sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A CRISE FINANCEIRA GLOBAL


Sarkozy e Berlusconi concordaram convocar para os próximos dias uma reunião dos ministros das Finanças do G7, atendendo à "crise financeira global que diz respeito a todos os países". Esta decisão foi tomada depois de ouvidos Merkel e Zapatero. A França, que preside actualmente ao G7-G8 e G.20 encara também a possibilidade de convocar muito em breve uma cimeira do G-8 e Berlusconi avistar-se-á sexta-feira com Barack Obama.

O Cavaliere acrescentou ainda que conferenciou com o presidente da UE, Herman van Rompuy, e que a situação financeira mundial é um assunto de todos. Já o sabíamos, e por isso desejamos que sejam adoptadas as medidas convenientes. Mas o mais certo é ficarmos por puras medidas de cosmética. Isto é, de crise em crise até ao desastre final.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

AVENTAIS, GRAVATAS E TERRORISMO


Nunca comentei qualquer artigo de Helena Matos. Mas a sua prosa, hoje publicada no Público, e que transcrevo, suscita-me a maior perplexidade. Helena Matos serve-se de gravatas como pretexto para falar de aventais, e mistura pelo meio símbolos fálicos e mulheres cobertas de pelos. Há ainda uma referência, inevitável, a serviços secretos. E um P.S. final sobre terrorismo e os atentados de Oslo, porventura a única intenção de Helena Matos ao escrever o artigo. Para cocktail, são demasiados ingredientes.

Sem mais comentários, transcrevo o artigo:

Gravatas e aventais

Por Helena Matos

Enquanto as gravatas lá andam no domínio do simbólico, os aventais da maçonaria movem-se no domínio do material
Portugal é um país que adora entreter-se com aparentes futilidades - no caso as gravatas -, enquanto ilude o que é verdadeiramente importante - ou seja, os aventais. Pelo que li, nas últimas semanas o país tem vivido uma guerra entre aventais, ou mais precisamente entre as diversas lojas maçónicas em que colocam o avental de irmãos diversos membros dos serviços secretos e de informações. Mas o que na verdade nos inebria é a decisão da ministra Assunção Cristas de abolir as gravatas no seu ministério, coisa que começou por ser apresentada como uma medida visando a poupança de energia e já vai a caminho de ser celebrada como um acto que, segundo a deputada Elza Pais, se "poderá traduzir na emergência de novas masculinidades, essas sim, fundamentais para mudar de paradigma".

Das energias tratarei noutro lugar, pois se existem muitas alternativas no que respeita às energias. O mesmo não se pode dizer dos símbolos fálicos (ao que consta as gravatas serão um símbolo fálico), coisa que até este bendito tempo nunca foi problema, antes pelo contrário, mas agora é. Vivemos rodeados de símbolos e francamente os símbolos fálicos parecem-me tão estimáveis quanto os outros. Presumo que os saltos altos nas mulheres devem ser um símbolo doutra coisa nefanda qualquer. Isto para já não falar dos soutiens, dos vestidos e das saias, que nestas coisas do simbólico o feminino é sempre mais reiterativo. Por este andar acabaremos, homens e mulheres, vestidos com aqueles fatos de poliuterano que fizeram a fortuna dos nadadores, de touquinha a cobrir os cabelos e quiçá com as mulheres cobertinhas de pêlos, pois ainda se há-de dar o bendito caso de a depilação passar a ser vista como um sinal da submissão feminina à sociedade falocrática.

Como é que dos homens sem gravata vão emergir novas masculinidades e por alma de quem é que tal coisa deverá acontecer e ainda por cima nos é apresentada como positiva é que me parece uma reactualização perigosa dos mistérios da fé. Mas não duvido que ainda vamos no princípio desta luta contra a falocracia das gravatas. E sou mesmo levada a acreditar que, caso os membros da maçonaria em vez de aventais (coisa tida como feminina) usassem uns adereços mais fálicos, talvez merecesse mais atenção o que acontece nessa sociedade de que alguns compagnons dessa route gostam de dizer que de secreta passou a discreta.

