segunda-feira, 27 de julho de 2020
DE OLHOS ABERTOS
Relido, quarenta anos depois da publicação, Les yeux ouverts (1980), de Marguerite Yourcenar (1903-1987), o livro permanece um espanto. Mais propriamente, trata-se da edição em volume das diversas entrevistas concedidas por Yourcenar, entre 1971 e 1979, ao crítico literário francês Matthieu Galey (1934-1986), na sua residência "Petite Plaisance", na ilha Mount Desert, no Maine (EUA), que escolhera para fixar domicílio, depois de uma vida de viagens na Europa, na Ásia e na África.
Este livro bem poderia ser considerado como as memórias de Marguerite Yourcenar, já que a intervenção do entrevistador é muito limitada. Ele deixou a escritora dissertar sobre os temas que lhe eram caros, embora esta dissesse mais tarde que ele se debruçou em especial sobre os assuntos que mais lhe interessavam e não sobre as suas verdadeiras preocupações. Mas Galey possui o inegável mérito de ter organizado o produto dessas conversas de forma a estabelecer uma linha de continuidade da vida de Yourcenar desde o seu nascimento até àquele momento, pouco tempo antes dela ter sido solenemente recebida, em 22 de Janeiro de 1981, na Academia Francesa, a primeira mulher a quem foi concedida essa honra, desde a fundação da Casa, pelo cardeal-duque de Richelieu.
Neste livro "autobiográfico", Marguerite Yourcenar fala da sua vida, da família, das influências recebidas, dos amigos e das amizades, da natureza e dos animais, dos livros que leu, da solidão e da escrita, das paixões e do mundo, do amor e da morte. Especialmente dos livros que escreveu, sobre a criação dos quais fornece inestimáveis pormenores. Detém-se demoradamente sobre a génese das Memórias de Adriano, dos esboços que traçara sobre a vida do imperador, do esquecimento desse interesse, que cultivara durante anos, e de como esses papéis lhe apareceram, muito mais tarde, numa mala de haveres pessoais que tinham ficado retidos na Europa e só chegaram aos Estados Unidos já depois da Segunda Guerra Mundial. Foi essa epifania que a motivou definitivamente a escrever a obra.
No decorrer das entrevistas, Yourcenar revela a sua imensa erudição e também algum pretensiosismo, disfarçado de humildade. Sob a aparência de uma modesta camponesa "exilada voluntária" entre os Estados Unidos e o Canadá, pretendendo conviver quase sempre com gente simples, conservou, contudo, a sua natureza aristocrática. Nascida no seio de uma rica família belga, órfã de mãe desde o nascimento, manteve uma relação privilegiada com o pai, que lhe incutiu o prazer da leitura, ainda que não a acompanhasse muito de perto, envolvido que estava nas suas aventuras amorosas.
Nesta "autobiografia" incompleta, Yourcenar revela o seu pensamento sobre múltiplos assuntos, do passado e do presente, que naturalmente não vou consignar, mas acho curioso fazer catorze citações das últimas páginas:
- «À notre époque où les progrès technologiques se sont jusqu'ici accompagnés de catastrophiques revers, ce serait la foi du charbonnier. Mais en quoi l'homme de gauche, optimiste à tout prix, diffère-t-il du capitaliste de droite qui rêve aussi de progrès, ou du moins en rêvait avant-hier? Chaque fois que je vais dans un super-market, ce qui du reste m'arrive rarement, je me crois en Russie. C'est la même nourriture imposée d'en haut, pareille où qu'on aille, imposée, par des trusts au lieu de l'être par des organismes d'État. Les États-Unis, en un sens, sont aussi totalitaires que l'URSS, et dans l'un comme dans l'autre pays, et comme partout ailleurs, le progrès (c'est-à-dire l'accroissement de l'immédiat bien-être humain) ou même le maintien du présent état de choses dépend de structures de plus en plus complexes et de plus en plus fragiles.» (p. 259)
- «Je condamne l'ignorance qui règne en ce moment dans les démocraties aussi bien que dans les régimes totalitaires. Cette ignorance est si forte, souvent si totale, qu'on le dirait voulue par le système, sinon par le régime.» (p. 271)
- «Mais qu'il s'agisse de répondre à une lettre ou d'ouvrir toute grande ma porte, je ne fais bien entendu aucune différence entre un Noir et un Blanc. Ou plutôt, il y aurait peut-être un petit sentiment de sympathie supplémentaire, dont il faut se méfier, car c'est du racisme à rebours.» (p. 278)
- «Hadrien, lui aussi, avait beaucoup d'amis juifs, libéraux et hellénisés. Il se heurte au fanatisme du vieil Akiba, et j'avoue qu'à moi-même Akiba ("c'était peut-être un héros, ce n'était pas un sage") n'inspire guère plus de sympathie que Khomeini. Le fanatisme juif n'est pas plus respectable qu'aucun fanatisme.» (p. 279)
- «D'autre part, j'ai de fortes objections au féminisme tel qu'il se présente aujourd'hui. La plupart du temps, il est agressif, et ce n'est pas par l'agression qu'on parvient durablement à quelque chose. Ensuite, et ceci sans doute vous paraîtra paradoxal, il est conformiste, du point de vue de l'établissement social, en ce sens que la femme semple aspirer á la liberté et au bonheur du bureaucrate qui part chaque matin, une serviette sous le bras, ou de l'ouvrier qui pointe dans une usine.» (p. 284)
- «Le viol est le crime d'une société qui n'a pas su résoudre, non pas tellement le problème des sexes que celui de la sexualité.» (p. 288)
- «Mais il y a parfois, chez de très grands hommes, une tendance à l'impersonnalité totale, dont Hadrien nous parle: "Un homme qui écrit ou qui calcule n'appartient plus à son sexe. Il échappe même à l'humain." C'est beaucoup plus rare, du moins jusqu'à nos jours, même chez les plus éminentes des femmes.» (p. 291)
- «C'est par ignorance ou par préjugé sexuel que trop de gens procréent au hasard des enfants qui fourniront des soldats aux guerres futures, et en attendant des clients aux promoteurs.» (p. 302)
- «{Car vous condamnez également la télévision?} - Certes, de la manière dont on nous offre. C'est pourquoi je n'en n'ai pas. Je n'ai pas besoin de gens qui arrivent à heure fixe chez moi comme des colporteurs qui viendrait proposer leurs marchandises ou essayer d'insinuer en moi les opinions qu'on leur a dit d'exprimer. Avez-vous lu 1984, d'Orwell, avec son monde de télévision obligatoire? Nous en sommes quasiment là.» (p. 305)
- «{Et les journaux, en lisez-vous tous les jours?} - Pas tous les jours. Je lis des piles de rapports économiques, techniques, écologiques; (...) Il faut tous les lire et les vérifier les uns par les autres. Mais l'édition dominicale du New York Times ou la sélection hebdomadaire du Monde me suffisent, et encore! D'abord parce que la presse est trop souvent un miroir faussé, où les événements et les hommes nous apparaissent déformés, grandis, rapetissés, suivant les cas. Et ensuite parce que le dessous des cartes, presque toujours, nous échappe...» (p. 305)
- «Comme André Gide, qu'on accusait guère d'être mystique, je pense que le problème social est plus important que le problème politique, et le problème moral plus important que le problème social. On en revient toujours à la lutte entre le bien et le mal.» (p. 310)
- «Les Démocrates et les Républicains se passent ici leurs opinions de pères en fils, si bien qu'on a parfois l'impression qu'il s'agit de deux clans plutôt que de deux partis, et les indépendants les meilleurs et les plus intelligents n'ont jamais pu se faufiler entre ces blocs.» (pp. 310-311)
- «J'ai été stupéfaite que Mémoires d'Hadrien atteigne un tirage qui doit avoisiner à présent le million d'exemplaires: je croyais l'avoir écrit pour trois personnes.» (p. 328)
- «Pour ne pas rater la dernière expérience, le passage, Hadrien parle de mourir les yeux ouverts. Et c'est dans cet esprit que j'ai fait vivre Zénon à sa mort.» (p. 330)
E é de olhos abertos que Marguerite Yourcenar deseja, no fim do livro, que ocorra a sua morte.
"Les yeux ouverts" é, também, o título deste livro autobiográfico, publicado há quarenta anos. As convicções da escritora podem ser, na generalidade, subscritas hoje, passado que é quase meio século.
Existem duas grandes biografias de Marguerite Yourcenar a que faremos referência em futuros posts: Marguerite Yourcenar, de Josyane Savigneau (1990) e Vous, Marguerite Yourcenar - La passion et ses masques (1995), de Michèle Sarde.
Marguerite Yourcenar visitou algumas vezes Portugal. Recordo-me da sua vinda à Fundação Gulbenkian, onde fez uma conferência, "apresentada" por Agustina Bessa-Luís e David Mourão-Ferreira. Foi a única vez que a vi pessoalmente e com quem tive o privilégio de trocar algumas breves palavras.
terça-feira, 21 de julho de 2020
RECORDANDO MADAME CHRISTINA E CAVAFY
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| Madame Christina e Eu - Café-Restaurante Elite (Janeiro de 2001) |
Recordo, hoje, Madame Christina Konstantinou, que ainda entrevistei no seu Café-Restaurante Elite, na Rua Safiyya Zaghlul, em Alexandria, há quase vinte anos.
