMA VALIOSA CONTRIBUIÇÃO PUBLICADA NO FACEBOOK POR DANIEL MADEIRA DE CASTRO, E QUE PELO SEU INTERESSE SE TRANSCREVE:

Regulares Ingleses contra Liberais Franceses

Um panorama atualizado da Maçonaria Mundial em 2016 - por Jean-Moïse Braitberg

A Maçonaria pretende ser o “Centro de União”. Mas onde se encontra esse famoso centro? Em Londres ou Paris? As duas principais tendências da maçonaria mundial, que se divide entre “regulares” e “liberais” somam verdadeiras rivalidades históricas, diferenças reais de abordagem espiritual, social, simbólica, que, seja o que for que se pense, não estão perto de desaparecer. Especialmente se os liberais parecem agora segurar a corda, é muitas vezes uma reação contra uma maçonaria “inglesa” considerada dogmática, separada do mundo, envelhecida.
Os Maçons acreditam em Deus? A Maçonaria é mista? Os Maçons fazem política? Eles são progressistas ou conservadores? Os membros de muitas potências francesas geralmente têm pouca dificuldade em responder a estas perguntas básicas que parecem lógicas na paisagem maçônica francesa. Mas, suponhamos que você seja membro de uma loja Inglesa ou afiliada à Grande Loja Unida da Inglaterra. Estas perguntas parecerão absurdas a você, ou deslocadas na medida em que elas são estranhas à visão de Maçonaria que ainda prevalece em grande parte do mundo. Porque no seio da Maçonaria Mundial, não é um estreito Pas-de-Calais que separa ingleses e franceses, mas um oceano de incompreensão que, se raramente se tinge de hostilidade aberta, banhada da arrogância mútua de dois continentes soberbamente isolados entre si.

Golpe de cinzel no contrato fraternal

Nessa rivalidade histórica e geopolítica, Londres sempre se prevalecerá do privilégio da anterioridade. Se o inspirador das constituições Anderson fundadoras da Maçonaria Universal foi Jean-Théophile Desaguliers, um pastor de origem francesa, mas já muito inglês, é em Londres e no Reino Unido que as antigas obrigações se espalharam entre 1700 e 1717. No entanto, foi apenas duzentos anos mais tarde, em 1929, que a Grande Loja Unida da Inglaterra, proclamou uma regra de vinte e cinco pontos dos quais o oitavo foi o golpe de cinzel , senão de punhal no contrato fraterno que, bem ou mal admitia a regularidade das lojas francesas e afiliadas desde 1728: “Grandes Lojas irregulares ou não reconhecidas: Existem algumas chamadas potências maçônicas que não respeitam essas normas, por exemplo, que não exigem de seus membros a crença em um Ser Supremo, ou que encorajam seus membros a participar como tais em assuntos políticos. Estas potências não são reconhecidas pela Grande Loja Unida da Inglaterra como sendo maçonicamente regulares, e todo o contato maçônica com elas é proibido.” As lojas filiadas à GLUI, e mais especialmente as lojas americanas e canadenses, que também já havia mantido relações amigáveis com a maçonaria “continental” foram mais lentas em adotar a mesma atitude sectária. A rutura entre as duas maçonarias não foi definitiva até o início dos anos 1960. O fato é ainda mais incompreensível que sobre o mérito, a exclusividade proclamada por Londres aplica-se tanto às potências e lojas deístas como as da Grande Loja de França ou do Direito Humano que trabalham sob os auspícios do Grande Arquiteto do Universo, quanto a aquela que fazem da liberdade absoluta de consciência a pedra angular de sua filosofia.
É verdade que no que diz respeito à Federação Internacional du Droit Humain, que possui há bastante tempo lojas em países dominados pela GLUI, a loja mista é um dos principais motivos para o não reconhecimento, ainda mais inaceitável que a liberdade de consciência. Se somarmos a essas diferenças a visão política ou social que certas lojas liberais defendem, não faltarão motivos para explicar a fratura que atravessa a maçonaria mundial. Mas tanto quanto razões ideológicas ou filosóficas, esta divisão é o resultado de circunstâncias geopolíticas ligadas à respetiva influência da França e da Inglaterra no mundo desde o final do século XVIII.
O papel da maçonaria francesa no desenvolvimento das idéias liberais na Europa havia desafiado os britânicos e estes puderam constatar o efeito dessa propaganda. Em primeiro lugar, na América por ocasião da expedição do maçon Lafayette, depois na Irlanda uma geração mais tarde. A grande revolta dos patriotas irlandeses de 1798 que foi afogada em sangue tinha tido como líder Wolfe Tone, um republicano liberal de religião presbiteriana que não sabemos se foi iniciado, mas de quem uma loja do rito irlandês tem seu nome. Vestido em uniforme francês, ele estava no navio comandado pelo maçon e corsário Jean-Baptiste Bompard cuja tentativa de desembarque em Donegal terminou em um fiasco. Esta foi a época em que como uma reação contra a maçonaria do Iluminismo, os mais conservadores dos protestantes irlandeses criaram a ordem para maçônica de Orange. O antagonismo entre duas visões de maçonaria era parte da história. A animosidade inglesa em relação a tudo que vinha da França, já grande, é reforçada nos anos seguintes diante de Napoleão I e seu Areópago de marechais maçons que pretendiam colocar a Europa sob um golpe regulada por um imperador coroado pelo papa … a quem o maçon “inglês” Blücher fez vomitar na planície de Waterloo.

