terça-feira, 15 de setembro de 2020

EDMUND WHITE. O SEXO E A VIDA



O escritor Edmund White (n. 1940), generosamente galardoado ao longo da sua carreira, é talvez, dos escritores norte-americanos, o que mais vasta, intensa e minuciosamente discorreu sobre o sexo, no caso concreto sobre o mesmo sexo, já que uma parte dos seus livros é de carácter autobiográfico e recolhe todo um saber de experiência feito.



A sua obra estende-se por quase meio século, e inclui ficção, teatro, ensaio e até as biografias de Proust, de Rimbaud e de Jean Genet, esta última considerada ainda hoje a grande obra de referência sobre a vida do autor de Notre-Dame-des-Fleurs.



Na sua bibliografia, destaca-se a trilogia dos romances propriamente autobiográficos, a saber: A Boy's Own Story (1982) [A Vida Privada de um Rapaz (1996)] , The Beautiful Room is Empty (1988) [Um Belo Quarto Vazio (1992)] e The Farewell Symphony (1997) [Sinfonia A Despedida (1999)]. Neles, White descreve a sua vida desde a infância até à idade adulta, incluindo os anos que passou em Paris (1983-1990). Sendo um homem ilustrado, os seus livros estão recheados de referências culturais, nomeadamente musicais, mas é a vida sexual que constitui o leitmotiv da narrativa. Edmund White descreve com pormenor os seus "engates" desde os doze anos, em família, nos colégios, na universidade, na vida profissional, não nos poupando aos mínimos detalhes. Importa salientar que o tradutor português (li a versão portuguesa) reproduz com precisão as expressões usadas no milieu gay nacional, o que é uma mais valia para a inteligibilidade do texto. O autor revela sem falsos pudores a "promiscuidade" das suas relações (ter-se-á deitado com muitos milhares de homens diferentes) e mesmo o seu contágio com o HIV, que determinou um especial envolvimento na criação de AIDES, a organização francesa de apoio aos doentes de SIDA, fundada por Daniel Defert, o último companheiro de Michel Foucault.



Edmund White, que é (ou foi) professor de escrita criativa na Universidade de Princeton, publicou em 2005 uma autobiografia propriamente dita, My Lives, de que adquiri na altura, em Paris, a tradução francesa mas que ainda não li. Os seus livros revelam uma imensa sinceridade na exposição dos seus gostos, das suas angústias, das suas alegrias, das suas opiniões sobre a arte e a vida. Nada é gratuito na prosa e mesmo a descrição de situações que  nos podem parecer repetitivas inclui sempre uma partícula de originalidade. Importa, todavia, acrescentar que a "crueza" com que são narradas algumas "aventuras" se afigura quiçá exagerada para ser real, mas estamos perante livros de ficção, apesar de inegavelmente autobiográficos. O seu interesse pelas relações sexuais em família é patente e a sua atracção pelo próprio pai é referida em alguns volumes. «Lastimo um homem que nunca quis ir para a cama com o pai», pode ler-se na página 33 de A Vida Privada de um Rapaz. E também a sua atracção pelos adultos, quando era criança: «Toda a gente faz um grande alarido por causa do sexo com crianças. No fim de contas as crianças também têm as suas necessidades sexuais. Desde que não haja violência...» (Sinfonia A Despedida, p. 314), afirmação que seria hoje certamente condenada pela moral vigente. E é igualmente patente ao longo do texto uma certa "paixão" pelo incesto, para retomar o título de um livro de Yvan Simonis, sobre Claude Lévi-Strauss.

Os três volumes somam cerca de 1.000 páginas, que encerram, para além da vivência sexual, uma acerada crítica social e uma crítica aos Estados Unidos e ao american way of life, embora não tão violenta como a do eminente escritor e seu compatriota Gore Vidal. Penso que o terceiro volume é o mais interessante (e o mais extenso): contém a última parte da sua vida (até à data da publicação), revelando as relações com outros escritores famosos (curiosa a sua apreciação de Michel Foucault), a devastação causada pela SIDA, as descrições de Veneza, a dicotomia americanos/franceses, as excentricidades sexuais. Dotado de um inegável espírito de observação, Edmund White consegue, pela excelência da escrita, convocar permanentemente o interesse do leitor, mesmo quando a sucessão de algumas "cenas" poderia considerar-se monótona.



Apesar de não ter tido ainda oportunidade de ler Mes Vies (os livros acumulam-se e há que fazer opções), ao contrário da trilogia autobiográfica que é objecto deste post, e que segue uma ordem cronológica, esta obra está organizada por temas.

Constatei, por acaso, que o tradutor dos três livros, José Vieira de Lima, faleceu no ano passado. Como escrevi acima, cometeu a proeza de nos dar, no jargão português, o equivalente ao calão anglo/americano para as mais diversas e improváveis actividades sexuais. Merece, por isso, uma explícita referência.



sábado, 12 de setembro de 2020

PORTUGAL - RAZÃO E MISTÉRIO

 

Foi editado muito recentemente o livro Portugal - Razão e Mistério (A Trilogia), de António Quadros.



Trata-se da reedição dos volumes I (1986) e II (1987) publicados com o mesmo título (e que se encontravam esgotados) e da edição de um texto destinado ao III volume e que foi descoberto entre os papéis do autor.


António Quadros (1923-1993), faleceu sem ter concluído esta importante obra, tendo a família recuperado o texto que agora se publica, em conjunto com a reedição dos dois primeiros volumes, sob a designação geral de A Trilogia.

É António Quadros uma das figuras mais interessantes do pensamento português da segunda metade do século passado. Filósofo, escritor, professor, tradutor, autor de vasta obra abrangendo o ensaio, a poesia, a ficção, devem-se-lhe mais de trinta títulos, entre os quais o que ora se comenta e os livros relativos a Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes e o Sebastianismo. Filho de António Ferro e de Fernanda de Castro, pertenceu ao Grupo de Filosofia Portuguesa, na companhia de Álvaro Ribeiro, José Marinho, Orlando Vitorino, Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Cunha Leão, Pinharanda Gomes, António Telmo ou Dalila Pereira da Costa, e foi fundador do IADE - Instituto de Arte e Design e director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, entre as múltiplas actividades que desenvolveu na sua vida.



Personalidade cativante, homem de diálogo aberto, tive o privilégio de ser seu amigo. Conversar com António Quadros era um prazer e uma aprendizagem, de que desfrutei, mesmo quando as nossas opiniões não eram convergentes. Desaparecido prematuramente, sem ter podido concluir a sua grande obra sobre Portugal, saúda-se a edição do livro que agora é publicado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A PANDEMIA FAZ REVIVER O PASSADO

Vous ne savez jamais qui est de 

l’autre côté

(mise à jour :

Mis au service de la distanciation sociale, les “glory holes” font officiellement partie des moyens d’éviter l’infection. «Quelle terrible ironie», proteste l’artiste français Marc Martin qui consacre à ces trous honteux, honnis, un ouvrage en forme d’hommage.

