sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O LIVRO DOS DIAS

O grande escritor Taha Hussein (1889-1973)  é considerado o pai da moderna literatura egípcia. Tendo contraído uma oftalmia aos dois anos, que foi inadequadamente tratada, acabou por cegar por volta dos três ou quatro anos de idade.

Natural de uma aldeia do Alto Egipto, na região de Mynia, desde muito cedo manifestou a sua vocação para as letras. Como muitas crianças da época, aprendeu o Corão, conseguindo decorá-lo aos nove anos, o que lhe granjeou a admiração dos seus conterrâneos. Tendo frequentado inicialmente a escola corânica da vila, ingressou mais tarde na célebre Universidade de Al-Azhar, no Cairo, onde se doutorou em 1914.

O seu livro Os Dias (الأيام - Al-Ayam), publicado entre 1926 e 1967, é um romance autobiográfico em que consagra alguns dos momentos mais importantes da sua infância, dos seus estudos no Egipto e depois em França.

A presente edição Le Livre des Jours (1947) foi prefaciado por André Gide, que conviveu com Taha Hussein no Cairo. 

Nesta obra, Taha Hussein recorda as suas idas à escola, a sua aversão ao mestre (Sayedna), a sua aprendizagem do Corão, uma inclinação juvenil para o misticismo e a magia, que partilha com um colega. «On lisait à notre ami des passages de tous ces livres et il en retint beaucoup. Mais il s'appliqua particulièrement à deux choses: la magie et la mystique. L'union dans son esprit de ces deux genres de sciences n'avait rien de bien étonnant ni de malaisé, car la contradiction qui apparaît entre elles n'est en réalité que formelle. Est-ce que le mystique ne prétend pas, pour lui-même ou pour les autres, déchirer le voile de l'inconaissable et pénétrer le mystère du passé aussi bien que de l'avenir, de même qu'il s'affranchit de la servitude des lois naturelles et réalisé toutes sortes de prodiges et de miracles? Mais le magicien, que fait-il donc de si différent? Ne prétend-il pas s'adjuger à lui-même le pouvoir de déchiffrer l'invisible, de dépasser les limites des lois naturelles, lui aussi? et d'entrer en rapport avec le monde des esprits? Alors, toute la différence entre le magicien et le mystique ne réside que dans leurs relations: le second avec les anges, le premier avec les démons. Mais il faut lire Ibn Khaldoun, ou des écrivains aussi difficiles, pour arriver à réaliser cette différence, et à en déduire les conséquences naturelles qui prohibent la magie et en inspirent l'horreur, tandis qu'elles font aimer la mystique.» (p. 79)

O autor faz também referência às três das quatro escolas jurídicas do islão sunita com presença significativa no Egipto: a Hanafita, a Malikita e a Shafi'ita. E interessa-se especialmente pelas confrarias místicas. E também pelos "djinns", seres sobrenaturais associados ao bem ou ao mal. «Et ainsi de suite, jusqu'à épuisement de la liste bien connue des objets familiers que le Prophète laissa quand il mourut. Ils ajoutaient alors une autre prière qui commençait par des mots que ces lettrés déclaraient être du syriaque: "Dunbud, danbi, kara karandi, sara sarandi, sabar sabarbatûna: emprisonnez le djinn qui est loin, qu'il ne vienne pas, et celui qui est près, qu'il ne puisse nous faire du mal." Puis, ils pliaient ces morceaux pour en faire des amulettes et des talismans qu'ils allaient distribuer dans les maisons, aux femmes et aux enfants, en échange de menue monnaie, ou de pain, de "fitîr" et de diverses sucreries. Ils assuraient aux gens qu'en portant ces amulettes ils repoussaient la malignité des démons qui transportent les vents du Khamsîn. Les femmes prenaient ces talismans avec une entière confiance. Mais cela ne les empêchaient pas de se garantir contre les " 'afrit" quand soufflait le vent, en coupant des oignons pour les suspendre aux portes des maisons, et en mangeant des fêves germées, à l'exclusion de toute autre nourriture ce jour-là.» (p. 86)

Taha Hussein empenhou-se não só em decorar o Corão como a recitá-lo sem erros. «Une année passa tout entière à ces exercices, et l'enfant apprit parfaitement le "tagwid" selon Hafs. Il aurait sans doute abordé la lecture de Warsh, sans une série d'événements qui précédèrent de peu son départ pour le Caire.» (pp. 89-90)

[O "tagwid", correctamente "tajwid", é a ciência das regras de pronúncia para recitar o Corão, desenvolvida no século IX. Hafs ibn Sulayman (706–796), natural de Kufa, foi o mestre que estabeleceu o método "standard" da recitação. Warsh, de seu verdadeiro nome Uthman ibn Said al-Qurashi al-Misri (728–812) é o autor de uma das principais e mais tradicionais transmissões de recitação e leitura do texto sagrado islâmico.]

Os acontecimentos que perturbaram Taha Hussein foram a morte de uma irmã mais nova a logo a seguir, por ocasião de uma grande epidemia de cólera no Egipto, a morte de um irmão mais velho (com 18 anos) em 21 de Agosto de 1902. O rapaz tinha-se inscrito na Escola de Medicina do Cairo, para onde se preparava partir no fim do Verão, e já durante o liceu acompanhava regularmente o médico da vila nas suas visitas aos pacientes, para se exercitar na profissão. A morte do irmão, de quem muito gostava, constituiu para Taha um profundo choque .

A Primeira Parte do Livro conclui-se com a sua partida para Al-Azhar, aos 13 anos, para estudar na célebre universidade, o direito religioso, a gramática e a retórica. 

A Segunda Parte abrange a sua permanência na universidade. O autor fica instalado no Cairo num quarto alugado numa casa perto de Al-Azhar, que compartilha com um irmão mais velho que também frequenta a universidade. Taha Hussein dá-nos conta da sua vida quotidiana, das suas alegrias e desgostos, dos seus medos e ansiedades, dos seus sentimentos e pressentimentos, enfim, do drama interior da sua vida afastado do convívio familiar. Nas deslocações de ida e volta para a universidade, Taha é conduzido por um companheiro (o livro não refere pormenores), dada a sua condição de invisual. Contactando com o mundo exterior através do ouvido, do tacto, do olfacto, o autor revela-nos o peso da cegueira e a solidão a que se encontra confinado. Mesmo assim, não deixa de registar as impressões das aulas, dos companheiros, dos mestres, dos vizinhos. Uma referência especial ao curso do Grande Imam da Mesquita, o Sheikh Muhammad 'Abduh (1849-1905), que foi também Grande Mufti do Egipto e professor da Dar al-Ulûm. Foi ainda franco-maçon e membro da Dar al-Ifta al-Misriyyah, a mais alta instância egípcia de conselho para as questões jurídicas islâmicas. Durante alguns dias da semana ele comentava o Corão, e nos outros dias explicava o Dalaail ul-'Idjaz, do sheikh persa Abdul Qahir Jurjani (século XI).

O autor não poupa críticas e zombarias relativamente aos mestres e aos colegas e ao próprio ensino na Universidade. 

As condições de alojamento no Cairo são difíceis, especialmente para os estudantes. No segundo andar do prédio onde vive com o irmão os quartos estão sobrepovoados. «L'immeuble était vraiment plein à craquer. Les chambres étaient surchargées d'étudiants d'une façon extraordinaire: dans une d'elles n'y en avait-il pas vingt?  Comment pouvait-ils s'asseoir?  Comment travaillaient-ils? Comment dormaient-ils? Autant de questions que se posait l'enfant et qui restaient sans réponse. Ce qu'il savait, c'est qu'une chambre ne se louait pas plus de vingt-cinq piastres par mois, quelquefois vingt: on voit donc qu'un étudiant pouvait ne dépenser qu'une piastre de loyer par mois environ.» (pp. 174-175) 

[Não duvidando da pureza de sentimentos dos jovens estudantes não posso deixar de pensar que dormindo vinte rapazes num quarto seria difícil evitar entre alguns (ou mesmo entre todos) certas intimidades próprias da idade.]

Um incidente marcou o jovem por longo tempo. Quando chegou o momento de comparecer perante o júri para oficializar o seu ingresso na universidade, o professor dirigiu-se-lhe assim: "Agora é a tua vez, cego", um tratamento indigno de um sheikh de Al-Azhar. E o interrogatório da matéria, que ele tinha estudado devidamente, foi incrivelmente escasso em relação aos outros alunos, porventura porque o professor entendesse que um cego pouco saberia.

