quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

NUS MASCULINOS EM VIENA



Pela sua curiosidade e interesse, transcrevemos a notícia de hoje do PÚBLICO:

«A exposição Nackte Männer [Homens Nus], inaugurada em Outubro de 2012 no Museu Leopold, em Viena, deveria ter encerrado no dia 28 de Janeiro, mas continua a atrair tantos visitantes – já foi vista por cerca de 400 mil pessoas – que a direcção do museu austríaco decidiu prolongá-la até 4 de Março.

Acedendo a alegadas solicitações de associações nudistas, o Museu Leopold vai ainda reservar um dia para aceitar visitantes despidos. No dia 18 de Fevereiro, a partir das 18h00, quem quiser ir nu ver os nus está, por assim dizer, à vontade.

A decisão irá provavelmente provocar polémica, mas a controvérsia tem sido, desde o início, um dos factores de sucesso desta exposição. Ainda antes da abertura, o Leopold espalhou pelas paredes de Viena cartazes de grande dimensão mostrando três jogadores de futebol fotografados em nu frontal integral, um trabalho dos fotógrafos franceses Pierre e Gilles. Os protestos foram tantos que o museu teve de mandar colar umas faixas vermelhas em cima dos cartazes, para tapar os genitais dos jogadores. Mas é bastante provável que a mediatizada polémica em tornos destes outdoors tenha contribuído para o sucesso de Homens Nus.

A ideia de permitir que a exposição seja vista por visitantes nus é um golpe de marketing com precedentes próximos. O Museu Leopold, que conserva a maior colecção mundial de obras do pintor austríaco Egon Schiele (1890-1918), dedicou-lhe em 2005 a exposição A verdade nua: Klimt, Schiele, Kokoschka e outros escândalos, tendo oferecido bilhetes gratuitos aos visitantes que se apresentassem nus. E apresentaram-se algumas centenas.

Comissariada por Tobias G. Natter e Elisabeth Leopold, a exposição Homens Nus reúne cerca de 300 peças que sinalizam o tratamento do nu masculino na pintura, na escultura e na fotografia, de 1800 até à actualidade. Antonio Canova, Johan Heinrich Füssli, Egon Schiele, Richard Gerstl, Anton Kolig, Jean Cocteau, David Hockney, Andy Warhol, Robert Mapplethorpe ou Francis Bacon são alguns dos muitos artistas representados. E os curadores reservaram ainda um núcleo para o olhar feminino sobre o corpo masculino, preenchido com trabalhos de artistas como Maria Lassnig, Louise Bourgeois ou Nan Goldin.»

Para quando visitantes despidos nos museus portugueses? Uma ideia que sugerimos ao Ministério (perdão, Secretaria de Estado) da Cultura, a fim de aumentar as receitas de bilheteira.

3 comentários:

Zephyrus disse...

Tendo estado recentemente em Itália, tive a oportunidade de notar uma forte carga homoerótica na arte fascista, na representação do corpo masculino. Essa mesma carga homoerótica é visível na arte e na imagética nazi. Uma vez que não estou dentro do assunto, e a título de curiosidade, gostaria de questionar o autor do blog sobre a presença de homoerotismo na representação do corpo masculino durante o período do Estado Novo. O amor viril (utilizando o conceito exposto por Platão na obra O Banquete) que envolve a união das almas masculinas, separadas por Zeus, encontra espaço na nossa literatura do século XX, por vezes de forma veladas, em autores como Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Jorge de Sena ou mesmo Fernando Pessoa. Mas e na nossa arte do século passado? Há espaço para a representação do masculino e para o homoerotismo? Agradeço resposta. Saudações cordiais.

PS: pelo que aprendi no seu blogue essa representação ocorreu na conservadora Grécia.

Na realidade o movimento de representação do corpo masculino sofreu um forte impulso no século XIX. O corpo passa a ser representado de outra forma, ao natural, enfrentando preceitos religiosos. No século XIX a arte começa a representar o corpo do homem como é no natural, com a definição muscular, mas também com a presença de pêlos onde eles surgem com frequência, no peito, membros inferiores, abdómen ou região em torno dos genitais. Essa representação no passado era evitada, pois considerava-se que os pêlos corporais masculinos incitavam à luxúria. No final do século XIX fotógrafos franceses ou britânicos rumam em direcção à Sicília e ilhas gregas e fotografam rapazes desnudos dessas ilhas. A representação do corpo masculino e do nu masculino na pintura e na fotografia cresce depois como nunca no século XX. E em Portugal?

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

PARA ZEPHYRUS:

Como refere, existiu sempre uma forte carga homoerótica na arte dos regimes fascista e nazi, ainda que pretensamente disfarçada.

É natural que em regimes que enalteciam as amizades viris, se verificasse uma exaltação do corpo masculino, com as inevitáveis e inerentes consequências.

Mesmo os períodos mais extremistas dos referidos regimes não foram imunes àquilo a que Roger Peyrefitte, para utilizar o título de um dos seus livros, chamou as "amizades particulares".

O Estado Novo, que sempre primou pela "discrição" - o que parece, é, para citar Salazar - não foi apologista, tanto quanto sei, dessa representação do nu masculino nas artes plásticas. Mas, na literatura, os autores que refere são bastante exemplificativos, não se furtando à abordagem do tema, ora de forma velada, ora de maneira mais evidente. Por exemplo, António Botto, que se exprimiu muito livremente, sofreu as consequências da sua liberalidade, tal como Mário Cesariny, mais próximo dos nossos tempos. Já Eugénio de Andrade primou por uma razoável ocultação do assunto, especialmente para os fins da sua vida. Outro exemplo de notável dissimulação do tema é o caso de José Régio.

A "discrição" do Estado Novo não obstou, porém, à prática das actividades correlativas, desde que não se ultrapassassem os "limites morais" impostos pela Situação, a bem, para citar Jorge de Sena, da "tranquilidade das famílias".

Confesso que não estou habilitado, quanto à utilização do tema nas artes plásticas do Estado Novo, em lhe fornecer os esclarecimentos que deseja. Quando dispuser de tempo para investigar, não deixarei de satisfazer a sua pretensão.

Saudações cordiais.

Zephyrus disse...

Agradeço a resposta. Vou tentar também investigar. Saudações.

Luís