domingo, 22 de março de 2020

HISTÓRIAS VIRAIS




Dado o inegável interesse geral, transcrevo com a devida vénia (em tradução minha) o artigo 'Récits viraux' publicado em "Le Nouveau Magazine Littéraire" deste mês (Nº 27), por Alexis Brocas:

O CORONAVÍRUS DESPERTOU FANTASMAS ANTIGOS EM QUE SE MISTURAM RUMORES, ODORES RACISTAS E ANGÚSTIAS DE TRANSGRESSÃO. COMO AS CALAMIDADES QUE SE ABATEM SOBRE A CIDADE NO ÉDIPO REI, OU SOBRE O EGIPTO NO ANTIGO TESTAMENTO

A epidemia do coronavírus inspirou uma ficção colectiva e racista: a que pinta os chineses como comedores de morcegos na sopa. Isto lembra uma outra ficção colectiva e racista, nascida com a sida, segundo a qual o vírus teria passado dos macacos do Camarão ao homem via uma relação sexual. Certamente, ambas as ficções são falsas: os morcegos acolheram provavelmente os vírus, mas os chineses não os incluem na sua gastronomia. Eles são, pelo contrário, consumidos na sopa nas ilhas de Palaus, na Micronésia (sem qualquer caso conhecido de contaminação), e foram, parece, as imagens de uma blogger chinesa saboreando esta especialidade local que lançaram o rumor. Igualmente, estabeleceu-se que a sida passou dos macacos aos homens via feridas de caça ou consumo de carne do mato. Mas estas ficções são reveladoras: ambas colocam, nas origens da epidemia, uma transgressão, um acto de consumo antinatural e bestial, em todos os sentidos do termo. Ambas encaram a doença como um castigo atingindo a comunidade em resposta à falta de um ou de alguns indivíduos culpados de bestialidade - e daí a sua conotação racista. E estas ficções racistas beneficiam, infelizmente! de uma difusão também ela epidémica: desde A Peste, de Camus e Rinoceronte, de Ionesco, sabemos que a metáfora da doença descreve de forma muito exacta a maneira como as ideologias mortíferas e o seu cortejo de ficções odiosas se transmitem de um cérebro a outro e transformam os seus proprietários em carrascos potenciais de bodes expiatórios designados.

A ideia segundo a qual a transgressão de um só atrai uma epidemia sobre uma multidão é muito antiga. Encontra-se desde Édipo Rei, de Sófocles. O começo da peça mostra a cidade de Tebas entregue a uma epidemia de peste. Édipo deverá elucidar a razão pela qual o Olimpo infligiu essa calamidade à cidade. E essa razão é, evidentemente, ele mesmo, Édipo, e a dupla transgressão - parricídio e incesto - que ele cometeu de nada sabendo. Uma dupla transgressão que viola dois tabus fundamentais das sociedades humanas. Acrescentam-se aqui as subtilezas próprias do mito: os deuses manipulam Édipo para o levar a transgredir as leis dos homens, depois castigam toda a cidade por essas transgressões que eles mesmos cometem alegremente. Hoje, dir-se-ia injunções contraditórias.

Com a mesma ideia e no Antigo Testamento, a história das pragas convocadas por Moisés sobre o Egipto pode ler-se como uma ficção inventada a posteriori justificando, pelo crime de um só, um desencadear de calamidades naturais para as quais os cientistas de hoje encontraram explicações concretas: seca, contaminação das águas pelas algas vermelhas, enxame de mosquitos e epidemia de leishmaniose... No conto bíblico, o autor do crime original é o Faraó, que se opõe à vontade do verdadeiro Deus recusando deixar partir o povo eleito. Com uma variante notável: o Faraó não transgride adoptando um comportamento bestial mas afirmando-se como representante de falsos deuses. O crime de orgulho idólatra é maior que o de bestialidade? O resultado, em qualquer caso, é o mesmo: o mal abate-se sobre a colectividade.

Hoje, tendemos a acreditar que o pensamento conspirativo vive uma idade de ouro graças às redes sociais capazes de o propagar instantaneamente. É conhecer mal os poderes da transmissão oral. Na primavera de 1321, o sul de França é atormentado por um rumor que se comunica ao reino de Aragão: os leprosos, agindo por conta dos judeus, eles mesmos instigados pelos muçulmanos de Espanha, procurariam envenenar a população cristã da Europa contaminando os poços. Esta ficção paranóica será levada a sério pelo rei Jaime V [creio que é um lapso do autor. Deverá ser Jaime II. Aliás não houve Jaime V em Aragão]: nomeia um inquisidor, ordena que os leprosos sejam submetidos à questão. É claro que estes confessam... Esta teoria conspirativa, apesar dos seus contornos arcaicos, encontra cem equivalentes modernos. Assim, existe, na Internet, uma literatura acusando Bill Gates e os grandes nomes de Silicon Valley de terem fomentado a epidemia do coronavírus para diminuir a população mundial...

A figura do leproso medieval é contudo mais ambígua do que este episódio deixa crer. De um lado, as populações medievais vêem perfeitamente que a lepra atinge pessoas isentas de pecados maiores - tal o poeta Jean Bodel, que contrai a doença à partida da cruzada, em 1205. Contudo, a ideia de que os males estão ligados a uma transgressão bestial resiste através da lenda da insaciável lubricidade dos leprosos. Para a Idade Média - cuja medicina assimila os humores corporais ao carácter -, é natural reunir o fogo da doença que devora as carnes dos lazarentos ao fogo do desejo que devora as almas. A lubricidade dos leprosos é então tão proverbial que as casas onde vivem, chamadas "bordas" (porque se encontram nas bordas da estrada para facilitar a mendicidade) estarão na origem da palavra "bordel". E essa imagem do leproso lúbrico encontra-se nomeadamente no Tristão e Isolda, quando o rei Mark se deixa convencer pelo chefe de um bando de leprosos a entregar-lhe a sua infiel Isolda para a castigar: "Olha: tenho aqui cem companheiros. Dá-nos Isolda e que ela nos seja comum! O mal atiça os nossos desejos. Dá Isolda aos teus leprosos, nunca mulher alguma terá uma vida pior que a sua. Vê, os nossos trapos estão colados às nossas chagas que ressumam." Mas, nos leprosos lúbricos, o laço entre transgressão e punição é inverso: a lubricidade bestial dos leprosos não está na origem da sua doença, mas é sua consequência. Como se a relação entre epidemia e transgressão, desmentida pela observação, devesse ser mantida por todos os meios.

Com os primeiros microscópios capazes de tornar as bactérias visíveis (em 1668 na Holanda), depois Pasteur, as epidemias perdem a sua origem sobrenatural. Isto, contudo, não põe termo ao mito de uma transgressão inicial e às teorias conspirativas relacionadas. A partir de agora estas transgressões já não são culinárias ou sexuais, mas científicas. Esta ideia encontra-se na literatura de ficção científica apocalíptica do século XX. Em Le Fléau do americano Stephen King, ou na série Le Passage, de Justin Cronin, são sábios imprudentes e sem fé que, manipulando vírus, desencadeiam epidemias que erradicam o essencial da população mundial. Estes vírus podem também transformar os doentes em monstros - em vampiros, em Justin Cronin ou no clássico Je suis une légende de Richard Matheson. Ainda aqui, o esquema repete-se e sofistica-se: porque zombam da ética da sua profissão, os investigadores desencadeiam sobre o mundo um flagelo que transforma as suas vítimas em criaturas transgressoras... Como se fosse impossível desfazer-se do imaginário original. Como se o primeiro sintoma destas epidemias fosse suscitar ficções que nos conduzem sempre a uma transgressão original e à designação de um bode expiatório. Como se esta dramaturgia estivesse tão profundamente inscrita nos nossos cérebros por milénios de pensamento mágico do qual fosse impossível libertar-nos. Contudo, um escritor consegui-o: o britânico H.G. Wells. Isso acontece no fim da sua Guerra dos Mundos, quando os marcianos que invadiram a Terra se vêem exterminados por um inimigo insuspeito: os vírus e as bactérias que enxameiam o nosso planeta e contra as quais os seus organismos não têm defesa! Simultaneamente inesperada e cientificamente fundada, a ideia de Wells retoma ao contrário todas as ficções anteriores.


domingo, 15 de março de 2020

ENTREVISTA DE JOSÉ CUTILEIRO

Notável entrevista do embaixador José Cutileiro, hoje, no "Diário de Notícias" e na TSF:



."Ateu, alentejano de Évora, português no mundo, viveu em três continentes, estudou Medicina, doutorou-se em Antropologia, foi diplomata, dirigiu uma organização europeia, fez um plano de paz para a Bósnia, foi dos primeiros a ser recebido por Nelson Mandela quando o líder sul-africano saiu da cadeia. Hoje continua atento ao mundo, e observa-o na rádio e nos jornais há décadas.
Tornou-se um cético ou foi sempre essa a abordagem de ver o mundo?
Fui sempre. Quando estava em Princeton, já com 60 anos, no Institute for Advanced Studies, onde passei três anos, lidei com grandes matemáticos, filósofos, historiadores e todos convencidos que são o nec plus ultra e estão convencidos também de que são livres-pensadores, quase todos, e eu tive de lhes explicar que não tinha mérito nenhum em ser cético - eu era cético porque fui educado como um cético, por um pai cético. Por outras palavras, eu sou cético não por ter pensado, é por não ter pensado [risos]. O meu ceticismo, com o qual me sinto completamente confortável, não resultou de uma revolta contra uma educação religiosa qualquer, cristã ou judia ou, porventura, islâmica, não! Eu fui sempre educado como um livre-pensador, num mundo em que não há Deus, e quis isso mais ou menos como é a noção dos cientistas como o Dworkin, por exemplo, e os cientistas ateus que estão nesse mundo. Portanto, eu não me tornei cético, fui sempre cético. O que me fez sempre confusão foi que houvesse gente que não o era. Devia ter já 16 ou 17 anos quando percebi que havia católicos e católicas que eram muito mais inteligentes do que eu, nunca tinha pensado que houvesse esse lado da vida.

