terça-feira, 4 de agosto de 2015

LEONARDO E SALAÏ




«Leonardo, de quem não se conhece qualquer relação amorosa, foi talvez o caso mais famoso de esquerdismo.»

Sigmund Freud, Carta a Wilhelm Fliess


É com esta epígrafe que se inicia o romance de Mário Cláudio Retrato de Rapaz, publicado o ano passado, recentemente galardoado com o Grande Prémio da APE, e que só agora tive ocasião de ler.


Sabemos hoje, e Mário Cláudio certamente não o ignora, que a afirmação de Freud é falsa.

Porventura, o próprio Freud, cuja relação com o seu íntimo amigo e confidente Fliess permanece envolta em controvérsia, não desconheceria a inexactidão de asserção tão despropositada. É verdade que, em décadas passadas, foi hábito considerar que Leonardo Da Vinci, assumidamente homossexual, se comprazia tão só na admiração (e adoração) dos inúmeros e belos jovens que admitia na sua oficina  como criados ou aprendizes e que, por motivos vários, não passava da contemplação ao acto. Puro engano. Nem mesmo a condenação do "pecado nefando" por parte da Igreja Romana poderia impedir a sua prática, tão usual que ela era, mormente em Florença, que Dominique Fernandez, no seu último livro, Amants d'Apollon, apelida de capital da cultura gay. A imagem que se tem feito passar de um Leonardo, velho barbudo e até sujo, indiferente aos prazeres do sexo, tem servido propósitos outros que não os da verdade histórica. E não me custa a crer que o barbudo Freud se tenha comprazido, por razões sobretudo pessoais, a sustentar, na carta que escreveu a Fliess, a tese epigrafada na obra em apreço.

Leonardo Da Vinci (presumível auto-retrato)

Refira-se, a propósito e de passagem, que Leonardo Da Vinci foi acusado em 9 de Abril de 1476 (tinha então 24 anos) de "sodomia activa" na pessoa de Jacopo Saltarelli, de 17 anos. Segundo o processo, preciso em todos os pontos, parece ter-se tratado de uma violação colectiva, praticada por três jovens que foram presos e que, teoricamente, segundo a lei em vigor, se arriscavam à fogueira. Mas a homossexualidade estava de tal forma difundida em Florença que a pena de morte não era aplicada. Como as testemunhas não compareceram ao julgamento e como a denúncia era anónima, o tribunal civil, ao contrário dos tribunais da Inquisição, não podia condenar sem provas. Contudo, o inquérito prosseguiu, Numa nova sessão voltou a não ser possível o estabelecimento de prova, tendo o tribunal decidido, desta vez, encerrar o caso e libertar Leonardo e os seus camaradas (7 de Junho de 1476). Segundo as actas do processo, Jacopo Saltarelli, a "vítima" era um prostituto notório e é muito possível que se tenha tratado de um golpe montado pelos inimigos de Leonardo Da Vinci.

Mas regressemos a Mário Cláudio.

Autor de vasta obra, que conheço parcialmente, e que além da ficção cobre a poesia, o ensaio  e o teatro, Mário Cláudio é um escritor notoriamente consagrado e foi agraciado com os principais prémios nacionais. Creio, porém, que Retrato de Rapaz excede as narrativas anteriores. E não sei se admiro mais a excelência da linguagem ou a imaginação com que reconstitui, a partir de factos históricos, a espantosa (espantosa é o termo adequado) relação entre Leonardo Da Vinci (1452-1519) e o jovem Gian Giacomo Caprotti (1480-1524), que entrou ao seu serviço com apenas dez anos, e a quem passou a chamar Salaï (carinhoso nome para um diabinho, incorrigivelmente ladrão e mentiroso, glutão e teimoso, arruaceiro e vagabundo que, mesmo após admitido ao serviço do Mestre, a cuja oficina o pai o entregara para fazer dele um homem, não deixara de continuar a prostituir-se nas ruas de Florença e de Milão). O que é um facto é que Salaï, após entrar sujo e andrajoso no estúdio e depois de um banho a que o Mestre o obrigara, e cito Mário Cláudio, «Aos dez anos, sabendo o que sabiam da vida as putas do Borghetto, foi com alegria que Giacomo ouviu esta ordem mais, carregada do condão de dissipar nele quanto temor lhe restasse, "Despe-te lá!" Despojou-se dos andrajos que voltara a enfiar a seguir ao banho, e colocou-se a três quartos, impúbere de pele branquinha, e de mão na cintura, conforme ao que supunha agradar aos que o levassem consigo.»


Salaï, por Leonardo Da Vinci

É este rapaz, de extraordinária beleza e graciosidade, com um cabelo louro cujos caracóis lhe tombavam sobre a fronte e de penetrantes olhos azuis, que foi a grande paixão de Leonardo Da Vinci. Acompanhou o Mestre durante mais de 25 anos, em Florença, Milão, Roma e França, até 1518, quando o Mestre o devolveu definitivamente a Itália. Utilizando uma expressão bíblica, bem poderíamos dizer que ele foi o "discípulo amado". Não obstante ter surgido, em 1506, outro moço na vida de Leonardo, Francesco Melzi (1491-1570), de 15 anos, filho de aristocratas lombardos, que «at the time of Leonardo was a very beautiful and very much loved young man», segundo Giorgio Vasari (1511-1574), considerado o primeiro historiador da arte, autor de Le vite de' più eccellenti pittori, scultori e architettori, a verdade é que foi Salaï que sempre teve um lugar privilegiado no coração do Mestre.

Ao contrário de Salaï, que varria a oficina, preparava as tintas, fazia os recados e prestava outros serviços que a história propriamente não regista, e sem o qual Da Vinci não podia passar, Melzi, rapaz de estudos, organizava os papéis de Leonardo, ajudava-o não só na pintura mas nas múltiplas experiências a que o Mestre se dedicava, registando minuciosamente os trabalhos diários e por essas razões, e também por outras, óbvias, tornar-se-ia igualmente indispensável ao autor da Mona Lisa.

Aprendizes do ofício, nem Melzi, nem Salaï se distinguiriam na pintura. Melzi (il bellissimo fanciullo) teve o mérito de compilar os escritos de Leonardo, publicando o Trattato della Pittura. Salaï também não produziu qualquer verdadeira obra de arte, ainda que tenha assinado algumas pinturas com o nome de Andrea Salaï. Segundo Michel Larivière «Salaï est très beau, et Vinci a besoin d'un joli garçon auprès de lui, il le présentera durant toute sa vie comme son "élève", bien que Salaï n'ait jamais tenu un crayon ni produit une autre oeuvre d'art... que lui-même.»

São João Baptista, por Leonardo Da Vinci

Parece não haver dúvidas que foi Salaï que serviu de modelo ao São João Baptista de Leonardo Da Vinci que se encontra hoje no Museu do Louvre. Existe um esboço com o modelo da pintura representando um jovem nu com o falo erecto, chamado o Angelo Incarnato, atribuído a Da Vinci, mas que poderá ter sido desenhado pelo próprio Salaï, para exibir a sua apreciada anatomia.

Angelo Incarnato

O próprio Leonardo Da Vinci, que na adolescência foi discípulo de Andrea Del Verrochio (1435-1488), terá servido de modelo ao David que se encontra hoje no Museu Nacional do Bargello, em Florença.

