quarta-feira, 25 de março de 2015

A NOVA REPÚBLICA



 

Por uma nova república
Senhoras e Senhores Jornalistas, Caros Amigos,



Agradeço a vossa presença para vos anunciar, e através de todos vós, ao País, que - depois de reflectir e de ouvir muitas pessoas de vários quadrantes políticos e sociais - resolvi candidatar-me na próxima eleição para a Presidência da República. Sou, como sabem, um cidadão que preza a independência, a liberdade, a honra e a rectidão. Fui um empresário industrial que sempre cultivou a iniciativa, o sucesso, o progresso e a solidariedade. As minhas forças de convicção e discernimento vêm da minha experiência e do meu trabalho de longos anos. E a minha força de vontade vem do amor pelo meu País e da triste constatação da situação em que Portugal se encontra.

São simples, portanto, as razões principais para esta minha decisão:

A primeira tem como motivo um sentimento de revolta pela situação de crise vivida pelo Pais e pelos portugueses, a que associo a profunda convicção de que tal crise se deve em grande parte a erros políticos que podiam ter sido evitados, erros originados pela falta de visão estratégica quanto ao futuro de Portugal num planeta em mudança e pela degradação do funcionamento do nosso sistema político, degradação que depois se estendeu à economia e ao conjunto da sociedade.

Vivi uma boa parte da minha vida em ditadura e a sonhar viver em liberdade e em democracia. Mas esse sonho era também o sonho de viver num Portugal moderno e desempoeirado, desenvolvido e solidário, que se reencontrasse com o melhor da nossa história como Nação.

De 1974 até hoje assisti a muitas transformações importantes no nosso País. Mas também verifiquei, sobretudo ao longo do último quarto de século, e com crescente preocupação, que estávamos a desperdiçar de forma imprudente as melhores oportunidades para nos aproximarmos dos outros povos europeus, tanto em desenvolvimento económico e social como em qualidade de vida e em justiça social, nomeadamente nos sectores da sociedade mais desfavorecidos da sociedade.

Nos últimos anos assisti revoltado à quase destruição da classe média, ao empobrecimento das famílias portuguesas e a um ataque insensível e sem sentido às pessoas que trabalham, aos funcionários públicos e aos reformados.

Estou agora a assistir, inconformado, ao desemprego sem subsídio de centenas de milhares de portugueses a uma nova vaga de emigração em massa, mais problemática do que aquela que conheci nos idos anos sessenta do século passado, em que os portugueses voltam a ter de sair de Portugal, numa batalha inconformada pela sobrevivência. Com a diferença que é preciso assinalar: é que agora a maioria dos que deixam o País são jovens das gerações mais capazes que se formaram em Portugal, nomeadamente devido ao mais fácil acesso a uma melhor educação.

Vejo tudo isto e penso que, na verdade, não tinha de ser assim.

Por força do meu trajecto e exigências  profissionais, viajei durante muitos anos e contactei com muitas pessoas e instituições dos países mais desenvolvidos do mundo, consolidando a consciência das causas do nosso atraso e dos erros sistemáticos cometidos por sucessivos governos.

Erros provocados em grande parte pela impreparação, pelo egoísmo e  pela venalidade de uma parte importante da nossa classe política. Erros permitidos por um sistema político organizado para se beneficiar a si próprio e aos sectores mais privilegiados  e protegidos da sociedade portuguesa.

Dizer agora que os portugueses, todos os portugueses, viveram acima das suas possibilidades, sabendo que os seus rendimentos não ultrapassam os mil - ou menos do que mil - euros mensais, é não apenas revoltante mas trágico, pelo que revela sobre a qualidade humana e a perspectiva política dos dirigentes.

Estas são, em síntese, as razões do meu inconformismo, que motivaram a decisão de me candidatar nas próximas eleições à Presidência da República.

São as mesmas razões que me levaram a escrever, ao longo dos últimos vinte anos, centenas de artigos em jornais e revistas, a participar em inúmeros programas de rádio e de televisão e a publicar livros e moções, sempre a denunciar as decisões erradas  e as omissões do poder político, mas apresentando sempre propostas alternativas.

Repito, não só denunciei os erros e as omissões – mas sempre propus,  simultaneamente, as alternativas, porque elas existiam.

Creio por isso poder dizer agora que me candidato com uma clara visão estratégica para o futuro de Portugal e com um programa amadurecido pelos anos e pela experiência,  com textos publicados,  que todos os portugueses podem consultar e conhecer ao pormenor. Ninguém pode seriamente dizer que não sabe ao que venho.

