terça-feira, 1 de setembro de 2015

PASSAGEM PARA A ÍNDIA



Foi publicada o mês passado a tradução portuguesa (Verão Ártico) do livro Arctic Summer (2014) do sul-africano Damon Galgut (n.1963), onde é ficcionada a vida do célebre escritor E.M. Forster (1879-1970), um dos mais famosos romancistas britânicos do século passado, autor de obras inolvidáveis, como Passagem para a Índia, que seria adaptada ao cinema (1984) por David Lean, obtendo uma carreira triunfal.

O romance de Damon Galgut, que recorreu a vasta bibliografia (referida em apêndice) para escrevê-lo, ainda que eu duvide que a tenha lido integralmente, centra-se fundamentalmente em quatro períodos:  a vida de Edward Morgan Forster em Inglaterra, enquanto estudante universitário, as duas estadas na Índia, e os três anos que permaneceu em Alexandria, entre as viagens àquele país.

Porque é sul-africano (além de pessoa de evidente sensibilidade), e porque a África do Sul foi outrora como a Índia, e de alguma forma o Egipto, um domínio britânico, Damon Galgut encontra-se em posição privilegiada para discorrer como os ingleses tratavam os nativos, independentemente da sua condição social e cultural. A segregação evidente entre os súbditos de Sua Majestade e os autóctones foi uma constante da política imperialista da Grã-Bretanha até ao desmoronar do seu vastíssimo Império. O apartheid na África do Sul mais não foi do que o prolongamento de uma atitude que durou séculos. Nas suas deambulações pela Índia e Alexandria, o próprio Forster se sentiu também segregado, duplamente segregado, primeiro porque sendo homossexual não podia (não devia) estabelecer relações íntimas com os indígenas, nem com os ingleses intoxicados pela moral vitoriana, depois porque a própria socialização com aqueles lhe era proibida pela situação política vigente. E eram sobretudo os indianos e os egípcios que interessavam a Forster. A sua vida, em Inglaterra ou no estrangeiro, foi sempre a de um "marginal", apesar da progressiva celebridade literária que ia conquistando.

Syed Ross Masood e E.M. Forster

O escritor viajou pela primeira vez para a Índia devido à insistência de um jovem estudante indiano que conhecera em Inglaterra, Syed Ross Masood, por quem se apaixonara. Galgut conta (reinventa) a permanência de Forster naquele subcontinente com abundância de peripécias e de locais visitados. Como não conheço a Índia, não me posso pronunciar sobre a verosimilhança desta "peregrinação". Todavia, é verdade que Masood gostava muito dele, insistia que com o seu talento deveria escrever um livro sobre o seu país, mas a relação não foi consumada devido às objecções do indiano.

Mohammed El-Adl

Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, Forster foi colocado em Alexandria, ao serviço da Cruz Vermelha Internacional. Durante a sua permanência na cidade, Forster, que ainda era virgem, tem a sua primeira experiência sexual com um soldado numa gruta de praia junto ao Palácio de Montazah, residência real mandada construir por Fuad I, no extremo leste da cidade. Em 1917, conhece o condutor de carros eléctricos Mohammed El-Adl, um jovem de 17 anos, que será a sua segunda e última verdadeira paixão. Neste caso, e apesar das reservas do rapaz, haverá um "comércio" carnal. Bem como a visão dos muitos prazeres proibidos que a cidade oferecia. Teria também a oportunidade de conhecer o grego Cavafy, o "poeta da cidade" como lhe chamava Durrell, outro grande escritor que habitou em Alexandria, também durante outra Guerra Mundial, a Segunda, e registou as suas impressões nessa inesquecível tetralogia que é O Quarteto de Alexandria. Cavafy (um dos nomes maiores da poesia do século XX), mais expedito e mais liberto do que Forster, conhecia bem o submundo da cidade, que evoca em alguns dos seus poemas, e fazia as suas conquistas no Café Billard (hoje desaparecido), na rua Safiya Zaghlul, um pouco acima do Café Elite, que ainda se mantém. Mas rapazes disponíveis não faltavam por toda a cidade, e existiam mesmo casas de prostituição masculina a par das de prostituição feminina, permitidas pelo governo egípcio e toleradas pela administração britânica. Refere Galgut as aventuras e desventuras de Forster em Alexandria, com a citação de inúmeros locais frequentados pelo escritor ou onde este se encontrava com Mohammed. Porque a maior parte desses locais continua a existir, embora a cidade tenha crescido desde então desmesuradamente, os nomes estão certos mas, por vezes, fico com a sensação de que a distância entre eles não é compatível com a descrição de Galgut. Terá Galgut estado em Alexandria e visitado os sítios? Ou será informação documental? Sobre a Índia, que não conheço, não me permiti opinar sobre as deslocações atribuídas a Forster, mas sobre Alexandria, que conheço bem, subsistem-me algumas dúvidas.