David, por Andrea Del Verrochio

Leonardo entrou ao serviço de Verrochio, com 14 anos, em 1466, no ano em que morreu o mestre do próprio Verrochio, o grande Donatello. Ignora-se se Leonardo terá sido amante, a exemplo dos hábitos da época (aliás pouco diferentes dos actuais), do célebre pintor, escultor, mas também ourives e arquitecto. É certo que o amante "oficial" de Verrochio foi Lorenzo Credi, seu companheiro de estúdio e, mais tarde, seu herdeiro. Mas o facto de Leonardo, que consta não ser despiciendo em jovem, ter posado como modelo do David, a ser verdade, diz alguma coisa sobre o tipo de relação que possa ter existido entre ambos. Admitido na qualidade de discepolo (aprendiz), durante os 13 anos que passou no estúdio de Verrochio Leonardo foi sucessivamente garzone (companheiro) e finalmente maestro (mestre), em 1472. Teve aí como assistentes (e talvez como amantes, dados os costumes, mas não existe confirmação, pelo menos do meu conhecimento), Lorenzo di Credi, o favorito de Verrochio e o próprio Sandro Botticelli. Ainda a trabalhar no estúdio de Verrochio, Leonardo frequentou igualmente o atelier dos irmãos Antonio e Piero Pollaiolo.

Regressando ao livro de Mário Cláudio, cuja transbordante cultura se espraia pelo texto, cumpre sublinhar a maneira como, ao longo da obra, o autor se ocupa da relação mestre/discípulo. Só alguém possuído de uma sabedoria antiga e oculta pode discorrer com propriedade sobre essa ligação, que nada tem a ver com o binómio professor/aluno, tão caro aos nossos dias. Da Universidade antiga ficaram-nos os nomes de mestres imortais, que recordamos com emoção. E o testemunho da dedicação lendária, diria mesmo da paixão dos seus discípulos. Quem é hoje mestre nas universidades dos nossos dias?

Atrevo-me a pensar que Mário Claúdio, que já passou os 70 anos, idade que permite uma lúcida retrospectiva sobre a vida, se identificou com o próprio Leonardo ao escrever este livro. Porque ele é um livro sentido (na plena acepção do termo), que implicou uma entrega absoluta, única forma de recriar convictamente para o observador actual o universo renascentista. Retrato de Rapaz vale por aquilo que diz, também pelo que sugere, e finalmente pelo que omite mas que não escapa ao leitor mais perspicaz.

Continuemos a acompanhar Mário Cláudio: Um convite inesperado a Da Vinci por parte de Giuliano Lorenzo de'Medici, irmão do papa Leão X e mais tarde duque de Nemours, para executar em Roma um programa de obras extraordinárias a empreender nos jardins do Belvedere, permitiu afastar temporariamente Salaï de Milão, suspendendo-se o clima de confrontação, e ciúme, entre este e Melzi, que vinha progressivamente ocupando nos favores do Mestre, pelos seus dotes, de corpo e de espírito, a posição do discípulo amado. Descreve o autor a opulência da corte pontifícia, tal como a imaginaria Salaï, e com abundante riqueza de pormenores uma recepção para que foram convidados pelo embaixador de Portugal, Dom Miguel da Silva, futuro bispo de Viseu e mais tarde elevado ao cardinalato por Paulo III (1539, in pectore; oficializado em1541), e na qual Salaï desempenhou adequado protagonismo.

Não resisto a transcrever um inspirado naco de prosa a propósito do ágape:

«O cardeal [na altura ainda o não era] abria os braços aos que iam entrando, muito solícito na colheita de informes sobre a a saúde de cada qual, ou na obtenção de notícias da última trica vaticana. E os cães da casa, habituados a vaguear sem qualquer disciplina, ladravam a todo o intruso que desse mostras de querer invadir-lhes o espaço vital. Pietro Aretino, o obeso poeta que pedia meças às enxúndias do próprio Santo Padre, deslocava-se vagarosamente de quadra em quadra, amparado por validos que lhe bichanavam à orelha nome e função dos hóspedes com que ia topando. E como a baleia que engolira Jonas, o profeta, arrastava-se ele até se espapaçar na chaise-percée que um fâmulo lhe achegava, e onde ao longo do serão iria esvaziando as tripas atestadas. Vinham os criados de Dom Miguel, erguendo acima da cabeça candelabros de oito velas acesas, a anunciar que se achavam franqueadas as salas de pasto, e de tempos a tempos um tinido de campainhas avisava do ingresso de novo serviço de acepipes. Foi numa dessas alturas que, um pouco de improviso, e um pouco de maneira programada, se encenou um quadro vivo que contava Salaï como protagonista, e que resultava da encomenda que o representante diplomático, e promotor da recepção, fizera ao mestre florentino, descido às margens do Tibre. Soou uma trompa rouca, descerrou-se uma cortina de damasco azul, e ali estava ele, o eterno aprendiz, acomodado sobre um rochedo, de perna traçada, e exactamente na posição dos rapazolas que pelas adjacências do Castelo de Sant'Angelo, e apoiando-se nos muros meio derruídos, ofereciam os seus préstimos, entre submissos e displicentes, a quem ia passando. O anfitrião bateu palmas, e apresentou em voz impostada aquilo que designava por Baco nos Campos de Tebas, e que consistia na pessoa do moço, mal coberta de peles de animais, e de indicador em riste, a afrontar um mistério à sua esquerda, ou a exprimir sem palavras uma infâmia inominável. O pintor manifestara já o seu engenho, ao fazer deslizar pela távola principal, e espavorindo tutti quanti, uma grossa cobra de patas, a cujo dorso havia colado com azougue umas asas escamosas que se agitavam, tudo de molde a conformar uma horrenda criatura, à qual nem sequer faltavam os cornos retorcidos, os olhos pintados, e a barbicha diabólica. Do avesso do reposteiro em que se ocultara, magicando geometrias que o distraíssem de semelhante cafarnaum, Leonardo avistou o seu protegido, encarnando o mais debochado dos deuses do Olimpo. E com um soluço na garganta, e de mão trémula, rabiscou no caderninho que retirara dos dentros de sua véstia, "Baco no, San Giovanni Battista".

Pouco depois, e tendo atravessado pátios de heras, e contornado espelhos de água gelada, entraria Leonardo numa câmara de penumbra, ao fundo da qual se divisava um altar juncado de lucernas acesas. Uma colcha vermelha suspendia-se por detrás da ara do travertino onde três pombos estrebuchavam ainda, a gotejar o sangue de uma recente imolação. Meio diluído na treva, e rindo como quem se prestasse a liturgia em que não depunha a menor das convicções, Dom Miguel da Silva ia limpando às rendas de uma toalha o curto punhal com que procedera ao sacrifício. E o mestre detectaria no lado oposto três figuras ajoelhadas, uma mulher de cabeleira ruiva, e desnudada da cintura para cima, e dois jovens clérigos, de batina desabotoada, a exibir os peitos glabros, e de jaspe, onde os mamilos se destacavam como botões de uma rosa escarlate. Dos longes da catacumba foi avançando até à luz uma figura que o pintor demoraria a identificar, mas que concluiria corresponder ao eterno discípulo. Toucado por uma peruca loura, desse louro de urina que caracterizava as putas do Trastevere, e de beiços pintados a roxo de Semana Santa, ali se plantava o seu Salai, metamorfoseado em velho, e nu por baixo da camisa transparente. Encarando os fiéis com um esgar, e oferecendo-se como um místico cordeiro demoníaco, o rapaz deixava-se acometer pelo terceto formado pela meretriz, e pelos eclesiásticos, os quais, ansiosos todos naquele cio que se tem por escada alternativa de ascensão ao Absoluto, lhe erguiam o chambre na busca do pénis túrgido, e aberrante na galdéria em que o moço se transformara. "Introibo ad altarem Dei", proclamou o embaixador Da Silva, bispo representante de Portugal, e esperou que lhe chegasse aos ouvidos a resposta canónica, "Ad Deum qui laetificat juventutem meam", balbuciada pelos que entretanto se descomandavam na devoração das vantagens do aprendiz. E na sequência do monstruoso rito irrompeu um par de valetes mascarados, arrastando cada qual o seu espelho, assente em rolamentos, que ali ficava, a reflectir o mirífico auto. Quando o génio se aproximou enfim dos actores desta cena, extinguia-se a chama das lucernas, e apenas se descortinava na fumaça que se levantara um cordeirinho muito branco, e trémulo de frio, balindo na fome do leite materno, e aguardando a lâmina que o degolasse.» (pp. 90-3)

Ainda uma, e última transcrição do livro, já que os leitores interessados no percurso de Salaï deverão adquirir a obra e deleitar-se com o texto imaginado, mas não irreal de Mário Cláudio, que para o escrever com certeza se documentou minuciosamente. Trata-se do encontro de Francisco I, rei de França, com o papa Leão X, em Bolonha, na presença de Leonardo e do eterno discípulo:

«Se o olhar de Francisco I, rei de França, pousou suavemente sobre a cabeça encanecida de Leonardo, o de Leão X, vigário de Cristo, desceria com ganância sobre os desgrenhados caracóis de Salai. Marcantonio Flaminio, um mancebo de corpo elançado, e que nos seus dezasseis anos de idade muitos tinham já por grande promessa das letras, não deixou de perceber o súbito brilho da pupila pontifícia. Ninguém duvidava do lugar que o imberbe lírico ocupava no coração, e na cama, do Santo Padre, e não faltaria por isso quem entre segredinhos, risadas e piscadelas de olho, lhe denotasse a reacção.» (p.99)

A convite de Francisco I, ávido do conhecimento do artista, Leonardo resolveu acompanhá-lo a França, onde acabaria os seus dias. Salaï regressaria a Milão, ao fim de mais de 25 anos ao serviço do Mestre, com grande alívio de Melzi, que se via assim livre do rival. Leonardo amava Melzi, não só pela sua figura e pelo seu trato,  mas pela instrução e pela valia do seu trabalho como secretário particular. Qualidades que Salaï não possuía, ainda que a sua presença fosse indispensável ao artista que, em França, muito lamentou ter dispensado o azougado jovem, cuja vida atribulada prenunciava já no rosto um princípio de decadência, apesar de ainda não ter 40 anos.

O rei de França, também duque de Milão, instalara Leonardo Da Vinci na mansão de Clos Lucé, vizinha do castelo de Amboise, onde habitava o monarca. Foi-lhe prodigalizado um tratamento principesco, já que o soberano. conforme testemunho de Benvenuto Cellini, considerava o artista o homem mais notável que alguma vez existira.

Segundo um documento coevo, e quando ainda se encontravam juntos, o rei concedera uma pensão anual a Leonardo de mil escudos, 400 escudos a Melzi, então designado "aprendiz" e apenas 100 escudos a Salaï, referido como "criado".

A Morte de Leonardo Da Vinci, pelo Ingres

Leonardo Da Vinci morreria em Clos Lucé, a 2 de Maio de 1519, segundo a tradição nos braços do próprio Francisco I, chamado apressadamente para junto do leito do moribundo perante a iminência do fatal desenlace. Foi enterrado na Capela de Saint-Hubert no Castelo de Amboise. Francesco Melzi foi o testamenteiro e principal herdeiro, recebendo o dinheiro, a biblioteca e os objectos do Mestre. Mas Salaï não foi esquecido. Ficaria com metade das vinhas de Milão, revertendo a outra metade para o criado Battista de Villanis.

Salaï casaria em 14 de Junho de 1523, com Bianca Calidiroli d'Annono, e morreria em consequência de ferimentos num duelo, sendo sepultado em Milão em 10 de Março de 1524.

Porque é já longa a extensão deste post, nada mais acrescento sobre um livro de leitura obrigatória que evoca um Homem e uma época cujo conhecimento deveria, também ele, ser obrigatório. Ao escrever Retrato de Rapaz, Mário Claudio, pela sua cultura e sensibilidade, assume-se como um homem do Renascimento.

Saúda-se ainda o facto de Mário Cláudio utilizar a antiga ortografia, sem a qual o texto resultaria diminuído.



Para quem pretenda ilustrar-se sobre a visão de Freud relativamente a Leonardo, indica-se a edição de bolso Un Souvenir d'Enfance de Léonard De Vinci,  tradução para francês de Eine Kindheitserinnerung des Leonard Da Vinci,  por Maria Bonaparte.

domingo, 2 de agosto de 2015

A EUROPA SUBSTITUIU O CREDO DOS VALORES PELO CREDO DO MERCADO





 Adriano Moreira em entrevista ao jornal "i":


“É preciso reformular o estatuto do Presidente”, diz sobre o cargo a que nota falta de “autoridade reconhecida”.



Foi uma conversa de identificação de caminhos para a Europa – e o país com ela – contornar os “erros” que foi cometendo, depois de formada por estadistas como hoje Adriano Moreira diz já não ver. Atento, firme nas convicções (sobretudo na fé em que foi educado), rápido, mordaz nas entrelinhas. O académico, antigo ministro do Ultramar, deputado, ex-presidente do CDS, contorna com elegância avaliações governativas (embora registe que o país piorou), previsões eleitorais. Ainda assim, confrontado pelo i, acabou por soltar que Sampaio da Nóvoa é “um intelectual respeitado”, “foi um excelente reitor da Clássica”. Recebeu o i na Academia das Ciências de Lisboa, falou de si e da família, mas sobretudo dos tempos que mudaram ao ponto de hoje se exigir uma refundação dos partidos.

Foi deputado durante um período (79 a 91) em que apanhou de tudo, governos de maioria relativa, absoluta, bloco central. Hoje é fundamental um governo de maioria absoluta?

A exigência de o governo ter maioria absoluta é permanente nos regimes democráticos e é natural que essa exigência esteja sempre presente nos partidos que concorrem à governação. Quando as divergências são ideológicas, essa ambição é mais acentuada. Em época de crise é importante sublinhar que se conseguiu fazer isso em paz. Neste momento a minha convicção é que seria necessário começar por cada partido, rever a sua definição formal. Ver se a definição ideológica de cada partido ainda é aquela que orienta a sua intervenção actual.

Acha que há essa disparidade hoje?

O mundo é completamente diferente hoje. As exigências são outras e a própria sociedade civil sofreu alterações fundamentais quanto à escala de valores, designadamente à definição de instituições, a começar pela família. Está a diminuir em toda a Europa a relação de confiança entre as sociedades civis e os governos, o que se mede pelas abstenções. Estão a multiplicar-se os partidos que reagem contra a organização europeia, e o movimento das pequenas pátrias (Espanha, Itália, França) ameaça a União. A própria Europa está dividida em duas europas: a dos pobres (Chipre, Grécia, Itália, Portugal, ou seja, o Império Romano) e o Norte. De tal maneira que os caminhos por onde os bárbaros desceram para destruir o Império são aqueles por onde hoje sobem os imigrantes em busca de futuro.

Os países mais pobres tendem a eleger soluções que contrariam as soluções dos países mais ricos. Esta Europa é compatível com a democracia?

Uma coisa que as pessoas que cultivam as ciências sociais sabem é que não se sabe prever com segurança o caminho único. Os juízos de probabilidade são uma audácia e os de possibilidade devem ser feitos com a modéstia de esperar que apareça algum cisne negro que impeça os poetas de dizerem que todos os cisnes são brancos. A Europa tem neste momento uma crise mais séria do que é costume pôr em evidência. Tem a crise económica e financeira, mas também tem de resolver se a Grécia é um problema da Europa ou só da Grécia. Tem de resolver como vai evoluir o problema das pequenas pátrias, sobretudo a Inglaterra, depois da última eleição. E tem o problema da evolução do mundo muçulmano, do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que, na sua última mensagem, declarou que tem como objectivo destruir a nossa Roma e os nossos símbolos. Leva qualquer pessoa atenta a perguntar se é uma declaração de guerra ou se estamos em paz. Não é de estranhar que a responsável pela segurança e defesa autónoma da Europa tenha proposto a criação de um exército europeu. Não tenho vistos comentários, mas tenho uma inquietação: há sobras orçamentais para organizar uma segurança e defesa efectivas?

Nos últimos quatro anos Portugal foi conduzido pela troika. Discute-se se o país está ou não melhor que em 2011. Tem alguma resposta?

