domingo, 13 de outubro de 2013
A FRÁTRIA DE "AS NÚPCIAS"
Relendo Natália Correia, por ocasião do 20º aniversário da sua morte.
Depois da Pátria, e da Mátria, Natália Correia evoca em As Núpcias (1992) a Frátria, exaltando, através de um percurso iniciático, o amor incestuoso entre um irmão e uma irmã. Nesta meditação, ficção e ensaio, Natália recorre a Marcel Mauss, James Frazer e Raoul Makarios, ao Evangelho segundo São Tomé e ao Livro dos Mortos. Poderia ter citado, também, Claude Lévi-Strauss.
Recordo, a propósito, Claude Lévi-Strauss ou "la passion de l'inceste", de Yvan Simonis.
sábado, 12 de outubro de 2013
A PENSÃO DE VÍTOR CONSTÂNCIO
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013
O BOTEQUIM DE NATÁLIA
No seu livro recém-publicado O Botequim da Liberdade, Fernando Dacosta regista as suas memórias do convívio com Natália Correia, quer naquele bar, que foi uma das últimas tertúlias de Lisboa, quer em outros espaços de vivências comuns.
O Botequim do Largo da Graça, que Natália criou e onde pontificou, eu diria matriarcou, durante décadas, foi um lugar de convívio cultural, político, social, que marcou, como escreve Dacosta, uma época em que o país assistiu a profundas transformações, a muitas das quais aquele bar (ou os seus clientes) não foi alheio.
A personalidade de Natália Correia, o seu estilo e a sua cultura (que não era superficial como alguns ainda pensam, atendendo aos seus arrebatamentos) imprimiram às noites do Botequim um carácter peculiar que fizeram dele uma referência na noite lisboeta.
Enquanto frequentador do Botequim, embora não tão assíduo como as pessoas que Dacosta menciona no seu livro, tive oportunidade de manter longas e estimulantes conversas com Natália Correia, que me distinguia com a sua amizade. Foi naquele bar que, pouco tempo antes de morrer, ela me ofereceu, com invejável dedicatória, a sua última obra, As Núpcias.
Recordo, com alguma emoção, que uma noite, véspera do meu aniversário, fui ao Botequim com Isabel da Nóbrega. Como sou avesso a parabéns, pedi à Isabel que não referisse a data, pedido que ela, com a melhor das intenções, ignorou. Assim, passada que foi a meia-noite, Natália, que viera sentar-se à nossa mesa, ergueu-se, mandou calar os presentes, anunciou o evento e começou a cantar os "Parabéns a você", no que foi acompanhada por toda a assistência. Depois, ordenou ao empregado que trouxesse uma garrafa de champagne para fazer um brinde. Era assim a Natália, desconcertante na sua generosidade como nos seus ímpetos.
Entre os muitos episódios referidos por Fernando Dacosta, não resisto a citar um caso que, aliás, já conhecia, por me ter sido contado por António Valdemar. Tendo ido pernoitar num hotel do Porto, com o marido (na altura Dórdio Guimarães), o recepcionista disse-lhe que só dispunha de um quarto. Natália recusou (costumava dormir só). O empregado perguntou-lhe então se ela não se importava de dormir com o marido apenas uma noite. Natália retorquiu: «Nem uma noite. O meu é um casamento de cúpula, não de cópula». E conseguiu os dois quartos.
O livro de Dacosta menciona muitas das inquietações (premonições) dos últimos anos de Natália Correia, enfatizando-as com total oportunidade. Assustava-a a ideia da nossa integração na União Europeia (então CEE), o predomínio do "ter" sobre o "ser", o ultraliberalismo que avançava (e que está a mergulhar o país, e o mundo, no que podemos constatar), o capitalismo selvagem, a degradação da democracia, o império das novas tecnologias, o totalitarismo do dinheiro. Se não tivesse morrido há vinte anos, morreria hoje de espanto, de indignação e de vergonha.
Saúda-se, pois, este novo livro de Fernando Dacosta que não só nos dá um retrato de Natália como nos convoca para uma reflexão sobre o estado a que o país chegou.
VERDI, DOIS SÉCULOS DEPOIS
Un Ballo in Maschera, Gewandhausorchester Leipzig, direcção de Riccardo Chailly, Leipzig, 2005
Ocorre hoje o 200º aniversário do nascimento de Giuseppe Verdi.
Regista-se a efeméride para memória das gentes.
ALICE MUNRO
A escritora canadiana Alice Munro obteve hoje o Prémio Nobel da Literatura.
Conhecida especialmente pelos seus contos, como se pode ler aqui e aqui, algumas das obras de Alice Munro encontram-se traduzidas em português.