Duas religiões, duas legitimidades

Não se pode nunca destacar suficientemente a importância da questão religiosa na diferença que opõe a visão do mundo anglo-saxã à visão de mundo latina e, especialmente francesa. Mas aqui, ela é menos diferença doutrinária entre católicos e protestantes que visões de mundo, resultantes de diferentes sistemas de fidelidade. No Reino Unido, cuja história é tão sangrenta quanto a da França pelas guerras religiosas, é a rainha ou o rei que incorpora a legitimidade política confundida com a legitimidade religiosa. A Maçonaria, cujo surgimento no final do século XVII foi também uma empresa para reunir aqueles que estavam dispersos em excesso de conflitos religiosos, naturalmente se alinhou sob a coroa simbolizando a unidade do país. Tradicionalmente, e até hoje, são príncipes de sangue real que dirigem, pelo menos simbolicamente, a Maçonaria Inglesa. Foi o mesmo na França até a Revolução, primeiro, e depois sob Napoleão, e sob as duas restaurações que se seguiram. Até a Segunda República, as condenações papais tiveram pouco efeito sobre o ingresso de católicos, incluindo muitos religiosos na Maçonaria. Neste contexto, a figura eminente de Joseph de Maistre, um fervoroso Católica que desprezava a República e também propagador na Europa do Rito Escocês Retificado, ilustra essa distorção. Entretanto, com a evolução autoritária do Segundo Império concomitante com mudanças sociais trazidas pela Revolução Industrial, a Maçonaria francesa mudou gradualmente de face. Anteriormente monarquista, católica e aristocrática, ela gradualmente se torna popular, pequeno-burguesa, republicana, senão protestante e judaica, pelo menos amplamente aberta às correntes liberais dessas duas religiões. Isso foi verdade tanto para a Grande Loja de França quanto para o Grande Oriente de França. No entanto, esta evolução liberal, se não libertária, foi parada por dois eventos, aparentemente independentes, mas que de fato imporia à Maçonaria francesa uma nova aliança legalista. Em primeiro lugar, o esmagamento da Comuna de Paris na qual estavam envolvidas lojas parisienses obreiras, foi amplamente aprovado pelas lojas republicanas burguesas do Grande Oriente de França. Então, em 1877, o abandono pelo GODF da referência ao Grande Arquiteto do Universo, consagrou a preeminência da potência enquanto “Igreja da República”, dando aos seus membros um papel de Cavaleiros Templários seculares que eles assumem com zelo até nossos dias.
É assim tanto uma briga doutrinária quanto um conflito de legitimidade que levou a partir de 1877 a uma rutura de fato entre o Grande Oriente da França e a Grande Loja Unida da Inglaterra. Conflito ainda mais marcado pelo fato de que a época era de expansão colonial. E nós sabemos quanto a Maçonaria operava tanto para o poder colonial francês quanto para o papel do Império Britânico, como um traço de união com as elites locais. Como zelosos missionários, funcionários e militares maçons de ambas as margens do riu delimitaram suas respetivas zonas de influência como fizeram na África após o incidente de Fashoda. Para as obediências francesas as possessões na África, Indochina e do Pacífico. Para a GLUI a Índia, Oriente Médio e suas colônias africanas. A América do Norte, embora já adquirida pela GLUI permaneceu ainda aberta por muito tempo às relações com a maçonaria liberal, enquanto a América Latina, constituída por Estados soberanos teve o prazer de conciliar as duas influências, mas com uma preferência, por vezes, pela visão liberal.
Assim, o mapa da maçonaria mundial fora da Europa foi delimitado a partir do final do século XIX. E iso até a descolonização. Essa teve, primeiro, o efeito de eliminar a Maçonaria de territórios onde ela não estava estabelecida somente entre os colonos e expatriados ou entre uma franja fina das elites ocidentalizadas. Este foi o caso para as lojas francesas em todo o Magrebe, bem como na Indochina onde tudo o que era maçônico foi de barco para o exílio e a derrota. Para os ingleses, foi a ascensão do nacionalismo árabe que em seu auge depois de 1956, varreu as poderosas potências maçônicas egípcia e iraquiana. Somente resistiriam para os liberais as maçonarias da África negra e de Madagáscar e para a “regulares” a maçonaria indiana, ainda que muito reduzida desde os dias de Kipling, permanece até hoje a única maçonaria de alguma importância na Ásia.

“Guerra Fria” entre maçons

Se este quadro, traçado apressadamente permanece ainda atual em termos gerais, ele sofreu desde os anos sessenta a uma série de alterações que modificam um pouco as suas perspetivas. De particular interesse é a crescente influência da Grande Loja Nacional Francesa, que defende os interesses da GLUI sob a bandeira francesa. Mais uma vez, é preciso fazer um pouco de geopolítica. O Rito Inglês no estilo Emulação introduzido na França em 1901, na Loja Anglo-saxã, criada dentro da Grande Loja de França tinha uma influência muito limitada até depois da Segunda Guerra Mundial, quando sob a influência de muitos maçons americanos presentes nos quadros da OTAN, foi criada a GLNF reconhecida imediatamente como regular pela GLUI. Até então, ao contrário dos ingleses, os maçons americanos mantinham relações cordiais com seus irmãos franceses. Mas a decisão do general de Gaulle de se retirar da OTAN, quando as bases militares deixaram o território francês em meados da década de 1960 levou a uma verdadeira guerra fria entre maçons franceses, todas as potências combinadas, exceto a GLNF e maçons do mundo anglo saxão.
A famosa “arrogância” francesa foi na época qualificada de cripto-comunista, epíteto com que foi presenteado o Grão-Mestre do GODF, Jacques Mitterrand, por todos aqueles que, na maçonaria francesa e internacional reprovavam a politização da potência. Entenda-se isso como progressista. Esta reputação colou-se de uma vez por todas à obediência da Rue Cadet e foi, portanto, possível, ao abrigo de regularidade e ortodoxia do rito, talhar-lhe algumas pedras brutas em seu jardim africano. Assim, enquanto que, por tradição e também pelo jogo político, a maioria das lojas da África Negra permaneceram na órbita do GODF após a independência, vimos aqui e ali, principalmente no Gabão, aparecer potências nacionais ligadas à GLUI, mas apoiadas, se não sustentadas pela GLNF.
Aqui se coloca a questão de difícil compreensão para o profano, da relação entre rito e potência. Se a diferença entre “regular” e “liberais” se limitasse apenas ao rito, ela não teria razão de ser. O que é comumente chamado de ritos ingleses, isto é, os chamados Emulação e Rito de York, que são os da GLNF, são praticados por algumas lojas do Grande Oriente de França e do Droit Humain. Além disso, o antigo Grão-Mestre do GODF Alain Bauer é um alto dignitário do Rito de York no seio da obediência. Da mesma forma, o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) quase desconhecido no Reino Unido, e muito menos na Escócia, é praticado por algumas lojas americanas e de uma forma quase exclusiva pela Grande Loja de França e do Droit Humain. A mesma situação vale para os altos graus cujos capítulos em todo o mundo, obedecem à mesma distribuição geopolítica que as lojas simbólicas.

Os “Regulares” majoritários, mas em declínio constante

Isto pode parecer absurdo e, em princípio, contrário ao espírito da Maçonaria, cujo principal objetivo é reunir o que está espalhado. No entanto, é ela que, ainda hoje, desenha a paisagem maçônica mundial e ainda mais nas próximas décadas vai decidir o futuro da maçonaria em geral. Não nos enganemos: em nível global, a maçonaria não para de declinar desde os anos 1960. Para isso pode-se encontrar muitas explicações, mas não se saberia analisar o fenômeno, sem levar em conta a especificidade da Maçonaria “regular”, ali onde ela era mais poderosa, ou seja, no mundo Anglo Saxão. Se tomarmos o exemplo dos Estados Unidos, os maçons que encarnaram até a Segunda Guerra Mundial, as ideias fundamentais da democracia americana, gradualmente abandonaram qualquer pensamento social, em favor de uma visão conservadora, congelado, antiquada da sociedade americana. Tudo o que esta última fez evoluir na segunda parte do século XX foi, se não combatido, pelo menos, ignorado pelas lojas. A emancipação dos negros, embora ainda existam batalhar a vencer, já é uma realidade na sociedade americana, embora brancos e negros tenham uma maçonaria separada com base no princípio da segregação. O lugar da mulher na sociedade americana, provavelmente o mais avançado do mundo ocidental, ainda é um tabu na Maçonaria estadunidense onde lojas mistas estão ausentes e lojas femininas quase inexistem. Finalmente, a questão do reconhecimento do fato homossexual não só está a milhares de quilômetros das preocupações das lojas americanas, mas certas entre elas, como recentemente no Tennessee, pronunciaram-se abertamente em favor de medidas discriminatórias contra a comunidade gay.
A isso se soma uma prática maçônica muito estranha que se transforma a iniciação em uma espécie de trote e a frequência às lojas uma formalidade social. Na verdade, durante as aulas de um dia, cerimônias de um dia inteiro, que os candidatos ingressam e passam pelos três primeiros graus, antes de prosseguir em uma carreira maçônica nos altos graus de maneira quase tão rápida, pontuadas por três ou quatro sessões realizadas por ano.
Distante das realidades da sociedade, envelhecida, reduzida a uma atividade de clube de serviço, a maçonaria americana, que teve quase quatro milhões de membros nos anos 1950 não contam hoje nem com a metade disso. E, ainda, este número inclui todos aqueles que em um momento ou outro foram iniciados. O número real de membros da Maçonaria norte-americana seria mais perto de duzentos mil membros, em sua maioria com idade superior a setenta anos.
Esta situação não é muito diferente no Reino Unido, onde a maçonaria, antes emblemática de um certo modo de vida britânico, está em declínio constante. Certamente, os rituais são praticados ali de maneira mais séria do que nos EUA, mas as sessões obrigatórias têm lugar apenas uma vez a cada dois meses, e a Maçonaria britânica, em seu todo muito conservadora e comprometida com a crença em um deus revelado, está separada de uma sociedade cada vez mais multicultural e cada vez menos religiosa. A ausência de debates sociais em loja, o envelhecimento dos membros, a recusa absoluta das lojas mistas e a quase ausência da maçonaria feminina completam um quadro pouco dinâmico que se pode, com apenas alguns detalhes a mais ou a menos, transpor para a Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Canadá e Israel, países onde a maçonaria ligada à GLUI foi por muito tempo poderosa.

