sábado, 9 de junho de 2018

AMORES MASCULINOS NA HISTÓRIA





O historiador francês Michel Larivière, um dos grandes especialistas da História da Homossexualidade, autor de uma obra vasta e erudita, publicou há tempos Les Amours masculines de nos grands hommes, onde descreve, apoiado em numerosa bibliografia, os retratos de algumas das mais célebres figuras homossexuais e bissexuais ao longo dos séculos, tantos quanto o recuo do tempo o permite.

Para o efeito, Michel Larivière não só traça o perfil das personalidades seleccionadas, apenas algumas dezenas entre os milhares que deveriam ser registados, como refere os nomes dos seus amantes e como podem as ligações amorosas facilitar aos mais novos (e belos) carreiras verdadeiramente meteóricas (nem sempre acompanhadas dos méritos requeridos) e até a intervenção nos assuntos políticos dos seus países.

Livro sério, peca todavia pelas omissões (não figura, por exemplo, um único português!) e pelo eurocentrismo (os retratados são praticamente todos europeus), mas também seria difícil alargar o espectro da investigação num livro de pouco mais de 400 páginas. Compreende-se que uma obra desta natureza obrigue a uma selecção rigorosa, pois "são muitos os chamados mas poucos os escolhidos". Aliás, Michel Larivière publicara já, em 1997, um livro mais abrangente, Homosexuels et bisexuels célèbres, prefaciado por Pierre Bergé e ilustrado por Jean Cocteau, uma espécie de dicionário, este com mais de 500 entradas, mas onde o autor consagra aos biografados apenas algumas dezenas de linhas.





Tratando da mesma matéria, existem outras obras, em língua francesa e inglesa, editadas nos últimos anos. Porém, Larivière tem a virtude de ser conciso e preciso, e os seus livros permitem uma consulta rápida e acessível. 

As pessoas mencionadas são, na sua maioria, conhecidas do grande público, embora surjam algumas surpresas para os menos esclarecidos.  Entre os citados, figuram Alexandre, o Grande, Júlio César, o imperador Adriano, Ricardo Coração de Leão, Eduardo II de Inglaterra, François Villon, Leonardo da Vinci, Erasmo, Miguel Ângelo, Solimão, o Magnífico, Cellini, Montaigne, Cervantes, Henrique III de França, Shakespeare, Caravaggio, Luís XIII, Cyrano de Bergerac, Molière, Lully, Guilherme III de Orange, Pedro I, o Grande da Rússia, Frederico II, o Grande da Prússia, Goethe, Luís XVIII, Lord Byron, Schubert, Balzac, Hans Christian Andersen, Chopin, Flaubert, Tchaikovsky, Verlaine, Rimbaud, Luís II da Baviera, Pierre Loti, Oscar Wilde, Marechal Lyautey, Gide, Proust, Max Jacob, Lawrence da Arábia, Cocteau, Eduardo VIII de Inglaterra, Montherlant, Aragon, Lorca, Poulenc, Julien Green, Jean Genet, Tennessee Williams, William Burroughs, Yukio Mishima, Michel Foucault, Maurice Béjart. 

De acordo com a tradição, o autor menciona apenas as pessoas já falecidas (ou aquelas que façam em vida o seu coming out, o que aqui não se verifica). Noto, ao acaso, duas omissões flagrantes: os escritores franceses François Mauriac e Roland Barthes. E também Roger Peyrefitte, homem de extraordinária erudição que dedicou uma vida a escrever romances sobre temas homossexuais, como Les Amitiés particulières. E a estrondosa ausência de Thomas Mann. Dos incluídos menos conhecidos como amantes do sexo masculino figuram Beethoven, o marechal Junot e Jules Verne. O mundo do teatro e do cinema está sub-representado, ou mesmo ausente: os homens de teatro referidos estão na sua qualidade de dramaturgos.

Interessante a menção a Sir Roger Casement (1864-1916), que foi cônsul da Grã-Bretanha em Angola e Moçambique e depois em Portugal e no Brasil. Casement anotava todas as suas relações com os rapazes. Larivière transcreve algumas linhas do seu diário «Londres: Arthur pour 11 schillings. À Funchal: Agostino, très joli, sexe énorme. À Luanda: Mawuki, a un joli sexe énorme, À Luanda: Mawuki, terriblement actif. À Rio: poussée très profonde de Polpito. São Paulo: Antonio, emmanché profond. Retour à Londres: Albert, 15 ans et demi, 10 schillings. Funchal: Carlos, 17 ans, couilles splendides, sexe très long et mince...».

O autor faz uma rápida introdução à história da homossexualidade, referindo não só as bem conhecidas Grécia Antiga e Roma, mas a China, a Índia, o Japão e a Oceânia, e salientando também o anátema de Moisés, que condicionaria desde há milhares de anos as relações same-sex dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos. Evoca também a censura às referências à actividade sexual de muitos protagonistas célebres, caso de Villon, Miguel Ângelo, Shakespeare, Cellini, Montaigne, Balzac, etc. que levaram mesmo à amputação de algumas das suas obras, só reconstituídas no presente graças à descoberta de manuscritos originais. Mas para lá da censura, existiu igualmente a auto-censura. Muitos escritores só autorizaram a publicação das suas obras homossexuais para depois da sua morte: Umberto Saba, E.M. Forster, Roger Martin du Gard. Até Cocteau publicou, anonimamente, as primeiras edições do Livre blanc. E Proust, na Recherche, trocou o sexo a muitas das suas personagens, tal como Montherlant, em Les Jeunes filles.

Mesmo hoje, apesar da evolução dos costumes, permanece uma evidente censura. Quando, em obra anterior, Larivière evocou a homossexualidade de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna, foi atacado por um jornal de Istanbul e impedido de voltar à Turquia. [E, recordo-me eu, de que o filme recente (2004) de Oliver Stone, sobre Alexandre, o Grande levou a um protesto formal dos advogados gregos]. Em tempos da União Soviética, o famoso cineasta Eisenstein foi obrigado a escolher entre o casamento ou o exílio e o cientista inglês Alan Turing, que decifrou os códigos secretos das comunicações nazis, permitindo a vitória da Grã-Bretanha, foi sujeito a castração em 1952 (!?!), tendo-se suicidado em 1954. A Jean Moulin, o célebre resistente francês, cujas cinzas, por ordem de De Gaulle, repousam no Panthéon, foram-lhe atribuídas falsas ligações femininas, e só a recente peça de Jean-Marie Besset, Évangile, ousou abordar o tema da sua homossexualidade. E quando morreu o extraordinário poeta e romancista comunista Louis Aragon (1982), já viúvo de Elsa Triolet e por isso homossexual às claras, não houve uma palavra sobre os seus costumes em toda a imprensa francesa, apesar de ter constituído herdeiro o seu último amante, o poeta Jean Ristat.

Note-se que as personagens em apreço não foram todas, como acontece em geral na vida, exclusivamente homossexuais, muitas delas casaram e tiveram filhos, mas a sua inclinação predominante foram os homens, ou mais propriamente os rapazes, e as suas relações femininas foram mais por questões sociais, ou mesmo vitais, do que por desejo do sexo oposto.

Trata-se de assunto inesgotável, longo que foi o tempo em que esteve silenciado pelos poderes religiosos e profanos.

Vasto programa para tão curto espaço. Mas um livro não é propriamente uma lista telefónica. Nesta matéria quase o poderia ser. Acrescente-se que Michel Larivière, para colmatar o número reduzido de pessoas biografadas no livro, inclui no fim do volume, em anexo, uma lista compacta de homossexuais e bissexuais, incluindo milhares de nomes (não os contei), ordenados por ordem cronológica de nascimento, desde os faraós Neferkare II (cerca de 2000 AC) e Akhenaton (cerca de 1300 AC) até ao escritor Gustave Dustan (1956). Por curiosidade, perscrutei o século XIX e encontrei os portugueses Fernando Pessoa e António Botto. Nem tudo está perdido! Suponho que a leitura atenta desta lista, cuja autenticidade foi confirmada socorrendo-se o autor de declarações dos próprios, das suas obras, dos seus biógrafos, das referências dos historiadores, de testemunhos fidedignos, e muitas vezes dos arquivos nacionais, fará estremecer as almas mais sensíveis!

Oportunamente, regressaremos ao tema.

domingo, 3 de junho de 2018

A MENTIRA DAS GUERRAS HUMANITÁRIAS




Rony Brauman, antigo presidente de Médicos sem Fronteiras, acaba de publicar Guerres Humanitaires? Mensonges et Intox, onde denuncia a impostura das chamadas guerras humanitárias, guerras que, aliás, em Portugal, António Guterres defendeu quando se tratou do ataque à Sérvia.

O livro está organizado em forma de entrevistas, efectuadas ao autor por Régis Meyran, abordando as guerras da Líbia, Somália, Kosovo, Afeganistão e Iraque.

Começa Brauman por discorrer sobre o conceito de "guerra justa" que, na tradição cristã, aparece pela primeira vez em Santo Agostinho (século V). No século XIII, Tomás de Aquino enquadra-o teoricamente, fixando cinco critérios para que uma guerra possa ser considerada justa, os quais limitam simultaneamente as declarações das hostilidades (jus ad bellum) e os meios utilizados (jus in bellum).

A "Responsabilidade de proteger", R2P na gíria internacional, é originalmente o título de um relatório redigido por uma comissão de "personalidades de alto nível", instituída pelo governo canadiano em Dezembro de 2000, em resposta à pergunta do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sobre os critérios que deveriam reger as "intervenções humanitárias". Esse relatório oficializa o alargamento das circunstâncias da entrada em guerra (jus ad bellum), sem todavia criar novos mecanismos. Em substância, a legitimidade do uso da força assenta na gravidade da ameaça (crimes de massa), no facto de que se deve tratar de um último recurso, e na proporcionalidade da resposta, remetendo para o Conselho de Segurança a decisão de saber se estes elementos estão reunidos. Causa justa, último recurso, proporcionalidade, autoridade legítima, são os critérios clássicos da "guerra justa" já presentes em Tomás de Aquino.

O autor precisa devidamente os quatro critérios: 1) a intervenção deve ser decidida pelo Conselho de Segurança da ONU, a autoridade legítima; 2) a violência da resposta não deve exceder a das exacções, princípio da proporcionalidade; 3) todos os outros meios, nomeadamente diplomáticos e económicos tais como condenações públicas ou sanções financeiras devem ser tentados, princípio do último recurso; 4) devem existir razoáveis probabilidades de sucesso.

