quarta-feira, 1 de julho de 2020

O "CHEGA"




Acabou de ser publicado o livro A Nova Direita Anti-Sistema: O Caso Chega, de Riccardo Marchi, professor do ISCTE e investigador dos movimentos de Direita em Portugal.

Esta sua mais recente obra está dividida em três partes: I - O Líder; II - O Partido; III - As Ideias.

Na I Parte, o autor debruça-se sobre o percurso pessoal de André Ventura desde os primeiros anos até à sua entrada na vida política, a passagem pelo PSD e a vontade de criar um novo partido.

A II Parte é dedicada à forma como se constituiu o "Chega". Quais às pessoas intervenientes e o papel de cada uma, as fases de formação do partido, as vicissitudes, o choque de ideias, algumas defecções, a participação nas eleições europeias e legislativas e a entrada de André Ventura para o Parlamento, como deputado único do novel partido. É um registo minucioso de todas as etapas, sem dúvida com interesse histórico mas talvez demasiado longo para o leitor comum.

A Parte III é a mais interessante. Segundo o autor, a ideologia do partido é muito mais flexível que o seu carácter populista e André Ventura está menos interessado na codificação de uma doutrina e mais nas formas eficazes de interpretação dos anseios das "direitas populares". Os principais ideólogo do "Chega" são dois: Jorge Castela, desde Outubro de 2018 até à saída do partido em Março de 2019, e Diogo Pacheco de Amorim, desde a sua entrada no início de 2019 e com particular incidência na Primavera/Verão de 2019. Estas duas linhas ideológicas poderiam ser classificadas como de "nacionalismo liberal anti-europeísta" e "liberal-conservadorismo europeísta", embora a sua tradução na proposta programática do "Chega" não revele especiais divergências.

A seguir, Marchi refere os principais documentos produzidos pelo partido (e quais os seus autores) e menciona que muitos dos documentos nunca serão assumidos oficialmente devido à oposição da ala social-democrata (Nuno Afonso). Com a saída de todos os autores principais, os documentos ficam letra morta, embora algumas das suas partes tenham sido aproveitadas posteriormente nos textos políticos do "Chega".

«A produção ideológica do Chega, portanto, aparece bastante dispersa, fragmentada, com uma pluralidade de documentos elaborados em apenas um ano e meio de existência do partido, a partir de grupos de trabalho diversos, com diferentes sensibilidades ideológicas, embora todas balizadas pelo liberalismo económico e pelo conservadorismo dos valores. Este conjunto de documentos incide frequentemente nos mesmos pontos, com variações por vezes sensíveis, nunca antitéticas, mas causadoras de indefinição, mais que de esclarecimento da posição do partido em assuntos relevantes. É possível, contudo, encontrar cinco temas recorrentes em toda a produção ideológica do Chega: a identidade do partido, a economia, a família e a educação, a imigração, a Europa. Resulta, assim, mais conveniente descrever as posições do Chega em relação a cada um destes temas, evidenciando as semelhanças ou as diferenças que os vários documentos e autores aportaram na sua abordagem.» (p. 139)

Não é assim fácil comentar aqui os temas acima indicados, até porque Riccardo Marchi procede à descrição da evolução do pensamento do partido ao longo do tempo.

No que respeita à Identidade, segundo a Declaração de Princípios, «O Chega assume a sua natureza nacionalista, liberal e democrática, conservadora e personalista», inspiração de Fernando Pessoa e Francisco Lucas Pires, e com referências a Montesquieu, John Locke, Edmund Burke, Roger Scruton, Adam Smith, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. No Programa Político Chega 2019, de Diogo Pacheco de Amorim, as referências filosóficas permanecem, mas é omitido o termo "nacionalismo liberal" por "conservadorismo de feição liberal". O liberalismo é uma constante na identidade do "Chega". No Manifesto Político Fundador, o "Chega" apresenta-se como partido "de base e natureza essencialmente popular" e aponta para a necessidade de "uma ruptura com o sistema político vigente", o que passa pela diminuição do estado na vida dos portugueses. Assim, o Estado deverá limitar-se a quatro conjuntos de funções: as funções soberanas (Justiça, Segurança, Defesa, Política Externa, Arbitragem/Regulação); as funções autoreguladoras e de gestão para a selecção de meios financeiros e humanos estritamente necessários à sua actividade; as funções de preservação do património material da nação; as funções subsidiárias e/ou supletivas, só nas áreas onde a sociedade civil não manifeste interesse em actuar. O "Chega" propõe ainda a diminuição do número de leis, que devem ser poucas, simples e claras, e a redução do número de deputados à Assembleia da República, o agravamento das penas para crimes de terrorismo, corrupção, homicídio (prisão perpétua), pedofilia (castração química) e opõe-se ao chamado marxismo cultural, combatendo as teorias de Max Horkheimer, Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Erich Fromm, que conduziram à introdução na agenda política das "causas fracturantes): ideologia do género, aborto, casamento gay, adopção de crianças por casais homossexuais, activismo trans, eutanásia, multiculturalismo pró-imigração.

O partido pretende constituir uma IV República (presidencialista), com a reforma do sistema eleitoral e a redução drástica dos ministérios. O "Chega" tem afinidades com o "Vox" espanhol, com com a "Lega" e o "Movimento 5 Estrelas" italianos, com o "Rassemblement National" francês e com o "Alternative für Deutschland" alemão, mas considera que a sua linha é especificamente portuguesa, não se identificando verdadeiramente com quaisquer destes partidos estrangeiros.

Relativamente à Economia, segundo Diogo Pacheco de Amorim, existem quatro concepções diferentes: o Estado como dono da economia, segundo os comunistas; o Estado como motor da economia, segundo os socialistas; o Estado como dinamizador da economia, segundo os sociais-democratas e os democratas-cristão; o Estado como regulador, árbitro e, no limite, suplente na economia, segundo os liberais-conservadores. O "Chega" inscreve-se nesta última família política.

São depois apontadas diversas medidas sobre impostos e respectivas taxas, sobre os contratos de trabalho, sobre o desmantelamento do aparelho burocrático do Estado, sobre a dependência financeira de Bruxelas, sobre os trabalhadores migrantes.  É defendida a flexibilização da legislação laboral, a introdução do contrato de trabalho semanal, a privatização da saúde e do ensino (embora o Estado garanta o acesso gratuito), o combate à corrupção, a abertura da Segurança Social ao sector privado, etc.

No capítulo Família e Educação, passa-se do liberalismo ao conservadorismo. O casamento deve ser, segundo a matriz judaico-cristã portuguesa, entre homens e mulheres, embora o "Chega" considere formas legais de união entre pessoa do mesmo sexo, uma vez que rejeita a homofobia. É feita a defesa da família heterossexual, incentivada a procriação, devido ao declínio demográfico, mas condenada a adopção gay, a eutanásia, o aborto. A família, e não o Estado, é considerada como fonte primária de formação dos jovens e é condenada a ideologização do ensino público. Pacheco de Amorim propõe mesmo a extinção do Ministério da Educação «que não passa de uma tecnoestrutura blindada pelo PCP e pelo BE, impossível de ser penetrada e reformada por qualquer ministro» (p. 169). O partido rejeita o multiculturalismo e é a favor da manutenção da onomástica e toponímia de ruas, monumentos, etc., recusa pedidos de desculpa pela nossa História e defende a manutenção da nossa identidade.

Quanto à Imigração, o "Chega" rejeita todas as formas de racismo, xenofobia e qualquer forma de discriminação contrária aos valores fundamentais constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Combaterá as manifestações de racismo, de anti-semitismo, de suprematismo, e «os novos genocídios perpetrados pelas "teocracias no médio e extremo-oriente" contra os povos judeus, cristãos e yazidi» (p. 171) Faz uma discriminação entre «as comunidades migrantes que não representam qualquer problema (as oriundas dos países europeus, dos PALOP, da China) e as que, pelo contrário, são uma ameaça: os alegados "refugiados sírios", na verdade islâmicos vindos do Magreb, Bangladesh, Paquistão, com documentos forjados, através das redes criminais e das ONG.» (p. 171). Todavia, a principal preocupação do "Chega" é a imigração ilegal. E também o controlo de fronteiras que deve ser eficiente. A fronteira «é uma dimensão essencial para salvaguardar a Nação das redes criminais transnacionais, que controlam a circulação ilegal de seres humanos, drogas e capitais.» (p. 173). Outra questão que preocupa o partido é a atribuição da nacionalidade portuguesa. E também a identificação dos refugiados. O partido, quanto à nacionalidade, defende o ius sanguinis contra o ius soli. Além disso, pede  saída de Portugal do Pacto Global das Migrações, da ONU, assinado em Marraquexe em 10-11 de Dezembro de 2018. «O plano integra a estratégia da ONU de promoção da migração de substituição para a Europa, como explicitado, já em 2000, no relatório Replacement Migration, do Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU. Fazendo eco de certas teorias da conspiração de algumas direitas radicais, o documento do Chega declara que esta estratégia concretiza as aspirações das elites globalistas, há muitas décadas empenhadas na constituição de um governo mundial, na senda do programa do austríaco Richard Nikolaus von Coudenhove Kalergi, elaborado na primeira metade do século XX.» (p. 180)

Na página 180, Riccardo Marchi escreve: «O alvo da crítica é a migração islâmica em massa: a chamada Hijrah, teorizada por Maomé, para implantação do Califado Mundial.» [Impõe-se-me fazer aqui uma correcção: A Hijra (em português Hégira), nada tem a ver com o Califado Mundial. Significa em árabe "abandono", "exílio" e é a palavra que designa a "fuga", segundo os nossos manuais escolares, de Maomé de Meca (onde estava a ser hostilizado) para Yatrib (que depois passou a chamar-se Medina) em 15/16 de Julho de 622. Esta data marca o início do Calendário Islâmico.]

«Também para Patrícia Sousa Uva a questão é de proporções, porque Lisboa sempre teve historicamente uma comunidade islâmica integrada, vinda do norte de África e de Moçambique, ao passo que os fluxos de massa previstos pelas organizações internacionais determinam um desequilíbrio e replicam os problemas vividos por outras capitais europeias. Para Nelson Dias da Silva, as consequências não são apenas sociais, mas também políticas, como demonstram os partidos mainstream europeus que ficaram reféns do voto étnico e já não conseguem reverter políticas migratórias que nas últimas quatro décadas começaram a mostrar a outra face da moeda.» (p. 181)

Sobre a Europa, André Ventura considera-se não nacionalista e europeísta convicto. Mas também há quem no partido entenda que Portugal se deve preparar para o desmoronamento da União Europeia. Um documento, aprovado em Convenção Nacional «enaltece o modelo da Europa das Nações soberanas e democráticas, governado, preferencialmente, pelo princípio de unanimidade entre os Estados membros - existente até ao Tratado de Maastricht - e não pelo princípio da maioria actualmente em vigor, funcional à hegemonia franco-alemã.» (p. 187) Também o "Chega" deve «recusar, de forma clara, inequívoca e absoluta a participação de Portugal numa Federação Europeia.» (p. 187). Pacheco de Amorim enaltece a «complementaridade entre nações diferentes na Europa, na senda da confluência entre as duas matrizes identitárias europeias: a greco-romana e a judaico-cristã.» (p. 187). «A desconfiança do Chega com as políticas de potência da UE integra, contudo, uma visão geopolítica claramente ocidentalista e avessa às organizações mundialistas. Neste sentido, já a Moção Castela pedia a suspensão da participação de Portugal na ONU, mas reivindicava a sua permanência na NATO, principalmente para fins de contraste ao terrorismo islâmico e de resistência à geopolítica hegemónica da Rússia, China e Irão. Por isso, alinhando com as direitas europeias, o Chega compromete-se claramente com a defesa da existência do estado de Israel - ameaçado pelo "nazijiadismo", culpado pelo recrudescimento do antissemitismo -, até com medidas radicais, como a transferência da embaixada portuguesa para Jerusalém, na senda do presidente Donald Trump.» (p.188)

Nas Conclusões, Riccardo Marchi define o "Chega" como um partido populista da nova direita radical. E explica. Direita radical e não extrema-direita. A extrema-direita tem um carácter anti-sistema e objectivos de abate do regime vigente, através de meios violentos (e, por isso, é alvo de repressão); a direita radical tem um carácter anti-sistema e objectivos de mudanças substanciais no regime, mas através das regras do jogo estabelecidas pela Constituição, inclusive com a sua reforma (e, por isso, é permitido). A velha direita (os partidos anti-sistema colocados mais à direita do espectro político), reconhecem-se herdeiros dos autoritarismo de entre-guerras: nacional-socialismo, fascismo, franquismo, salazarismo, etc. A nova direita, na sua cultura política, nada tem a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos da direita dos anos 20 e 30 do século passado. Quanto ao populismo, ele é uma ideologia de baixa densidade, caracterizada por uma visão dicotómica da realidade política, que contrapõe o povo como entidade homogénea e virtuosa à elite corrupta e corruptora. Esta visão dicotómica pode integrar ideologias densas, tanto de esquerda como de direita. «O Chega incorpora o "nacionalismo banal", transversal à sociedade portuguesa, presente também no discurso institucional, sem ligações e até crítico da forma como o Estado Novo o encarnou. Esta encarnação, com particular atenção ao seu artífice, António de Oliveira Salazar, pelo contrário, é central na mundividência da direita radical tradicional.» (p. 196)


 * * * * *


Nesta obra, o prof. Riccardo Marchi pretende estabelecer um retrato do "Chega". Tarefa difícil, que o mesmo reconhece ao longo das páginas, já que a natureza do partido tem-se alterado com o decorrer do tempo, ainda escasso, da sua existência. Cita o autor diversos documentos, quer oficiais, quer da autoria de dirigentes ou de destacados militantes, sob a posição partidária face aos vários temas que preocupam os portugueses. E transcreve afirmações contidas nesses documentos, algumas das quais eu mesmo retranscrevi neste post. Daí se constata que há posições divergentes sobre certas matérias e que existe, segundo Marchi, um diálogo constante dentro do "Chega". É pena que o autor não tenha incluído, em anexo, os textos desses documentos, para melhor se apreender as intenções neles consagradas e a previsível orientação do partido que se afigura, por ora, um work in progress. De facto, não consegui encontrar, talvez por falha minha, um documento definitivo (se alguma coisa é definitiva?) do que é, neste momento, o programa oficial do "Chega".

Assim, pretendendo fazer um comentário ao projecto do partido, vou utilizar as conclusões constantes do livro de Riccardo Marchi, com a ressalva de poder errar a minha interpretação dado o facto de existir, em alguns aspectos, uma razoável margem de ambiguidade.

Parece pacífico afirmar que o "Chega" é liberal em economia e conservador nos costumes.  Pretende reduzir o Estado ao mínimo, determinando que a sua intervenção na economia seja apenas supletiva, nas áreas em que a iniciativa privada não seja possível ou satisfatória. Não creio que esta proposta seja do agrado da maioria dos portugueses, que por tradição e atendendo às circunstâncias, desejam um Estado mais interventivo. Isto é, os portugueses querem mais Estado, embora melhor Estado. Mais Estado não significa necessariamente mais gente a viver à custa do Estado mas uma gestão racional dos serviços prestados à comunidade. Na presente crise de pandemia, como estariam os portugueses se não existisse Serviço Nacional de Saúde??? Mesmo com o SNS desde há muito descapitalizado, foi possível ocorrer a esta emergência nacional (e mundial). O que importa, até aguardando novas emergências de saúde, é robustecer o SNS. E que dizer da Escola Pública? É ela indispensável e deverá ser tendencialmente gratuita, onde ainda não é. Concordo num ponto. O Ministério da Educação tornou-se num monstro e desde há décadas, ensaiando sistemas votados ao fracasso, vem degradando a instrução dos portugueses. Mas não deve ser eliminado, antes reformado, custe o que custar. Com a missão de combater as actuais narrativas, que pretendem eliminar a história das nações, em nome de um suposto "politicamente correcto". Também a Segurança Social deverá ser fundamentalmente da responsabilidade do Estado. Tem-se visto, em países estrangeiros, como se desmoronaram serviços privados de segurança social. Vou mesmo mais longe. Considero que, além das funções de soberania, deviam pertencer ao Estado os serviços estratégicos da Nação: energia, água, transportes, comunicações, obras públicas, etc.,etc. Ainda sobre economia, apraz-me considerar que a "mão invisível do mercado", cara a Adam Smith, só existe teoricamente, como a prática ao longo do tempo, se encarregou de demonstrar.

O "Chega" assume-se como partido anti-racista e anti-homofóbico, ressalvando embora a indesejabilidade de certo tipo de imigração e determinadas reivindicações da ideologia do género. Nesta área, estou certo de que se verificam entre nós comportamentos e actos anti-racistas e que possa mesmo haver, em alguns segmentos da população, uma mentalidade subliminar racizante, mas não penso que se possa considerar Portugal como um país intrinsecamente racista, ao contrário de outros países europeus, como a França e a Inglaterra. Também o partido se reclama de anti-homofóbico, ainda que com especiais reservas à agenda LGBTQ+. Na verdade, a sucessão de reivindicações dos movimentos de identidade do género acaba por parecer à população, pelo seu exagero, absolutamente deslocada. A descriminalização da homossexualidade foi um passo importante, bem como o reconhecimento oficial de ligações de pessoas do mesmo sexo. É mais importante, após o reconhecimento legal, incutir no espírito das massas esta nova normalidade, e isso é um trabalho paciente e demorado. Não decorre das disposições jurídicas mas da evolução dos comportamentos sociais.

A proposta da castração química dos pedófilos merece-me a maior repugnância. A pessoa humana deve ser fisicamente inatingível, além do que esta medida, caso viesse a ser aprovada, não teria resultados significativos, como se poderia provar, mas o caso não vem agora à colação. A manutenção da integridade física dos humanos leva-me a condenar igualmente a excisão genital e, até, a circuncisão (salvo por razões meramente sanitárias), que não deixa de ser um acto castrador do ser humano. Eu sei que a ablação do prepúcio é comum a culturas milenares como o judaísmo e o islão, e a sua interdição provocaria certamente reacções inusitadas. Recordo que a proibição da circuncisão foi o pretexto para os judeus iniciarem a sua grande revolta contra Roma, que ensombrou os últimos anos do reinado do imperador Adriano, como Marguerite Yourcenar brilhantemente demonstra nas suas Mémoires d'Hadrien. Mas tal prática não deixa de constituir uma desfiguração do pénis original, abundantemente retratado nas estátuas gregas e romanas.

O "Chega" manifesta-se a favor da União Europeia, embora rejeitando uma federação, e infere-se que é partidário da manutenção no euro. Como Emmanuel Todd explica na sua mais recente obra, o euro tem sido uma tragédia para a Europa, pelo menos para alguns países, que não a Alemanha. Mas, nas circunstâncias actuais, creio que uma saída de Portugal da UE e do euro seria catastrófica. Basta olhar para o Brexit, ainda não concluído na prática (e o Reino Unido não utiliza o euro) para verificar os incontáveis problemas inerentes ao abandono desta União. Possivelmente, ela mesma acabará por se desmoronar. O que importa, sim, é tentar combater a progressiva interferência de Bruxelas nos assuntos que devem respeitar apenas às soberanias nacionais.