Les glory holes sont les trous noirs de la mémoire queer. Pour beaucoup de militants, il paraît offensant d’en parler, car ces trous sont liés aux lieux d’aisance collectifs, les pissotières (appelées tasses, en argot) qui les virent apparaître, dès le XIXe siècle. Dans un essai intitulé Glory Hole - Le trou noir des tasses (éditions Agua), le photographe et collectionneur Marc Martin reproduit un des tous premiers documents lié à ces bizarreries. Il s’agit d’un rapport de police, daté de février 1862. Le chef du commissariat du quartier des Champs-Élysées évoque des «ouvertures faites dans les cloisons des latrines». L’une de ces ouvertures a été signalée comme un trouble à l’ordre public. Elle met en danger la pudeur. «J’ai immédiatement envoyé mon garçon de bureau et un de mes inspecteurs pour en opérer le bouchement, qui a été fait avec du plâtre et du ciment et ne manquera pas de solidité».

Personne ne «pipait mot» dans les tasses 

Bien qu’il n’en détaille pas l’usage, le commissaire semble parfaitement conscient du caractère coupable de ces pertuis, percés à hauteur d’entre-jambe. Ainsi que Marc Martin l’explique, ils servent à la fois d’oeilleton et de passe-plat : ils permettent «d’observer une personne située de l’autre côté ou d’y insérer son pénis dans le but d’un échange sexuel. […] À l’époque où l’homosexualité était illégale, les toilettes publiques, qui servaient de lieux de rencontres, en étaient largement pourvues». En perçant ces brèches dans les parois de séparation, les inventeurs des glory holes aménageaient des voies d’accès vers l’autre qui peuvent paraître réductrices : elles ne laissaient passer qu’un bout d’anatomie. Mais pour beaucoup d’hommes, ces petits trous étaient salvateurs. Pour ceux qui avaient peur, à l’époque répressive, d’être pris en flagrant délit (à deux dans la même cabine), les glory holes permettaient de jouir, envers et contre la société. Pour ceux qui se cherchaient, timidement, les glory holes offraient la liberté. 

Les trous entrent en résistance

Signe de leur importance : quand les autorités faisaient boucher ces trous, les «pervers» en perçaient de nouveau. Dans son ouvrage, Marc Martin cite d’ailleurs le cas d’une véritable guerre des trous. En 1887, Félix Carlier (ancien chef du service des moeurs à la Préfecture de police) mentionne le cas des pissotières des Halles, devenues lieu de rendez-vous. «Chaque jour, les maçons de la ville bouchaient ces trous ; chaque soir, ces trous étaient percés à nouveau. L’administration prit un parti qu’elle crut héroïque ; elle remplaça les cloisons par des plaques de blindage en fonte. […] Quinze jours plus tard, les plaques de métal avaient été taraudées, les trous existaient à nouveau.» La fermeture de ces WC fut seule capable de mettre fin au «scandale». Mais les fauteurs de trouble ne s’estimèrent pas perdants. Ils allèrent trouer ailleurs. Paris était grand.

Le trou abrite tous les mystères

Dans les années 1980, quand les pissotières furent abolies en France, remplacées par des «sanisettes», les trous leur survécurent. Ils migrèrent dans les backrooms, à l’abri de la pénombre, comme s’il fallait que perdure avec eux un certain goût pour l’incertitude. Steel Panther, un groupe de heavy metal, en a fait le refrain d’une chanson : «Honey, je ne veux pas savoir qui suce de l’autre côté» (Glory Hole, 2014). Ce pourrait être un homme beau ou laid, une blonde ou brune, peut-être même un flic ou un prêtre ? Le trou abrite tous les mystères. Il est le garant du secret. Il favorise les expériences, il encourage l’ambiguïté, il inspire des scénarios qui, autrement, n’auraient pas lieu. Ce qui le rend d’autant plus précieux à l’époque de la transparence. «Contrairement à la croyance populaire», insiste Marc Martin, il n’y a pas que les gays qui profitent de ces trous. Au contraire. Les hommes qui refusent de se définir, ceux qui veulent du plaisir sans avoir à soi-disant «assumer» (assumer quoi d’ailleurs), ceux qui manquent de confiance pour aller dans des clubs de cul, ceux qui veulent jouir dans l’inconnu, trouvent dans le glory hole une porte ouverte aux possibles. 

Une zone “Glory Hole” dans un centre d’art vivant ?

A l’inverse des autorités –qui font des glory holes les outils de la mise à distance–, Marc Martin entend les réhabiliter comme les moteurs du rapprochement. Sans ces trous, les exclus de la société n’auraient pas pu briser l’isolement. «Ils ont permis aux générations d’hommes, qui n’avaient pas de drapeau à dresser, d’ériger haut et fort leur érection en signe d’épanouissement personnel.» Non content de leur dédier un livre, Marc Martin leur consacre d’ailleurs un espace, placé au coeur de sa prochaine exposition –«Les tasses à Bruxelles»–, qui se déroulera au Centre d’art de Bruxelles-LaVallée, du 18 septembre au 3 octobre, dans le cadre du Pride Festival organisé par la RainbowHouse. Cet espace –que Marc nomme avec humour la «zone glory hole»–, prendra la forme d’une machine à remonter le temps : dans ce cube constitué de cabines séparées par des portes et des cloisons trouées, les visiteurs et visiteuses pourront se replonger dans l’ambiance clandestine des anciens lieux de rencontre, lorsque c’étaient les juges (et non pas le virus) qui prohibaient les contacts entre humains.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA




Registou-se um sobressalto cívico por causa da frequência obrigatória da disciplina "Educação para a Cidadania" e foi publicado um Manifesto, subscrito por uma centena de figuras da nossa sociedade, entre as quais um antigo presidente da República, um ex-primeiro-ministro e o patriarca de Lisboa. O actual presidente da República recebeu dois dos signatários e felicitou-os pela iniciativa.

Não conhecia o curriculum dessa disciplina e procurei documentar-me. Da consulta a que procedi obtive o título das matérias mas não a sua especificação, o que, aliás, dependerá sempre de quem as leccionar. E depreendi, dada a sua geral inocuidade, que a preocupação suscitada terá apenas a ver com os temas de carácter sexual. Os dois grandes temas da Vida são, realmente, o Sexo e a Morte: são eles que continuam a encerrar um mistério insondável e que condicionam a natureza humana.  Não sabendo exactamente a idade precisa dos jovens a quem vai ser ministrado este ensino, creio, contudo, que as matérias que não tratem da Sexualidade são pacíficas, algumas poderão contribuir para um esclarecimento dos alunos, outras serão, porventura, inúteis. Os comportamentos sociais aprendem-se sobretudo em família ou no círculo das amizades e dificilmente a escola poderá exercer um papel determinante.