Os dois primeiros critérios são de ordem jurídica, decorrendo do direito internacional, embora uma decisão legal possa não ser legítima, e vice-versa. Assim, a guerra do Kosovo não foi "legal" porque decidida fora do Conselho de Segurança, ainda que eventualmente legítima, e a guerra da Líbia foi "legal", ainda que se duvide da sua legitimidade. Os dois últimos critérios são mais complexos, porque políticos, ou político-éticos. Até quando se pode ganhar tempo negociando, gesticulando? E qual o nível de violência que se pode tolerar esperando que, por outros meios não violentos, se chegará a uma solução? Estas questões implicam uma notável capacidade de cálculo, permitindo uma projecção do resultado final. Sendo "o objectivo da guerra uma melhor situação de paz", como lembra Michael Walzer em Guerres justes et injustes, obra largamente citada por Brauman, resta saber o que se entende como sucesso?




Num debate travado em plena guerra da Líbia, sobre o "dever de ingerência", o politólogo francês Pierre Hassner recordou duas ideias contraditórias de Clausewitz: por um lado, ninguém sensato deveria começar uma guerra sem ter previamente uma ideia clara do que pretende concretizar com essa guerra e de que forma a pode conduzir; e, por outro lado, devido às fricções, ao nevoeiro, à alteração de meios provocada pela mudança dos objectivos, nenhuma guerra termina segundo o esquema inicialmente previsto.

Embora as guerras recentes tenham sido geralmente desencadeadas por falsos motivos, ainda que anunciando a pretensão de serem "humanitárias", os dois primeiros critérios afiguram-se pertinentes. Quanto ao facto de serem o último recurso, isso foi deliberadamente ignorado nos conflitos examinados no livro. As "razoáveis probabilidades de sucesso" são impossíveis de estimar quando se fixam objectivos vagos e gerais, como a democracia, a libertação das mulheres, o bem-estar geral, etc. Voltando a Michael Walzer: "Uma intervenção estrangeira, se for breve, não pode alterar o equilíbrio do poder interno a favor das forças da liberdade; se a intervenção se prolongar [...] tal constituirá a ameaça mais grave para o sucesso dessas forças". Para Brauman, uma guerra "justa" é, finalmente, aquela 1) que se tentou activamente evitar; 2) cuja causa é justificável prima facie; 3) cujo objectivo é delimitado e atingível.

O autor procede a um exame detalhado das guerras abordadas no livro, aqui impossível de descrever, pelo que mencionaremos apenas alguns aspectos das guerras recentes que, motivadas por interesses que nada tinham a ver com os invocados, provocaram, inutilmente (como é óbvio) a morte e o deslocação de dezenas de milhões de pessoas. Sendo a invasão do Iraque a última mencionada no livro, é um facto que desse acto tresloucado e insidioso está o mundo, especialmente a Europa, a sofrer as consequências, com as vagas imparáveis de imigrantes e o alastramento em força do terrorismo ao Velho Continente. Os autores dessa invasão, criminosos contra a Humanidade, continuam impunes.

Começando pela Líbia, sabemos hoje que tudo assentou numa mentira, propagandeada à exaustão. Embora o ataque fosse autorizado pelo Conselho de Segurança (com a abstenção da Rússia e da China), as razões invocadas eram falsas e as operações transcenderam largamente o que fora previamente acordado. Não estava à partida em causa a substituição de Muammar Qaddafi, e muito menos o seu assassinato, ao que tudo leva a crer directamente encomendado por Nicolas Sarkozy. Em 21 de Fevereiro de 2001 a Al-Jazira informou que a aviação líbia estava a bombardear os manifestantes de Tripoli. O sinistro Bernard-Henri Lévy, que viu as imagens (falsas) no aeroporto do Cairo, tornou-se o grande arauto desta invasão. Só que não houve qualquer bombardeamento em Tripoli, como o reconheceram, aliás, em 2 de Março, o secretário de Estado da Defesa e e o chefe de Estado-Maior americano perante o Congresso, mais honestos que os dirigentes franceses e britânicos. Como não existiu qualquer tentativa de aniquilar a população de Benghazi. Nem Qaddafi para tal tinha meios. Mas, ainda em 2 de Março, o secretário-geral da Liga Líbia dos Direitos do Homem afirmava em Paris que 6.000 pessoas tinham sido já mortas pelo regime, das quais 3.000 em Tripoli e 2.000 em Benghazi, o que fez passar despercebido o desmentido da Casa Branca sobre o ataque a Tripoli. A hipótese de um ataque a Benghazi poderia perfeitamente ser travada, desde que se atacasse essa famosa (inexistente) coluna de carros que caminhava pelo deserto. Em 18 de Março Qaddafi anunciou que aceitava um cessar-fogo mas o comandante dos rebeldes Khalifa Haftar recusou-a liminarmente, bem como os seus novos aliados franco-britânicos-americanos. Nova proposta do líder líbio a 20, foi igualmente rejeitada. A campanha de intoxicação da opinião pública ocidental foi desmesurada. Como escreve Brauman, foi uma story telling à maneira de Fort Apache, ou alter facts, na terminologia da Casa Branca. A guerra da Líbia foi uma guerra de Sarkozy, tornada possível pelo empenhamento anglo-americano e do Qatar, que arrastou consigo a Liga Árabe. O Pentágono mostrou-se inicialmente reticente mas Obama acabou por intervir a favor de Hillary Clinton, então secretária de Estado, criminosa e intervencionista assumida. Tratou-se de uma excelente montagem dilomática por instigação do Eliseu, de que BHL (sempre este facínora) foi um comunicador infatigável e eficaz. É claro que por detrás desta guerra fica a questão ainda não devidamente esclarecida de que Sarkozy pretendia desembaraçar-se de Qaddafi, que havia financiado secretamente a sua campanha eleitoral para a presidência da República, através de notas entregues a Claude Guéant pelo intermediário Ziad Takieddine. Ao contrário do Parlamento britânico, que publicou um inquérito em 2016, através da comissão de Negócios Estrangeiros, afirmando que esta guerra foi conduzida sobre "postulados errados", que a ameaça sobre Benghazi foi "sobre-avaliada", que "ela não assentou em qualquer elemento tangível" e que a França prosseguiu interesses particulares, a Assembleia Nacional francesa ainda não julgou útil debruçar-se sobre o assunto. O Qatar desempenhou um papel político essencial, neutralizando uma parte das críticas que faziam desta intervenção uma ingerência ocidental, "arabizando-a" não só pela sua presença activa na frente de combate mas também no plano mediático e diplomático. E a Liga Árabe, não opôs obstáculos, sendo mais passiva do que entusiasta.  Os anglo-americanos impuseram a NATO, o que não estava inicialmente previsto, mas que era militarmente indispensável. É interessante interrogarmo-nos sobre a evolução desta aliança militar em princípio defensiva e geograficamente limitada que se tornou ofensiva desde a guerra da Jugoslávia e viu nos últimos anos os seus teatros de intervenção alargarem-se para lá da Europa e do Atlântico, nomeadamente no Afeganistão e na Líbia. A morte de Qaddafi tornou-se necessária, não só pela questão do financiamento a Sarkozy mas pelo facto de que a prisão do Guia, acusado de crimes contra a humanidade, teria de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional, o que seria absolutamente inconveniente para o Ocidente pelos segredos de Estado que poderia revelar.

Os pormenores descritos pelo autor, que não cabem no espaço de um post, são suficientes para justificar a leitura do livro.

A guerra da Somália, em 1990, foi a primeira "guerra humanitária" do pós-guerra fria. Já estamos um pouco esquecidos dela. O país entrou em guerra civil no fim dos anos 1980 devido às reivindicações territoriais do presidente Siad Barre, que foi destituído em Janeiro de 1991. O problema da análise desta guerra é mais complexo, devido à existência de clans, apanágio das sociedades tradicionais e pré-estáticas. A visão clânica dos somalis ia a par com uma organização social muito pouco hierarquizada. O Estado, que nunca havia sido poderoso, desmoronou-se, mas a fome que ocorreu atingiu mais as populações deslocadas do que a população em geral. O envio de ajuda alimentar foi muito problemático. A fuga de milhares de pessoas para a Etiópia, em termos onusianos, podia considerar-se uma "ameaça contra a paz". Boutros-Ghali apelou para os Estados Unidos e em 9 de Dezembro de 1993 foi lançada a operação Restore Hope com grande difusão pelas cadeias televisivas norte-americanas. Mas a desorganização foi geral. Brauman chama-lhe "crime humanitário". O que aconteceu foi uma coligação de boas vontades, de um lado, e do outro uma Somália a ferro e fogo, entregue a gangs, um verdadeiro fiasco. A pouco e pouco as forças da ONU converteram-se num clan, a par dos demais e Clinton, desejoso de sair do vespeiro, procurou uma saída airosa, projectando a captura de Aïdid, que se tornara o principal opositor da presença norte-americana. Foi desencadeada uma verdadeira caça ao homem que se saldou por uma operação desastrosa conduzida contra Aïdid. Morreram dezoito rangers e quinhentos somalis, um piloto foi feito prisioneiro e vários soldados linchados nas ruas. A cena horrível e humilhante deu a volta ao mundo e Clinton decidiu terminar o empenhamento americano e preparou a saída discreta do país. Esta guerra foi empreendida devido a simplificações enganadoras e a alegações mentirosas e a sociedade somali foi posta de parte, apesar de lhe ter sido confiada a missão grandiosa de "pacificação" e de reconstrução do Estado.

A guerra do Kosovo foi desencadeada num clima de intensa propaganda com base em alegações de massacres e mesmo de genocídio. O Kosovo não fora sequer mencionado nos acordos de Dayton (21 de Novembro de 1995) que puseram fim à guerra da Bósnia-Herzegovina., o que contribuiu a deslegitimar o presidente Ibrahim Rugova, opositor de longa data a Belgrado. As coisas teriam evoluído noutro sentido se este tivesse recebido o apoio europeu, mas surgiu uma nova oposição, o Exército de Libertação do Kosovo (UCK), que começou a actuar em 1996 contra o governo de Milosevic e chegou ao poder no fim da guerra de 1999.

