domingo, 2 de fevereiro de 2014

MICHEL FOUCAULT, TRINTA ANOS DEPOIS




Passados trinta anos sobre a morte de Michel Foucault, o "Magazine Littéraire" deste mês de Fevereiro (nº 540) dedica o seu dossier ao autor de L'Archéologie du savoir.

A obra de Foucault e o seu magistério continuam a ser uma referência do pensamento universal, estando traduzido em todo o  mundo. Deve salientar-se o facto de as suas lições no Collège de France terem começado a ser publicadas após a sua morte, encontrando-se hoje a edição praticamente concluída. Diga-se também que, para além dos livros notáveis que escreveu, estas lições clarificam e acrescentam valia aos seus textos. Por outro lado, a Bibliothèque National de France adquiriu recentemente os riquíssimos arquivos inéditos do filósofo, pelo que é de esperar importantes revelações num futuro próximo.

Referimo-nos a Foucault neste blogue, nomeadamente aqui, aqui e aqui. Nascido em 1926 e falecido em 1984, vítima de sida, não chegou a concluir o último volume da sua Histoire de la sexualité (Les Aveux de la chair). Esperamos que a obra, inacabada, venha a ser agora editada, pois consta necessariamente do seu espólio. Os estudos que efectuou sobre o género subverteram todas as concepções vigentes e as suas análises sobre a loucura e sobre o colonialismo acabaram por influenciar decisivamente os poderes públicos. Foi o que se costuma chamar um intelectual engagé.

Leia-se, pois, e releia-se Michel Foucault.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

QUESTÕES DE FAMÍLIA



A família Malatesta, que governou Rimini de 1295 a 1500, além de outras cidades italianas, foi o tema de uma peça de teatro de Gabriele D'Annunzio, Francesca Da Rimini, baseada em factos históricos. Aliás, já Dante, n'A Divina Comédia, no Segundo Círculo do "Inferno", evocara o conflito entre os irmãos (Giovanni, Paolo e Malatestino) que, no século XIII, conduziu ao crime perpetrado por Giovanni. Também Sigismondo Malatesta, um dos mais notáveis membros da família, foi tema de uma peça de Montherlant, Malatesta, cuja acção decorre no século XV.



Baseando-se na peça de D'Annunzio, o grande escritor italiano, homem de refinado bom gosto e autor de extensa obra (que António Ferro entrevistou em Fiume), Tito Ricordi escreveu o libretto que suporta a ópera de Zandonai, Francesca Da Rimini, estreada em 1914, no Teatro Regio, de Turim.


O argumento, que não reproduz exactamente os acontecimentos, resume-se em poucas palavras. A jovem Francesca Da Polenta, filha de Guido I Da Polenta, senhor de Ravenna desposa Giovanni Da Rimini,  (dito Gianciotto , o Coxo), filho de Malatesta Da Verucchio, senhor de Rimini. Tomba, porém, amorosa do cunhado Paolo (dito, il bello). O mais novo dos irmãos, Malatestino, apercebe-se do idílio e tenta obter os favores da cunhada. Como esta se recusa, denuncia ao irmão, Gianciotto, a ligação de Paolo e Francesca. Tal amor, quase incestuoso, só poderia ter um desenlace. Surpreendendo Paolo e Francesca em flagrante delito passional, Gianciotto mata ambos. Claro que, na visão de Dante, teriam de figurar no círculo luxurioso do "Inferno".


Armas da Casa de Malatesta

A ópera  de Riccardo Zandonai conheceu grande sucesso aquando da estreia mas depois quase caiu no esquecimento. Na segunda metade do século passado regressou aos palcos, destacando-se as interpretações de Leyla Gencer, Magda Olivero, Raina Kabaivanska, Renata Scotto, Mara Zampieri e Elena Filipova. O clip que se reproduz é relativo à produção do Festival de Ópera de Macerata, na arena do Sferisterio, a mais recente edição vídeo. A direcção musical é de Maurizio Barbacini e a encenação de Massimo Gasparon. São intérpretes Daniela Dessì, em Francesca, Fabio Armiliato, em Paolo e Alberto Mastromarino em Gianciotto.

Francesca Da Rimini, de Gabriele D'Annunzio

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

JEAN GENET: O CAMINHO DO FIM





Foi publicado em Casablanca, pelas Tarik Éditions (em parceria com a editora Paris Méditerranée), em Dezembro de 2001, um interessante livro de Souad Guennoun: L'ultime parcours de Jean Genet.

