segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ANTÓNIO FERRO

Passam hoje 114 anos sobre o nascimento de uma das mais interessantes figuras da vida político-cultural do século XX português: António Ferro.


Homem de pensamento e de acção, possuidor de um multifacetado talento, Ferro é o vanguardista que edita o Orpheu, o jornalista que percorre a Europa, o Brasil, os Estados Unidos, recolhendo o testemunho das mais célebres personagens da época, o inspirador e impulsionador de uma política cultural que, independentemente do ângulo por que se perspective, constituiu até hoje a única tentativa séria, consistente e duradoura de promover com o apoio do Estado a criação e a divulgação artística e literária.


A sua permanência à frente do Secretariado da Propaganda Nacional (S.P.N.), mais tarde Secretariado Nacional de Informação (S.N.I.), ao longo de 17 anos (1933-1950), permitiu-lhe fomentar a criatividade dos autores portugueses, nas artes e nas letras, difundir as correntes modernistas estrangeiras e estabelecer as estruturas básicas de uma acção cultural a nível nacional. O trabalho de Ferro abrange campos tão diversos como as artes plásticas, o teatro e o cinema, a música e o bailado, a poesia e a literatura em geral, a rádio, o turismo, o cartazismo, a arte de expor. Arquitecto da “política do espírito”, António Ferro é um homem de “bom gosto” que serve um Regime (o de Salazar) e que se serve do Regime para impor convicções próprias, nem sempre consonantes com a Figura Tutelar (mas que esta inteligentemente aceita até entender que não é possível prosseguir a coexistência de orientações que na ordem estética e no plano prático (por exemplo a Censura) ameaçam uma fissura no edifício do Estado Novo. Nunca ficou devidamente esclarecida a saída de Ferro do S.N.I. para a Legação de Portugal em Berna. Não teria de o ficar publicamente, para mais naquela época, mas mesmo em conversas com os filhos, há um quarto de século, nada consegui adiantar, porque no fundo estes também nada sabiam, para além do desejo do pai em ocupar um posto mais tranquilo.


Ao longo de três décadas, António Ferro é, de facto, uma figura intrinsecamente polémica, que desencadeia ódios e paixões, privilégio, aliás, daqueles que, sabendo o que querem, são os únicos capazes de despertar interesse na paisagem monótona e cinzenta das unanimidades castradoras. Navegando entre as tendências modernistas da sua juventude, em que acompanha Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o entusiasmo pelos regimes fortes, que o leva a admirar Mussolini, e o desejo de realizar em Portugal um renascimento cultural, que tenta com o apoio inequívoco de artistas e escritores e o apoio condicional de Salazar, primeiro, e com uma já translúcida oposição de parte da intelligentsia nacional e uma cautelosa reserva de Salazar, depois, António Ferro prossegue a (sua) política do espírito, discutível, sem dúvida, mas merecedora do reconhecimento nacional. Ele foi, avant la lettre e “avant Malraux”, o nosso primeiro ministro da Cultura.

* * *

Não é possível dar conta, aqui, da vida e obra (obra literária e obra de política cultural) de António Ferro. Por isso, limitar-me-ei a algumas indicações, escusando-me, desde já, das omissões indesejáveis:


Em 1895 nasce em Lisboa, a 17 de Agosto, filho de António Joaquim Ferro e de Maria Helena Tavares Afonso Ferro.


Em 1912, com 17 anos, publica (em colaboração com Augusto Cunha) Missal de Trovas, livro de quadras ao gosto popular.


Em 1913 escreve poesia e teatro, textos que se perderam. A esse respeito, Fernando Pessoa anota no seu diário, em 30-3-1913: “Das 2 ¼ às 4 ½ em casa de António Ferro a ouvir-lhe três (?) peças. – Leu duas. – Depois para a Baixa com ele.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, pág. 55 – Edições Ática, 1966). Ingressa na Faculdade de Direito, que frequentará até 1919, não tendo concluído o curso, que será preterido a favor do jornalismo.