A segunda viagem de Forster à Índia será a convite de Bapu Sahib, marajá de Dewas, um conhecimento dos tempos universitários em Inglaterra, a fim de ocupar o cargo de secretário particular. Também aqui há envolvimentos físicos, mas sem especial relevo. O ambiente de fim de época continua a desiludi-lo e apressa o seu regresso à pátria, não sem passar pelo Canal de Suez, onde reencontra Mohammed, já então gravemente doente. Forster visitará a Índia uma terceira vez, mais tarde, então escritor de renome internacional, mas para participar em cerimónias oficiais.

Masood e Mohammed morrerão ainda em vida de Forster, o que lhe provocará profunda mágoa.

São ainda referidas no livro as relações de Forster com Leonard e Virginia Woolf e com Edward Carpenter. Muitas outras haveria a mencionar.

Como referi acima, insere Damon Galgut em apêndice uma vastíssima bibliografia sobre Forster, incluindo quatro biografias do escritor. Não as li, mas creio que Galgut terá retirado delas o que de mais importante julgou para nos dar a imagem do escritor. Com este livro, penso que Galgut não pretendeu escrever uma biografia (obviamente), nem mesmo uma biografia romanceada, mas um romance biográfico. No entanto, e do que conheço sobre Forster, parece-me que se alongou em certos períodos e reduziu ou omitiu outros. Também não conheço o original de Galgut, mas algumas das transliterações dos nomes árabes são francamente más, talvez por ignorância do tradutor, já que os ingleses (ao contrário dos franceses) são quem melhor reproduz o alfabeto árabe.

Arctic Summer, é o título de um livro que Forster nunca chegou a concluir.

A obra de E.M. Forster, que começou a escrever quando ainda estudava no King's College, em Cambridge, é vasta. Importa destacar Passagem para a Índia (A Passage to India), que lhe conferiu celebridade mundial (1924); Where Angels Fear to Tread (1905); The Longest Journey (1907); A Room With a View (1908); Howards End (1910); e Maurice, escrito entre 1913 e 1914, mas publicado postumamente em 1971, o único romance homossexual de Forster. Como se disse, Passagem para a Índia foi adaptada ao cinema por David Lean (1984) . O realizador James Ivory encarregar-se-ia de transpor para o ecrã A Room With a View (1985), Maurice (1987) e Howards End (1992). Sublinhe-se que Forster escreveu também muitos contos, alguns famosos, onde se permitiu ir mais longe em matéria homossexual, mas que, por isso mesmo, só foram publicados, os mais ousados, depois da sua morte, e alguns ensaios, de que Aspects of the Novel (1927) é o mais importante.

No campo musical, Forster escreveu (de parceria com Eric Crozier) o libretto (1951) para a ópera Billy Budd, de Britten, baseada no romance homónimo de Herman Melville.