A luta contra a corrupção, que é uma bandeira do "Chega", merece todos os aplausos. Precisa, todavia, de ser efectivamente travada. De resto, todos os partidos a proclamam, mas não a praticam. Vício endémico dos povos. Importa fazer alguns esforços. 

A reforma da Justiça deveria merecer uma atenção muito especial do partido, mas não vi propostas concretas. Dessa reforma depende largamente o futuro de Portugal. Ao contrário, quanto à reforma fiscal, existem no texto de Marchi inúmeros exemplos, inclusive com taxas mencionadas, mas a aplicação directa dessas propostas é manifestamente inexequível.

A redução do número de deputados parece-me interessante, bem como a forma da sua eleição e a redefinição dos círculos eleitorais. Também seria desejável a redução do número de assessores, consultores e congéneres que enxameiam o aparelho do Estado, a maior parte sem qualquer utilidade prática, apenas uma forma de empregar amigos e correligionários.É neste capítulo, e na existência de milhares de comissões, grupos de trabalho, unidades de missão, e milhentas coisas congéneres, que reside o verdadeiro peso do Estado. O aumento da intervenção positiva do Estado na vida pública não implica mais funcionários, até conduzirá à sua diminuição, se efectuada com racionalidade e sem cedência a interesses exógenos,

Não pretendendo alargar-me em considerações sobre as ideias do "Chega", há, todavia, um aspecto que me suscita algumas interrogações. Os textos referidos pelo autor, alguns dos quais transcrevi, manifestam uma constante preocupação relativamente ao anti-semitismo. Nada a objectar. Mas existem numerosas referências à defesa da civilização judaico-cristã. Ora a civilização Ocidental é cristã, a sua componente judaica (o Velho Testamento) foi há muito integrada na Civilização Cristã. De resto, ao longo dos séculos a Europa registou sempre uma luta (geralmente não bélica) entre cristãos e judeus. A herança propriamente judaica não integra a civilização cristã. Faz-se também referência à ameaça de perseguição de judeus no Médio Oriente, quando é suposto que são os próprios judeus que perseguem os palestinianos (veja-se o propósito de anexar a Cisjordânia). Por outro lado, no capítulo relativo à imigração, aceita-se a proveniente da Europa e da Ásia, mas não a proveniente dos países árabes e muçulmanos, o que, além de outras razões (também invocadas), denota um preconceito anti-islão. Finalmente, o "Chega" compromete-se com a defesa da existência do Estado de Israel (!!!), que não se afigura estar ameaçado (basta-lhe a protecção dos Estados Unidos, e não só). Todas estas alusões configuram uma posição filo-sionista do partido, que deverá ser esclarecida.


domingo, 21 de junho de 2020

LUÍS MACRON BONAPARTE




Foi publicado no princípio do ano o livro Les Luttes de classes en France au XXIe siècle, de Emmanuel Todd, consagrado antropólogo e sociólogo francês, que dispensa apresentações. Encomendei-o logo que posto à venda, mas a sua chegada a Portugal ocorreu já no período de confinamento, razão pela qual só há algumas semanas me chegou às mãos. Acabei agora de lê-lo.

Fruto de análise profunda e baseado em pormenorizadas estatísticas, o livro de Todd revela-nos uma França para muitos desconhecida. Nos tempos perturbados que vivemos, trata-se de uma obra de leitura imprescindível. Colocado sob o patrocínio de Karl Marx, que escreveu Les Luttes de classes en France, editado em 1895, este livro mostra-nos que chegámos ao fim de um ciclo iniciado em 1968, em que se fizeram aquisições definitivas [para mim o conceito de definitivo é um pouco relativo] como a emancipação das mulheres e a homossexualidade. E sustenta que o novo ciclo que agora se inicia será dominado por problemas económicos e pelo confronto de classes. 

«Parmi les acteurs de nos nouvelles luttes de classes du XXIe siècle, nous n'allons pas trouver seulement le capitalisme mondialisé, des financiers aux dents longues, mais aussi des petits bourgeois, très nombreux, des policiers, des enseignants et surtout l'État profond, dont nous observons la montée regulière et menaçante. Nous décrirons des classes sans conscience et aussi des classes en grand état de fausse conscience. Nous découvrirons ainsi des dominés qui se prennent pour des dominants.» (p. 20)

Não é naturalmente possível descrever aqui as teses propostas por Emmanuel Todd, dada a extensão do volume agora publicado, mas tentaremos enunciar algumas ideias fundamentais.

O autor baliza o seu livro por duas datas: 1992, data do referendo do Tratado de Maastricht, e 2018, sublevação dos Gilets Jaunes (é neste período que começa a implosão da França) e encontra-se dividido em três partes, a saber: I - Le changement social: 1992-2018; II - La comédie politique; III - La crise.

Começa o autor por louvar a obra de Thomas Piketty, Le Capitalisme au XXIe siècle, a que fizemos referência aquando da sua publicação, embora notando que aquilo que se está a verificar em França não é tanto um aumento em flecha das desigualdades mas principalmente uma queda do nível de vida, que atinge todos (ou quase) os grupos sociais. 

Houve, de facto, uma subida dos rendimentos dos 1% superiores, e especialmente dos 0,1 % superiores, que se encontram incluídos numa faixa de 10%, abaixo da qual figuram os 90% da população.

Para fundamentar as suas conclusões, Todd recolhe abundantes dados do INSEE (Institut national de la statistique et des études économiques) e publica inúmeros mapas de França, indicando, por regiões, a distribuição dos números que cita. 

Para estudar a evolução das categorias sócio-profissionais, Todd distingue, grosso modo, as seguintes: 1) agricultores em actividade; 2) artesãos, comerciantes e chefes de empresa; 3) quadros e profissões intelectuais superiores (CPIS); 4) profissões intermédias; 5) empregados; 6) operários. Entre 1990 e 2018, a percentagem de operários diminuiu 9% e a de agricultores 3%. A percentagem de CPIS aumentou 6,7% e a de profissões intermédias 5,7%.

A seguir à queda económica, Todd dedica-se à deslocação social da inteligência, uma abordagem interessante que não é possível descrever aqui. Depois, é tratada a questão das estruturas familiares e o fim das culturas regionais. « La connaissance de l'anthropologie historique nous permet de percevoir le monde, non comme le discours de l'Europe et de la mondialisation le présente, mais tel qu'il est. Elle revèle,  non des sociétés qui convergent, mais des sociétés qui divergent.» (p. 94)

«Notre société est devenue paradoxale: les niveaux de vie baissent mais – enfin – le modèle des classes moyennes est le bon. Simplement, nous devons dissocier l’idée de naissance d’une société de classes moyennes de celle d’enrichissement. Nous assistons à l’émergence d’une classe moyenne dominante dans un contexte d’appauvrissement. Une coïncidence temporelle que l’on peut expliquer: les classes moyennes étaient riches quand les ouvriers allaient bien et qu’il y en avait beaucoup. Si l’on détruit les ouvriers, on finit par détruire le niveau de vie en général et celui des classes moyennes en particulier. Telle est la magie de la globalisation économique qui avait voulu nous faire croire qu’en délocalisant la classe ouvrière vers l’Asie on allait avoir enfin la prosperité et la paix (sociale).» (pp. 113-4)

«Marx est le bon modèle tout simplement parce qu’il n’a pas peur de son ombre: il suit son instinct, il a l’audace, le génie des coups d’oeil ravageurs. La façon don’t il explique que les moeurs dépravés de l’aristocratie financière et du lumpenprolétariat  se ressemble et que, aux deux bouts de la société, on trouve le même type de pourriture morale est fabuleuse. Même chose pour sa description des dilemmes de la petite bourgeoisie. Et comment ne pas frémir, en 2019, lorsqu’on lit, dans sa préface de 1869: “Je montre, au contraire, comment la lutte de classes en France a créé des circonstances et des conditions qui ont permis à un médiocre et grotesque personnage de jouer le rôle de héros. " Nous vivons dans la France d’Emmanuel Macron et cette phrase est pour nous. Elle montre qu’inévitablement la méthode de Marx va nous mener quelque part.

Le 18 Brumaire nous offre surtout deux concepts fondamentaux. Le premier est celui d’une autonomisation de l’État par rapport à la société. Citons Marx dont le sens de la formule reste inimitable :

C’est seulement sous le second Bonaparte que l’État semble s’être rendu indépendant de la société, l’avoir subjuguée. L’indépendance du pouvoir exécutif se révèle au grand jour lorsque son chef n’a plus besoin de génie, ni son armée de gloire ni sa bureaucratie d’autorité morale pour se justifier. La machine de l’État s’est à tel point consolidée en face de la société civile qu’il lui suffit d’avoir à sa tête le chef de la Société du Dix-Décembre, ce chevalier de fortune accouru de l’étranger, élevé sur le pavois par une soldatesque ivre, qu’il a achetée avec de l’eau-de-vie et du saucisson, et à laquelle il lui faut sans cesse recommencer à servir du saucisson.» (pp. 115-6)

«Une remarque avant de quitter la pointe extrême de la structure sociale. En France, nous sommes pour ainsi dire débarrassés du concept de "bourgeoisie industrielle" puisque l’euro s’est chargé de détruire notre industrie et a mis ce qui en restait sous la coupe des banques et de la finance. Il existe bien encore des petits patrons, dont on découvre d’ailleurs de temps en temps qu’ils font cause commune avec les Bonnets rouges ou avec les Gilets jaunes. Mais ils ne sauraient plus constituer une classe à part entière.» (p. 121)

Segundo Todd, a tipologia activa da população francesa (2015-2018) é a seguinte:

- Aristocracia estatal-financeira (e dependentes) – 0,1 + 0,9 = 1%
- Pequena burguesia (CPIS) – 19%
- Maioria atomizada – 50%
- Proletariado – 30%

A maioria atomizada inclui o que resta dos agricultores, as profissões intermédias (técnicos, enfermeiras, etc.), os empregados qualificados, os artesãos e os pequenos comerciantes. Os proletários englobam os operários e e os empregados não qualificados.