Em 1915 é editor da revista Orpheu que, fundada por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, etc., constitui o marco inicial do modernismo em Portugal e da qual são publicados apenas dois números. Segundo Alfredo Guisado, um dos seus directores, convém que (o editor) seja ele (António Ferro) porque é menor e se surgir qualquer complicação a sua responsabilidade não tem consequências.


Em 1917, a 1 de Junho, profere no Salão Olímpia (que mais tarde, já velho cinema de reprise, se notabilizaria por outro tipo de espectáculos) a conferência As grandes trágicas do silêncio, dedicada às três maiores artistas do cinema mudo italiano, Francesca Bertini, Pina Menichelli e Lyda Borelli. Trata-se de uma manifestação histórica, por ter sido a primeira conferência sobre cinema pronunciada em Portugal, sendo editada nesse mesmo ano.


Em 1918 parte para Angola como oficial miliciano, sendo nomeado ajudante do governador-geral, o comandante Filomeno da Câmara, que pouco depois o nomeia (aos 23 anos), secretário-geral da Província.


Em 1919, regressado a Lisboa, é nomeado chefe de redacção de O Jornal.


Em 1920 é redactor de O Século e publica Árvore de Natal e Teoria da Indiferença, livro que o lança como escritor. Desloca-se ainda a Fiume para entrevistar Gabriele d’Annunzio.

Em 1921 publica Colette, Colette Willy, Colette e a famosa Leviana, que o consagra como modernista e mesmo futurista, e ainda o manifesto Nós, que mais tarde constituirá a contribuição portuguesa para o modernismo brasileiro.


Em 1922 publica Gabriele d’Annunzio e Eu, que reúne as reportagens, entrevistas e conversas com o grande poeta italiano. Faz crítica teatral no Diário de Lisboa, é director da Ilustração Portuguesa e escreve a peça Mar Alto. Desloca-se ao Brasil com a Companhia Lucília Simões/Erico Braga e casa por procuração com a poetisa Fernanda de Castro (a cerimónia em Lisboa tem lugar na Igreja de Santa Isabel, com o cunhado Augusto Cunha a servir de duplo do noivo, sendo testemunha no Brasil a actriz Lucília Simões) que pouco depois vai reunir-se com ele no Rio de Janeiro. A 18 de Novembro, Mar Alto estreia-se no Teatro Sant’Ana, em S. Paulo, cidade onde Ferro profere as conferências A Idade do Jazz-Band e A Arte de Bem Morrer, posteriormente editadas em livro. A peça é depois representada no Teatro Lírico do Rio de Janeiro.

Em 1923 prossegue a tournée de conferências no Brasil e publica Batalha de Flores, em edição brasileira. José Lins do Rego e Carlos Drummond de Andrade dedicam-lhe entusiásticos artigos. A 10 de Julho Mar Alto tem a sua estreia em Lisboa, no Teatro de São Carlos. O argumento provoca um escândalo, há apupos e discussões exaltadas e para acalmar a tempestade o próprio Ferro é obrigado a vir à boca de cena. No dia seguinte a peça é proibida pelo governador civil de Lisboa, o que dá origem a um protesto dos escritores portugueses dirigido ao então presidente do Conselho de Ministros e ministro do Interior António Maria da Silva, subscrito por Raul Brandão, António Sérgio, Fernando Pessoa, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Alfredo Cortez, João de Barros, Luís de Montalvor, etc. Em Agosto a proibição é levantada mas a peça só voltará a subir á cena em 1984. Ainda neste ano entrevista Mussolini em Roma, no Palácio Chigi. A 14 de Julho, nasce o primeiro filho do casal, o futuro escritor António Quadros.


Em 1924 é publicado Mar Alto.

Em 1925, dedicado á memória de Mário de Sá-Carneiro, é publicado A Amadora dos Fenómenos. Funda com José Pacheco o Teatro Novo, a primeira tentativa de um teatro português de vanguarda, que funcionará no foyer do Cinema Tivoli, de saudosa memória. São apresentadas as peças Knock, de Jules Romain e Para Cada Um Sua Verdade, de Pirandello e programadas peças de Almada Negreiros, Bernard Shaw, Jean Cocteau, Tchekov, Alfredo Cortez, Carlos Selvagem, etc., mas dificuldades económicas impedirão a continuidade da iniciativa.