Antes de passarmos à maçonaria propriamente dita convém que faça uma declaração de desinteresse: não tenho qualquer interesse ou simpatia por sociedades secretas ou discretas e numa democracia nem percebo a sua razão de ser. Irrita-me solenamente a presunção dumas pessoas que a si mesmas se definem como homens bons e sobretudo todos aqueles rituais de igreja a fazer de conta que não é igreja, mais os aventais e os martelos que me parecem muito, mas mesmo muito ridículos. Tal como as gravatas parecerão a outros. Mas enquanto as gravatas lá andam despojadamente no domínio do simbólico, os aventais da maçonaria movem-se cada vez mais no domínio do material. Não há na política deste país negócio obscuro, tráfico de influências, cumplicidades entre público e privado que não nos levem à irmandade dos aventais. Para cúmulo somos também informados de que os membros dos serviços de informações têm outras lealdades para lá daquelas que devem ao país e que inevitavelmente conduzem a esse enredo de lojas, grémios e orientes.

Se alguns milhares de homens deste país se sentem felizes por andar de avental, chamando-se irmãos e dizendo-se homens bons, essa é sinceramente uma coisa que não nos diz respeito e a mim me causa particular fastio. Mas a democracia que somos tem o dever de investigar o tráfico de influências em que justa ou injustamente a maçonaria surge no cerne e muito particularmente os partidos, sobretudo o PS e o PSD, têm de ser capazes de olhar para dentro e analisar as consequências para si e para o país das cumplicidades maçónicas de muitos dos seus dirigentes.

Deixemos as gravatas em paz e já agora os símbolos fálicos e a masculinidade também, que bem precisam. E preocupemo-nos com os aventais que, ó deliciosa vingança feminina!, se tornaram no símbolo daquilo que em Portugal o poder não pode e muito menos deve ser. Ensaísta

P.S. É curioso como os jornalistas que investigam todos aqueles que por razões políticas contactaram ou foram contactados pelo terrorista de Oslo esquecem nessa averiguação os seus irmãos maçons.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O JULGAMENTO DE HOSNI MUBARAK


Começou hoje no Cairo o julgamento do ex-presidente da República Mohamed Hosni Mubarak, e dos seus dois filhos Alaa e Gamal. O antigo Raïs é acusado de corrupção e de ter ordenado à polícia que disparasse sobre os manifestantes, durante os primeiros dias da contestação ao regime. Mubarak (tal como os filhos) declarou-se hoje não culpado. O julgamento prosseguirá a 15 de Agosto.

O antigo presidente, que tem 83 anos e está gravemente doente, foi transportado de maca para o tribunal e assistiu a esta primeira sessão numa jaula de ferro. O edifício da Academia da Polícia, onde decorre o julgamento, foi rodeado por vários tanques e um aparatoso dispositivo militar. Os advogados de defesa de Mubarak convocaram 1.600 testemunhas, entre as quais o marechal Hussein Tantawi, presidente da Junta Militar e que foi durante anos o ministro da Defesa de Mubarak.

O julgamento acontece por pressão da oposição e dos manifestantes que durante semanas contestaram o regime ou das suas famílias (no caso dos que foram abatidos pela polícia) e que acusam de inércia a Junta Militar

Todavia, e apesar do seu longo e autocrático consulado, Mubarak dispõe ainda de muitos apoiantes entre o povo egípcio. Também a instabilidade da situação no país, consequência da revolução, e que provocou a queda a pique do turismo, uma das principais fontes de receita da população, tem indisposto um número crescente de pessoas contra os contestatários, sendo que a Irmandade Muçulmana vai procurando navegar entre as várias tendências, enquanto se aguarda a realização de eleições.

Por outro lado, o julgamento de Mubarak (um acontecimento inédito no mundo árabe) está a provocar a maior perturbação nos regimes do Norte de África e do Médio Oriente e nas próprias populações. E constitui também uma armadilha para a Junta Militar, cujos membros fizeram parte dos governos e dos círculos mais próximos do ex-presidente. O tribunal não poderá condenar Mubarak (que incorre na pena de morte) e também não poderá absolvê-lo. Resta-lhe protelar a conclusão do julgamento tanto tempo quanto lhe for possível.

E ao contrário de Ben Ali, que fugiu da Tunísia e se refugiou na Arábia Saudita, Mubarak manteve-se no Egipto, um facto que concorre para a sua defesa. Bem vistas as coisas, Mubarak (tanto quanto se sabe) não fez mais nem menos do que têm feito, e continuam a fazer, os seus homólogos do Mundo Árabe. Por isso, o seu julgamento suscita viva emoção não só no Egipto (entre os seus partidários e simpatizantes) mas nos outros países islâmicos e mesmo no Ocidente.