Ainda uma referência a dois livros fundamentais sobre Alexandria: Alexandria: a History and a Guide (1922) e Pharos and Pharillon (1923), o primeiro dos quais é indispensável para se compreender histórica e geograficamente Alexandria no princípio do século passado.

Dito isto, que é pouco mas poderá despertar a vontade de mergulhar na obra de Forster e no seu universo (a Índia e Alexandria, muito mais do que, por exemplo, a Itália que também visitou e amava), fico com a sensação de que fiz um resumo imperfeito. Recomendo, por isso, a leitura de Verão Ártico, que não sendo um livro notável, e apesar de algumas reservas, se lê com agrado. E, a seguir, a leitura dos principais livros do famoso escritor britânico.

domingo, 30 de agosto de 2015

O MUNDO É FECHADO E O DESEJO INFINITO


A propósito do seu novo livro Le monde est clos et le désir infini, Daniel Cohen concedeu uma entrevista a "L'Obs" desta semana (nº 2651), que pelo seu inegável interesse se reproduz:






(Clique nas imagens para aumentar)  




«O título O mundo é fechado e o universo infinito é inspirado pelo grande livro de Alexandre Koyré, Do mundo fechado ao universo infinito, no qual este historiador das ciências descreveu e analisou a revolução de Galileu e de Descartes: no século XVIII, a humanidade ocidental tomou consciência de que o Universo é simultaneamente infinito e vazio, privado da presença de Deus. Vivemos hoje uma experiência quase inversa: o mundo tornou-se demasiado pequeno...»



Um exercício de lucidez.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

RECORDANDO PALMYRA



Templo de Baal (2005)

Refere a comunicação social que os militantes do "Estado Islâmico", que ocuparam em Maio a cidade de Palmyra, hoje, em árabe, Tadmur, destruíram o célebre templo de Baal, construído há cerca de 2.000 anos, e um dos mais famosos monumentos do famoso complexo arqueológico greco-romano.

Transcreve-se a notícia da BBC:

Palmyra's Baalshamin temple 'blown up by IS'


Islamic State militants have destroyed Palmyra's ancient Temple of Baalshamin, Syrian officials and activists say.

Syria's head of antiquities was quoted as saying the temple was blown up on Sunday. The UK -based Syrian Observatory for Human Rights (SOHR) reported that it happened a month ago.

IS took control of Palmyra in May, sparking fears for the site.

It is considered one of the ancient world's most important cultural centres.


Bilheteira à entrada do complexo arqueológico (Clique na imagem para ler)

The ancient city, which is a Unesco World Heritage site, is famed for its well-preserved Greco-Roman ruins, and the Baalshamin temple, built nearly 2,000 years ago, is one of the city's best-known buildings.

The Islamic State group has destroyed several ancient sites in Iraq. The militants believe any shrines or statues implying the existence of another deity are sacrilege and idolatry, and should be destroyed.
IS "placed a large quantity of explosives in the temple of Baalshamin today [Sunday] and then blew it up causing much damage to the temple," Syrian antiquities chief Maamoun Abdulkarim told AFP news agency.


Eu, frente ao Templo de Baal (2005)

"The cella (inner area of the temple) was destroyed and the columns around collapsed," he said.

Emma Loosley, a professor at Exeter University who lived near the ancient city for three years, said the temple's cella was "pretty much perfect".

"I can't think of another temple as beautifully preserved as the temple of Baalshamin, and what was special about Palmyra was that it was a unique culture," she told the BBC.


Placa numa coluna mencionando o nome do templo (Baalshamin)

"It had its own gods, its own form of art and architecture that you don't get anywhere else."


Os militantes do "Estado Islâmico"?!?  E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?
 

NANI NA TURQUIA

Publicado há duas horas pelo Nani:
 
2 h ·
Experiência diferente jogar num clima assim, a chover torrencialmente e com uma temperatura muito elevada!

Different experience playing in a climate like this, raining hardly and with high levels of temperature!



"Sofre-se muito mas também se curte!", como diria um amigo meu falecido há já alguns anos.