Quanto ao Sexo, retirando os aspectos que respeitem à Saúde e que deveriam ser abordados em separado, não me parece que seja muito aconselhável tratá-los em turmas de trinta alunos (parece que é, ou foi, a média das turmas). Creio que, de uma maneira geral, os alunos, mesmo os mais novos, já sabem tudo o que convém a uma iniciação sexual e a matéria poderá mesmo criar situações embaraçosas entre os alunos e entre estes e os professores. A menos que se pretenda, e reside aí a questão, que as lições incidam sobre os temas da identidade sexual, do género, etc., teorias muito ao gosto dos norte-americanos, que, sobre as mesmas, já criaram cursos superiores nas suas universidades e exportaram essas ideias para o resto do mundo.

Por mais voltas que se dê ao texto quanto a essas teorias laboriosamente produzidas (eu sei que isto é politicamente incorrecto) há só dois sexos, o masculino e o feminino (salvaguardando os raríssimos casos de hermafroditismo) e duas orientações sexuais: pelo sexo oposto e pelo mesmo sexo (e em muitos casos por ambos). E tudo o resto são divagações, envergando porventura roupagens eruditas. Penso que as mudanças de sexo, que desde há alguns anos começaram a ser efectuadas, não terão contribuído, antes pelo contrário, para a felicidade dos que a elas se sujeitaram. Os próprios movimentos que se criaram para defesa dos direitos dos homossexuais, tradicionalmente considerados uma minoria embora não haja certezas absolutas, e que tiveram um papel importante no seu reconhecimento jurídico e social (este mais difícil), embrenharam-se num desdobramento de identidades que os leva a intitular-se hoje LGBTQI+, porque há sempre mais identidades. Acho, também, na linha de Michel Foucault, que os homossexuais, que reclamaram  o direito à diferença, deveriam reclamar hoje o direito à indiferença, integrando normalmente toda a população. Esta mania de pôr na cabeça das pessoas um rótulo com a identidade sexual só tem contribuído, nos últimos anos, para que as pessoas fiquem amarradas a uma "orientação" e se amedrontem de a transgredir. No passado, os "heterossexuais assumidos" praticavam relações, mesmo que ocasionais, com "homossexuais conscientes da sua orientação" sem que isso lhes causasse algum problema, porque tal era considerado intimamente normal. Hoje já não é assim. Está cada um no seu canto. E esta reflexão é válida para homens e para mulheres. Assunto muito vasto, este do sexo, que jamais poderia ser discutido em aulas colectivas e que não deve ser submetido a agendas ideológicas.

Regressando ao início, recordo que, há muitos anos, frequentei a disciplina de "Religião e Moral". Não me lembro de ensinamentos morais mas sim do estudo da Bíblia, na altura uma Bíblia aos quadradinhos. É claro que não se falava das outras religiões, nem se estudava o Corão (o islão não tinha então a relevância que tem hoje) ou outros livros sagrados. Uma disciplina evidentemente discriminatória, embora o estudo da Bíblia nada me tenha prejudicado, já que é, para o bem e para o mal, o livro fundador de toda a civilização ocidental. É certo que a forma como era ensinada a Velha Aliança (judaica) e o Novo Testamento (propriamente cristão) era manifestamente redutora, mas não existia naquele tempo a tradução de Frederico Lourenço, nem a idade dos alunos seria bastante para a sua compreensão.

Mais tarde, frequentei "Organização Política e Administrativa da Nação", que também me foi útil para o melhor entendimento do funcionamento do Estado e da administração pública. O seu estudo em nada me vinculava ao regime vigente, tão só me informava sobre a situação política real.

Encontrei, na minha biblioteca, um livrinho que terá pertencido a meu pai, ou a algum dos meus tios, contendo noções de Instrução Cívica para o ensino primário. Aborda a Pátria, o Estado e os seus Poderes, a Divisão Administrativa, a Defesa Nacional, os Impostos, os Deveres Cívicos, a Instrução e as Actividades Económicas. Tudo de acordo com o programa da I República.

Concluindo. A disciplina de "Educação para a Cidadania", nos moldes que constam do programa apresentado pelo Ministério da Educação, não me parece danosa para a generalidade dos alunos (talvez haja algumas rubricas inúteis), salvaguardando, como referi, certos aspectos do capítulo Sexualidade, que receio possam invadir a zona de intimidade profunda dos jovens. As coisas do sexo encerram sempre um inescrutável mistério. Mesmo quando é comprado ou vendido o sexo nunca é uma simples mercadoria. Uma teoria pode ser muito cuidadosamente elaborada mas a prática se encarregará de a infirmar se não conforme à realidade.

domingo, 30 de agosto de 2020

A INSUPORTÁVEL SÉRIE TELEVISIVA DOS DURRELL



Josh O'Connor, no papel de Lawrence Durrell

A RTP2 tem transmitido diariamente uma série televisiva (creio que em repetição) intitulada "Os Durrell", sobre a permanência na ilha de Corfu da família Durrell, desde a sua chegada em 1935 até data que desconheço (Lawrence trocou a ilha pelo Egipto, em 1942), pois a série ainda vai nos primeiros episódios.


Segundo o genérico, esta série baseia-se no livro The Corfu Trilogy, de Gerald Durrell (o irmão mais novo de Lawrence) e foi realizada por Steve Barron, em 2016 (há mais realizadores e mais episódios até 2019, suponho). Enquanto Lawrence se distinguiu como escritor (é o autor do famoso Quarteto de Alexandria), Gerald interessou-se pelos animais e foi um conceituado naturalista.


Ignoro se as cenas "clownescas" a que tenho assistido decorrem da Trilogia de Gerald Durrell (que nunca li) ou se são fruto da imaginação delirante do realizador, nada tendo a ver com o pretendido subtil "humor britânico". Mas esta série, de evidente mau gosto, nem sequer respeita a verdade histórica. É certo que os padrões de qualidade da BBC, que a apresentou, andam muito por baixo, mas não havia necessidade de exagerar.


Mais valia que tivesse sido realizado um filme a partir de uma obra do próprio Lawrence Durrell, Prospero's Cell - A guide to the landscape and manners of the island of Corcyra (Corcyra é Corfu em grego) escrita em Alexandria em 1942 (a partir das notas que Lawrence tomou nos sete anos de estada na ilha) e publicada pela primeira vez em 1945. Neste livro, o autor regista as impressões recolhidas durante a sua permanência em Corfu, com alusões a The Tempest, de Shakespeare.

A ilha de Corfu é (ou foi) um lugar paradisíaco, carregado de uma história multi-secular. Muitas figuras notáveis fizeram da ilha local de vilegiatura, como a imperatriz Isabel da Áustria (Sissi) ou o imperador alemão Guilherme II que, após o assassinato daquela, comprou o seu palácio e mandou erguer nos jardins do mesmo uma estátua de Aquiles.