«Pour tenter de comprendre l’entrée en immobilité de notre pays, nous allons procéder à une étude historique, en quatre chapitres, de ce qui s’est passé entre le référendum sur le traité de Maastricht, en 1992, et la fin de la présidence Hollande, en 2017. Ce faisant, nous allons comprendre à quel point l’entrée dans l’euro a permis la fin de la démocratie représentative en France.

Avant même d’être officiellement adoptée le 1er janvier 1999, la monnaie unique a mis la société française sous tension, en raison de la politique de rigueur que ses critères d’adoption impliquaient. Une fois en place, elle a entraîné le dysfonctionnement du système politique. Celui-ci s’est mué en une "Grande Comédie", avec des acteurs s’évertuant à s’offrir aux électeurs un spectacle, allant du grotesque au tragique, pour dissimuler une triste réalité : la fin de la capacité d’action des politiques, l’euro ayant privé la France de sa souveraineté économique, donc de sa souveraineté tout court. À partir de la crise financière qui a commencé en 2007-2008, cette Grande Comédie s’est élevée par étapes au niveau de "Très Grande Comédie" : la France est alors devenue un simple satellite de l’Allemagne.» (p. 167)

«Pourquoi une classe dominante, qui était à l’époque l’aristocratie d’État mais pas encore une aristocratie stato-financière utilisant l’État pour s’enrichir personnellement, s’est-elle engouffrée dans un projet de monnaie unique aux implications aussi absurdes ?
J’ai lu avec passion Euro-Tragedy : A Drama in Nine Acts, d’Ashoka Mody, livre indispensable à quiconque souhaite suivre et comprendre l’histoire calamiteuse de l’euro, somme prodigieuse dont la plupart des lecteurs français ignorent l’existence. […] Mody nous décrit avec talent des dirigeants monétaires et des économistes américains admirables de finesse lorsqu’il s’agit d’utiliser la monnaie pour parer à une crise, ou de critiquer la rigidité mentale de leurs homologues du Vieux Monde. Mais le concept de libre-échange, auquel ils adhèrent, est leur bulle cognitive à eux, et on ne saurait trop conseiller à Mody d’y consacrer un autre ouvrage (titre suggéré : Free-Trade Tragedy : A Drama in Fifteen Acts).» (p. 170)

«Nous apprenons cependant dans EuroTragedy tout ce dont nous avons besoin : que l’idée de fusion des monnaies européennes (en fait du franc et du mark dans l’esprit des élites françaises) avait été soulevé pour la première fois par Pompidou dès 1969, puis reprise par Giscard en 1978. Cette idée, qui travaille donc depuis longtemps dans la haute bureaucratie française, s’est d’abord heurtée aux fermes réticences des Allemands. Ainsi qu’on l’a vu, leur réflexion monétaire a un temps d’avance sur celle des Anglo-Américains et mille sur celle des Français. Les Allemands avaient les premiers compris la nature des déséquilibres monétaires européens et les avantages de monnaies flexibles. Plus tard, ils seront donc intellectuellement beaucoup mieux armés que nos énarques – sans même évoquer l’ignorance  économique crasse de Mitterrand – pour anticiper leur intérêt et accepter l’euro à leurs conditions. […] Les métaphores familières qui circulaient alors au ministère des Finances étaient souvent  à caractère sexuel. Une monnaie forte évoquait une érection bonne tenue.» (p. 171)

«L’objectif officiel de l’euro était, en ligotant le mark dans la monnaie unique, de maîtriser l’Allemagne. Une telle idée ne pouvait naître que dans le cerveau de  bureaucrates français qui, l’on a vu, contrairement aux Allemands, ne comprennent rien du marché. Maîtriser l’Allemagne, maîtriser l’économie. On peut encore attribuer au traité de Maastricht un troisième objectif : maîtriser le peuple français. Certains considéreront qu’il s’agit d’un procès d’intention. Mais tout ceci fut débattu en 1992. L’enjeu avait été formulé par Philippe Séguin lors de son discours du 5 mai 1992 devant l’Assemblée nationale : "L’alternative est claire : nous devons conserver notre souveraineté ou y renoncer." Il est difficile, quand on réécoute ce discours de plus de deux heures, moment d’éloquence et de lucidité parlementaire exceptionnel, de ne pas être frappé par son caractère prophétique :"‘Que l’on ne s’y trompe pas, la logique du processus de l’engrenage économique et politique mis au point à Maastricht est celle d’un fédéralisme au rabais fondamentalement antidémocratique, faussement libéral et résolument technocratique. Elle enterre la conception de la souveraineté nationale et les grands principes issus de la Révolution : 1992 est littéralement l’anti-1789."
 
Les acteurs de l’époque – Mitterrand excepté peut-être – étaient bien conscients qu’un État qui n’est plus maître de sa monnaie, de sa création monétaire, ne peut plus être un État démocratique au sens classique : "Ce qu’on nous demande d’abandonner, pour atteindre la prospérité, ce n’est pas seulement le droit de battre monnaie, c’est la possibilité de conduire une politique économique qui nous soit propre", notait encore Séguin.

Je ne saurais dire laquelle de ces trois dimensions – stratégie antiallemande, rigoriste économique ou antidémocratique – fut prédominante sur les tribunes où se mêlaient fraternellement, lors du débat de 1992, bateleurs socialistes et giscardiens. Ces trois dimensions se mêlent.

[…] Mais nous pouvons, après un quart de siècle, évaluer des succès pulsionnels relatifs.
L’objectif nº 1 de maîtrise de l’Allemagne a abouti à l’issue inverse : la soumission de la France à l’Allemagne.
L’objectif nº 2 d’amélioration de l’économie a conduit à la destruction de l’industrie française.
En revanche, reconnaissons-le, l’objectif nº 3 d’abolition de la démocratie a été atteint : le peuple français a été dépossédé de sa souverainité.» (pp. 173-4)

«Il ne s’agit pas ici de sous-estimer ce que représente l’idéologie du FN. Les origines d’extrême-droite de ses dirigeants historiques sont avérées. Son fonds de commerce est l’hostilité aux immigrés d’origine maghrébine, la haine ethnique. Mais, je puis vous l’assurer, s’opposer au lepénisme ne fait pas de vous un héros de la liberté et de l’égalité si vous avez, par ailleurs, privé le citoyen français de son droit de vote effectif, c’est-à-dire qui puisse servir à quelque chose. Tout au plus pouvez-vous vous présenter comme un oligarque libéral antiraciste.
Car, il faut bien se rendre compte, et c’est capital, qu’à partir de 1999 la démocratie représentative, au sens classique et conventionnel du terme, a cessé d’exister en France. Aujourd’hui, quand les classes supérieures parlent de démocratie ou de démocratie libérale, elles font preuve de cynisme, de déficience cognitive ou de fausse conscience au sens marxiste du concept. Car la démocratie représentative ne consiste pas simplement à voter. Je vais donner un exemple  extrême pour me faire comprendre : "des élections au Folketing (Parlement danois) ont été tenue au Danemark le 23 Mars 1943, sous l’occupation nazie. L’événement m’est apparu tellement irréel que j’en donne les résultats détaillés pour montrer qu’il a bien eu lieu."
[Na impossibilidade de apresentar o quadro, refiro (é a intenção do autor) que o partido nazi dinamarquês  obteve apenas 2,1% dos votos. Isto mostra o apego dos dinamarqueses à sua democracia, ainda que o Folketing não tivesse então qualquer poder.]» (pp. 182-3)

«Nous voici presque arrivés au temps présent, avec l’accession à l’Èlysée d’un président de la République de type nouveau à bien des égards – jeune, élu sans l’appui dans grand parti, refusant le clivage gauche-droite -, mais dont il convient de rappeler que, comme les précédents, il a perdu tout pouvoir. Dans la mesure où la France continue d’appartenir à l’Union européenne et à la zone euro, il ne peut pas modifier la politique commerciale ni gérer la monnaie. Sa seule marge de manœuvre réside dans la flexibilisation du marché de travail, la compression des salaires et des dépenses, la destruction des services publiques. Sous Macron, l’histoire politique reste une comédie.» (p. 223)

«Qui est Macron ? Son profil de base plutôt banal, au sein d’une hiérarchie socialiste qui fut, plus encore que celle de la droite, très "haute-bureaucratique". Il est inspecteur des Finances, il est passé un court moment par la banque, il a travaillé à l’Élysée avec Hollande, il a été ministre de l’Économie. C’est un personnage dont l’unique originalité est d’appartenir à une autre génération. Gardons en tête que le but fondamental du système politique français est d’organiser des pièces de théâtre successives qui doivent masquer l’absence de pouvoir économique réel du président : ce qui nous a donc été vendu cette fois-ci, c’est la jeunesse. Mais dans ses fondamentaux, Macron est comme les autres. Le passage par la banque, où beaucoup ont voulu voir une spécificité, en bien ou en mal, n’y change pas grand-chose puisque les banques, en France, reste sous la dépendance de l’État. Ajoutons à sa jeunesse un mariage assez original, il faut le dire, avec une femme plus âgée que lui. Macron est aussi le premier de nos présidents qui ait eu, avant d’entrer en politique, une petite formation de comédien – grâce à Brigitte, qui animait l’atelier de théâtre où ils se sont rencontrés.» (pp. 225-6)