A Conferência de Rambouillet (6 de Fevereiro/19 de Março de 1999) foi para os Estados Unidos a fachada diplomática que ocultava o projecto de guerra que adquiria consistência, dadas as condições inaceitáveis que impunha a Milosevic, começando por uma série de princípios anunciados como "não negociáveis". Curiosamente, o presidente pacifista Rugova fora afastado da conferência, em proveito do criminoso Hashim Thaçi, líder do UCK. O próprio Henry Kissinger, outro criminoso de guerra, escreveu: «O texto de Rambouillet, que apelava à Sérvia para acolher as tropas da NATO em todo o território da Jugoslávia, era uma provocação, um pretexto para começar os bombardeamentos. Rambouillet não poderia ser aceite pelo mais pacífico dos sérvios. Era um documento diplomático espantoso que nunca poderia ter sido apresentado dessa forma.» Foi o lado americano, representado pela secretária de Estado Madeleine Albright, outra criminosa [curiosamente, e em minha opinião, a maior parte dos secretários de Estado norte-americanos são criminosos de guerra. Basta analisar as suas posições durante os respectivos mandatos], quem levou a questão aos extremos, enquanto a posição de Hubert Védrine, pelos franceses e de Robin Cook, pelos britânicos, era mais aberta às expectativas sérvias. Os americanos queriam esta guerra para testar armamento e para transformar o Kosovo numa base militar americana. Pouco antes o começo da conferência de Rambouillet, a NATO autorizara o seu secretário-gerl, Javier Solana, a empreender se necessário ataques aéreos à Sérvia. Tenha-se em conta que o ministro alemão da Defesa anunciara a existência de um plano denominado "Ferro a Cavalo", segundo o qual as forças sérvias de Milosevic tinham previsto desde os fins de 1998 pegar na população albanesa do Kosovo e expulsá-la da província. Esta informação não proveio exactamente da NATO mas do próprio governo alemão, para justificar à sua opinião pública, muito dividida, a sua participação na guerra. Os próprios oficiais alemães contestaram no "Der Speigel", a vontade genocidária dos sérvios. O plano "Ferro a Cavalo" foi uma pura criação dos serviços especiais, a pedido do ministro da Defesa Rudolf Scharping. É um facto que o êxodo maciço das populações se deveu fundamentalmente aos bombardeamentos "aliados" e não à acção organizada dos paramilitares sérvios, que também existiu.

Acrescente-se que o UCK é um reagrupamento de pequenos grupos ultranacionalistas à moda albanesa, financiados pelo "imposto revolucionário", pelo tráfico de droga (e parece que também de órgãos humanos), muito pouco recomendável, e o Estado do Kosovo só foi reconhecido a pouco e pouco devido a pressões norte-americanas. Por exemplo, a Espanha e Chipre, tal como a Rússia e a China, nunca o reconheceram. A seguir à guerra, o Kosovo transformou-se num protectorado onusiano, e a ONU designou um pro-cônsul, Bernard Kouchner, personagem eticamente controversa, que foi co-fundador de Médicos sem Fronteiras e ministros dos Negócios Estrangeiros de Sarkozy, que exerceu funções administrativas durante dezoito meses. Foi a seguir que o UCK tomou as rédeas do poder e proclamou a independência.

Esta guerra foi declarada pela NATO contra toda a legalidade internacional, tendo a ONU legalizado a intervenção a posteriori, com o fez, aliás, em relação ao Iraque, cuja invasão havia condenado em 2003...

O Kosovo é hoje controlado por máfias, não tem uma economia viável, tornou-se numa espécie de caserna da NATO e os sérvios foram expulsos ou relegados para os seus enclaves, tal como os ciganos, sob o olhar indiferente das tropas a Aliança Atlântica.

A concluir o capítulo dedicado ao Kosovo, o autor escreve: « L'amplification et la distorsions des faits sont les traits communs à ces trois guerres [Somália, Líbia e Kosovo], certes, mais on arguera que toutes les guerres donnent lieu à des assauts de propagande. De ce point de vue du rapport à la vérité en situation de guerre, démocraties et dictatures ne sont effectivement pas très différents, à ceci près peut-être que les démocraties convoquent plus volontiers la morale, quand les dictatures se réclament de la sécurité ou de la souveraineté. Je pense pour ces dernières à la Tchétchénie, à la Syrie, au Yémen notamment, mais aussi bien sûr à la "guerre contre le terrorisme" où se dévoile la face cachée de la démocratie américaine, à savoir le penchant dictatorial de l'Amérique impériale.» (p. 88)

Sobre a guerra do Afeganistão já muito se escreveu. O ataque dos Estados Unidos foi a resposta inevitável aos ataques de 11 de Setembro, porque era preciso fazer alguma coisa. E logo se misturaram dois objectivos: derrubar o regime taliban de Kabul e destruir as bases de treino da Al-Qaida. Os talibans afegãos, que não são um partido mas uma espécie de frente relativamente diversificada, são, em primeiro lugar, nacionalistas. Talvez islamo-nacionalistas mas não djihadistas internacionalistas. Praticaram indiscutivelmente o terrorismo mas dentro das suas fronteiras e contra um inimigo local identificado. A sua aliança com Al-Qaida data da guerra de resistência ao Exército vermelho dos anos 1980, época em que eram, se bem nos lembramos, apoiados pelos Estados Unidos, tal como o grupo de Bin Laden, quando este era recebido no Pentágono. Só quando as tropas americanas se instalaram em território saudita, no contexto da guerra do Golfo de 1991, é que elas se tornaram inimigas da Al-Qaida. Mas o poder taliban instalado em Kabul entre 1995 e 2001 depois da vitória sobre outras facções afegãs, nomeadamente a dirigida pelo comandante Massud, era muito bem aceite por Washington. Numa primeira fase, os americanos destruiram uma parte das estruturas da Al-Qaida mas falharam a captura de Bin Laden, embora esta se pudesse efectuar ulteriormente utilizando métodos policiais.  O estado-maior americano havia baptizado esta operação de "Justiça Infinita", antes de renomeá-la Enduring Freedom ("Liberdade Duradoura"). Com um tal começo, não estranha que se tenha convertido numa guerra em nome da civilização.

O regime taliban caiu cinco semanas depois do começo da ofensiva, e no fim de 2001 foi instalado um governo interino presidido por Hamid Karzaï. Teria sido a oportunidade para as tropas estrangeiras abandonarem o território deixando aos afegãos o cuidado de encontrarem a sua própria fórmula política, mas foi precisamente o contrário que aconteceu. Os contingentes de ocupação aumentaram, foi iniciada uma certa reconstrução do país, é certo, e ao longo de uma década esta situação permitiu a abertura de um mercado florescente para as companhias de segurança privadas. Tal não obstou, todavia, ao avanço inexorável dos talibans, com operações militares de que resultaram centenas de mortos. Igualmente, os comportamentos coloniais, a pesada tutela americana, o jogo duplo do Paquistão e da Arábia Saudita, a corrupção omnipresente, bem como a hostilidade que suscita, em qualquer parte, a presença duradoura de exércitos estrangeiros, são suficientes para explicar o sucesso da rebelião islamista.

Quanto às armas de destruição maciça do Iraque, tratou-se de uma gigantesca mentira difundida a nível planetário, mas refutada pelo mundo ocidental, mesmo por todo o mundo. Rony Brauman escreve: «Il faut se rappeler les manifestations dans le monde entier, en particulier dans l'Europe occidentale. Pas toujours pour des bonnes raisons, au demeurant, si l'on pense à des sondages internationaux selon lesquels plus de la moitié de la population mondiale pense que les attentats du 11 septembre seraient en réalité une manipulation de la CIA. Mais la propagande a fonctionné admirablement aux États-Unis, où 80% da la population a soutenu cette "guerre preventive" contre un "nouvel Hitler". Cela dit, cette guerre, dont nous vivons aujourd'hui encore les suites désastreuses, n'a été possible qu'en raison de la promesse faite à Bush par Tony Blair, alors Premier ministre, de le soutenir "quoi qu'il arrive". Et cela contre l'avis des Britanniques qui, comme les Français et autres Européens, y étaient opposés. [...] Cela n'a toutefois pas profondément ébranlé Blair, qui a réagi à ces critiques en défendant son choix: "Nous avons pris la bonne décision. Le monde est meilleur et plus sûr". Tout cela a suscité la naissance de mouvements violents, radicaux, et qui pour certains ont débordé des frontières, Al-Qaida et État islamique, d'autres restés à l'intérieur de leurs frontières tout en radicalisant leurs positions: l'Armée rouge en Afghanistan a provoqué la naissance des talibans et d'Al-Qaida, l'attaque irakienne de 1980 a radicalisé la "Révolution islamique" en Iran, l'invasion de l'Irak en 2003 a entrainé la création de l'État islamique...» (pp. 100-101)

O direito humanitário, que ainda não se chamava humanitário, nasceu com a primeira Convenção de Genève de 22 de Agosto de 1864. Tratava da "melhoria da sorte dos militares feridos nos exércitos em campanha". Os termos da Convenção evoluíram, estendendo o seu campo aos feridos e náufragos (1906), aos prisioneiros (1929) e finalmente às populações civis (1949). Em 1977 foram adoptados "protocolos adicionais" a fim de adaptar os textos aos conflitos implicando forças "irregulares" nos conflitos internos, a seguir às guerras de descolonização e à guerra do Vietnam. Dos dez artigos da primeira convenção estamos agora com 559 artigos na convenção em vigor. 

O suisso Henry Dunant, impressionado com os agonizantes do campo de batalha de Solferino, entre Napoleão III e Francisco José (1859), escreveu Un Souvenir de Solférino (1862), a que chamou "manifesto humanitário". O livro teve um extraordinário êxito na Europa e deu origem à criação, em 1863 a uma "Sociedade para o socorro dos feridos militares", que se tornaria, dez anos mais tarde, o Comité Internacional da Cruz Vermelha e suscitaria a criação de sociedades nacionais da Cruz Vermelha em todos os países do mundo (actualmente 194). A sua primeira iniciativa foi a realização de uma conferência diplomática em 1864, para a "melhoria da sorte dos militares feridos nos exércitos em campanha", exactamente como a primeira Convenção de Genève. O paradoxo desta convenção foi ter sido assinada no momento em que começava a tornar-se caduca. De facto, as evoluções técnicas e os movimentos políticos que começaram a verificar-se tornaram ultrapassada a noção de campo de batalha e a distinção entre combatentes e não combatentes (os irregulares). Sendo o final do século XIX o da aceleração das conquistas coloniais, estas foram "ipso facto, transformadas em guerras justas em nome do direito natural, do comércio, da circulação e da propriedade" (Enzo Traverso, Le XXe siècle  des guerres, 2004). Ser humanitário é por defenição, referir-se à espécie humana, só que, como escreveu Orwell, há humanos mais iguais do que outros. A distinção foi teorizada por Gustave Moynier, co-fundador e primeiro presidente da Cruz Vermelha (durante 36 anos!!!), que escreveu que os princípios que a fundavam eram o produto da moral evangélica e da civilização. Portanto, este progresso era "inacessível às tribos selvagens [...] que cediam sem pensamentos reservados aos seus instintos brutais enquanto as nações civilizadas procuravam humanizá-lo" (Les Causes du succès de la Croix-Rouge, 1888). 