Em 1927 publica Viagem à Volta das Ditaduras, com as entrevistas e reportagens que fizera na Itália (Pio XI, Ezio Garibaldi, Mussolini), em Espanha (Jacinto Benavente, Primo de Rivera) e na Turquia (Kemal Atatürk).

Em 1929 publica Praça da Concórdia, reunindo entrevistas realizadas em Paris entre 1924 e 1926.

Em 1930 publica Novo Mundo, Mundo Novo, reunindo reportagens efectuadas nos Estados Unidos em 1927.


Em 1931 publica Hollywood, Capital das Imagens, incluindo as reportagens e entrevistas efectuadas na capital americana do cinema.


Em 1932 estreia no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a sua peça O Estandarte, com alguns dos melhores actores portugueses da época. E realiza para o Diário de Notícias as cinco famosas entrevistas com Salazar, em que este expõe as linhas gerais do seu programa político. No mesmo jornal, publica o artigo Política do Espírito, em que esboça os princípios de um novo tipo de acção cultural.

Em 1933 publica Prefácio da República Hespanhola, que é o inquérito realizado em 1930 para o Diário de Notícias em que entrevistara Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Ramón del Valle-Inclán, etc. Organiza em Lisboa o primeiro Congresso da Crítica Dramática e Musical, com a presença de Pirandello, Vuillermoz, Robert Kemp, etc. e publica Salazar. O Homem e a sua Obra, em que reúne as citadas entrevistas ao Chefe do Governo, livro imediatamente traduzido para francês, inglês, espanhol, italiano, polaco, etc. É convidado por Salazar para dirigir um novo organismo, o Secretariado de Propaganda Nacional (S.P.N.).


Em 1934, na primeira festa de distribuição dos Prémios Literários do S.P.N., define a sua política do espírito, que será, disse, não só a defesa material da inteligência, da literatura e da arte e o apoio aos artistas e aos pensadores, mas também uma política que se oponha fundamental e estruturalmente à política da matéria, proclamando a independência do espírito.


Em 1935 organiza a I Exposição de Arte Moderna, anunciando, na Sociedade Nacional de Belas Artes, a sua intenção de apoiar sobretudo os artistas de vanguarda. Respondendo-lhe em nome dos premiados, Almada Negreiros afirma: “Mais do que com júbilo, é com grande respeito que vejo pela primeira vez na minha terra os poderes públicos ao lado da arte mais nova de Portugal”.


Em 1936 inaugura o Teatro do Povo, sob a direcção de Francisco Lage e de Ribeirinho. Convida um grupo de intelectuais a visitar Portugal, tendo aceite o convite Miguel de Unamuno, Pirandello, Maurice Maeterlinck, Gabriela Mistral, François Mauriac, Georges Duhamel, etc.


Em 1937 é comissário da Exposição de Paris, organizando o Pavilhão de Portugal com Keil do Amaral, Bernardo Marques, Carlos Botelho, Tom, Estrela Faria, Manuel Lapa, etc. Promove os Cinemas Ambulantes que iniciam a sua actividade, percorrendo as vilas e aldeias do país.


Em 1939 promove o Concurso da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, que não voltará a ser repetido, e cujo troféu, o Galo de Prata, é atribuído a Monsanto.


Em 1940 é secretário geral dos Centenários, sendo também responsável pelo Pavilhão de Portugal na Exposição do Mundo Português. Ainda neste ano, estreia-se no Teatro da Trindade o Grupo de Bailado Verde Gaio, que António Ferro imaginou segundo Os Bailados Russos de Diaghilev.