A certa altura, chega ao Cairo um primo, seu companheiro de infância na vila e que vai estudar também na universidade. É um momento de grande alegria para Taha, que passava os dias sozinho em casa, fora as idas à universidade e à mesquita, já que o irmão mais velho mantinha a sua vida própria. 

No final do ano lectivo os dois rapazes regressam à terra, mas Taha supunha que o aguardava uma grande recepção da família (como acontecia sempre com o irmão mais velho) mas tal não aconteceu. É que o irmão mais velho já era tratado por sheikh, sendo-lhe devidas honras especiais. Mantém grandes mas amigáveis discussões com o pai sobre uma obra que este estava a ler e que Taha considerava uma tontice. E pergunta-lhe se é isso que ele aprende em Al-Azhar. E o filho responde: "Parfaitement, j'y ai appris que la plupart des assertions de cet ouvrage sont impies et font plus de mal que de bien. L'homme ne doit pas rechercher l'intercession des prophètes et des saints, et croire que des intermédiaires sont possibles entre Dieu et les humains: c'est du paganisme!" (pp. 214-215)

[Como na religião cristã existem os santos e os bem-aventurados também em muitas terras do islão se evocam (e invocam) homens de grande piedade e saber, especialmente no norte e centro de África, os marabus. Só que o seu culto é tolerado mas não oficializado, como acontece no cristianismo.]

Ao longo da obra, o autor repete várias vezes a máxima islâmica: "Pertencemos a Deus e é a Ele que regressamos.

Note-se, por curiosidade, que o livro, que é autobiográfico, está escrito quer na primeira, quer na terceira pessoa do singular, por opção que desconhecemos.

É evidente que o convívio masculino suscita sempre amizades particulares, especialmente em estabelecimentos de ensino e numa sociedade em que às mulheres estava reservado (e ainda está hoje, embora em muito menor grau) um lugar separado dos homens na vida pública. Assim, sobre os professores, o autor escreve: «Ces bouts d'entretiens ne lui donnèrent pas une excellente opinion des uns et des autres; au contraire, avec le temps, il se fit d'eux une idée de plus en plus médiocre. En effet, s'il eut souvent l'occasion d'entendre vanter la remarquable intelligence de certains professeurs, quelle fût leur notoriété, on signalait aussi, pour les uns comme pour les autres, toutes sortes de défauts, tenant à leur caractère, à leurs moeurs, ou même à leur compétence. Au total, il ressentait une singulière impression de colère, de mépris et aussi de désespérance.

Car aucun n'était exempt de ces tares. Tel cheikh enviait ses collègues, leur jouait de vilains tours et semait des embûches sur leur route: il les accueillait avec son plus gracieux sourire et, dès qu'ils avaient le dos tourné, s'exprimait sur leur compte en termes déplorables et les déchirait sans pitié. Les sentiments religieux de tel autre étaient tièdes, bien qu'il manifestât une grande dévotion à l'intérieur d'el Azhar ou devant ses confrères, mais abandonné à lui-même et à ses mauvais génies, il se livrait aux vices les plus abjects.

Les médisants donnaient des noms à ces démons, qui se rendaient complices de ces péchés. Les anciens étudiants montraient du doigt ce cheikh qui s'intéressait spécialement à tel adolescent, lui lançait des regards et ne pouvait plus tenir en place dans sa chaire dès que le jeune homme était dans son auditoire.

La médisance et la calomnie étaient donc très répandues, plus navrantes d'ailleurs que les vices qu'elles dévoilaient. Les étudiants racontaient  des histoires de favoritisme dues à l'intervention de tel professeur en faveur de son petit ami auprès du recteur ou du grand mufti. On disait que le premier prêtait obligeamment l'oreille aux dénonciations calomnieuses, mais que le second ne voulait rien entendre et les accueillait par d'amers reproches articulés sans ménagement.» (pp. 221-222)

Com o correr do tempo, Taha Hussein foi-se desinteressando dos métodos de ensino de Al-Azhar e tornou-se progressivamente mais crítico dos seus professores. Por outro lado, a literatura começara a seduzi-lo. Passou a frequentar as aulas de sheiks que eram versados nas letras profanas e começou a ler romances.

Finalmente, regressou a casa, embora sem o diploma oficial de Al-Azhar. Mas ansiava regressar ao Cairo. É verdade que a cegueira limitava muito as deslocações do rapaz, mas o pai contratou um jovem negro como criado, com a missão de o acompanhar. Em 21 de Dezembro de 1908 foi inaugurada no Cairo a Universidade Egípcia e Taha apressou-se a inscrever-se, embora continuasse a frequentar Al-Azhar. 

É neste período que o livro se conclui. 

 * * * * *

Importa referir que Os Dias é composto por três partes. publicadas entre 1926 e 1967.

A Primeira Parte foi publicada na revista literária Al-Hilal entre 1926 e 1927, e em livro em 1929.

A Segunda Parte foi publicada em livro em 1940.

A Terceira Parte foi publicada na revista Akher Saa em 1955, e em livro em 1967. 

A edição francesa que aqui comentamos foi publicada em 1947 e inclui apenas a Primeira e a Segunda Parte. 

A Terceira Parte refere-se à sua permanência na Universidade Egípcia (hoje Universidade do Cairo), ao seu doutoramento na Universidade Al-Azhar, com uma tese sobre Abu al-'Alâ al-Ma'arri (1914), aos seus estudos em França, nas universidades de Montpellier e da Sorbonne, onde obteve o doutoramento com uma tese sobre Ibn Khaldun (1918), e ao seu regresso ao Egipto, onde exerceu altas funções como professor da Universidade do Cairo, reitor da Universidade de Alexandria e ministro da Educação. E publicou mais de 60 livros.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NINGUÉM DORME EM ALEXANDRIA

Comprei em 2002, e só agora tive oportunidade de ler, Personne ne dort à Alexandrie (2001), de Ibrahim Abdel-Méguid (n. 1946), tradução francesa do original árabe egípcio  لا أحد ينام في الإسكندرية [La Ahad yanam fil Iskandariya], publicado em 1996.

O autor é um dos grandes escritores egípcios contemporâneos, tendo recebido em 1996 o Prémio Naguib Mahfuz pelo seu livro L'Autre pays, editado em francês em 1994 e no original árabe em 1991.

A presente obra conta a história de um homem do meio rural egípcio (muçulmano muito piedoso que decorou o Corão e que por isso foi então isentado do serviço militar, como era habitual), que tendo sido expulso da sua aldeia pelo chefe da mesma, por razões familiares, emigra para Alexandria com a mulher e uma filha, ainda criança. 

Não cabe aqui desenvolver o enredo que se desenrola ao longo das mais de 400 páginas do livro. Importa todavia assinalar que o volume da obra se deve em parte à minuciosa descrição de paisagens, situações, sentimentos a que Abdel-Méguid procede, por vezes de forma exagerada e até repetitiva.

A estória situa-se no tempo da Segunda Guerra Mundial, pois Magdeddine, o protagonista, chega a Alexandria exactamente no início desta guerra, que provocou imensas destruições na cidade, e o livro conclui-se por ocasião da batalha de El-Alamein.

A obra descreve as relações entre muçulmanos e coptas, até porque Magdeddine fica instalado numa dependência de uma casa de uma família copta, aproveitando o autor a oportunidade de proceder à descrição de muitas práticas de ambas as religiões. Uma das questões especialmente abordadas é o casamento entre pessoas de religiões diferentes, na altura muito problemático. 

Abdel-Méguid vai registando, cronologicamente, os principais acontecimentos na cidade, no país e no mundo durante a Guerra. Presumo que tenha consultado diligentemente os jornais da época, até porque procede à descrição não só dos factos militares ocorridos durante o conflito como também daquilo que poderíamos considerar a actividade mundana. Por força da ocupação britânica do Egipto, os egípcios tendem inicialmente a apoiar as forças do Eixo, na esperança da Alemanha os livrar dos britânicos e também porque, devido aos britânicos, Alexandria se ter tornado um lugar particularmente vulnerável. Para eles, Rommel começa por ser um herói, evocado como a Raposa do Deserto. Alexandria presencia, durante esses anos, a passagem de dezenas de milhares de soldados vindos da Índia, da Austrália, da Nova Zelândia, do Sudão, etc. que o exército britânico incorporava nas suas fileiras para combaterem as tropas do Eixo.  Houve também uma grande indignação em Alexandria quando Churchill pediu para se inundar todo o Delta, no caso de Rommel conseguir avançar sobre o Egipto, o que felizmente não aconteceu. 

A leitura do livro teve para mim um interesse particular, dado que ao longo da obra são mencionados inúmeros lugares de Alexandria, cidade que muitas vezes percorri e onde fiz investigações. Essa circunstância permitiu-me recordar tempos idos. A Alexandria que eu conheci (nas últimas décadas do século passado e na primeira deste século) já não era exactamente a mesma do tempo da Segunda Guerra Mundial, e hoje será já certamente diferente, dada a velocidade com que tudo se modifica. Mas ainda se encontram vestígios de tempos passados, principalmente do período ptolemaico.

 Por razões de natureza diversa, Alexandria continua a ser uma das minhas cidades preferidas.  

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O EGIPTO NA "BELLE ÉPOQUE"

Acabei de ler Egypt's Belle Epoque (1989/2006) de Trevor Mostyn, que adquirira em 2009. Trata-se de um livro sobre a vida no Egipto, especialmente no Cairo, desde a invasão de Bonaparte até aos nossos dias, mas ocupando-se primordialmente do tempo da cidade durante a governação do khediva Ismaïl e seus descendentes.

A obra ocupa-se da História, certamente, mas sobretudo das histórias, donde o seu rigor ser bastante discutível. Mencionarei adiante alguns erros e imprecisões do livro, para já não falar de numerosas descrições e episódios que presumo se devam mais à fantasia e imaginação do autor do que à realidade dos factos. Há também persistentes considerações sobre a família reinante, a quem se atribuem, exageradamente, os piores crimes.

Todos sabemos, com certeza, que Mehmet Ali, o primeiro wali realmente independente da Sublime Porta mas não usando ainda o título de khediva, mandou assassinar toda a elite dos mamelucos que havia governado o país durante 600 anos (primeiro oficialmente e depois oficiosamente), mandando os seus soldados (aliás um golpe arriscado) chaciná-los no fosso que rodeia o palácio da Cidadela, à saída de um banquete par o qual os havia convidado. Mas entender que a maioria dos seus descendentes foi criminosa é um exagero.

Apreciei bastante o capítulo em que se refere as várias ruas e avenidas do Cairo, que tantas vezes percorri e que me fez relembrar muitos momentos agradáveis da minha vida. 

O livro centra-se principalmente na inauguração do Canal de Suez, em 1869, e da recepção dos convidados ilustres, como o imperador Francisco José, o príncipe herdeiro da Prússia, Frederico (mais tarde Frederico III da Prússia e I da Alemanha), os príncipes da Holanda, o grão-duque Mikhail Mikhailovitch Romanov e, em especial, a imperatriz Eugénia de França, que Ismaïl recebeu com a maior pompa e que, segundo o autor, o khediva teria procurado seduzir, o que não acredito. 

Apaixonado pela França, que visitou várias vezes, tendo procurado importar para o Cairo a urbanização parisiense devida ao Barão Haussmann e que se traduziu na edificação da Baixa do Cairo (a Downtown), Ismaïl tentou imitar os franceses em tudo aquilo que pôde (e no que não podia) esgotando as finanças egípcias. Foram inúmeros os palácios que mandou construir, como o de Gezira (na ilha Gezira; em árabe egípcio 'gezira' significa ilha, em árabe oficial escreve-se 'jazira'), onde ficou hospedada a imperatriz Eugénia (e onde está hoje o Hotel Marriott), o de Qasr el-Nil (hoje o Hotel Nile-Hilton, onde almocei algumas vezes e que recentemente se passou a chamar Nile Ritz-Carlton) e donde parte a avenida Qasr el-Nil, o de Abdin (que é hoje um museu), etc. 