UMA REFLEXÃO QUE SE IMPÕE



Não sendo possível, nem desejável, construir uma Fortaleza Europa, impermeável a todos os fluxos migratórios, impõe-se uma reflexão serena, mas urgente, sobre o "que fazer ?", retomando a expressão, velha de mais de um século, do famoso Ulianov.

Soyons réalistes : 10 raisons d’ouvrir les frontières

Au moment où l’Europe reste démunie face à l’arrivée des migrants, deux chercheurs qui travaillent sur les flux migratoires prennent à contre-pied le discours dominant. Voici leur plaidoyer.

 

Entre 2000 et 2014, 40.000 migrants sont morts aux frontières, dont 22.000 en tentant de rejoindre l’Europe, qui est aujourd’hui devenue, pour eux, la destination la plus dangereuse au monde. Pour la seule année 2014, plus de 3500 sont morts noyés en Méditerranée.

Le décompte macabre continue chaque jour. Et les survivants sont bloqués aux frontières externes mais aussi internes de l’Europe (comme ces derniers jours entre l’Italie et la France), multipliant les situations de mise à l’écart, de violence et d’humiliation. Cela au nom d’une raison d’Etats européens qui disent répondre aux peurs et aux demandes des habitants pour plus de sécurité, de contention et d’imperméabilité.

Et pourtant, nous affirmons qu’il serait plus rationnel, plus juste, plus sûr, d’ouvrir les frontières. A l’opposé de l’idée trop répandue dans les médias et les discours politiques, cette proposition n’a rien d’un fantasme naïf et irréaliste. Au contraire : c’est l’ouverture des frontières qui permettrait enfin de sortir d’un engrenage de violences qui a déjà fait des milliers de morts parmi les migrants, et de dessiner un horizon pour un véritable projet politique européen en matière d’asile et d’immigration.

Voici dix raisons pour lesquelles il faut ouvrir les frontières.

1. Parce que fermer les frontières ne sert à rien

Notre premier argument est de bon sens. Le fait migratoire est un fait social, une réalité du monde contemporain, auquel il est absurde de vouloir résister. Vouloir empêcher les migrations est aussi vain que de vouloir empêcher la nuit de succéder au jour. Les gens ne choisissent pas de migrer ou de rester parce qu’une frontière est ouverte ou fermée.

L’idée que la fermeture des frontières puisse limiter les flux migratoires est irréaliste et criminelle, et méconnaît complètement la réalité des migrations. Elle ne fait que rendre les déplacements plus précaires, plus coûteux et plus dangereux, transformant la Méditerranée en charnier. Ouvrir les frontières, c’est avant tout permettre aux gens de migrer dans des conditions sûres et dignes, c’est mettre un terme à la tragédie qui se joue aux frontières de l’Europe.

2. Pour lutter contre les passeurs

Ouvrir les frontières, légaliser les mobilités de tous, c’est tuer dans l’oeuf le business de ceux qui ont fait profession du trafic de cargaisons humaines, en profi tant, de plus en plus et de manière de plus en plus dangereuse, d’une économie de la prohibition. Ouvrir les frontières, c’est la manière la plus efficace de lutter contre les passeurs. C’est permettre aux migrants d’arriver en avion plutôt qu’en bateau.

3. Parce que l’invasion annoncée est un fantasme

Aucune enquête n’a prouvé la véracité des «appels d’air» ou des «invasions» tant annoncés et fantasmés. La construction du mur entre le Mexique et les Etats-Unis n’a nullement ralenti les flux migratoires entre les deux pays, pas plus que l’ouverture de la frontière entre l’Inde et le Népal n’a provoqué d’afflux massifs de migrants, comme l’ouverture des frontières au sein de l’Europe de Schengen.

Ni l’opération de sauvetage Mare Nostrum, menée par l’Italie en 2014, ni les régularisations de migrants en situation irrégulière (600.000 en Espagne en 2005, 500.000 en Italie en 2006, près de cinq millions aux Etats-Unis en 2014, etc.) n’ont jamais provoqué d’augmentation soudaine et significative de la migration «clandestine». Elles ont juste permis de commencer à réconcilier les migrants avec leurs sociétés de départ et de destination.

4. Pour permettre aux migrants de rentrer au pays

Argument paradoxal, et pourtant : ouvrir la frontière, c’est certes laisser entrer le migrant, mais c’est aussi lui permettre de repartir sans inquiétude. Beaucoup de migrants sont aujourd’hui coincés dans leur pays de destination, par peur de ne plus pouvoir y revenir ensuite si jamais ils en sortaient.Ouvrir les frontières rendrait la mobilité plus fluide, et permettrait à des milliers de migrants de rentrer au pays voir une famille qu’ils n’ont parfois pas revue depuis plusieurs années.

5. Parce que les migrants pourront déployer tout leur potentiel économique

Toutes les études montrent que la contribution économique des migrants à leur pays de destination est d’autant plus positive que leur situation y est sûre et légale. Rendre toutes les migrations légales ferait de facto disparaître l’immigration «clandestine», et permettrait aux migrants de déployer leur plein potentiel économique dans le pays d’accueil.

Leur contribution économique est aussi dirigée vers leur pays d’origine: les transferts financiers des migrants vers leurs familles représentent trois fois le montant de l’aide officielle au développement versé par les pays industrialisés. Il est absurde de lier l’aide au développement au contrôle des migrations puisque au contraire, c’est la mobilité qui est un facteur potentiellement puissant de développement.

6. Pour permettre un progrès social

L’embauche des travailleurs étrangers en situation irrégulière dans les pays riches est un «dumping social», l’équivalent d’une «délocalisation sur place»: les pires conditions sociales sont imposées à des travailleurs sans droits. La légalisation des migrants leur donnerait accès aux mêmes droits et aux mêmes rémunérations que les autres salariés.

Elle rendrait visible leur participation à l’économie du pays d’accueil, notamment par leur contribution – et celle de leurs employeurs – aux prestations sociales. Par nature, la migration «illégale» n’existe plus avec des frontières ouvertes. Les situations de précarité administrative disparaissent et les conditions de travail s’améliorent et s’harmonisent.

7. Parce que la liberté de circulation est un droit fondamental

Le droit de quitter son pays est inscrit dans la Déclaration universelle des Droits de l’Homme. C’est une question de liberté et d’égalité. Le destin des uns et des autres est déterminé par l’endroit où ils/elles sont né/e/s. C’est la fermeture des frontières qui crée le privilège du lieu de naissance, cette inégalité insupportable. L’ouverture des frontières reconnaît la légitimité de toute migration, et le droit à la mobilité de chacun.

8. Pour mieux connaître les migrants et mieux protéger ceux qui en ont besoin

Il faut le répéter : ouvrir les frontières, ce n’est pas supprimer les frontières. Soyons légalistes : le fait d’autoriser les libres circulations permettrait de mieux les accompagner, de savoir où vont les migrants et dans quelles conditions. C’est s’assurer que les migrations se déroulent dans les meilleures conditions possibles pour tous, et que ceux qui ont besoin d’être protégés le soient effectivement.

9. Parce qu’il est possible de remettre l’hospitalité au centre de la politique

Des voisins solidaires et mobilisés, un tissu associatif dense capable d’organiser l’accueil des étrangers et aider leur insertion, des villes qui créent de meilleures conditions de logement en centres d’accueil pour les errants : telles sont les formes d’une hospitalité sans condition qui existent déjà dans la société et qu’un gouvernement aurait la possibilité de mobiliser et d’aider, à l’opposé de la guerre aux migrants qui forme aujourd’hui le régime officiel de pensée et d’action.