Em 1941 publica Homens e Multidões, reunião de entrevistas e reportagens sobre Franz Lehar, Lloyd George, o rei Afonso XIII de Espanha, a rainha Maria da Roménia, Primo de Rivera, o rei Leopoldo III da Bélgica, o Papa Pio XI, Mussolini e Salazar. É nomeado presidente da Direcção da Emissora Nacional e assina o I Acordo Cultural Luso-Brasileiro.


Em 1942 começa a ser publicada (até 1950) a revista luso-brasileira “Atlântico”, de que é o director português. Apresenta o plano das Pousadas de Turismo, aquando da inauguração da primeira, em Elvas.


Em 1943 é lançada a revista de arte e turismo “Panorama”, publicada pelo S.P.N., com direcção literária do poeta Carlos Queiroz e artística do pintor Bernardo Marques. O Grupo Verde Gaio estreia no Teatro de São Carlos o bailado D. Sebastião, com argumento de Ferro, música de Ruy Coelho, coreografia de Francis e cenários de Carlos Botelho e Milly Possoz.


Em 1944 o S.P.N. é remodelado e passa a designar-se Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (S.N.I.), continuando a ser dirigido por António Ferro.


Em 1945 iniciam a sua actividade as Bibliotecas Ambulantes do S.N.I.


Em 1946 o S.N.I. e o Círculo Eça de Queiroz, fundado por António Ferro, promovem as comemorações do centenário do nascimento do grande romancista português.


Em 1947 o S.N.I. instala-se no Palácio Foz.


Em 1948 é inaugurada nas novas galerias do Palácio Foz a Exposição “Catorze Anos de Política do Espírito”, procedendo Ferro a um balanço da sua obra à frente do S.P.N./S.N.I. É inaugurado o Museu de Arte Popular, em Belém, e é promulgada a Lei de Protecção ao Cinema Nacional, que cria, no âmbito do S.N.I. o Fundo do Cinema e a Cinemateca Nacional, cuja direcção é entregue a Félix Ribeiro.


Em 1949, a 6 de Maio, António Ferro inaugura, conjuntamente com o 13º Salão de Arte Moderna, o Salão retrospectivo de galardoados com os prémios artísticos do S.N.I; estão presentes Mário Eloy, António Soares, Dórdio Gomes, Jorge Barradas, Sarah Afonso, Carlos Botelho, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Frederico George, Maria Keil, António Dacosta, Manuel Bentes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, António Cruz, Tom, Manuel Lapa, Álvaro de Brée, António Duarte, Martins Correia, João Fragoso, Canto da Maya, Barata Feyo, etc. São criados os Prémios de Arte Dramática para as sociedades de recreio. Realiza-se no Teatro de São Carlos o primeiro concerto do Gabinete de Estudos Musicais, que Ferro criou na Emissora Nacional, encomendando obras aos compositores de música popular e erudita.


Em 1950, ao fim de 15 anos de trabalho à frente do S.P.N./S.N.I., António Ferro solicita a Salazar um posto mais tranquilo e é nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Berna.


Em 1952/53 exerce uma acção em prol da cultura portuguesa na Suíça e prepara o livro Saudades de Mim. Escreve uma peça, que se perdeu, Eu Não Sei Dançar, cujos protagonistas deveriam ser Amália Rodrigues e João Villaret.


Em 1954 é transferido para ministro de Portugal em Roma. Publica D. Manuel II, o Desventurado.


Em 1955 escreve o livro, ainda inédito, Poemas Italianos e participa, a título particular, nos Décimos Encontros Internacionais de Genebra, dedicados ao tema “A Cultura estará em perigo?”, com Georges Duhamel, Ilya Ehrenbourg, Jean Wahl, etc. A Legação portuguesa em Roma é elevada a Embaixada e Ferro deverá apresentar novas credenciais como embaixador.


Em 1956 desloca-se a Lisboa para uma intervenção cirúrgica supostamente sem gravidade, mas morre uma semana depois, a 11 de Novembro, num quarto particular do Hospital de São José. Tinha 61 anos.


Em 1957 é publicado postumamente o livro Saudades de Mim.