O autor expende depois as suas ideias sobre os novos tipos de guerras, a utilização de drones, os chamados danos colaterais, as intervenções ditas cirúrgicas, etc., e escreve: «Pour des forces politiques en guerre, qu'il s'agisse d'États ou d'acteurs non-étatiques, les frontières de l'intolérable sont celles de leurs intérêts. Le crime de guerre, par exemple, désigne les cruautés excessives, que "ne justifient pas les exigences militaires". Mais qui définit ces exigences en dernier resort? Le vainquer, bien sûr. Plus largement, selon que le pouvoir sera ou non soucieux de s'attirer les bonnes grâces de la population, il se conduira avec plus ou moins d'aménité à son égard. Et selon le degré d'importance qu'il attache à son image internationale, il modulera son niveau de brutalité. L'armée américaine, encore elle, a mis au point un logiciel qu'emploient ses officiers de ciblage (targeting officers) pour anticiper, en fonction de toutes sortes de paramètres (densité de population, neure de la journée, types de constructions etc.), les dommages collatéraux de bombardements de quartiers urbains. Objectif: éviter des pertes civiles supérieures à vingt-neuf morts, car le chiffre trente est le seuil à partir duquel des signaux négatifs apparaissent dans la presse, selon les conseillers. C'est à ce genre de détail raffiné que l'on voit le formidable pragmatisme d'une république impériale. En tout cas, le droit humanitaire est soumis par sa nature même à la logique de la guerre et c'est pourquoi les ONG ne devraient pas tenter de s'en faire les championnes, comme c'est souvent le cas.» (pp. 122-3)

E o autor conclui: «Il y a sans doute des guerres justifiables, encore faut-il s'en expliquer et c'est précisement là que les critères de la "guerre juste" peuvent nous aider, comme j'ai tenté de le montrer. Mais il n'y a pas de "guerre juste", il n'y a que des faux prophètes. Et je m'inquiéte de la facilité avec laquelle l'histoire, réécrite pour les besoins de la cause, devient l'Histoire.» (p.126)


domingo, 27 de maio de 2018

A FRANÇA CONTRA MACRON




Emmanuel Macron foi eleito presidente da República Francesa, em 2017, por falta de comparência de um candidato verdadeiramente credível.

Na lª volta das Presidenciais, os candidatos dos dois grandes partidos obtiveram resultados que não lhes permitiram sequer passar à 2ª volta. Os mais votados foram os seguintes:

- Emmanuel Macron (En Marche) - 24,01 %
- Marine Le Pen (Front National) - 21,30%
- François Fillon (Les Républicains) - 20,01 %
- Jean-Luc Mélenchon (France Insoumise) - 19,58%
- Benoît Hamon (Parti Socialiste) - 6,36%

Tais resultados significaram que a França se encontrou dividida em cinco partes praticamente iguais, uma das quais aglutinando os 6,36% de Benoît Hamon e os votos despiciendos de todos os outros candidatos.

A votação de François Fillon, "herdeiro" de Sarkozy, representando o partido que fora de Charles de Gaulle e de Jacques Chirac, é explicada não só pelos escândalos em que Fillon se viu envolvido mas pelo seu programa político, indesejado pela maioria dos franceses.

Benoît Hamon, que vencera nas primárias socialistas o inqualificável Manuel Valls (uma criatura hedionda), obteve um resultado irrisório para um candidato do PSF, devido não só à decadência que vem afectando os diversos partidos socialistas e sociais-democratas europeus, mas também pela política errática e estúpida prosseguida por François Hollande, que de socialista nada tinha e foi altamente prejudicial para a França e para os franceses no plano interno e internacional.

Sendo Marine Le Pen classificada de extrema-direita e Jean-Luc Mélenchon de extrema-esquerda, o que parece ainda provocar uma certa alergia à maioria dos franceses, estes, por exclusão de partes, elegeram Emmanuel Macron, ainda que Marine Le Pen lograsse passar à 2ª volta:

- Emmanuel Macron - 66,10%
- Marine Le Pen - 33,90%


Refere "L'Obs" (nº 2793, 17 a 23 Maio 2018) que na 1ª volta 30% dos eleitores dos 18 aos 25 anos votaram assim:

- Mélenchon - 30%
- Le Pen - 21%
- Macron - 18%

Isto demonstra a desafecção dos jovens em relação ao presidente eleito, que declarou não querer ser Júpiter, como se alguém pudesse alguma vez compará-lo ao pai dos deuses da mitologia romana.

Emmanuel Macron é suposto ter sido colaborador de Paul Ricoeur, mas afigura-se que o seu pensamento está mais próximo de Jürgen Habermas, que terá sido seu precursor mental, na medida em que este considera que as antigas clivagens direita-esquerda estão mais ou menos apagadas e que os tempos vão no sentido de uma aproximação desapaixonada, "instrumental", da gestão (e da reforma) das nossas sociedades. Esta maneira de ver as coisas tem a vantagem de ser construtiva e racional mas padece de dois tipos de objecções. Em primeiro lugar, diminui a conflitualidade de base, intrínseca, das nossas sociedades, embora um dos obstáculos com que Macron se depara seja exactamente o desprezo pelo conflito de classes, porque gerir uma sociedade, sobretudo quando se pretende reformá-la de alto a baixo, não é propriamente um jogo de Meccano racional mas uma acção política, com a "arte" que ela implica. Em segundo lugar, vem a noção subjacente da "era pós-metafísica", que supõe o o fim das ideologias, o que não está provado, e que coloca a questão do rearmamento actual das religiões, com uma dimensão suplementar, geopolítica, como a reacção a uma globalização que se encontra centrada muito "ocidentalmente". Seguindo Habermas, Macron sonha com o "patriotismo constitucional" (ideia apresentada pelo filósofo em 1986), o que garantiria o respeito dos particularismos, a República e a Pátria, mas esta síntese é tudo menos estável. Que fazer dos particularismos não liberais, ou de um liberalismo diferente? Tudo matéria complexa que Macron teorizou, pretende aplicar de cima do seu pedestal, mas não se compadece com a realidade nacional que lhe incumbe administrar em nome de todos os franceses.

Num livro recente, Un ministre ne devrait pas dire ça..., Christian Eckert, que foi secretário de Estado do Orçamento, quando Macron era ministro da Economia de François Hollande, conta como Macron preparou meticulosamente e em segredo a sua candidatura ao Eliseu, utilizando o Hotel de Bercy (Ministério da Economia e Finanças) como plataforma aglutinadora de influências que seriam determinantes na constituição do partido "La République en Marche". Na realidade, em marcha atrás!
Através de um mecanismo implacável, Macron preparou a atomização do que chama o Mundo Antigo, num governo do Partido Socialista, e procedeu à "uberização" da vida económica, reprivatizando autoestradas, tentando a venda da Française des Jeux, privatizando estádios de futebol, aeroportos e preparando a vinda dos auto-empreendedores,  tudo discretamente realizado na sombra dos corredores governamentais onde sempre exerceu a sua influência liberal. Escreve Christian Eckert: «Recuando alguns meses, compreendo ter assistido ao nascimento do primeiro presidente cujo coração é um "algoritmo". Por trás de um sorriso lisonjeiro, sob aparente improvisação, há um cálculo frio e metódico: aproveitar todas as ocasiões para considerar obsoleta a esquerda - sem atacar frontalmente François Hollande - e acarinhar a direita, cujos próprios votos foram transferidos para a extrema-direita mais os negócios.»

Todavia, a tranquilidade não reina no Eliseu. E a contestação do "macronismo" invadiu a França, pela esquerda e pela direita. Não me refiro já aos partidos que se inserem institucionalmente na República, nas suas extremidades, o Front National e a France Insoumise, mas às franjas mais radicais que crescem diariamente e perturbam a paz social que Macron supunha adquirida para que o país, em sossego, continuasse "em marcha".

Nas últimas semanas, sem que a imprensa portuguesa escrita e falada dê conta da dimensão dos acontecimentos, têm-se repetido sucessivamente graves incidentes, que Macron procura disfarçar, distraindo os franceses com as suas visitas ao estrangeiro e outros fait-divers para o povo se entreter.

Centenas de jovens da "Génération Identitaire" promoveram, em Abril, uma excursão anti-imigrantes e bloquearam a fronteira franco-italiana no Col de L'Échelle (Alpes), a que se seguiu outra incursão de militantes antifascistas para "libertar a fronteira". Nas ruas de Nantes, os membros da ZAD (Zone à Défendre), os zadistas, que se opõem à construção do aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, confrontaram as forças da ordem, encarregadas de os obrigar a dispersar, o que criou grande tensão na cidade. Ainda em Abril, militantes e simpatizantes da Action Française foram detidos para evitar uma batalha com os "antifas", em Saint-Étienne, por causa da abertura de uma delegação daquele movimento, comemorando o 150º aniversário do nascimento de Charles Maurras. Em Maio, os estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre e manifestantes encapuçados (Black Blocs e anarquistas) do "Cortège de Tête" atacaram 31 estabelecimentos e incendiaram 6 veículos.

Estes acontecimentos (prelúdio de uma repetição do Maio de 68?) têm como denominador comum a contestação das políticas de Emmanuel Macron, decididas apenas por ele, numa postura olímpica que não se coaduna com a pluralidade da República.

Segundo o politólogo Jean-Yves Camus, estamos a assistir a um regresso da chama do radicalismo, em que se distinguem fundamentalmente seis movimentos, três de esquerda e três de direita. Verdade se diga que em alguns aspectos os extremos se tocam. Não é em vão que muitos elementos considerados antes de extrema-esquerda passaram a integrar o Front National. Porque há causas comuns e muitos, mas mesmo muitos franceses não se revêem nem na direita nem na esquerda clássicas, como o demonstraram os resultados das eleições presidenciais.

Aquele politólogo considera os seguintes movimentos de ultra-esquerda:

- Indigènes de la République - Contra o racismo e a homofobia; anti-colonialistas e anti-sionistas. Consideram a França um Estado colonial, criticaram as manifestações de apoio ao "Charlie Hebdo" e criaram o Parti des Indigenes de la République, que se insurge contra o tratamento racista aplicado ao islamólogo Tariq Ramadan.

- Comité Invisible - Colectivo anónimo que defende o comunismo utópico e insurreccional. Publicou em 2007 L'insurrection qui vient, best-seller da revolta anti-capitalista, atribuído a Julien Coupat, e em 2017 Maintenant, onde se criticava o movimento Nuit Debout.

- Cortège de Tête - Colectivo efémero defendendo o anarquismo amotinador. Esteve na primeira fila das manifestações contra a Lei El Khomri. Tem por objectivo atacar os símbolos do capitalismo. Como se escreveu acima, os seus mais de 14.000 "simpatizantes" participaram nas manifestações do 1º de Maio 2018, que atacaram estabelecimentos e veículos.

Na ultra-direita consideram-se:

- Bastion Social - De tendência neo-fascista. Em 2017 ocuparam um edifício em Lyon, para aí alojar os sem-abrigo "franceses 'de souche'", inspirando-se no movimento neo-fascista italiano CasaPound. Estão implantados em Paris, Lyon, Chambéry, Estrasburgo e Marselha.

- Action Française - Realista ultra-reaccionário. Participaram na "Manif pour tous, provocaram actos de violência em Marselha na manifestação contra a Lei El Khomri e foram detidos em Saint-Étienne, como se disse, por causa da celebração do 150º aniversário do nascimento do fundador da Action Française.

- Génération Identitaire - Racista anti-imigrantes. Em 2012 ocuparam o local de construção da mesquita de Poitiers, em 2017 organizaram-se para ajudar os sem-abrigo europeus e em 2018 pretenderam encerrar uma fronteira nos Alpes. A sua conta no Facebook foi suspensa em 3 de Maio, por "incitamento ao ódio".

Esta radicalização não nasceu com a eleição de Macron (veja-se os resultados de Mélenchon e de Marine Le Pen nas presidenciais) mas é um sinal de que grassa um profundo descontentamento na sociedade francesa. O discurso de Emmanuel Macron, explicando que não existe outro caminho possível que não seja a sua política, e que no campo político é apenas contestado por Le Pen e Mélenchon, provoca consideráveis danos. Tanto mais que os corpos intermédios estão enfraquecidos. Ao afirmar que pretende provocar um electrochoque para que o país saia do imobilismo, o presidente pode desencadear a adesão de alguns, é certo, mas origina principalmente uma enorme indignação e uma grande cólera.

Muito mais haveria a dizer, mas fiquemos por aqui. As oposições a Macron, à direita e à esquerda, demonstram que o caldo político centrista e europeísta que o presidente defende, aderindo aos postulados neoliberais, e uma disfarçada subserviência ao decadente imperialismo norte-americano, não são do agrado da maioria dos cidadãos. A "marcha" forçada a que Macron pretende obrigar os franceses poderá traduzir-se num recuo a breve trecho, correndo-se o risco de o país mergulhar num caos, para onde aliás se encaminha desde a eleição de Nicolas Sarkozy.

Macron está muito cheio de si-mesmo, mas talvez tenha de abandonar apressadamente o Olimpo para não deixar a França afundar-se irremediavelmente num pântano. Antes que seja demasiado tarde.


domingo, 20 de maio de 2018

AINDA A EUROPA




O nº 5 (Maio 2018) do "Nouveau Magazine Littéraire" é parcialmente dedicado à Europa. Além do texto que transcrevemos em parte no post anterior, publicamos agora, em tradução minha, para facilitar a leitura de quem não domina perfeitamente o francês, o artigo "Notre Katrina", do escritor e filósofo espanhol Paul B. Preciado.

NOTRE KATRINA

«Vivi em Atenas os dois últimos anos, sem o que ficaria provavelmente como a maioria dos meus concidadãos europeus, indiferente à brutalidade das políticas implementadas pela União Europeia no país helénico. Contudo, se quisermos compreender o futuro deste monstro humanista e bem-pensante que é a Europa, é preciso prestar atenção ao que se passa na Grécia. Foi aqui que a partir de 2015 foi conduzida, com toda a impunidade, a primeira experiência de "repressão democrática" em grande escala no seio da União.

Da mesma forma que depois da guerra fria o Chile serviu de laboratório aos "Chicago boys" para experimentar a implantação do neoliberalismo, a Grécia é hoje o campo de jogos dos que se poderiam chamar os "deutsche Jungs", em que se testam as modalidades de uma segunda volta do neoliberalismo, num contexto geopolítico pós-colonial inédito, no seio do qual os limites dos blocos de Leste e de Oeste são baralhados, em benefício de uma nova repartição opondo o Ocidente ao islão. Esta experiência, inicialmente circunscrita à Grécia, mas de âmbito europeu, tinha por missão estratégica verificar em que medida os cidadãos e as instituições podiam tolerar uma nova democracia neoliberal autoritária. Enquanto que até ao presente tínhamos pensado que as estratégias neoliberais conduziam sempre a um enfraquecimento do aparelho Estado-nação, uma ética multicultural em que as identidades locais são confundidas pelo mercado e em que a liberdade - entendida como liberdade de mercado - continua em expansão, a nova democracia neoliberal autoritária mostra um rosto que combina o desmantelamento dos vestígios dos mecanismos de redistribuição das riquezas bem como das instituições de apoio social (introduzido na Grécia nos anos 1980) com a repressão nacionalista e a promoção de uma ideologia fascista inspirada por uma biopolítica da raça branca (tarefa absurda numa Grécia que, situada na charneira do Oriente, nunca foi branca).

A primeira medida deste teste em grande escala foi a supressão da soberania democrática do povo grego em seguida ao referendo do Oxi ("não"). Depois de ter anulado o referendo, a Europa exigiu e fez aplicar sem remorsos as mais frenéticas reformas neoliberais do mercado de trabalho, a diminuição das reformas, a privatização dos serviços públicos, o desmantelamento da cultura pública... De facto, isso implicava a pauperização da classe média grega e a precarização dos dois extremos mais frágeis da população: os reformados e os jovens. Com mais de 30% de desemprego, a juventude grega recomeçou um processo de migração económica - paradoxalmente, a Alemanha tornou-se o primeiro destino desse exílio. 

O prisma do "capitalismo do desastre" que Naomi Klein propôs para compreender a aplicação das reformas neoliberais permite ler a situação grega com precisão. A Grécia é o nosso Haiti e o nosso Katrina. A chave da nova democracia autoritária europeia encontra-se na sobreposição no solo grego das medidas extremas de gestão de duas "crises" provocadas e geradas pelos centros hegemónicos financeiros: a crise económica e a crise dos refugiados. Na Grécia, a extensão do neoliberalismo foi acompanhada, pela primeira vez, não de um movimento de liberalização social, mas de uma gestão militar da "crise" da fronteira. A militarização das costas gregas, a transformação de certas ilhas estratégicas em prisões a céu aberto e a utilização do solo peninsular como membrana de contenção da migração para a Europa tornam obsoleto, senão absurdo, o discurso da "hospitalidade" que Merkel articula em 2016. Como se pode falar de hospitalidade quando o procedimento político europeu consiste em criminalizar os refugiados e os migrantes?

Como sublinharam Éric Alliez e Maurizio Lazzarato em Guerres et capital, implementaram-se na Grécia as condições para conduzir uma nova "guerra capitalista" na qual todos os dispositivos democráticos são investidos e transformados em instrumentos de controlo e de repressão social. Passou-se assim do Estado-mãe, que prometia (mesmo se nem sempre mantinha a sua promessa) redistribuição, bem-estar e justiça, a um Estado-pai, que apenas pode oferecer violência, segurança e purificação racial. Esta combinação de ultra-neoliberalismo e de ultra-nacionalismo conduziu a uma situação inédita desde os anos 1970, que se estende desde então a outros países da Europa, Espanha, Polónia, Hungria, Itália, mas também Alemanha ou França. As decisões da UE serviram para destruir toda a legitimidade política da esquerda, abrindo o caminho dos populismos de extrema-direita. O efeito colateral mais importante destes sucessivos golpes de Estado "democráticos" na Grécia foi a destruição de qualquer esperança de democracia radical, não só na Grécia mas também na Europa. Depois de 2015, o Syriza é um partido morto. Como o é o Partido Socialista em França ou em Espanha.

A extrema-direita come não só uma parte do bolo eleitoral, mas determina também, a partir da margem, o contexto discursivo no qual se desenrola o novo debate democrático autoritário. Mas não esqueçamos que é também desde a Grécia que se pensam hoje as condições de uma rebelião social e de uma alternativa crítica contra este processo que Franco Berardi chama com estupefacção "a destruição da Europa".»

sábado, 19 de maio de 2018

AS TRÊS EUROPAS




O escritor judéo-francês Camille de Toledo escreve no nº 5 (Maio 2018) de "Le Nouveau Magazine Littéraire" um estimulante artigo com o título "Le conte des trois Europe".

Não sendo possível reproduzir aqui o texto integral,  transcrevo, pelo seu interesse, a descrição a que o autor procede das três visões do Velho Continente:

«Il y a trois Europe qu'il importe - je le comprenais alors - de séparer dans l'espoir qu'elles deviennent des forces politiques autonomes, structurant dans l'avenir le combat politique à l'echelle du continent. Afin que nous puissons y voir clair et réellement choisir. Une "Europe delorienne", une "Europe huntingtonienne" et une "Europe benjaminienne".

La première, delorienne - delorsienne -, nous ne la connaissons que trop, et elle est essoufflée, corrompue et compromise. C'est celle des "pères fondateurs", celle qui depuis le traité de Rome a cru, sans jamais l'expliquer, à la "théorie fonctionnaliste": l'Europe se consoliderait par la seule force de sa technostructure, de ses réglementations... Cette Europe a brodé idéologiquement une fable où la paix et la prosperité convolent. Elle poursuit l'image inatteignable d'un marché où chaque entité de capital et de travail sera finalement mise en concurrence avec toutes les autres. Cette Europe - du nom de son public servant le plus zélé, Jacques Delors -, protestante, systémique, est devenue pour des millions d'individus celle de la douleur. C'est en son nom que l'Espagne, la Grèce, la France... sacrifient leurs dépenses en matière de santé, d'éducation. C'est en son nom qu'un "capitalisme à l'européenne" se soumet à la messe américaine qui allie, depuis Woodrow Wilson, paix, libre-échange et nations. La critique de cette Europe a coïncidé avec une vue, disons, de gauche, et, en ce sens, elle n'est que trop bien documentée. Je n'y ajouterai qu'un éclair de profond désenchantement: la faillite de la promesse, lorsque la prosperité attendue se renverse en misère imposée et que l'Europe politique n'avance plus vers la démocratie, mais vers la confiscation...

La deuxième, l'Europe huntingtonienne, à la différence de la première avec laquelle elle entretient des rapports incestueux par l'alliage de plus en plus étroit du libéralisme et du nationalisme, est en pleine expansion. C'est le modèle de Huntington - le clash des civilisations - qui la soustend. Dans certaines de ses dérives, l'Europe huntingtonienne devient "breivkienne", du nom du militant d'extrême droite Anders Behring Breivik, auteur du massacre d'Utoya, dont la rhétorique est celle d'une croisade pour la défense des fondaments chrétiens de l'Europe, contre "l'islamisation" et le "multiculturalisme". Il n'y a qu'à lire le manifeste d'Anders Breivik - "Déclaration d'indépendance européenne, 2083" - pour voir que ses arguments coïncident avec les programmes de l'extrême droite européenne, de Jobik en Hongrie à l'AfD en Allemagne au Front national de France, au FPÖ en Autriche... À l'égard de cette Europe huntingtonienne, la delorienne fait preuve d'un douloureux aveuglement, quand il ne s'agit pas d'une franche et sourde complicité. Car c'est bien cette dérive identitaire, cette version civilisationelle qui est en voie, désormais, d'institutionnalisation: 1) l'hystérie d'une identité blanche qui assume de plus en plus ouvertement ses droits à la revanche; 2) la politique migratoire - Schengen, Frontex - qui est l'accomplissement, par le déni et une tactique du "laisser mourir" aux frontières, de ses voeux; 3) la définition d'une "Europe culturelle" dans les termes d'une "civilisation à défendre". Cet alliage entre nationalisme et libéralisme s'est récemment concrétisé en Autriche et se cherche, en France, par la voix d'un Laurent Wauquiez ou, en Allemagne, par la collusion entre le parti libéral et l'AfD. Au lieu d'un national-socialisme, une unité européenne qui se ferait sous la bannière cauchemardesque d'un national-libéralisme.

Face à cette recupération du projet européen par les forces nationalistes - cette synthèse du libéralisme et du nationalisme -, j'en viens à la troisiéme Europe - mon espoir. Celle-là, hélas! peine à se constituer comme force politique autonome tant elle a été, jusque-là, docilement solidaire de l'Europe delorienne. C'est celle que je nomme "benjaminienne" - sur les traces du philosophe juif allemand Walter Benjamin, et notamment de ce qu'il nous légua de l'esprit de traduction. Dans cette perspective, le "sujet européen" ne se pose plus comme un sujet culturel ou un héritier d'une certaine histoire. Il se comprend comme "passe-frontière" animé par l'esprit de la traduction. Cette Europe benjaminienne, ce fut celle des républicains espagnols fuyant l'Europe franquiste, celle des Juifs, des Tsiganes, des homosexuels, pourchassés par le Reich, celle des minorités migrants, des diasporas postcoloniales, des travailleurs déplacés, des exilés de toutes les nations... Cette Europe benjaminienne existait avant le traité de Rome, avant que les pères fondateurs ne lancent cette curieuse croyance: que l'économie suffirait à produire le politique. Cette Europe, c'est celle des mouvements féministes qui tentèrent de s'opposer aux passions des nations avant la Première Guerre, celle qui traça des routes de l'exil pour survivre.»

* * * * *

Este texto, ainda que passível de críticas, deveria ser meditado por todos os políticos europeus. A União Europeia, tal como conhecemos, encontra-se mergulhada num oceano de contradições e está próxima a hora da sua implosão. A falta de visão dos "pais fundadores", como o artigo aponta, consistiu em pensarem que através do económico resolveriam o político, o social, o cultural... Trágica ilusão! Acresce a esta falência "anunciada" a mediocridade dos dirigentes europeus das últimas décadas, incapazes de vislumbrarem um passo à frente do nariz, imergidos na corrupção, venais até ao âmago, ignorantes e incultos, pretensiosos e convencidos do valimento das suas políticas. Um verdadeiro desastre.

QUEM PUDER, APROVEITARÁ COM A LEITURA INTEGRAL DO ARTIGO.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

SOB O SIGNO DE MARTE




Claude Michel Cluny nasceu em 2 de Julho de 1930 e morreu em 11 de Janeiro de 2015, com 84 anos. Poeta, crítico literário e romancista, é hoje uma figura praticamente desconhecida no meio literário internacional, mesmo no seu país. Nem sempre foi assim.

Autor de cerca de 50 livros, viajou pelos cinco continentes, de que testemunhou na sua obra. Colaborou em muitas publicações, entre as quais a "Nouvelle Revue Française", "Le Nouvel Observateur", o "Magazine Littéraire", "L'Express", "Le Figaro Littéraire, etc. Em 1989, recebeu o Grande Prémio de Poesia da Academia Francesa pelo conjunto da sua obra poética; em 2002, o Premio Renaudot (Ensaio) por Le Silence de Delphes (primeiro volume do seu Diário); e em 2012, o Prémio Europeu de Poesia Léopold Sédar Senghor pelo conjunto da sua obra.

Vem isto a propósito da recente aquisição de um seu livro que se encontrava há muito esgotado, e do qual consegui um exemplar já usado: Sous le signe de Mars.

Neste récit, o autor começa por nos informar que se trata da sua única obra autobiográfica, já que o seu Diário não está vocacionado para o exibicionismo, ainda que não exclua algumas notas íntimas.

Numa prosa de excepcional qualidade, Cluny conta-nos a sua adolescência numa pequena cidade da província, durante a Segunda Guerra Mundial. E apesar do seu interesse pela literatura, cedo revelado, o que mais o impressionava, e preocupava, eram as notícias da guerra, a invasão da França, o horror de Hitler e da Alemanha. E no meio de tudo, a devoção ao Marechal, que durante muito tempo mereceu a admiração da maioria dos franceses. Com os seus doze ou treze anos, sentiu-se pela primeira vez atraído por um condiscípulo mais jovem, recém-chegado ao liceu, a quem beijou furtivamente numa rua tranquila. Foi a sua primeira paixão, aquele que para ele se tornou o "Aimé". 

A chegada das tropas alemãs à pacata localidade onde vivia com os pais foi motivo de alvoroço. Os invasores, ao princípio, procuravam captar a simpatia das populações, ainda que o autor continuasse a ver neles o odiado inimigo. Mas com o andar da guerra, os soldados alemães passaram a ser cada vez mais jovens, e belos nos seus impecáveis uniformes. E o inevitável aconteceu. Uma tarde, Cluny, então com catorze anos,  sentiu que desejava "l'Ennemi". E num recanto de um campo de trigo, o soldado, que teria dezasseis ou dezassete anos, e lhe lembrava os efebos de Esparta ou Atenas, iniciou-o nos mistérios do sexo e do amor. A narração deste episódio, que só relata os pormenores indispensáveis, constitui uma página excepcional de literatura, pelo que conta e pelo que omite, pela sensibilidade que o autor revela ao confiar-nos este momento inédito da sua vida passada, pela evocação do conflito íntimo que significa amar o inimigo, ainda que o inimigo possa vestir a pele de um rapaz praticamente da sua idade.

Este livro é um hino à Beleza, uma denúncia das contradições da guerra, um esconjurar dos conflitos íntimos. E também um relembrar das questões subsequentes à Libertação. «Les résistants, vrais ou faux, apparurent avec un brassard révélant leur obédience politique: jamais les Français n'hésitent à saisir l'opportunité de se désunir.» (p. 91). 

É ainda um conjunto de reflexões do autor sobre a própria vida, a dele e as dos outros. Por aquilo que escrevi, que pouco foi, e por o que o leitor terá intuído, merece ser lido, sem pressas, atentamente, até porque tudo está contido num centena de páginas. 


segunda-feira, 14 de maio de 2018

MANIFESTO PARA MODIFICAR O CORÃO





O nº 2792 de "L'Obs" desta semana (10 a 16 de Maio), insere um dossier a propósito do "Manifeste contre le nouvel antisémitisme", publicado em "Le Parisien" e subscrito por cerca de 300 personalidades, entre as quais o antigo presidente da República, Nicolas Sarkozy (a quem carece autoridade moral para subscrever seja o que for), o antigo primeiro-ministro Manuel Valls (de quem tudo se espera), o inevitável Bernard-Henri Lévy, o antigo presidente da Câmara Municipal de Paris, Bertrand Delanoë, etc., etc.

Publicamos abaixo a lista dos signatários.

La liste des signataires

Eliette ABECASSIS ; Richard ABITBOL ; Ruth ABOULKHEIR ; André ABOULKHEIR ; Laure ADLER ; Paul AIDANE ; Waleed AL-HUSSEINI ; Mohamed ALI KACIM ; Michèle ANAHORY ; François ARDEVEN ; Pierre ARDITI ; Janine ATLOUNIAN ; Muriel ATTAL ; Charles AZNAVOUR ; Elisabeth BADINTER ; Patrick BANTMAN ; Laurence BANTMAN ; Adrien BARROT ; Stephane BARSACQ ; Maurice BARTELEMY ; Stéphane BEAUDET ; Patrick BEAUDOUIN ; Annette BECKER ; Florence BEN SADOUN ; Georges BENSOUSSAN ; Gérard BENSUSSAN ; Alain BENTOLILA ; André BERCOFF ; Aurore BERGE ; François BERLEAND ; Françoise BERNARD ; Florence BERTHOUD ; Naem BESTANDJI ; Muriel BEYER ; Jean BIRENBAUM ; Claude BIRMAN ; Joelle BLUMBERG ; Marion BLUMEN ; Lise BOËLL ; Jeannette BOUGRAB ; Céline BOULAY-ESPERONNIER ; Michel BOULEAU ; Laurent BOUVET ; Lise BOUVET ; Fatiha BOYER ; Anne BRANDY ; Caroline BRAY-GOYON ; Zabou BREITMAN ; Claire BRIERE-BLANCHET ; Jean-Paul BRIGHELLI ; Pascal BRUCKNER ; Laura BRUHL ; Daniel BRUN ; Carla BRUNI ; François CAHEN ; Séverine CAMUS ; Jean-Claude CASANOVA ; Bernard CAZENEUVE ; Hassen CHALGHOUMI ; Catherine CHALIER ; Elsa CHAUDUN ; Evelyne CHAUVET ; Ilana CICUREL ; Eric CIOTTI ; Gilles CLAVREUL ; Brigitte-Fanny COHEN ; Marc COHEN ; Jonathan COHEN ; Danielle COHEN-LEVINAS ; Antoine COMPAGNON ; Jacqueline COSTA-LASCOUX ; Brice COUTURIER ; Fabrice D’ALMEIDA ; Eliane DAGANE ; Gérard DARMON ; Marielle DAVID ; William DE CARVALHO ; Elisabeth DE FONTENAY ; Xavier DE GAULLE ; Bernard DE LA VILLARDIERE ; Bertrand DELANOË ; Richard DELL’AGNOLA ; Chantal DELSOL ; Gérard DEPARDIEU ; Guillaume DERVIEUX ; Patrick DESBOIS PERE ; Alexandre DEVECCHIO ; Bouna DIAKHABY ; Marie-Laure DIMON ; Joseph DORE MGR ; Daniel DRAÏ ; Michel DRUCKER ; Richard DUCOUSSET ; Stéphane DUGOWSON ; Martine DUGOWSON ; Frédéric DUMOULIN ; David DUQUESNE ; Frédéric ENCEL ; Raphaël ENTHOVEN ; Francis ESMENARD ; Christian ESTROSI ; Elise FAGJELES ; Roger FAJNZYLBERG ; Luc FERRY ; Alain FINKIELKRAUT ; Pascal FIORETTO ; Marc-Olivier FOGIEL ; Renée FREGOSI ; Michel GAD WOLKOWICZ ; Aliou GASSAMAL ; Lucile GELLMAN ; Jasmine GETZ ; Sammy GHOZLAN ; Jean GLAVANY ; Bernard GOLSE ; Roland GORI ; Marine GOZLAN ; Olivia GREGOIRE ; Mohamed GUERROUMI ; Ghislaine GUERRY ; Olivier GUEZ ; Lydia GUIROUS ; Talila GUTEVILLE ; Patrick GUYOMARD ; Noémie HALIOUA ; Françoise HARDY ; Frédéric HAZIZA ; Jean-Luc HEES ; Serge HEFEZ ; François HEILBRONN ; Marie IBN ARABI-BLONDEL ; Aliza JOBES ; Arthur JOFFE ; Michel JONASZ ; Christine JORDIS ; Dany JUCAUD ; Liliane KANDEL KARIM ; David KHAYAT ; Catherine KINTZLER ; Alain KLEINMANN ; Marc KNOBEL ; Haïm KORSIA ; Julia KRISTEVA ; Rivon KRYGIER ; Estelle KULICH ; Philippe LABRO ; Alexandra LAIGNEL-LAVASTINE ; Lilianne LAMANTOWICZ ; Jack LANG ; Joseph LAROCHE ; Damien LE GUAY ; Daniel LECONTE ; Barbara LEFEBVRE ; Yoann LEMAIRE ; Pierre LESCURE ; Bernard-Henri LEVY ; Maurice LEVY ; Stéphane LEVY ; Michèle LEVY-SOUSSAN ; Marceline LORIDAN-IVENS ; Christine LOTERMAN ; Patrick LOTERMAN ; Enrico MACIAS ; Richard MALKA ; Wladi MAMANE ; Yves MAMOU ; Juliette MEADEL ; Sylvie MEHAUDEL ; Yael MELLUL ; Françoise-Anne MENAGER ; Daniel MESGUICH ; Richard METZ ; Habib MEYER ; Radu MIHAILEANU ; Yann MOIX ; Antoine MOLLERON ; Thibault MOREAU ; Jean-Jacques MOSCOVITZ ; Slim MOUSSA ; Laurent MUNNICH ; Lionel NACCACHE ; Marc NACHT ; Aldo NAOURI ; Xavier NIEL ; Sophie NIZARD ; Anne-Sophie NOGARET ; Karina OBADIA ; Jean-Pierre OBIN ; Edith OCHS ; Christine ORBAN ; Olivier ORBAN ; Marc-Alain OUAKNIN ; Yann PADOVA ; Brigitte PASZT ; Dominique PERBEN ; André PERRIN ; Serge PERROT ; Laurence PICARD ; Céline PINA ; François PINAULT ; Jean-Robert PITTE ; Nidra POLLER ; Richard PRASQUIER ; Michael PRAZAN ; Nadège PULJAK ; Jean-François RABAIN ; Marianne RABAIN-LEBOVICI ; Ruben RABINOVITCH ; Jean-Pierre RAFFARIN ; Christiane RANCE ; Jean-Jacques RASSIAL ; Renaud RENAUD ; Jean-Louis REPELSKI ; Solange REPLESKI ; Ivan RIOUFOL ; Jacob ROGOZINSKI ; Olivier ROLIN ; Marie-Helène ROUTISSEAU ; Catherine ROZENBERG ; Philippe RUSZNIEWSKI ; Boualem SANSAL ; Georges-Elia SARFAT ; Nicolas SARKOZY ; Josiane SBERRO ; Jean-Paul SCARPITTA ; Eric-Emmanuel SCHMITT ; Dominique SCHNAPPER ; André SENIK ; Joann SFAR ; Vadim SHER ; Stéphane SIMON ; Patricia SITRUK ; Jean-François SOLAL ; Paule STEINER ; Jean-Benjamin STORA ; Francis SZPINER ; Anne SZULMAJSTER ; Pierre-André TAGUIEFF ; Maud TANACHNIK ; Jacques TARNERO ; Michel TAUBER ; Daniel TECHNIO ; Julien TROKINER ; Cosimo TRONO ; Monette VACQUIN ; Henri VACQUIN ; Philippe VAL ; Caroline VALENTIN ; Manuel VALLS ; Sibyle VEIL ; Jacques VENDROUX ; Natacha VITRAT ; Sabrina VOLCOT-FREEMAN ; Régine WAINTRATER ; Laurent WAUQUIEZ ; Aude WEILL-RAYNAL ; Simone WIENER ; Annette WIEVIORKA ; Jean-Pierre WINTER ; Jacques WROBEL ; André ZAGURY ; Alain ZAKSAS ; Paul ZAWADZKIv Marc ZERBIB ; Céline ZINS ; Jean-Claude ZYLBERSTEIN.

Consideram os subscritores do Manifesto, redigido por Philippe Val, antigo director do "Charlie Hebdo", que o texto do Corão é parcialmente responsável pelo ódio existente em certos muçulmanos e pedem que os versículos "appelant au meurtre et au châtiment des juifs, des chrétiens et des incroyants soient frappés d'obsolescence" pelas autoridades teológicas.

Ao pedirem para que o Corão seja re-escrito, os signatários, que não são todos estúpidos ou ignorantes, agem de má-fé. Mesmo quando invocam que as incoerências da Bíblia foram abolidas pelo Concílio do Vaticano II. Ora o texto da Bíblia, fixado pelo Concílio de Trento, permanece intocável, tendo sido eliminadas, de facto, algumas expressões da liturgia, como a alusão aos "pérfidos judeus".

Sendo a Bíblia e o Corão, para os respectivos crentes, a palavra de Deus, é evidente que nenhuma instância religiosa se atreveria a censurar a Palavra Divina. Com particular relevo para os muçulmanos, já que no islão não existe (nem mesmo nos tempos do Califado) uma "igreja" centralizada com poderes espirituais sobre todos os fiéis, sendo cada um livre de interpretar pessoalmente os textos sagrados.

Aliás, os trágicos acontecimentos verificados nos últimos anos, e cujos protagonistas foram, na sua maioria, indivíduos árabes ou de ascendência árabe, e por isso presumivelmente muçulmanos, não constituem um precedente de confrontação religiosa, ainda que tais atitudes sejam liminarmente condenáveis.

Foi a Europa, durante séculos, palco de perseguições e de guerras intermináveis motivadas por causas religiosas e que levaram a desolação a centenas de milhares de pessoas. Os cristãos europeus atacaram durante séculos judeus e muçulmanos (as Cruzadas, a expulsão da Península Ibérica, etc.) e, mais tarde, depois do Cisma do Ocidente e do advento do Protestantismo, ocorreram sangrentas guerras entre os próprios cristãos, de que é exemplo paradigmático a Guerra dos Trinta Anos (ainda que o factor político se ocultasse amiúde por detrás da máscara religiosa), que só terminou com a Paz de Vestefália.

É curioso que foi principalmente nos países muçulmanos que os judeus procuraram abrigo quando expulsos da Europa. Durante séculos, o anti-semitismo foi especialmente cristão; iniciou-se com Paulo de Tarso (São Paulo), que verberou os judeus nos seus escritos, ainda que ele mesmo, tal como Jesus Cristo e os primeiros cristãos fossem todos judeus, e teria expressão oficial até ao Vaticano II.

A actual vaga de anti-semitismo, que efectivamente existe, é de expressão muçulmana. E tem fundamentalmente a ver com a criação do Estado de Israel, há precisamente 70 anos, em território palestiniano, depois da inconcebível Declaração de Lord Balfour endereçada a Lord Rothschild. Verdadeiramente, o anti-semitismo islâmico é muito mais político do que religioso, é muito mais anti-sionismo do que anti-semitismo, até porque semitas também os árabes o são.

A ideia peregrina de re-escrever o Corão só pode ter aflorado em mentes obcecadas pela rapidez das transformações, numa França "en Marche", pilotada por um jupiteriano deslumbrado com a coroa de louros dos césares, o inimaginável Emmanuel Macron.

O Corão e a Bíblia não se rasuram nem se corrigem. Os seus textos devem ser lidos e interpretados de acordo com o tempo presente. A sua escrita teve lugar numa determinada época, há muitos séculos, face aos desafios desse tempo, e algumas passagens já eram então de carácter mais simbólico do que real. Cabe aos imames, no caso do Corão, esclarecer os muçulmanos do verdadeiro sentido da palavra escrita, já que não existe uma "igreja" islâmica (nem mesmo Al-Azhar) com competência para interpretar os textos. Sendo as religiões monoteístas as religiões de um Livro, que para sempre aprisionou a Palavra Divina, o texto terá de ser entendido no contexto, para não se tornar disfuncional.

Mas deve compreender-se que aquilo que hoje se designa por terrorismo islâmico tem muito mais a ver com circunstâncias políticas e sociais do que propriamente religiosas, até porque os autores dos ataques registados na Europa, embora possam gritar "Allah u'Akbar", pouco ou nada conhecem da religião muçulmana ou das suas escrituras, alguns serão mesmo descrentes.

A Religião tornou-se o novo álibi de uma certa luta política, de uma certa contestação social em que, para os seus autores, os fins justificam os meios.

Pode a França, pode a Europa transformar-se num Estado policial, sujeitar os cidadãos a extraordinárias medidas de segurança, controlar o mais íntimo da vida privada dos seus habitantes, que não logrará obter qualquer êxito. O segredo do sucesso reside numa alteração de políticas a nível nacional e global, mas pela amostra dos últimos dias, o caminho é mais de regressão, isto é, "en marche, en arrière"!


terça-feira, 8 de maio de 2018

A TUNÍSIA REVISITADA




Voltei à velha cidade de Túnis, ao fim de quase dez anos de ausência, para rever, pela 30º vez, a metrópole que viu nascer Ibn Khaldun, em 1332.

Muitas coisas terão mudado nesta ausência de uma década, ponteadas pela Revolução de 2011, que introduziu substanciais modificações no quotidiano da população da cidade e do país.

Obviamente, com o meu olhar de estrangeiro, ainda que alguém tenha dito, há já longos anos, que eu era "o mais tunisino dos portugueses", observação prontamente corrigida pelo então embaixador da Tunísia em Lisboa, que considerava ser eu "o mais português dos tunisinos"! Posso, por isso, testemunhar mas apenas sobre o que vi, uma vez que a quase totalidade dos meus amigos autóctones abandonou o país no período revolucionário. Assim, serão poucas as informações fidedignas que obtive, colhidas no terreno um pouco aleatoriamente. Todavia, registei, como impressão geral, que, além do desmantelamento do sistema repressivo do regime de Zine El Abidine Ben Ali e da introdução de uma vivência digamos que "democrática", a vida dos tunisinos, em geral, piorou.

Estou a escrever no Café de Paris, em 6 de Maio, véspera das primeiras eleições municipais no país. Presume-se que, das dezenas de partidos concorrentes,  os vencedores destas eleições serão os grandes partidos, Nidaa Tounes e Ennahdha, o primeiro, de tendência laica e socializante, do presidente da República Béji Caïd Essebsi, e o segundo, de orientação islamista, de Rachid Ghannuchi. Os outros deverão obter resultados despiciendos, ainda que alguns se apresentem em coligações. Todavia, a grande apreensão que paira sobre este escrutínio é a taxa de abstenção dos cidadãos eleitores.

Logo que sejam conhecidos os resultados, ainda que provisórios, do escrutínio, deles aqui darei conta.

As impressões negativas surgiram logo à chegada ao aeroporto. Dos diversos tapetes que recolhem as bagagens, apenas dois funcionavam, acumulando malas provenientes de diversos voos. E, existindo no aeroporto diversas agências bancárias, além da Caixa Postal, além desta, só uma dependência se encontrava aberta, seriam umas onze horas da noite, o que obrigou a uma longa espera os passageiros que necessitavam de cambiar moeda.

Suponho que os edifícios, dado o estado de degradação em que se encontram, não devem ter sofrido obras de manutenção nos últimos anos. Os passeios têm mais buracos do que nunca e o lixo, à excepção da avenida Bourguiba, amontoa-se nas ruas.

Até o serviço de táxis, que era eficiente, passou agora a ser discricionário. Os táxis passam muitas vezes vazios e não param quando para isso alertados. Aconteceu-me uma vez ter de sair de um táxi por o motorista invocar falta de "carburante", depois de saber qual era o destino pretendido. Outros há que recusam tomar passageiros, se consideram que existem engarrafamentos no percurso para a direcção indicada. E fiquei com a suspeição, talvez estúpida, de que preferem embarcar nacionais a estrangeiros. Encontrar um táxi livre tornou-se, assim, por estes dias, um verdadeiro acaso da sorte. Verdade se diga que a circulação automóvel, que sempre foi um problema em Túnis, é hoje verdadeiramente caótica.



Constatei que a Praça 7 de Novembro, data do "Changement", isto é, da tomada do poder por Ben Ali, em substituição do velho presidente Habib Bourguiba, já senil, se havia passado a chamar Praça 14 de Janeiro, data da fuga de Ben Ali para a Arábia Saudita. E que uma estátua equestre de Bourguiba havia sido trasladada do seu local original, em La Goulette, para o topo da Avenida Bourguiba, com a parte traseira virada para o célebre Relógio e a parte lateral para o Ministério do Interior, de visão inacessível, já que as barreiras de segurança do Ministério impedem qualquer cidadão de a observar desse lado. Não pude deixar de sorrir ao lembrar-me que a Ponte Salazar, depois da Revolução de 1974, se passou a chamar Ponte 25 de Abril.

Uma ida a Sidi Bou-Saïd, essa célebre pérola do Mediterrâneo que conquistou tantos intelectuais estrangeiros (basta recordar Gide e Foucault, que aí habitaram), recordou-me, uma vez mais, que as carruagens da Linha do TGM (Très Grand Metro), que liga Tunis-Marine a Marsa, uma espécie de combóio da Linha do Estoril, entre Cais do Sodré e Cascais, continuam a ser as mesmas da época colonial (nem Ben Ali as substituiu) e continuam a cumprir tant bien que mal, o seu serviço, o que só comprova a qualidade da sua construção.


O atendimento solícito em hotéis, restaurantes e cafés também já teve melhores dias, e até a proverbial afabilidade dos tunisinos em relação aos estrangeiros, que fazia deles um caso singular entre os povos árabes, parece que, em larga medida, se desvaneceu.

É verdade que se mantêm algumas das boas livrarias: a Claire Fontaine (Rue d'Alger), a Al-Kitab (Avenue Bourguiba), a Bouslama (Avenue de France) e a Diwan (Rue Sidi Ben Arous, na Medina), onde o infatigável Sofian continua a atender, diligentemente e com a experiência dos anos, os seus exigentes clientes, na maioria estrangeiros, que procuram na casa livros editados há muito tempo e já fora do circuito normal.


Livraria Al-Kitab


Livraria Diwan

Livraria Bouslama

Também o Museu do Bardo (ao lado do Parlamento) continua a albergar a melhor colecção de mosaicos  cartagineses e romanos de todo o mundo, além de estátuas e estatuetas, de mármore e de bronze, dignas de admiração. À entrada do Museu, um Memorial recorda os cidadãos tunisino e estrangeiros mortos aquando do atentado terrorista de 18 de Março de 2015. A segurança do Museu está naturalmente reforçada, bem como nos pontos sensíveis da cidade. Por causa dos ataques com viaturas, foram erguidas barreiras, nas faixas laterais, ao longo de toda a avenida Bourguiba, frente às esplanadas e aos hotéis, o que, apesar de inestético e pouco funcional, constitui elemento dissuasor de perturbados fundamentalistas ou de outros agentes do caos internacional.








A Embaixada de França, antiga habitação do Residente Geral francês nos tempos do Protectorado, está rodeada de barricadas, rolos de arame farpado e sacos de areia, sob a vigilância de polícias e soldados, com a protecção de jeeps e carros de assalto. O mesmo se diga do Ministério do Interior, que já beneficiava de protecção especial em tempos idos, e cujo perímetro de segurança se alarga agora à sua frente, invadindo metade da avenida Bourguiba.

 
Embaixada de França (à distância)

Em frente à estátua de Ibn Khaldun, uma construção em plástico vermelho «I 💓LOVE TUNIS», sobre a qual brincam crianças (e que certamente agradaria ao dr. Medina) constitui uma ofensa à memória do criador da filosofia da história.



No regresso pensei, vagamente, que no free-shop do aeroporto se pudesse agora efectuar compras em moeda local. Mas não, tudo como dantes, os dinares continuam a ser rejeitados e as aquisições têm de ser feitas em euros.

Lendo "La Presse", na 2ª feira, verifico, que a taxa de abstenção se estima em cerca de 70%, resultando nomeadamente da não participação da população jovem. O que levou a que um partido como Ennahdha (que certamente não concita a adesão da maioria dos tunisinos) preveja globalmente 27,5% dos votos, acima de Nidaa Tounes, com uma estimativa de 22,5%. No dia da votação, passei por uma assembleia de voto, situada num liceu da rua de Marseille (as secções de voto funcionaram nas escolas). Não pude aproximar-me nem fotografar devido às barreiras de segurança que fechavam o troço da rua, mas durante o período que permaneci em observação apenas vi seis ou sete pessoas, todas de avançada idade, a dirigir-se para a porta do edifício.


Propaganda eleitoral na avenida Bourguiba

No domingo, um rapaz universitário com quem ocasionalmente conversei, disse-me, compungido: «La Tunisie, c'est finie".  A situação económica do país é muito grave, a taxa de desemprego (oficial) aproxima-se dos 20%, o turismo (principal fonte de receita) caiu abruptamente com os atentados do Bardo (já referido) e de Sousse, as promessas dos políticos não são cumpridas e a corrupção é endémica. No que ao turismo respeita, acresce que a qualidade do serviço se deteriorou de forma notável, nem outra coisa seria de esperar, o que é de molde a desencorajar os potenciais visitantes.

As ilusões que saudaram a Revolução do Jasmim, por analogia à portuguesa revolução dos Cravos, esfumaram-se. O advento das democracias é sempre problemático. E mesmo as democracias consolidadas sofrem do incumprimento dos programas eleitorais e da corrupção exponencial que actualmente se verifica. Pelo que conheço do povo tunisino, antevi à partida quanto seria difícil pôr a funcionar um sistema democrático eficaz que respondesse às necessidades da população. É justo registar aqui que, independentemente do carácter repressivo do seu regime, a Tunísia deve a Ben Ali uma não negligenciável parte do progresso dos últimos anos que precederam a sua queda. Sempre ouvi atribuir à ex-cabeleireira Leila Trabelsi, e à sua inumerável família, muitos dos problemas que se registaram no país e em relação aos quais o seu marido, ao que dizem por ela manobrado, não actuou, nos últimos anos do seu consulado, com a determinação, a clarividência e a oportunidade que a situação exigia e a inteligência impunha.

Mas a situação europeia, e mundial, também não é brilhante. Portugal é disso um exemplo. E a Espanha, a França, a Itália, a Alemanha, o Reino Unido, e por aí fora, não passam de pseudo-democracias, dirigidas muitas vezes por verdadeiros criminosos de guerra e manobradas por poderes mais ou menos ocultos, que propiciam ganhos astronómicos para quem nunca pensa que não vai levar para a cova o dinheiro obtido. Isto para não falar nos Estados Unidos, no Brasil, etc. E nem vale a pena evocar o grande negócio do terrorismo internacional, pretensamente de raiz religiosa mas porventura a soldo dos mais obscuros interesses geoestratégicos internacionais.

Ligam-me à Tunísia velhos e inolvidáveis laços de amizade. A Tunísia é, aliás, o país estrangeiro que mais vezes visitei na minha vida. Por isso, só posso desejar que a precária situação que hoje se vive no país regresse ao que chamaria uma razoável "normalidade", para bem dos seus cidadãos e também dos visitantes estrangeiros.


MUITO MAIS HAVERIA A ESCREVER. FICARÁ PARA OUTRA OCASIÃO.