… e os liberais minoritários que progridem

Em última análise, com exceção da pequena Islândia, pais que tem a maior proporção de maçons no mundo, é na França que a maçonaria inglesa seria mais dinâmica. E não é sem interesse saber dos os esforços feitos pelas potências francesas, incluindo o Grande Oriente da França principalmente (ver quadro), mas também o Droit Humain, para se implantar e, se possível progredir no Reino Unido (duas lojas do GODF, doze lojas do DH e uma loja do Grande Oriente da Itália) e na Irlanda (três lojas do GODF). Note-se também que ao lado de algumas lojas liberais localizadas em Nova York, é na Califórnia que as esperanças de um renascimento da maçonaria americana são maiores, com uma loja do GODF em San Francisco, mas também contatos esporádicos sob a cobertura de simpósios históricos e em outros eventos entre a Grande Loja da Califórnia e o GODF, bem como da Grande Loja Feminina de França e o Droit Humain. Observou-se também, na década de 2000, a presença de representantes do GODF e da Grande Loja de França, durante uma conferência maçônica por iniciativa da Grande Loja de Minnesota. No entanto, por mais promissores que sejam, esses contatos não foram acompanhados por nenhum acordo entre as potências e o horizonte de reconhecimento ainda parece muito distante.
Fora a África Ocidental, tradicional território de potências francesas, e em alguns países do sul da Europa (ver caixa), é hoje na América Latina que a Maçonaria liberal mais se desenvolve. Tradicionalmente ligada à emancipação dos povos da região através da memória de maçons ilustres que foram José Martí em Cuba, Giuseppe Garibaldi no Uruguai e Simon Bolívar, o libertador do subcontinente, a maçonaria liberal ali se desenvolve há bastante tempo uma fraternidade matizada de cultura latina e secularismo. O México tem sido há tempos a ponta de lança, enquanto que no Uruguai se encontra a loja mais antiga da América do Sul filiada ao GODF. No Brasil, que tem uma infinidade de potências, incluindo a tradição “egípcia”, a maçonaria é um bom exemplo de diversidade, mas também de desunião, mas com um aumento acentuado de lojas do Droit Humain. Por outro lado, na Argentina e, em menor medida, no Chile, onde se encontra um Grande Oriente Latino-americano, a margem de progressão da maçonaria liberal continua a ser considerável.
O mesmo se aplica ao Extremo Oriente, onde, além da Índia, que conta com cerca de 20.000 maçons, maçonaria tanto “regular” quanto liberal nunca fez sucesso. Provavelmente porque têm a sua própria abordagem simbólica, os chineses, japoneses e Thais nunca estiveram realmente interessados em uma maçonaria que, embora queira ser universal, baseia-se na mitologia bíblica, bem como uma forma de pensamento, características e ferramentas simbólicas de mentalidade ocidental. Falar de colunas do templo de Salomão a um chinês para quem o mundo é circular ou de secularismo a um japonês, cuja identidade é inseparável do culto xintoísta não faz sentido algum.
Resta o mundo árabe-muçulmano, onde algumas pessoas nutrem desde longo tempo a esperança de restaurar a maçonaria à sua antiga glória para conter o máximo possível o fanatismo religioso. Totalmente ausente da Argélia, a Maçonaria existe na Tunísia com lojas filiadas ao GODF, cujos membros se reúnem na discrição mais absoluta. Fora a notável exceção do Marrocos, onde quase todas as potências liberais estão representadas, e o Líbano, onde se enreda uma multiplicidade de potências cujo número de membros não excede, normalmente, dez membros, a maior parte do mundo árabe e muçulmano também parece fechado para a Maçonaria como ela é hoje, para o secularismo, para a emancipação das mulheres e para a tolerância em relação à homossexualidade.
A cifra de sete milhões de maçons em todo o mundo, às vezes apresentada, é certamente falsa. Sem dúvida, ela está realmente mais perto de dois milhões de maçons ativos. E desse número, pouco mais do que três a quatro centenas de milhares de irmãos e irmãs estão sinceramente comprometidos com a liberdade de consciência, o respeito pelos outros na sua diversidade e convencidos de que devem trabalhar tanto para a melhora do homem em seus aspetos morais quanto materiais. É muito pouco. Mais uma razão, nestes tempos tenebrosos, pare que cada um se ocupe em recuperar a sua luz sobre o mundo.

Quadros

A Aliança Maçónica Europeia. Um lobby maçônico em Bruxelas
Tradicionalmente, na Europa, os “regulares” estavam no Norte e os liberais no sul. Esta realidade geográfica se cruza com outra história, que deixou traços. Fora das maçonarias austríaca e alemã, predominantemente “regulares”, são essencialmente os liberais que foram perseguidos por ditaduras comunistas e fascistas. Assim, certamente, existe maior tradição de discrição no sul da Europa. Depois de 1989, foi a corrida para o Leste para uns e para outros. Quase trinta anos depois, se contarmos belas realizações nos Balcãs, a presença maçônica na Rússia e na Europa Oriental ainda está em formação. Se as maçonarias polonesa e húngara são bem constituídas, eles mostram coragem em países cujos governos leem seu futuro no seu passado mais obscuro.
Fora seus dois pilares que são a França e a Bélgica, a Maçonaria liberal é representada por potências nacionais ligadas principalmente ao Grande Oriente de França e ao Droit Humain em cerca de quinze países europeus. Com exceção da Sérvia, as potências liberais desses países *, a que se juntam a Turquia e o Marrocos constituíram há dois anos a Aliança Maçônica Europeia que agrupa 22 potências. “Trata-se de representar junto às autoridades europeias uma força de diálogo e proposta baseada no secularismo e nos valores de escuta e tolerância da Maçonaria adogmática. Julgamos ser útil se fazer ouvir por meio de lobbies junto a Bruxelas para não deixar este terreno às religiões e à extrema direita. Atualmente, somos signatários da petição Wake Up Europe denunciando os abusos do regime autoritário de Viktor Orban na Hungria. Não nos opomos à que os “regulares” se juntem a nós, mas por enquanto eles estão ausentes neste terreno”, explica Henri Sylvestre, Grande Secretário para os Assuntos Externos do GODF, potência que, junto com o Grande Oriente da Bélgica e as federações do Droit Humain estavam na origem desse projeto.
Contacto - Aliança Maçônica Europeia, 75 rue de Laeken, 1000 Bruxelas secretariat@ame-ema.eu
* Áustria, Bélgica, Espanha, França, Grécia, Hungria, Luxemburgo, Marrocos, Holanda, Polônia, Portugal, Romênia, Eslovênia, Suíça, Turquia.

Inglaterra. Quando os franceses desembarcam…

Terra de Missão, ou terra simplesmente incógnita para os franceses de tradição adogmática, o Reino Unido tem alguns poucos passageiros (quase) clandestinos, seguidores de uma maçonaria aberta de Rito Francês, trabalhando em Inglês, e que até defende as lojas mistas. Chocante!
Em 2010, Philippe Bodhuin, de Calais era conselheiro da ordem do GODF e membro da Loja Hiram, única loja francesa trabalhando em francês em Londres por mais de cem anos. “Esta situação não era absolutamente satisfatória. A ideia nos ocorreu de criar uma loja trabalhando em Inglês, de modo a não limitar o recrutamento aos expatriados”. Isso foi feito em 2010, quando foram criadas as R.L “Freedom of Conscience” – Liberdade de Consciência – que se reúne em um templo do Droit Humain, já presente no Reino Unido. A partir de um núcleo de 26 membros originários da Loja Hiram, esta nova loja procedeu então a uma dúzia de iniciações, incluindo dois ingleses. O que é mais um feito que, de acordo com Philippe Bodhuin que é o atual venerável, “Recebemos regularmente membros da GLUI que não assinam o livro de presença, mas estão muito interessados em nossos trabalhos com os ritos francês e Inglês. Eles ainda descobrem uma maçonaria ativa na qual é possível não acreditar em deus ou na imortalidade da alma, crença obrigatória em lojas inglesas, embora muitos de seus membros não acredito nisso.”
Quanto às lojas mistas, está programado assim que a oportunidade surgir. Além disso, o fato de estar em Londres é de interesse para esta loja, para misturar-se a uma população cosmopolita atraída pela maçonaria, mas que ignorava tudo sobre a maçonaria de Rito Francês. O que já permitiu estabeleceu contactos com maçons de Malta e criar três lojas na República da Irlanda.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A SOCIEDADE DO MISTÉRIO




Foi recentemente publicado mais um livro do notável escritor Dominique Fernandez (n. 1929), membro da Academia Francesa.

Autor de vastíssima obra, que inclui romances, ensaios, biografias, livros de viagens, livros de fotografias, traduções, e até o libretto de uma ópera, num total de cerca de cem títulos, Fernandez deu agora à estampa um curioso livro, La Société du mystère, volume grosso de 600 páginas, em que, valendo-se da sua extraordinária erudição, imagina uma autobiografia do pintor Agnolo Bronzino, um dos vultos mais famosos da pintura maneirista do Renascimento Italiano. Tem Dominique Fernandez três paixões principais: os rapazes, a pintura e a Itália, creio que por esta ordem. E toda, ou quase, a sua obra é colorida pela homossexualidade, pela arte (nomeadamente pintura e escultura) e pela Itália, sem esquecer obviamente a Grécia, e também a Rússia e os outros países de Leste, e noblesse oblige, mesmo o mundo árabe (Síria e Argélia), e outros cantos do globo, sobre os quais escreveu.

São Sebastião (Bronzino)

Não obstante as suas preferências, Dominique Fernandez foi casado entre 1961 e 1971 com Diane de Margerie, e tem dois filhos (talvez para confirmar o repto de André Gide).

Neste livro, o autor imagina ter comprado num bouquiniste de Florença, especialista em arte, perdido entre muitas obras, um livro antigo, velho de mais de quatro séculos, obra certamente não referenciada pelo proprietário que a vendeu por quarenta euros. Tratava-se nem mais nem menos do que a biografia do famoso pintor Jacopo Pontormo, escrita pelo seu aluno, e amante, Agnolo Bronzino. E pelo texto que se vai lendo, mais do que a vida do mestre, Bronzino acaba por retratar a sua própria vida, como não poderia deixar de ser e convinha à imaginação de Fernandez.

Luneta da Villa Medici, em Poggio a Caiano (Pontormo)

O livro começa assim: «Jacopo m'a-t-il violé, à quatorze ou quinze ans, comme beaucoup de ses confrères le faisaient, usant de leurs élèves pour le bien de ceux-ci, selon une coutume réprouveé par les prudes et sévèrement condamnée par les lois mais répandue dans les ateliers» (p.13). Estava dado o tom.

Idem (pormenor) - Bronzino serviu de modelo para o rapaz despido

Ao longo do livro, Dominique Fernandez procede a uma reconstituição da vida de Bronzino, baseado em factos reais e no seu conhecimento dos costumes da Itália do tempo, mas não deixando de ficcionar largamente a vida do pintor, como é aliás próprio de um romance que nem sequer pretende ser romance histórico.

Angelo di Cosimo di Mariano, chamado o Bronzino devido ao tom bronzeado da sua pele, nasceu em Monticelli (subúrbios de Florença), em 17 de Novembro de 1503 e morreu na mesma cidade em 23 de Novembro de 1572, em casa do seu discípulo preferido, um misto de filho e amante, Alessandro Allori, que também usaria o nome de Alessandro Bronzino, tal a ligação entre ambos.

Saiu de casa de seus pais aos catorze anos, a convite do famoso pintor Pontormo, para trabalhar como seu ajudante, como era normal na altura, e foi por este iniciado não só nos mistérios carnais (fazia parte da preparação) mas também na técnica da pintura, já que o mestre logo lhe detectou particulares qualidades, que haveriam de fazer dele um dos grandes nomes do Renascimento. Anos depois, abandonou o atelier de Pontormo (homem de comportamentos extravagantes), transferindo-se para casa própria e sendo também colaborador, e igualmente amante do não menos famoso Benvenuto Cellini, o autor do incomparável Saleiro em ouro que está hoje no Kunsthistorisches Museum de Viena e do Perseu com a Cabeça de Medusa, que se encontra na Loggia dei Lanzi de Florença.

Segundo Bronzino (isto é, Fernandez) os pintores da fase final do Renascimento seriam Masaccio, Masolino, Filippo Lippi, Paolo Ucello e Piero della Francesca (primeira geração); Leonardo Da Vinci, Botticelli, Ghirlandaio, Filippino Lippi, Perugino (segunda geração); Miguel Ângelo e Rafael (terceira geração) e Giovanni Battista di Jacopo Guasparre, conhecido por Rosso Fiorentino, Benvenuto Cellini e Agnolo Bronzino (quarta geração). (p. 76) No diálogo em que é feita esta afirmação não estão citados, por exemplo, Pontormo ou Andrea del Sarto.