Em 1958, no 25º aniversário do S.P.N./S.N.I., é descerrado

no Palácio Foz um seu busto, da autoria de Álvaro de Brée, réplica do que se encontra no Círculo Eça de Queiroz.


Em 1963 as Edições Panorama publicam a antologia António Ferro, incluindo alguns dos Poemas Italianos e excertos do seu Diário de Berna e Roma.


Em 1978 as Edições Tempo publicam uma nova edição de Salazar.


Em 1980 as edições Delraux publicam novas edições de Teoria da Indiferença e de Leviana.


Em 1984 o Teatro Primeiro Acto, de Algés, sob a direcção de Júlio de Magalhães, repõe Mar Alto (que não mais subira à cena desde a sua proibição em S. Carlos, em 1923) e organiza um ciclo de debates sobre a peça e a “Política do Espírito”, em que participam Afonso Botelho, António Braz Teixeira, António Lopes Ribeiro, António Quadros, António Rodrigues, Artur Portela, Cecília Barreira, Dórdio Guimarães, Duarte Ivo Cruz, Franco Nogueira, Jorge Borges de Macedo, Martins Correia, Natália Correia, Ruy de Matos, etc.


Em 1986, a 11 de Novembro, no 30º aniversário da sua morte, o Círculo Eça de Queiroz organiza uma sessão de homenagem a António Ferro. São oradores António Lopes Ribeiro, Domingos Mascarenhas e Luiz Forjaz Trigueiros. Intervêm também Jorge Borges de Macedo, Arnaldo Ródo e João Bigotte Chorão, a nora Paulina Roquette Ferro e o neto António Roquette Ferro, que leu uma mensagem do pai, António Quadros, ausente no Brasil em missão cultural.


Em 1987 a Editorial Verbo inicia a publicação das Obras de António Ferro, sob orientação de António Rodrigues, tendo sido publicado apenas um primeiro volume.

* * *

Esta cronologia bio-bibliográfica resumida dá uma ideia do que foi a vida e a obra de António Ferro. E permite avaliar das linhas mestras do que constituiu a sua política do espírito, uma intervenção absolutamente inovadora em Portugal pela qualidade e globalidade dos temas abordados.


Não é comum no nosso país alguém desenvolver uma intensa actividade na esfera político-cultural e ser ao mesmo tempo um criador cultural em domínios tão diversificados como António Ferro o foi. Acusam-no hoje de não ter sido um verdadeiro democrata. Talvez não o tenha sido pelo actual paradigma, mas importa não esquecer que o conceito de Democracia sofreu diversas interpretações ao longo da História, desde a antiga e precursora Atenas às democracias populares do Leste Europeu. Estaria Ferro porventura mais próximo da chamada “democracia orgânica” de Salazar do que das chamadas “democracias representativas”, que neste dealbar do século XXI são, antes de tudo, as defensoras estrénuas da teologia do dinheiro e do monoteísmo do mercado? Com certeza que sim! Mas ainda hoje se não sabe exactamente se Ferro ao trocar o S.N.I. por uma missão diplomática o fez por vontade própria, ou por vontade de Salazar, ou pela vontade de ambos. Se o fez apenas para ocupar um posto mais tranquilo ou antes por ter constatado a impossibilidade de ir mais além, como se depreende de muitos dos seus escritos, num regime autoritário que o entusiasmou mas que, mercê de circunstâncias de vária ordem, não poderia permitir-lhe a concretização final dos projectos que no íntimo sempre acalentara.