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| Café-Restaurante Elite - Alexandria (Janeiro de 2001) |
Pertencendo à vasta comunidade grega de Alexandria, Madame Christina permaneceu no Egipto mesmo após a retirada das comunidades "estrangeiras", na sequência da tomada do poder pelo coronel Nasser em 1954. O seu estabelecimento foi sempre um lugar de referência para encontros da intelectualidade da cidade. Tive o privilégio de ter falado por três vezes com Madame Christina, (era assim tratada) nas minhas visitas a Alexandria, tendo-a entrevistado em 2001. Não voltei a vê-la. Nas minhas viagens posteriores, já raramente ia ao Café, devido à sua avançada idade. Em 2005, morreu. Depois da sua morte, ainda conversei lá com um filho, que vivia habitualmente em Paris e que me disse possuir em sua casa alguns dos manuscritos de Cavafy, um dos quais figurava em fotocópia à entrada do estabelecimento.
Madame Christina, nessa altura uma velha senhora, foi a única pessoa que conheci que ainda conhecera pessoalmente Constantin Cavafy, o imenso poeta grego-egípcio de Alexandria, amigo de E.M. Forster, evocado por Lawrence Durrell no Quarteto de Alexandria e que é uma das figuras cimeiras da poesia universal do século XX. (Foi traduzido pela primeira vez em português por Jorge de Sena e em francês por Marguerite Yourcenar).
Consta que Cavafy frequentara o Café Elite, mas não é verdade. O estabelecimento foi inaugurado em 1953, conforme averiguei, e Cavafy morrera em 1933. Christina Konstantinou falara com ele quando era muito jovem. É certo que Cavafy fora um frequentador de tertúlias de café, mas tinha os seus hábitos no Café Billiard Palace, alguns metros acima do Elite (quem sobe, vindo da praça de Raml) e que já não existia na altura em comecei a ir a Alexandria. Ainda fiz algumas tentativas para encontrar o local, mas debalde.
Era no Billiard Palace, especialmente nos bilhares da cave, que Cavafy engatava os jovens egípcios que levava a casa, situada nas proximidades, na Rua Lepsius, hoje Rua Sharm el-Sheikh, que é actualmente a Casa- Museu Constantin Cavafy, a cargo do Consulado-Geral da Grécia.
Contou-me com muita graça Madame Christina que, vendo entrarem rapazes no prédio, a vizinhança se interrogava sempre quanto ao andar a que se dirigiam, já que no apartamento por baixo de Cavafy existia uma casa de prostituição feminina (actividade então perfeitamente legal em Alexandria). As coscuvilhices das vizinhanças são eternas e Cavafy não escapava a elas, embora a prática homossexual fosse nessa altura perfeitamente admitida no Egipto. Hoje a homossexualidade é condenada, embora continue a praticar-se abundantemente, ainda que mantendo a conveniente discrição.
Com muita dificuldade, localizei anos depois, no Cemitério Grego-Ortodoxo de Alexandria, a sepultura de Madame Christina. Lamento não ter gravado essa interessantíssima conversa, mas o encontro fora imprevisto, ela nem todas as noites ia ao Café, e eu não estava precavido do indispensável gravador.
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| Jazigo da família de Madame Christina, com a data da sua morte: 12 de Maio de 2005 (Cemitério Grego-Ortodoxo de Alexandria) |
Conservo recordações de um passado inesquecível!
sexta-feira, 17 de julho de 2020
ALI DUAJI
Tive conhecimento, através do meu amigo Abdeljelil Larbi, da publicação, há poucos dias, da tradução portuguesa de um livro do escritor tunisino Ali Duaji, Périplo pelos bares do Mediterrâneo e outras histórias.
Trata-se da primeira obra deste autor editada em português e creio que da primeira tradução em português de um autor tunisino, mas posso estar enganado. Tenho várias obras de ficção de escritores tunisinos, mas todas em francês, ou porque foram escritas directamente en francês, ou porque foram traduzidas do árabe para o francês.
A presente edição inclui não só a novela Périplo pelos bares do Mediterrâneo (Jawlah bayna hânât al-Bahr al-Mutawassit), publicada pela primeira vez na revista "Al-'âlam al-'arabi", entre Setembro de 1935 e Fevereiro de 1936, como também cinco pequenos contos publicados em jornais e revistas entre 1936 e 1953: O Tio Giacomino (Al-''amm Jâkômînô), A Minha Vizinha (Jâratî), Ramadão (Ramadhan), Ele Faz-me Passar as Noites em Branco (Sahirtu minhu al-layâlî) e O Segredo do Sétimo Quarto (Sirr al-ghurfah as-sâbi'ah).
Ali Duaji (1909-1949), realizou apenas estudos primários, mas logo se interessando pela literatura. Começou a trabalhar no comércio aos doze anos, e desde muito cedo a enviar textos para jornais e revistas. Pertenceu a um grupo de intelectuais que se reunia nos cafés do bairro de Bab Suika e que ficou conhecido como grupo "Taht as-Sur", nome de um dos cafés que a tertúlia frequentava. Em 1936, fundou o jornal "As-Surur", célebre pelas suas caricaturas satíricas. Duagi foi um crítico da sociedade da sua época e a sua obra dispersa, especialmente os seus contos, foi reunida num volume publicado em 1969, vinte anos após a sua morte, vítima de tuberculose, numa antologia intitulada Sahirtu minhu al-layali (Noites acordadas). É a partir de então que o seu nome, entretanto caído no esquecimento, começa a ser recuperado e os seus textos (Duagi foi ficcionista, poeta, dramaturgo) a adquirirem nova visibilidade pública. Em 2014, as suas Obras Completas são editadas com o patrocínio do Ministério da Cultura da Tunísia. O grande escritor egípcio Taha Hussein (1889-1973) prefaciou um dos seus contos e considerou Duaji uma voz especial entre os modernos escritores árabes.
A novela Périplo pelos bares do Mediterrâneo descreve a viagem de barco efectuada pelo autor a partir de Tunes, com paragem na Córsega, em Nice, em Nápoles, no Pireu, em Atenas, em Istanbul e Esmirna. Era suposto o périplo terminar em Alexandria, mas o relato acaba nesta última cidade turca.
Como o próprio escritor indica, não lhe interessa referir (ou mesmo visitar, salvo excepções) museus ou monumentos, mas sim contactar as populações, observar os seus usos e costumes, fixar as suas características particulares, salientar episódios curiosos. Tudo isto numa linguagem muito simples, revelando mesmo por vezes uma certa ingenuidade, o que terá tornado os seus escritos muito populares e apreciados.
As observações registadas por Duaji, que numa leitura de relance poderão parecer superficiais, revelam a acuidade de um espírito atento a simples pormenores do quotidiano, numa tradição dos velhos contos árabes.
domingo, 12 de julho de 2020
GUILHERME II
Comprei há muito anos (talvez trinta), num alfarrabista, Guilherme II, de Emil Ludwig, conhecido autor de biografias de figuras célebres. Este livro (Wilhelm der Zweite, 1925, no original), traduzido num português estranho, não por ter sido editado em Porto Alegre (não está escrito em brasileiro) mas pelo vocabulário utilizado e pela retorcida sintaxe, foi publicado em 1934, numa edição especial para Portugal. Por motivo meramente acidental, restaurar-lhe a capa aquando da limpeza periódica de uma das estantes, li-o agora.
Começa o autor por dizer que não se trata «nem da exposição do período guilherminesco nem tão pouco da história integral do seu patrono: apenas um retrato de Guilherme II.» De facto, não estamos sequer em presença de uma biografia clássica mas de instantâneos da vida de Guilherme e da relação com as criaturas que lhe foram mais próximas. Não obstante, a descrição de Emil Ludwig ocupa 400 páginas num formato que se mais reduzido atingiria à vontade 700 ou 800 páginas, tal a preocupação de penetrar nos estados de alma das personagens, muitas vezes com pormenores supérfluos ou repetições desnecessárias.
Como não conheço qualquer outra biografia de Guilherme II, não posso avaliar da objectividade com que Ludwig aborda a figura do kaiser, mas é evidente uma especial antipatia por aquele que foi o último imperador da Alemanha. Sem pretender fazer uma crítica do livro, confino aqui alguns apontamentos.
Em primeiro lugar importa situar o imperador no tempo e no espaço familiar. Guilherme II (1859-1941), que foi imperador da Alemanha e rei da Prússia (1888-1918), era filho de Frederico Guilherme (efémero imperador-rei sob o nome de Frederico III) e de Vitória, princesa real do Reino Unido, filha da rainha Vitória. Seu avô fora o imperador Guilherme I, no reinado do qual se constituiu o Império Alemão (o Segundo Reich, sucessor do Santo Império Romano-Germânico) sob a égide do rei da Prússia (1871).
O nascimento de Guilherme foi complicado, devido a um parto difícil, de que resultou uma lesão no braço esquerdo, que ficou mais curto e semi-paralisado, defeito que procurava ocultar mas que marcou indelevelmente o seu comportamento para toda a vida. A mãe tinha-lhe pouca estima, que lhe era retribuída pelo filho, que nutria por ela especial aversão, extensiva à rainha Vitória, sua avó, aos futuros Eduardo VII e Jorge V, seu tio e seu primo, e à Inglaterra em geral. Talvez culpasse a mãe pelo seu problema congénito, mas esta considerava-o pouco capaz para reinar, inferior aos outros filhos havidos posteriormente. Todavia, Guilherme era inteligente e culto, de rápido raciocínio, mas com uma profunda instabilidade emocional, que lhe foi altamente prejudicial ao longo do seu reinado e lhe acabou por ser fatal.
A mãe achava-o dotado de uma natureza feminil, mais preocupado com decorações e condecorações, fardas e ornamentos do que com a política e é conhecido que preferia o convívio dos seus companheiros militares ou amigos pessoais à frequência das mulheres, que, no quotidiano, não partilhavam a sua vida. Não consta, porém, que tenha mantido qualquer relação homossexual, apesar do seu mais íntimo amigo e conselheiro, o príncipe Philipp zu Eulenburg, ter sido acusado (e julgado) de manter um círculo homossexual no seu palácio, como se verá mais adiante. De resto, Guilherme II era casado com Augusta Vitória de Schleswig-Hosltein e teve sete filhos.