Tenho ouvido a resposta oficial. O Estado está melhor, a população julgo que não se sente melhor. Empobrecemos enormemente. A evolução de Portugal verificou-se neste sentido, sem mencionar governos responsáveis porque a geração viva tem é de se preocupar com o problema que enfrenta neste momento. Parece difícil que consigam uma convergência, que aliás tem sido muitas vezes proposta pelo Presidente da República. Mas há um problema que é fácil de enunciar: os portugueses precisam de trabalho e pão sobre a mesa. É uma coisa simples. A evolução do país pode ser caracterizada desta maneira: exógeno, sofre as consequências das decisões em que não participou, e depois ficou um país exíguo, com uma relação negativa entre objectivos e recursos. E finalmente uma situação de protectorado que se traduziu na troika. Essa foi das situações que senti mais humilhantes.

Este último resgate?

Não gostei de ver ministros portugueses a discutir com empregados das organizações. Eu sei que tenho empregados melhores que eles próprios na universidade e os ministros devem estar no Conselho Europeu, a discutir as circunstâncias reais da Europa e impor talvez uma regra: que o poder da palavra pode vencer a palavra do poder. É por isso que a representação política tem de discutir em pé de igualdade, mas nos centros de decisão.

Acha que que este governo foi demasiado submisso à...

... à troika. Os ministros vão aos órgãos representativos do poder discutir, com a convicção de que o poder da palavra é capaz de vencer a palavra do poder. Tivemos um grande exemplo com o padre António Vieira, na Restauração, que o praticou e teve grandes resultados. Isto também aconteceu noutros países. A crise é global e há consequências negativas enormes. Na Europa está a diminuir gravemente o apoio ao projecto europeu. E há um problema que foi mal conduzido que é o das migrações. Tivemos uma grande tradição europeia, ecuménica, de receber os sábios de qualquer lugar, e isso foi, no processo da União Europeia, substituído por uma espécie de culturalismo de portas abertas. Os imigrantes que vieram instalar-se na Europa foram gente que em grande parte não foi protegida pelas leis do trabalho, não foi justamente remunerada, não foi objecto de protecção do Estado social e sobretudo de políticas de integração. Em vez de serem comunidades, são multidões que reagem com violência às injustiças que ultrapassam a sua capacidade de esperar em paz por um futuro melhor.

Faz um quadro de pressão da Europa, por dentro e por fora. Há um conflito iminente?

Eu sou um europeísta convicto, mas acho que a Europa cometeu três erros. Procedeu ao alargamento sem nenhum estudo de governabilidade, e essa dificuldade tem sido enfrentada pouco a pouco. Depois definiu uma segurança e defesa autónoma em relação à NATO, mas não conheço nenhum estudo sobre fronteiras amigas. E uma das grandes dificuldades do projecto europeu é não ter um consenso estratégico. Não consegue decidir se quer uma Alemanha europeia ou uma Europa alemã. Tem de decidir se marcha para o aperfeiçoamento da União ou para um modelo federal.

Nas eleições legislativas, acha que...

Não acho nada antes de publicarem os programas.

O governo merece ser reeleito?

Não quero fazer comentários agora, pela razão que disse.

Mas do ponto de vista do país é importante saber como é afectado por esses desafios que levanta.

Portugal precisou sempre de um apoio externo. Afonso Henriques declarou-se logo súbito do Papa, a segunda dinastia precisou da aliança inglesa. Quando acabaram os impérios europeus, Portugal só tinha uma via: acompanhar a Europa de acordo com aquela ideia de que o regionalismo em relação à unidade europeia é indispensável para defender a nossa maneira de estar no mundo. Portugal precisa de uma janela de liberdade.

Mas quem pode ser esse novo apoio externo, onde está essa janela?

De todos os países europeus que tinham colónias, o único capaz de criar uma CPLP chama-se Portugal, o que significa que temos uma comunhão de afectos que ultrapassou um combate que durou tanto tempo. Além disso, a história dos heróis do mar... O grande problema é a plataforma continental, que é provavelmente a maior do mundo, mas que precisa de ser reconhecida pelas Nações Unidas. Há estudos profundos, com as maiores dificuldades financeiras, das universidades de Aveiro, do Algarve e dos Açores, bem como da Academia de Marinha. A riqueza dessa plataforma continental é incomensurável, mas a UE anda a ver se define o “mar europeu”. Se conseguir antes de nós termos reconhecido a plataforma, perdemos a janela de liberdade porque a plataforma passa a ser da Europa toda. Nenhum destes problemas está no programa de qualquer partido. Portugal tem janelas de liberdade que não pode esquecer.

Não existe essa sensibilidade dos partidos?

Não sei, pergunte-lhes... ainda assim fui convidado para ir falar disto à comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros.

E houve sensibilidade para o tema?

Sim... É evidente que isto envolve problemas financeiros, mas estamos a falar de um segundo problema. Possuir a plataforma é um grande capital.

Já várias vezes falou na relação difícil dos partidos com a sociedade civil. Porque acontece isso?

Há uma certa passividade, uma espécie de lei da inércia. Mas não vou falar nisso agora. A reforma do Estado tem de começar pelos partidos. A multiplicação de pequenos partidos na Europa é a prova de que isso é preciso. E hoje há entre nós mais um a sair da sociedade civil, um grande jurista [pega num jornal e aponta a notícia da candidatura de Ricardo Sá Fernandes a deputado pelo Livre]. Isto que está a acontecer na Europa é a prova provada de que os partidos têm de rever os seus programas. Quem fundou a Europa? As democracias cristãs? E têm importância na Europa hoje? Não...

Na matriz da democracia cristã estão coisas básicas que se mantêm. Quando assumiu a presidência do CDS, em 1986, disse que “o partido tinha de assumir a obrigação com os pobres”. Não sente desilusão pela falta de adesão desta máxima à realidade?

Não é só no país, é em toda a Europa. A Europa substituiu o credo dos valores pelo credo do mercado. O mundo é outro e os partidos precisam de se rever. E de retirar valores religiosos do conceito estratégico. Quando estive na delegação portuguesa da ONU, o secretário-geral era Hammarskjöld, que foi assassinado. Eu era um jovem e tinha uma grande admiração por ele, porque fosse qual fosse a hora a que nos deitássemos a janela dele estava acesa. Fez uma sala nas Nações Unidas toda despida, com uma pedra mármore e uma luz que batia na pedra. Chamava-se sala de meditação para todas as religiões: ele sabia que o conflito vinha aí.

A refundação de que fala é regressar aos valores-base?

Não é regressar, porque isso queria dizer que já se tinha feito uma vez. É pôr em vigor os princípios. Duvido muito que isto esteja nos programas dos partidos, cá e no mundo. O principal agora é o credo do mercado.

Mas em Portugal somos governados pela democracia cristã...

Mas isso foi quando entrámos na Europa e com o PS. Porque o Estado social é uma convergência entre a doutrina social da Igreja, a social-democracia e o socialismo democrático. Esses valores transformaram-se então no núcleo fundamental da Europa.

Eu estava a falar nos últimos quatro anos, em que PSD e CDS estão juntos no governo.

Sim, mas com a troika. A política é a da troika.

Não é uma desculpa deles?

Não, é um facto. A Europa toda está submetida ao valores do credo do mercado. É por isso que o Papa Francisco disse o que disse: “Esta economia mata.” Não estava a falar só para Portugal, mas para a Europa toda.

Se a dependência externa é tanta, é indiferente o voto nas legislativas. É isso?

Em Portugal, o número de reuniões cheias que não são organizadas pelos partidos nem pelos sindicatos multiplicam-se. Há uma busca e ainda não apareceram as vozes. A formação da União Europeia teve estadistas espantosos e hoje não tem estadistas dessa dimensão.

O país está prestes a escolher líderes políticos para dois ciclos, um no governo e outro para a Presidência da República. Vê alguma figura que tenha capacidade para estes cargos?