Para os interessados, referimos a seguir a lista das obras de António Ferro:


As Grandes Trágicas do Silêncio - 1917

Teoria da Indiferença – 1920

Árvore de Natal – 1920

Nós - 1921

Colette, Colette Willy, Colette – 1921

Leviana – 1921

Gabriele d’Annunzio e Eu – 1922

A Arte de Bem Morrer – 1923

A Idade do Jazz-Band – 1923

Batalha de Flores – 1923

Mar Alto – 1924

A Amadora dos Fenómenos – 1925

Viagem à Volta das Ditaduras – 1927

Praça da Concórdia – 1929

Novo Mundo, Mundo Novo – 1930

Hollywood, Capital das Imagens – 1931

Salazar – 1933

Prefácio da República Hespanhola – 1933

Homens e Multidões – 1941

Política do Espírito – 1950

D. Manuel II, o Desventurado – 1954

Saudades de Mim – 1957 (editado postumamente)

Obras de António Ferro: 1 – Intervenção Modernista (Cartas do Martinho; Teoria da Indiferença; O Elogio das Horas; Batalha de Flores; Nós; A Arte de Bem Morrer; A Idade do Jazz-Band; Uma Hora com Asas; Ilustração Portuguesa) - 1987


16 comentários:

Carlos Freitas Almeida Nunes disse...

Ferro inventou o país turístico recuperando algumas ideias desenvolvidas por Magalhães Lima através da Sociedade Propaganda de Portugal. É talvez a sua faceta menos conhecida mas uma das mais importantes.

Anónimo disse...

Grande homem, António Ferro. Parabéns ao autor do post.

Mafalda disse...

Comemorámos, no dia 17 de Agosto, 114 anos sobre o nascimento do grande Homem que foi António Ferro e alegro-me em saber que a data foi lembrada por tantos; a sua actividade não pode e não deve ser esquecida.
Também a newsletter de Agosto da Fundação António Quadros achou por bem assinalar esta data, demonstrando que a obra de António Ferro continua a constituir objecto de estudo para inúmeros investigadores.
A biografia, aqui publicada, representa uma justa homenagem a António Ferro. Parabéns ao seu autor, cujo nome gostaria de conhecer.
Mafalda Ferro

Anónimo disse...

Ferro foi o melhor ministro da cultura de Portugal. Foi também um escritor inovador e progressista. A nação deve-lhe muito.

Anónimo disse...

No actual panorama "rasca" da blogosfera portuguesa,sem dúvida este post sobressai pelo estudo e investigação que subjazem,pela magnífica iconografia,até pelo entusiasmo quiçá excessivo do autor pelo retratado. Mais,atendendo a que está por fazer uma história séria da cultura portuguesa na época do Estado Novo,os elementos pacientemente coligidos pelo autor virão certamente a servir para um futuro investigador. Ainda antes de algumas sumárias observações,insistiria na estranheza da ausência (a meu conhecimento,claro) dessa história da cultura. Curiosamente duas das principais fontes para o estudo da época salazariana,o suplemento ao "Dicionário da História de Portugal"(vols 7 a 9)coordenado por Barreto e Mónica,tal como o Dicionário de Rosas e Brito, nada,mas mesmo nada apresentam como rubrica "Cultura". Espantoso,mas verdadeiro. Verdade seja que o Dicionário de Barreto e Mónica contem uma excelente entrada intitulada "Intelectuais e Estado Novo" da responsabilidade de Rui Ramos,elaborada com informação,objectividade e equilíbrio. Poderá ser uma boa base de trabalho,mas não é obviamente a História que se desejaria. Há tambem apontamentos sobre cultura nas grandes Histórias coordenadas por Mattoso e outros,mas tudo disperso e insuficiente para a visão de conjunto que se aguarda.
Breves observações: Poderia ter assinalado,como curiosidade biográfico-política, que Ferro,não só foi ajudante militar de Filomeno da Câmara,como terá activamente conspirado na célebre "Revolta dos Fifis" em Agosto de 27 (Filomeno da Câmara e Fidelino de Figueiredo).
Ponto mais relevante: a Saída de Ferro do SNI em 50. Houvesse ou não razões pessoais, a sua linha de acção estava esgotada num regime em involução. O Portugal de 32 a 45,em traços gerais,tem um regime,melhor ou pior,"do seu tempo". A partir daí inicia-se um longo processo de anquilosamento,de rigidez,de afastamento do "seu tempo". Não vamos agora discutir se sim ou não Salazar tinha razão em mantermo-nos "orgulhosamente sós",mas Ferro tinha sido o homem da modernidade,do "mundo",do "actual" e apesar de promover as tradições populares,dificilmente se reveria na cada vez maior rigidez política e censorial dessa fase do regime.É no fim dos anos 40 que muitos escritores e artistas se afastam definitivamente do SNI,aparecem nas listas do MUD e similares. É nessa altura que falha a "política do espírito" e,diria,que falha o regime e se inicia o processo da sua decadência. O regime não tinha de copiar servilmente os modelos da Europa civilizada,mas devia ter-se adaptado,e isso não o soube fazer. O fim do Ferro do SNI marca assim o começo do fim do regime, e a sua derrota, provavelmente às mãos dos "duros",significou a inadaptabilidade irreversivel do Estado Novo. Isto tudo não é incompativel com o texto do autor do blog,nem pretende sê-lo,é outra maneira de sintetizar as coisas numa perspectiva mais política.
Tambem não sei se o autor utilizou as Memórias de Fernanda de Castro,dos livros mais "simpáticos" que conheço,e bem útil para o conhecimento da vida cultural da época. Aí se vê como os Ferros mantiveram até ao fim um convívio de grande abertura com intelectuais e artistas de todos os quadrantes,mesmo os que se tinham afastado do SNI e se opunham activamente ao regime. Ah se Ferro e mais alguem(mas quem?) tivesse prevalecido sobre os "duros"!
(Continua)