Um dos defeitos deste livro de Emil Ludwig (existem muitas outras biografias do imperador) é, apesar da sua extensão, a de se preocupar excessivamente com fait-divers, descurando aspectos mais relevantes para a compreensão do desenrolar dos acontecimentos. Ludwig é parco na indicação de datas, a ordem cronológica é muitas vezes confusa e a indicação das personagens intervenientes, indicadas normalmente só pelos apelidos (quando muitos actores eram da mesma família), torna por vezes difícil a sua identificação, especialmente quando também se omitem os cargos, ou estes não são claramente explicitados.
A volubilidade de Guilherme II levou-o a cometer demasiados erros políticos, desde logo a demissão do chanceler Otto von Bismarck, o artífice da criação do Império Alemão, logo após a sua subida ao trono. E quis rodear-se sempre de pessoas que o adulavam, afastando as que o aconselhavam prudentemente. Uma das vozes que refreava a sua pulsão militarista, incentivada por muitos outros, era exactamente o príncipe Eulenburg, o mais íntimo dos seus amigos, dos quais existe uma correspondência quase apaixonada, e que despediu sem uma palavra, quando estalou o escândalo em 1907. Com a saída do príncipe, ficou Guilherme mais sujeito aos conselhos da ala do regime defensora da guerra.
Durante o seu reinado, o imperador saltitou de alianças e projectos de alianças entre os vários países europeus, do Reino Unido à Rússia, da França à Áustria, à Itália, ao Império Otomano. Foram atribuladas as suas relações com Eduardo VII e Jorge V e também com o czar Nicolau II. A sua aversão à Inglaterra enquadrava-se num misto de amor/ódio de que nunca se libertou. Andou 30 anos a desdizer-se e a proclamar-se pacifista e acabou por se deixar envolver estupidamente na Primeira Guerra Mundial, por causa do atentado de Sarajevo. Principalmente por uma questão de fidelidade ao velho imperador Francisco José, da Áustria-Hungria, e também porque considerava sagradas as pessoas reais, achando inconcebível o seu assassinato.
O despedimento, em 1890, pouco depois da sua ascensão ao trono, do príncipe Bismarck do lugar de chanceler, figura que Guilherme considerava incómoda, foi um erro, até porque o Chanceler de Ferro, embora demasiado militarista, era um hábil negociador de alianças e tinha uma ampla visão política. Caprivi, que lhe sucedeu, e Hohenlohe estiveram cerca de cinco anos no lugar, o príncipe Bernhard von Bülow, oito anos, Hollweg, sete anos, Michaelis e von Hertling, menos de um ano cada, e o princípe Max von Baden, o último dos chanceleres, pouco mais de um mês (1918), para lhe conseguir arrancar a abdicação, não devidamente formulada, já que o imperador pretendia manter-se como rei da Prússia, só oficializada já na Holanda, para onde precipitadamente fugiu. Entretanto, a República (de Weimar) havia sido proclamada. Estas mudanças de chanceleres e o seu tempo de permanência no cargo não as obtive no livro, em que é matéria tratada muito confusamente, mas colhi-a noutras fontes.
O escândalo Eulenburg, imprecisamente descrito no livro, consistiu na persistente difusão na imprensa (1906/1907), primeiro veladamente, depois com acusações concretas, de uma ligação homossexual entre o príncipe Philipp zu Eulenburg, embaixador e íntimo do imperador como se disse acima, e o general conde Kuno von Moltke, comandante militar de Berlim. Segundo o jornalista Maximilian Harden, haveria mesmo um círculo homossexual que se reuniria no Palácio de Liebenberg, residência do príncipe, de que fariam parte altas personalidades da aristocracia alemã, e que envolveria também a presença de jovens soldados e de rapazes dos meios operários. Nessa época, a conduta homossexual era proibida na Alemanha (§ 175º do Código Penal, disposição revogada, espantosamente, só em 1994) e considerada infamante [É estranha a introdução deste § 175º em 1871, já que o rei Frederico II da Prússia, o Grande (1712/1740-1786), personalidade de referência em toda a Alemanha (e idolatrado por Hitler), era um homossexual célebre, praticando assiduamente com os seus soldados]. Durante o processo que se seguiu vários oficiais, cujos nomes a polícia conhecia, suicidaram-se. O processo contra Eulenburg nunca foi concluído por entretanto ter sido proclamada a república. A intenção de Harden era mais precisamente atingir a reputação do kaiser, e afastar Eulenburg, cujas opiniões pacifistas e anti-imperialistas o imperador acatava, substituindo-o por figuras ligadas à ala dura e militarista do Império. Harden escrevia a soldo dessas forças e foi-lhe muito útil o conhecimento de informações que lhe foram fornecidas pelo diplomata barão Friedrich von Holstein, uma personagem sinistra que durante trinta anos manobrou na sombra a política externa da Alemanha, após a saída de Bismarck. Aliás, por causa da homossexualidade, já Friedrich Alfred Krupp, o famoso industrial dono das fábricas de aço Krupp, que passava uma parte do ano em Capri, onde convivia intimamente com os acessíveis rapazes da ilha, se suicidara em 1902, depois de ter sido denunciado pela imprensa. Krupp fazia também parte do círculo de amigos do imperador, que acusou o jornal do partido social-democrata de ter mentido sobre as inclinações do industrial.
Os anos que precederam a eclosão da Primeira Guerra Mundial são largamente descritos por Emil Ludwig, embora a prosa seja um tanto confusa. Ressalta a constante mudança de espírito do imperador e as peripécias que haviam de conduzir ao fim da dinastia Hohenzollern. O livro termina, um pouco abruptamente, com a chegada de Guilherme à fronteira da Holanda. Nem uma palavra sobre o tempo de exílio; é verdade, que quando foi escrito, Guilherme II ainda estava vivo.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
O "CHEGA"
Acabou de ser publicado o livro A Nova Direita Anti-Sistema: O Caso Chega, de Riccardo Marchi, professor do ISCTE e investigador dos movimentos de Direita em Portugal.
Esta sua mais recente obra está dividida em três partes: I - O Líder; II - O Partido; III - As Ideias.
Na I Parte, o autor debruça-se sobre o percurso pessoal de André Ventura desde os primeiros anos até à sua entrada na vida política, a passagem pelo PSD e a vontade de criar um novo partido.
A II Parte é dedicada à forma como se constituiu o "Chega". Quais às pessoas intervenientes e o papel de cada uma, as fases de formação do partido, as vicissitudes, o choque de ideias, algumas defecções, a participação nas eleições europeias e legislativas e a entrada de André Ventura para o Parlamento, como deputado único do novel partido. É um registo minucioso de todas as etapas, sem dúvida com interesse histórico mas talvez demasiado longo para o leitor comum.
A Parte III é a mais interessante. Segundo o autor, a ideologia do partido é muito mais flexível que o seu carácter populista e André Ventura está menos interessado na codificação de uma doutrina e mais nas formas eficazes de interpretação dos anseios das "direitas populares". Os principais ideólogo do "Chega" são dois: Jorge Castela, desde Outubro de 2018 até à saída do partido em Março de 2019, e Diogo Pacheco de Amorim, desde a sua entrada no início de 2019 e com particular incidência na Primavera/Verão de 2019. Estas duas linhas ideológicas poderiam ser classificadas como de "nacionalismo liberal anti-europeísta" e "liberal-conservadorismo europeísta", embora a sua tradução na proposta programática do "Chega" não revele especiais divergências.
A seguir, Marchi refere os principais documentos produzidos pelo partido (e quais os seus autores) e menciona que muitos dos documentos nunca serão assumidos oficialmente devido à oposição da ala social-democrata (Nuno Afonso). Com a saída de todos os autores principais, os documentos ficam letra morta, embora algumas das suas partes tenham sido aproveitadas posteriormente nos textos políticos do "Chega".
«A produção ideológica do Chega, portanto, aparece bastante dispersa, fragmentada, com uma pluralidade de documentos elaborados em apenas um ano e meio de existência do partido, a partir de grupos de trabalho diversos, com diferentes sensibilidades ideológicas, embora todas balizadas pelo liberalismo económico e pelo conservadorismo dos valores. Este conjunto de documentos incide frequentemente nos mesmos pontos, com variações por vezes sensíveis, nunca antitéticas, mas causadoras de indefinição, mais que de esclarecimento da posição do partido em assuntos relevantes. É possível, contudo, encontrar cinco temas recorrentes em toda a produção ideológica do Chega: a identidade do partido, a economia, a família e a educação, a imigração, a Europa. Resulta, assim, mais conveniente descrever as posições do Chega em relação a cada um destes temas, evidenciando as semelhanças ou as diferenças que os vários documentos e autores aportaram na sua abordagem.» (p. 139)
Não é assim fácil comentar aqui os temas acima indicados, até porque Riccardo Marchi procede à descrição da evolução do pensamento do partido ao longo do tempo.