Dionysus e Ampelus (Pierino da Vinci)

No livro, Bronzino alude às suas relações com outros artistas, como Pierino da Vinci, sobrinho de Leonardo da Vinci, Giovanni Bazzi (il Sodoma), Girolamo Mazzola (il Parmigianino), etc.

Voltando às épocas da pintura florentina (p. 403), Fernandez escreve: «l'âge de l'éveil, au sortir de la barbarie gothique (Cimabue, Giotto, Orcagna, valeureux pionniers); un deuxième âge, celui de la maturité (Paolo Uccello, Fra Angelico, Masaccio, Piero della Francesca, le quinzième siècle en général); le troisième âge, le nôtre, celui du seizième siècle, l'âge de l'acomplissement, de la perfection, qui s'est ouvert avec Botticelli, épanoui avec Léonard, pour culminer de nos jours, avec Miche-Ange.»  E à pergunta de Sandro (Alessandro Allori, o discípulo amado), «un quatrième âge est-il possible?» Bronzino responde: «Oui, possible et même arrivé, mais forcément inférieur au troisième, car à la perfection ne peut succéder que le déclin.»

Não sendo possível referir todos os aspectos relevantes da obra, nem mesmo os mais significativos, registemos a visão geral. O leitmotiv é, como não podia deixar de ser, a questão do sexo, especialmente as relações entre o sexo masculino, e a sua repercussão na arte. E as "habilidades" dos pintores e escultores para representarem o nu, tão integral quanto possível, numa sociedade simultaneamente muito permissiva e muito repressiva. Por exemplo, o famoso Benvenuto Cellini foi sentenciado quatro vezes por relações com rapazes, a última com o seu aprendiz Fernando di Giovanni di Montepulciano, que lhe valeria quatro anos de prisão, comutada em quatro anos de prisão domiciliária, graças à intervenção dos Médicis. Bronzino, com muito tacto, conseguiu "passar entre os pingos da chuva", ocultando normalmente nas suas pinturas as "partes vergonhosas" com um tecido ligeiro. Só Miguel Ângelo, considerado il Divino, não foi verdadeiramente incomodado, embora um papa tivesse encarado a hipótese de desfigurar ou mesmo apagar os nus da Capela Sixtina, o que teria sido para a Humanidade uma irremediável perda.

Ganimedes e a águia (Cellini)

Muitos destes artistas, Bronzino é um exemplo, foram também poetas de mérito, trocando entre si os seus escritos, em que se enaltecia a beleza dos jovens e os seus atributos. Escreve Fernandez (de seu próprio punho) quando resolve fazer durante o livro considerações para explicitar o "texto" de Bronzino: «Bronzino répète qu'il s'en voulait de duper cette excellente personne, pour laquelle il se sentait une sincère affection, malgré la surprise de l'avoir découverte un peu différente de ce qu'il avait cru. Elle n'avait rien compris à ce sonnet, rien deviné des sous-entendus, rien flairé de ce qu'il renfermait de scandaleux, preuve qu'il était réussi: assez énigmatique pour garantir à son auteur l'impunité, assez audacieux pour se faire admettre dans la "société du mystère" (comme ils l'appelaient entre eux). (pp. 194-5)

Esta "sociedade do mistério" que dá o título ao livro, funcionava perfeitamente, ou quase, em Florença, apenas expondo os incautos ou atrevidos ao rigor da lei. No último capítulo surge mesmo don Agostino Lupi, prior de San Lorenzo, ele que era suposto ser um homem mais aberto, a sustentar os benefícios da censura e da Inquisição na produção artística. Segundo don Agostino, o facto de os artistas recearem expor abertamente os sexos do sexo masculino, os corpos demasiado ostensivos dos jovens, obrigava-os a um contorcionismo, a uma capacidade inventiva para respeitar os limites do admissível, residindo nessa atitude a verdadeira arte. Os que transgrediam, como Pontormo ou Cellini, corriam ao desastre. Daí, a bondade do Index.

Não deixa de ser curiosa esta reflexão de Dominique Fernandez, ainda que felizmente tal prática não tenha constituído regra. Embora muitas vezes seja mais excitante um quase nu do que um nu integral. E quando os artistas optaram pelo quase não foi sempre por receio das perseguições dos poderes civis ou religiosos.

Este livro, tão volumoso, após quase uma centena de obras, aparece como que um testamento literário (e artístico) do autor, que conta agora 88 anos. Ao apropriar-se da figura de Bronzino, que ele muito admira, Fernandez exprime pela imaginária pena dele o seu próprio pensamento. Não que não fosse já suficientemente conhecido, mas surge aqui devidamente condensado pela suposta mão de um pintor renascentista. Diria mais: a partir de metade do livro, este tende a confundir-se com uma biografia do próprio Fernandez, ressalvadas as circunstâncias de época. E é por isso que, de vez em quando, o autor suspende a pretensa narrativa bronziniana para exprimir directamente o seu pensamento, à luz da época presente.

sábado, 7 de outubro de 2017

O IRÃO E OS COSTUMES



Transcrito da "Booksletter" de hoje:

 

Quand l’Iran avait des mœurs libres

 
Dans son film d’animation, Téhéran Tabou, Ali Soozandeh énumère les fardeaux qui pèsent sur l’intimité des Iraniens et des Iraniennes. Cette conception très stricte de la sexualité qui règne aujourd’hui dans le pays n’a rien de traditionnel, rappelle l’historienne iranienne en exil Janet Afary dans Sexual Politics in Modern Iran. C’est le mouvement de modernisation, apparu avec la révolution constitutionnelle de 1906, qui a modifié les mœurs. Alors que l’Iran se montrait jusque-là tolérant en ce qui concerne la sexualité et valorisait même l’homosexualité, certains « modernes » ont importé les discours venus d’Occident sur le genre et le sexe.
La feuille satirique Molla Nasreddin publiée entre 1906 et 1931 a été ainsi le premier journal du monde musulman chiite à défendre la norme hétérosexuelle. Servant de modèle à plusieurs autres publications, son discours a façonné durablement le débat. D’éminents partisans de la révolution de 1906 en ont profité pour montrer du doigt des personnalités politiques de premier plan en raison de leur sexualité. Quand Reza Kahn s’autoproclame shah en 1925, il s’efforce d’interdire l’homosexualité. « Le vrai patriote devait changer d’orientation sexuelle et délaisser les garçons pour les femmes, affirmaient haut et fort les grandes figures politiques et intellectuelles de l’époque » écrit Afary. Elle ajoute que « la plupart des défenseurs des droits des femmes souscrivaient à ce projet car il encourageait l’amour hétérosexuel et monogame dans le mariage ».
Les allusions à l’amour homosexuel sont peu à peu éliminées des manuels scolaires et même des nouvelles éditions de textes classiques. La censure a effacé toute cette partie de la mémoire collective. L’hostilité à l’homosexualité a alors pu jouer un rôle important dans la révolution de 1979, ce qui explique en partie la virulence de la répression actuelle.
A lire dans Books : L’homophilie oubliée de la société iranienne, décembre 2011.
   