10. Pour réaffirmer l’unité de l’Homme

Dans les années 1930, les juifs ou les exilés espagnols étaient devenus des «indésirables». Aujourd’hui, face au retour de l’idée qu’une partie des humains sont indésirables, nous avons le choix de réaffirmer l’unité de l’Homme et traduire cette idée en politique. Contre l’obscurantisme, il s’agit simplement de relancer l’humanisme.
Michel Agier et François Gemenne

MICHEL AGIER est anthropologue, directeur de recherche à l’Institut de Recherche pour le Développement et directeur d’études à l’EHESS. Il a publié, aux Editions La Découverte, «la Condition cosmopolite» (2013) et «Un monde de camps» (sous sa direction, 2014).

FRANÇOIS GEMENNE est politologue, enseignant aux universités de Liège et de Versailles-Saint-Quentin, directeur exécutif du programme Politiques de la Terre à Sciences-Po. Il va publier, en 2016, «Vive l’immigration», aux Editions La Découverte.

domingo, 23 de agosto de 2015

NÃO VIVEMOS EM DEMOCRACIA




A propósito da publicação do seu livro Le Bon Gouvernement, que será posto à venda esta semana, o historiador e sociólogo Pierre Rosanvallon, professor no Collège de France, fundador do grupo "La République des Idées"  e uma das figuras maiores da intelectualidade francesa contemporânea, concedeu à revista "L'Obs" (nº 2650 - 20 a 26 Agosto 2015) a entrevista que reproduzimos:

Clique nas imagens para ler 

Nesta entrevista, Rosanvallon considera que existe um divórcio dramático entre o "momento eleitoral" e o "momento governamental", que não cessa de se acentuar. E que é preciso distinguir duas dimensões:  a primeira, resulta do desvio entre a linguagem das campanhas eleitorais fundada na ideia de uma inversão na ordem das coisa e a linguagem governamental que representa o regresso à realidade; a segunda, resulta do facto de que a democracia foi sempre pensada como um processo de selecção e de legitimação dos detentores do poder e não como uma concepção específica da maneira de exercer o poder.

Um dos problemas, segundo o autor, é também a forma como o poder executivo se tem imposto ao poder legislativo, o que explica que os responsáveis políticos estejam cada vez mais desligados da sociedade e profissionalizados, tornando-se puros homens do aparelho. Rosanvallon preconiza o desenvolvimento urgente do que, nos Estados Unidos, se chama good government organizations, que militam por mais transparência, controlo pelos cidadãos e luta contra a corrupção. Não pretendem tomar o poder, mas vigiá-lo e controlá-lo.

Nesta linha de pensamento, propõe a criação de várias organizações que contribuam para um "bom governo". Pessoalmente, não creio que a criação de mais conselhos e comissões conduza ao aprofundamento da democracia. Penso até que já temos órgãos a mais e cidadãos que vivem à custa de instituições que, conforma a prática demonstra, se revelaram perfeitamente inúteis, ou quase.

Sem prejuízo da brilhante análise do reputado especialista, sou de opinião que o problema é outro, de natureza diferente, e cujo tratamento não cabe nestas linhas. O capitalismo contemporâneo internacional e a forma como se impôs aos regimes ditos democráticos desvitalizou a democracia. Aliás, esta, a democracia dita liberal, implica, nos termos, uma contradição profunda.

Deixo apenas uma questão. A União Europeia consagrou como única forma de governação possível para os países que a integram a adopção de um modelo hoje ultraliberal, que impede o funcionamento de qualquer governo cuja ideologia esteja em desacordo com os seus pressupostos. E se do resultado de eleições nacionais sair um governo diferente, logo ele é compelido a demitir-se face ao estrangulamento económico e financeiro (por ora ainda não militar) de que é alvo. Donde resulta a perfeita inutilidade de eleições nacionais se o modelo está previamente definido.

Por isso, afigura-se legítimo afirmar que a DEMOCRACIA nos países ocidentais (para a estes apenas nos referirmos) é uma FARSA.

sábado, 22 de agosto de 2015

VIRGÍNIA VITORINO



Tendo passado alguns dias em Alcobaça, em casa de um amigo, deparei com a Rua Virgínia Vitorino (ou Victorino, para usar a grafia da época). E verifiquei que a pequena casa de gaveto entre essa rua e a Rua Frei Fortunato é a casa onde nasceu, em 13 de Agosto de 1895, a poetisa, dramaturga e tradutora Virgínia Vitorino, cuja naturalidade desconhecia.



O piso térreo é agora ocupado pelo Café Tertúlia, que expõe algumas recordações daquela escritora e onde se realizam periodicamente eventos culturais.


Virgínia Vitorino com Amélia Rey-Colaço e Robles Monteiro

Hoje praticamente esquecida, Virgínia Vitorino, que frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e o Conservatório Nacional e foi professora de liceu, dirigiu durante anos o teatro radiofónico da Emissora Nacional. As suas peças, que alcançaram imenso êxito à época, foram representadas pela Companhia Rey-Colaço/Robles Monteiro no Teatro Nacional D. Maria II. Aliás, Virgínia, grande amiga de Amélia Rey-Colaço, pertencia à tertúlia intelectual que reunia também outras mulheres do mais elevado nível cultural entre nós, como Fernanda de Castro, Judith Arvelos, Oliva Guerra, Judith Teixeira, e mais tarde Germana Tânger (felizmente ainda viva) e Natália Correia.


Conta-me a proprietária do Café Tertúlia que Virgínia Vitorino, de costumes ousados desde a juventude (ia fumar para a janela) abandonou muito cedo Alcobaça, meio por demais conservador para o seu gosto, tendo-se mudado para Lisboa. Acrescenta ainda aquela senhora que, encontrando-se muito idosos os pais da escritora, se recorda desta ter ido buscá-los, instalando-os na sua casa da capital.


Não reza a crónica dos últimos anos de Virgínia Vitorino, sabendo-se que morreu em 1967.


Vasculhando a minha biblioteca, encontrei cinco peças de teatro, todas estreadas no Teatro Nacional e representadas pelo inesquecível elenco da época áurea daquela casa de espectáculos: Degredados (1931), A Volta (1932), Fascinação (1933), Manuela (1934) e Vendaval (1942). Porém, nenhum volume de poesia. Talvez estes livros provenham do tempo em que, frequentando leilões e alfarrabistas, me empenhei especialmente em coleccionar tudo o que me apareceu de teatro português.







O teatro de Virgínia Vitorino retrata a sociedade da época (e de sempre), evidenciando a tradicional sujeição das paixões às conveniências, os amores contrariados, as infidelidades conjugais, os preconceitos de classe, tudo envolto na atmosfera do princípio do século passado, com eventual recorrência ao normativo religioso. Por elas perpassa, por vezes, um perfume de lesbianismo, ainda que nesse tempo não fossem permitidas, legal e socialmente, referências explícitas ao tema.

Lendo Vendaval, por exemplo, encontramos uma peça de excelente construção dramática a que nem sequer falta algum suspense "policial", servida por um diálogo que pretendendo reproduzir a linguagem dos estratos sociais da época não desmerece a utilização correctíssima da língua portuguesa. Alguns poderão achá-la datada, melodramática, que a autora se limitou a escrever comédias de salão, que a sociedade do nosso tempo é muito diferente daquela que Virgínia Vitorino retrata (e, de certa forma, condena). Na verdade, não será assim tão diferente, e as grandes tragédias humanas são intemporais. Caso contrário, não seriam representados hoje os clássicos gregos, ou Shakespeare. Só a roupa é que  muda. Não que VV se possa equiparar a eles, obviamente, mas no registo que cultivou, e que atraiu aos teatros, durante anos consecutivos, milhares de pessoas, pode dizer-se que cumpriu o seu papel. Só isso permite justificar o prestígio que rodeou o seu nome.