Não o tendo adquirido na ocasião, rapidamente se esgotou, e desde há anos que tentava obtê-lo. Consegui, finalmente, comprá-lo, usado mas em muito bom estado, através da internet e não estou arrependido do preço que paguei.

Trata-se de um álbum de fotografias, efectuadas pelo autor, que ilustram os depoimentos de pessoas ainda vivas em 2001 e que conheceram ou privaram com Genet em Marrocos. Recorde-se que este se instalou pela primeira vez no país, onde aliás já tinha estado, em 1968 (ocasião em que conheceu Mohamed Choukri)  e que passou a visitá-lo frequentemente até à sua morte em 1986. E foi em Marrocos, em Larache, que por sua vontade foi enterrado, tendo o caixão sido despachado de Paris com a indicação de "trabalhador migrante".

Neste breve livro, Souad Guennoun percorre os passos de Genet em Marrocos nos últimos anos da sua vida. Em Tânger, entrevista o escritor Mohamed Choukri, Rachel Muyal, proprietária da Librairie des Colonnes e o engraxador Ayachi; em Rabat, recolhe depoimentos de Abdallah El Alioui e de Zohor Chergui, recepcionista e criada de quarto do Hôtel d'Orsay, de Amina El Katrani, mãe de Azzedine (filho de Mohamed El Katrani, o último amante oficial de Genet), do arquitecto Patrice de Mazières e de sua mulher Pauline, de Anis Balafrej (amigo de Genet), da dentista Jacqueline Fontaine, da charcutista Marie-Claude Giguet e do escritor Mohamed Berrada (marido de Layla Shahid, que foi delegada-geral da Palestina em França); em Casablanca, encontra Kamal Lahbib, proprietário da Librairie Al-Karama, Sion Assidoun, antigo preso político, Elias Sanbar, escritor palestiniano e Marilu Marini, actriz argentina; em Larache conversa com Mohamed Abid, professor primário, Mohamed Jabelhaj (um conhecido de Genet), Ahmed El Katrani (irmão de Mohamed) e Mohamed Cherki (proprietário de um quiosque); finalmente, em Paris, entrevista o piloto de automóveis Jacky Maglia (filho espiritual de Genet, de quem também foi amante).

Pelo livro, perpassam ainda as imagens da sua confidente, a citada Layla Shahid, do já referido Mohamed El Katrani (amante de Genet) e de outros amantes árabes, Abdallah Bentaga (o funâmbulo) e Ahmed Lahoussine (amigo do Bentaga).

Os conhecedores da vida e da obra de Jean Genet dispensar-me-ão de considerações sobre as mesmas. Este texto pretende apenas referir os testemunhos que Guennoun ainda conseguiu obter em 2001 e que completarão as biografias de Genet, entre as quais se destaca, por ser a principal, a de Edmund White.

A leitura do livro permite também confirmar (se tal fosse necessário) a atracção de Genet pelos árabes, especialmente pelos palestinianos e pelos norte-africanos.

A benefício de inventário, aqui fica a recensão da obra.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O ANÚNCIO FEITO A MARCELO




O título do post nada tem a ver com a peça de Claudel. É pura coincidência, se coincidências existem.

Ao anunciar o perfil desejado pelo PSD para futuro presidente da República, na sua moção de estratégia ao Congresso do partido, o primeiro-ministro Passos Coelho, enumerando as características pretendidas, excluiu ab initio uma candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.

Sendo público o desejo de Marcelo de concorrer à eleição presidencial, declarou este, todavia, no comentário do passado domingo na TVI, a sua desistência de se apresentar ao escrutínio nacional.

Por muito ineptos que Passos Coelho e a sua entourage possam ser, não é crível que não tenham intuído o disparate gratuito que tal enunciação de perfil, por demais desnecessária neste momento, constituiu, sabendo-se que Marcelo Rebelo de Sousa, apesar da sua evidente inconstância, desfruta de alguma popularidade e que, segundo as sondagens, seria o único potencial candidato da "direita" capaz de vencer um candidato da "esquerda".

Importa, por isso, encontrar uma explicação convincente para este exercício aparentemente desastroso. Sendo que um candidato da "esquerda", maxime António Costa, parece ter garantida a sua eleição caso concorra, carece a "direita" de uma vitimização para tentar obter ganhos de causa.