Sexual Politics in Modern Iran par Janet Afary
Éditeur: Cambridge University Press
Date de parution: 2009

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ALBERT RIVERA




Não é despiciendo recordar um cartaz de Albert Rivera, líder de Ciudadanos, quando pousou nu durante a campanha eleitoral para o Parlamento da Catalunha, há dois ou três anos, se não estou enganado.

Na altura o novo partido surgia como uma esperança para os espanhóis, com o PP envolto em escândalos e o PSOE profundamente desgastado. E para muitos, o Podemos era demasiado à esquerda.

Com as posições que tem estado agora a tomar, de apoio à política suicida de Mariano Rajoy, Rivera, possível alternativa de centro a um governo da direita, perde progressivamente o capital político inicial. A propósito da alocução de ontem de Felipe VI, já ouvi dizer: o rei vai nu. Parece que é pertinente acrescentar: e Rivera só não passa a ir nu porque já estava, conforme propaganda partidária. A menos que a foto tivesse outras intenções que extravasassem do foro político.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

JORGE LISTOPAD




Morreu ontem em Lisboa, com 95 anos, o escritor, professor, realizador televisivo, encenador teatral e de ópera e cronista checo Jorge Listopad, que se encontrava radicado em Portugal desde os finais dos anos 50 do século passado.

Homem de vasta erudição, exerceu diversos cargos públicos, como presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Teatro e Cinema, co-director do Teatro Nacional D. Maria II ou professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Foi o fundador do Grupo de Teatro da Universidade Técnica de Lisboa.

Fugido da Checoslováquia durante a Segunda Guerra Mundial, Jorge Listopad, que era doutorado em Filosofia pela Universidade Karolinum, de Praga, viveu exilado em Paris, trabalhando para a Televisão Francesa, antes de se instalar definitivamente em Portugal.

Tive o privilégio de com ele conviver de perto, durante muitos anos, especialmente durante o tempo  em que fui director do Teatro Primeiro Acto. Concebemos alguns projectos em comum que apenas não se realizaram por ausência das indispensáveis subvenções. Mas ele acompanhou-me sempre nos espectáculos que apresentei naquele teatro e em outras iniciativas de carácter cultural que tive ocasião de promover.

Deve recordar-se que se deve a Listopad a "descoberta" da peça O Fim, de António Patrício, que ele encenou na Casa da Comédia, em 1971, um espectáculo inesquecível.

Não cabe aqui a descrição da sua imensa actividade no nosso país ao longo de mais de cinquenta anos. Mas as necrologias certamente colmatarão as falhas.

Com a sua morte desaparece uma das últimas grandes figuras do meio teatral  e cultural que se distinguiram em Portugal na segunda metade do século XX.

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTRAS IGREJAS DE BUDAPESTE

Possui Budapeste, tal como Viena e Praga, excelentes igrejas. Nas minhas voltas pelas ruas da cidade, há dois meses, tive oportunidade de visitar algumas, tendo já referido neste blogue a Catedral de Santo Estêvão, a Igreja de Mátyás e a Igreja Paroquial da Baixa da Cidade.

Mencionarei hoje outras igrejas.

A Igreja de São Francisco,  ou Igreja Franciscana, na Ferenciek tere, foi construída no século XIII e transformada em mesquita pelos turcos no século XVI. Depois da libertação da cidade a igreja foi reconstruída em estilo barroco pelos monges franciscanos. O portal da fachada ostenta a insígnia da Ordem encimada por uma imagem da Virgem Maria adorada por dois anjos. Lateralmente, as estátuas de outros santos franciscanos.  O interior da igreja está decorado com frescos de Károly Lotz, de finais do século XIX e pinturas de Victor Kremer, da primeira metade do século XX. O altar-mor barroco possui esculturas dos séculos XVIII e XIX.









A Igreja de São Miguel ( Belvarosi Szent Mihaly Templom) fica situada na Vaci utca, mas do lado menos turístico da incontornável rua, isto é, à direita da Igreja Franciscana, para quem está de frente. Foi construída no século XVIII no local de uma igreja medieval dominicana destruída durante a invasão turca. O edifício actual, em estilo barroco, foi renovado nos anos 90 do século passado e inclui preciosos frescos no santuário e na sacristia. A fachada ostenta a imagem da Virgem Maria e lateralmente de São Domingos e de São Tomás de Aquino. O altar-mor, os bancos e o mobiliário da sacristia, anteriores a 1760, são obra dos frades dominicanos. No altar-mor uma pintura de São Domingos recebendo um rosário da Virgem. Ladeando a pintura, quatro estátuas: à esquerda, o papa Pio V e Santo Antonino, arcebispo de Florença, e à direita, Santo Agostinho e o papa Inocêncio V. O primeiro órgão da igreja deve-se a Joseph Herodek (1801) e foi remodelado por Rieger em 1893, tendo sido novamente renovado em 1951. Sobre o órgão estátuas barrocas representando o rei David tocando harpa acompanhado por dois anjos. A igreja é habitualmente palco de concertos de órgão.



sábado, 30 de setembro de 2017

VIENA, 1913




A century ago, one section of Vienna played host to Adolf Hitler, Leon Trotsky, Joseph Tito, Sigmund Freud and Joseph Stalin.


Pelo seu interesse, transcrevemos o artigo de BBC Magazine, publicado em 2013  e hoje recordado no Facebook pelo embaixador Francisco Henriques da Silva:


1913: When Hitler, Trotsky, Tito, Freud and Stalin all lived in the same place




In January 1913, a man whose passport bore the name Stavros Papadopoulos disembarked from the Krakow train at Vienna's North Terminal station.

Of dark complexion, he sported a large peasant's moustache and carried a very basic wooden suitcase.

"I was sitting at the table," wrote the man he had come to meet, years later, "when the door opened with a knock and an unknown man entered.

"He was short... thin... his greyish-brown skin covered in pockmarks... I saw nothing in his eyes that resembled friendliness."

The writer of these lines was a dissident Russian intellectual, the editor of a radical newspaper called Pravda (Truth). His name was Leon Trotsky.


The man he described was not, in fact, Papadopoulos.

He had been born Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, was known to his friends as Koba and is now remembered as Joseph Stalin.

Trotsky and Stalin were just two of a number of men who lived in central Vienna in 1913 and whose lives were destined to mould, indeed to shatter, much of the 20th century.

It was a disparate group. The two revolutionaries, Stalin and Trotsky, were on the run. Sigmund Freud was already well established.

The psychoanalyst, exalted by followers as the man who opened up the secrets of the mind, lived and practised on the city's Berggasse.

The young Josip Broz, later to find fame as Yugoslavia's leader Marshal Tito, worked at the Daimler automobile factory in Wiener Neustadt, a town south of Vienna, and sought employment, money and good times.

Then there was the 24-year-old from the north-west of Austria whose dreams of studying painting at the Vienna Academy of Fine Arts had been twice dashed and who now lodged in a doss-house in Meldermannstrasse near the Danube, one Adolf Hitler.
 
 
 
Image caption The characters would have spent much time in these same two square miles of central Vienna

In his majestic evocation of the city at the time, Thunder at Twilight, Frederic Morton imagines Hitler haranguing his fellow lodgers "on morality, racial purity, the German mission and Slav treachery, on Jews, Jesuits, and Freemasons".

