sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O LIVRO DOS DIAS

O grande escritor Taha Hussein (1889-1973)  é considerado o pai da moderna literatura egípcia. Tendo contraído uma oftalmia aos dois anos, que foi inadequadamente tratada, acabou por cegar por volta dos três ou quatro anos de idade.

Natural de uma aldeia do Alto Egipto, na região de Mynia, desde muito cedo manifestou a sua vocação para as letras. Como muitas crianças da época, aprendeu o Corão, conseguindo decorá-lo aos nove anos, o que lhe granjeou a admiração dos seus conterrâneos. Tendo frequentado inicialmente a escola corânica da vila, ingressou mais tarde na célebre Universidade de Al-Azhar, no Cairo, onde se doutorou em 1914.

O seu livro Os Dias (الأيام - Al-Ayam), publicado entre 1926 e 1967, é um romance autobiográfico em que consagra alguns dos momentos mais importantes da sua infância, dos seus estudos no Egipto e depois em França.

A presente edição Le Livre des Jours (1947) foi prefaciado por André Gide, que conviveu com Taha Hussein no Cairo. 

Nesta obra, Taha Hussein recorda as suas idas à escola, a sua aversão ao mestre (Sayedna), a sua aprendizagem do Corão, uma inclinação juvenil para o misticismo e a magia, que partilha com um colega. «On lisait à notre ami des passages de tous ces livres et il en retint beaucoup. Mais il s'appliqua particulièrement à deux choses: la magie et la mystique. L'union dans son esprit de ces deux genres de sciences n'avait rien de bien étonnant ni de malaisé, car la contradiction qui apparaît entre elles n'est en réalité que formelle. Est-ce que le mystique ne prétend pas, pour lui-même ou pour les autres, déchirer le voile de l'inconaissable et pénétrer le mystère du passé aussi bien que de l'avenir, de même qu'il s'affranchit de la servitude des lois naturelles et réalisé toutes sortes de prodiges et de miracles? Mais le magicien, que fait-il donc de si différent? Ne prétend-il pas s'adjuger à lui-même le pouvoir de déchiffrer l'invisible, de dépasser les limites des lois naturelles, lui aussi? et d'entrer en rapport avec le monde des esprits? Alors, toute la différence entre le magicien et le mystique ne réside que dans leurs relations: le second avec les anges, le premier avec les démons. Mais il faut lire Ibn Khaldoun, ou des écrivains aussi difficiles, pour arriver à réaliser cette différence, et à en déduire les conséquences naturelles qui prohibent la magie et en inspirent l'horreur, tandis qu'elles font aimer la mystique.» (p. 79)

O autor faz também referência às três das quatro escolas jurídicas do islão sunita com presença significativa no Egipto: a Hanafita, a Malikita e a Shafi'ita. E interessa-se especialmente pelas confrarias místicas. E também pelos "djinns", seres sobrenaturais associados ao bem ou ao mal. «Et ainsi de suite, jusqu'à épuisement de la liste bien connue des objets familiers que le Prophète laissa quand il mourut. Ils ajoutaient alors une autre prière qui commençait par des mots que ces lettrés déclaraient être du syriaque: "Dunbud, danbi, kara karandi, sara sarandi, sabar sabarbatûna: emprisonnez le djinn qui est loin, qu'il ne vienne pas, et celui qui est près, qu'il ne puisse nous faire du mal." Puis, ils pliaient ces morceaux pour en faire des amulettes et des talismans qu'ils allaient distribuer dans les maisons, aux femmes et aux enfants, en échange de menue monnaie, ou de pain, de "fitîr" et de diverses sucreries. Ils assuraient aux gens qu'en portant ces amulettes ils repoussaient la malignité des démons qui transportent les vents du Khamsîn. Les femmes prenaient ces talismans avec une entière confiance. Mais cela ne les empêchaient pas de se garantir contre les " 'afrit" quand soufflait le vent, en coupant des oignons pour les suspendre aux portes des maisons, et en mangeant des fêves germées, à l'exclusion de toute autre nourriture ce jour-là.» (p. 86)

Taha Hussein empenhou-se não só em decorar o Corão como a recitá-lo sem erros. «Une année passa tout entière à ces exercices, et l'enfant apprit parfaitement le "tagwid" selon Hafs. Il aurait sans doute abordé la lecture de Warsh, sans une série d'événements qui précédèrent de peu son départ pour le Caire.» (pp. 89-90)

[O "tagwid", correctamente "tajwid", é a ciência das regras de pronúncia para recitar o Corão, desenvolvida no século IX. Hafs ibn Sulayman (706–796), natural de Kufa, foi o mestre que estabeleceu o método "standard" da recitação. Warsh, de seu verdadeiro nome Uthman ibn Said al-Qurashi al-Misri (728–812) é o autor de uma das principais e mais tradicionais transmissões de recitação e leitura do texto sagrado islâmico.]