Desde sempre, combati as opções de centrar o desenvolvimento económico nos bens não transaccionáveis, ( ou seja, protegidos da concorrência internacional), na construção, no imobiliário e nas obras públicas, processo que alimentou a especulação de terrenos, que criou fortunas e conduziu à corrupção generalizada, destruindo os centros urbanos das maiores cidades, ao mesmo tempo que defendi uma fiscalidade que entregasse ao Estado as mais valias criadas  pela alteração do regime legal de utilização dos terrenos;

Defendi a diversidade económica e os saberes adquiridos, quando assisti à destruição da nossa agricultura, das pescas e de uma parte da nossa indústria, apenas para sermos os pseudo bons alunos da Europa;

Sustentei a tese da necessidade  duma definição estratégica Euro Atlântica, que não nos deixasse ficar inteiramente dependentes da União Europeia;

Estive na primeira linha do combate contra a prioridade dada ao transporte rodoviário e à construção de mais auto estradas e sempre defendi a prioridade a dar aos transportes ferroviário e marítimo, como o modelo que melhor serve as sociedades modernas e mais se coaduna com a nossa geografia; 

Neste contexto, sempre me pareceu que o despesismo do Estado, para mais sem critérios de rentabilidade e sem respeito pelas futuras gerações, era o caminho para o desastre, até porque colocava os portugueses e a economia na dependência de um poderoso – e perigoso - sistema financeiro global, sem controlo do poder político nacional e europeu.

Defendi, nomeadamente no Parlamento, a diversidade económica e o potencial dos sectores tradicionais da economia portuguesa, como a agricultura, as pescas, o calçado, os têxteis e a confecção, mas também a metalomecânica pesada, os sectores da indústria da defesa, da aeronáutica, da marinha mercante e ferroviário, quando os governantes se convenceram de que eram sectores perdidos e privilegiaram uma economia de serviços, num afunilamento inaceitável do futuro da economia portuguesa;

Critiquei de todas as formas as nacionalizações sem sentido estratégico, e sem os cuidados mínimos que acautelassem o interesse nacional. Defendi por todas as vias os sectores de bens transaccionáveis e as exportações. Denunciei os interesses e as rendas que gravitam ao redor dos sectores protegidos de bens e serviços, como é o caso da energia;

Combati a falta de exigência na educação e na ciência, defendi a prioridade a dar ao ensino pré escolar, como a forma adequada de retirar da pobreza e da ignorância um terço da sociedade portuguesa, sem o que nunca teremos uma sociedade e uma economia desenvolvidas;

Fui sempre sensível à importância e ao papel da nossa cultura e em especial da língua portuguesa, vital como dimensão estrutural da identidade e da projecção de Portugal no quadro europeu, lusófono e global;

Não poucas vezes denunciei a corrupção. Defendi e continuo a defender a criminalização do enriquecimento ilícito. No caso das contrapartidas das aquisições militares, apresentei criticas e queixas junto dos governos, da Assembleia da República e da Presidência da República, sem encontrar qualquer apoio destes órgãos de soberania na defesa da economia nacional e da respeitabilidade dos contratos.

Denunciei das mais diversas formas – e recentemente através dum Manifesto de que fui subscritor – o funcionamento pouco democrático dos partidos políticos e a existência no seu interior  de grupos organizados de interesses. Convergência de interesses ilegítima e intolerável, que empurrou Portugal para um declive económico e financeiro, cujo triste epílogo foi o estado de pré-bancarrota  que colocou a nossa democracia, pela terceira vez, dependente dos credores internacionais.


Tenho, contudo, uma outra razão, porventura determinante para a decisão de me candidatar: Tenho uma grande confiança nos portugueses e no futuro de Portugal, tenho confiança nos nossos empresários e na capacidade das nossas empresas, na qualidade e na determinação dos nossos trabalhadores, dos nossos cientistas e investigadores, dos nossos professores, das nossas universidades e centros de investigação. E mais do que isso, acredito nos nossos jovens.

É um optimismo consciente e com os pés  bem assentes nesta terra que é a nossa.

O desafio que o Pais enfrenta não é mais exigente do que aquele que enfrentámos em raros e vitais momentos da nossa secular história, o que nos obriga a escolhas e a decisões, que não sendo fáceis têm de ser assumidas com coragem e com confiança nos portugueses e nas virtualidades da democracia.

 Chegou a hora da verdade e da coragem, da lucidez e da experiência se darem as mãos, para levar a cabo a transformação necessária e  mudar o que tem de ser mudado e que os portugueses reclamam.

Sei que a alguns isto pode parecer difícil, ou mesmo um pouco tarde. Acredito contudo que estamos a tempo de democratizar o regime, de forçar a reforma democrática de que carecemos, de definir uma orientação estratégica para os próximos vinte anos, de criar as condições para uma governação  exigente, na base  do cumprimento das promessas eleitorais, de que o Presidente da República deve ser o primeiro e o mais rigoroso garante.

Os portugueses já mostraram, em Portugal e em todo o  mundo, que quando vivem e trabalham em meios e em instituições exigentes e de qualidade, são capazes de vencer as maiores dificuldades e as maiores crises. Cerca de cinco milhões dos nossos concidadãos vivem e trabalham noutros países, enfrentando condições de grande exigência e dureza. E não o temem, na esperança de poderem vir a fazer mais e melhor no seu próprio Pais e a participar num processo de desenvolvimento condigno e honrado, com o orgulho do nosso trajecto de muitos séculos.

A humanidade está a entrar numa era de transformação, assente numa desafiadora evolução das ciências e das tecnologias, com impactos profundos nas nossas vidas e na economia. Portugal não pode ficar à margem desta  dinâmica. O País dispõe hoje de uma base científica, tecnológica, empresarial a laboral que nos permite não voltar a ficar para trás, e participar dessas transformações em benefício de todos os portugueses.

Não podemos desperdiçar recursos, nem oportunidades, por falta de competência ou em experimentalismos políticos,  aceitando más políticas sem verdadeiro controlo democrático, ou reconhecendo tardiamente a sua existência, como aconteceu, com consequências desastrosas e irreparáveis, nas últimas décadas.

Vivemos um momento histórico em que todos temos de assumir as nossas responsabilidades, fazendo o que deve ser feito, pensando nos nossos filhos e netos, definindo o que queremos para o nosso Pais, para  só depois escolhermos os que nos merecem a confiança suficiente para dirigirem politicamente Portugal.

Queremos um País que esteja, pela qualidade inovadora suas das ideias e pela eficácia das suas propostas, no centro dos debates do nosso tempo, na União Europeia e em todo o lado. Não queremos um Pais expectante, a viver num vazio estratégico e preso aos mais diversos tacticismos políticos e às ambições de índole pessoal e partidária.

A  minha Candidatura é dirigida a todas as portuguesas e portugueses, sem excepção. Mas não vos escondo que penso muito, muito especialmente nas famílias portuguesas que vivem hoje as maiores dificuldades da sua vida; nos reformados a quem reduziram os seus rendimentos e que vêm desesperados partir os filhos e os netos sem os poder ajudar; nos desempregados a quem foi cortado o subsídio de desemprego; nos trabalhadores e nos funcionários públicos a quem é retirado diariamente uma parte do fruto do seu trabalho e do  orgulho de servir Portugal; nos empresários portugueses de todos os quadrantes e sectores, esmagados pelos impostos e pela burocracia, negligenciados pelo poder político e a viver  um perigoso isolamento relativamente às grandes decisões nacionais, empresários de quem espero uma colaboração indispensável  para consensualizar uma estratégia de progresso e de desenvolvimento para o nosso País; nos jovens desempregados, ou aqueles  jovens que partiram à procura de trabalho e de justiça.

Por tudo isto, o meu compromisso é o de usar até ao limite os poderes presidenciais consignados na Constituição da República e que tantas vezes têm sido ignorados. Mas é também o de fazer uma verdadeira pedagogia do exemplo em contacto permanente com os diversos sectores da sociedade portuguesa, de forma a incentivar os portugueses a participarem nas mudanças politicas, económicas, sociais e comportamentais de que Portugal precisa para vencer na Europa e no Mundo, na reafirmação do legado universalista da nossa história.

É a construção de uma Nova República o que hoje proponho aos portugueses: uma República  de iguais, nos direitos e nos deveres. Uma República da verdade, da honradez e dos valores, uma República de que nos possamos orgulhar e legar aos nossos filhos.

Sinto e sei, que juntos podemos fazer acontecer.

VIVA PORTUGAL
 
Henrique Neto

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER





Morreu ontem em Cascais, com 84 anos, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, o poeta Herberto Helder.

Considerado um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, sobre a sua obra podem ser consultadas as notícias dos sites especializados e da comunicação social. Da sua vida, que rodeou sempre da maior discrição, existem também breves referências.

Em 1994, fiel a indeclináveis princípios, recusou a atribuição do Prémio Pessoa.

Por ocasião da publicação do seu último livro, A Morte sem Mestre, registámos aqui um dos seus poemas.

Um poeta  que importa ler e reler.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O ATENTADO NO MUSEU DO BARDO




O atentado desta manhã no Museu do Bardo, em Tunis, já amplamente noticiado pela comunicação social nacional e estrangeira, é um acto de intenções bem determinadas, ignorando-se a identidade dos mandantes, uma vez que o mesmo ainda não foi reivindicado.

Não restam, porém, dúvidas, que se tratou de uma acção de terroristas islâmicos com o propósito de desestabilizar o país e provocar um golpe fatal no turismo, uma das receitas substanciais da Tunísia (representa cerca de 10% do PIB e emprega à volta de 15% da população activa), que recebe anualmente uma média de seis milhões de visitantes.

O ataque no Bardo provocou 19 (ou 22 conforme as fontes) mortos e 42 feridos, na quase totalidade turistas estrangeiros que visitavam o famoso Museu, que alberga uma das mais preciosas colecções de mosaicos romanos do Norte de África, incluindo os que foram retirados, com intenção de preservá-los, dos seus locais originais em Cartago.

Visitei diversas vezes o Museu do Bardo, nas 29 deslocações que, durante anos e a vários títulos, efectuei à Tunísia. Fotografei (e fotografei-me junto a) algumas das suas peças, apesar de dispor do respectivo catálogo, e mostrei mesmo o Museu a jovens tunisinos que nunca o tinham visto. Sendo um sítio que se me tornou familiar sinto-me, também eu, intimamente agredido por tão inqualificável acto.

Conservo da Tunísia e dos tunisinos em geral a melhor das impressões e acompanho-os neste momento de luto nacional. As acções pretensamente cometidas em nome do islão por indivíduos que, muitos deles, nem acreditam possivelmente em deus, é uma fatalidade dos nossos dias. Conheço a maior parte dos países árabes e, naturalmente, tenho convivido com os seus habitantes, por definição muçulmanos (à excepção dos coptas no Egipto) e sei que a religião que praticam nada tem a ver com a violência que se vem registando não só sobre europeus, cristãos ou ateus, mas igualmente sobre árabes e muçulmanos.



Os atentados islamistas não são de hoje, basta recordar os actos violentos praticados desde há décadas, nomeadamente no Egipto. Mas a sua expressão actual agudizou-se nos últimos tempos com a evocação de ressentimentos milenares, de factos de que já ninguém se lembra, mas também de ressentimentos mais próximos, como a eternização do conflito israelo-palestiniano ou a inconcebível invasão do Iraque. O Ocidente, em geral, e os Estados Unidos, em particular, e também os ingleses, têm usado de uma hipocrisia afrontosa no seu relacionamento com o Mundo Árabe.

É claro que nada justifica o terrorismo, que acaba, quase sempre, por vitimar inocentes. Mas seria bom que os dirigentes mundiais meditassem sobre as consequências dos seus actos.


LISTA VIP E ESTADO DE TORTO




Em 8 de Março passado, escrevi aqui, sob o título "Lista VIP e Estado de Direito", que se impunha um cabal esclarecimento sobre a existência de uma lista de "notáveis" nos serviços de contribuições e impostos.

A existência de tal Lista foi então peremptoriamente negada pelo primeiro-ministro, no Parlamento, e pelo secretário dos Assuntos Fiscais.

A questão não ficou, todavia, encerrada, já que quase ninguém acredita na palavra dos membros do Governo, e prosseguiram os rumores e as afirmações quanto à existência de tal relação de pessoas por qualquer razão consideradas famosas e, eventualmente, ao abrigo dos procedimentos aplicáveis ao comum dos cidadãos.

Acontece que, hoje, perante as evidências, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais anunciou ter decidido avançar com uma investigação sobre os factos e manifestou a sua disponibilidade para prestar ao Parlamento todos os esclarecimentos necessários. Na 2ª feira, o Ministério das Finanças tinha solicitado à Inspecção-Geral de Finanças a abertura de um inquérito sobre a existência dessa Lista.

Também hoje, o director-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira apresentou à Ministra das Finanças a sua demissão do cargo, a qual foi aceite.

Escrevi, no citado "post", que a discriminação dos contribuintes face às suas obrigações fiscais punha em causa a igualdade dos cidadãos perante a lei, violando assim os princípios consagrados pela Constituição e questionando os próprios fundamentos do Estado de Direito. O desenvolvimento deste caso, que provavelmente nunca ficará devidamente esclarecido, demonstra à saciedade que não vivemos já num Estado de Direito mas num Estado de Torto, tais são as tortuosidades sistematicamente cometidas.

Vasculhando a história da República, desde a sua proclamação em 1910, afigura-se que, apesar de todas as vicissitudes ocorridas, nunca um Governo mentiu tanto e com tanto descaramento aos portugueses como o Executivo chefiado por Pedro Passos Coelho. Aqui se regista para memória futura.


segunda-feira, 16 de março de 2015

O HOMÚNCULO



(A mancha na capa não é do livro mas da parte interior da minha impressora)

Tenho lido em vários sítios que foi agora publicado um inédito de Natália Correia: O Homúnculo.

Admito que se trate apenas de falta de memória, pois a peça da escritora foi dada à estampa em 1965, com a chancela das edições Contraponto.

sábado, 14 de março de 2015

VIENA HÁ MAIS DE UM SÉCULO





Por um acaso, ou talvez não, procurei na minha biblioteca um livro adquirido há uns quinze anos, Vienne Fin de Siècle, de Carl E. Schorske, e li-o. Creio que é um dos melhores livros, e são tantos, sobre a segunda metade do século XIX em Viena.

Neste livro, o autor propõe uma abordagem temática de alguns aspectos que considera fundamentais na evolução da vida política, cultural e social de Viena no último período de esplendor do império dos Habsburg. Com a morte de Francisco José em 1916 (o jovem que aos 18 anos herdara o peso da monarquia bicéfala após a revolução de 1848 e a abdicação de seu tio Fernando I), o Império Austro-Húngaro entrara no estertor, consumado com a derrota na Primeira Guerra Mundial em 1918 e a renúncia de Carlos I, que, mortos o herdeiro natural, o arquiduque Rodolfo (suicidado em Mayerling em 1889) e o arquiduque Francisco Fernando (vítima do atentado de Sarajevo em 1914), sucedera,  por dois anos, ao seu tio-avô.

Debruça-se Schorske sobre a tradição cultural austríaca (aristocrática, católica e estética) mas também burguesa, legalista e racionalista. Um capítulo é dedicado à Ringstrasse, a circular construída a partir de 1860, no terreno de antigas fortificações que protegiam o centro da cidade, o núcleo duro do Império, e que o separavam já do resto da cidade, entretanto alargada em todos os sentidos.

Há, também um capítulo dedicado à política, numa época determinante do antisemitismo, através de três dirigentes fundamentais. E um, inevitavelmente a Freud e à sua Interpretação dos sonhos, bem como outro consagrado a Klimt.

No fim, é apresentado um panorama da mutação tão completa como progressiva da arte numa época em que ela perde a sua vocação de reflectir a realidade social (o meio-século de declínio do liberalismo). E também a reestruturação criadora, ainda que dolorosa, do pensamento e da sensibilidade gerada pela falência do liberalismo e das perspectivas históricas que haviam legitimado esse regime. Por fim, o nascimento do expressionismo, em que a destruição da cultura tradicional se torna absoluta, enquanto se anuncia a reconstrução dos valores.

Schorske começa por se referir a Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, figuras da poesia e do teatro e também ao famoso crítico Karl Kraus. Sobre Hofmannsthal, há uma alusão curiosa à sua obra Der Tor und der Tod (O Doido e a Morte) de 1893, título antepassado de Raul Brandão, cuja publicação homónima é de 1923. Também, entre outros, Hermann Broch está presente.

Sobre o projecto e a construção da Ringstrasse, e também dos edifícios que iriam ornamentá-la, a Staatsoper, o Kunthistorisches Museum, o Museu de História Natural, o Parlamento (Reichrat), a Câmara Municipal (Rathaus), o Burgtheater, a Universidade, surgem os nomes incontornáveis dos arquitectos Camillo Sitte, Otto Wagner, Gottfried Semper, e mais tarde Adolf Loos. É também a época da construção das ruas adjacentes à Ringstrasse, com o seus imóveis de prestigio, como a Kärtner Ring, a Reichratstrasse, a Schwarzenbergplatz, a Concordiaplatz, a Herrengasse. Sobre as transformações arquitectónicas, que reflectem as transformações sociais, e sobre tudo aquilo que este livro refere, está omnipresente a figura de Richard Wagner. Nem poderia ser de outra forma.

Um dos capítulos que nos ajuda a compreender a evolução político-social da Áustria é o que aborda o "trio austríaco". A propósito deste fim de século em Viena, escreveu Robert Musil no seu O Homem sem Qualidades: «Os que não viveram nesta época, recusar-se-ão a acreditar, mas, já então, o tempo deslocava-se com a rapidez de um camelo (...). Só que não se sabia para onde ia. Assim não poderia distinguir-se claramente o que estava em cima do que estava em baixo, o que avançava do que recuava.»

As forças sociais que se sublevaram contra a hegemonia dos liberais não podiam deixar de surpreender um observador que as visse através do prisma das concepções e da visão liberais da história. Três homens se distinguem nesta cruzada anti-liberal: Georg von Schönerer (1842-1921), Karl Lueger (1844-1910) e Theodor Herzl (1860-1904).

 O grande sucesso de Schönerer foi ter metamorfoseado a tradição da velha esquerda em ideologia da nova direita. De facto, transformou o nacionalismo grossdeutsch, democrático, num pangermanismo racista. Pelo contrário, Lueger transformou uma ideologia da velha direita, o catolicismo político austríaco, em ideologia da nova esquerda, o cristianismo social. Schönerer começou a sua carreira como organizador de primeiro plano na sua circunscrição eleitoral, mas acabou em Viena como agitador com um punhado de admiradores fanáticos. Lueger começou como agitador em Viena, conquistou a capital e organizou depois um grande partido solidamente implantado no interior do país. Possuem em comum um profundo antisemitismo militante. A virulência dos ataques de Schönerer encontrou, especialmente nos jovens e  na classe média, um acolhimento favorável. Um seu fervoroso admirador iria mais tarde distinguir-se na Alemanha, na Europa e no mundo: Adolf Hitler.

Theodor Herzl, judeu, foi o fundador do Sionismo político moderno. A crise do liberalismo e o impulso do antisemitismo concorreram para aquilo a que poderíamos chamar a sua conversão à causa judaica. «Plusieurs aspects de l'attitude de Herzl à la veille de sa conversion révèlent de profondes affinités avec Schönerer et Lueger: le refus de la politique de la raison et la même attirance pour un style aristocratique dans la conduite des foules, accompagné d'un goût prononcé pour le grandiloquent. Herzl avait, avec ses ennemis, un autre point commun situé sur un tout autre plan, même s'il en tira des conclusions différentes: son aversion des juifs.»!


O seu livro, Der Judenstaat (O Estado judaico), de 1895, considerando que o problema do antisemitismo só teria resolução se os judeus de todo o mundo pudessem reunir-se num só país, lançou as bases do futuro estado judaico independente, ainda que não previsse a instalação dos judeus na Palestina. Deve-se-lhe a organização do Primeiro Congresso Sionista Mundial, em Basileia, em 1897, e a criação da Organização Sionista Mundial. Sustenta que os judeus devem conceber um novo sistema simbólico, um Estado, uma ordem social que lhe sejam próprias e, mais do que tudo, uma bandeira. «"Avec un drapeau, on mène les hommes où l'on veut, et même à la terre promise". Un drapeau est "la seule chose pour laquelle les foules sont prêtes à mourir lorsqu'elles sont eduquées dans ce sens"». Mas nunca mencionou a estrela de David, mais tarde adoptada como símbolo judaico.

Como antes dele Schönerer e Lueger, também Herzl combinou elementos arcaizantes e futuristas para se dirigir às massas, tendo cada um dos membros deste trio criticado, em nome da justiça social, o fracasso do liberalismo. Todos três ligaram esta aspiração moderna a uma comunidade arcaica tradicional: Schönerer, a tribo germânica; Lueger, a ordem católica medieval; Herzl, o reino de Israel antes da Diáspora. Todos três fizeram da sua ideologia o ponto de encontro do que "avançava" e do que "recuava", da memória e da esperança, ultrapassando assim a realidade do momento, insatisfatória para as suas gentes, vítimas do capitalismo industrial: os artesãos e os lojistas, os vendedores ambulantes e os habitantes do ghetto.

«De même que la première tâche que se fixèrent Schönerer et Lueger fut de vaincre les libéraux allemands et les catholiques libéraux, de même il fallut que Herzl se battît contre les libéraux juifs. Mais, dans chaque cas, les nouveaux extrémistes cherchèrent à déborder le pouvoir libéral grâce à une autorité qui ne fut pas autrichienne, mais qui fut reconnue par leurs seuls partisans. Schönerer rechercha l'appui de Bismarck, Lueger, celui du pape, et Herzl, celui de Hirsch et des Rothschild de Paris. Tous trois échouèrent dans cette tentative: ils durent organiser leurs troupes non seulement contre les libéraux de leurs communautés, mais, de plus, sans obtenir l'appui des plus hautes autorités extérieures auxquelles ils avaient fait appel.»

Figura incontornável da Viena desta época é indubitavelmente Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise. Não cabe aqui, naturalmente, desenvolver o pensamento e a acção de Freud, ou descrever a afluência dos pacientes ao seu consultório na Berggasse, 19 (onde já estive). Mas importa referir que o capítulo que Schorske dedica à "política e ao parricídio n'A Interpretação dos sonhos" e à carreira do Mestre é fundamental para a compreensão da Áustria no reinado do penúltimo dos Habsburg.



O psicólogo Bruno Bettelheim, que nasceu na Áustria em 1903, escreveu um interessante livro sobre o tema, Viena de Freud e outros ensaios, publicado em português em 1991.

Outra figura a quem o autor dedica numerosas páginas é o pintor Gustav Klimt (1862-1918). Figura emblemática do Art nouveau austríaco, Klimt é um dos fundadores do célebre movimento da Secessão de Viena (1897). São de sua autoria algumas das pinturas mais notáveis do Kunthistorische Museum, do Burgtheater, da Universidade (os quadros originaram uma polémica), etc. Distinguem-se também na época os pintores expressionistas Oscar Kokoschka (1886-1980) e Egon Schiele (1890-1918).

"O Beijo", Gustav Klimt

Nos últimos capítulos do livro surgem os compositores Gustav Mahler (1860-1911), na transição do romantismo para o atonalismo, e o expressionista Arnold Schönberg (1874-1951), que com Alban Berg e Anton Webern foram os expoentes da Segunda Escola de Viena.

Muito mais haveria a dizer sobre esta obra fundamental para a compreensão da vida vienense (e austríaca) neste período, mas o espaço impõe limites.

Hitler proclama o Anschluss na Heldenplatz, em Viena

Acrescente-se tão só, e isso o livro não refere porque o acontecimento é posterior à época estudada, que os austríacos receberam entusiasticamente Hitler, uma verdadeira aclamação, quando o Führer entrou em Viena em 1938, por ocasião do Anschluss. É que, na sua maioria, os intelectuais e artistas a que o livro faz referência e que aqui mencionámos eram judeus.

sexta-feira, 13 de março de 2015

MOLIÈRE ERA GAY?


Transcrevendo do nº 2627 do "L'Obs" desta semana:


 Diálogo entre Jean-Marie Besset, autor e encenador da peça Le Banquet d'Auteuil, actualmente em cena no Théâtre 14, em Paris, e o historiador e especialista do teatro do século XVIII, Georges Forestier, responsável da publicação das Oeuvres Complètes de Molière na "Bibibliothèque de La Pléiade", a propósito da suposta paixão de Molière pelo actor Michel Baron.



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quarta-feira, 11 de março de 2015

DA TOLERÂNCIA ZERO AO DIREITO À TOLERÂNCIA INFINITA




Pela sua relevância, transcreve-se do PÚBLICO o artigo de José Vítor Malheiros:

Opinião

Da tolerância zero ao direito à tolerância infinita



Ao recusar para os outros qualquer magnanimidade, o PM perdeu o direito a beneficiar de qualquer atenuante.


Sempre senti aversão pelo conceito de “tolerância zero”. Esta aversão tem excepções. Quando a Igreja Católica ou qualquer outra organização anuncia “tolerância zero” em relação a casos de abuso de menores, por exemplo, não podia estar mais de acordo com a atitude. Há domínios onde a mais leve suspeita de impropriedade deve ser tratada com o máximo rigor. Mas quando se trata de “tolerância zero” em relação a infracções, como as que a Brigada de Trânsito anuncia por vezes nas suas campanhas, por exemplo, a política parece-me ineficaz e injusta. Que se multe alguém por conduzir a 85 quilómetros por hora numa estrada onde o limite é de 80 é ridículo.

A lei tem uma racionalidade subjacente que pressupõe sempre uma margem para a sua aplicação e não deve ser vista como um tabu, e a sua aplicação não pode ser vista como persecutória pelo cidadão. A lei pode e deve ser aplicada de forma pedagógica e parece-me legítimo e eficaz que o condutor que se desloca a 85 quilómetros por hora seja parado pela polícia e alertado da infracção, mas mais do que isso parece-me contraproducente.

Pode argumentar-se que a justiça deve ser cega e que dura lex sed lex, mas a verdade é que a justiça deve servir os cidadãos e isso exige uma leitura das leis, uma interpretação da sua letra e do seu espírito, e uma leitura das circunstâncias. A lei não deve ser aplicada por robôs, mas por pessoas.

É, por exemplo, moralmente intolerável que uma família seja despejada da casa onde vive e obrigada a dormir na rua devido a uma penhora por dívidas, sejam elas privadas ou fiscais e seja qual for a sua legitimidade — e, no entanto, foram feitas durante a vigência deste Governo dezenas de milhares destas penhoras de casas. Há imensas razões que justificam esta interdição moral. A penhora da casa de habitação é uma condenação de toda a família à miséria, ao desemprego (se já não existiam antes), à vergonha, ao vexame público, ao abandono escolar, frequentemente à fome e à doença. Não há razão que justifique condenar filhos pelos crimes dos pais e menos ainda pela pouca sorte, pela ignorância ou pelos descuidos dos pais.

E no entanto... a tolerância zero foi o critério que o Governo PSD-PP anunciou como cerne da sua política. Só que se tratou de tolerância zero apenas para com os cidadãos comuns, contribuintes habituados a viver acima das suas possibilidades e cujos luxos tinham condenado o país a uma dívida gigantesca. Tolerância zero para com os desempregados e pensionistas, habituados a subsídios e pensões de luxo que era preciso cortar. Tolerância zero para com os pobres, que viviam à tripa-forra de RSI e de abonos de família que foram reduzidos ou cortados. Tolerância zero para com os recibos verdes que ganhavam fortunas que por vezes chegavam mesmo a exceder o salário mínimo. Tolerância zero para com os utentes do SNS que tiveram de passar a pagar mais por uma urgência hospitalar do que por uma consulta privada. E tolerância zero para com os cidadãos gregos, culpados dos mesmos pecados e do pecado de terem votado à esquerda. Mas esta tolerância zero viveu e vive paredes-meias com a tolerância infinita, com a libertinagem permitida a banqueiros e gestores que levaram as suas empresas à falência fazendo desaparecer não se sabe bem em que bolsos milhares de milhões de euros, aos autores de fugas ao fisco gigantescas, às PPP e swaps que garantiram enormes lucros sem risco à custa dos contribuintes, às Tecnoformas que ganharam dinheiro sem se saber porquê e que pagaram a consultores sem se saber em troca de quê. O primeiro problema da tolerância zero é esse: o da falta de equidade. É que nunca a tolerância zero se estende a todos.

O que mais choca nas dívidas de Pedro Passos Coelho à Segurança Social é esta desigualdade: a tolerância e a compreensão que pede para si, um político experiente e bem pago, e a tolerância e a compreensão que não teve para centenas de milhares de famílias pobres. A humildade que exibe agora e a arrogância com que tratou os “piegas” e os “preguiçosos” que não eram capazes de “meter mãos à obra” em vez de se queixarem da “demasiada austeridade” a que submetia o país. Considerar uma desculpa aceitável para si o facto de não ter tido dinheiro para pagar (?) a dívida à Segurança Social e a indiferença com que tratou as dificuldades de outros, com rendimentos muito inferiores.

Hoje sabemos que o primeiro-ministro recebeu durante anos uma remuneração que não é claro se se devia a trabalho realizado ou se se destinava apenas a “abrir portas”. Que não pagou ao Estado durante cinco anos uma contribuição que devia ter pago. Que diz que não pagou porque não sabia que devia pagar. Ou porque não tinha dinheiro. Que quando soube que devia, adiou o pagamento. Que só pagou parte da dívida quando soube que um jornal ia publicar a história. Que o devemos desculpar porque não é perfeito.

A tolerância é apenas outro nome do bom senso e da humanidade. Não queremos ser condenados pelo primeiro deslize, pela mínima falta. Mas ao recusar para os outros qualquer magnanimidade, o primeiro-ministro perdeu o direito a beneficiar de qualquer atenuante.