«Au cœur du 18 Brumaire de Louis Bonaparte, nous l’avons dit dans la première partie de ce livre, on trouve une interrogation : comment un personnage aussi insignifiant a-t-il pu devenir président puis, par un coup d’État, empereur des Français ? Le problème Macron se pose exactement dans les mêmes termes. En tout cas, c’est ainsi que je le perçois depuis le début. Lorsque j’ai vu l’homme apparaître à la télévision, en candidat, j’ai été tout de suite frappé par sa parole vide, par ce qui m’apparaissait comme un enfilage de poncifs et de concepts creux.» (p. 228)

«Une fois prononcé le diagnostique d’un Macron incolore, inodore et sans saveur sur le plan intellectuel, nous restons confrontés à un problème d’ordre sociologique, que j’ai pu observer tout autour de moi comme dans les sondages : l’effet de fascination exercé par Macron sur certains secteurs de la société. La vacuité du président semble être entrée en résonance avec les aspirations, les besoins, les idées (le vide peut-être, tout simplement) de certaines catégories sociales. Mais, qui au fond, s’est donc identifié à ce dépassement du clivage gauche-droite, à cet euro-économisme creux, et, reconnaissons-le, à l’abandon bienvenu du thème ethno-religieux ?
Tout ce que j’ai pu lire sur les personnes qui ont encouragé Macron dans son ascension valide l’existence de ce groupe [a que Todd chama o Estado profundo], et surtout de son pôle étatique, comme point d’origine du macronisme. Beaucoup insistent sur les financements qu’il est allé chercher parmi les expatriés de Londres ou de New York, chez des activistes de start-up, ou sur ses relations avec quelques milliardaires français. Mais les grands patrons les plus âgés étaient plutôt fillonistes et si Macron a pu battre Fillon, c’est que les forces qui étaient derrière lui, en termes de financement ou de logistique, étaient ailleurs. Nous avons dit plus haut que la haute bureaucratie ne se limitait pas à l’inspection des Finances, qu’elle incluait aussi le monde de la justice. Et, de fait, celle-ci a rendu de grands services au candidat puis au président Macron : Fillon a été éliminé au moment où il fallait l’éliminer, plus tard Mélenchon détruit au moment où il fallait le détruire. La victoire de Macron démontre, en un sens, qui est le vrai patron en France : l’État libéré des partis, plutôt qu’un capitalisme sous perfusion. Le plus vraisemblable est donc qu’à travers Macron nous avons vécu l’arrivée directe au pouvoir de l’État devenu un acteur politique autonome.» (pp. 230-1)

«Depuis vingt ans, je me suis fait une spécialité d’insulter nos présidents. J’ai eu l’occasion de traiter Chirac de "crétin" sur France Inter, Sarkozy de "machin" sur France 3, Hollande de "nain" dans Marianne (je ne suis plus sûr). Mes estimations défavorables de leur niveau intellectuel n’étaient pas toujours justifiées (pour Chrirac et Sarkozy, du moins). Mais, dans toutes les cas, les journalistes me laissaient dire. Bon client, on s’amuse. Quand j’ai commencé à faire de même avec Macron, je me suis aperçu que, quel que soit l’interlocuteur, je touchais une corde sensible. Mettre en question l’intelligence supérieure du candidat puis du président Macron revenait à commettre un acte contre nature, impensable. Ceci est d’autant plus étrange que son parcours scolaire n’est pas sans faute. Il a raté le concours de Normale sup puis fait Sciences Po. Il est entré à l’ENA dont il est certes sorti inspecteur des Finances. Ce qui, comme on l’a dit plus haut, suppose, non pas un génie particulier, mais surtout de savoir se comporter en cireur de pompe efficace. Et, de fait, quand on lit ses biographies ou croise ses anciens condisciples, on constat que Macron a laissé, tout au long de son premier parcours, de lycée Henri-IV à Sciences Po, une flamboyante réputation de fayot : Agnan dans Le Petit Nicolas.» (p. 234)

«La sublimation de Macron en génie de la pensée par une partir considérable des Français d’en haut constitue un problème sociologique central. J’aurais aussi bien pu parler de "divinisation", d’ailleurs : qu’un gamin (et, on va le voir, un gamin mal élevé) puisse laisser qualifier sa présidence de "jupitérienne" sans faire rire nous met sur la piste d’une situation réellement psychopathologique de la petite bourgeoisie CPIS, qui semble se complaire désormais, non seulement dans la dénégation de la réalité, mais dans son inversion.» (p. 237)

Já me alonguei demasiado com citações, tanto mais necessárias quanto não quero, ao resumir, atraiçoar o pensamento do autor. Mesmo assim, ainda algumas outras antes de concluir.

«Résumons-nous. Le vote Le Pen existe, stable en structure de 2012 à 2017. En 2017, il détermine à 86% (R2) le vote Macron. Voter Macron, dès le premier tour, c’est donc voter contre Le Pen. L’acte n’a pas d’autre contenu. Ce qui nous permet de comprendre pourquoi le vide programmatique de Macron n’a pas représenté un problème pour son électorat. Dans la mesure où le Front national n’a aucun projet national positif, nous pouvons désormais affirmer que le macronisme, c’est d’une certaine façon la négation d’un zéro. Et surtout montrer à quel point la macronisme signifie l’absence de projet dans la petite bourgeoisie CPIS pour laquelle Le Pen semble être devenue un élément de structuration idéologique et mental nécessaire : la lutte contre le populisme (ou contre le peuple lui-même) est devenue son seul projet. Voilà qui est hautement compatible avec notre vision d’un pouvoir politique français impuissant dans l’Union européenne et la zone euro.» (pp. 248-9)

O autor debruça-se depois sobre o aparecimento dos Gilets Jaunes em 2018 e sobre o seu perfil sociológico. Explica depois, segundo os dados estatísticos, que a maior parte dos Gilets Jaunes pertence às categorias mais desfavorecidas, que designa de proletariado (26% de operários e 21% de empregados). Segundo a amostra estudada, 29% votaram por Marine Le Pen em 2019  e 17% por Jean-Luc Mélenchon, totalizando os votos brancos e as abstenções 27%. É muito interessante a análise sociológica a que procede, identificando as categorias profissionais e a sua implantação no território francês. Uma sondagem da população em 6-7 de Novembro 2018 indica que os Gilets são apoiados por 51% e recebem a simpatia de 20% dos franceses, isto é, um total de 71%.

A propósito dos Gilets Jaunes, Todd reserva o penúltimo capitulo a “A reacção macronista: o novo partido da ordem e o anti-semitismo 2.0”, em que discorre sobre a posição do Rassemblement National, a favor dos Gilets mas também a favor da Polícia (uma posição ambígua), já que é suposto que metade dos gendarmes e dos polícias votam Marine Le Pen. Por outro lado, Todd aponta a posição dos jornalistas e dos juízes a favor de Macron e menciona o Grand Débat macroniano como uma farsa única na história da França. Escreve ainda Todd: “J’ai pu y déclarer, dans l’une de ses émissions foutoirs improvisées qui contribuent à l’originalité et à la grandeur de la France, que le mouvement des Gilets jaunes m’avait rendu ma fierté d’être français.’ (p. 310)

Sobre a instrumentalização do anti-semitismo pelo Poder, tentada por Emmanuel Macron contra os Gilet Jaunes, Todd escreve : «L’antisémitisme classique se contente de dire que les Juifs sont des êtres nuisibles, disposant non seulement d’argent mais surtout d’un pouvoir occulte et malfaisant. Avec le macronisme, nous sommes confrontés à un procédé plus subtil : on accuse les milieux populaires français, dont les préoccupations sont tout autre, d’être antisémites. On se présente en défenseurs des Juifs que personne n’attaque en réalité – en tout cas pas de ce côté-là. Ce faisant, on tente de remettre, de manière subliminale, le Juif au cœur des problèmes sociaux français.» (p. 314) Esta campanha foi desencadeada com o pretexto de uma agressão verbal contra Alain Finkielkraut que interpelou uma manifestação dos Gilets Jaunes.

«Voilà pourquoi, en tant que citoyen français d’origine juive je ne suis pas tellement rassuré d’avoir pour protecteur un petit bourgeois de province président, même et surtout s’il est passé par la banque Rothschild, secondé par un ministre de l’Intérieur qui a commencé sa carrière en jouant au poker avec des truands marseillais. Ces deux-là nous parlent trop des Juifs. Cette boue-là ne renvoie pas à la bonne histoire, celle du J’accuse de Zola» (p. 317)

Sobre as eleições europeias de 2019, Todd escreve: “Dans l’espace théoriquement compris entre ces deux extrémismes de droite, le RN (représentant une violence xénophobe  et verbale) et LREM (représentant une violence bourgeoise, verbale et physique), on trouve toujours presque 55% d’un électorat qui a atteint un niveau de pulvérisation extrême, incarné au premier chef par le nombre record de listes présentées : 34.» (p. 321)

Listas apresentadas : 34
Total de 32 listas – 54,3%
RN – 23,3%
LREM – 22,4%

«Nous constatons déjá toutes sortes de remises en question des libertés fondamentales, dénoncés par des avocats : des comparutions immédiates et des incarcérations abusives, une fermeture croissante du système médiatique à la critique. Savoir à quelle stade on pourra parler de "coup d’État" n’est pas évident. En arrivera-t-on à la suppression des élections, dont j’ai dit tout au long de ce livre qu’elles étaient devenues une comédie ? Sera-t-elle convaincante ou si ridicule qu’elle provoquera dans l’opinion un rejet, qui obligerait à s’en passer ? Je ne sais pas, mais nous devons garder l’esprit ouvert, mieux, placer d’avance dans notre réflexion une case "nouveautés impensables". Les vraies catastrophes historiques surviennent lorsqu’on n’a pas été capable d’imaginer le pire. Ce qui a rendu possible le fascisme ou le nazisme, c’est que, à l’exceptions d’eux-mêmes, personnes ne les avait imaginés.

Bien entendu, ainsi que je l’avais dit le 3 Octobre 2018, peu avant la crise des Gilets jaunes, lors d’une conférence organisée à Sciences Po par Étienne Campion et le groupe Critique de la raison européenne ("Qu’est-ce que le macronisme ?"), un tel coup d’État exigerait l’accord, voire la participation, du Rassemblement national qui, implicitement, contrôle la moitié des forces de l’ordre et de l’armée, les hommes du rang plutôt que les grades d’ailleurs. Une tel hypothèse semblera absurde à qui prend au sérieux la théorie de l’affrontement inexpiable de l’élitisme macroniste et du populisme frontiste. Mais si nous nous souvenons du fond idéologique commun aux deux forces – abolition fascitoïde de la distinction gauche-droite, désignation d’un ennemi intérieur et inférieur (les immigrés, le populo), violence implicite des conceptions politiques lepénistes et macro-bénalistes -, une telle convergence n’a rien d’inconcevable. Au niveau des "valeurs", en tout cas.» (p. 356)

«Je n’emploie pas le terme ‘fascistoïde’ à la légère à propos de Macron. Une démocratie ne peut fonctionner qu’avec les notions de gauche et de droite. Elle est d’alternance ou elle n’est pas. Dès qu’un parti se dit "ni de droite ni de gauche", qu’il s’agisse du lépenisme ou du macronisme, nous commençons de remonter plus ou moins vite vers les sources du fascisme. Avec le concept d’UMPS, le FN s’est défini comme non républicain ; en annonçant la fin du clivage gauche-droite, Macron s’est aussi défini comme non républicain. Ce qu’on constate dans son usage de la police, dans son usage de la violence, dans les restrictions des libertés, dans sa tentative d’instrumentalisation de la question juive, évoque pour moi une sortie du républicanisme.

La grande faiblesse du macronisme autoritaire, c’est cependant son conformisme économique, son attachement puéril aux conceptions les plus éculées de la rigueur budgétaire, pour tout dire son retour au pré-keynésianisme, au XIXe siècle. "Réduire la dépense publique tout en s’enrichissant soi-même", je l’ai suggéré plus haut, pourrait être la devise de l’ENA 2.0. Seulement, réprimer coûte cher. Il faut investir dans la police et bien au-delà de quelques primes de circonstances ; il faut construire des prisons qui soient autre chose que des lieux d’entassement de Gilets jaunes et de jeunes des banlieues, lieux de fusion de l’opposition à venir. L’absurdité intrinsèque du système euro est qu’il stimule les conflits sociaux tout en restreignant les moyens d’y faire place sur le plan répressif. Le fascisme était économiquement expansionniste, il se donnait les moyens d’une relance, non seulement par la construction de routes et de voies ferrées, de projets industriels, mais aussi en débloquant des crédits pour la police et l’armée. Macron, dont nous avons déjà suggéré qu’il n’était pas Machiavel, n’est décidément pas non plus Mussolini.

Mais retournons à Marx et à son 18 Brumaire, même s’il est difficile de se représenter Macron en futur Napoléon III. […] On relèvera toutefois qu Napoléon III vivait dans un monde dynamique et qu’il a présidé à une accélération de la révolution industrielle en France. Macron, s’il réalisait une forme de coup d’État, se retrouverait face au même double problème :

1)    Il n’est pas le patron puisqu’il obéit à l’Allemagne ;
2)    Le niveau de vie va continuer à baisser.

Je ne vois pas très bien comment le dictateur d’une nation qui perd son systéme industriel, s’enfonce dans la pauvreté et dans l’obéissance à une puissance étrangère, pourrait s’en sortir à long terme. Mais je dois avouer que j’arrive ici au bout de mon imagination historique.» (pp. 357-8)

Terminei este post que resultou muito mais longo do que a minha previsão inicial. Mas tinha de ser. Não subscrevo integralmente as conclusões de Emmanuel Todd, mas, no essencial, concordo com a sua análise da situação em França. E recordo que este livro foi escrito ainda antes da eclosão da pandemia que afecta terrivelmente o mundo. Fosse-o depois e o pessimismo do autor seria certamente mais profundo.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A PESTE DE LONDRES




Em 1722, Daniel Defoe (1660-1731) publicou A Journal of the Plague Year, de que existe uma tradução portuguesa, da autoria de João Gaspar Simões, com o título Diário da Peste de Londres, editada em 1964.

Escritor, jornalista, panfletário, mas também comerciante empenhado nos seus negócios, Daniel Defoe (aliás Daniel Foe, segundo registo de baptismo) foi autor de numerosas obras e inúmeros panfletos, mas ficou famoso pelo seu livro Robinson Crusoe (1719), pioneiro do moderno romance europeu.

No Diário da Peste de Londres, o autor conta, como testemunha presencial, a situação vivida em Londres, em 1665, aquando da grande peste que assolou a cidade. É evidente que Defoe, que tinha cinco anos na alura dessa epidemia, não poderia relatar os factos tal como descritos. Todavia, a obra é assinada por um misterioso H.F., o que nos remete para a hipótese de se tratar de Henry Foe, tio do autor, correeiro em Wood Street. Assim, muito provavelmente, Daniel Defoe terá baseado a sua narrativa num diário escrito pelo tio, contemporâneo dos acontecimentos.

A publicação da obra em 1722 deveu-se talvez à nova ameaça do continente europeu em consequência da Grande Peste de Marselha (1721), importada do Médio Oriente e trazida por passageiros e tripulação de um navio que aportou naquela cidade do sul de França.

Foi em Setembro de 1664 que começou a ouvir-se falar em Londres de que a peste voltara a aparecer na Holanda, e os primeiros óbitos em Inglaterra verificaram-se em Dezembro de 1664. As várias paróquias londrinas foram sucessivamente contaminadas. Com o pânico que se apoderou das populações, muita gente, a que pôde, abandonou a cidade, deixando os seus haveres à guarda de terceiros. A Corte retirou-se para Oxford e parece que nenhum membro da família real foi contaminado. Os pregadores proferiam sermões em que denunciavam um castigo divino, as igrejas enchiam-se de fiéis, o que só facilitava a propagação do mal, e de toda a parte surgiam bruxos, charlatães e adivinhos, vendendo pílulas e poções, feitiços e amuletos, praticando exorcismos. «Eram frequentes as proclamações deste jaez: "Pílulas preventivas infalíveis contra a peste", "Preservativos absolutamente garantidos contra o mal", "Cordiais soberanos contra a corrupção no ar", "Poção incomparável contra a peste, pela primeira vez descoberta", "Remédio universal para a peste", "O único verdadeiro elixir da peste", "O antídoto real para todas as infecções conhecidas"» (pp. 53,54). E havia cartazes pela cidade com o domicílio de pessoas capazes de curar o mal. Abundavam os aldrabões que a todos ludibriavam com as suas promessas, propondo-se afastá-lo com sinais da cruz, signos do zodíaco, palavras ou figuras, especialmente a palavra ABRACADABRA, em triângulo ou em pirâmide. Os espectáculos públicos foram naturalmente proibidos e o Lord-Mayor publicou Ordenações relativas ao comportamento da população durante a epidemia e nomeou inspectores encarregados de verificar o cumprimento das determinações. Teriam de verificar quais as casas contaminadas, impedir que os doentes abandonassem os domicílios, cuidar dos doentes e dos pobres, providenciar ao enterramento dos mortos, etc. Procedeu-se à limpeza das ruas e interditados ajuntamentos, banquetes e lojas de bebidas. O autor procede a uma descrição minuciosa da vida quotidiana da cidade e do alastrar imparável da peste de bairro para bairro. O facto de se terem avariado os carros de combate aos fogos deixou que se propagassem numerosos incêndios.

Verificou-se uma grande negligência dos habitantes que, advertidos da chegada da calamidade, não tomaram as providências necessárias, inclusive no abastecimento de bens essenciais de alimentação, o que lhes permitiria terem permanecido nas suas casas evitando a contaminação. Como muita gente ignorava que já tinha contraído a peste, só o sabendo quando esta atacava os órgãos vitais, as pessoas morriam subitamente em qualquer sítio. Os cadáveres amontoavam-se nas ruas ou nos vãos de portas onde se sentavam. O aprovisionamento dos mercados tornou-se difícil e os vendedores que vinham do campo deviam transaccionar rapidamente os seus produtos e regressar a casa.

A peste provocava graves distúrbios mentais. Havia quem, em sinal de contrição, clamasse publicamente na rua os seus mais graves pecados, quem se suicidasse em casa e quem, já contaminado, se atirasse vivo para as valas que não paravam de se abrir. Na cidade exisitia apenas um hospital, mas a peste era mortal e não havia remédio que valesse.

Os vigilantes que tomavam conta dos doentes muitas vezes apressavam-lhes a morte para ficarem com os bens e os roubos eram praticados em larga escala, especialmente em casas onde toda a família já morrera, não existindo assim qualquer ocupante.