Também Ismaïl não poderia ficar alheio ao facto de Paris ser uma cidade célebre pelos seus espectáculos de ópera, o que era muito do agrado do khediva. Estava então em construção, por decisão de Napoleão III, a nova Ópera da cidade, o Palais Garnier. Decidiu Ismaïl construir um teatro de ópera no Cairo, que veio a ser edificado (em madeira, por uma questão de rapidez) próximo de Ezbekiyya (hoje um grande jardim, mas onde esteve situado, na época o mais elegante hotel do Cairo, o Shepheard's, que ardeu em 1952, em consequência de motins populares provocados por protestos anti-britânicos. A nova Ópera do Cairo ficou localizada em frente a uma praça, Maidan Obira (que ainda hoje existe), mas ardeu igualmente em 1971, por causas nunca devidamente esclarecidas. No lugar do edifício da Ópera existe hoje um parque de estacionamento.Tinha entendido o khediva que a Ópera deveria ser inaugurada aquando da abertura do Canal de Suez, de preferência sobre um tema egípcio, pelo que convidou Verdi a compor uma ópera. O compositor hesitou mas acabou por ceder e compôs a Aida, um dos marcos do repertório lírico mundial. O tema deve-se a Auguste Mariette, que foi o primeiro director do Museu Egípcio do Cairo (inicialmente em Bulaq), que escreveu o argumento, transformado depois em libretto por Antonio Ghislanzoni, embora uma biógrafa do compositor o atribua a Temistocle Solera. Por falta de rigor, Trevor Mostyn refere-se a Mariette (páginas 28 e 56 do livro) como Claude Mariette, director do Museu, e só em página mais adiante o chama Auguste Mariette, o seu verdadeiro nome. 

Acontece que Aida não ficou concluída a tempo da abertura do Canal de Suez e a Ópera do Cairo foi inaugurada com uma outra ópera do Mestre, o Rigoletto. Também aqui Mostyn comete outro erro, admitindo que a imperatriz Eugénia assistiu à estreia de Aida. Ela assistiu sim a uma representação do Rigoletto. Escreve Mostyn na página 72: «The jewel of Ezbekiyya was the little wooden opera house built by the Italian architects Fasciottoi and Rossi for the Canal opening. The first performance of Verdi's Aida was performed in the 'Italian Opera House', as it was known, on Christmas Eve of 1871. Tragically, the building, together with the original costumes, scenery and accessories of that incredible première, was burnt down under suspicious circumstances exactly a century later in 1971. Until that night, the visitor lucky enough to be invited backstage could see the gilded chairs, upholstered in red damask, on which the Empress Eugénie sat on the historic opening night.» Realmente, nem o Canal de Suez foi inaugurado em 1871, mas sim em 17 de Novembro de 1869, nem a imperatriz Eugénia assistiu a esta representação da Aida, pois não estava nessa altura no Cairo. Ela assistiu ao Rigoletto, em 1 de Novembro de 1869, inauguração da Ópera. Há uma grande falta de rigor em todo o livro de Trevor Mostyn.

Depois do fogo ter consumido a Ópera em 1971, o presidente Hosni Mubarak determinou a construção de um novo edifício para servir de Ópera Nacional,  que foi inaugurado em 1988. Recentemente, foi construída uma novíssima Grande Ópera do Egipto, na nova capital administrativa (a leste do Cairo, no caminho de Heliopólis), que foi inaugurada em 6 de Fevereiro de 2026.

Segundo o autor (página 68), o nome Ezbekiyya deriva do heróico Emir Ezbek, general do Sultão Qaït Bey (1468-1496). Na zona, existiu uma mesquita erigida em 1495, em honra da vitória de Ezbek sobre os turcos, e que foi demolida em 1869. Os jardins de Ezbekiyya, no local do Lago Rotli, onde os otomanos construíram sumptuosos palácios no século XVII, são hoje uma sombra do passado.

Sobre o Palácio de Gezira pode ler-se o seguinte: «While the opera house was being built at Ezbekiyya, other high-technology buildings were rising up all over the city. The Gezira Palace, built to receive the Empress and other crowned  heads attending the Canal celebrations, was completed in 1867 and still stands today as a five-star hotel on the banks of the Nile in the nothern, Zamalek end of Cairo's Gezira ('Island'). "Of all the palaces built by the Muhammad Ali dynasty," wrote Ellen Chennells, "that of Gezira is the finest...". On 18th January 1869, nine months before the inauguration of the Canal, the Khedive gave the first ball of an extravagant social season in this controversial pile, whose imposing wrought.iron arches were assembled from numbered kits forged in the foundries of Lauchhammer near Dresden.» (página 83). «In 1871, seventy-five species of exotic animals and 150 species of rare birds were installed in the gardens. On Ismaïl's abdication these were transferred to Giza where they can still be seen amid the rich gardens of Cairo's zoo. Today, nothing remains of the Gezira gardens apart from the Gezira Club, the small gardens of the Marriott Hotel and pockets of garden scattered about the island.» (página 86-87). 

Visitei apenas uma vez o Jardim Zoológico do Cairo e tive a impressão de que os animais estavam magros e eram mal alimentados. Quando lhes acenava, dirigiam-se imediatamente na minha direcção como que supondo que eu lhes levava comida. Tinham um aspecto triste e recordo-me que fiquei com pena deles.

Caracterizando-se por uma certa falta de rigor, o livro fornece abundante e curiosa informação sobre a vida do Cairo no período que aborda; todavia, atendendo às imprecisões, temos por vezes hesitação em considerar determinadas afirmações como verdadeiras, apesar de algumas serem citações de obras mencionadas na Bibliografia constante do final da obra. É que as citações, na maioria dos casos, dizem respeito ou a periódicos hoje impossíveis de consultar ou a obras cuja autoria não parece muito credível. Acresce, e isso dificulta este comentário, que há ao longo do livro um amálgama de acontecimentos e de repetições, que vamos tentar dissecar.

Podemos dizer que existe uma espécie de leitmotiv, a imperatriz Eugénia, e que muitos dos capítulos andam um pouco à volta dela. Mas igualmente a evolução política do Egipto. O autor salienta as incomensuráveis despesas efectuadas pelo khediva Ismaïl na pompa e circunstância importadas de França, como os inúmeros palácios, o luxo excessivo, as festas esplendorosas e as grandes obras, como o Canal de Suez. O soberano foi-se progressivamente endividando, até perder o crédito, e os ingleses, que favoreceram esse descalabro, aproveitaram-se para, em 1875, obter as acções do Canal, o que lhes deu um controlo sobre a situação, que só viriam a perder quando, em 1956, o coronel Nasser nacionalizou o mesmo. Mas a dívida crescente levou ingleses e franceses a tomarem conta da situação, impondo a abdicação de Ismaïl, em 1879 a favor de seu filho Tewfiq, que sempre foi considerado pelos egípcios como um "criado dos britânicos". Aliás, em 1879, o poder efectivo passou a ser exercido por Evelyn Baring (mais tarde feito Lord Cromer), Auckland Colvin e Ernest de Blignières. Em 1882 estalou a revolta de Ahmad Urabi Pasha, que assumiu o comando do exército; em consequência,  os ingleses bombardearam Alexandria que ficou parcialmente destruída. A partir desta data o Egipto tornou-se realmente um protectorado britânico.  

«The First World War saw Egypt occupied not only by British troops but by colonial Australian troops , whose rough and ready ways militated against any human understanding of the Egyptians, particularly at a time of crisis. Storrs noted with revulsion that they fired their pistols into cafés they favoured and overturned donkey-drawn buses thar refused to stop for them. 

Egypt was already heavily exposed to Western ideas, which included the concepts of freedom and democracy, and the war was that final catalyst for the Egyptian nationalists led by Saad Zaghloul. "I have no quarrel with them personally," he said of the British," ... but I want to see an independant Egypt." The image of the tricky 'Gyppo', however, dominated the imagination of the British Tommy and the Aussie, some of whom were catatonic from the horrors of the Somme and Passchendaele, and oblivious to the suffering and indescribable squalor in which the average dweller of Cairo's Boulaq or Shoubra lived.

The US President Wilson gave Egyptians the hope of independence at the end of the war, and the British listened politely Saad Zaghloul's request for independence on the basis of his "fourteen points". A month later, however, they arrested Saad and deported him to Malta. This was the cue for a massive uprising throughout the country, an uprising that was as important a threat in Egypt to British colonial rule as the massacre at Amritsar the same year in India. The Egyptin nationalists believed that independence was imminent, and the flame of their enthusiasm was carried by the mob whose rule has always been Egypt's most regular and most gruesome way of expressing itself. The Dominion troops in Cairo had just emerged from the trenches. They were battle-trained, spoiling for a fight, and unwilling to brook any nuisance from a native mob. » (páginas 160-161)

O levantamento de 1919 foi a antecipação dos tumultos de 1952, em que foi quebrado o "acordo" de Ismaïl com os ingleses e estes mais ou menos expulsos do Cairo, e que haveria de ter a máxima expressão com a nacionalização do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser em 1956. Mas o Egipto tornar-se-ia formalmente independente com Fuad I, em 1922, que já era sultão desde 1917 e que naquela data assumiu o título de rei.

 Sobre a revolta de 1952, o autor escreve: «By early 1952 Egypt was heading for breakdown. The Canal Zone saw constant battle between Egyptian guerrillas and British forces, who took several reprisals against attack. On 1 January the British Ambassador, Sir Ralph Stevenson, protested to Egyptian Foreign Ministry against the offer of £E 1,000 reward to any Egyprian killing General Sir George Erskine, the British GOC in the Canal Zone. The chilling offer had been made the previous day by the Egyptian newspaper Gumhour al-Misri. On 25 January, General Erskine announced that he was going to dosarm and expel from the Canal Zone all Egyptian auxiliary police who were suspected of supporting the guerrillas. British troops and tanks surrounded the Ismailiya police barracks, but the Egyptian commander rejected the British demand to surrender. Soon there was an exchange of small-arms fire, then British tanks opened up on the barracks at point-blank range. After three hours of heroic resistance, the Egyptian police surrendered. Forty-one had been killed and seventy-two were wounded. Three British soldiers had been killed.

The following day the country exploded in anger against the British. Cairo newspapers called it the Egyptian Stalingrad. At seven o'clock on that Black Saturday, units of the auxiliary police (the Buluk Nizam) marched from their barracks in Abbasiyya to Fouad University, where supporters of the Wafd Party, Communists and Ikhwan al-Muslimun (Muslim Brethren) had gathered for a huge demonstration. The enormous march moved across the bridges to gather in front of the Parliament building, formerly Princess Shevikiar's pink and grey baroque palace. Out stepped Abdel Fattah Hassan, the Minister of Social Affairs, who immediately promised vengeance in the hope that the crowds would dispers and leave the government to kick the British out of the Canal Zone. But the mob, realizing that the government was making no attempt to keep order, and that the police were eager to join the demonstrators, merely increased its anger, swelled, and moved howling towards the Abdin Palace. Having shouted slogans at Farouk and the British, and accused them of responsability for the Canal massacre, the mob continued towards Opera Square.

The desperate Stevenson, loath to call out British troops and risk a political disaster, tried to contact Serag al-Din, the Interior Minister, but was informed that we was bargaining for property in Cairo. Nahas Pasha, the Prime Minister, was having his feet pedicured. The King was entertaining senior army office our mother? How many teeth has your son got?" The King then ordered the palace gates to be shut and, according to one witness, ordered his guards to machine-gun the crowd. Having watched the slaughter, he saluted, he saluted and went back indoors. While he was on the balcony, it was rumoured, extremists had entered the palace and threatened him from behind. In any case, the King would not bring out the army. Nobody moved. Each party was waiting for the other to take the decision to confront the rebellion, and each party intended to exploit it for its own goals. Moreover, Haidar Pasha, The Egyptian Army Commander, is believed to have warned the King that he could not depend upon the loyalty of his army. Even among the 500 officers he had invited to the feast,  third appear to have been hostile to him.» (páginas 167-168)

A descrição continua, com alguma imaginação do autor, tendo a multidão invadido vários estabelecimentos, entre os quais o Barclay's Bank, o Turf Club, o St James's Club, o Cecil Bar, o Ritz Café (suspeito que o autor se refira ao Café Riche), o célebre Groppi's Coffee (que ainda existe e onde eu tomei café algumas vezes), a TWA, o Hotel Shepheard's, etc. 

Existem no livro várias referências aos grandes hotéis, desde o Shepheard's, que já mencionámos, como o Gezira (mais tarde Marriott), o Qasr el-Nil (depois Hilton), o Savoy, o Bristol, ou o Mena House, no qual se reuniram em 1943 o presidente Roosevelt, Churchill e Chiang Kai-Chek (página 166). Também eu almocei algumas vezes no luxuoso Mena House, ao pé das pirâmides de Gizeh.

Muito mais se poderia escrever sobre este livro, mas o leitor interessado poderá adquiri-lo, tendo sempre em conta que existem muitas outras obras mais rigorosas sobre o Cairo, embora não especialmente focadas no período em questão.