No que respeita à Identidade, segundo a Declaração de Princípios, «O Chega assume a sua natureza nacionalista, liberal e democrática, conservadora e personalista», inspiração de Fernando Pessoa e Francisco Lucas Pires, e com referências a Montesquieu, John Locke, Edmund Burke, Roger Scruton, Adam Smith, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. No Programa Político Chega 2019, de Diogo Pacheco de Amorim, as referências filosóficas permanecem, mas é omitido o termo "nacionalismo liberal" por "conservadorismo de feição liberal". O liberalismo é uma constante na identidade do "Chega". No Manifesto Político Fundador, o "Chega" apresenta-se como partido "de base e natureza essencialmente popular" e aponta para a necessidade de "uma ruptura com o sistema político vigente", o que passa pela diminuição do estado na vida dos portugueses. Assim, o Estado deverá limitar-se a quatro conjuntos de funções: as funções soberanas (Justiça, Segurança, Defesa, Política Externa, Arbitragem/Regulação); as funções autoreguladoras e de gestão para a selecção de meios financeiros e humanos estritamente necessários à sua actividade; as funções de preservação do património material da nação; as funções subsidiárias e/ou supletivas, só nas áreas onde a sociedade civil não manifeste interesse em actuar. O "Chega" propõe ainda a diminuição do número de leis, que devem ser poucas, simples e claras, e a redução do número de deputados à Assembleia da República, o agravamento das penas para crimes de terrorismo, corrupção, homicídio (prisão perpétua), pedofilia (castração química) e opõe-se ao chamado marxismo cultural, combatendo as teorias de Max Horkheimer, Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Erich Fromm, que conduziram à introdução na agenda política das "causas fracturantes): ideologia do género, aborto, casamento gay, adopção de crianças por casais homossexuais, activismo trans, eutanásia, multiculturalismo pró-imigração.
O partido pretende constituir uma IV República (presidencialista), com a reforma do sistema eleitoral e a redução drástica dos ministérios. O "Chega" tem afinidades com o "Vox" espanhol, com com a "Lega" e o "Movimento 5 Estrelas" italianos, com o "Rassemblement National" francês e com o "Alternative für Deutschland" alemão, mas considera que a sua linha é especificamente portuguesa, não se identificando verdadeiramente com quaisquer destes partidos estrangeiros.
Relativamente à Economia, segundo Diogo Pacheco de Amorim, existem quatro concepções diferentes: o Estado como dono da economia, segundo os comunistas; o Estado como motor da economia, segundo os socialistas; o Estado como dinamizador da economia, segundo os sociais-democratas e os democratas-cristão; o Estado como regulador, árbitro e, no limite, suplente na economia, segundo os liberais-conservadores. O "Chega" inscreve-se nesta última família política.
São depois apontadas diversas medidas sobre impostos e respectivas taxas, sobre os contratos de trabalho, sobre o desmantelamento do aparelho burocrático do Estado, sobre a dependência financeira de Bruxelas, sobre os trabalhadores migrantes. É defendida a flexibilização da legislação laboral, a introdução do contrato de trabalho semanal, a privatização da saúde e do ensino (embora o Estado garanta o acesso gratuito), o combate à corrupção, a abertura da Segurança Social ao sector privado, etc.
No capítulo Família e Educação, passa-se do liberalismo ao conservadorismo. O casamento deve ser, segundo a matriz judaico-cristã portuguesa, entre homens e mulheres, embora o "Chega" considere formas legais de união entre pessoa do mesmo sexo, uma vez que rejeita a homofobia. É feita a defesa da família heterossexual, incentivada a procriação, devido ao declínio demográfico, mas condenada a adopção gay, a eutanásia, o aborto. A família, e não o Estado, é considerada como fonte primária de formação dos jovens e é condenada a ideologização do ensino público. Pacheco de Amorim propõe mesmo a extinção do Ministério da Educação «que não passa de uma tecnoestrutura blindada pelo PCP e pelo BE, impossível de ser penetrada e reformada por qualquer ministro» (p. 169). O partido rejeita o multiculturalismo e é a favor da manutenção da onomástica e toponímia de ruas, monumentos, etc., recusa pedidos de desculpa pela nossa História e defende a manutenção da nossa identidade.
Quanto à Imigração, o "Chega" rejeita todas as formas de racismo, xenofobia e qualquer forma de discriminação contrária aos valores fundamentais constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Combaterá as manifestações de racismo, de anti-semitismo, de suprematismo, e «os novos genocídios perpetrados pelas "teocracias no médio e extremo-oriente" contra os povos judeus, cristãos e yazidi» (p. 171) Faz uma discriminação entre «as comunidades migrantes que não representam qualquer problema (as oriundas dos países europeus, dos PALOP, da China) e as que, pelo contrário, são uma ameaça: os alegados "refugiados sírios", na verdade islâmicos vindos do Magreb, Bangladesh, Paquistão, com documentos forjados, através das redes criminais e das ONG.» (p. 171). Todavia, a principal preocupação do "Chega" é a imigração ilegal. E também o controlo de fronteiras que deve ser eficiente. A fronteira «é uma dimensão essencial para salvaguardar a Nação das redes criminais transnacionais, que controlam a circulação ilegal de seres humanos, drogas e capitais.» (p. 173). Outra questão que preocupa o partido é a atribuição da nacionalidade portuguesa. E também a identificação dos refugiados. O partido, quanto à nacionalidade, defende o ius sanguinis contra o ius soli. Além disso, pede saída de Portugal do Pacto Global das Migrações, da ONU, assinado em Marraquexe em 10-11 de Dezembro de 2018. «O plano integra a estratégia da ONU de promoção da migração de substituição para a Europa, como explicitado, já em 2000, no relatório Replacement Migration, do Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU. Fazendo eco de certas teorias da conspiração de algumas direitas radicais, o documento do Chega declara que esta estratégia concretiza as aspirações das elites globalistas, há muitas décadas empenhadas na constituição de um governo mundial, na senda do programa do austríaco Richard Nikolaus von Coudenhove Kalergi, elaborado na primeira metade do século XX.» (p. 180)
Na página 180, Riccardo Marchi escreve: «O alvo da crítica é a migração islâmica em massa: a chamada Hijrah, teorizada por Maomé, para implantação do Califado Mundial.» [Impõe-se-me fazer aqui uma correcção: A Hijra (em português Hégira), nada tem a ver com o Califado Mundial. Significa em árabe "abandono", "exílio" e é a palavra que designa a "fuga", segundo os nossos manuais escolares, de Maomé de Meca (onde estava a ser hostilizado) para Yatrib (que depois passou a chamar-se Medina) em 15/16 de Julho de 622. Esta data marca o início do Calendário Islâmico.]
«Também para Patrícia Sousa Uva a questão é de proporções, porque Lisboa sempre teve historicamente uma comunidade islâmica integrada, vinda do norte de África e de Moçambique, ao passo que os fluxos de massa previstos pelas organizações internacionais determinam um desequilíbrio e replicam os problemas vividos por outras capitais europeias. Para Nelson Dias da Silva, as consequências não são apenas sociais, mas também políticas, como demonstram os partidos mainstream europeus que ficaram reféns do voto étnico e já não conseguem reverter políticas migratórias que nas últimas quatro décadas começaram a mostrar a outra face da moeda.» (p. 181)
Sobre a Europa, André Ventura considera-se não nacionalista e europeísta convicto. Mas também há quem no partido entenda que Portugal se deve preparar para o desmoronamento da União Europeia. Um documento, aprovado em Convenção Nacional «enaltece o modelo da Europa das Nações soberanas e democráticas, governado, preferencialmente, pelo princípio de unanimidade entre os Estados membros - existente até ao Tratado de Maastricht - e não pelo princípio da maioria actualmente em vigor, funcional à hegemonia franco-alemã.» (p. 187) Também o "Chega" deve «recusar, de forma clara, inequívoca e absoluta a participação de Portugal numa Federação Europeia.» (p. 187). Pacheco de Amorim enaltece a «complementaridade entre nações diferentes na Europa, na senda da confluência entre as duas matrizes identitárias europeias: a greco-romana e a judaico-cristã.» (p. 187). «A desconfiança do Chega com as políticas de potência da UE integra, contudo, uma visão geopolítica claramente ocidentalista e avessa às organizações mundialistas. Neste sentido, já a Moção Castela pedia a suspensão da participação de Portugal na ONU, mas reivindicava a sua permanência na NATO, principalmente para fins de contraste ao terrorismo islâmico e de resistência à geopolítica hegemónica da Rússia, China e Irão. Por isso, alinhando com as direitas europeias, o Chega compromete-se claramente com a defesa da existência do estado de Israel - ameaçado pelo "nazijiadismo", culpado pelo recrudescimento do antissemitismo -, até com medidas radicais, como a transferência da embaixada portuguesa para Jerusalém, na senda do presidente Donald Trump.» (p.188)
Nas Conclusões, Riccardo Marchi define o "Chega" como um partido populista da nova direita radical. E explica. Direita radical e não extrema-direita. A extrema-direita tem um carácter anti-sistema e objectivos de abate do regime vigente, através de meios violentos (e, por isso, é alvo de repressão); a direita radical tem um carácter anti-sistema e objectivos de mudanças substanciais no regime, mas através das regras do jogo estabelecidas pela Constituição, inclusive com a sua reforma (e, por isso, é permitido). A velha direita (os partidos anti-sistema colocados mais à direita do espectro político), reconhecem-se herdeiros dos autoritarismo de entre-guerras: nacional-socialismo, fascismo, franquismo, salazarismo, etc. A nova direita, na sua cultura política, nada tem a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos da direita dos anos 20 e 30 do século passado. Quanto ao populismo, ele é uma ideologia de baixa densidade, caracterizada por uma visão dicotómica da realidade política, que contrapõe o povo como entidade homogénea e virtuosa à elite corrupta e corruptora. Esta visão dicotómica pode integrar ideologias densas, tanto de esquerda como de direita. «O Chega incorpora o "nacionalismo banal", transversal à sociedade portuguesa, presente também no discurso institucional, sem ligações e até crítico da forma como o Estado Novo o encarnou. Esta encarnação, com particular atenção ao seu artífice, António de Oliveira Salazar, pelo contrário, é central na mundividência da direita radical tradicional.» (p. 196)
* * * * *
Nesta obra, o prof. Riccardo Marchi pretende estabelecer um retrato do "Chega". Tarefa difícil, que o mesmo reconhece ao longo das páginas, já que a natureza do partido tem-se alterado com o decorrer do tempo, ainda escasso, da sua existência. Cita o autor diversos documentos, quer oficiais, quer da autoria de dirigentes ou de destacados militantes, sob a posição partidária face aos vários temas que preocupam os portugueses. E transcreve afirmações contidas nesses documentos, algumas das quais eu mesmo retranscrevi neste post. Daí se constata que há posições divergentes sobre certas matérias e que existe, segundo Marchi, um diálogo constante dentro do "Chega". É pena que o autor não tenha incluído, em anexo, os textos desses documentos, para melhor se apreender as intenções neles consagradas e a previsível orientação do partido que se afigura, por ora, um work in progress. De facto, não consegui encontrar, talvez por falha minha, um documento definitivo (se alguma coisa é definitiva?) do que é, neste momento, o programa oficial do "Chega".