Segundo o autor, a peste chegou a dizimar 4.000 pessoas por semana. Os funerais religiosos deixaram de ter lugar e os cadáveres eram arrastados para o cemitério e lançados em valas comuns. Como normalmente acontece, os pobres foram os mais atingidos, e, no entanto, «Temos de reconhecer que se a peste grassou sobretudo entre os pobres, estes é que se mostraram mais ousados e destemidos, e foram eles que prosseguiram nas suas tarefas com uma coragem animal; que assim tenho de lhe chamar, já que não vejo fundamentos para isso na religião ou na prudência. Quase dispensavam precauções, lançando-se a tudo que lhes pudesse proporcionar trabalho, fossem quais fossem os riscos; tratavam dos doentes, vigiavam as casas fechadas, transportavam os contagiados ao hospital e, coisa bem pior, retiravam os cadáveres das casas para os levar para a cova.» (p. 133).

O Lord-mayor adoptou disposições para distribuir somas destinadas aos mais necessitados e também para proteger as classes que na ocorrência se viram mergulhadas na miséria: os mestres operários das manufacturas (vestuário, adornos, calçado, luvas, chapéus, marceneiros, estofadores, etc,); fragateiros, carregadores e profissões similares, já que poucos navios subiam o rio; os empregados da construção civil (pedreiros, carpinteiros, pintores, vidraceiros, ferreiros); os trabalhadores ligados à construção e abastecimento de navios; os que foram despedidos ou abandonados porque as famílias reduziram o seu trem de vida ou fugiram da cidade (lacaios, criados, caixeiros, marçanos, escriturários, criadas de servir). Também as pessoas de boa vontade contribuíram com as suas dádivas para minorar o sofrimento dos que perderam o seu pão quotidiano. Isto tornou possível atenuar a miséria na cidade e impedir que houvesse desordens, saques e assaltos.

Os boletins semanais de saúde raramente são rigorosos, e nas circunstâncias da peste de Londres terão sido muito mais falíveis, mas o autor apresenta, com as devidas reservas, os seguintes dados, relativos à mortalidade no período decorrente entre 8 de Agosto e 10 de Outubro do fatídico ano: 59.970 mortos, dos quais 49.705 devidos à peste, isto é, 83%. O número total de óbitos registados, em consequência da peste, é estimado em 68.590, mas o autor é de opinião que deverão ter morrido mais de 100.000 pessoas.

«Suponho que toda a gente ouviu falar de Salomon Eagle, esse entusiasta (nome dado aos que apenas se deixavam governar pelo Espírito Santo). Embora não contagiado, a não ser no cérebro, ia rua fora, às vezes completamente nu, com uma panela cheia de carvão em brasa em cima da cabeça, anunciando, em termos assustadores, a chegada do juízo final para a cidade. O que ele dizia ou o que ele queria, nunca eu o pude, realmente, entender.» (pp. 151-2)

Algumas medidas seriam hoje consideradas cruéis, mas no meio do horror descrito talvez tenham sido aceites sem graves objecções. «Porque é que nos foi dada ordem de matar todos os cães e gatos, senão porque, os animais domésticos, habituados a correr de casa em casa e de rua para rua, podem transportar no pêlo ou nas peliças os eflúvios pestilenciais dos corpos infectados? Por essa mesma razão é que no princípio da epidemia o lord-mayor e os magistrados, segundo o conselho dos médicos, publicaram uma postura segundo a qual todos os cães e gatos deveriam ser imediatamente condenados à morte, sendo nomeado um oficial de polícia para fiscalizar a boa execução da ordem.» (p. 176) Terão sido mortos 40.000 cães e 200.000 gatos! 

«Muitas vezes pensei no estado de imprecaução em que se encontrava a grande massa do povo na altura em que esta calamidade caiu sobre ela e no erro das medidas tomadas em tempo útil, causa de toda a confusão que se seguiu. Essa foi a causa do número prodigioso de pessoas que sucumbiram nesse desastre, quando é certo que isso tinha podido evitar-se, com a ajuda da Providência, se medidas convenientes houvessem sido tomadas; e a posteridade poderá, se assim entender, tirar daí a melhor lição. Mas voltarei a falar deste assunto.» (p. 177)

 «Enquanto desempenhei as minhas funções, não pude deixar de exprimir junto dos meus vizinhos a minha opinião sobre a reclusão das pessoas em casa; era mais que evidente que as medidas rigorosas assim aplicadas, além de serem em si mesmas muito penosas, tinham ainda contra si não corresponderem de maneira nenhuma ao fim proposto, visto os doentes passearem todos os dias pelas ruas; e era voz corrente ter sido muito mais sensato, a todos os títulos, um método em virtude do qual se afastassem os sãos dos enfermos, depois de visitadas as casas. Nesse caso apenas se teriam deixado junto das pessoas contagiadas aquelas que, na ocorrência, tivessem pedido para ficar, declarando-se prontas a suportar a reclusão com os doentes. O nosso plano no sentido de se afastarem os de perfeita saúde dos enfermos não seria aplicado senão nas casas infectadas, e confinar os doentes não era propriamente prendê-los; os que não pudessem mexer-se não se queixariam enquanto estivessem lúcidos e dispusessem de cabeça para raciocinar. Com efeito, quando chegavam ao delírio e à inconsequência, era certo protestarem contra a crueldade da reclusão; mas, pelo que toca ao afastamento dos de saúde, achávamos ser altamente justo e razoável, para seu próprio bem, separá-los dos doentes e, para segurança das outras pessoas, conservarem-se isolados algum tempo, até ter-se plena certeza de que estavam indemnes e não podiam infectar os demais; em nossa opinião, vinte ou trinta dias chegavam para isso. Ora não há dúvida de que, se se tivessem preparado casas expressamente onde os indivíduos de saúde cumprissem a sua semi-quarentena, estes teriam muito menos razão para se considerarem lesados com semelhantes medidas que com a reclusão dos doentes nas próprias casas.» (pp. 242-3)

«Foi, com certeza, graças à gestão admirável dos referidos magistrados que as ruas se mantiveram sempre isentas de espectáculos assustadores como de cadáveres ou de coisas indecentes ou desagradáveis, a menos que alguém caísse repentinamente morto na via pública, como já se disse; mesmo nesses casos cobriam geralmente o corpo com uma manta ou uma coberta, quando não o transportavam para o cemitério mais próximo, até à noite. Todas as tarefas indispensáveis que implicavam elementos de terror, as que eram ao mesmo tempo lúgubres e perigosas, faziam-se de noite; à noite é que se retiravam de casa os doentes, se enterravam os mortos ou se queimavam as roupas infectadas; e à noite, outrossim, eram transportados todos os cadáveres para as valas comuns dos diversos cemitérios, como tive ocasião de referir; deste modo tudo estava raso de terra e fechado antes de amanhecer. E o certo é que de dia não se viam sinais da calamidade, não se ouvia nada a esse respeito, a não ser o vazio das ruas ou os gritos e lamentações veementes que por vezes as pessoas soltavam das suas janelas ou ainda o grande número de casas e de lojas fechadas.» (p. 263-4)

«Aqui outrossim devo fazer uma observação, em proveito dos que vierem depois, a respeito da maneira como as pessoas se contagiavam umas às outras: não era apenas dos doentes que se recebia directamente o mal, mas também dos de perfeita saúde. Eu explico-me: por doentes entendo aqueles que eram reconhecidos como tal, que estavam e cama, que tinham recebido tratamento e que apresentavam inchaços ou tumores. Desses, por conseguinte, toda a gente se defendia; ou estavam na cama ou em tal estado que era impossível ocultá-lo. Por de perfeita saúde entendo aqueles que haviam sido contagiados, que tinham a doença em si e no próprios sangue, embora o seu aspecto exterior nada revelasse do seu estado; mais ainda, nem eles próprios se davam conta disso, como acontecia a muita gente durante vários dias. Esses exalavam a morte por todos os lados e a todas as pessoas que deles se aproximavam; até as suas roupas tinham a infecção, as suas mãos contaminavam os objectos que tocavam, sobretudo se quentes e húmidas, o que acontecia a cada passo.» (p. 270)

«Neste ponto é mister que eu observe também que a peste, como todas as doenças, ao que suponho, agia de maneira diferente consoante a constituição de cada um. Havia quem ficasse logo prostrado e a peste manifestava-se nesses através de febres intensas, vómitos, dores de cabeça insuportáveis, dores nas costas, sofrimentos que levavam o doente a um furor delirante. Tinham outros, inchaços e tumores no pescoço ou na virilha ou ainda nas axilas, os quais até ao momento de rebentarem, causavam angústias e tormentos insuportáveis. Noutros ainda, enfim, como já observei, a infecção mantinha-se secreta e a febre minava insensivelmente os espíritos sem que eles o sentissem antes de caírem desmaiados e de passarem sem sofrimento do desmaio à morte.» (pp. 283-4)

 «É preciso, com efeito, frisar, para maior glória da população londrina, que nunca, em momento algum da epidemia, as igrejas ou assembleias estiveram inteiramente fechadas e que ninguém se recusou a assistir ao culto público de Deus, a não ser em certas paróquias onde a doença grassava com particular violência; mesmo assim, a abstenção não se manteve tanto quanto a própria violência.» (p. 294)

«No que respeita ao comércio externo, não há muito a dizer. Todas as nações comerciais da Europa tinham medo de nós; nenhum porto da França, da Holanda, da Espanha ou da Itália queria receber os nossos navios ou trocar correspondência connosco.» (p. 300)