Como acontece muitas vezes, a escolha da Academia Sueca frustrou as expectativas dos que apostavam em outros escritores, mas os critérios daquela instituição permanecem insondáveis.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
PATRICE CHÉREAU
Morreu hoje em Paris, aos 68 anos de idade, Patrice Chéreau, uma das figuras mais notáveis da vida cultural europeia e mundial das últimas décadas.
Actor, encenador de teatro e de ópera, realizador cinematográfico, e muitas outras coisas, Patrice Chéreau foi um homem que cultivou múltiplas disciplinas e que promoveu a divulgação de jovens criadores, como, por exemplo, Bernard-Marie Koltès, o malogrado dramaturgo, autor de Dans la solitude des champs de cotton.
A sua carreira artística de mais de 40 anos foi uma sequência de triunfos, de que importa destacar a célebre encenação da Tetralogia de Wagner O Anel do Nibelungo, no Festival de Bayreuth de 1976, com direcção musical de Pierre Boulez, que se tornou um clássico dos espectáculos de ópera.
Como se refere aqui e também aqui, a obra de Chéreau é vasta e inovadora e constitui um marco no panorama da cultura ocidental. Refira-se ainda a sua interpretação no filme Adieu Bonaparte (1985), do egípcio Yussef Chahine.
Como disse a ministra francesa da Cultura, Aurélie Filippetti, «ficámos todos órfãos».
AS VIAGENS DE BOWLES
Foi recentemente publicada, com o título Viagens, a obra de Paul Bowles (1910-1999) Travels, em que o autor reúne diversos textos sobre as viagens (viagens autênticas, não meras viagens turísticas) que efectuou e os locais onde permaneceu por um largo período de tempo, nomeadamente Tânger, que foi, de certo modo, a sua casa.
Já conhecíamos alguns dos factos através dos relatos consignados em outras das suas obras, em especial em Without Stopping, An Autobiography (Memórias de um Nómada, em português). Porém, em Viagens, uma colecção de artigos publicados em revistas ou no seu diário, Bowles delimita geograficamente os textos, enfatizando os aspectos mais relevantes do percurso ou da estada. E assim o vemos em Marrocos ou no Sri Lanka, na América Central, na Tailândia ou na ilha da Madeira. O autor descreve-nos, com a abundância de relevantes pormenores, que só um viajante interessado poderia reter, os locais e as pessoas, e a sua atitude perante uns e outras. Discreto, omite factos da sua vida pessoal, que certamente ocorreram nesses períodos, fornecendo-nos, contudo, subtilmente, a chave que nos conduzirá à sua descoberta.
A cidade de Tânger, que habitou, com poucas intermitências, desde os anos 40, é-nos soberbamente retratada, num quadro que regista a sua evolução (Bowles diria certamente destruição pelo "progresso") ao longo de meio século. Evoquei, aqui a Tânger dos anos 50, onde se reuniram tantos escritores e artistas que Bowles encontrou, como Tennessee Williams, Francis Bacon, William Burroughs, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Lucien Freud ou Gore Vidal. Aliás, pelo Marrocos e pelo norte de África passariam também Jean Genet, André Gide, Oscar Wilde, Truman Capote, Henry de Montherlant, Gertrude Stein, Michel Foucault, Roland Barthes, Samuel Beckett, Camille Saint-Saëns, etc. Com a extinção da Zona Internacional e a integração no Marrocos, Tânger perderia a aura de cidade do prazer, que conquistara durante anos, "normalizando-se" e tornando-se naquilo que é hoje, uma cidade entre as cidades do Reino.
O livro tem um conveniente prefácio de Paul Theroux, também ele incansável viajante e grande escritor, que ilumina as partes mais discretas da obra.
A presente edição portuguesa, apesar de alguns percalços de tradução, lê-se fluentemente, não obstante ter utilizado o português acordês, essa variante bastarda da língua. Já não se compreende a omissão da Cronologia de Paul Bowles, que figura no fim da edição inglesa. Uma omissão verdadeiramente lamentável.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
NOVOS CONFRONTOS NO EGIPTO
A violência regressou às ruas do Cairo e também de outras cidades egípcias. Os apoiantes da Irmandade Muçulmana, após as orações de sexta-feira, voltaram a convergir para a praça At-Tahrir protestando contra a deposição de Mohamed Morsi e contra o governo militar. Segundo o PÚBLICO e outras fontes, registaram-se numerosos feridos e alguns mortos entre os manifestantes e as forças policiais.
O desassossego continua no país, já fortemente abalado económica e socialmente pelos acontecimentos dos dois últimos anos. É lamentável que os confrontos no Egipto e em outras nações árabes estejam a ser incentivados e comandados à distância por forças alheias aos interesses desses países.
Até quando?
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