A título de curiosidade, note-se que o actor Josh O'Connor, que interpreta na série o papel de Lawrence Durrell, é um dos protagonistas do filme God's Own Country, de Francis Lee, um filme gay, onde O'Connor é um jovem fazendeiro britânico que se apaixona por um trabalhador migrante romeno, papel a cargo de Alex Secareanu. O filme recolheu imensos aplausos e foi galardoado no Festival Internacional de Berlim, de 2017.

Curiosamente, também, o actor Callum Woodhouse, que interpreta na série o papel de Leslie (o irmão do meio dos Durrell), é uma das principais personagens de B & B, um filme gay realizado em 2017 por Joe Ahearne.

Enfim, coincidências...
 

sábado, 15 de agosto de 2020

A ALEXANDRIA DE LAWRENCE DURRELL



Foi publicada em 1989 Alexandrie d'Égypte - Les lieux du Quatuor d'Alexandrie, uma obra com textos de Lawrence Durrell e fotografias de Rodolphe Hammadi. Prefaciou o livro (e suspeito que o organizou, pois não é feita referência a qualquer outra pessoa), o escritor e diplomata francês Olivier Poivre d'Arvor, homem da cultura e dos media, conselheiro cultural em diversos postos diplomáticos, director do Centro Cultural Francês de Alexandria, nomeado em 2016 embaixador de França na Tunísia.

O exemplar que possuo foi adquirido em 2007, através da Amazon, em estado impecável mas usado, já que exibe uma afectuosa dedicatória autógrafa de Olivier (Poivre d'Arvor) a um certo Luc (personagem que desconheço) de quem não é mencionado o apelido.

A obra, em bom papel, de menos de uma centena de páginas, inclui o prefácio de Poivre d'Arvor  ("Alexandrie, capitale de la mémoire") ; "Alexandria" ( prefácio, inédito em francês, de Lawrence Durrell à reedição de Alexandria: a History and a Guide, de E. M. Forster); uma entrevista com Lawrence Durrell realizada por Marc Alyn para a sua obra Le grand suppositoire; três cartas de Lawrence Durrell para Henry Miller; e "Les lieux du Quatuor d'Alexandrie" (35 fotografias alusivas à cidade, efectuadas por Rodolphe Hammadi e ilustradas com pequenos textos de Lawrence Durrell, extraídos da sua obra O Quarteto de Alexandria.

[Apraz dizer que Olivier Poivre d'Arvor publicou posteriormente (2009) um livro muito mais volumoso, Alexandrie Bazar - Le roman d'une ville, a que faremos referência em outra oportunidade]


[Por se referir expressamente à Alexandria de Forster, Durrell e Cavafy, não quero também deixar de mencionar Alexandria Still, publicado em 1977, pela Princeton University Press e reeditado em 1989, pela American University in Cairo Press, e que adquiri em Tunis, em Janeiro de 2001.]


No prefácio do livro, Poivre d'Arvor evoca vários locais míticos de Alexandria, cidade a que chama Capital da Memória. Como conheço todos esses locais, alguns já em vias de destruição aquando da minha primeira visita a Alexandria, li o texto com particular deleite. Por ocasião das minhas estadas na cidade, tive a oportunidade de ficar hospedado, por duas vezes, no Hotel Cecil, sobre a Corniche, o mesmo onde Lawrence Durrell começou a tomar notas para a redacção do Quarteto, do qual não resisto a transcrever dois parágrafos da primeira página:

« Capitally, what is this city of ours? What is resumed in the word Alexandria? In a flash my mind's eye shows me a thousand dust-tormented street. Flies and beggars own it today - and those who enjoy an intermediate existence between either.
Five races, five languages, a dozen creeds: five fleets turning through their greasy reflections behind the harbour bar. But there are more than five sexes and only demotic Greek seems to distinguish among them. The sexual provender which lies to hand is staggering in its variety and profusion. You would never mistake it for a happy place. The symbolic lovers of the free Hellenic world are replaced  here by something different, something subtly androgynous, inverted upon itself. The Orient cannot rejoice in the sweet anarchy of the body - for it has outstripped the body. I remember Nessim once saying - I think he was quoting - that Alexandria was the great winepress of love; those who emerged from it were the sick men, the solitaries, the prophets - I mean all who have been deeply wounded in their sex.»

No prefácio à obra de Forster, consagrada a Alexandria, Durrell considera que mais do que uma história e um guia, ela é uma pequena obra-prima que contém uma parte da melhor prosa que Forster escreveu. Lembra que chegou a Alexandria em 1941, vinte e três anos depois do livro ter sido escrito e oito anos depois da morte de Cavafy, que fora grande amigo de Forster, e que pouco de visível tinha mudado na cidade, pelo que utilizou o livro, durante dois anos, nas suas deambulações quotidianas. A única mudança verdadeira que constatou foi a cadeira vazia do poeta no seu café preferido. Mas diz também Durrell que, por ocasião da sua última visita a Alexandria, em 1977, muito do que tinha subsistido desaparecera, a começar pela população estrangeira, devido à nova política seguida depois da tomada do poder por Nasser. Refere ainda que o apartamento de Cavafy fora transformado numa pequena pensão e que o que restava do recheio fora conservado no último andar do Consulado da Grécia. [Existe, hoje, uma Casa-Museu Cavafy, no prédio onde habitou o poeta, na Rua Lepsius, agora Rua Sharm el-Sheikh, embora, ao que creio, no andar acima daquele que fora a sua residência, onde se guarda o parco espólio que não foi disperso pelos herdeiros.]

Na entrevista a Marc Alyn, Durrell conta a sua chegada ao Egipto em 1941, fugindo à guerra e a sua estada no Cairo e em Alexandria, cidade onde congeminou o Quarteto, a obra que o tornaria célebre. Tendo deixado o Egipto em 1945, a redacção do livro iniciou-a em 1946, já então em Rhodes. [Quando visitei Rhodes o ano passado não encontrei traços da passagem de Durrell, talvez por culpa minha, dado não me ter forçado a investigar a sua permanência na ilha.] Lembra, também, que até à batalha de El Alamein, estava convencido de que os alemães ganhariam a guerra. [Lembro, a propósito, que o bar do Hotel Cecil se chama Bar Monty, em homenagem ao marechal Montgomery, vencedor da batalha e que o frequentava, tal como eu o frequentei.] Antes de começar Justine, o primeiro dos quatro volumes que compõem o Quarteto, Durrell ainda esboçou uma nova versão do Livro dos Mortos, embora Alexandria fosse sempre a personagem principal do romance. A uma pergunta do entrevistador, sobre a razão porque todas as personagens do romance detestam o Egipto, incluindo os egípcios, Durrell responde que é devido à podridão total e também ao clima, que provoca uma espécie de sufocação. Para o escritor, o clima é esgotante e isso, para ele, também é devido à imensidade da superfície plana. Recorda que, mais tarde, na Argentina, sentiu a mesma sensação de "desvitalização". Acrescenta que há lugares abençoados e lugares estéreis e que, pessoalmente, a Grécia sempre lhe serviu: Corfu, Rhodes, Chipre. «J'ai noté quelque part que j'avais un moment songé à situer mon roman à Athènes. Mais avec le jeu des quatre temps et des quatre volumes, je risquais de lasser mon lecteur en plaçant toujours les scènes dans un décor identique. Cela rendait presque impossible les reprises successives de la même histoire. Ou bien je tombais dans ces romans-fleuves à la Musil, ennuyeux comme la pluie: sept volumes de rien et qui coulent, qui coulent...»