Assim, pretendendo fazer um comentário ao projecto do partido, vou utilizar as conclusões constantes do livro de Riccardo Marchi, com a ressalva de poder errar a minha interpretação dado o facto de existir, em alguns aspectos, uma razoável margem de ambiguidade.
Parece pacífico afirmar que o "Chega" é liberal em economia e conservador nos costumes. Pretende reduzir o Estado ao mínimo, determinando que a sua intervenção na economia seja apenas supletiva, nas áreas em que a iniciativa privada não seja possível ou satisfatória. Não creio que esta proposta seja do agrado da maioria dos portugueses, que por tradição e atendendo às circunstâncias, desejam um Estado mais interventivo. Isto é, os portugueses querem mais Estado, embora melhor Estado. Mais Estado não significa necessariamente mais gente a viver à custa do Estado mas uma gestão racional dos serviços prestados à comunidade. Na presente crise de pandemia, como estariam os portugueses se não existisse Serviço Nacional de Saúde??? Mesmo com o SNS desde há muito descapitalizado, foi possível ocorrer a esta emergência nacional (e mundial). O que importa, até aguardando novas emergências de saúde, é robustecer o SNS. E que dizer da Escola Pública? É ela indispensável e deverá ser tendencialmente gratuita, onde ainda não é. Concordo num ponto. O Ministério da Educação tornou-se num monstro e desde há décadas, ensaiando sistemas votados ao fracasso, vem degradando a instrução dos portugueses. Mas não deve ser eliminado, antes reformado, custe o que custar. Com a missão de combater as actuais narrativas, que pretendem eliminar a história das nações, em nome de um suposto "politicamente correcto". Também a Segurança Social deverá ser fundamentalmente da responsabilidade do Estado. Tem-se visto, em países estrangeiros, como se desmoronaram serviços privados de segurança social. Vou mesmo mais longe. Considero que, além das funções de soberania, deviam pertencer ao Estado os serviços estratégicos da Nação: energia, água, transportes, comunicações, obras públicas, etc.,etc. Ainda sobre economia, apraz-me considerar que a "mão invisível do mercado", cara a Adam Smith, só existe teoricamente, como a prática ao longo do tempo, se encarregou de demonstrar.
O "Chega" assume-se como partido anti-racista e anti-homofóbico, ressalvando embora a indesejabilidade de certo tipo de imigração e determinadas reivindicações da ideologia do género. Nesta área, estou certo de que se verificam entre nós comportamentos e actos anti-racistas e que possa mesmo haver, em alguns segmentos da população, uma mentalidade subliminar racizante, mas não penso que se possa considerar Portugal como um país intrinsecamente racista, ao contrário de outros países europeus, como a França e a Inglaterra. Também o partido se reclama de anti-homofóbico, ainda que com especiais reservas à agenda LGBTQ+. Na verdade, a sucessão de reivindicações dos movimentos de identidade do género acaba por parecer à população, pelo seu exagero, absolutamente deslocada. A descriminalização da homossexualidade foi um passo importante, bem como o reconhecimento oficial de ligações de pessoas do mesmo sexo. É mais importante, após o reconhecimento legal, incutir no espírito das massas esta nova normalidade, e isso é um trabalho paciente e demorado. Não decorre das disposições jurídicas mas da evolução dos comportamentos sociais.
A proposta da castração química dos pedófilos merece-me a maior repugnância. A pessoa humana deve ser fisicamente inatingível, além do que esta medida, caso viesse a ser aprovada, não teria resultados significativos, como se poderia provar, mas o caso não vem agora à colação. A manutenção da integridade física dos humanos leva-me a condenar igualmente a excisão genital e, até, a circuncisão (salvo por razões meramente sanitárias), que não deixa de ser um acto castrador do ser humano. Eu sei que a ablação do prepúcio é comum a culturas milenares como o judaísmo e o islão, e a sua interdição provocaria certamente reacções inusitadas. Recordo que a proibição da circuncisão foi o pretexto para os judeus iniciarem a sua grande revolta contra Roma, que ensombrou os últimos anos do reinado do imperador Adriano, como Marguerite Yourcenar brilhantemente demonstra nas suas Mémoires d'Hadrien. Mas tal prática não deixa de constituir uma desfiguração do pénis original, abundantemente retratado nas estátuas gregas e romanas.
O "Chega" manifesta-se a favor da União Europeia, embora rejeitando uma federação, e infere-se que é partidário da manutenção no euro. Como Emmanuel Todd explica na sua mais recente obra, o euro tem sido uma tragédia para a Europa, pelo menos para alguns países, que não a Alemanha. Mas, nas circunstâncias actuais, creio que uma saída de Portugal da UE e do euro seria catastrófica. Basta olhar para o Brexit, ainda não concluído na prática (e o Reino Unido não utiliza o euro) para verificar os incontáveis problemas inerentes ao abandono desta União. Possivelmente, ela mesma acabará por se desmoronar. O que importa, sim, é tentar combater a progressiva interferência de Bruxelas nos assuntos que devem respeitar apenas às soberanias nacionais.
A luta contra a corrupção, que é uma bandeira do "Chega", merece todos os aplausos. Precisa, todavia, de ser efectivamente travada. De resto, todos os partidos a proclamam, mas não a praticam. Vício endémico dos povos. Importa fazer alguns esforços.
A reforma da Justiça deveria merecer uma atenção muito especial do partido, mas não vi propostas concretas. Dessa reforma depende largamente o futuro de Portugal. Ao contrário, quanto à reforma fiscal, existem no texto de Marchi inúmeros exemplos, inclusive com taxas mencionadas, mas a aplicação directa dessas propostas é manifestamente inexequível.
A redução do número de deputados parece-me interessante, bem como a forma da sua eleição e a redefinição dos círculos eleitorais. Também seria desejável a redução do número de assessores, consultores e congéneres que enxameiam o aparelho do Estado, a maior parte sem qualquer utilidade prática, apenas uma forma de empregar amigos e correligionários.É neste capítulo, e na existência de milhares de comissões, grupos de trabalho, unidades de missão, e milhentas coisas congéneres, que reside o verdadeiro peso do Estado. O aumento da intervenção positiva do Estado na vida pública não implica mais funcionários, até conduzirá à sua diminuição, se efectuada com racionalidade e sem cedência a interesses exógenos,
Não pretendendo alargar-me em considerações sobre as ideias do "Chega", há, todavia, um aspecto que me suscita algumas interrogações. Os textos referidos pelo autor, alguns dos quais transcrevi, manifestam uma constante preocupação relativamente ao anti-semitismo. Nada a objectar. Mas existem numerosas referências à defesa da civilização judaico-cristã. Ora a civilização Ocidental é cristã, a sua componente judaica (o Velho Testamento) foi há muito integrada na Civilização Cristã. De resto, ao longo dos séculos a Europa registou sempre uma luta (geralmente não bélica) entre cristãos e judeus. A herança propriamente judaica não integra a civilização cristã. Faz-se também referência à ameaça de perseguição de judeus no Médio Oriente, quando é suposto que são os próprios judeus que perseguem os palestinianos (veja-se o propósito de anexar a Cisjordânia). Por outro lado, no capítulo relativo à imigração, aceita-se a proveniente da Europa e da Ásia, mas não a proveniente dos países árabes e muçulmanos, o que, além de outras razões (também invocadas), denota um preconceito anti-islão. Finalmente, o "Chega" compromete-se com a defesa da existência do Estado de Israel (!!!), que não se afigura estar ameaçado (basta-lhe a protecção dos Estados Unidos, e não só). Todas estas alusões configuram uma posição filo-sionista do partido, que deverá ser esclarecida.
domingo, 21 de junho de 2020
LUÍS MACRON BONAPARTE
Foi publicado no princípio do ano o livro Les Luttes de classes en France au XXIe siècle, de Emmanuel Todd, consagrado antropólogo e sociólogo francês, que dispensa apresentações. Encomendei-o logo que posto à venda, mas a sua chegada a Portugal ocorreu já no período de confinamento, razão pela qual só há algumas semanas me chegou às mãos. Acabei agora de lê-lo.
Fruto de análise profunda e baseado em pormenorizadas estatísticas, o livro de Todd revela-nos uma França para muitos desconhecida. Nos tempos perturbados que vivemos, trata-se de uma obra de leitura imprescindível. Colocado sob o patrocínio de Karl Marx, que escreveu Les Luttes de classes en France, editado em 1895, este livro mostra-nos que chegámos ao fim de um ciclo iniciado em 1968, em que se fizeram aquisições definitivas [para mim o conceito de definitivo é um pouco relativo] como a emancipação das mulheres e a homossexualidade. E sustenta que o novo ciclo que agora se inicia será dominado por problemas económicos e pelo confronto de classes.