Os acontecimentos que perturbaram Taha Hussein foram a morte de uma irmã mais nova a logo a seguir, por ocasião de uma grande epidemia de cólera no Egipto, a morte de um irmão mais velho (com 18 anos) em 21 de Agosto de 1902. O rapaz tinha-se inscrito na Escola de Medicina do Cairo, para onde se preparava partir no fim do Verão, e já durante o liceu acompanhava regularmente o médico da vila nas suas visitas aos pacientes, para se exercitar na profissão. A morte do irmão, de quem muito gostava, constituiu para Taha um profundo choque .

A Primeira Parte do Livro conclui-se com a sua partida para Al-Azhar, aos 13 anos, para estudar na célebre universidade, o direito religioso, a gramática e a retórica. 

A Segunda Parte abrange a sua permanência na universidade. O autor fica instalado no Cairo num quarto alugado numa casa perto de Al-Azhar, que compartilha com um irmão mais velho que também frequenta a universidade. Taha Hussein dá-nos conta da sua vida quotidiana, das suas alegrias e desgostos, dos seus medos e ansiedades, dos seus sentimentos e pressentimentos, enfim, do drama interior da sua vida afastado do convívio familiar. Nas deslocações de ida e volta para a universidade, Taha é conduzido por um companheiro (o livro não refere pormenores), dada a sua condição de invisual. Contactando com o mundo exterior através do ouvido, do tacto, do olfacto, o autor revela-nos o peso da cegueira e a solidão a que se encontra confinado. Mesmo assim, não deixa de registar as impressões das aulas, dos companheiros, dos mestres, dos vizinhos. Uma referência especial ao curso do Grande Imam da Mesquita, o Sheikh Muhammad 'Abduh (1849-1905), que foi também Grande Mufti do Egipto e professor da Dar al-Ulûm. Foi ainda franco-maçon e membro da Dar al-Ifta al-Misriyyah, a mais alta instância egípcia de conselho para as questões jurídicas islâmicas. Durante alguns dias da semana ele comentava o Corão, e nos outros dias explicava o Dalaail ul-'Idjaz, do sheikh persa Abdul Qahir Jurjani (século XI).

O autor não poupa críticas e zombarias relativamente aos mestres e aos colegas e ao próprio ensino na Universidade. 

As condições de alojamento no Cairo são difíceis, especialmente para os estudantes. No segundo andar do prédio onde vive com o irmão os quartos estão sobrepovoados. «L'immeuble était vraiment plein à craquer. Les chambres étaient surchargées d'étudiants d'une façon extraordinaire: dans une d'elles n'y en avait-il pas vingt?  Comment pouvait-ils s'asseoir?  Comment travaillaient-ils? Comment dormaient-ils? Autant de questions que se posait l'enfant et qui restaient sans réponse. Ce qu'il savait, c'est qu'une chambre ne se louait pas plus de vingt-cinq piastres par mois, quelquefois vingt: on voit donc qu'un étudiant pouvait ne dépenser qu'une piastre de loyer par mois environ.» (pp. 174-175) 

[Não duvidando da pureza de sentimentos dos jovens estudantes não posso deixar de pensar que dormindo vinte rapazes num quarto seria difícil evitar entre alguns (ou mesmo entre todos) certas intimidades próprias da idade.]

Um incidente marcou o jovem por longo tempo. Quando chegou o momento de comparecer perante o júri para oficializar o seu ingresso na universidade, o professor dirigiu-se-lhe assim: "Agora é a tua vez, cego", um tratamento indigno de um sheikh de Al-Azhar. E o interrogatório da matéria, que ele tinha estudado devidamente, foi incrivelmente escasso em relação aos outros alunos, porventura porque o professor entendesse que um cego pouco saberia.

A certa altura, chega ao Cairo um primo, seu companheiro de infância na vila e que vai estudar também na universidade. É um momento de grande alegria para Taha, que passava os dias sozinho em casa, fora as idas à universidade e à mesquita, já que o irmão mais velho mantinha a sua vida própria. 

No final do ano lectivo os dois rapazes regressam à terra, mas Taha supunha que o aguardava uma grande recepção da família (como acontecia sempre com o irmão mais velho) mas tal não aconteceu. É que o irmão mais velho já era tratado por sheikh, sendo-lhe devidas honras especiais. Mantém grandes mas amigáveis discussões com o pai sobre uma obra que este estava a ler e que Taha considerava uma tontice. E pergunta-lhe se é isso que ele aprende em Al-Azhar. E o filho responde: "Parfaitement, j'y ai appris que la plupart des assertions de cet ouvrage sont impies et font plus de mal que de bien. L'homme ne doit pas rechercher l'intercession des prophètes et des saints, et croire que des intermédiaires sont possibles entre Dieu et les humains: c'est du paganisme!" (pp. 214-215)

[Como na religião cristã existem os santos e os bem-aventurados também em muitas terras do islão se evocam (e invocam) homens de grande piedade e saber, especialmente no norte e centro de África, os marabus. Só que o seu culto é tolerado mas não oficializado, como acontece no cristianismo.]