Seguem-se as três cartas endereçadas a Henry Miller, todas em papel timbrado do British Information Office, de Alexandria, onde Durrell trabalhava. 

Na primeira carta, datada da Primavera de 1944, Durrell felicita Miller pelos seus livros e conta que, com a guerra, a sua depressão aumenta e que as casas de saúde estão cheias de "clientes". Evoca a atmosfera de sexo e de morte de uma intensidade terrível. «Des Arabes, des Coptes, des Grecs, des Levantins français; pas de musique, pas d'art; pas de vraie gaieté. Un ennui moyen-européen saturé, complet, auquel se joignent l'alcool, les Packard et les cabines de plage. PAS D'AUTRE SUJET DE CONVERSATION QUE L'ARGENT. Même l'amour est considerée en termes d'argent.» Diz, num aditamento, que não se encontra uma única pessoa que se interesse a algo que não seja fazer dinheiro ou possuir uma mulher. Mas conta, também, que encontrou uma estranha mulher de olhos negros, uma pessoa autêntica perdida na venalidade e no dinheiro. «C'est la seule personne avec qui j'ai pu vraiment parler; nous partageons une vraie vie de réfugiés. Elle reste assise des heures sur le lit et me parle de la vie sexuelle des Arabes, des perversions, de la circoncision, du haschish, des pâtés de viande, de l'ablation du clitoris, de la cruauté, du meurtre. Cette fille pauvre née de parents juifs tunisiens (sa mère était une Grecque de Smyrne, son père juif de Carthage), elle a vu l'intérieur de l'Égypte jusque dans ses plus obscurs tressaillements d'obscénité. Elle est le Tropique du Capricorne ambulant.»

Na segunda carta, datada de 23 de Maio de 1944, Durrell agradece uma carta de Miller, informa que dirige o «grand bureau de propagande de guerre dont le but est d'introduire discrètemet le nouveau monde solide que nos déments de compatriotes essaient "de forger dans le fer et le sang"». Informa da grande variedade de lindas raparigas que existe na cidade (coptas, judias, sírias, egípcias, marroquinas, espanholas), mais belas do que em Atenas ou Paris. «Nourriture sexuelle de qualité, mais dans une atmosphère moite, hystèrique, sablonneuse, dominée par le vent du désert qui transforme tout en manie indispensable. L'amour, la drogue et l'homosexualité, voilà les remèdes évidents pour quiconque est coincé ici pour quelques années.»... «A part cela, je suis coincé au milieu d'un petit livre sur Corfou - un guide, en réalité, concernant le paysage. C'est difficile. Je me sens à sec.»

Na terceira carta, datada de 22 de Agosto de 1944, Durrell acha maravilhoso poder corresponder-se tão rapidamente com Miller, de quem elogia a obra. «On ne pourrait pas habiter très longtemps ici sans pratiquer une mort d'une sorte ou d'une autre - le haschich, les adolescents ou la nourriture. Et pourtant, ce pays a la beauté grasse ou mortelle d'une chenille.»... «J'ai tant appris ici que je suis impatient de me remettre à écrire. J'ai une idée merveilleuse pour un roman sur Alexandrie, un lien facile pour toutes mes expériences grecques, en même temps qu'une espèce de boucherie spirituelle avec des filles sur les tables.»

A última parte do livro, intitulada "Les lieux du Quatuor d'Alexandrie", apresenta 35 fotografias de Rodolphe Hammadi, alusivas a Alexandria, tendo como "legendas" pequenos textos extraídos do Quarteto. 

Este breve livro, devido a Olivier Poivre d'Arvor, contitui uma bela homenagem a Alexandria e evoca de alguma forma a génese do famoso Quarteto em que Lawrenec Durrell imortalizou a cidade.


sábado, 1 de agosto de 2020

INTERNATOS




A referência do Eduardo Pitta feita há dias ao livro Internato (1946), de João Gaspar Simões, suscitou-me o desejo de relê-lo. Tomei conhecimento da existência desta obra por indicação de Isabel da Nóbrega, nos anos 60 do século passado, pouco tempo depois de nos conhecermos e estando ela já separada de João Gaspar Simões. Elogiou-me o livro e a "coragem" do escritor ao abordar um assunto que permanecia quase um tabu na literatura portuguesa. Procurei nas livrarias mas estava esgotado, porventura eliminado dos fundos editoriais. Consegui adquirir, anos mais tarde, num alfarrabista, um exemplar que pertencera ao falecido prof. Carlos Antero Ferreira, que ainda conheci pessoalmente e cuja assinatura consta da respectiva folha de guarda.

Mas porquê o "escândalo" de Internato? Nesta obra, JGS descreve a vida quotidiana num internato liceal masculino, um estabelecimento de classe média-baixa (para os padrões da época) mas com algumas irrisórias pretensões. Recriar o ambiente geral de um internato, com as diabruras de alunos adolescentes e mesmo alguma violência, com cenas de partidas e de copianço, artimanhas e mentiras, com preferências de professores por alunos ou de alunos entre si, com as sistemáticas críticas a professores e prefeitos, não constitui propriamente motivo de espanto. É o clássico destes estabelecimentos de ensino, que hoje vão rareando. Só que, neste caso, JGS vai mais além: ele debruça-se sobre as relações sexuais entre os alunos, e mesmo entre alguns deles e o director, ainda que nunca descendo (ou subindo) a pormenores demasiado íntimos. 

Toda a gente sabe que os colégios internos masculinos (e provavelmente também os femininos) foram sempre lugares de relacionamento homossexual dos alunos (pelo menos da maioria) e mesmo destes com alguns professores. Tal não constitui em si qualquer novidade. Aliás, a convivência em espaço fechado de pessoas do mesmo sexo torna apetecida a actividade homossexual. Isto é também verdade para os quartéis, os seminários, os conventos, os navios e por aí fora. Tal como acontece no teatro de guerra, nas grandes expedições ou em situações calamitosas. A imisção de mulheres em espaços tradicionalmente reservados a homens, com a chamada emancipação feminina, veio perturbar parcialmente esta "harmonia" que a história registou durante séculos e a literatura evoca amiúde pela pena dos seus mais ilustres cultores.