«As dificuldades ainda eram maiores em Espanha e Portugal, onde não consentiam, por preço algum, que os nossos navios, especialmente os de Londres, entrassem nos portos e muito menos ainda descarregassem as mercadorias. (...) Também ouvi dizer que a peste fora levada para esses países por alguns dos nossos navios, particularmente através do porto de Faro, no reino do Algarve, que pertence ao rei de Portugal, e que várias pessoas aí pereceram, mas não tenho confirmação do caso.» (pp. 302-3)

«Toda a espécie de ofícios manuais da cidade, quer se tratasse de artesãos quer de lojistas, se encontravam, como disse, sem emprego, o que provocou o despedimento e o desemprego de inúmeros jornaleiros e trabalhadores, uma vez que nesses ramos só se efectuava o trabalho estritamente necessário.» (p. 314)

«... o nosso comércio manufactureiro sofreu muitíssimo, e os pobres por toda a Inglaterra sofreram as consequências da calamidade que pesara unicamente sobre a cidade de Londres. No ano seguinte, é certo, proporcionou-se-lhes ampla compensação o facto de outra terrível calamidade ter caído sobre Londres; assim, graças a uma calamidade, a city empobreceu e enfraqueceu o país, e graças a outra, igualmente tão terrível no seu género, enriqueceu-o e compensou-o. Efectivamente, quantidade infinita de móveis, de roupas e outros artigos, sem contar arsenais inteiros de mercadorias e objectos manufacturados, produzidos em toda as regiões de Inglaterra, foram devorados no incêndio de Londres, no ano seguinte ao desta terrível provação. É de calcular a prosperidade que essa destruição trouxe ao comércio de todo o reino quando se tratou de remediar a penúria e de reparar as perdas. Numa palavra, todos os operários do país tiveram trabalho e quase não chegaram para abastecer o mercado e responder à procura.» (p. 315)

Não cabe aqui descrever as desgraças tão minuciosamente relatadas por Defoe, que discorre sobre os mais estranhos comportamentos humanos durante a epidemia. O livro pretende, e consegue, dar-nos um retrato bastante fiel da vida quotidiana na cidade, numa época de fracos recursos sanitários e de rudimentar organização da sociedade.

Também é interessante referir que, após a passagem da epidemia, as pessoas regressaram aos seus antigos costumes e a peste nada modificou nas atitudes daqueles que conseguiram sobreviver. E o grande incêndio de Londres, no ano seguinte, foi como uma espécie de purificação  da cidade. Nem mesmo os que clamavam, a maioria, tratar-se de um castigo de Deus, modificaram os seus costumes.

O livro termina assim:

«Não posso continuar. Dir-se-á que não passo de um censor e acabariam por taxar-me de injusto, se me entregasse à desagradável tarefa de censurar, fosse qual fosse a causa, a ingratidão e a regressão  entre nós da iniquidade sob todas as suas formas, tal como o pude verificar com os meus próprios olhos. Concluirei, pois, o relato deste ano de calamidade com a estrofe, muito imperfeita, é certo, mas sincera, que pus no fim das minhas notas ordinárias, no próprio ano em que foram escritas: -


Medonha peste houve em Londres
no ano sessenta e cinco,
Cem mil pessoas morreram 
Mas eu, contudo, escapei.

H.F.


Lendo atenta e integralmente o livro de Daniel Defoe, conclui-se que, hoje como ontem, são muito semelhantes as reacções às grandes epidemias que assolam o mundo.


sábado, 23 de maio de 2020

HITLER, UM FILME DA ALEMANHA



Em 1977, o cineasta alemão Hans-Jürgen Syberberg apresentou um filme polémico, mas muito interessante, intitulado Hitler, ein Film aus Deutschland (Hitler, um filme da Alemanha), que foi exibido no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian em 15 de Março de 1980, sessão a que tive o privilégio de assistir, e em que obtive, no programa, um autógrafo do realizador.

Trata-se de uma abordagem sui generis de Syberberg, sobre as causas do nazismo, a criação do III Reich e as suas consequências. Recorrendo a uma poderosa simbologia, só totalmente apreensível por todos aqueles que tiverem um conhecimento profundo do percurso do Führer e da história da Alemanha (e da Europa) na primeira metade de do século passado, o autor encena a desmontagem da encenação que permitiu a ascensão de Adolf Hitler ao poder e o estabelecimento do regime nacional-socialista na então República de Weimar.

O filme, com a duração de sete horas, está dividido em quatro partes: 1) O Graal - Do Freixo Cósmico ao Carvalho de Goethe e às Faias de Buchenwald ; 2) Um Sonho Alemão... Até ao Fim do Mundo; 3) O Fim de um Conto de Inverno e a Vitória Final do Progresso; 4) Nós os Filhos do Inferno Recordamos a Era do Graal.

A película é falada em alemão (com legendas em inglês passando muito rapidamente) e parcialmente em inglês (sem legendas).

Inicialmente exibido nos Institutos Goethe, o filme só alcançou grande divulgação quando a sua distribuição passou a ser assegurada por Francis Ford Coppola que, inclusive, lhe alterou provocatoriamente o título, acrescentando a palavra "Nosso". Assim, passou a designar-se Our Hitler, a film from Germany.

As imagens não seguem propositadamente uma ordem cronológica, mas constituem pedaços da abordagem ensaiada por Syberberg para nos contar episódios reais ou fantasmáticos da Alemanha nazi. As personagens verdadeiras do regime raramente aparecem (apenas em excertos de filmes da época), sendo desempenhadas por bonecos ou por actores ridiculamente caracterizados.

Na primeira parte é narrado o fim da República de Weimar e é anunciada, num circo, a chegada de Hitler, o Napoleão germânico. E evocada a ideia de que "Hitler está dentro de nós" e que "Auschwitz é a batalha ideológica da guerra racial".

Na segunda parte do filme, entre outras coisas, assiste-se à saída do espírito de Hitler (personificado por um actor) do túmulo de Richard Wagner (uma ressurreição?), proferindo uma alocução, entrecortada pela transmissão radiofónica de trechos dos discursos de Goebbels, lui-même. Enquanto são projectadas as salas e o gabinete do Führer na Chancelaria do Reich, um actor incarna o papel de criado pessoal de Hitler, contando, ao som do Rienzi, os pormenores da vida quotidiana deste, e também o passeio incógnito de ambos, pelas ruas de Munique, em tempo de Natal, com referência ao Café Luitpold e à residência da Prinzregentenplatz. E ainda a neve caindo sobre Obersalzberg, onde ficava o Berghof, a residência de férias de Hitler.

Na terceira parte, surge Himmler (interpretado por um actor) em diálogo com o seu massagista secreto, conversando sobre os grandes homens e sobre a filosofia hindu. E também sobre os campos de concentração e o extermínio dos judeus. Afirma que a Alemanha é Hitler e Hitler é o Mundo, e discorre sobre a pureza da raça ariana. Curiosamente, troca impressões com o massagista sobre assuntos da política alemã e interroga-se se não deveria ser também ministro da Cultura, o que estaria de acordo com as suas funções de chefe da polícia nazi e corresponderia ao pensamento do Führer. Há também uma conversa interessante de "Himmler" com o seu astrólogo e referências a Heydrich e às suas interpretações musicais de Mozart, bem como às preocupações esotéricas do Reichführer SS.

Na última parte, aparece um actor lendo textos sobre as afirmações de Hitler, os princípios do nacional-socialismo e a crítica dos mesmos, enquanto, em fundo, são projectados excertos de filmes da época, mostrando especialmente paradas militares. Há, ao longo desta parte, inúmeras referências ao Graal, a Parsifal e à Tetralogia Wagneriana, a Constantino o Grande, Carlos Magno, Otão I, Frederico II, ao Santo Império Romano-Germânico, que Hitler pretendia incarnar (o Terceiro Reich), a Bruckner, a Nietzsche, à Civilização Ocidental,  não excluindo também críticas à República Federal da Alemanha. Segue-se uma imaginada "Disneylândia", em Berchtesgaden, evocativa da residência de Hitler, uma espécie de museu de figuras de cera do regime nazi, com toda a simbologia correspondente. Este centro fictício de atracções (a residência estival de Hitler foi destruída pela aviação aliada, exactamente para evitar romarias de saudade) convoca numerosos visitantes e é suposto ser mantido com o dinheiro dos árabes e a gestão dos israelitas! No fim, surge uma criança trazendo ao colo um boneco, que representa Hitler.

A célebre ensaísta Susan Sontag considerou o filme "one of the 20th century’s greatest works of art". Jean-Pierre Faye escreveu em 1978: «Nos anos 20, Breton e Aragon quiseram fazer uma terceira parte do Fausto. É contudo Hans-Jürgen Syberberg quem acaba de criar esse terceiro "Fausto", simultaneamente inevitável e impossível, que a Alemanha parece esperar desde Goethe. Essa obra foi agora composta com a matéria terrível da própria história alemã. Nesse espaço onde ela mergulha e nos atira à cara as suas galáxias».

Não é possível resumir em algumas linhas as sete horas do filme, abundantemente carregado de toda a mitologia germânica que o regime nazi abundantemente utilizou na prossecução dos seus propósitos.  Por vezes, tem-se a sensação de que o filme é demasiado longo, mesmo para transmitir a mensagem do realizador, mas a crítica que se pode verdadeiramente fazer é que muitas passagens são de difícil compreensão para quem desconheça, ou conheça imperfeitamente, este período da história da Alemanha. Com o passar do tempo, tornar-se-á mesmo largamente ininteligível inclusive para os próprios alemães. Mas permanecerá como obra cinematográfica de culto.