Considerando que Passos Coelho é, desde sempre, o chefe de Governo da República mais odiado pela maioria da população do país, muito mais do que Salazar, mais ainda do que Afonso Costa, é evidente que a exclusão que fez de uma candidatura de Marcelo só pode granjear ao professor simpatias que não reuniria antes deste episódio. Assim, tem-se por certo que Marcelo concorrerá às eleições presidenciais e que muita gente do "centro" poderá votar no seu nome exclusivamente por aversão a Passos Coelho, o que permitiria instalar em Belém um presidente "não de esquerda" à falta de um presidente da "direita ultra-liberal", como Durão Barroso, cuja eventual candidatura afastaria, como se calcula, os eleitores do "centro" e da "esquerda" e até de alguma "direita".

Estaremos, pois, perante uma jogada de antecipação, uma manobra política que, contudo, não se afigura susceptível de render votos ao "actual" PSD, demasiadamente empenhado na aplicação de medidas que decorrem mais da imposição de um programa marcadamente ideológico do que da necessidade de diminuir o défice e a dívida.

Porque ainda faltam dois anos para as eleições presidenciais de 2016, muita água correrá sob as pontes.

Como na peça de Claudel, cuja leitura se recomenda, também há nesta intriga doméstica e provinciana os indispensáveis ingredientes dramáticos: a cruzada (do monoteísmo de mercado), o repúdio (de Marcelo), a traição (de Passos), a lepra (das medidas de austeridade), a perversidade (de Barroso), a inocência (dos portugueses que votaram no PSD) e o mistério da anunciação (que se revelará no fim).

Quem viver, verá.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CRISTIANO RONALDO: A CONDECORAÇÃO




Decorreu hoje no Palácio de Belém a cerimónia da condecoração de Cristiano Ronaldo com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, com que fora agraciado pelo presidente da República.

Estiveram presentes ao acto diversas personalidades nacionais e espanholas, que quiseram testemunhar o seu apreço pelo jogador português do Real Madrid.

Sem dúvida que Cristiano Ronaldo é o português vivo, e mesmo o português tout court, mais conhecido em todo o mundo. As suas exibições justificam a distinção.

Felicidades, CR7.

CLAUDIO ABBADO




O maestro italiano Claudio Abbado, um dos mais notáveis regentes de orquestra das últimas décadas, morreu hoje em Bolonha, com 80 anos de idade.

Durante a sua extraordinária carreira musical, Abbado dirigiu as principais orquestras do mundo. De 1968 a 1986 foi director musical do Teatro alla Scala, de Milão. Dirigiu a Staatsoper, de Viena, de 1986 a 1991, tendo sido eleito director da Berliner Philharmoniker em 1989, lugar onde sucedeu a Herbert von Karajan, e que abandonou em 2002, por lhe ter sido diagnosticado um cancro.

Regressou aos palcos em 2004, após tratamento, e manteve-se em actividade até data recente.

A sua biografia ilustra um percurso excepcional ao longo da segunda metade do século XX. As suas interpretações, quer na música sinfónica, quer na ópera, apaixonaram o público e delas são testemunho os numerosos discos que gravou, ao vivo ou em estúdio.

A morte de Claudio Abbado empobrece a cena musical mundial.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O REFERENDO




Ocorreu na passada sexta-feira, dia 17, na Assembleia da República, a aprovação da realização de um referendo sobre a co-adopção por casais do mesmo sexo. As peripécias que envolveram esta decisão do PSD e as circunstâncias em que ocorreu a votação por todos são suficientemente conhecidas para me dispensar de as evocar.

O que se verificou no Parlamento envergonha a Nação, que elegeu deputados que se prestaram a esta farsa sem qualidade (aliás, não haverá referendo, porque os termos em que foi proposto carecem de constitucionalidade) e desacredita este PSD de Passos Coelho e uns tantos, mais ainda do que ele já estava nesta data.

Permito-me transcrever do blogue "Da Literatura" dois textos publicados hoje, um de Pedro Marques Lopes, no "Diário de Notícias" e o outro de Pedro Santos Guerreiro, no "Expresso":


Pedro Marques Lopes, Uma vergonha sem nome, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«Primeiro o mais importante: na sexta-feira, em pleno Parlamento, assistiu-se a mais uma vitória de quem acha que se deve negar uma família a muitas crianças. Uma vitória dos que estavam revoltados pelo facto de haver crianças que finalmente viam a possibilidade de ter como pai ou mãe, de pleno direito, aqueles que o são de facto. [...]

Tudo isto aconteceu sob o alto patrocínio do primeiro-ministro e com a fundamental e imprescindível colaboração de uns senhores e de umas senhoras que não só partilham dos “valores” acima referidos, como quiseram fazer parte de um acontecimento que envergonha a história do PSD, achincalha o mandato que lhes foi conferido pelo povo e insulta a Assembleia da República e a democracia representativa.

Os deputados do PSD, que viabilizaram a lei da coadoção, passados alguns meses de a terem aprovado vêm apoiar um referendo sobre o tema. Não estavam no seu estado normal? Pensaram durante seis meses, debateram o projeto no grupo de trabalho e só agora se lembraram de um referendo? E mesmo os que votaram contra, será que gostaram de ver as deliberações da Assembleia desrespeitadas? E que dizer de um partido que dá liberdade de voto para a lei e impõe a disciplina de voto para o referendo dessa mesma lei? [...]

Perguntarão os portugueses: para que é que elegemos representantes se eles se demitem de decidir, e quando decidem o primeiro-ministro desrespeita o Parlamento e trata os deputados como moços de recados? Sim, está em causa o primeiro-ministro. Ninguém acredita que um indivíduo que esteve numa comissão durante seis meses se tenha lembrado de um referendo meia dúzia de dias antes da votação final. Nem que um projeto da JSD tenha tido um rigor tão apertado a forçar a disciplina de voto.»
 Pedro Santos Guerreiro, certeiro como um bisturi: Os neoliberais são ultraconservadores, ontem no Expresso. Excertos, sublinhados meus.

«Na verdade, não são neo nem são ultra. São de espécie anfíbia [...] O referendo foi feito para nem se fazer. Não há tempo, não há dinheiro, não há perguntas e não há pachorra. O Presidente da República poderá arquivar a intenção. Fará bem. O que não se arquiva é a manha institucional. PSD e CDS não querem a coadoção. Inventaram um expediente. A JSD serviu de barriga de aluguer, o PSD adotou e o CDS coadotou uma construção política de destruição legislativa. Quem quis? Quem impôs? Quem disciplinou? As “bases”.

As bases. As bases não são o povo, são os eleitores dentro dos partidos. [...] Foram elas, as bases, que impuseram este desfecho que envergonha até deputados que ontem cumpriram a religião continente de votar como lhes mandam. A demissão de Teresa Leal Coelho não basta para ser indignação, mas chega para ser dignidade. Que dizer dos deputados que votaram contra a sua consciência? [...] A objeção ou é um exercício ou não é objeção, é plasticina. A disciplina de voto pode fazer sentido, mas não neste caso. Mas serve de capote para acomodar a cobardia política sentada no Parlamento. A disciplina de voto tornou-se a disciplina de veto. Veto à própria Assembleia, que aprovara o processo legislativo, precisamente porque então houvera liberdade de voto. Ontem não houve liberdade. Escreveu-se torto por linhas tortas. Foi tudo triste. Tudo triste.

Mais importante do que o Direito são os direitos. Mais importante do que o golpe do referendo é a lei da coadoção. [...] Mais tarde ou mais cedo, esse é o curso imparável das coisas, a coadoção será legalizada. Já há crianças entregues a casais do mesmo sexo por decisão de juízes. [...]»

 SOMOS GOVERNADOS POR GENTE INDIGNA, É UM FACTO!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PATRIARCA MAS (AINDA) NÃO CARDEAL




Segundo informa a Santa Sé, o Papa reunirá um Consistório no próximo mês de Fevereiro, onde anunciará oficialmente a criação de novos cardeais. A lista dos futuros purpurados não inclui, ao que parece,  o actual Patriarca de Lisboa (D. Manuel Clemente), tradicionalmente elevado à dignidade no primeiro consistório realizado após a sua nomeação (que teve lugar em 2013).

A arquidiocese de Lisboa foi elevada a patriarcado em 1716, pelo papa Clemente XI, no reinado de D. João V e, desde então, o respectivo patriarca tem sido sempre designado cardeal, como se escreve acima.

Existem hoje três cardeais portugueses: D. José da Cruz Policarpo (n. 1936), Patriarca Emérito de Lisboa, D. José Saraiva Martins (n. 1932), Prefeito Emérito da Congregação para as Causas dos Santos e D. Manuel Monteiro de Castro (n. 1938), Penitenciário-Mor Emérito do Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica.

Na hipótese de ocorrer um conclave este ano, só teriam direito a voto, por terem menos de 80 anos, D. José da Cruz Policarpo e D. Manuel Monteiro de Castro.

Com a distribuição geográfica dos novos cardeais, a Europa, que durante séculos teve a quase exclusividade de representação no Sacro Colégio, fica definitivamente diminuída no que se refere à eleição do próximo papa.