«Parmi les acteurs de nos nouvelles luttes de classes du XXIe siècle, nous n'allons pas trouver seulement le capitalisme mondialisé, des financiers aux dents longues, mais aussi des petits bourgeois, très nombreux, des policiers, des enseignants et surtout l'État profond, dont nous observons la montée regulière et menaçante. Nous décrirons des classes sans conscience et aussi des classes en grand état de fausse conscience. Nous découvrirons ainsi des dominés qui se prennent pour des dominants.» (p. 20)
Não é naturalmente possível descrever aqui as teses propostas por Emmanuel Todd, dada a extensão do volume agora publicado, mas tentaremos enunciar algumas ideias fundamentais.
O autor baliza o seu livro por duas datas: 1992, data do referendo do Tratado de Maastricht, e 2018, sublevação dos Gilets Jaunes (é neste período que começa a implosão da França) e encontra-se dividido em três partes, a saber: I - Le changement social: 1992-2018; II - La comédie politique; III - La crise.
Começa o autor por louvar a obra de Thomas Piketty, Le Capitalisme au XXIe siècle, a que fizemos referência aquando da sua publicação, embora notando que aquilo que se está a verificar em França não é tanto um aumento em flecha das desigualdades mas principalmente uma queda do nível de vida, que atinge todos (ou quase) os grupos sociais.
Houve, de facto, uma subida dos rendimentos dos 1% superiores, e especialmente dos 0,1 % superiores, que se encontram incluídos numa faixa de 10%, abaixo da qual figuram os 90% da população.
Para fundamentar as suas conclusões, Todd recolhe abundantes dados do INSEE (Institut national de la statistique et des études économiques) e publica inúmeros mapas de França, indicando, por regiões, a distribuição dos números que cita.
Para estudar a evolução das categorias sócio-profissionais, Todd distingue, grosso modo, as seguintes: 1) agricultores em actividade; 2) artesãos, comerciantes e chefes de empresa; 3) quadros e profissões intelectuais superiores (CPIS); 4) profissões intermédias; 5) empregados; 6) operários. Entre 1990 e 2018, a percentagem de operários diminuiu 9% e a de agricultores 3%. A percentagem de CPIS aumentou 6,7% e a de profissões intermédias 5,7%.
A seguir à queda económica, Todd dedica-se à deslocação social da inteligência, uma abordagem interessante que não é possível descrever aqui. Depois, é tratada a questão das estruturas familiares e o fim das culturas regionais. « La connaissance de l'anthropologie historique nous permet de percevoir le monde, non comme le discours de l'Europe et de la mondialisation le présente, mais tel qu'il est. Elle revèle, non des sociétés qui convergent, mais des sociétés qui divergent.» (p. 94)
«Notre société est devenue paradoxale: les niveaux de vie baissent mais – enfin – le modèle des classes moyennes est le bon. Simplement, nous devons dissocier l’idée de naissance d’une société de classes moyennes de celle d’enrichissement. Nous assistons à l’émergence d’une classe moyenne dominante dans un contexte d’appauvrissement. Une coïncidence temporelle que l’on peut expliquer: les classes moyennes étaient riches quand les ouvriers allaient bien et qu’il y en avait beaucoup. Si l’on détruit les ouvriers, on finit par détruire le niveau de vie en général et celui des classes moyennes en particulier. Telle est la magie de la globalisation économique qui avait voulu nous faire croire qu’en délocalisant la classe ouvrière vers l’Asie on allait avoir enfin la prosperité et la paix (sociale).» (pp. 113-4)
«Marx est le bon modèle tout simplement parce qu’il n’a pas peur de son ombre: il suit son instinct, il a l’audace, le génie des coups d’oeil ravageurs. La façon don’t il explique que les moeurs dépravés de l’aristocratie financière et du lumpenprolétariat se ressemble et que, aux deux bouts de la société, on trouve le même type de pourriture morale est fabuleuse. Même chose pour sa description des dilemmes de la petite bourgeoisie. Et comment ne pas frémir, en 2019, lorsqu’on lit, dans sa préface de 1869: “Je montre, au contraire, comment la lutte de classes en France a créé des circonstances et des conditions qui ont permis à un médiocre et grotesque personnage de jouer le rôle de héros. " Nous vivons dans la France d’Emmanuel Macron et cette phrase est pour nous. Elle montre qu’inévitablement la méthode de Marx va nous mener quelque part.
Le 18 Brumaire nous offre surtout deux concepts fondamentaux. Le premier est celui d’une autonomisation de l’État par rapport à la société. Citons Marx dont le sens de la formule reste inimitable :
C’est seulement sous le second Bonaparte que l’État semble s’être rendu indépendant de la société, l’avoir subjuguée. L’indépendance du pouvoir exécutif se révèle au grand jour lorsque son chef n’a plus besoin de génie, ni son armée de gloire ni sa bureaucratie d’autorité morale pour se justifier. La machine de l’État s’est à tel point consolidée en face de la société civile qu’il lui suffit d’avoir à sa tête le chef de la Société du Dix-Décembre, ce chevalier de fortune accouru de l’étranger, élevé sur le pavois par une soldatesque ivre, qu’il a achetée avec de l’eau-de-vie et du saucisson, et à laquelle il lui faut sans cesse recommencer à servir du saucisson.» (pp. 115-6)
«Une remarque avant de quitter la pointe extrême de la structure sociale. En France, nous sommes pour ainsi dire débarrassés du concept de "bourgeoisie industrielle" puisque l’euro s’est chargé de détruire notre industrie et a mis ce qui en restait sous la coupe des banques et de la finance. Il existe bien encore des petits patrons, dont on découvre d’ailleurs de temps en temps qu’ils font cause commune avec les Bonnets rouges ou avec les Gilets jaunes. Mais ils ne sauraient plus constituer une classe à part entière.» (p. 121)
Segundo Todd, a tipologia activa da população francesa (2015-2018) é a seguinte:
- Aristocracia estatal-financeira (e dependentes) – 0,1 + 0,9 = 1%
- Pequena burguesia (CPIS) – 19%
- Maioria atomizada – 50%
- Proletariado – 30%
A maioria atomizada inclui o que resta dos agricultores, as profissões intermédias (técnicos, enfermeiras, etc.), os empregados qualificados, os artesãos e os pequenos comerciantes. Os proletários englobam os operários e e os empregados não qualificados.
«Pour tenter de comprendre l’entrée en immobilité de notre pays, nous allons procéder à une étude historique, en quatre chapitres, de ce qui s’est passé entre le référendum sur le traité de Maastricht, en 1992, et la fin de la présidence Hollande, en 2017. Ce faisant, nous allons comprendre à quel point l’entrée dans l’euro a permis la fin de la démocratie représentative en France.
Avant même d’être officiellement adoptée le 1er janvier 1999, la monnaie unique a mis la société française sous tension, en raison de la politique de rigueur que ses critères d’adoption impliquaient. Une fois en place, elle a entraîné le dysfonctionnement du système politique. Celui-ci s’est mué en une "Grande Comédie", avec des acteurs s’évertuant à s’offrir aux électeurs un spectacle, allant du grotesque au tragique, pour dissimuler une triste réalité : la fin de la capacité d’action des politiques, l’euro ayant privé la France de sa souveraineté économique, donc de sa souveraineté tout court. À partir de la crise financière qui a commencé en 2007-2008, cette Grande Comédie s’est élevée par étapes au niveau de "Très Grande Comédie" : la France est alors devenue un simple satellite de l’Allemagne.» (p. 167)
«Pourquoi une classe dominante, qui était à l’époque l’aristocratie d’État mais pas encore une aristocratie stato-financière utilisant l’État pour s’enrichir personnellement, s’est-elle engouffrée dans un projet de monnaie unique aux implications aussi absurdes ?
J’ai lu avec passion Euro-Tragedy : A Drama in Nine Acts, d’Ashoka Mody, livre indispensable à quiconque souhaite suivre et comprendre l’histoire calamiteuse de l’euro, somme prodigieuse dont la plupart des lecteurs français ignorent l’existence. […] Mody nous décrit avec talent des dirigeants monétaires et des économistes américains admirables de finesse lorsqu’il s’agit d’utiliser la monnaie pour parer à une crise, ou de critiquer la rigidité mentale de leurs homologues du Vieux Monde. Mais le concept de libre-échange, auquel ils adhèrent, est leur bulle cognitive à eux, et on ne saurait trop conseiller à Mody d’y consacrer un autre ouvrage (titre suggéré : Free-Trade Tragedy : A Drama in Fifteen Acts).» (p. 170)
«Nous apprenons cependant dans EuroTragedy tout ce dont nous avons besoin : que l’idée de fusion des monnaies européennes (en fait du franc et du mark dans l’esprit des élites françaises) avait été soulevé pour la première fois par Pompidou dès 1969, puis reprise par Giscard en 1978. Cette idée, qui travaille donc depuis longtemps dans la haute bureaucratie française, s’est d’abord heurtée aux fermes réticences des Allemands. Ainsi qu’on l’a vu, leur réflexion monétaire a un temps d’avance sur celle des Anglo-Américains et mille sur celle des Français. Les Allemands avaient les premiers compris la nature des déséquilibres monétaires européens et les avantages de monnaies flexibles. Plus tard, ils seront donc intellectuellement beaucoup mieux armés que nos énarques – sans même évoquer l’ignorance économique crasse de Mitterrand – pour anticiper leur intérêt et accepter l’euro à leurs conditions. […] Les métaphores familières qui circulaient alors au ministère des Finances étaient souvent à caractère sexuel. Une monnaie forte évoquait une érection bonne tenue.» (p. 171)
«L’objectif officiel de l’euro était, en ligotant le mark dans la monnaie unique, de maîtriser l’Allemagne. Une telle idée ne pouvait naître que dans le cerveau de bureaucrates français qui, l’on a vu, contrairement aux Allemands, ne comprennent rien du marché. Maîtriser l’Allemagne, maîtriser l’économie. On peut encore attribuer au traité de Maastricht un troisième objectif : maîtriser le peuple français. Certains considéreront qu’il s’agit d’un procès d’intention. Mais tout ceci fut débattu en 1992. L’enjeu avait été formulé par Philippe Séguin lors de son discours du 5 mai 1992 devant l’Assemblée nationale : "L’alternative est claire : nous devons conserver notre souveraineté ou y renoncer." Il est difficile, quand on réécoute ce discours de plus de deux heures, moment d’éloquence et de lucidité parlementaire exceptionnel, de ne pas être frappé par son caractère prophétique :"‘Que l’on ne s’y trompe pas, la logique du processus de l’engrenage économique et politique mis au point à Maastricht est celle d’un fédéralisme au rabais fondamentalement antidémocratique, faussement libéral et résolument technocratique. Elle enterre la conception de la souveraineté nationale et les grands principes issus de la Révolution : 1992 est littéralement l’anti-1789."
Les acteurs de l’époque – Mitterrand excepté peut-être – étaient bien conscients qu’un État qui n’est plus maître de sa monnaie, de sa création monétaire, ne peut plus être un État démocratique au sens classique : "Ce qu’on nous demande d’abandonner, pour atteindre la prospérité, ce n’est pas seulement le droit de battre monnaie, c’est la possibilité de conduire une politique économique qui nous soit propre", notait encore Séguin.
Je ne saurais dire laquelle de ces trois dimensions – stratégie antiallemande, rigoriste économique ou antidémocratique – fut prédominante sur les tribunes où se mêlaient fraternellement, lors du débat de 1992, bateleurs socialistes et giscardiens. Ces trois dimensions se mêlent.
[…] Mais nous pouvons, après un quart de siècle, évaluer des succès pulsionnels relatifs.
L’objectif nº 1 de maîtrise de l’Allemagne a abouti à l’issue inverse : la soumission de la France à l’Allemagne.
L’objectif nº 2 d’amélioration de l’économie a conduit à la destruction de l’industrie française.
En revanche, reconnaissons-le, l’objectif nº 3 d’abolition de la démocratie a été atteint : le peuple français a été dépossédé de sa souverainité.» (pp. 173-4)
«Il ne s’agit pas ici de sous-estimer ce que représente l’idéologie du FN. Les origines d’extrême-droite de ses dirigeants historiques sont avérées. Son fonds de commerce est l’hostilité aux immigrés d’origine maghrébine, la haine ethnique. Mais, je puis vous l’assurer, s’opposer au lepénisme ne fait pas de vous un héros de la liberté et de l’égalité si vous avez, par ailleurs, privé le citoyen français de son droit de vote effectif, c’est-à-dire qui puisse servir à quelque chose. Tout au plus pouvez-vous vous présenter comme un oligarque libéral antiraciste.
Car, il faut bien se rendre compte, et c’est capital, qu’à partir de 1999 la démocratie représentative, au sens classique et conventionnel du terme, a cessé d’exister en France. Aujourd’hui, quand les classes supérieures parlent de démocratie ou de démocratie libérale, elles font preuve de cynisme, de déficience cognitive ou de fausse conscience au sens marxiste du concept. Car la démocratie représentative ne consiste pas simplement à voter. Je vais donner un exemple extrême pour me faire comprendre : "des élections au Folketing (Parlement danois) ont été tenue au Danemark le 23 Mars 1943, sous l’occupation nazie. L’événement m’est apparu tellement irréel que j’en donne les résultats détaillés pour montrer qu’il a bien eu lieu."
[Na impossibilidade de apresentar o quadro, refiro (é a intenção do autor) que o partido nazi dinamarquês obteve apenas 2,1% dos votos. Isto mostra o apego dos dinamarqueses à sua democracia, ainda que o Folketing não tivesse então qualquer poder.]» (pp. 182-3)
«Nous voici presque arrivés au temps présent, avec l’accession à l’Èlysée d’un président de la République de type nouveau à bien des égards – jeune, élu sans l’appui dans grand parti, refusant le clivage gauche-droite -, mais dont il convient de rappeler que, comme les précédents, il a perdu tout pouvoir. Dans la mesure où la France continue d’appartenir à l’Union européenne et à la zone euro, il ne peut pas modifier la politique commerciale ni gérer la monnaie. Sa seule marge de manœuvre réside dans la flexibilisation du marché de travail, la compression des salaires et des dépenses, la destruction des services publiques. Sous Macron, l’histoire politique reste une comédie.» (p. 223)
«Qui est Macron ? Son profil de base plutôt banal, au sein d’une hiérarchie socialiste qui fut, plus encore que celle de la droite, très "haute-bureaucratique". Il est inspecteur des Finances, il est passé un court moment par la banque, il a travaillé à l’Élysée avec Hollande, il a été ministre de l’Économie. C’est un personnage dont l’unique originalité est d’appartenir à une autre génération. Gardons en tête que le but fondamental du système politique français est d’organiser des pièces de théâtre successives qui doivent masquer l’absence de pouvoir économique réel du président : ce qui nous a donc été vendu cette fois-ci, c’est la jeunesse. Mais dans ses fondamentaux, Macron est comme les autres. Le passage par la banque, où beaucoup ont voulu voir une spécificité, en bien ou en mal, n’y change pas grand-chose puisque les banques, en France, reste sous la dépendance de l’État. Ajoutons à sa jeunesse un mariage assez original, il faut le dire, avec une femme plus âgée que lui. Macron est aussi le premier de nos présidents qui ait eu, avant d’entrer en politique, une petite formation de comédien – grâce à Brigitte, qui animait l’atelier de théâtre où ils se sont rencontrés.» (pp. 225-6)
«Au cœur du 18 Brumaire de Louis Bonaparte, nous l’avons dit dans la première partie de ce livre, on trouve une interrogation : comment un personnage aussi insignifiant a-t-il pu devenir président puis, par un coup d’État, empereur des Français ? Le problème Macron se pose exactement dans les mêmes termes. En tout cas, c’est ainsi que je le perçois depuis le début. Lorsque j’ai vu l’homme apparaître à la télévision, en candidat, j’ai été tout de suite frappé par sa parole vide, par ce qui m’apparaissait comme un enfilage de poncifs et de concepts creux.» (p. 228)
«Une fois prononcé le diagnostique d’un Macron incolore, inodore et sans saveur sur le plan intellectuel, nous restons confrontés à un problème d’ordre sociologique, que j’ai pu observer tout autour de moi comme dans les sondages : l’effet de fascination exercé par Macron sur certains secteurs de la société. La vacuité du président semble être entrée en résonance avec les aspirations, les besoins, les idées (le vide peut-être, tout simplement) de certaines catégories sociales. Mais, qui au fond, s’est donc identifié à ce dépassement du clivage gauche-droite, à cet euro-économisme creux, et, reconnaissons-le, à l’abandon bienvenu du thème ethno-religieux ?
Tout ce que j’ai pu lire sur les personnes qui ont encouragé Macron dans son ascension valide l’existence de ce groupe [a que Todd chama o Estado profundo], et surtout de son pôle étatique, comme point d’origine du macronisme. Beaucoup insistent sur les financements qu’il est allé chercher parmi les expatriés de Londres ou de New York, chez des activistes de start-up, ou sur ses relations avec quelques milliardaires français. Mais les grands patrons les plus âgés étaient plutôt fillonistes et si Macron a pu battre Fillon, c’est que les forces qui étaient derrière lui, en termes de financement ou de logistique, étaient ailleurs. Nous avons dit plus haut que la haute bureaucratie ne se limitait pas à l’inspection des Finances, qu’elle incluait aussi le monde de la justice. Et, de fait, celle-ci a rendu de grands services au candidat puis au président Macron : Fillon a été éliminé au moment où il fallait l’éliminer, plus tard Mélenchon détruit au moment où il fallait le détruire. La victoire de Macron démontre, en un sens, qui est le vrai patron en France : l’État libéré des partis, plutôt qu’un capitalisme sous perfusion. Le plus vraisemblable est donc qu’à travers Macron nous avons vécu l’arrivée directe au pouvoir de l’État devenu un acteur politique autonome.» (pp. 230-1)
«Depuis vingt ans, je me suis fait une spécialité d’insulter nos présidents. J’ai eu l’occasion de traiter Chirac de "crétin" sur France Inter, Sarkozy de "machin" sur France 3, Hollande de "nain" dans Marianne (je ne suis plus sûr). Mes estimations défavorables de leur niveau intellectuel n’étaient pas toujours justifiées (pour Chrirac et Sarkozy, du moins). Mais, dans toutes les cas, les journalistes me laissaient dire. Bon client, on s’amuse. Quand j’ai commencé à faire de même avec Macron, je me suis aperçu que, quel que soit l’interlocuteur, je touchais une corde sensible. Mettre en question l’intelligence supérieure du candidat puis du président Macron revenait à commettre un acte contre nature, impensable. Ceci est d’autant plus étrange que son parcours scolaire n’est pas sans faute. Il a raté le concours de Normale sup puis fait Sciences Po. Il est entré à l’ENA dont il est certes sorti inspecteur des Finances. Ce qui, comme on l’a dit plus haut, suppose, non pas un génie particulier, mais surtout de savoir se comporter en cireur de pompe efficace. Et, de fait, quand on lit ses biographies ou croise ses anciens condisciples, on constat que Macron a laissé, tout au long de son premier parcours, de lycée Henri-IV à Sciences Po, une flamboyante réputation de fayot : Agnan dans Le Petit Nicolas.» (p. 234)
«La sublimation de Macron en génie de la pensée par une partir considérable des Français d’en haut constitue un problème sociologique central. J’aurais aussi bien pu parler de "divinisation", d’ailleurs : qu’un gamin (et, on va le voir, un gamin mal élevé) puisse laisser qualifier sa présidence de "jupitérienne" sans faire rire nous met sur la piste d’une situation réellement psychopathologique de la petite bourgeoisie CPIS, qui semble se complaire désormais, non seulement dans la dénégation de la réalité, mais dans son inversion.» (p. 237)
Já me alonguei demasiado com citações, tanto mais necessárias quanto não quero, ao resumir, atraiçoar o pensamento do autor. Mesmo assim, ainda algumas outras antes de concluir.