Como podem os líderes mundiais aplaudir, em nome da justiça, o julgamento de um homem com quem mantiveram as mais próximas e amistosas relações durante décadas, e continuar a dialogar e a negociar com chefes de Estado cujo comportamento é idêntico ao de Mubarak? Trata-se de uma contradição insanável.

Enquanto os sírios tentam derrubar Bashar Al-Assad, autor de uma repressão neste momento já com mais vítimas do que as registadas no Egipto, e os líbios insistem em forçar a saída de Muammar Qaddafi, que permanece em Tripoli apesar dos bombardeamentos da NATO, atrevo-me a pensar que os egípcios (e os tunisinos) começam já a interrogar-se quanto ao futuro, após o entusiasmo (natural) das primeiras horas das respectivas revoluções.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

MANIFESTAÇÕES EM ISRAEL


Depois da Primavera árabe o Verão israelita?

Sábado e domingo mais de 100.000 pessoas manifestaram-se nas ruas de Israel contra o governo de Benjamin Netanyahu, reclamando mais democracia, protestando contra o aumento em espiral do custo de vida e pedindo justiça social em vez de caridade.

As contestações mais expressivas tiveram lugar em 11 cidades, designadamente em Telavive, Jerusalém, Be'er Sheva e Haifa e os analistas interrogam-se sobre as repercussões que a contestação possa ter no relacionamento israelo-árabe.

Curiosamente, a comunicação social portuguesa não referiu, que eu tenha notado, esta primeira grandiosa manifestação contra um governo em Israel.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

AINDA SOBRE OSLO


Poderão Angela Merkel, David Cameron e Nicolas Sarkozy, entre outros, serem indirectamente culpados pelos atentados de Oslo? Sobre esta questão se interroga o Público, na medida em que estes líderes têm denunciado o falhanço do multiculturalismo e defendido políticas islamófobas e anti-imigração, ou seja, as mesmas teses desenvolvidas por Anders Breivik no seu manifesto.

Especialmente a partir de 11 de Setembro de 2001 que se verifica uma linguagem dos dirigentes europeus que tem propiciado a ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa. Os politólogos ouvidos pela jornalista, autora do interessante artigo, não hesitam em atribuir a uma parte da classe política europeia a responsabilidade pelos sentimentos xenófobos que se vêm registando em alguns países, na medida em que esses medíocres dirigentes políticos julgam agradar assim aos seus eleitores e conquistar-lhes votos. Nisso laboram num clamoroso erro, pois que apesar de um incremento de partidos extremistas na Europa, as populações não são tão estúpidas como o julgam esses falsos estadistas, e na hora da verdade saberão manifestar as suas convicções.

RAMADAN


Começa hoje o mês islâmico do Ramadan, mês do jejum (sawm) diário e de oração (salat) que terminará com a celebração de 'Id Al-Fitr, que ocorrerá no primeiro dia do mês seguinte, Shawwal. A festa 'Id Al-Fitr é designada muitas vezes como 'Id Al-Saghir ( a pequena festa) por oposição à outra festa dos muçulmanos , 'Id Al-Adha, a grande festa ('Id Al-Kabir), comemorada no décimo dia do mês de Dhu al-Hijjah, o último mês do calendário islâmico.

No 26º dia do mês de Ramadan (ou num dos dez últimos dias do mês) celebra-se a Noite do Poder ou do Destino (Laylat Al-Qadr), comemorando o aniversário da revelação do Corão ao profeta Muhammad pelo anjo Gabriel (Jibril), no ano de 610.

A todos os meus amigos muçulmanos desejo Ramadan Mubarak (Abençoado Ramadan).

domingo, 31 de julho de 2011

HAMA - OUTRA VEZ

Vista da cidade

As quatro noras no rio Orontes

As quatro noras no rio Orontes

Museu Nacional

Museu Nacional

Grande Mesquita

Grande Mesquita

Igreja Ortodoxa
Restaurante Al-Bishriyat, sobre o rio Orontes

A cidade de Hama, que hoje foi palco de sangrentos acontecimentos, remonta ao Neolítico, e foi capital de um reino aramaico que manteve relações comerciais com Israel no tempo dos reis David e Salomão (c. 1000 AC). Foi depois ocupada pelos assírios e juntou-se a Damasco, numa revolta contra Shalmanazar. Submetida novamente em 722 AC por Sargão II, foi destruída e os seus cidadãos deportados. Reconstruída no tempo dos Seleucidas, foi cristianizada e integrou depois os impérios romano e bizantino. 