"His forelock would toss, his [paint]-stained hands shred the air, his voice rise to an operatic pitch. Then, just as suddenly as he had started, he would stop. He would gather his things together with an imperious clatter, [and] stalk off to his cubicle."
Presiding over all, in the city's rambling Hofburg Palace was the aged Emperor Franz Joseph, who had reigned since the great year of revolutions, 1848.

Archduke Franz Ferdinand, his designated successor, resided at the nearby Belvedere Palace, eagerly awaiting the throne. His assassination the following year would spark World War I.

Vienna in 1913 was the capital of the Austro-Hungarian Empire, which consisted of 15 nations and well over 50 million inhabitants.

"While not exactly a melting pot, Vienna was its own kind of cultural soup, attracting the ambitious from across the empire," says Dardis McNamee, editor-in-chief of the Vienna Review, Austria's only English-language monthly, who has lived in the city for 17 years.

"Less than half of the city's two million residents were native born and about a quarter came from Bohemia (now the western Czech Republic) and Moravia (now the eastern Czech Republic), so that Czech was spoken alongside German in many settings."

The empire's subjects spoke a dozen languages, she explains.

"Officers in the Austro-Hungarian Army had to be able to give commands in 11 languages besides German, each of which had an official translation of the National Hymn."

And this unique melange created its own cultural phenomenon, the Viennese coffee-house. Legend has its genesis in sacks of coffee left by the Ottoman army following the failed Turkish siege of 1683.
 
 
Image caption Cafe Landtmann, much frequented by Freud, remains popular to this day

"Cafe culture and the notion of debate and discussion in cafes is very much part of Viennese life now and was then," explains Charles Emmerson, author of 1913: In Search of the World Before the Great War and a senior research fellow at the foreign policy think-tank Chatham House.

"The Viennese intellectual community was actually quite small and everyone knew each other and... that provided for exchanges across cultural frontiers."

This, he adds, would favour political dissidents and those on the run.

"You didn't have a tremendously powerful central state. It was perhaps a little bit sloppy. If you wanted to find a place to hide out in Europe where you could meet lots of other interesting people then Vienna would be a good place to do it."

Freud's favourite haunt, the Cafe Landtmann, still stands on the Ring, the renowned boulevard which surrounds the city's historic Innere Stadt.

Trotsky and Hitler frequented Cafe Central, just a few minutes' stroll away, where cakes, newspapers, chess and, above all, talk, were the patrons' passions.

"Part of what made the cafes so important was that 'everyone' went," says MacNamee. "So there was a cross-fertilisation across disciplines and interests, in fact boundaries that later became so rigid in western thought were very fluid."



LUÍS MIGUEL NAVA, EM DIA DE REFLEXÃO




No dia consagrado à "reflexão" eleitoral, é importante reflectir sobre o desaparecimento do poeta Luís Miguel Nava, que ontem completaria 60 anos. O jornal OBSERVADOR, pela mão de Joana Emídio Marques, evoca o poeta, em extenso artigo que, com a devida vénia, transcrevemos, por ser do interesse público.

Quem matou o poeta Luís Miguel Nava?




No tempo em que festejavam o dia dos seus anos o poeta estava vivo e escrevia imagens que explodiam os sentidos. A 29 de Setembro faria 60 anos. Quem celebra, quem lê, quem procura Luís Miguel Nava?


Não é certo o dia, a noite, a hora a assinalar no calendário. Sabe-se apenas que era maio de 1995 na Rue de la Madeleine, em Bruxelas e que aí morreria o poeta Luís Miguel Nava, tinha 37 anos. O corpo foi encontrado na cama, de mãos e pés amarrados e com um profundo golpe na garganta.

A história desta morte andou o poeta a escrevê-la durante 15 anos em seis livros de poesia e um de prosa, descoberto anos depois no disco rígido do seu computador estragado. A história desta morte não acabará enquanto a sua poesia e o seu corpo continuarem a originar novas matérias feitas de sangue, das cidades, de ossos, metáforas, azuis a pique, de mares e desertos absolutos. Metáforas que estilhaçam os nossos hábitos mentais, que nos põem os olhos a enterrar os dedos na carne, poemas terríficos que nunca encontraram um lugar na poesia portuguesa, que nunca mereceram grande atenção da crítica e dos quais muito poucos se lembram.

Ele sabia que “desnudarmo-nos é pouco, há que mostrar as vísceras”. Neste 29 de Setembro, o poeta faria 60 anos. Morreu há 25. Deixou uma Fundação com o seu nome,uma biblioteca, muitos discos de vinil, uma obra de uma inquietante estranheza, ensaios, amigos, amantes, mistérios. Mas quem matou afinal Luís Miguel Nava?

Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando.” (LMN, ‘Matadouro’, 1989)

Ironicamente, só o seu brutal assassinato lhe deu a atenção dos jornais portugueses. Porém, um ano depois, quando o jovem marroquino Mohamed Tourki, de 19 anos, foi condenado a 25 anos de prisão pelo crime, ninguém por cá parece ter dado conta. Apenas no jornal belga Le Soir encontramos a notícia do julgamento.

Tourki foi apanhado devido aos diários de Nava que davam conta da presença deste jovem instável na sua vida havia para mais de um ano. Não se sabe em que condições se conheceram, se era namorado ou prostituto. Em tribunal o adolescente alegou que fora violado, mas essa tese foi descartada porque o agressor também roubou o cartão multibanco, dinheiro, um leitor de CD e, nos dias que se seguiram ao crime, levantou cerca de 50 mil francos da conta do poeta, que trabalhava, há já alguns anos, como tradutor no Conselho das Comunidades Europeias.

A luz que desse sangue irradiava, como se nele o sol tivesse mergulhado e os raios nele se houvessem diluído, atravessava-me os poros e fazia-me cantar o coração. Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com a piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que no dos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente… “

Terá a sua morte sido pacientemente tecida pelo próprio, que vivia perigosamente testando os limites do Eu, do corpo próprio e dos corpos alheios? Terá sido o coroar da sua obra, erigida sob um metódico mas alucinado estilhaçamento das fronteiras do Eu e do corpo? O culminar de um desejo inconsciente de transfiguração e metamorfose que a sua poesia anunciava? Ou, como escreveu o amigo que o encontrou naquele fim de tarde de Maio de 1995, Amadeu Lopes Sabino, terá ele, caminhado “de cabeça erguida em direcção ao ato sacrificial que constituiria a chave da sua poética”?



Películas, de 1979, é a sua estreia numa editora importante como a Moraes e vence o prémio Revelação da APE


Certo é que aos 33 anos convocou vários amigos para testemunhas do seu testamento. Garantia que nunca teria coragem de se suicidar, mas que em certas circunstâncias a sua visão da vida era já de tal modo distanciada que não podia “deixar de a a encarar como uma espécie de morte”. Disse que faria de Gastão Cruz o seu Azeredo Perdição, e deixava o projecto da criação da Fundação Luís Miguel Nava, do prémio literário. O seu lado metódico, obsessivo contrastava com o seu constante testar os limites do abismo, a sua exuberância social e sexual, a sua poesia alucinatória e ímpar. Em 1997 nasce a Fundação e o prémio literário com o seu nome destinado a obras de poesia. Nasce também a revista literária Relâmpago. À frente do projecto ficaram Gastão Cruz, Carlos Mendes de Sousa e Fernando Pinto do Amaral, tal como instituía o testamento.