Houve um analista francês que, há dois anos, inventou a palavra “inidentidade”, a propósito da sucessão de poder na China, que foi inesperada. Há pessoas que têm capacidade, mas a população não as conhece porque ou falam ao ouvido do príncipe ou pertencem a uma burocracia que governa mas é discreta. O perigo é que quando aparecem estas pessoas a comunicação social cria uma imagem que não corresponde à realidade. Devemos pedir à comunicação social que não deixe isso acontecer nas próximas eleições. Tragam a imagem real dos candidatos. Precisamos de saber coisas sobre a personalidade real deles.

Há um candidato no terreno com essas características, António Sampaio da Nóvoa. Que ideia tem dele? Daria um bom Presidente da República?

Foi um excelente reitor da Clássica, foi o principal obreiro da fusão entre Clássica e Técnica, é um intelectual respeitado. O debate eleitoral, se for sobre os problemas do país, e não sobre o Estado-espectáculo, é que mostrará a capacidade.

De que espécie de Presidente da República precisaria o país?

Não quero falar sobre isso...

Porque é que tem tantas reservas em falar do que se passa no país?

É sobre o que se vai passar. Sobre o que se passa julgo que tenho falado bastante. Não me apetece ser adivinho. É como os júris da universidade, o voto é secreto... Depois transformam tudo numa intriga. Mas há uma coisa: é preciso reformular o estatuto do Presidente da República, que é um problema português desde a queda da monarquia. Acabou o poder moderador do chefe de Estado e a partir daí a impressão que tenho é que o país não se reconciliou com essa figura. É preciso redefinir os poderes do chefe de Estado, e sobretudo quando se diz que é o supremo magistrado da Nação é preciso perceber que há uma diferença entre poder e autoridade e que a autoridade da palavra tem de ser reconhecida. Agora, para isso, lembro o preceito de S. Paulo: quem tiver o carisma de ensinar que ensine. É isto. Há chefes de Estado que têm esse carisma, quando falam têm a autoridade. Não é poder, é autoridade. E a sociedade reconhece a autoridade talvez mais facilmente que o poder.

E há quanto tempo não vê esse carisma em Portugal?

Até desejaria dizer-lhe a data exacta, mas não, seria grave enganar-me.

Mas acha que a capacidade de intervenção do Presidente da República é diminuta?

Acho que sim. Acho que a autoridade do Presidente tem de fazer parte essencial daquilo que é o civismo. Não preciso de quem tenha mais poderes, preciso de ter alguém cuja autoridade seja reconhecida, a quem as pessoas prestem atenção quando fala.

Mas isso depende da personalidade da pessoa que ocupa o cargo.

Não é da personalidade, é da educação cívica. Do que precisa a Presidência da República é de poderes bem claros, mas ao mesmo tempo quando se diz que é o magistrado supremo da Nação que isto não seja semântica.

Foi ministro de Salazar. Como é que acha que os portugueses convivem com a memória de Salazar?

Houve uma votação… [Salazar venceu o concurso “Os Grandes Portugueses” em 2007].

Como explica essa escolha?

É muito simples. O tempo muda as perspectivas e para se perceber isso é preciso talvez ver como a população transformou o marquês de Pombal em membro do Benfica. Não acha estranho um povo ir pôr a camisola do Benfica no Marquês de Pombal? Foi um grande estadista, mas um ditador.

A maioria dos portugueses tem admiração por Salazar?

Não sei. Não tive de fazer nenhum inquérito aos motivos que levaram as pessoas a votar.

Mas houve uma reconciliação?

Eu escrevi nas minhas memórias o que pensava de Salazar. Não quero acrescentar mais nada. Se tiver paciência vai ler “A Espuma do Tempo”, está lá escrito.

Tem uma filha  [Isabel Moreira, deputada do PS] que está na política. Gosta dessa continuidade?

Eu gosto de todos os meus filhos. Cada um tem a sua personalidade. Foram educados com toda a liberdade e uma vez perguntaram-lhe numa entrevista: não entra em confronto com o seu pai? E ela respondeu: “O meu pai é o homem da minha vida.” Isto explica o ambiente.

Mas não tem simpatia por algumas causas que a sua filha defende, como o casamento homossexual ou a adopção por casais de pessoas do mesmo sexo.

Não. Não é essa a doutrina da Igreja, mas estou a acompanhar os avanços. Leio tudo. Há na Igreja muita gente a rever a doutrina. Por exemplo, o papel das mulheres. Tem sido feito um caminho enorme. No outro dia ouvi um comentário a que achei graça: então a mãe de Deus não merece respeito, só os homens? Há uma grande evolução e essa evolução é necessária, até porque a presença católica está a diminuir muito seriamente na Europa. Este Papa sabe isso.

A Igreja não tem acompanhado a sociedade?

Há muitas igrejas. O mundo mudou e não controlámos isso.

Nunca questionou a relação com Deus?

Não, porque foi a minha mãe quem me ensinou. A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca mais me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho.

O professor já viveu muito. Este é dos períodos mais difíceis que já viveu?

Cá em Portugal é. Uma situação muito complicada, sobretudo para as pessoas de idade. Vão fazer o quê? Eu percebo que toda a gente esteja preocupada. Com o futuro, com os empregos.... Eu hoje vou à minha aldeia [Grijó] e não há uma criança. Não há uma criança. É terrível. Depois a aldeia depende de uma cidade que é Macedo de Cavaleiros. Cresceu imenso, mas só vejo anúncios nas janelas porque as casas estão à venda. Quando vemos este disparate da TAP, por exemplo, quantas pessoas é que podem ir para a rua?

Com a privatização?

Como é evidente, como é evidente. E não são pilotos. Os pilotos são dos melhores do mundo e têm todos emprego, mas quem trabalha cá em baixo, nas bilheteiras ou nos carrinhos, não tem as mesmas perspectivas.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O PRAZER E A DOR


«Deus castigou-o e entregou-o às mãos de uma mulher»

(Livro de Judith, XIII, o versículo varia consoante as edições da Bíblia)



A recente edição em DVD do filme Vénus de Vison (2013), de Roman Polanski, suscitou-me a curiosidade de reler um livro há longo tempo adormecido na minha biblioteca: A Vénus de Kasabaïka (1870), de Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895), publicado em português em 1966, pelas Edições Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello, com tradução de Anna Hatherly.



Escritor e jornalista, Sacher-Masoch é autor de mais de 30 títulos, entre ficção e não-ficção, que à época obtiveram grande sucesso, mas poucos são os livros que, com o decorrer do tempo, não caíram no olvido das gentes. A sua notoriedade presente adveio-lhe da obra citada, em que um homem sente inefável prazer ao ser açoitado e humilhado por uma mulher. Deve-se ao psiquiatra austro-alemão Richard von Kraftt-Ebing, que se debruçou sobre esta "anomalia sexual" até então pouco conhecida, a cunhagem da expressão "masoquismo", utilizada pela primeira vez no seu livro Psychopathia Sexualis (1886). O termo entrou no vocabulário corrente e emprega-se hoje independentemente do sexo dos protagonistas.


As considerações de Krafft-Ebing desagradaram a Sacher-Masoch, dado que o psiquiatra identificou com este a personagem masculina do livro. Todavia, a vida privada de Masoch saiu da penumbra quando Aurora von Rümelin, sua primeira mulher, publicou em Berlim um livro de memórias, Meine Lebensbeichte (1906), sob o pseudónimo de Wanda von Dunajew, sabendo-se que este é o nome da personagem feminina que exerce a violência sobre o homem que apenas pretende ser seu escravo. A tradução francesa das memórias, Confession de Ma Vie (1907), já exibe o nome de Wanda von Sacher-Masoch. Nesta obra, Aurora confessa que o marido (com quem casou em 1873) a pressionou contra sua vontade para viver a experiência do livro, que descreve uma relação real que ele mantivera anteriormente e durante seis meses com uma amante, a baronesa Fanny Pistor.

Também Carl-Felix Schlichtegroll, auto-proclamado secretário de Masoch, escreveu duas obras: Sacher-Masoch und der Masochismus e Wanda ohne Maske und Pelz, obras todavia polémicas e contraditórias.


Deve-se a Gilles Deleuze (1925-1995) um interessante ensaio - e dos mais completos - sobre a matéria: Présentation de Sacher-Masoch (1967), publicado em português pela Assírio & Alvim em 1973, com o título, oportunístico, de Sade/Masoch. O livro refere-se a Masoch (e especialmente à sua obra sobre a Vénus das peles) e não a Sade, ainda que o Divino Marquês seja a propósito citado amplamente na obra, já que "sadismo" e "masoquismo" são, simplificando, duas faces da mesma moeda. Mas não restam dúvidas que, neste caso, se aproveitou o trocadilho de Sacher por Sade. Nem sempre os critérios editoriais são insondáveis.

Segundo Deleuze, um sádico nunca suportará flagelar um masoquista, nem um masoquista ser flagelado por um sádico, pois tal envolveria uma contradição na própria natureza de ambos.

Ainda segundo o filósofo, «a figura do masoquista é hermafrodita, como a do sádico é andrógina.» (p. 74) ou «A pergunta: o masoquismo é feminino e passivo, o sadismo viril é activo? só tem uma importância secundária. Esta pergunta pressupõe a existência do sadismo e do masoquismo, a conversão de um no outro e a sua unidade. O sadismo e o masoquismo não são respectivamente compostos por pulsões parciais, mas figuras completas.» (p. 73)

Citando Theodor Reik (Le Masochisme), Deleuze escreve: «Neste domínio duma psicanálise formal, e acerca do masoquismo, ninguém foi mais longe que Theodor Reik. Ele distinguia quatro caracteres fundamentais: 1º A "significação especial da fantasia", isto é, a forma do fantasma (o fantasma vivido por ele próprio, ou a cena sonhada, dramatizada, ritualizada, absolutamente indispensável ao masoquismo); 2º O "factor suspensivo" (a espera, o atraso que exprime a maneira como a angústia age sobre a tensão sexual e  impede de atingir o orgasmo); 3º O "traço demonstrativo", ou antes persuasivo (pelo qual o masoquista exibe o sofrimento, o embaraço e a humilhação); 4º O "factor provocador" (o masoquista reclama agressivamente o castigo como solução para a angústia e acesso ao prazer proibido):» (pp. 82-3)

Ainda: «O sentido do contrato masoquista é o de conferir o poder simbólico da lei à imagem da mãe. Para quê um contrato, e porquê uma semelhante evolução do contrato? Devemos procurar razões, mas constatemos desde já que não há masoquismo sem contrato - ou sem quase-contrato no espírito do masoquista (cf. o "pagismo"). (p. 83)

Ou: «É conhecida a distinção jurídica entre contrato e instituição: aquele em princípio supõe a vontade dos contratantes, define entre eles um sistema de direitos e de deveres, não se pode opor a terceiros e vale por prazo limitado; esta tende a definir um estatuto de longa duração, involuntária e interminável, constitutivo dum poder, duma potência, cujo efeito se opõe a terceiros. Mas mais característica é ainda a diferença entre o contrato e a instituição em função daquilo a que se chama uma lei: o contrato gera verdadeiramente uma lei, mesmo se essa lei vem exceder e desmentir as condições que lhe dão origem; a instituição, pelo contrário, situa.se numa ordem muito diferente da da lei, como que tornando as leis inúteis, e sobrepondo ao sistema dos direitos e dos deveres um modelo dinâmico de acção, de poder e de potência. Assim Saint-Just reclama muitas instituições e muito poucas leis, e proclama que nada se fará na república enquanto as leis prevalecerem sobre as instituições...» (p. 84)

Uma última citação: « Sado-masoquismo é uma dessas designações mal fabricadas, um monstro semiológico. Sempre que nos temos encontrado perante um signo aparentemente comum, tratava-se apenas dum síndroma, dissociável em sintomas irredutíveis. Resumamos: 1º a faculdade especulativa-demonstrativa do sadismo, a faculdade dialéctica-imaginativa do masoquismo; 2º o negativo e a negação no sadismo, a denegação e o suspensivo no masoquismo; 3º a reiteração quantitativa, a suspensão qualitativa; 4º o masoquismo próprio do sádico, o sadismo próprio do masoquismo, não havendo nunca combinação de um com o outro; 5º a negação da mãe e a inflação do pai no sadismo, a "denegação" da mãe e o aniquilamento do pai no masoquismo; 6º a oposição do papel e do sentido do fetiche nos dois casos; o mesmo se aplica ao fantasma; 7º o anti-esteticismo do sadismo, o esteticismo do masoquismo; 8º o sentido "institucional" de um, o sentido contratual do outro; 9º o super-eu e a identificação no sadismo, o eu e a idealização no masoquismo; 10º as duas formas opostas de dessexualização e de re-sexualização; 11º e, resumindo o conjunto, a diferença radical entre a apatia sádica e o frio masoquista. Estas onze proposições deveriam exprimir as diferenças sadismo-masoquismo, assim como a diferença literária dos processos de Sade e de Masoch.» (pp.145-6)

Regressando à obra de Sacher-Masoch, importa dizer que, para além de livros sobre outros temas,  este concebera, sob o título " O Legado de Caim" uma obra "total", um ciclo de novelas que representassem a história natural da humanidade, abrangendo seis grandes temas: o amor, a propriedade, o dinheiro, o Estado, a guerra e a morte. Este projecto ficou incompleto mas A Vénus de Kazabaïka, insere-se na 1ª parte dessa obra: O Amor.

Tendo nascido em Lemberg (designação alemã), cidade que foi capital do reino da Ruténia, mais tarde incorporada no reino da Polónia e posteriormente capital do reino da Galícia e Lodomeria, no tempo dos Habsburg e que hoje faz parte da Ucrânia (Lviv,  em ucraniano; Lvov, em russo; Lwów, em polaco; Leopolis, em latim), Leopold von Sacher-Masoch sempre se preocupou com as tradições e destinos das minorias do Império Austríaco, pelo que os contos galicianos, húngaros, polacos, judaicos, prussianos formam a maior parte da sua obra. Acompanhando a família para Praga (o pai fora nomeado para chefiar a polícia da cidade), apenas com doze anos, aí acompanhou as revoluções que em 1848 agitaram o trono dos Habsburg e que levaram à queda do chanceler Metternich e à abdicação do imperador Fernando I. Em 1855, obteve o doutoramento em filosofia pela universidade de Graz, onde leccionou durante onze anos.

Refira-se, a título de curiosidade, que por ocasião das comemorações de Graz Capital Europeia da Cultura (2003), foi concebida uma torta Sacher-Masoch, com geleia de groselha e maçapão, em alusão à célebre torta (de chocolate) Sacher de Viena, criada em 1832 pelo cozinheiro Franz Sacher para o príncipe de Metternich, chanceler do Império Austro-Húngaro.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

NOS MEANDROS DOS SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO




O embaixador José Manuel Duarte de Jesus lançou a semana passada, com apresentação do general Loureiro dos Santos e palavras prévias do general Ramalho Eanes, o seu livro Espionagem e Contraespionagem em Portugal.

Nesta obra, precedida por outros livros que escreveu sobre matérias conexas, o embaixador Duarte de Jesus analisa os serviços de informações portugueses durante o fim do Estado Novo e no período subsequente à Revolução de Abril. Baseado numa investigação aprofundada e citando sempre as fontes, o autor transmite-nos o resultado das suas pesquisas, enriquecendo o nosso conhecimento sobre coisas que ignorávamos ou das quais não possuíamos mais do que uma notícia superficial.

A obra compõe-se de sete capítulos, em que Duarte de Jesus discorre sobre o conceito de intelligence e refere os diversos serviços do ante e do pós 25 de Abril: a PVDE/PIDE-DGS, a Legião Portuguesa, o Ministério do Ultramar, as Forças Armadas, com subcapítulos dedicados à 5ª e à 2ª Divisão do EMGFA. Uma referência ainda aos serviços não institucionalizados, e aos "espiões" pessoais de Salazar, um não propriamente secreto, Jorge Jardim, e outro que Duarte de Jesus só muito recentemente identificou, Herbert Lester, apenas do conhecimento do antigo presidente do Conselho e da sua governanta D. Maria.

Muito curiosas as revelações sobre a atitude da DGS aquando do 25 de Abril e sobre o caso "Angoche", um navio que, como alguns ainda se lembrarão, foi encontrado incendiado e abandonado pela tripulação em 1971, nas águas de Moçambique, incidente nunca cabalmente esclarecido, e que, com certeza, perdurará como um mistério na história da guerra colonial.

O livro contém em anexo a reprodução de muitas cartas, telegramas e ofícios relativos à matéria tratada, que suportam as asserções do texto.

Por tudo isto se poderá dizer que a obra preenche uma lacuna em tão relevante área e prossegue as anteriores pesquisas do autor, a quem deveremos ficar gratos por mais esta sua contribuição sobre as "vicissitudes e mistérios" da espionagem e da contraespionagem em Portugal.


terça-feira, 14 de julho de 2015

A MORTE DA EUROPA




"O Rapto de Europa", pelo Tiziano

 Transcreve-se do PÚBLICO de hoje:

O fim-de-semana em que a Europa morreu


A União Europeia são 28 e no fim obedece-se à Alemanha. O Eurogrupo são 19 e no fim e no princípio obedece-se à Alemanha.



Ao contrário do que por vezes dizemos, a União Europeia não é uma organização de estados, nem um conjunto de tratados, nem sequer um conjunto de territórios e de nações, nem sequer uma história comum. A União Europeia é uma ideia. Um sonho de um certo futuro. Um sonho simultaneamente generoso e ambicioso, um sonho feliz como são os sonhos que sonhamos para os nossos filhos. E foi em nome dessa ideia, desse sonho comum de um futuro justo e próspero, que todos estes países, todas estas nações com tradições e línguas diferentes, com um passado carregado de guerras entre si, deram os difíceis passos de construção desta entidade que foi preciso inventar, a que chamamos hoje União Europeia, e que gostámos de imaginar que poderia representar as mais belas tradições da Europa, esconjurar os terríveis demónios do nosso continente e ser um farol para o resto do mundo.

Este sonho de uma Europa que seria a casa natural da democracia, um clube de democracias, uma associação de estados diversos mas solidários e iguais em direitos, regido pela equidade, pela justiça, pela liberdade, pela razão e pela cultura, pela defesa dos direitos humanos e pelo amor da paz, cosmopolita e aberto ao mundo, pátria de acolhimento dos que procuram a justiça e o progresso, fonte de entendimento nas relações internacionais, exemplo de um desenvolvimento harmonioso e respeitador das pessoas e da natureza, morreu este fim-de-semana em Bruxelas. A Europa, tal como a sonhámos, é morta.
 
O velório vai ser longo e doloroso e espera-se apenas que o enterro, ainda sem data marcada, ocorra antes de o cadáver entrar em decomposição. Mas o cheiro, que até agora tem sido disfarçado com perfumes, vai rapidamente tornar-se insuportável para o nariz de qualquer democrata.
 
Uma ideia é uma coisa poderosa, capaz de mudar o mundo e de mobilizar milhões. Mas é também frágil. E a ideia da Europa não resistiu a uma noite de “waterboarding mental” como aquela a que foi submetido o primeiro-ministro grego, depois de um fim-de-semana de chantagem, de mentiras espalhadas por poderosas máquinas de propaganda (“A Grécia quer viver à custa dos contribuintes europeus”) e de um permanente destilar de ódio contra Atenas.
 
O ataque à Grécia está ainda em curso e o seu desenlace ainda não se conhece mas, seja qual for a sua evolução, ele já destruiu a Europa.
 
Teria sido mais honesto se Angela Merkel e Wolfgang Schäuble tivessem enviado os tanques alemães invadir a praça Syntagma e tornar a pilhar abertamente a Grécia como o fizeram as tropas nazis há setenta anos. Mas o que a Alemanha e os seus cúmplices fizeram tem menos riscos e é mais lucrativo. A guerra de hoje ganha-se com “banks instead of tanks”.
 
O que a Alemanha fez, sob a direcção de Schäuble, a aquiescência de Merkel, a cumplicidade gananciosa de meia dúzia de países e a assistência de uns quantos servos solícitos como Passos Coelho e a hesitação de uns políticos medrosos, como Hollande e Renzi, foi a ocupação da Grécia e a substituição do que restava de democracia por uma ditadura financeira. Não foi uma ocupação militar, mas foi uma ocupação, que roubou a Grécia da réstia de soberania que lhe sobrava.
 
A União Europeia passou de “clube das democracias” a uma ditadura financeira - assim, sem aspas - executada pela Alemanha e que não tolera o mínimo desvio aos seus ditames. As democracias podem fazer eleições e escolher governos desde que estes façam exactamente o que Berlim e a banca internacional ditam. E, se não o fizerem, arrepender-se-ão amargamente.
 
Que a austeridade não funciona para resolver os problemas que diz resolver (dívida, crescimento, emprego, competitividade) todos o sabem. Por que razão então a imposição deste “catálogo de atrocidades”, como ontem a revista alemã Der Spiegel chamava às imposições feitas à Grécia? Para dar o exemplo. Para castigar o país que ousou pensar em soberania. Para humilhar o país que ousou convocar um referendo que desafiava Bruxelas e Berlim. Para dobrar a espinha do partido que ousou exigir as reparações de guerra devidas pela Alemanha. Para garantir que nenhum dos países devedores tem veleidades de independência e estraga as contas da Alemanha, a quem convém que haja países endividados que não só lhe pagam juros todos os trimestres, como importam automóveis e submarinos alemães aumentando as suas dívidas, como ainda afugentam dos seus países os investimentos que acabam por cair no colo de Berlim.
 
A austeridade não é um remédio amargo que a Grécia não quer tomar. É uma invasão de um país por meios não militares, uma usurpação da democracia, uma substituição de governos democráticos e uma forma de eternizar a submissão política dos países. A austeridade é o novo colonialismo. E a União Europeia tornou-se a sua ponta de lança.
 
Outra lição que este ataque à Grécia nos oferece é que o desejo de hegemonia da Alemanha não é uma fantasia de paranóicos empenhados em desenterrar fantasmas desaparecidos há muito. A Alemanha não esconde aliás essa veleidade. As propostas de Schäuble (como o sequestro de 50 mil milhões de euros de bens, que a Grécia só poderá reaver se pagar um resgate, como nos raptos) acabaram todas por surgir nos documentos, mesmo quando todos pareciam achá-las excessivas.
 

O IV REICH





 Transcreve-se do DN Globo um artigo de Março passado:

Economista britânico diz que Europa está na iminência de um "IV Reich"




Denúncia é de Stuart Holland, que critica severamente a "hegemonia" de Berlim.


O economista britânico Stuart Holland disse hoje em Lisboa que a Europa está "na iminência de um IV Reich", referindo-se à situação na Grécia e à "hegemonia de Berlim" na União Europeia.

"Temos uma hegemonia alemã que (os antigos chanceleres) Willy Brandt e Helmut Kohl não queriam. Eles não queriam uma Europa alemã, mas Angela Merkel que não tem as referências da Europa Ocidental não aceita conceitos como a solidariedade", disse à Lusa o economista britânico, à margem da conferência "Grécia e Agora?", que decorre na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Stuart Holland disse que a hegemonia de Berlim face aos restantes países da Europa pode levar a um "IV Reich" - numa referência à terminologia nacional-socialista (nazi), que chamava 'III Reich' ao regime de Hitler -, para criticar diretamente a chanceler alemã.