Conquistada pelos árabes em 637, prosperou sob a dinastia Ayyubida (descendentes de Saladino). Manteve conflitos com as dinastias rivais de Damasco e Alepo, mas sob a égide dos mamelucos, o grande poeta árabe Abu Al-Fida (1273-1331), cujo túmulo se encontra na Grande Mesquita, foi designado sultão.

Em Fevereiro de 1982, já em plena república da Síria, o presidente Hafez Al-Assad esmagou uma revolta da população, liderada pelos Irmãos Muçulmanos, que se saldou pela morte de cerca de 30.000 civis e mais de 1.000 soldados e pela destruição parcial da cidade. As tropas que então bombardearam Hama por terra e por ar eram comandadas pelo seu próprio irmão Rifaat Al-Assad.

Embora de menores proporções, o episódio repetiu-se hoje, quando esta manhã os tanques cercaram novamente Hama e provocaram mais de 100 mortos e dezenas de feridos, numa repressão contra a manifestação de contestação ao regime do presidente Bashar Al-Assad, que reuniu meio milhão de pessoas.

Já escrevi aqui que a situação na Síria está a assumir uma dimensão trágica. Ao contrário da Tunísia e do Egipto, o regime na Síria não se mostra disposto a ser derrubado e a sua queda, a verificar-se, provocará o caos no país. Também não se vislumbra, nem se deseja, a intervenção estrangeira, cujos resultados na Líbia demonstram a impertinência da invasão da NATO. 

A oposição dos sírios a Al-Assad, confiantes no triunfo das outras revoluções árabes, foi demasiado precipitada e violenta e à medida que os mortos aumentam mais difícil se torna um recuo na contestação. E a demora na adopção de medidas reais por parte do presidente Bashar Al-Assad um erro. Por outro lado,  a intensidade da repressão foi desde o início desproporcionada face às manifestações de oposição ao regime.

Não sei o que o futuro reserva aos Sírios, mas quero expressar aqui a minha sentida solidariedade.

OS TRIBUNAIS, AS BRUXAS E DEUS


 Arthur Miller escreveu The Crucible no princípio dos anos cinquenta. A peça foi estreada na Broadway em 22 de Janeiro de 1953, tinha então o dramaturgo 37 anos. Foi a sua segunda grande peça, depois de Death of a Salesman (1949). Tendo por tema um trágico evento registado em Salem (Massachussetts, E.U.A.) em 1692, um suposto caso de bruxaria que levou à prisão de dezenas de pessoas e à condenação à morte de 20 homens e mulheres por um tribunal que invocou em vão o nome de Deus, a peça, conhecida entre nós como As Bruxas de Salem, pretende mais do que evocar um lamentável episódio, tão ao gosto do puritanismo anglo-saxónico do Novo Mundo, denunciar a perseguição feroz desencadeada contra membros do Partido Comunista ou afins, pela Comissão de Actividades Anti-Americanas,  conduzida pelo senador Joseph McCarthy, e que provocou enormes danos pessoais e intelectuais na sociedade americana.

Esta peça notável encontra-se agora em cena no Teatro Experimental de Cascais (TEC), com encenação de Carlos Avilez, constituindo um espectáculo de grande intensidade dramática, em que a companhia do TEC e os alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais emprestam ao texto de Arthur Miller a interpretação requerida por tão emocionante e lúcida obra. Registe-se que foi n'As Bruxas de Salem que, em 1957, Carlos Avilez se estreou como actor, na estreia da peça em Portugal, no Teatro Nacional D. Maria II, num memorável espectáculo da Companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro, a que tive o privilégio de assistir.

Num mundo recheado de superstições e de preconceitos como aquele em que vivemos, em que a Justiça não passa muitas vezes de uma palavra vã, em que se condenam inocentes e se absolvem criminosos, em que se corrompem consciências, se promove a delação, se exaltam  pretensas virtudes e se idolatram falsos profetas, em que se promove a guerra preventiva com o pretexto de salvaguardar a paz, esta peça revela-se de uma actualidade absoluta. Por isso deve ser vista não só pelos amantes do teatro como por todas as pessoas que ainda têm da virtude e da honra uma noção não prostituída.