O que provocou a estranheza, e até a inquietação, do livro de JGS não foi a existência de factos que todos mais ou menos conheciam, pelo menos subconscientemente, mas sim a sua revelação em livro, ainda para mais por parte de um escritor de que se ignora qualquer inclinação homossexual. Ao que acresce a publicação da obra na vigência do Estado Novo, cujos códigos morais excluíam a homossexualidade. Sejamos mais claros: Salazar não se preocupava com a pratica de relações homossexuais, tendo tido quase sempre, durante o seu longo consulado, ministros reconhecidamente homossexuais no seu Governo. Em matéria de sexualidade, Salazar era uma personalidade amoral, não digo imoral. O que Salazar não se podia permitir, e não permitia, era a existência pública de comportamentos homossexuais, condutas que o regime condenava. Assim, o que se passava no confinamento de quatro paredes não perturbava a ordem pública, era uma coisa que não aparecia, e por isso não parecia, e na moral como em política só o que parece é, nas próprias palavras do antigo presidente do Conselho. Agora, se a "transgressão" homossexual se tornava visível e ameaçava contestar os alicerces do Estado (e da Igreja), então havia que reprimi-la, e para isso o regime dispunha de uma atenta polícia de costumes.

Do ponto de vista literário, para lá da "revelação", o romance de JGS está visivelmente mal estruturado, é repetitivo e chega a roçar o mau gosto como, por exemplo, no caso das alcunhas utilizadas para os alunos do internato. E há um ligeiro desequilíbrio na descrição das conversas entre rapazes que teriam, supostamente, idades entre os dez e os dezoito anos. É essa a impressão que retirei desta recente leitura. Mas é pertinente a forma como observa a técnica de sedução utilizada pelos alunos ou a existência de um grupo especial, os "meninos bonitos", que seriam os mais belos rapazes do internato, e de como destes saíam os "favoritos" do director, que não desdenhava as companhias masculinas. E também a forma como analisa a presença da religião católica nos mais ínfimos actos da vida do colégio. Aliás, a última parte do livro é especialmente dedicada à "conversão" do jovem protagonista à religião, aos seus temores da confissão, à suspeita de que um padre havia traído o segredo do confessionário, à descrença total no catolicismo e, finalmente, à fuga do internato, embora sem consequências trágicas.

Dada a delicadeza do tema para a época (as referências à homossexualidade dos alunos e a crítica à sufocante presença da religião nas escolas) é natural que o livro tenha passado discretamente pelo meio literário. Embora fosse um miúdo quando ele foi publicado, já crescido não soubera da sua existência e, como escrevi acima, foi a Isabel da Nóbrega que mo assinalou, já nos finais dos anos sessenta.

Todavia, não possui Internato a grandeza de Les Amitiés Particulières (1943), o célebre romance de Roger Peyrefitte (passado ao cinema por Jean Delannoy), primeiro livro da extensa bibliografia do antigo diplomata, que recebeu o Prémio Renaudot e é talvez o seu melhor trabalho. Cotejando as datas de publicação, pode supor-se que JGS conhecesse a obra de Peyrefitte. Mas enquanto na obra do francês existe mesmo um amor homossexual, em JGS as relações são mais de circunstância, ainda que não se possa excluir, em alguns casos, uma nítida inclinação pelo mesmo sexo.

EROTISMO EM TERRAS DO ISLÃO

 
Chah Abbas 1er enlaçant l'un de ses "minions"

L’histoire insoupçonnée de l'érotisme en terre d’Islam 

(PUBLICADO PELA REVISTA TELQUEL)

Culture Le 28 juillet 2017 


Surprenante, audacieuse et longue, longue… l’histoire de l’érotisme dans les pays arabo-musulmans fait la part belle à l’homosexualité et à la célébration des plaisirs interdits. Interdits ? Pas tout à fait…





« Dans leur langue, il n’est pas louable qu’un homme exprime sa passion pour un jeune homme. Ils réprouvent fortement ce genre d’expression. C’est pour cela, quand ils veulent traduire nos livres, qu’ils remplacent « j’aime un jeune homme » par « j’aime une jeunefemme » ou par « j’aime une personne » pour ne pas être dans l’embarras. Ecrire sur ces choses-là est une pure perversion pour eux. » L’auteur de ces lignes n’est pas un écrivain européen ou un journaliste américain déplorant le sort réservé à la littérature gay dans les zones tribales afghanes, mais un voyageur égyptien décrivant les mœurs du peuple… français au 19ème siècle. Dans cet extrait de ses souvenirs de voyage à Paris, le cheikh Rifaa Tahtawi explique comment les écrivains français étaient gênés et embarrassés à l’idée de traduire en français des poèmes et des contes arabes célébrant
la beauté masculine ou évoquant des amours homosexuelles. Eh oui. Les traducteurs européens déployaient alors des trésors d’imagination, entre ruses et jeux de mots, pour ne pas choquer leurs lecteurs avec cette littérature libertine et « étrangère » aux mœurs des européens à l’époque.


L’islam ose, l’Europe censure


Dans son célèbre A la recherche du temps perdu, Marcel Proust se souvient de l’hésitation de sa mère à lui offrir l’une des deux traductions disponibles des Mille et une Nuits : la première, plus ou moins fidèle au texte originel en arabe, ou une autre, élaguée et expurgée de tout contenu érotique ou homosexuel. Pour ces sociétés européennes, la perversion, le libertinage et la corruption morale venaient de l’autre : le musulman. La littérature arabe, persane ou
turque était à l’époque vue d’un mauvais œil. Les mœurs arabes ont ainsi pu choquer : au 17 ème siècle, Joseph Pitts, un jeune anglais capturé par des corsaires algériens, décrit dans ses mémoires, non sans aversion et horreur, comment à Alger « les hommes tombent amoureux des garçons, comme en Angleterre ils le feraient avec des femmes ».


Ces exemples peuvent faire sourire ou irriter. Surtout si l’on s’en tient à l’idée, largement répandue aujourd’hui, selon laquelle l’homosexualité est une mode étrangère, une greffe, une perversion occidentale que des esprits malintentionnés tentent d’importer dans nos chastes contrées musulmanes. Les tenants de ce discours, conservateur et binaire, esquivent ainsi tout un pan de l’histoire et de la culture musulmanes. Exit donc la poésie libertine arabe et persane, adieu les traités érotiques, écrits pourtant par des théologiens musulmans. Quant à Abou Nouass, Omar El Khayam et Al Jahid, tous ces (grands) auteurs de textes à caractère homosexuel, ils n’ont tout simplement jamais existé. Il y a pourtant une histoire musulmane de l’homosexualité, qui éclaire sous un autre angle l’évolution des sociétés musulmanes et leurs rapports avec la sexualité et le plaisirComme les chez les Grecs anciens, l’amitié amoureuse entre les éphèbes est décrite comme une source d’exaltation dans la littérature musulmane.


En tant que religion et selon les textes sacrés, l’islam interdit l’homosexualité et la considère comme un vice et une turpitude. Sur ce point, l’islam s’inscrit dans la continuité des autre religions monothéistes, en reprenant l’histoire de Sodome et le sort du peuple de Loth pour interdire l’homosexualité.