Está tão espantado como estaria a avó Berta ao ver que a distância entre a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres é hoje não só maior do que no tempo dela mas também maior do que alguma vez foi desde que o mundo é mundo, como escreve no primeiro texto deste Inventário?
Bom, não posso falar pela avó Berta, que já cá não está. Para a avó Berta, o mundo era mais simples, sempre tinha havido pobres e sempre tinha havido ricos. Agora temos mais métodos de quantificação, sabemos muito mais coisas sobre muito mais coisas e alarga-se, como sabemos, o fosso entre os ricos e os pobres. Acho que isso é muito mau. E não é só por uma noção qualquer moral que pretendesse que toda a gente devesse ser mais ou menos igual, é porque vai criar grande, grande tensão nas sociedades e grandes problemas.
Acaba esse texto a dizer que a cruzada contra os pobres está a fazer mal ao mundo...
Sim, está a fazer mal ao mundo, com certeza.
"No dia em que acabou a URSS, foi um ver se te avias, vale tudo! Nesse valer tudo tem ido muita coisa e está a agravar-se a distância entre os ricos e os pobres."
Mas que cruzada contra os pobres?
O que devo querer dizer aí é que, desde o fim da União Soviética [URSS], o capitalismo tomou o freio nos dentes. As pessoas deixaram de ter medo, as pessoas responsáveis por certas opções económicas, certas escolhas políticas, deixaram de ter medo, o medo salutar que os limitava, não fosse aquilo tudo estragar-se. No dia em que acabou a URSS, foi um ver se te avias, vale tudo! Nesse valer tudo - talvez fosse isso a cruzada -, tem ido muita coisa e está a agravar-se a distância e, com essa distância a agravar-se, qualquer dia vai inventar-se outra tentativa. As pessoas têm de pensar que o fim do comunismo não foi o fim de uma doença, foi o fim de uma tentativa de remédio. O comunismo foi uma coisa inventada pelo Marx e pelo Engels e depois seguida pelo Lenine e por muita gente, para ver se melhorava a condição das pessoas. Não era uma coisa para fazer mal, era uma coisa inicialmente para fazer bem.
Pelo menos em teoria...
Pelo menos em teoria, e não funcionou. Não funcionou escandalosamente e quando por fim, no Vaticano deles, por assim dizer, que era Moscovo, acabaram por dizer não, isto não funciona de facto, foi um ver se te avias.
Tudo poderia ser diferente, ou seja, se não houvesse naquele tempo um conjunto de fatores e Gorbachev e a URSS tivessem durado mais dez ou 20 anos, até a Europa hoje seria uma coisa diferente?
Com certeza. Eu acho que se a URSS tivesse durado mais dez anos nós teríamos provavelmente uma União Europeia funcional e teríamos provavelmente uma moeda muito mais segura do que o euro. Ter-se-ia, por assim dizer, concluído, executado, o sonho dos europeístas. Mas o sonho dos europeístas dependia basicamente do medo salutar da URSS e do apoio dos EUA para impedir que esse medo pudesse vir a concretizar-se num medo muito maior de a URSS tentar atacar-nos. Com isso tudo desaparecido, as coisas mudaram. Putin, por exemplo, é um homem que não me merece nenhuma consideração, mas está a defender os interesses da Rússia, à sua maneira. Mas não é a mesma coisa do que era a chamada Guerra Fria, que era uma guerra entre duas visões do mundo.

A minha relação com o Mário Soares foi muito boa, gostava muito dele.
© Orlando Almeida Global Imagens
Era mais ideológica?
Era ideológica. Era quase religiosa - ou se acreditava no socialismo como maneira de resolver as coisas ou se acreditava no capitalismo como maneira de resolver as coisas. Quer um lado quer outro, e em particular o capitalismo, que era muito mais rico e que tinha muito mais variedade, tinha de tentar cobrir interesses e perceções e gostos de muita gente, porque aquilo não podia ser só uma coisa que se dizia é assim e é assim, não! Tinha de angariar gente para o seu lado, ao mesmo tempo; e tinha de ter um produto, por assim dizer, mais cativante e mais desejável do que aquele que vinha do outro lado. E isso acabou.
Está a falar de um mundo agora um pouco mais monolítico do que ele, na verdade, é.
Ele não é monolítico, o que não é é "duolítico", quer dizer, não há neste momento no mundo um conflito entre duas grandes verdades que se arrogam o direito de achar como tudo é. Quer dizer, a visão capitalista liberal do mundo e a visão marxista-leninista do mundo eram enormes, eram coerentes, eram grandes e era assim. Hoje há muita coisa - há os turcos do Erdogan; há várias formas de islão, desde um islão civilizadíssimo que não parece fazer mal a uma mosca, que é o da Indonésia, o maior país islâmico do mundo e que não perturba aí a vida das pessoas, não tem as tradições sanguinárias de algumas partes do Médio Oriente; há hindus; há chineses... Há toda a espécie de coisas. Isto agora é um free-for-all e antes não era, era um mundo mais em ordem.
"Lembro-me de ouvir o Churchill na BBC. Portanto, a Segunda Guerra Mundial é uma coisa muito viva para mim, muito real."
Diz-se que este é um tempo de memória curta, que as pessoas têm a memória curta. A sua memória é conhecida por ser prodigiosa. Lembra-se da Segunda Guerra Mundial?
Lembro-me de várias coisas. De estar em casa no Estoril - numa casa que alugávamos no verão e para onde eu fui umas vezes, depois tive primo-infeção e passei a ir para Sintra - e o meu pai chegar de Lisboa...

Já nessa altura se viviam tempos de infeções, como se sabe.
Não, a primo-infeção é uma forma de tuberculose muito fraca e que afeta geralmente gente muito nova. Lembro-me de o meu pai ter chegado a casa - eu tinha 5 anos - e dizer que a guerra tinha começado, era setembro, e lembro-me depois muito bem do fim da guerra. Lembro-me, melhor provavelmente do que outros contemporâneos meus, de muitas passagens da guerra, porque o meu pai era médico e foi mobilizado como médico militar para a ilha Terceira dos Açores. Quando ele lá estava deu-se o desembarque inglês nos Açores, nós fizemos um acordo com os ingleses para os autorizarmos a porem lá tropa durante a guerra. Foi um acordo que desagradou à Alemanha, mas eles não podiam fazer nada, depois estendemos esse acordo também aos americanos, mas os americanos já não são do meu tempo lá. Os ingleses tinham muita propaganda, eu tinha muita coisa em casa e ouvia a BBC. Lembro-me de ouvir o Churchill na BBC. Portanto, a Segunda Guerra Mundial é uma coisa muito viva para mim, muito real.

O seu pai, médico durante o Estado Novo, renunciou a cargos por escolha que fez, por valores políticos que defendia. É verdade que por isso foi acusado de não pensar em si, no seu irmão, na família? Como é que foi esse episódio?
Ele foi convidado por um grande grupo industrial português - a CUF - para dirigir todos os serviços médicos deles. Quem o veio convidar foi um médico conhecido dele, professor também na faculdade, mas havia uma condição, que era que o meu pai não se metesse em política. Isso não queria dizer sequer fazer parte de um partido, porque não havia partidos, nem fazer parte de um movimento, era não assinar abaixo-assinados, não fazer essas coisas, estar discreto como se nada houvesse. O meu pai disse que isso não podia fazer. O amigo dele que o tinha vindo procurar a casa - lembro-me disso muito vivamente - perguntou-lhe: mas você não se lembra de que tem filhos? E o meu pai respondeu: é exatamente porque me lembro de que tenho filhos que faço isto. O meu pai era uma pessoa com uma moral... Quando comecei a pensar mais e a ter mais termos de comparação, fazia-me mais pensar numa moral protestante, quase calvinista. Não sei de onde é que isso lhe veio, provavelmente de uma certa tradição anticlerical, de querer ser mais moral ainda do que a Igreja comum. Seja como for, era assim que ele era e foi assim que ele viveu.

É mais raro ver, hoje em dia, gente manter a coluna vertebral?
Não sei, o problema é que também, naquela altura, a coluna mantinha-se ou não se mantinha com escolhas muito claras. Por exemplo, uma pessoa podia ser honrada e a sua coluna estava em ordem porque era salazarista e achava que devia ser assim. Hoje em dia, não se chega a vergar a coluna porque não se chega a ter a coluna completamente direita, é assim uma água-pé. [risos]

Em abril de 1974, está a ensinar Antropologia Social na London School of Economics [LSE]. O que é que significou o 25 de Abril para si?
Eu estava na LSE, a minha mulher na altura telefonou-me a dizer que o João Monjardino - um grande amigo meu que morreu há pouco tempo -, que vivia em Londres, era quase meu vizinho, lhe tinha telefonado a dizer que o Carlos [Monjardino] lhe tinha telefonado a dizer que tinha havido um golpe de Estado em Portugal. Perguntei se tinha sido da direita ou da esquerda, porque não sabia. Isto fez confusão a algumas pessoas quando contava isto, mas eu, realmente, tinha uma grande ignorância do que se estava a passar em Portugal, e as pessoas tinham, em geral, uma grande ignorância do que se estava a passar, pelo menos dentro das Forças Armadas. A possibilidade de um golpe do Kaúlza [de Arriaga], de um golpe à direita...
Também era real, podia ter acontecido...De maneira que foi essa a primeira pergunta e, depois, foi um grande alívio. Costumo dizer que foi a maior satisfação que tive na minha vida, fora as coisas do foro privado - nascimentos, mortes, casamentos, amores -, mas, das outras coisas de fora, o 25 de Abril tem uma posição incomparável com qualquer outra coisa. Como de resto já devem ter sentido nesta conversa, eu vinha de uma família antissalazarista, o meu pai foi muito sacrificado pelo regime, de maneira que eu não tinha nenhum gosto nem nenhuma tolerância pelo regime que existia, e ele ter caído foi uma satisfação enorme.
"A França de Luís XIV é muito parecida com a da Revolução. Há coisas que se mantêm nos povos e na maneira de ser, nas preferências, nas prioridades, que não são abaladas assim por uma coisa destas. Em todo o caso, não há comparação possível entre o Portugal de antes do 25 de Abril e este."

Embora diga que o país mais parecido com Portugal no dia 25 ou 26 de abril de 1974 é o Portugal de 24 de abril de 1974.
Sim, sim. É, com certeza. Isso também não deve espantar muito, porque os países não mudam assim de um momento para o outro.

Por decreto ou por revolução.
Por decreto ou por revolução. A França de Luís XIV é muito parecida com a França da Revolução. Há coisas que se mantêm nos povos e na maneira de ser das populações, nas preferências, nas prioridades, que não são abaladas assim por uma coisa destas. Em todo o caso, não há comparação possível entre o Portugal de antes do 25 de Abril e este noutro aspeto, é que, por um lado, isto coincide com um avanço técnico geral, independentemente dos regimes políticos, como nunca tinha havido na história da humanidade. Hoje, vemos um miúdo de 2 ou 3 anos com um telefone na mão e, no meu tempo, havia os que sabiam ler - eram poucos - e os que não sabiam ler, e ler era a única coisa que havia; ouvia-se a telefonia, às vezes.

Quando é que foi a primeira vez que veio a Portugal depois do 25 de Abril?
Devo ter vindo a Portugal poucos dias depois do 1.º de Maio, a cerca de 2 ou 3 de maio.

Então aí, sim, estava bastante diferente, à vista pelo menos?
Sobretudo, no aeroporto não havia pides. Havia uns miúdos da Guarda Fiscal que estavam garbosos, contentes, e houve um, o que me devolveu o passaporte, que disse: seja bem-vindo a este país livre!

"Agora temos é o sacana deste bicho - o coronavírus -, que é uma coisa já de outro mundo".
© Orlando Almeida Global Imagens

Como foi a sua relação com Mário Soares?
Foi muito boa. Eu gostava do Mário Soares. Ele tinha uma idade entre a minha e a do meu pai, ele era dez anos mais velho do que eu e o meu pai era 23 anos mais velho do que eu. Conheci o Soares, em parte por convivências republicanas antissalazaristas e, em parte, porque, quando foi o assassínio do Delgado, eu estava a fazer trabalho de campo em Monsaraz como antropólogo e, a certa altura, houve um boato de que teria passado por Reguengos uma ambulância. Eu ouvi aquilo e falei nisso ao Soares, e tentámos falar com o homem que estaria ligado a esse boato que, entretanto, tinha ido abrir um café em Fátima. Nós fomos a Fátima, eu e o Soares - foi a primeira vez que eu fui a Fátima-, e o filho, o João Soares, que já tinha 18 anos e podia ser usado como testemunha no caso. O senhor que tinha ido para Fátima afinal não sabia nada que tivesse algum sentido. A partir daí fiquei mais ligado com ele e a seguir ao 25 de Abril fui ter com ele. Ele convidou-me para conselheiro cultural em Londres e naqueles anos de 1974, 1975 e 1976 estive muito, muito com ele. Apreciei muito a coragem dele, que era formidável. Era uma coragem física e moral. E, além disso, acho que ele foi a pessoa que salvou Portugal de uma grande confusão, porque, ao ter impedido um triunfo dos comunistas na esquerda, impediu o que teria sido depois a reação da direita, provavelmente espevitada pelos EUA ou coisa assim.

Se calhar podemos voltar a falar da tal questão da coluna vertebral. Fazem falta outros Mários Soares? Que referências é que tem mais recentes na política?
Os Mários Soares aparecem quando são precisos. Quando há a situação, vai aparecer alguém, não necessariamente como o Mário. Há pessoas com aptidões particulares. O Mário Soares acreditava muito profundamente em duas coisas: na democracia tradicional, ou seja, as pessoas serem eleitas para um Parlamento e falarem em nome do povo nesse Parlamento e na Europa. Eram duas coisas em que ele cria e, nisso, sobretudo na primeira, foi inabalável, aí resistiu a tudo. Depois, tinha uma coisa que também não se fabrica, ele tinha um currículo, tinha tido uns anos em São Tomé, tinha tido várias prisões... Ele não podia ser acusado de ser um homem de direita a querer enganar o povo, era um homem de esquerda que tinha a sua noção de como devia ser a esquerda. O combate dele contra o PCP era um combate que ele podia travar como provavelmente mais ninguém poderia nessa altura.

Volume 90%
Mas quais são as suas referências hoje? Por exemplo, nessa Europa de que fala, quais são as suas referências?
As minhas referências em que sentido?

No sentido político, no sentido de grandes figuras que admira.
Grandes figuras não há, infelizmente. Pelo menos, ainda não se deu por elas, pode ser que apareça alguém.

Nesses tais tempos difíceis...
Nesses tais tempos difíceis.
"Eu tive muita esperança no Macron, julguei que o Macron ia virar muito a França e a política francesa e, de caminho, o resto da política da Europa."

Não é Macron?
Eu tenho muita pena, mas acho que não. Eu tive muita esperança no Macron, julguei que o Macron ia virar muito a França e a política francesa e, de caminho, o resto da política da Europa.

Cheguei a ouvi-lo entusiasmado, quase.
Sim, sim, sim. Agora, o problema do Macron - isto é quase ridículo de dizer - é que é francês, e os franceses estão convencidos de que são franceses e é complicado. O Macron, por exemplo, neste momento tem feito a tentativa de harmonização entre o Reino Unido separado e o resto da Europa de uma forma muito mais complicada do que podia ser. Quer dizer, há todo um passado francês que vem ao de cima e que é muito incómodo. Neste momento, confesso que não vejo, entre os políticos europeus que estão aí em ação, ninguém que me pareça estar à altura. Mas estar à altura de quê? Nós também não estamos muito mal, agora temos é este sacana deste bicho - o coronavírus -, que é uma coisa já de outro mundo. É engraçado, no fim da Primeira Guerra Mundial houve uma influenza, que foi uma gripe que ninguém esperava e que matou milhões de pessoas - matou o Guillaume Apollinaire, que era um grande poeta francês -, mas matou milhões de pessoas e chamavam-lhe a gripe espanhola. Eu não sei porque é que não se chama a isto a gripe chinesa.

Ou italiana... Porque o mundo mudou e agora temos mais cuidados em produzir estereótipos.
Somos mais corretos politicamente, mas quando fala na Itália tem razão. Eu acho que se a doença tivesse entrado na Europa pela Alemanha tinha havido muito menos mortes e muito menos desordem. Os italianos são complicadíssimos. Você dá uma ordem a um italiano e a primeira reação deste é desobedecer.

Sabe que nós tivemos uma carta ao diretor do DN precisamente porque alguém disse isso e o embaixador italiano ficou bastante preocupado com essa imagem que estava a passar...
Pode ser que receba agora outra, vamos lá ver [risos].

Dos sítios por onde passou e onde viveu, se calhar para o comum dos leitores o mais exótico será o Afeganistão. O que é que recorda de seis meses de vida no Afeganistão, há quase 70 anos?
Tenho uma muito boa impressão. Eu fiz o que seria o equivalente ao 10.º ano no Liceu Francês lá e fi-lo bem. Tive uma colega francesa e tive muito bons professores. Aquilo era um mundo completamente diferente, como eu nunca tinha visto. Eu tinha 17 anos e havia uma missão das Nações Unidas que estava ali, em parte para fazer certas coisas e, em parte, para não fazer nada. O Afeganistão queria dar nas vistas e depois não queria nada feito. Havia um senhor que estava lá para fazer já não sei o quê na educação, mas não podia e ensinou-me a escrever à máquina, e eu aprendi a escrever com os dedos todos [risos]. Mas o Afeganistão era muito diferente do resto. Há um livro meu, que está para sair há anos na D. Quixote, mas que, por razões várias, tem estado atrasado, porque a pessoas que está a fazê-lo, que está a selecionar os textos, tem-se atrasado. O livro começa com quatro artigos sobre o Afeganistão que eu publiquei em 1953, tinha eu 18 anos e acabado de cá chegar. Reli-os há pouco tempo e...

Parecem atuais.
Parecem atuais, por acaso parecem atuais.

Nessa altura, ainda não dizia que o Afeganistão nunca vai ser uma Holanda da 4.ª divisão?
Não isso não dizia porque não me tinha metido ainda nessas coisas...

Mas porquê? Porque é que o Afeganistão nunca vai ser uma Holanda da 4.ª divisão?
Porque não querem ser uma Holanda da 4.ª divisão [risos] e porque quando eu uso uma expressão desse género é essa noção que temos de que toda a gente deve ser mais ou menos como nós. Eles não são como nós, são diferentes. Não são piores, não são melhores, são diferentes e há valores deles e preferências deles que vão ficar e que não vão ser comparáveis com as nossas.
Foi para Oxford em 1963. Foi Oxford que começou a dar-lhe mundo?
Não o que começou a dar-me mundo foi...

Foi o Afeganistão?
O Afeganistão, um bocado e, antes disso, a escola da D. Maria Prégua em Évora, onde fiz a 4.ª classe [risos]. O mundo vem de muitas maneiras. Em Oxford, aprendi a ler, basicamente.

Na revista Almanaque, o que é que aprendeu com Rui Cinatti, Alexandre O'Neill, Alçada Baptista, José Cardoso Pires, Vasco Pulido Valente?
O Cinatti e o Alçada andavam por lá como amigos nossos, mas não escreviam na revista. Na revista, era o José Cardoso Pires, o Alexandre O'Neill, o Augusto Abelaira, o Luís de Sttau Monteiro e eu, depois, a certa altura, o Baptista Bastos e o Vasco Pulido Valente também um bocado, no fim. Era divertidíssimo. Eu fiz o Almanaque porque precisava de dinheiro. Eu estudava Medicina e eles pagavam-me, mas sobretudo era divertidíssimo estar lá, todos eles eram engraçados. Para dar uma ideia: o Luís de Sttau Monteiro um dia teve uma discussão com o editor, que era um homem notável, o Joaquim Figueiredo Magalhães, que morreu há poucos anos, e que foi editor da Ulisseia também. Era um homem muito inteligente e com uma visão muito curiosa da vida, era uma personagem. Um dia, o Luís teve uma discussão com ele e entrou na sala onde eu estava e disse: se este tipo continua a chatear-me eu vou-me embora e o que ganho aqui vou para a praia e poupo. [risos] Eles eram todos personagens diferentes, o Abelaira fazia aquilo mais parecido com uma revista correta e tal, inventava umas histórias cor-de-rosa, ia buscar umas coisas aos almanaques... O Luís era o mais engraçado, fazia artigos divertidos sobre muitas coisas. Não íamos à censura. Isto é um ponto muito importante. Aquilo era uma publicação que saía, por acaso, todos os meses, mas não era uma publicação periódica. O não ir à censura implicava, primeiro, que nós tínhamos de fazer um pouco mais de censura interna, e assim foi.

Não ia à censura porquê?
Porque não era uma publicação periódica.

Não tinha nada que ver com o facto de poderem ser muito talentosos, muito geniais ou serem filhos de boas famílias?
Não, não, não! Era muito mais pacato e muito mais comezinho, não era periódico. As revistas periódicas iam à censura, mas mesmo o ir à censura... A censura foi sempre uma coisa extremamente nociva, uma imprensa com censura não vale a pena, é um desastre, mas depois, dentro disto, eu lembro-me de o António Alçada, que dirigia O Tempo e o Modo, ir falar com o coronel da censura que tinha cortado uma quantidade de coisas e dizer: oh, senhor! Então o senhor faz isto? Este é o número do aniversário da revista e o senhor corta-nos isto tudo? O coronel lá reviu aquilo e não cortou tanto [risos]. Havia sempre uns arranjos portugueses.

Uma margem de negociação. Foi em Oxford que deu cabo do breve namoro que teve com o PCP?
Não. Foi antes disso, muito antes disso. Foi um namoro muito breve e que começou e acabou basicamente no tempo da eleição do Delgado. O PCP estava de outro lado, tinha o Arlindo Vicente e eu percebi muito rapidamente que não me entendia com eles e assim foi.

Os tempos mais recentes na política portuguesa viram o PCP e o ainda mais à esquerda Bloco de Esquerda entrarem no arco da governação em Portugal. Como é que viu estes últimos tempos da geringonça, como se lhe chamou?
Eu não vivo cá, vou passar a viver cá a partir deste ano, mas a minha primeira reação quando o Costa aceitou ser primeiro-ministro, tendo ficado em segundo lugar e, exatamente, tê-los trazido para o arco da governação, eu fiquei quase ofendido. Porque acho que a coisa fundamental que o Soares fez foi tirar esses partidos - o Bloco de Esquerda não existia - do arco da governação. Quer dizer, a governação fez-se sem ter sabotadores permanentes lá dentro. Depois, devo dizer que acho que o Costa tem muito jeito para isto, tem tratado disto bem e, provavelmente, houve certas coisas que não foi mal tê-las metido assim e tê-las trazido assim, mas não tenho simpatia. Quando me diz que o Bloco de Esquerda está mais à esquerda do que o PCP, eu não percebo. Acho que o PCP é uma coisa que faz quase ternura, quer dizer, aquele amor que eles têm por um mundo que já não existe, por uma ideologia que já não funciona... Mas sempre sérios, sempre sérios.

O Brexit tem que ver com uma grande distância entre as elites que governam e quem é governado.
© Orlando Almeida Global Imagens
E acha o Bloco de Esquerda um pouco menos sério, é isso?
Acho-os menos sérios, são mais intelectuais, mais diletantes talvez. Mas não vivo cá, não estou metido nessa coisa e não conheço pessoalmente muitas das pessoas, de maneira que é complicado.
Acha que essa entrada do PCP e do Bloco de Esquerda na governação contribuiu de certa forma para repor direitos, para diminuir as tais desigualdades ou pode ter criado uma era de maior polarização na política?
Não sei responder. Não estou cá, não acompanho essas coisas. Provavelmente, a margem de manobra, de quem quer que seja que esteja no governo, para melhorar os direitos é muito pequena. Vemos isso com as alterações mínimas do salário mínimo nacional. Tudo quanto se ganha é melhor do que não se ter ganho, de maneira que é capaz de ter havido uma certa vantagem, mas não sei.
Escreveu em 2014 e continua a entender que "há um fosso entre o bom senso da maioria dos portugueses e a insensatez militante de quem os governa"? O governo, entretanto, já mudou, era outra altura...
Digamos que a insensatez dos governos dá mais nas vistas do que a insensatez do povo. Eu tendo a achar que as pessoas têm bom senso. Se olharmos para a maneira como os portugueses têm votado desde o 25 de Abril, vemos que mostra algum bom senso, mas, por outro lado, é muito complicado avaliar as coisas assim. De maneira que não tenho a certeza.
Acha que Portugal está imune a estes movimentos populistas que têm vindo a espalhar-se pela Europa?
Até agora tem estado e espero que continue a estar. Esses movimentos têm sido sobretudo movimentos de direita, e a direita portuguesa levou uma grande volta, acho eu, a seguir à primeira maioria absoluta do Cavaco. O Cavaco era primeiro-ministro, pediu eleições e teve uma primeira maioria absoluta. Foi como um mata-borrão, apanhou tudo quanto era direita, e nunca houve uma capacidade de inventar uma direita que fosse fora disso, de maneira que a direita ficou completamente subordinada a esse lado. Entretanto, há agora esse senhor, André Ventura, que tem tido alguns votos, sem dúvida, mas não me dá ideia de que tenha convencido muitos portugueses até agora. Não me preocupa.
"Durante muitos anos, achei que a maneira portuguesa de tratar das coisas tinha muitos defeitos e era injusta para muita gente. Hoje em dia, não estou tão convencido disso."