De Portugal disse...

Sendo importante e diversificada a obra de António Ferro, porque não se reedita a mesma?

Porque apenas foi publicado o I volume da sua obra completa?

São graves as lacunas da edição em Portugal, onde se publica toda a merda, passe a expressão, e não vêem a luz do dia os textos dignos de ser lidos.

Mas é este o país infeliz onde vivemos. Esperemos que mude rapidamente... e em força.

Anónimo disse...

Ainda bem que alguém nos relembra António Ferro que foi uma figura extraordinária em Portugal. É preciso reler as suas afirmações sobre a política do espírito, ver o que foi feito e o que não pôde ser e também o estado a que chegámos. E depois tirar conclusões.

Anónimo disse...

Continuando o comentário da 1.57,resta-me dizer que os limites das caixas de comentários não permitem os desenvolvimentos de ideias que certas afirmações suscitam. Em "concentrado" fico-me por assinalar a a minha discordância com as considerações do post sobre os conceitos de democracia.Há regimes democráticos e há regimes ditatoriais de esquerda ou de direita que se intitulam "democratas" para supostamente fingir que enganam o seu próprio povo ou a plateia internacional.Não se trata aqui de "conceitos de democracia" mas de mal amanhadas falsificações da palavra "democracia". É o caso dos regimes comunistas(as pseudo "democracias populares")muitas "democracias" africanas,e a nossa "democracia orgânica",que nunca enganou ninguem.
A democracia preza antes de mais o valor da Liberdade,que parece algo esquecido,liberdade individual e social.E procura,tanto quanto possivel,garanti-lo,o que não é tão óbvio como isso. Procura tambem que os poderes políticos mudem sem revoluções sanguinolentas,mas por meios certamente imperfeitos,como as eleições,mas não destrutivos do tecido social. Muito,muito,haveria mais a dizer,mas devo estar a esgotar a capacidade da "caixa". Talvez se possa prosseguir noutra ocasião.

Do Médio-Oriente e afins disse...

A propósito, e em abono, do último parágrafo do comentário do Anónimo da 1:57, quero notar que José Carlos Ary dos Santos me disse, por mais de uma vez, que sendo perseguido pela PIDE, esteve vários dias escondido em casa de Fernanda de Castro, viúva de António Ferro, mulher de rara sensibilidade e cultura, que muito o estimava e que o acolheu nesse momento difícil, num sítio onde a polícia dificilmente imaginaria que ele estivesse.

Anónimo disse...