«Résumons-nous. Le vote Le Pen existe, stable en structure de 2012 à 2017. En 2017, il détermine à 86% (R2) le vote Macron. Voter Macron, dès le premier tour, c’est donc voter contre Le Pen. L’acte n’a pas d’autre contenu. Ce qui nous permet de comprendre pourquoi le vide programmatique de Macron n’a pas représenté un problème pour son électorat. Dans la mesure où le Front national n’a aucun projet national positif, nous pouvons désormais affirmer que le macronisme, c’est d’une certaine façon la négation d’un zéro. Et surtout montrer à quel point la macronisme signifie l’absence de projet dans la petite bourgeoisie CPIS pour laquelle Le Pen semble être devenue un élément de structuration idéologique et mental nécessaire : la lutte contre le populisme (ou contre le peuple lui-même) est devenue son seul projet. Voilà qui est hautement compatible avec notre vision d’un pouvoir politique français impuissant dans l’Union européenne et la zone euro.» (pp. 248-9)
O autor debruça-se depois sobre o aparecimento dos Gilets Jaunes em 2018 e sobre o seu perfil sociológico. Explica depois, segundo os dados estatísticos, que a maior parte dos Gilets Jaunes pertence às categorias mais desfavorecidas, que designa de proletariado (26% de operários e 21% de empregados). Segundo a amostra estudada, 29% votaram por Marine Le Pen em 2019 e 17% por Jean-Luc Mélenchon, totalizando os votos brancos e as abstenções 27%. É muito interessante a análise sociológica a que procede, identificando as categorias profissionais e a sua implantação no território francês. Uma sondagem da população em 6-7 de Novembro 2018 indica que os Gilets são apoiados por 51% e recebem a simpatia de 20% dos franceses, isto é, um total de 71%.
A propósito dos Gilets Jaunes, Todd reserva o penúltimo capitulo a “A reacção macronista: o novo partido da ordem e o anti-semitismo 2.0”, em que discorre sobre a posição do Rassemblement National, a favor dos Gilets mas também a favor da Polícia (uma posição ambígua), já que é suposto que metade dos gendarmes e dos polícias votam Marine Le Pen. Por outro lado, Todd aponta a posição dos jornalistas e dos juízes a favor de Macron e menciona o Grand Débat macroniano como uma farsa única na história da França. Escreve ainda Todd: “J’ai pu y déclarer, dans l’une de ses émissions foutoirs improvisées qui contribuent à l’originalité et à la grandeur de la France, que le mouvement des Gilets jaunes m’avait rendu ma fierté d’être français.’ (p. 310)
Sobre a instrumentalização do anti-semitismo pelo Poder, tentada por Emmanuel Macron contra os Gilet Jaunes, Todd escreve : «L’antisémitisme classique se contente de dire que les Juifs sont des êtres nuisibles, disposant non seulement d’argent mais surtout d’un pouvoir occulte et malfaisant. Avec le macronisme, nous sommes confrontés à un procédé plus subtil : on accuse les milieux populaires français, dont les préoccupations sont tout autre, d’être antisémites. On se présente en défenseurs des Juifs que personne n’attaque en réalité – en tout cas pas de ce côté-là. Ce faisant, on tente de remettre, de manière subliminale, le Juif au cœur des problèmes sociaux français.» (p. 314) Esta campanha foi desencadeada com o pretexto de uma agressão verbal contra Alain Finkielkraut que interpelou uma manifestação dos Gilets Jaunes.
«Voilà pourquoi, en tant que citoyen français d’origine juive je ne suis pas tellement rassuré d’avoir pour protecteur un petit bourgeois de province président, même et surtout s’il est passé par la banque Rothschild, secondé par un ministre de l’Intérieur qui a commencé sa carrière en jouant au poker avec des truands marseillais. Ces deux-là nous parlent trop des Juifs. Cette boue-là ne renvoie pas à la bonne histoire, celle du J’accuse de Zola» (p. 317)
Sobre as eleições europeias de 2019, Todd escreve: “Dans l’espace théoriquement compris entre ces deux extrémismes de droite, le RN (représentant une violence xénophobe et verbale) et LREM (représentant une violence bourgeoise, verbale et physique), on trouve toujours presque 55% d’un électorat qui a atteint un niveau de pulvérisation extrême, incarné au premier chef par le nombre record de listes présentées : 34.» (p. 321)
Listas apresentadas : 34
Total de 32 listas – 54,3%
RN – 23,3%
LREM – 22,4%
«Nous constatons déjá toutes sortes de remises en question des libertés fondamentales, dénoncés par des avocats : des comparutions immédiates et des incarcérations abusives, une fermeture croissante du système médiatique à la critique. Savoir à quelle stade on pourra parler de "coup d’État" n’est pas évident. En arrivera-t-on à la suppression des élections, dont j’ai dit tout au long de ce livre qu’elles étaient devenues une comédie ? Sera-t-elle convaincante ou si ridicule qu’elle provoquera dans l’opinion un rejet, qui obligerait à s’en passer ? Je ne sais pas, mais nous devons garder l’esprit ouvert, mieux, placer d’avance dans notre réflexion une case "nouveautés impensables". Les vraies catastrophes historiques surviennent lorsqu’on n’a pas été capable d’imaginer le pire. Ce qui a rendu possible le fascisme ou le nazisme, c’est que, à l’exceptions d’eux-mêmes, personnes ne les avait imaginés.
Bien entendu, ainsi que je l’avais dit le 3 Octobre 2018, peu avant la crise des Gilets jaunes, lors d’une conférence organisée à Sciences Po par Étienne Campion et le groupe Critique de la raison européenne ("Qu’est-ce que le macronisme ?"), un tel coup d’État exigerait l’accord, voire la participation, du Rassemblement national qui, implicitement, contrôle la moitié des forces de l’ordre et de l’armée, les hommes du rang plutôt que les grades d’ailleurs. Une tel hypothèse semblera absurde à qui prend au sérieux la théorie de l’affrontement inexpiable de l’élitisme macroniste et du populisme frontiste. Mais si nous nous souvenons du fond idéologique commun aux deux forces – abolition fascitoïde de la distinction gauche-droite, désignation d’un ennemi intérieur et inférieur (les immigrés, le populo), violence implicite des conceptions politiques lepénistes et macro-bénalistes -, une telle convergence n’a rien d’inconcevable. Au niveau des "valeurs", en tout cas.» (p. 356)
«Je n’emploie pas le terme ‘fascistoïde’ à la légère à propos de Macron. Une démocratie ne peut fonctionner qu’avec les notions de gauche et de droite. Elle est d’alternance ou elle n’est pas. Dès qu’un parti se dit "ni de droite ni de gauche", qu’il s’agisse du lépenisme ou du macronisme, nous commençons de remonter plus ou moins vite vers les sources du fascisme. Avec le concept d’UMPS, le FN s’est défini comme non républicain ; en annonçant la fin du clivage gauche-droite, Macron s’est aussi défini comme non républicain. Ce qu’on constate dans son usage de la police, dans son usage de la violence, dans les restrictions des libertés, dans sa tentative d’instrumentalisation de la question juive, évoque pour moi une sortie du républicanisme.
La grande faiblesse du macronisme autoritaire, c’est cependant son conformisme économique, son attachement puéril aux conceptions les plus éculées de la rigueur budgétaire, pour tout dire son retour au pré-keynésianisme, au XIXe siècle. "Réduire la dépense publique tout en s’enrichissant soi-même", je l’ai suggéré plus haut, pourrait être la devise de l’ENA 2.0. Seulement, réprimer coûte cher. Il faut investir dans la police et bien au-delà de quelques primes de circonstances ; il faut construire des prisons qui soient autre chose que des lieux d’entassement de Gilets jaunes et de jeunes des banlieues, lieux de fusion de l’opposition à venir. L’absurdité intrinsèque du système euro est qu’il stimule les conflits sociaux tout en restreignant les moyens d’y faire place sur le plan répressif. Le fascisme était économiquement expansionniste, il se donnait les moyens d’une relance, non seulement par la construction de routes et de voies ferrées, de projets industriels, mais aussi en débloquant des crédits pour la police et l’armée. Macron, dont nous avons déjà suggéré qu’il n’était pas Machiavel, n’est décidément pas non plus Mussolini.
Mais retournons à Marx et à son 18 Brumaire, même s’il est difficile de se représenter Macron en futur Napoléon III. […] On relèvera toutefois qu Napoléon III vivait dans un monde dynamique et qu’il a présidé à une accélération de la révolution industrielle en France. Macron, s’il réalisait une forme de coup d’État, se retrouverait face au même double problème :
1) Il n’est pas le patron puisqu’il obéit à l’Allemagne ;
2) Le niveau de vie va continuer à baisser.
Terminei este post que resultou muito mais longo do que a minha previsão inicial. Mas tinha de ser. Não subscrevo integralmente as conclusões de Emmanuel Todd, mas, no essencial, concordo com a sua análise da situação em França. E recordo que este livro foi escrito ainda antes da eclosão da pandemia que afecta terrivelmente o mundo. Fosse-o depois e o pessimismo do autor seria certamente mais profundo.
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