Ao longo da obra, o autor repete várias vezes a máxima islâmica: "Pertencemos a Deus e é a Ele que regressamos.

Note-se, por curiosidade, que o livro, que é autobiográfico, está escrito quer na primeira, quer na terceira pessoa do singular, por opção que desconhecemos.

É evidente que o convívio masculino suscita sempre amizades particulares, especialmente em estabelecimentos de ensino e numa sociedade em que às mulheres estava reservado (e ainda está hoje, embora em muito menor grau) um lugar separado dos homens na vida pública. Assim, sobre os professores, o autor escreve: «Ces bouts d'entretiens ne lui donnèrent pas une excellente opinion des uns et des autres; au contraire, avec le temps, il se fit d'eux une idée de plus en plus médiocre. En effet, s'il eut souvent l'occasion d'entendre vanter la remarquable intelligence de certains professeurs, quelle fût leur notoriété, on signalait aussi, pour les uns comme pour les autres, toutes sortes de défauts, tenant à leur caractère, à leurs moeurs, ou même à leur compétence. Au total, il ressentait une singulière impression de colère, de mépris et aussi de désespérance.

Car aucun n'était exempt de ces tares. Tel cheikh enviait ses collègues, leur jouait de vilains tours et semait des embûches sur leur route: il les accueillait avec son plus gracieux sourire et, dès qu'ils avaient le dos tourné, s'exprimait sur leur compte en termes déplorables et les déchirait sans pitié. Les sentiments religieux de tel autre étaient tièdes, bien qu'il manifestât une grande dévotion à l'intérieur d'el Azhar ou devant ses confrères, mais abandonné à lui-même et à ses mauvais génies, il se livrait aux vices les plus abjects.

Les médisants donnaient des noms à ces démons, qui se rendaient complices de ces péchés. Les anciens étudiants montraient du doigt ce cheikh qui s'intéressait spécialement à tel adolescent, lui lançait des regards et ne pouvait plus tenir en place dans sa chaire dès que le jeune homme était dans son auditoire.

La médisance et la calomnie étaient donc très répandues, plus navrantes d'ailleurs que les vices qu'elles dévoilaient. Les étudiants racontaient  des histoires de favoritisme dues à l'intervention de tel professeur en faveur de son petit ami auprès du recteur ou du grand mufti. On disait que le premier prêtait obligeamment l'oreille aux dénonciations calomnieuses, mais que le second ne voulait rien entendre et les accueillait par d'amers reproches articulés sans ménagement.» (pp. 221-222)

Com o correr do tempo, Taha Hussein foi-se desinteressando dos métodos de ensino de Al-Azhar e tornou-se progressivamente mais crítico dos seus professores. Por outro lado, a literatura começara a seduzi-lo. Passou a frequentar as aulas de sheiks que eram versados nas letras profanas e começou a ler romances.

Finalmente, regressou a casa, embora sem o diploma oficial de Al-Azhar. Mas ansiava regressar ao Cairo. É verdade que a cegueira limitava muito as deslocações do rapaz, mas o pai contratou um jovem negro como criado, com a missão de o acompanhar. Em 21 de Dezembro de 1908 foi inaugurada no Cairo a Universidade Egípcia e Taha apressou-se a inscrever-se, embora continuasse a frequentar Al-Azhar. 

É neste período que o livro se conclui. 

 * * * * *

Importa referir que Os Dias é composto por três partes. publicadas entre 1926 e 1967.

A Primeira Parte foi publicada na revista literária Al-Hilal entre 1926 e 1927, e em livro em 1929.

A Segunda Parte foi publicada em livro em 1940.

A Terceira Parte foi publicada na revista Akher Saa em 1955, e em livro em 1967. 

A edição francesa que aqui comentamos foi publicada em 1947 e inclui apenas a Primeira e a Segunda Parte. 

A Terceira Parte refere-se à sua permanência na Universidade Egípcia (hoje Universidade do Cairo), ao seu doutoramento na Universidade Al-Azhar, com uma tese sobre Abu al-'Alâ al-Ma'arri (1914), aos seus estudos em França, nas universidades de Montpellier e da Sorbonne, onde obteve o doutoramento com uma tese sobre Ibn Khaldun (1918), e ao seu regresso ao Egipto, onde exerceu altas funções como professor da Universidade do Cairo, reitor da Universidade de Alexandria e ministro da Educação. E publicou mais de 60 livros.

Sem comentários: