quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A PASSAGEIRA (DE AUSCHWITZ)




Foi editado recentemente em DVD o espectáculo apresentado em 2010, no Bregenzer Festspiele, da ópera The Passenger (Die Passagierin), do compositor soviético de origem judaico-polaca Mieczyslaw Weinberg (1919-1996), com libretto de Alexander Medvedev, a partir do romance da escritora polaca Zofia Posmysz. A obra foi estreada em 25 de Dezembro de 2006, no Stanislavski and Nemirovich-Danchenko Music Theatre, de Moscovo.

A história conta-se em breves palavras: uma alemã que viaja num navio com o marido, um diplomata da Alemanha Ocidental  que vai ocupar um posto no continente americano, é confrontada com a presença a bordo de uma sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, que ela julgava morta. Acrescente-se que a alemã, quando jovem, pertenceu às SS, foi guarda nesse campo e no âmbito das suas funções contactou de forma especial com a mulher que agora lhe aparece no convés. A situação impõe-lhe uma explicação ao marido, que parece mais preocupado com o escândalo que tal facto poderá provocar na sua carreira do que propriamente com a conduta da mulher enquanto jovem. Esta defende-se dizendo que se limitou a cumprir ordens e não foi responsável por qualquer violência ou morte. O figurino clássico das defesas em Nurenberg mas também a forma como o regime nazi conseguiu "profissionalizar" e "legalizar" as suas actividades discriminatórias e persecutórias.



Não se trata, todavia, de mais um exercício sobre o tema mas de uma obra a todos os títulos notável. Sabemos que Weinberg, amigo e discípulo de Shostakovich é um dos grandes compositores soviéticos do século passado. Esta ópera é musicalmente de elevadíssimo nível. Igualmente servida por um texto que procura sondar o que de mais profundo há no ser humano.

Com encenação (surpreendente) de David Pountney e direcção musical de Teodor Currentzis, à frente da Wiener Symphoniker, o espectáculo é servido por um admirável naipe de cantores.


O KUNSTHISTORISCHES MUSEUM



O Kunsthistorisches Museum (Museu de História da Arte, em tradução literal), de Viena, foi o último dos grandes edifícios que foram construídos na Ringstrasse, em frente ao Museu de História Natural, e tendo do outro lado da avenida a Heldenplatz e o Hofburg.

Mandado edificar e inaugurado, em 1891, pelo imperador Francisco José, alberga a Galeria de Pintura, a Colecção Egípcia, a Colecção de Antiguidades Gregas e Romanas, o Gabinete de Arte e a Colecção Numismática.

As colecções imperiais, até então espalhadas por vários edifícios da cidade, passaram a estar expostas num quadro correspondente aos critérios estéticos e científicos da época. Todavia, a quantidade de obras dificultava a sua fruição pelos visitantes. Só a situação política decorrente do banimento dos Habsburg, após a Primeira Guerra Mundial, permitiu à nova República recriar um museu verdadeiramente moderno, como hoje o conhecemos. As obras dos pintores e escultores da época barroca foram transferidas para o Österreichisches Barockmuseum, situado na secção inferior do Palácio do Belvedere; os quadros, as aguarelas e os desenhos dos mestres modernos passaram, uma parte para a Galeria de Arte Austríaca do século XIX, no Belvedere superior, e a outra parte para o Museu Albertina. A remodelação das salas de recepção do Novo Hofburg receberam as armaduras, armas de combate e de caça da Casa de Habsburg e também os célebres instrumentos de música antigos da família imperial. Uma parte das obras da colecção das Antiguidades, provenientes nomeadamente do sítio greco-romano de Éfeso, na Turquia, foi igualmente colocada no Neue Burg, no agora denominado Ephesos Museum. As carruagens da Corte encontram-se actualmente instaladas no Palácio de Schönbrunn.


A entrada para a Colecção Egípcia faz-se por uma escada do lado direito após se passar a porta principal do Museu. Até ao fim do século XVIII as antiguidades egípcias (de que os Habsburg possuíam desde há muitos anos um interessante acervo) eram conservadas como simples curiosidades e só após a expedição de Bonaparte ao Egipto, as informações dos sábios que o acompanharam e a posterior decifração dos hieróglifos por Champollion adquiriram o seu preciso valor histórico.

Deusa Sekhmet, à direita (XVIII dinastia)
Horus e o faraó Horemheb (XVIII dinastia)
Hipopótamo, em faiança azul (XI ou XII dinastia)
Leão a caminhar (Babilónia, século VI AC)
Tuthmosis III (XVIII dinastia)
Deusa Isis amamentando Horus (XXVI dinastia, provavelmente)
Modelo de barca (XII dinastia)

Passada a Colecção Egípcia e Oriental ingressamos na Colecção de Antiguidades Gregas e Romanas, passando depois ao Gabinete de Arte.



Entre as valiosíssimas peças, refiram-se as seguintes:

Busto do imperador Adriano



Jovem de Magdalensberg (cópia do século XVI de um original romano)

Apolo (bronze greco-romano do século I AC)

Héracles (bronze grego do século IV AC)
Gemma Augustea (onix, depois incrustado em ouro, dos anos 9 a 12 DC, terá pertencido ao imperador Augusto)
Serviço de mesa em ouro e porcelana do duque Carlos Alexandre de Lorena ( século XVIII)
O futuro imperador José I, aquando da sua coroação como rei romano (marfim, século XVII)
Imperador Leopoldo I (?)

Tesouro funerário em ouro de Nagyszentmiklós (hoje Sînnicolaul Mare, Roménia, arte proto-búlgara, século IX)
Idem

Saleiro de Francisco I (ouro parcialmente esmaltado - Obra-prima de Benvenuto Cellini, século XVI)
Relógio automático: Diana cavalgando um centauro (prata dourada e esmaltada, século XVII)
Taça em argila com figuras vermelhas: O adeus de um guerreiro (Atenas, 500 AC)
Imperador Rodolfo II (Adrian de Fries, século XVII)
Imperador Carlos-Quinto (Leone Leoni, século XVI)
Filipe II de Espanha (Pompeo Leoni, século XVI)

A Galeria de Pintura expõe alguns dos mais importantes quadros dos grandes mestres europeus.



São Sebastião (Andrea Mantegna, século XV)
A Ninfa e o pastor (Tiziano, século XVI)
O Baptismo (Guido Reni, século XVII)
A Coroação de espinhos (Caravaggio, século XVII)
A Senhora do rosário (Caravaggio, século XVII)
São Miguel expulsando os anjos renegados no inferno (Luca Giordano, século XVII)
Infanta Margarida Teresa, com oito anos, de vestido azul (Velázquez, século XVII)
Riva degli Schiavoni em Veneza (Canaletto, século XVIII)
O milagre de São Domingos (Francesco Guardi, século XVIII)
Aníbal olhando para a cabeça de Asdrúbal (Giambattista Tiepolo, século XVIII)
Cristo transportando a cruz - Painel do lado esquerdo de um retábulo da Crucificação (Bosch, século XV)
A Adoração da Santíssima Trindade (Dürer, século XVI)
Imperador Maximiliano I (Dürer, século XVI)
Crucificação (Lucas Cranach, o Antigo, início do século XVI)
Jane Seymour (Hans Holbein, o Jovem, século XVI)
Imperador Rodolfo II (Hans von Aachen, século XVII)
Alegoria do Fogo (Arcimboldo, século XVI)
A Torre de Babel (Peter Bruegel, século XVI)
Os Caçadores na neve (Inverno) - (Peter Bruegel, século XVI)
Os Quatro Continentes (Rubens, século XVII)
Jacob de Cachiopin (Van Dyck, século XVII)
Jovem com uma flecha (Giorgione, século XVI)
O Baptismo de Cristo (Perugino, finais do século XV)
Senhora do Belvedere (Raffael, século XVI)
A Conversão de São Paulo (Parmigianino, século XVI)
Judite com a cabeça de Holofernes (Veronese, século XVI)
Susana e os velhos (Tintoretto, século XVI)
A Destruição do Templo de Jerusalém (Poussin, século XVII)
A Tentação de Adão e Eva (Hugo van der Goes, século XV)
A Crucificação (Roger van der Weiden, século XV)
Retábulo dos Sãos João (São João Baptista, à esquerda e São João Evangelista, à direita (Hans Memling, século XV)
O Atelier (Vermeer, século XVII)
Auto-retrato (Rembrandt, século XVII)

Não é possível continuar com a reprodução das pinturas notáveis, mesmo só das mais notáveis, existentes no Museu. As que registámos pretendem constituir uma amostra da imensa riqueza deste extraordinário acervo e destinam-se tão só a despertar nos leitores a vontade de se deslocarem a Viena.

A cafetaria do Museu
O último piso
Exposição temporária sobre a presença do imperador Carlos-Quinto em Tunis

Porque este post já vai longo, dispenso-me de de referir algumas imagens, também importantes, do Gabinete de Arte e da Colecção Numismática.

Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum), edifício simétrico do Museu de História da Arte
Estátua da imperatriz Maria Teresa, na Maria Theresienplatz, entre os dois museus
Idem

Na escadaria monumental do Museu pode apreciar-se uma notável escultura de Antonio Canova e um busto do imperador Francisco José.

Teseu derrotando o centauro (Canova)
Imperador Francisco José (Caspar Zumbusch)


Catálogo actual
Idem
Catálogo ao tempo da minha primeira visita há mais de dez anos
Muito ficou por escrever e por mostrar, mas o que se referiu permite avaliar a riqueza do Kunsthistorisches Museum de Viena, certamente um dos grandes museus da Europa, que não tendo o acervo nem as dimensões do Louvre, do British Museum, do Ermitage, do Prado (no que toca à pintura) ou do complexo dos museus de Berlim e do conjunto dos museus de Roma, par não falar já dos museus do Vaticano, é indubitavelmente um dos grandes espaços artísticos do Velho Continente.