Le mythe fondateur de Sodome


Comme l’explique le Tunisien Abdelwahab Boudhiba dans La sexualité en islam (1975, éd.Puf), l’islam a une vision du couple fondée sur « l’harmonie préétablie et préméditée des sexes ». Ce qui suppose une complémentarité foncière du masculin et du féminin. Le but de cette complémentarité est la jouissance et le plaisir, mais aussi et surtout la procréation et la perpétuation de la race humaine. Dans cet esprit, l’homosexualité serait une violation de l’harmonie naturelle et une menace d’anarchie et de déséquilibre.


Le Coran ne précise pas de châtiment spécifique sanctionnant l’acte homosexuel, ce qui ouvre la porte à tout un débat théologique sur la nature de la punition. D’après un hadith du prophète, la sanction doit être la peine de mort, reproduisant par là même le châtiment divin qui s’est abattu sur le peuple de Loth. Toutefois, la similitude avec Zina (la fornication) est évoquée par certains ouléma musulmans pour établir des variations dans la sanction : la lapidation jusqu’à la mort pour l’homosexuel marié, et des coups de fouet pour le célibataire.

L’homosexualité féminine est traitée avec une indulgence relative. Elle n’est pas assimilée à la fornication ni à l’homosexualité masculine. Les Sihakyate (lesbiennes) font l’objet d’une simple réprimande laissée à la discrétion du juge. L’absence de pénétration anale, qui définit l’homosexualité aux yeux des théologiens musulmans, explique vraisemblablement cette « mansuétude ».

Dans la théologie musulmane, la pratique de l’homosexualité, pour pouvoir être démontrée comme un fait avéré, requiert les mêmes preuves que dans le cas de la fornication : le témoignage de quatre personnes attestant avoir vu et discerné une pénétration totale, ou bien un aveu sans rétractation des personnes concernées. Des exigences draconiennes qui rendent quasiment inapplicables les sanctions qui frappent les pratiques homosexuelles. Fréderic Lagrange remarque dans son livre Islam d’interdits, Islam de Jouissance (Editions Tétraèdre, 2008), que le juriste musulman remercie souvent Dieu ‘‘de pouvoir cacher les vices des croyants qui ne sont pas ostentatoires dans leur transgression de la loi divine’’.


Mais l’évolution de la société musulmane, suite aux conquêtes militaires et au contact avec d’autres civilisations, a produit des réalités nouvelles et des modes de vie différents de ce que le texte religieux prescrit et interdit. L’élargissement de l’empire musulman, notamment sous la dynastie abbasside, a engendré un changement des valeurs et des normes, et de nouvelles habitudes sont apparues. Les amours masculines n’étaient plus dissimulées, cachées ni réprimés, mais elles étaient affichées, proclamées et tolérées. Des amours non seulement charnelles et sexuelles, mais aussi philosophiques et mystiques.


Califes amoureux


Dans son Histoire des califes, le théologien et historien égyptien Jalaloudine Assayouti, fournit cette description du calife abbasside Al Amine : ‘‘ Il achetait, sans compter, des eunuques qu’il réservait à son plaisir, renonçant ainsi à ses femmes et concubines’’. Al Amine, fils et successeur du grand calife Haroun Arrachid, vouait un amour démesuré à certains de ses esclaves mâles, et composait pour eux des poèmes où il manifestait sa passion et sa flamme. Le calife, dont l’empire s’étendait du Maghreb jusqu’à la Chine, décrit ainsi son
serviteur Kawthar dans l’un de ses poèmes : ‘‘Kawthar est ma religion et ma vie, ma maladie et mon médecin. Bien injuste est celui qui blâme un cœur pour son amour’’.

D’autres califes abbassides, comme Al Moâtassim et Al Wathiq, écrivaient des poèmes d’amour dédiés aux jeunes garçons et éphèbes. Alssayouti, grand théologien malékite, nous apprend à ce propos que le calife Al Moâtassim avait ‘‘un mignon d’une beauté exceptionnelle qui s’appelait Ajib, et dont il était follement amoureux’’.


Ces quelques exemples renseignent sur les changements qui ont touché la société musulmane lorsqu’elle est passée d’un petit Etat désertique à un empire qui domine le monde. Les rapports avec l’homosexualité ont également muté. Ce qui relevait de la turpitude qu’il fallait taire et cacher est devenu une pratique courante et consacrée même par les califes, détenteurs du pouvoir politique mais également spirituel et religieux.


Dans son traité historique Albidaya wa Alnihaya, Ibn Kathir juriste et théologien syrien du 14ème siècle, déplore que l’homosexualité touche ‘‘la majorité des rois et des princes, mais aussi les commerçants, les gens ordinaires, les écrivains, les ouléma et les juges, sauf ceux que Dieu a voulu préserver de ce vice’’. Quant à Al Maqrizi, l’historien égyptien du 15ème siècle (cité par Malek Chebel dans Le dictionnaire amoureux de l’Islam, Editions Plon, 2004), il témoigne qu’à son époque ‘‘ l’homosexualité était si répandue que les femmes devaient s’habiller en hommes pour avoir grâce aux yeux de leurs prétendants’’.


Cette mutation mentale et culturelle s’explique par l’influence qu’ont exercée les cultures et civilisations annexées par les conquêtes militaires musulmanes. L’héritage grec, persan et hindou ont été déterminants dans ce changement culturel.


Les éphèbes du paradis


L’un des premiers textes littéraires en arabe traitant de la question de l’homosexualité est Mofakharat Alghilman wa Aljawari d’Al Jahid (traduit en français par l’écrivain marocain Maâti Kabbal sous le titre Ephèbes et courtisanes, Payot, 2008). Dans ce livre, écrit sous forme de dialogue, deux hommes débattent de leurs préférences sexuelles : le premier expose les raisons de son amour pour les jeunes garçons, tandis que le second défend sa passion pour les femmes.


Le dialogue entre les deux hommes est un petit bijou de l’art de la polémique très prisé dans la littérature arabe classique. Toutes les références sont mobilisées pour damer le pion à son interlocuteur et appuyer ses positions : la poésie, l’histoire, les anecdotes drôles et
croustillantes, mais aussi les hadiths et les versets coraniques. L’amoureux des femmes évoque sans hésitation des paroles du prophète rendant hommage aux femmes et à leurs mérites, tandis que l’autre défend sa préférence pour les jeunes garçons en citant deux versets du Coran qui décrivent les plaisirs du paradis auxquels vont goûter les croyants. Parmi ces délices, les versets promettent des garçons beaux ‘‘ comme des perles conservées’’, selon l’expression coranique, destinés au service des heureux élus.