É mais estranho para si o Brexit por ter vivido em Inglaterra?
Provavelmente. O Brexit tem muito que ver com uma coisa que se sente menos em Portugal, acho eu, do que noutros países, tem que ver com uma grande distância entre as elites que governam e quem é governado. Isso deu o Trump nos EUA e deu o Brexit na Inglaterra. São coisas diferentes, mas nós aqui não temos tanto isso. Durante muitos anos, achei que a maneira portuguesa de tratar das coisas tinha muitos defeitos e era injusta para muita gente. Hoje em dia, não estou tão convencido disso.
Está menos cético?
Estou menos cético em relação a isso. Porque nós temos uma grande quantidade de bom senso no arrumo das coisas. A dificuldade é que todos os Estados modernos vão entrar em conflito com as sociedades tradicionais. Os problemas da imposição numa sociedade democrática moderna, em que há uma moral que é igual para todos, e que é absoluta, e que é assim. O meu filho ou o meu pai têm tantos direitos à minha equanimidade como qualquer estranho. Esta noção é muito calvinista, muito protestante e é aquela em que se baseou muito da construção do que é a Europa do Norte e do que são até os EUA, pondo de parte, ou não, um bocado de genocídio de índios locais, escravatura dos negros, etc. Houve uma quantidade de horrores nos EUA. Mas em relação aos brancos, se quiserem, e à maneira como a sociedade se desenvolve, há uma noção disso e uma ética que é geral. Aqui não. Há uma história de que eu gosto muito, de um homem que foi secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros no antigo regime, mas que era - veio-se a saber depois - comunista. Era um homem muito interessante chamado Humberto Morgado, era o diretor da Administração em Portugal, era quem mandava em tudo, e, um dia, abriram-lhe a porta do gabinete e perguntaram: embaixador Morgado, qual é o limite de idade de um estrangeiro? E ele respondeu: quem é? Ele queria saber quem era que lhe fazia a pergunta, a propósito de quê.
Isso é muito português, não é? Conforme quem fosse, poderia mudar as regras...
Pois, é muito português, e, vindo de uma ditadura, tem sobretudo esse aspeto. Se não se está numa ditadura, mostra um bocado de bom senso a misturar as coisas, quer dizer, o facto de eu ter vivido até aos 40 anos sob um regime ditatorial fez-me, com certeza, considerar muitas maneiras sensatas e portuguesas de agir como coisas que estavam nas mãos do governo e que, portanto, aviltavam o comportamento. Quando não é necessariamente assim, e nós temos mais essa capacidade do que tem muita gente do norte da Europa e tudo isso.
Por falar no norte da Europa, viveu na Suécia?
Vivi.
Foi um mundo completamente diferente na altura para si?
Era bastante diferente, eles são um bocado esquisitos... Lembro-me de um tipo de um terceiro andar irritadíssimo porque eu estava a arrumar o carro quase a tocar nos para-choques do da frente e do de trás, não tocava mas o tipo já estava furioso lá em cima. É o contrário do que me aconteceu uma vez nos EUA, e isso é uma diferença, não só entre os EUA e a Suécia, mas entre os EUA e a Europa, estava a arrumar o carro numa praça em Princeton - Princeton tem uma parte antiga que podia ser uma pequena cidade do norte da Holanda - e havia vários carros, eu consegui meter o meu e estavam ali uns penduras, como há sempre na rua, e quando eu consegui meter o meu carro ficaram contentes [risos]. Eu não estava habituado, porque, na Europa, se conseguimos qualquer coisa há alguém que se chateia. Ali não, eles gostam do sucesso em si, por si.
O seu primeiro posto de embaixador foi em Moçambique, que neste sábado assinalou o primeiro aniversário do furacão Idai, que atingiu de forma devastadora a província da Beira, também um pouco Cabo Delgado, mas principalmente a província da Beira. Como é que olha para o percurso de Moçambique desde 1980, altura em que lá foi colocado?
Nunca mais lá voltei, de maneira que olho à distância. Tem-se aguentado. Não houve ainda em Moçambique um presidente que dissesse que queria estender o seu mandato e que passava a governar oito anos em vez de quatro, ou seja, eles têm respeitado essas coisas. A guerra entre a Frelimo e a Renamo, que estava acesa quando eu de lá saí, acalmou-se; morreu, entretanto, o Dhlakama, mas as coisas ainda não estão resolvidas. Ainda há provavelmente grandes desmandos da parte do poder em vários sítios, mas, comparado com outros países africanos, eu acho que Moçambique é muito louvável. É claro que eles têm problemas muito graves e um deles é que vão ser muito ricos - eles têm gás -, e essas coisas quando chegam estragam. Vai ser muito complicado, com certeza. Eu gostei muito do Samora Machel, que morreu pouco depois de eu ter de lá saído num desastre de avião, como se sabe. O Machel a certa altura disse-me: estes gajos são diferentes - os americanos e os russos, os cooperantes nórdicos e tudo isso -, vocês tratavam-nos como pretos, estes gajos tratam-nos como macacos.
Foi embaixador na África do Sul, e dos primeiros que Nelson Mandela recebeu depois de sair em liberdade. Como é que foi isso, quer recordar-nos?
Isso foi ótimo. Tive muita sorte em ter lá estado nessa altura. Não era a minha escolha, eu tinha querido ir para a NATO, mas o Cavaco, que era primeiro-ministro, disse ao João de Deus Pinheiro que queria manter o embaixador que lá estava porque iam entrar os espanhóis e era importante manter uma certa continuidade, e assim foi. O Pinheiro deu-me a escolher entre Estocolmo como bilateral e a África do Sul, eu escolhi a África do Sul. Cheguei lá em abril, os primeiros presos, que estavam juntos com Mandela em Robben Island - o Mandela tinha ido entretanto para uma prisão em terra firme - foram libertados, julgo eu, em outubro desse ano, e o Mandela foi libertado em fevereiro do ano seguinte. Foram tempos absolutamente extraordinários, comparáveis em certa medida com os tempos da Revolução portuguesa, mas era uma coisa muito mais funda e muito mais antiga e o que estava em jogo naquela altura era tão importante para toda a gente que, na política, não havia golpistas. Mesmo a política dos bóeres, a política pró-apartheid, a política anti-apartheid, as pessoas que as conduziam eram sérias. Foi um período absolutamente exaltante. O trabalho do Mandela e do de Klerk foram extraordinários. No caso do Mandela, é genial, como é que um homem está 27 anos preso e sai com a capacidade de lidar com a política do seu país e tomar a chefia daquilo. É impecável!
"É possível. A Winnie Mandela era uma mulher muito bonita, muito sedutora, mas muito extremista nas suas vistas e nas suas emoções, mas o facto é que Mandela conseguiu perdoar."
Muitas vezes, a Winnie Mandela diz que ele teve essa capacidade porque não havia internet e ele não foi sabendo o que é que acontecia cá fora.
É possível. A Winnie Mandela era uma mulher muito bonita, muito sedutora, mas muito extremista nas suas vistas e nas suas emoções, mas o facto é que ele conseguiu. Já contei várias vezes que ele me recebeu 15 dias depois de ser libertado, eu fui o primeiro embaixador, depois do embaixador britânico que ele recebeu. Eu vim da Cidade do Cabo, onde estava nessa altura - os embaixadores estavam metade do ano num sítio e metade no outro - e ele estava no Soweto, na sua casa pobre, onde tinha ido voltar a viver com a Winnie Mandela.
Soweto, Joanesburgo?
Sim, um subúrbio de Joanesburgo. Eu fui recebido às 08.30 da manhã e a sair da reunião anterior estava o chairman da Anglo-American, que tinha sido recebido antes, e a seguir a mim foi o representante do Zimbabwe, que era um tipo branco que tratava dos negócios e tal. O homem esteve 27 anos preso, Portugal nunca o ajudou, nem antes nem depois do 25 de Abril. O Cavaco tinha medo de ofender os portugueses muito reacionários que eram os comendadores ali da África do Sul. De maneira que ele não tinha nenhuma razão para ter alguma estima ou simpatia por nós, mas ele tinha uma razão e a razão era que havia 500 000 pessoas na África do Sul que tinham direito a um passaporte português e se elas se fossem embora era uma grande complicação para ele. Portanto, ele estava interessado em mantê-las lá e eu, como embaixador de Portugal, também estava interessado em mantê-las lá, de forma que tínhamos um interesse comum. Fui com o Álvaro Mendonça e Moura, que era o meu número dois e é hoje secretário-geral no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e ele estava a tomar notas. Quem estava a tomar notas para ele era o Cyril Ramaphosa, que é hoje presidente da África do Sul e que era o homem que ele teria querido que o substituísse, mas o partido não quis. Eu sentei-me num sofá, com uma capulana muito esgarçada, e ele impecável, estava em casa dele - a casa dele era o país, não era só aquele pequeno cottage - e diz-me isto: é uma vergonha (it's a shame), mas eu nunca estive no seu país. Uma vez, em 1962, vinha de Paris para Dakar e fizemos escala em Lisboa. Saímos do avião e, no aeroporto, deram-me uma garrafa de vinho do Porto. Ainda dão garrafas de vinho do Porto às pessoas?
"Todos os países são racistas, não é só Portugal. E estar a querer aplicar critérios morais, sobretudo urbanos, de uma juventude que acha que de repente viu a luz e percebeu a bondade ou voltar para trás na História, não tem pés nem cabeça."
Falando dessa conciliação e desses tempos em que não havia internet, há recentemente em Portugal - não só em Portugal, é um movimento que vem de fora para dentro - um certo revisionismo histórico, uma certa tendência para anular a importância de Portugal no mundo, uma tendência para falar de Portugal como país racista. Como é que olha para isto tudo?
Todos os países são racistas, não é só Portugal. Os portugueses foram racistas como toda a gente foi racista. Não há um país que não o tenha sido e estar a querer agora aplicar critérios morais, sobretudo critérios morais urbanos de uma juventude que acha que de repente viu a luz e percebeu a bondade ou voltar para trás na história, não tem pés nem cabeça.
Isso tem alguma importância ou nós devemos simplesmente não olhar para trás e ir em frente?
Nós devemos olhar para trás e ir em frente. Devemos olhar para trás e saber tudo quanto se passou, mas não pensar que as pessoas que estavam a fazer aquelas coisas, porque não estão com as #MeToo por um lado, ou com alguns idealistas do Bloco de Esquerda, por exemplo...
Mas a restituição das obras de arte a museus pode ser uma questão pertinente?
Isso aí é uma coisa sobre a qual eu tenho dúvidas graves, porque a maneira como os museus são conservados em muitos desses países é gravíssima, é muito insuficiente. Eu julgo que há obras de arte que foram salvas porque foram tiradas lá de fora. Em nome de uma espécie de pseudojustiça, devolver as obras, eu penso que isso tem de ser visto com bastante cuidado, não é fácil. Quanto às outras coisas, há uma frase do Fernão Mendes Pinto, na Peregrinação, numa cena em que uns tipos atacam o junco do pirata Similau e vencem o pirata Similau. Fernão Mendes Pinto dizia que tinha sido, como se sabe, 17 vezes cativo e 13 vezes vendido. Ele próprio andava naquilo, era normal. A vida era assim. Ele acaba o seu capítulo sobre o pirata Similau dizendo: "... e com muitas ave-marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo." Portanto, a moral varia muito. É verdade que houve ou não um progresso moral na história? Esta é uma pergunta que se pode pôr. Na minha experiência, só tenho ideia de um caso em que me parece que houve e, mesmo assim, deixo a palavra parece. Há uma história clássica na história europeia que é a história da cruzada contra os albigenses, que eram cátaros no sul de França e que eram heréticos católicos, portanto contra a Igreja de Roma. A certa altura, a cidade de Albi é tomada, e depois o que é que se faz? Os habitantes locais recusam-se a dizer quem são os hereges e quem é herege e quem não é. Aí, o representante do Papa que está nessa cruzada tem esta resposta que ficou célebre: matem-nos todos, Deus reconhecerá os seus. Isto passa-se no século XIV. Aqui há uns anos, talvez dez ou 12, na Malásia, uma juíza teve de resolver um problema que era o seguinte: havia dois gémeos idênticos e um deles tinha certamente cometido um crime, tinha assassinado alguém. As marcas eram iguais, portanto ela não podia saber se era um ou o outro dos irmãos. Absolveu-os aos dois. E isto, se quisermos, é progresso moral para quem ache que há progresso moral.
O senhor costuma dizer que não lhe passaria pela cabeça indicar caminhos a quem quer que seja, a não ser uma criança que esteja para se afogar, ou seja, casos extremos, tirando isso, cada um sabe de si. Disse-o exatamente nestes termos numa entrevista que deu nesta semana na RTP2. Diz que não prega nenhuma forma de moral a ninguém. Mas isso não é uma demissão de alguém que podia ser enquadrado numa categoria de intelectual?
Não. Eu acho que talvez haja um certo exagero na maneira de dizer as coisas. Eu não tenho de me meter na vida das pessoas. Estamos a falar de uma sociedade em ordem, tranquila, quer dizer, se eu souber que há uma grande conspiração, provavelmente tenho obrigação de a denunciar; se eu puder evitar coisas equivalentes ao afogamento da criança, eu devo fazê-lo. Mas estando sossegadinho no meu canto e sem saber qual é o futuro do que vai ser a ação, eu não tenho noção de que tenha de dar, eu, instruções a ninguém sobre como é que as pessoas se devem comportar. É um bocadinho como no amor - entre consenting others [risos].
O que é que mais o preocupa hoje em dia - os populismos, as alterações climáticas, Trump ou Putin ou os dois juntos?
São coisas diferentes. Os populismos preocupam-me muito, as alterações climáticas também, mas tem de se combater os populismos antes de se combater as alterações climáticas. Este último é um combate muito complicado e vai ser muito confuso. Já tenho contado uma história do Bernard Shaw em que ele dizia - isto é a propósito da pequena sueca, da Greta - que as pessoas sensatas procuram adaptar-se ao ambiente, as pessoas insensatas procuram adaptar o ambiente a si. All progress is made by fools, ou seja, só os tontos é que fazem o progresso.
Ou seja, são necessárias Gretas?
São necessárias Gretas, mas é uma batalha a longo prazo e, ao mesmo tempo, há uma batalha a muito mais curto prazo, que tem que ver com os populistas, e essa tem de ser travada. Os populistas são o pior que há por aí.
No discurso que fez nesta semana, o Presidente Marcelo disse que a forma de o combater era sendo mais democrático e mais exigente para com a democracia. A verdade é que nós vemos que há muitos casos em que se está a caminhar para um populismo de sentido contrário, num sentido de denúncia de corrupção excessiva ou de tentativa de moralismo, precisamente. Como é que acha que se pode combater isso?
Eu estou de acordo com o Marcelo.
Basicamente, o que ele dizia é que não basta aos políticos serem sérios, têm de parecer sérios.
Convém serem as duas coisas. [risos] Bom, os políticos têm de ser sérios; os juízes têm de ser sérios; toda a gente deve ter de ser séria. Se não é, é uma chatice. É complicado.
Pode ler para nós o seu poema "Depois da Revolução", publicado pela primeira vez precisamente pelo Diário de Notícias, em 1977?
Eu sou péssimo a ler versos, meus ou de outros, e esses são compridos... Publiquei isto em 1977, no Diário de Notícias, que nessa altura ainda tinha uma página literária... Hoje em dia, os jornais não têm páginas literárias. Isso faz-me imensa confusão. Deve ser porque há muito mais gadgets, muito mais coisas, o livro deixou de ser o único veículo, mas dantes tínhamos isso. No meu tempo, era o Gaspar Simões, o Álvaro Salema, e depois vieram outros. Nós temos grandes críticos literários, como o Pedro Mexia, por exemplo, e porque é que não há uma página em que as coisas apareçam? Era bom para a venda de livros, era bom para uma certa disciplina geral do pensamento das pessoas. Agora, a esse poema chamei-lhe "Depois da Revolução" e é assim: "Que saberão de nós os que nos virem/ Nas gravuras futuras, nos retratos antigos/ Quando o tempo tiver confundido as razões/ E, em vez de diferentes, formos todos parecidos?" Prossegue futurando que os vindouros nos acharão mais felizes do que eles e remata sem saber se algum perceberá "Que a História rouba as almas das vidas que ilumina/ E só fomos felizes como foram os escravos?/ Diante da lareira, no silêncio da quinta,/ Folheando revistas deixadas por avós/ Terão pena de não ter vivido estes dias?/ Acharão suas vidas mais pequenas que as nossas?/ Olhando nos retratos o nosso olhar igual/ Acaso lerão nele a grandeza das almas/ Que a história arrebatou? E sentirão/ A falta desse voo nas suas vidas calmas/ No silêncio da quinta só rompido/ Pelo ladrar seguro dos nossos cães de guarda/ (De dia, do mirante, vê-se a curva do rio;/ Juntam-se os filhos todos no Natal e na Páscoa/ E mostra-se às visitas um risco na parede/ Que a Revolução deixou ao perder-se uma bala)/ Entre mortes, baptismos, casamentos, divórcios/ Acaso sentirão que a Verdade lhes falta?/ Acaso julgarão que nós a possuímos,/ Que a História nos escolheu e os deixou, coitados,/ Com suas vidas presas às coisas comezinhas/ Tão longe das alturas da nossa Liberdade?/ Ou haverá algum, no silêncio da quinta,/ Capaz de perceber, olhando o nosso olhar,/ Que a História rouba as almas das vidas que ilumina/ E só fomos felizes como foram os escravos?" Isto partiu um pouco da capa de um livro do Vasco Pulido Valente chamado O Poder e o Povo. Nós olhamos para as caras deles e não sabemos se são republicanos ou se são monárquicos, são as caras daquela gente daquela altura.

