domingo, 20 de outubro de 2013

ANDRÉ GIDE E O VATICANO




André Gide (1869-1951) foi um dos maiores escritores franceses, e universais, do século passado. Prémio Nobel da Literatura em 1947, foi considerado por André Rouveyre o "contemporâneo capital". Autor de vasta e inovadora obra (Corydon), importa periodicamente revisitá-lo. Assim, tive o prazer de reler Les caves du Vatican (1914), livro escrito a propósito de um boato que correu a Europa nos anos 90 do século XIX e que sustentava que o papa Leão XIII fora sequestrado no próprio Vaticano, devido a um complot entre a Cúria Romana e a Maçonaria, e colocado como prisioneiro no Castelo de Sant'Angelo, enquanto um sósia se sentava no trono de São Pedro.

Evidentemente que o boato é tão só o pano de fundo que permite a Gide desenvolver, em cinco estórias, devidamente enredadas e com personagens comuns, as suas ideias, as suas convicções, os seus pensamentos e sentimentos, as suas reflexões sobre a liberdade e sobre a teoria do acto gratuito, tão cara a Nietzsche e a Dostoievsky. Chamou ao escrito sotie (que significa sátira, farsa), já que considerava ter escrito, entre todos os seus livros, apenas um romance, Les faux-monnayeurs.

O texto navega entre católicos ferverosos e franco-maçons, aristocratas e marginais, diplomatas equívocos e académicos frustrados, mansões senhoriais e lugares sórdidos, e tem por figura principal o jovem Lafcadio, um lindo romeno de Bucareste a viver em Paris, possuidor daquela beleza romena que quando é bela é mesmo bela (Gide devia sabê-lo, tais os traços que empresta à personagem, e Gilles Leroy também nos fala dela), sedutor de mulheres, e de homens (Gide é aqui menos explícito, ainda não havia publicado Corydon), e que acaba por cometer um crime que ficará, provavelmente, sem castigo, já que o autor não encerra o último capítulo, escrevendo, no fim sem final, que "um novo livro começa".

Notável incursão nos sentimentos humanos, crítica social, os subterrâneos do Vaticano são aqui também os subterrâneos das almas, que Gide devassa com particular acutilância.

Obra do século XX, sobre o século XIX, mantém plena actualidade no século XXI.

Por isso, deve ler-se, e reler-se, Les caves du Vatican.

2 comentários:

Anónimo disse...

Gide é um verdadeiro monumento literário. E, de certa forma, um precursor das liberdades sexuais. O seu livro "Corydon" é uma obra corajosa para a época e abriu muitos caminhos. As suas memórias, especialmente a estadia na Tunísia, são significativas. Com a grande mudança nos costumes, para o bem e para o mal, Gide, hoje, estaria certamente preso, como grande parte dos intelectuais da época ou um pouco mais recentes tais como Montherlant, Peyrefitte, Foucault, Barthes, e por aí fora. O "politicamente correcto" no sentido mais amplo, está a destruir o mundo. Aguardem-se os resultados.

Anónimo disse...

Como foi possível que se desse crédito à história do sequestro de Leão XIII? Só almas muito ingénuas ou obcecadas...