domingo, 27 de outubro de 2013

JABHAT AL-NUSRA E ISIS




Os fundamentalistas islâmicos de Jabhat al-Nusra (afiliada à Al-Qaeda) têm, desde há meses, um concorrente, o ISIS (Islamic State of Iraq and Syria), um movimento ainda mais radical. De facto, a Frente de Apoio ao Povo da Síria (Jabhat al-Nusra li-Ahl al-Sham) está a ser eclipsada no terreno pelos guerrilheiros que pretendem construir um estado islâmico no Levante e que constituem hoje a mais poderosa força que se movimenta na Síria contra o regime do presidente Bashar Al-Assad.

Continuamos a não compreender as razões que levaram George W. Bush e o seu aliado à trela Tony Blair a realizarem a invasão do Iraque que, como tudo deixava supor, abriria as portas ao islamismo radical que se mantinha contido pelo governo laico do presidente Saddam Hussein, que não sendo propriamente um exemplo de virtudes possuía a qualidade de manter sob controlo as veleidades exacerbadas dos extremistas islâmicos. É difícil aceitar que se possa ter cometido tão vergonhosa acção, que mais do que um crime foi um erro (parafraseando Talleyrand), apenas pelos interesses das companhias petrolíferas e de armamento, ou mesmo para testar novos equipamentos de guerra. O cenário resultante desta invasão é catastrófico e nem a desculpa cínica de ser preciso levantar árabes contra árabes para que se auto destruam e deixem espaço livre para terceiros (lebensraum) justifica racionalmente a atitude. Há quem efectivamente a sustente e veja nas "primaveras árabes" um incitamento ocidental ao confronto entre muçulmanos. Num breve apontamento, recorde-se a insistência com que o suspeito Bernard-Henri Lévy defendeu a intervenção na Líbia e compare-se o estado do país antes e depois da invasão da NATO.

A emergência do ISIS configura uma ameaça perigosa não só para o Iraque (onde todos os dias se verificam atentados mortíferos) e para uma possível paz na Síria, a alcançar através de uma solução que hoje parece ainda enigmática para todos, mas também para o Líbano, para a Palestina (ou o que dela resta), para a Jordânia e mesmo para Israel (que não vê com maus olhos os confrontos inter-árabes mas que não gostaria de um conflito a entrar-lhe pela casa dentro, já que a sua capacidade defensiva é mais para uma guerra convencional do que para uma guerrilha permanente generalizada.

Não sei verdadeiramente o que pensam a respeito deste novo movimento os líderes dos Estados Unidos e da União Europeia (salvaguardando Hollande que não percebe nada de nada), mas seria bom que tivessem um pensamento estratégico sobre as relações do Ocidente com o Mundo Árabe ou, mais alargadamente, com o Mundo Muçulmano, e sobre os perigos que que podem advir já não só para o Ocidente mas para o mundo em geral (maxime África), da extensão da ideia de um novo califado e da radicalização de um pensamento religioso absolutamente retrógrado.


2 comentários:

Anónimo disse...

Do confronto de todas as oposições só poderá resultar a vitória de Bachar al-Assad. Ao menos é laico.

Anónimo disse...

Agora, infelizmente já tal vitória não é assim tão líquida! Tudo o que se movimenta naquela região do globo, é demasiado confuso e perigoso. No entanto, convém não esquecer que a Turquia tem aqui uma palavra fundamental a dizer. Aguardemos calmamente pelo desenrolar dos acontecimentos.