Considera que é um dos livros de referência do Portugal do início do século XX?
Eu acho isso. O regime do corporativismo do Dr. Salazar, que era uma coisa pintada a negro por muita gente, ultimamente, às vezes, é pintada de cor-de-rosa, o que também é um exagero sem pés nem cabeça, era um regime estúpido, fechado. O Salazar tinha uma visão curiosíssima do mundo. Há uma frase dele de que eu gosto em que ele diz que, entre a agricultura, o comércio e a indústria, ele prefere a agricultura. [risos] Ele é realmente uma coisa de um fundo de um buraco... Havia censura à imprensa e havia tortura política e havia coisas sem nome. Não tem pés nem cabeça pensar que aquilo era bom. Havia depois, também, por parte dos republicanos tradicionais, a ideia de que aqueles 16 anos da 1.ª República tinham sido uma espécie de paraíso. Foi uma coisa sem nome também. Isso foi o que o Vasco [Pulido Valente] fez, o Vasco mostrou que aquilo tinha sido uma ramboia sem pés nem cabeça. A família do Vasco, que era toda republicana, não lhe perdoou, mas ele tinha razão. Eu acho esse livro muito importante. A propósito do Vasco, ele era muito engraçado, era muito inteligente, teve uma infância muito infeliz, foi vítima das imensas revisões pedagógicas dos pais e das visões do mundo extraordinárias, mas lá se aguentou. Tinha um feitio complicadíssimo, mas tinha coisas ótimas. Sobretudo, o que eu gosto mais é que quando ele tinha 14 anos - o Vasco Pulido Valente tinha quase 1,80 m, mas era muito pequenino quando era adolescente -, era baixo e o pai era grande e era um comunista discreto, clandestino, era engenheiro da Robbialac e era erudito, muito chato, e sabia tudo. Explicou-me como é que os romanos faziam a barba, era com sílex. Um dia, o Vasco olhou para o pai, olhou lá para cima e disse assim: ah, pai, se eu tivesse a tua idade, sabendo o que eu sei..."

domingo, 1 de março de 2020

A MARCHA DE RADETZKY




Comprei, em 1986, A Marcha de Radetzky, de Joseph Roth, creio que no próprio ano da sua edição portuguesa, embora o livro, infelizmente, não mencione a data de publicação. A edição original, com o título Radetzkymarsch, é de 1932. Trata-se de um dos mais importantes romances de Joseph Roth, mas todas as vezes que me propunha lê-lo surgia sempre uma leitura prioritária pelo que o livro foi aguardando a sua vez. Chegou agora o momento desejado.

Autor de vasta obra, Joseph Roth (1894-1939) nasceu em Brody (hoje cidade da Ucrânia mas que à época pertencia ao Império Austro-Húngaro e morreu em Paris, vítima de uma pneumonia (e não como está escrito na contracapa da edição portuguesa que indica que se suicidou quando as tropas nazis entraram em França em 1939. Aliás a invasão alemã foi em 1940). Viveu em Viena, combateu no exército imperial durante a Primeira Guerra Mundial e voltou para Viena, que viria a abandonar em 1933, quando Adolf Hitler se tornou chanceler do Reich, passando a residir em Paris.

Jornalista e romancista, a sua obra mais conhecida é A Marcha de Radetzky, que conta a história de três gerações de uma família austríaca no tempo do imperador Francisco José I [É curioso que tendo havido um só imperador com o nome de Francisco José os monumentos da Áustria em que está gravado o seu nome mencionem habitualmente Francisco José I]. O romance (que é devedor da experiência do próprio Roth, especialmente da época em que esteve no exército) pretende demonstrar a desagregação do Império Austro-Húngaro perante a emergência das nacionalidades que o compunham. Começa com a batalha de Solferino (1859) e termina com o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, o deflagrar da Primeira Guerra Mundial e a morte de Francisco José (1830/1848-1916), com 86 anos de idade. As vicissitudes da família von Trotta, protagonista do livro, ocorrem durante o reinado do imperador. E é através das três gerações dos Trotta que Joseph Roth descreve o fim de um mundo, o dos Habsburgos, e o advento de novos tempos. Este livro, sobre a decadência da "velha" Áustria, recorda-nos outro livro, também célebre, O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, também grande romancista austríaco e também judeu, como Roth (aliás, eram amigos), que se suicidou (este sim, suicidou-se no Brasil em 1942), incapaz de assistir ao avanço das tropas nazis em toda a Europa.

 
Eu, ao lado do túmulo de Francisco José, na Cripta dos Capuchinhos, em Viena


O título do livro refere-se a uma marcha militar célebre em todo o Império Austro-Húngaro, a Marcha de Radetzky, que a famíliaTrotta ouvia tocar todos os domingos sob a sua janela. A Marcha de Radetzky foi composta em 1848, por Johann Strauss, em honra do marechal de campo austríaco Joseph Radetzky von Radetz.

Abaixo, Herbert von Karajan dirigindo a Orquestra Filarmónica de Berlim, no Musikverein, de Viena, no tradicional Concerto de Ano Novo, onde é habitualmente tocada a Marcha de Radetzky.



A tradução do livro é de Maria Adélia Silva Melo e, embora não conheça o original alemão, parece-me fluente e correcta, pela menos até sensivelmente metade da obra. Para o fim afigura-se-me menos precisa, ocorrem vários lapsos tipográficos e até uma descontinuidade de acção entre parágrafos, mas pode ter sido a opção do autor. Já não concordo quando se faz, mais do que uma vez, uma referência à Casa Real Austríaca. A Casa de Áustria era Imperial e não Real. Talvez a confusão (do autor ou do tradutor) decorra do facto de o monarca ser Imperador da Áustria e Rei da Hungria e daí o facto de a Casa de Habsburgo ser Imperial e Real. Quem alude ironicamente a este facto é o escritor austríaco Robert Musil, no seu livro O Homem sem Qualidades, publicado entre 1930 e 1943, e cuja acção se passa em Viena nos últimos anos de Francisco José. É Musil quem apelida a dupla monarquia de Kakânia, devido à abreviação alemã de K und K (kaiserlich und königlish: 'imperial e real'), pretendendo demonstrar a falta de unidade política, administrativa e afectiva que se verificava no país.

A decadência do Império era já manifesta durante o longuíssimo reinado de Francisco José. Aliás, o Império começara a esboroar-se desde que Napoleão Bonaparte derrotara os exércitos de Francisco II, Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que se vira forçado a proclamar a sua extinção e a tornar-se Imperador da Áustria, com o nome de Francisco I. Com efeito, Francisco II, Imperador do Sacro Império havia-se proclamado Imperador da Áustria em 1804, antevendo a evolução da situação política na Europa Central. Em 1806, depois da derrota dos seus exércitos na batalha de Austerlitz, Francisco II abdicou do titulo de Imperador do Sacro Império Romano Germânico (entidade que já não fazia sentido) continuando a reinar como Imperador da Áustria. O seu túmulo, na Cripta dos Capuchinhos, menciona "Francisco II (I)".

Além de Joseph Roth, de Stefan Zweig ou de Robert Musil, outros escritores austríacos se referiram à decadência do Império, como Hermann Broch e Karl Kraus.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

REGRESSANDO A EDMUND WHITE




Comprei La Bibliothèque qui Brûle, de Edmund White, na antiga Livraria Arco-Íris, no velho Centro Comercial Apolo 70, em 1997, ano da sua publicação. O original havia sido publicado em 1994, com o título The Burning Library.

Edmund White é um dos grandes escritores norte-americanos ainda vivos (n. 1940), romancista, ensaísta, memorialista, biógrafo, autor de vasta obra, incidindo especialmente sobre temas gays. Dos seus livros de ficção, distinguem-se Nocturnes for the King of Naples (1978) e a célebre trilogia autobiográfica constituída por A Boy's Own Story (1982), The Beautiful Room is Empty (1988) e The Farewell Symphony (1997). As suas biografias são dedicadas a Genet (1993), ainda hoje a biografia de referência, a Proust (1998) e a Rimbaud (2008).

Em La Bibliothèque qui Brûle, White reúne textos diversos, publicados nos anos 70, 80 e 90, nomeadamente sobre a cena gay e sobre a vida e obra de outros escritores, alguns dos quais entrevista pessoalmente. Salientam-se Truman Capote, William Burroughs, Nabokov, Danilo Kiš, Juan Goytisolo, Genet, Hervé Guibert.