A luz néon, ante aquela de que se esvazia o coração dum porco, é uma metáfora de impacto reduzido. A luz que das vísceras emana é a de deus, aquela que, por uma excessiva dose de trevas misturada, mais que qualquer outra se aproxima da de deus, que resplandece nas carcaças em costelas onde é fácil pressentir as incipientes asas de algum anjo” (ibidem)

O Observador falou com o poeta Fernando Pinto do Amaral sobre a actual actividade da Fundação e confirmou que o prémio literário está suspenso “por falta de subsídios”, o apartamento nas Laranjeiras, em Lisboa, que constitui a sede da entidade, tem depositada a biblioteca do poeta, as suas obras de arte, os seus discos e documentos pessoais, mas também os muitos exemplares não vendidos da revista Relâmpago, da antologia de poesia publicada em 2002 pela D. Quixote e um enorme silêncio.

A casa foi preparada para tertúlias ou eventos que não acontecem e, desde 2004, quando saiu na Assírio & Alvim um volume que reunia os ensaios de Nava, nunca mais foi feito nada de relevante para promover a obra do poeta. Pinto do Amaral disse também que no Brasil estão a ser feitos mais trabalhos académicos sobre Nava do que em Portugal.

Em 2007, há 10 anos, saiu na Relâmpago nº16, aquilo que será a única coisa inédita, fragmentos de um romance inacabado intitulado O Livro de Samuel, e que se crê abrir novos caminhos de interpretação da obra do poeta. O também poeta Gastão Cruz está, portanto, longe de ser o Azeredo Perdigão da Fundação Luís Miguel Nava, nome que a pouco e pouco todos vão esquecendo, para que outros possam ocupar o seu lugar. Luís Miguel Nava é, cada vez mais, um fantasma na sua própria casa.



Em Rabat. O poeta tinha um fascínio pelo Magrebe, em especial por Marrocos


Hoje, Luís Miguel faria 60 anos. Não há actividades previstas na fundação, nos festivais literários das redondezas, não há, como nunca terá havido, homenagens, nomes de ruas. Mesmo Viseu, a sua terra natal parece continuar a não ter conhecimento que ali nasceu e cresceu um dos nomes mais importantes da poesia portuguesa do final do século XX.

Habitar o próprio sangue


Em 1974 publica o primeiro livro, O Perdão da Puberdade, que num gesto anunciador de algum distanciamento em relação ao seu ego, acabará por colocar numa fogueira depois de ler a poesia de Eugénio de Andrade. No ano seguinte casa com a poeta Rosa Oliveira. O casamento dura poucos meses e Nava vem para Lisboa estudar Filologia Românica.

Terminada a licenciatura passa pelo colégio alemão como professor de Português. Mas as suas aulas fulgurantes, as ideias libertárias que ia disseminado entre os alunos motivaram queixas dos pais. Fez então um mestrado e fica como assistente na Faculdade de Letras de Lisboa. Irá depois para Oxford como Leitor antes de se fixar em Bruxelas, como tradutor de documentos burocráticos na CEE.

Se nunca se adaptou à solene Oxford, a vida de funcionário na capital belga viveu-a como um inferno. Paulo Silveira, seu aluno no colégio alemão e depois seu namorado durante vários anos, lembra, num depoimento publicado na revista Relâmpago, nº16, a personalidade solar de Nava nesses anos 80, apesar do horror da sida, a vertigem da cultura da imagem que o poeta soube integrar na sua lírica, as “noites no bairro alto a meter conversa com todos os rapazes e magalas que se nos atravessassem no caminho (…) ir ver a Lídia Barloff, engatar uns rapazes e a seguir acabar tudo numa grande rebaldaria na estrada de Benfica”.



Vulcão, Quetzal, 1994, é o seu derradeiro livro


Apesar de ter partilhado a década de 80 com Al Berto e fosse, como este, assumidamente homossexual, a poesia de Nava despojada da melancolia albertiana, mais abertamente homo-erótica, têm uma violência verbal e imagética, uma discursividade que, na opinião de Prado Coelho, a torna mais próxima de Luiza Neto Jorge ou Herberto Helder.

Perdia-se-lhe o corpo através do deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos novas posições, e lhe envolvia os órgãos que isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular (…) a sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que,em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue,lentamente se esvaia… “(‘O Corpo Espacejado’, 1989)

Luís Miguel Nava consegue, ao mesmo tempo, evocar o corpo crístico, o corpo espectral que edifica dois mil anos de cultura judaico-cristã e o corpo solitário, angustiado e sem deus do homem moderno, cuja carne se confunde com as cidades, o plástico, as latas, as paredes. Mas sobretudo pela ideia obcecante do olhar que fere, do olhar que destrói, que abre o corpo destituído de qualquer espiritualidade , lhe expõe o sangue e as vísceras, os ossos, a corrente sanguínea, o corpo que está pendurado no mundo como uma carcaça num talho.

Poucos poetas manejaram tão corajosamente as palavras como destruidoras das fronteiras entre o interior e o exterior do corpo e do espírito. Excessivo, dirão alguns, este corpo que é simultaneamente o Eu e o Universo, não cessa de crescer, de se expandir, nada o contem. Através da sua poesia, Nava procura ir ao extremo do corpo e do pensamento, superar as fronteiras que a linguagem nos impõe, tocar as regiões mais recônditas e impensadas da existência, torná-las visíveis, iluminá-las. Talvez por isso a poesia de Nava se aproxime tanto da pintura, sobretudo da pintura de Francis Bacon. E no entanto como poderia Bacon pintar um “azul a pique” ou “o sangue a fazer corpo com a manhã”?



Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (Setembro de 1957- Maio de 1995)


Silvina Rodrigues Lopes, num ensaio escrito em 1997, nota logo a importância do tato como o mais importante dos sentidos no universo deste poeta, aquele que aglutina os outros e permite a criação dessas metáforas, contradições, jogos de forças que atiram o pensamento do leitor para fora da sua órbita: “Agora que escurece, impregnam-me e carne os sucos da memória”. O olhar de Nava assume sempre o duplo papel de autopsiador e autopsiado. Afastando-se de um desejo figurativo do mundo ou reflexão sobre o Eu, Luís Miguel Nava quer captar as suas forças, os seus fluxos, as suas intensidades.

Só um espelho assim saído há pouco tempo das entranhas de um ser vivo se desenha a nossa verdadeira imagem”. (Matadouro, 1989)
Quando morreu, apesar da solidão e desânimo que a vida em Bruxelas lhe provocava e do seu constante flirt com a morte, o poeta continuava cheio de planos para o futuro. A sua paixão pelo escritor Manuel Teixeira Gomes desejava convertê-la em documentário e já tinha até apresentado um projecto à então Secretaria de Estado da Cultura, estava a aprender árabe e planeava adoptar Rashid, uma criança que conhecera em Essauira, Marrocos, além do romance iniciado O Livro de Samuel que começa assim:

“Paredes de um branco meio entrincheirado no sono, gastas pelo sonho de quem exaustivamente as sonhasse…”