Cet argument peut étonner, mais il est souvent utilisé dans les récits historiques et littéraires pour justifier l’amour envers les éphèbes. Yahya Ibn Aktham, Qadi al qodat (plus haut grade de la magistrature musulmane) sous le calife Al Mamoun, recourait également à cet argument pour justifier ses goûts sexuels et son penchant pour les garçons. Sur le ton de la boutade, ce génie de la théologie musulmane, comme on le décrivait dans les livres d’Histoire, argumentait : ‘‘Pourquoi ne pas désirer sur terre ce que Dieu réserve à ses fidèles au paradis ?’’. Il est stupéfiant de constater que les écrivains musulmans, souvent des ouléma et des hommes de religion, n’éprouvaient aucune gêne ou embarras à citer des histoires et des
poèmes célébrant l’homosexualité. Cela faisait partie, pour beaucoup d’entre eux, d’une simple manifestation de connaissance encyclopédique et d’érudition.


Célébrer la beauté masculine et déclarer son amour à un jeune éphèbe n’avaient pas toujours une connotation sexuelle et ne couvaient pas forcément un désir de jouissance. Dans certains cas, il s’agissait tout simplement d’un simple jeu littéraire, une démonstration de la maîtrise du verbe et son maniement dans les différentes situations. D’autres formes de passions homosexuelles dans l’histoire musulmane ressemblent plutôt à un amour platonique ne débouchant pas forcément sur des relations sexuelles. Ces manifestations d’amour platonique entre des personnes du même sexe, sont très présentes dans la littérature mystique musulmane.


Sexe, amour et chasteté


Le collier de la colombe, écrit par l’Andalou Ibn Hazm, est certainement l’un des plus beaux livres en arabe sur le thème de l’amour. Un texte plein de délicatesse, de mélancolie et de sensibilité. Ibn Hazm était aussi un homme de religion et fondateur d’un rite très rigoriste et ultra-orthodoxe. Dans Le collier de la colombe, ce juriste et théologien cite sans jugement ni distinction les passions homosexuelles aussi bien que les amours hétérosexuelles. Pour lui, tous les récits, anecdotes et poèmes méritent d’être cités dès lors qu’ils relèvent de l’amour chaste et platonique. Ibn Hazm avait une vision romantique et mélancolique de l’amour, qui se définissait selon lui par le tumulte des sentiments et la passion pour l’être aimé, sans que le corps ne vienne pervertir tout cela, et surtout dans un cadre illicite. L’amour d’un homme pour une personne du même sexe entrait dans cette définition, d’où les exemples d’amour homosexuel qu’Ibn Hazm décrit dans son livre.

Sur cet aspect, la littérature musulmane reprend des thèmes qu’on retrouve déjà chez les grecs antiques, notamment celui de ‘‘l’exaltation de l’amitié amoureuse pour les éphèbes’’ comme le remarque Fréderic Lagrange. Dans Le Banquet de Platon, il est question de l’amour idéal et passionné qui liait le philosophe Socrate à son disciple Alcibiade. Le philosophe grec apprend à son disciple, jeune et beau, que l’amour spirituel et intellectuel est plus intense et plus durable que la rencontre des corps, voués à s’affaiblir un jour. L’essence même de ce que l’on nomme de nos jours l’amour platonique.


On retrouve fortement cette idée chez les mystiques musulmans qui conçoivent l’accompagnement d’un jeune homme comme une initiation spirituelle et l’amour entre deux hommes comme une forme d’amour divin. Dans Massarii Al’ochaq (Les sorts des amoureux), le cheikh Abou Mohammed Al Qarii raconte l’histoire d’un soufi musulman affecté et peiné par la mort d’un jeune homme dont il ne se séparait jamais. Le soufi a pleuré toutes les larmes de son corps après la disparition de son compagnon et passait des journées entières debout face à la tombe du jeune garçon. Un jour, on l’a retrouvé mort au pied de la sépulture de son bien-aimé. Les Mille et une nuits foisonnent également d’histoires de mystiques follement amoureux de jeunes garçons, mais d’un amour chaste et platonique.



Histoires de lesbiennes…


Objet de fantasmes orientalistes et lié souvent au hammam et au harem, le lesbianisme en histoire musulmane demeure très mal connu. Les sources sont très rares et, dans une société fortement masculine, les femmes ne pouvaient pas s’exprimer elles-mêmes sur ce sujet, bien que l’homosexualité féminine soit sanctionnée avec moins de sévérité que l’homosexualité masculine.

Chihabeddine Al Tifachi, juriste tunisien du 13ème siècle, a consacré une partie de son livre Nozhat Alalbab (Le plaisir des esprits) au lesbianisme. Le cadi tunisien fournit dans cette partie des explications ‘‘scientifiques’’ sur les origines biologiques de l’homosexualité
féminine, pour converger après sur des descriptions précises et étonnantes sur les lesbiennes de son temps. Al Tifachi explique donc que ces femmes ‘‘ utilisent excessivement les parfums et sont pointilleuse sur la propreté et l’hygiène. Elles n’achètent que les meubles, les mets et les bijoux les plus chers et les plus rares’’. L’élégance et le raffinement des femmes qui s’adonnent à l’amour saphique, selon cette description, laisse croire qu’il s’agit surtout de personnes qui appartiennent à des classes sociales aisées. Al Tifachi n’épargne pas à son lecteur de certains détails concernant les positions sexuelles et les techniques de coït chez les lesbiennes. A l’instar d’Al Jahid dans son livre sur les avantages comparatifs de l’homosexualité masculine et l’hétérosexualité, Al Tifachi réserve quelques pages au débat entre les adeptes du lesbianisme et ses détracteurs. Risque écarté de grossesse et discrétion en cas d’adultère sont cités parmi les avantages et ‘‘ les vertus’’ de l’homosexualité féminine.


L’une des références historiques sur le saphisme est l’œuvre d’un auteur marocain du 16ème siècle, Mohammad Hassan Al Wazzan, originaire de Fès et enlevé par des corsaires italiens qui l’ont vendu au Pape. Ce dernier l’a adopté comme fils en le baptisant sous le nom de Jean Léon de Médicis, dit Léon l’africain. Dans son livre La description de l’Afrique, Hassan Al Wazzan décrit les ruses des lesbiennes dans la ville de Fès pour séduire d’autres femmes souvent mariées. Ecrivant son livre à l’intention du maître du Vatican, il relate et condamne, avec une touche d’humour, les stratagèmes de ces femmes. Toujours dans ce livre, le diplomate pontifical décrit une autre catégorie d’homosexuels qu’il a croisés en territoire marocain, celle des travestis. ‘‘Ce sont des hommes qui s’habillent en femmes et portent des ornements comme les femmes. Ils se rasent la barbe et vont jusqu’à imiter les femmes dans leur façon de parler… Chacun de ces êtres abjects a un concubin et se comporte avec celui-ci exactement comme une femme avec son mari », s’enflamme Hassan Al Wazzan. Qui a dit que l’homosexualité est une ‘‘ invention’’ occidentale ?