Algumas das reflexões do autor, constantes destes textos, encontram-se hoje um pouco desactualizadas, já que sobre elas passaram 30, 40 ou 50 anos, mas é inegável o seu interesse e a perspicácia com que White observa a realidade que o cerca. Outras há que continuam a constituir um retrato, ora irónico, ora cruel, da sociedade humana.

Deve assinalar-se uma notável entrevista que White concedeu em 1988 à "Paris Review" e os textos consagrados a Goytisolo e a Un captif amoreux, de Genet.

Edmund White é o sobrevivente de uma longa lista de autores famosos que marcaram a literatura norte-americana e mundial.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

J'ACCUSE





Fui ver ontem J'accuse, o mais recente filme de Roman Polanski (2019), cuja tema é o famoso caso Dreyfus e cujo título é o do artigo publicado pelo romancista Émile Zola, em 1898, na primeira página do jornal "L'Aurore", sob a forma de carta aberta ao presidente Félix Faure (que curiosamente morreria no ano seguinte, no Eliseu, quando se encontrava na companhia da sua amante, depois de ter presidido a um Conselho de Ministros dedicado ao caso Dreyfus) reclamando a revisão do processo. Existe, aliás, mais de uma dezena de filmes e talvez uma centena de livros sobre o caso Dreyfus.



O affaire Dreyfus, que depois da carta de Zola passou a ser designado l'Affaire, dividiu profundamente a sociedade francesa. Não cabe aqui descrever os sucessivos episódios do caso, que serão do conhecimento público, pelo menos das pessoas interessadas nestas matérias, mas importa referir alguns factos.

Em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, judeu francês de origem alsaciana, foi acusado de ter entregue aos alemães documentos secretos do exército e, em consequência, julgado em Conselho de Guerra, condenado à degradação militar e à prisão perpétua. A prova era uma carta, que ficou conhecida como "le bordereau" encontrada na Embaixada da Alemanha, contendo informações sobre o armamento francês. A caligrafia identificava Dreyfus como o único oficial capaz de ser o seu autor.

A opinião pública francesa, largamente anti-semita à época (e possivelmente ainda hoje) cerrou fileiras contra aquele crime de alta traição.

Em 1896, o coronel Georges Picquart, chefe da contra-espionagem,  descobriu que o verdadeiro autor do documento era outro oficial do exército, este de origem húngara, Charles Esterházy (que nunca chegaria a ser condenado) e em 1897 o irmão de Dreyfus apresentou queixa contra o Ministério da Guerra.

Em 1898, Zola publica a célebre tribuna "J'accuse", exigindo ao presidente da República a reabertura do processo, pelo que seria condenado pelo crime de difamação, bem como o editor do jornal.

Entretanto o assunto inflama a França e divide os franceses entre "dreyfusards" e anti-dreyfusards". As várias instâncias do Exército tentam minimizar os danos, mas não conseguem evitar a divulgação de notícias comprometedoras. Em 1899, o julgamento de Dreyfus é anulado mas este novamente julgado em Conselho de Guerra, continuando a ser considerado culpado e condenado agora a 10 anos de prisão. 

A França segue apaixonadamente o processo Dreyfus, devido também à questão da Alsácia-Lorena e a um crescente sentimento anti-alemão, que conduziria à Primeira Guerra Mundial. As autoridades militares procuram salvar a face recusando admitir o erro inicial e as suas chefias, incluindo o ministro da Guerra, tentam encobrir-se. O escândalo avoluma-se de tal forma que em 1899 Dreyfus é amnistiado.

Em 1906, o capitão Alfred Dreyfys é finalmente reabilitado na sua honra e reintegrado no Exército.

Merece aqui uma palavra a obstinação do Exército. Muitos dos seus quadros superiores eram anti-semitas e observavam com crescente preocupação a política da Alemanha. Em consequência, e como a prova parecia evidente, fazia sentido que fosse Dreyfus o culpado. As dúvidas surgiram depois, mas com o seu espírito de corpo e a mística própria da instituição castrense o Exército foi procurando gerir a situação, mesmo quando era já evidente que se tratara de um lamentável erro. Só passados mais de dez anos, com alguns dos actores deste caso já mortos, foi possível fazer-se justiça. As Forças Armadas, que são, no conceito tradicional, a reserva moral das nações, regem-se por um código de honra poucas vezes compreendido pela sociedade civil. Assim, era inconcebível para o Exército francês admitir a sua culpa. Hoje, que as Forças Armadas dos países estão mercenarizadas e submetidas à justiça ordinária, com as vantagens e os inconvenientes que essa solução comporta, dificilmente o caso Dreyfus seria possível. Temos presentemente entre nós o caso flagrante do roubo ocorrido em Tancos.

Falando propriamente do filme, não é ele uma das melhores películas de Polanski. Falta-lhe o golpe de asa que celebrizou algumas das suas anteriores obras. A primeira meia hora é mesmo confusa para quem desconheça o tema, devido ao recurso sistemático ao flashback, nem sempre devidamente assinalado para a boa compreensão do espectador. Refere o autor que as personagens são autênticas, do que não duvido relativamente às figuras principais. Mas ignoro se o caso amoroso do coronel Picquart ou a relação homossexual entre os adidos militares da Alemanha e da Itália em Paris são factos históricos. Parece-me que Roman Polanski não pretendeu (nem se lhe poderia exigir) uma fiel reconstituição histórica - aliás impossível - mas antes um filme (com alguns contornos ficcionados) sobre um caso que apaixonou a França e que teve repercussões por toda a Europa.

Acrescente-se que o filme se baseia no livro An Officer and a Spy, de Robert Harris e que o tema interessava muito a Polanski que, sendo também judeu, pretendia render homenagem ao oficial injustamente condenado. Esteve para ser realizado em 2012 mas dificuldades várias impediram até ao ano passado a sua produção, agora assegurada por Alain Goldman, curiosamente também judeu.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

NOVAMENTE A QUEIMA DOS LIVROS?


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O "Nouveau Magazine Littéraire" publica no seu nº 26, deste mês de Fevereiro, um artigo de Alain Dreyfus que apresento acima.

Trata-se de um texto que demonstra a hipocrisia reinante em França a propósito do "caso" Gabriel Matzneff. 

Todo o mundo literário, e político, francês sempre soube das aventuras sexuais de Matzneff, já que ele mesmo se encarregou de as descrever em vários dos seus livros ao longo do último meio século. O escritor, que conta hoje 83 anos, manteve em tempos relações consentidas com menores de 16 anos (Les Moins de seize ans é o título de um dos seus livros, publicado em 1974), de ambos os sexos, que constituíram tema para a sua obra diarística ou ficcional.

Ora os livros de Matzneff, durante este meio século, nunca foram objecto de qualquer reprovação oficial, suscitando mesmo o aplauso  de alguns dos maiores vultos da literatura francesa, como Sartre, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Michel Foucault e tantos outros que têm sido citados nas últimas semanas. Houve mesmo, nos anos 70, um movimento em França para baixar para os 14 anos (ou seria para os 12, não me recordo) a maioridade sexual, movimento que recebeu o apoio de grande parte da intelectualidade francesa. Ainda em 2013 Matzneff foi galardoado com o Prémio Renaudot e durante a presidência de François Mitterrand era recebido por este no Eliseu.

É claro que os costumes mudaram (nada é mais relativo do que a moral sexual) e o comportamento de Matzneff é considerado hoje não só altamente censurável mas mesmo criminoso. Aliás, já ao tempo certas relações cairiam sob a alçada do Código Penal, mas jamais a Justiça se incomodou ou os mais altos expoentes da Cultura se preocuparam.

Foi preciso Vanessa Springora, que manteve uma relação com o escritor quando tinha 13 anos, ter publicado agora, mais de trinta anos depois dos factos, um livro relatando a sua experiência, que os guardiões da moral pública rasgaram as vestes.

Como se pode ler no artigo acima, a sua editora, a Gallimard, mandou retirar de venda os seus livros, o Ministério da Cultura retirou-lhe uma subvenção anual que lhe atribuíra em 2002 e o Governo prepara-se para lhe retirar igualmente o grau de oficial da Ordem das Artes e das Letras. E a Justiça abriu uma investigação e procura saber agora o nome das pessoas que mantiveram relações íntimas com Matzneff.

No passado dia 14 de Janeiro, no jornal "Le Monde", Dominique Fernandez, notável escritor e membro da Academia Francesa, afirmou, a propósito da eliminação dos seus livros que isso «signifie pour un auteur la mort professionelle, le renvoi dans le néant». Curiosamente, a Gallimard tem no seu catálogo um bom número de escritores malditos, mas providencialmente todos já mortos.

Não está em causa, no artigo acima, a avaliação do comportamento de Gabriel Matzneff mas tão só a profunda hipocrisia da sociedade francesa que sistematicamente ignorou esse comportamento, convivendo amistosamente com o escritor, e, apenas porque uma das suas conquistas resolveu insurgir-se agora contra ele em livro (ao que parece com grande êxito de vendas) decidiu voltar-lhe ostensivamente as costas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

FELLARE ET IRRUMARE



Chegou às minhas mãos, por feliz acaso, La Fabuleuse Histoire de la Fellation (2014), do professor Thierry Leguay, que morreu em 2016, com 62 anos.

Trata-se de um livro curioso, e raro, já que, existindo milhares de livros sobre a vida sexual, são escassos os que abordam uma actividade praticada habitualmente desde a mais alta Antiguidade, mas escassamente referida nas obras literárias.

A designação culta em português é "felação", com tradução equivalente nas demais línguas ocidentais. Numa linguagem vulgar os portugueses dizem "broche", embora existam outras expressões correntes. O que não há hoje, pelo menos no Ocidente, é a existência de dois termos, consoante o acto é considerado activo ou passivo. Os romanos, como escrevi em posts anteriores sobre a vida sexual na antiga Roma, utilizavam dois verbos distintos: fellare, para qualificar o acto de chupar e irrumare, para o acto de ser chupado. O primeiro, considerado infamante, correspondia a uma posição passiva e o segundo, considerado nobre, a uma posição activa. Nos nossos dias, a palavra latina fellatio corresponde às duas posições, e o irrumatio latino não é utilizado.