Embora os posts tenham normalmente vida curta na blogosfera (ainda bem para a maioria e injustamente para este) venho ainda associar-me ao protesto de um comentador anterior quanto à não prossecução da edição da Obra completa pela Verbo.Parecia bem encaminhada,apesar do esquelético comentário e quase inexistente aparato crítico,mas ficou-se pelo I volume. Nunca percebi porquê. Seria esta uma boa ocasião para a Fundação de Mafalda Ferro exigir, ou da Verbo,se ainda existir(o que ignoro) ou de qualquer editora responsãvel a continuação da Obra. E porque não utilizar para essa promoção este excelente post,devidamente excisado das considerações políticas,resumida mas lucidamente rebatidas pelo comentador das 23.57,ao que o seu autor certamente não se oporia? Neste momento não vejo melhor introdução à obra e à personalidade de Ferro, e a sua difusão ajudaria a quebrar a estupidificante lacuna que é o desconhecimento dos seus textos. Aqui fica a sugestão,que espero frutifique.

Mafalda disse...

Caro anónimo
Começo por partilhar a dificuldade que sinto em conversar com um anónimo. Como saber se estamos a responder a alguém com quem já falámos porque, como calcula, há mais que um anónimo.
Durante muitos e longos anos foi tabu elogiar António Ferro. Creio que, enfim, ultrapassámos essa fase mas entendo a necessidade de reservar a sua opinião (como sua) para os seus amigos. Um pseudónimo resolveria o problema e dar-lhe-ia uma identidade própria. É só uma ideia. Pense nisso.
A bibliografia e o espólio documental de António Ferro, património da Fundação António Quadros, estão abertos à consulta e são investigados quase diariamente por historiadores e particulares, nacionais e estrangeiros. A dificuldade de adquirir a sua obra impressa é expressa por todos eles por isso já reuni com um editor a fim de estudar a possibilidade de concretizar a publicação da obra completa de António Ferro mas, obrigada pela ideia, guardarei os vossos comentários para fundamentar a importância do projecto.
É com imenso orgulho e alegria que, depois de tantos anos de silêncio, me apercebo através das suas palavras e das de todos os admiradores da obra de António Ferro que, António Ferro ocupa em termos históricos o lugar que merece. Obrigada por lhe fazerem justiça.
Mafalda Ferro

Do Médio-Oriente e afins disse...

A Obra Completa de António Ferro, na Verbo, estava a ser publicada sob a orientação do meu amigo António Rodrigues, crítico de arte e professor de História da Arte na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, recente e prematuramente falecido com 50 anos.

Não foi contudo a sua morte, agora ocorrida, que motivou a suspensão da publicação da Obra, já que o I e único volume saiu em 1987. Outras razões terão motivado essa decisão.

Por isso, congratulo-me com o que acima escreveu Mafalda Ferro, quanto a uma reedição da obra completa, a fim de dar ao público português, que o desconhece, como aliás desconhece, hoje, a maior parte das coisas da cultura, um pensamento e uma estética que marcaram, goste-se ou não, os meados do século passado.

Anónimo disse...

Tambem me regozijo com as notícias de Mafalda Ferro sobre o projecto de edição das Obras Completas. Esperemos que melhor apresentadas,comentadas e criticamente analisadas do que o volume da Verbo que,pese embora à amizade do autor do blogue pelo coordenador,que respeito,é pobrezinho apesar das boas intenções.
Tem ainda razão a Mafalda Ferro quanto aos anonimatos,frequentemente de mau cariz. Julgo não ser o caso,e os meus leitores costumam reconhecer-me pelo estilo. No meu caso,é apenas um desejo de neutralidade no contexto blogosférico,ou seja que liguem mais ao que digo do que a quem sou. Bom trabalho!

Anónimo disse...

Será que alguém me pode indicar o nome de quem assina este texto?

Anónimo disse...

Será que alguém me pode indicar o nome de quem assina este texto?

Do Médio-Oriente e afins disse...

Para o Anónimo das 12:48, de 22/03/2010:

Queira fazer o favor de indicar concretamente o que pretende; a responsabilidade do texto é globalmente do blogue.