P.S.: Informa-me um amigo, que é avesso a escrever nas caixas de comentários dos blogues, que Virgínia Vitorino morreu em Lisboa, no Hotel Borges, onde residia. E sugere-me que acrescente ao grupo de senhoras que mencionei acima, os nomes de Teresa Leitão de Barros e de Maria Adelaide de Lima Cruz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A GRÉCIA CONTINUA A SURPREENDER-NOS




Transcrito do jornal PÚBLICO:

A habilidade política de Alexis Tsipras


A eleição antecipada será apenas uma paragem estratégica para deixar sair os contestatários



O primeiro-ministro grego vai ser um caso de estudo nas aulas de ciências políticas. Conseguiu a proeza de se candidatar a umas eleições com um programa radical anti-austeridade, ser eleito, fazer aprovar no Parlamento uma batelada de medidas de austeridade contrárias às que sempre defendeu, e continuar com os níveis de popularidade em alta. Isto num país que está mergulhado numa profunda recessão e onde as pessoas nem sequer conseguem movimentar livremente o dinheiro que têm nos bancos.

Alexis Tsipras não só consegue manter os níveis de popularidade em alta, como já aparece destacado nas sondagens. Porquê? Porque os gregos sentiram que durante sete meses tiveram alguém que estava disposto a quase tudo para defender os seus interesses e tentar desmontar a teoria da austeridade punitiva, menos provocar a saída da Grécia da zona euro. Este esticar de corda ao máximo nas negociações, e a travagem brusca na 25ª hora, foi uma estratégia que os gregos compreenderam e valorizam.

É com este conforto que o líder do Syriza resolve demitir-se e precipitar eleições antecipadas, o que lhe permite duas coisas. Por um lado, ganhar nova legitimidade perante aqueles que o elegeram e que há sete meses votaram num programa eleitoral diametralmente oposto ao actual programa de governo. E, por outro lado, desfazer-se dos 40 deputados dissidentes do Syriza que não lhe deram o respaldo aquando da aprovação do resgate.

As eleições antecipadas em Setembro, não sendo uma estratégia isenta de risco para o Syriza e para a Grécia, vão permitir a Tsipras capitalizar a popularidade antes que as novas medidas de austeridade cheguem com força aos bolsos dos gregos. E já se percebeu no discurso de demissão que Tsipras irá habilmente usar a questão da renegociação da dívida, agendada para Outubro, como uma arma eleitoral para garantir a mais do que provável reeleição.

 * * * * *

Não tenho dúvidas quanto à habilidade política de Tsipras e à sua coragem cívica. As eleições antecipadas de 20 de Setembro constituirão um teste para os gregos e uma mensagem para os europeus.

Se o Syriza obtiver a maioria dos votos nas próximas eleições, quiçá uma maioria absoluta, e formar um governo baseado no programa eleitoral pretérito, coloca-se a questão de saber como poderão ser mantidos os compromissos já assumidos com as instituições europeias. Uma nova vitória do Syriza será não só um desafio à União Europeia, maxime à Alemanha, como um sinal aos eleitores dos países objecto de "resgate" que têm eleições imediatamente a seguir: Portugal, Espanha, Irlanda.

Penso eu que, independentemente do resultado das eleições gregas, a União Europeia, no formato actual, tem os dias contados. Não faço, aliás, mais do que repetir o que vem sendo sistematicamente afirmado pelos mais conceituados especialistas internacionais. Se a Alemanha, que já provocou duas guerras mundiais, está empenhada numa confrontação continental sob o pouco diáfano manto do estrangulamento económico, creio que sofrerá novamente uma derrota, desta vez de consequências não só imprevisíveis, como acontece em todas as guerras, mas de dimensões verdadeiramente trágicas.

Aconselharia o mais elementar bom-senso que se evitasse a tentação de experiências potencialmente fatais.