O livro está escrito numa perspectiva heterossexual, mas não deixa de considerar a vertente homossexual, já que é nesta, por razões óbvias, que o acto é, proporcionalmente, mais praticado.

O autor percorre rapidamente a literatura francesa, para constatar que os escritores "oficiais" pouco têm referido nas suas obras a prática da felação. Cita Rabelais, Corneille, Maupassant, Verlaine, Apollinaire, Mandiargues, Emmanuelle Arsan, Pauline Réage e Marguerite Duras, entre os mais conhecidos.

Sobre a frequência das práticas Leguay remete para as percentagens do célebre Rapport Kinsey, hoje certamente desactualizado.

Percorrendo o tempo, refere que a felação seria praticamente ignorada na Pré-História, já que é quase inexistente a sua representação nas gravuras. Mas, entrando na História, verifica-se que ela seria corrente no Egipto, todavia menos na Mesopotâmia. Nas velhas Grécia e Roma era prática corrente, como na Índia (ver Kama-Sutra) e na China. No Islão clássico está praticamente ausente das obras literárias, o que não significa a sua inexistência. Por seu turno, os incas seriam largamente partidários desta forma de actividade sexual. No continente negro ela seria rejeitada (em tempos idos), mas não na Oceania, onde constituiria iniciação sexual. Leguay salienta ainda uma aceitação plena no Extremo-Oriente, mas não na Gronelândia.

O autor evoca depois o começo do mundo e o pecado original e faz alusão a Lilith, que Adão teria conhecido antes de Eva, e que terá sido a primeira feladora da História! E debruça-se depois sobre o conceito do pecado carnal, na perspectiva da Igreja Católica. Segundo esta, relações sexuais só com vista á procriação. O próprio onanismo foi fulminado durante séculos como atentatório da saúde e pecado mortal.

No capítulo "Les mots et les mets", é referido um tratado do mago Aleister Crowley (que se relacionou com Fernando Pessoa), de 1910, onde este apresenta 16 maneiras de fazer felação e é referida a correspondência entre o acto de comer e o de realizar felação. Assim, o gozo sexual seria equivalente ao prazer gastronómico. Ou seja, a boca, órgão da alimentação e da palavra seria também o do prazer sexual gratuito. «Le sperme est le mot du vocabulaire sexuel qui connaît le plus d'équivalences alimentaires: c'est le bouillon, la confiture, la crème, l'eau-de-vie (ou l'eau-de-vit!), le fromage, l´huile, la laitance, la liqueur, la semoule, le sirop... Donc, une substance destinée à être avalée.» (p. 120) . Escreve o autor: «Le sperme est un élixir, un nectar, une onction. Image sans cesse présente dans la littérature érotique: 'Je la remis dans ma bouche et la suçait très longuement, comme on suce son puce, le sein de sa mère, la vie, pendant qu'il gémissait et haletait, toujours, jusqu'à ce qu'il éjacule, dans une plainte aiguë, et que je boive son sperme, sa sève, son don.' (Alina Reyes, Le Boucher)» (pp. 121-122)

Seguem-se outras citações de obras, e uma referência ao apetite devorador que pode chegar à castração, como é o caso do filme de Nagisa Oshima, O império dos sentidos (1976). Depois, o autor analisa as relações sexuais com animais e dedica um capítulo às "Perversões". Remete-nos para os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Freud, onde este analisa o uso sexual das mucosas bocais e refere-se ao "phallus passif" evocado por Maria Bonaparte (que foi psicanalisada por Freud) em La Sexualité de la femme (1949)

Tratando da homossexualidade em especial, Leguay recorre a Le Sexe et l'Effroi, de Pascal Quignard, que analisámos em post anterior, e cita Renaud Camus, no seu livro Tricks: «Morgan a repris sans tergiverser sa posture antérieure, à genoux devant moi, mon sexe dans sa bouche. Il le suçait avec énormément de savoir-faire, complétant du pouce et de l'index l'oeuvre de ses lèvres et de sa langue, et se branlant de l'autre main. [...] je n'avais pas envie d'éjaculer dans sa bouche.» (p. 152)

É evocada ainda a auto-satisfação, lembrando a publicação em 1982, pelo jornal "Libération", de três fotografias de um homem nu, numa evidente proeza de ginástica, chupando-se a si mesmo. O livro refere ainda notícias dos séculos XIX e XX, em que alguns homens jovens praticavam felação activa e passiva com adolescentes.

O livro indica depois a felação representada em peças existentes em museus e apresentada em filmes. E debruça-se sobre as técnicas utilizadas quotidianamente na felação.

Termina com o fait-divers do presidente Clinton e com o episódio de Dominique Strauss-Kahn.

Há que reconhecer que a arrumação da matérias é um pouco confusa; esta obra necessitaria de um trabalho de edição. O próprio autor confessa no Post-Scriptum: «Un livre est avant tout une aventure. Loin de vouloir imposer un point de vue ou exposer un savoir, on va à la recherche de l'inconnu (en nous-mêmes aussi), dans le désir de l'offrir à quelques lecteurs. En ce sens, cette "histoire et géographie" de la fellation aura dessiné, pour moi, un voyage des plus séduisants, et des plus troublants, pour toutes les surprises et les questions découvertes au détour du chemin.»

sábado, 8 de fevereiro de 2020

GABRIEL MATZNEFF E AS FOGUEIRAS DA INQUISIÇÃO

 
 
 
O famoso escritor francês Pierre Assouline transcreveu hoje, no seu blogue "La république des livres", o artigo publicado também hoje, por Thomas Clerc, no jornal "Libération":
 
 

L'ÂGE PIVOT
 

par Thomas Clerc

Quel beau télescopage de l’actualité littéraire et politique : on est en France. Quoi qu’on pense de l’homme Gabriel Matzneff (et on en pense plutôt du mal ces jours-ci), on ne peut nier complètement l’auteur d’un journal pas désagréable à lire, où la pédophilie joue un rôle… mineur, entre potins littéraires et visites à Mitterrand (François), tout ce qui fait le sel d’un genre peu prisé aujourd’hui, remplacé par des blogs haineux ou fades. Matzneff appartient à un autre âge, celui de l’impunité de la littérature, mais aussi celui d’une certaine conception du débat. Appelons-le, en hommage à son incarnation, «l’âge Pivot».

En revoyant la fameuse émission d’Apostrophes sur YouTube, qui fait scandale trente ans après (décidément la littérature n’est pas contemporaine), j’ai d’abord été saisi par la qualité du débat. Contrairement à ce qu’affirment les atrocités sur Internet, l’émission, d’une sobriété tendue, n’est pas à la gloire de Matzneff, taclé avec courage par Denise Bombardier. Profitant du décalage culturel passionnant entre l’esprit des années 90 et celui du vieux monde, elle a toute latitude pour renverser en sa faveur la rhétorique suintante d’un lettré trop sûr de lui. Or qu’entend-on partout ? Que l’émission est «ignoble», que Pivot est le valet de Matzneff, qu’il n’aurait jamais dû inviter, etc. Bref, on souhaite la mort des débats comme des pervers. Le problème, c’est que la littérature est le fruit de leurs amours.

Apostrophes était une émission géniale : grâce à elle, j’ai fait mon éducation littéraire contemporaine pendant mes années de formation. Nous regardions religieusement et ironiquement tous les vendredis soir, ma mère et moi, la reconstitution d’un télé-salon. Matzneff est-il le seul à en avoir profité ? Des sourds croient entendre des rires de complaisance pendant l’intervention de Bombardier ; ils émanent surtout des invités cachés derrière les écrivains (Jardin reste coi) : à la différence d’aujourd’hui où le public est sommé d’applaudir dans une arène fascisante, les réactions du public d’Apostrophes n’engagent que leurs auteurs. On n’était pas aux jeux du cirque, mais à une époque où la parole était ouverte, pivotante. Le malaise qui s’installe grâce au direct fait partie du jeu de la parole, qu’il ne s’agit pas d’interdire, mais d’écouter.

Apostrophes a beaucoup fait pour la littérature, la démocratie et la télévision. Pivot, d’abord, laisse parler ses invités : le temps n’est pas encore une denrée rare. Or rien ne dit que laisser parler quelqu’un, c’est l’approuver. Si Pivot n’avait dû inviter que les écrivains qu’il aimait, il n’aurait pas fait ce noble métier de journaliste. Mais à l’heure des flics de la Toile d’araignées, l’opinion publique ne tolère que des gens purs. Grâce à l’âge Pivot, j’ai pu former mon œil à l’éthique de l’écrivain. Godard disait justement qu’à la télé, on voit si quelqu’un ment ou non. Ainsi le personnage Matzneff joue-t-il sans le savoir en sa défaveur, en vertu de ce qui échappe à tout sujet parlant : sa manière d’être, son langage, son image de dandy faisandé qui exhale une complaisance qu’on retrouve dans son Journal, où autrui n’existe que comme faire-valoir. Mais, dans le même moment, ce rôle détruit en live par le clash de Bombardier, produit un très beau morceau de télévision. C’est là l’essentiel, et non l’immoralité de Matzneff, qui ne choquait personne à une époque où la pédophilie était souvent tolérée : à quoi sert-il de critiquer l’esprit d’un temps qui n’est plus le nôtre ? Il faut vivre au présent : dans vingt ans, on crachera sur nos mœurs.

La sobre mise en scène d’Apostrophes fut la garantie de son succès, créant des moments d’anthologie télévisuelle qui sont restés dans la mémoire collective, idéal moribond d’une culture commune : ce fut Nabokov caché derrière une pile de livres et révélant qu’on pouvait être un grand écrivain et un piètre orateur, l’esclandre du jeune Nabe, les bégaiements de Modiano, Bukowski ivre, Pacadis ou Annie Le Brun rivant leur clou aux féministes, moments paralittéraires grandioses. L’âge Pivot est hélas révolu : en face, l’émission insipide de François Busnel, dont pas un seul moment n’a jamais marqué et ne marquera jamais les mémoires, en raison de sa soumission aux lois du marché et de l’autopromotion, fait regretter sinon les «trois milliards de pervers» dont parlait le pro-pédophile Michel Foucault, du moins les quelques écrivains qui ont l’ignorance de leur propre bassesse, révélée par un chef-d’œuvre télévisuel.

THOMAS CLERC
 

(dans Libération du 8 février 2020)