Questionado sobre as críticas do governo português, às posições do governo grego, liderado pelo partido da esquerda radical Syriza, o economista britânico ironizou, afirmando que o chefe do governo português está a "fazer o jogo de Berlim".

"Eu creio que é admirável. Ele (Pedro Passos Coelho) vai para eleições com cartazes que mostram a bênção de Angela Merkel. Deus o ajude. Deus ajude Portugal", afirmou.

 Para Holland, critico das medidas de austeridade impostas ao Estado grego desde 2012, existe presentemente na Europa uma situação política que desvirtua os tratados europeus e, sobretudo, o Tratado de Roma que, afirmou, estabelecia compromissos sobre "padrões de vida, coesão económica e social e solidariedade".

"Já não temos isso. Nem sequer intenções e procedimentos comunitários. Por parte da Alemanha, por exemplo, no quadro do Eurogrupo não existe e isto é uma tragédia", lamentou o economista.

Mesmo assim, o antigo conselheiro do Partido Trabalhista britânico disse que há processos institucionais como a "cooperação reforçada" que pode ser usada "contra" Berlim.

Stuart Holland explicou que a Alemanha pensa erradamente que tem poder de veto sobre a 'cooperação reforçada' tendo utilizado o processo para "flanquear" o Reino Unido.

"A Alemanha usou isto na proposta das taxas sobre as transações financeiras para ultrapassar David Cameron. O resto da Europa, especialmente os grandes países: França, Itália, Polónia, Reino Unido devem fazer o mesmo para flanquear a Alemanha e negar assim o 'IV Reich'", afirmou.

 Stuart Holland, 75 anos, antigo conselheiro do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson e autor do livro "Europe in Question: And what to do about it", entre outros, é declaradamente defensor das propostas anti-austeridade do ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, de quem é amigo.

A conferência "Grécia e Agora?", organizada pelo Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal e pelo Instituto Europeu, conta com as presenças, entre outros, do académico grego Elias Souziakis, do economista e antigo líder do Bloco de Esquerda Francisco Louçã, da deputada do PSD Mónica Ferro, de Rui Tavares, do Partido Livre e do antigo presidente da Assembleia da República, Mota Amaral.

A ESCAVADORA DE BERLIM E O SAQUE DE ATENAS




Pela sua pertinência, transcreve-se o artigo de "The Foreign Policy Group":
 

The Berlin Bulldozer and the Sack of Athens

Europe’s creditor-in-chief has trampled over values like democracy and national sovereignty, and left a vassal state in its wake. Which country will be next?


When finalizing my book European Spring last year, I hesitated before describing the Eurozone as a “glorified debtors’ prison.” After this weekend’s brutal, vindictive, and short-sighted exercise of German power against Greece, backed up by the Frankfurt-based European Central Bank’s (ECB) illegal threat to pull the plug on the entire Greek banking system, I take it back. There is nothing glorious about the Eurozone: it is a monstrous, undemocratic creditors’ racket.

Greece’s submission to the conditions that Germany demanded, merely to start negotiations about further funding to refinance its unsustainable debts, may stave off the prospect of imminent bank collapse and Greece’s exit from the Eurozone. But far from solving the Greek problem, doubling down on the creditors’ disastrous strategy of the past five years will only further depress the economy, increase the unbearable debt burden, and trample on democracy. Even Deutsche Bank, one of the German banks bailed out by European taxpayers’ forced loans to the Greek government in 2010, says Greece is now tantamount to a vassal state.

But this is much bigger than Greece. It is clearer than ever that Europe’s dysfunctional monetary union has a German problem, too. As creditor-in-chief in a monetary union bereft of common political institutions, Germany is proving to be a calamitous hegemon. Paris may have tempered Berlin’s petulant threat to force Greece out of the euro, but German Chancellor Angela Merkel undoubtedly calls the shots. The deal that Greek Prime Minister Alexis Tsipras capitulated to mirrored German demands, not the proposals he drafted with French help last week. By pointing out the futility of resistance if Greece wished to remain in the euro, Paris has, in a sense, acted as Berlin’s agent in securing Athens’ acquiescence.

Yes, small countries such as Slovakia and Finland agreed with Germany. But their voices are hardly decisive. From Berlin’s perspective, they are the useful idiots who provide cover for its narrow interests. Remember that, through their loans to Greece, Finns and Slovaks bailed out German banks, not Finnish and Slovak ones. It is naïve to think that Berlin wouldn’t bulldoze them if they stood in its way.

Let’s be clear. What Berlin and Frankfurt have done to Greece, they can — and will — do to others.
Let’s be clear. What Berlin and Frankfurt have done to Greece, they can — and will — do to others. In 2010, they blackmailed the Irish government into imposing 64 billion euros in bank debt on Irish taxpayers. In 2011, they forced out the elected prime minister of Italy, Silvio Berlusconi. They would surely hammer a future Portuguese government, itself flirting with insolvency. And yes, they’d bully Slovakia and the others currently cheering them on.
That’s the point of brutalizing Greece: to deter anyone else from getting out of line. Why vote for parties that challenge the Berlin Consensus if they will be beaten into submission, too? Created to bring Europeans closer together, the Eurozone is now held together by little except fear.

For Tsipras, the humiliation is complete. He called a referendum and won a massive mandate from the Greek people. But far from this strengthening his negotiating hand, the German-led creditors twisted his arm until he folded. Constrained by Greeks’ quaint attachment to a currency that now enslaves them, and blackmailed by the ECB’s threat to blow up the Greek banking system, Tsipras dared not refuse Berlin’s iniquitous conditions.

By this Wednesday and next, the Greek parliament must approve controversial reforms to value-added tax, pensions, and many other measures. These include an economically insane fiscal ratchet that would impose “quasi-automatic spending cuts” when fiscal targets are missed — as they inevitably will be, since the creditors systematically underestimate the harmful impact that both excessive austerity and the government’s insolvency have on economic growth. The hated Troika will return to Athens as colonial masters who can rewrite and veto Greek laws they dislike. All the measures enacted by the Greek parliament since its election in January need to be undone.

Those are merely some of the conditions not to secure a third EU-IMF loan program, but simply to start negotiations on its terms, subject to parliamentary approval in Germany, Finland, Slovakia, and three other countries. Eurozone authorities will also provide an immediate bridge loan to clear Greece’s arrears to the IMF and make the looming bond and interest payments to the ECB on July 20.

After two weeks of ECB-imposed capital and bank controls, the Greek economy is in dire straits. Sensible policymakers would prioritize rekindling growth. But the creditors are demanding even greater austerity, which will deepen the economic hole and increase Greece’s unsustainable debt burden. As for debt relief, which Greece desperately needs, it is indefinitely postponed: the creditors disingenuously say that this might be necessary at some point, although only because of Syriza’s mismanagement, of course. Shamefully, the IMF, having recently admitted that Greek debts are unsustainable, has again agreed to break its own rules by lending more to an insolvent Greece.

For now, many Greeks believe any deal is worth doing to keep Greece in the euro. But as the depression bites and the reality of German-imposed technocratic rule sinks in, the political backlash will surely grow. So the prospect of default and Grexit are hardly gone.

Greeks ought to use their extended stay in debtors’ prison to better plan their escape.
Greeks ought to use their extended stay in debtors’ prison to better plan their escape. To default safely within the Eurozone, Greece needs to secure its banks. On prudential grounds, of course, Athens ought to force them to keep their holdings of bonds guaranteed by the Greek government to a minimum and recapitalize them with assets more tangible than tax credits on future profits. That way the ECB cannot shut them down again.

The Eurozone as a whole remains an economic basket case and a democratic disgrace. It is trapped in a nightmarish limbo where politics precludes the creation of common institutions that would cage German power and put the ECB in its place, while fear prevents its victims from leaving. So much for the European dream.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

UNIÃO EUROPEIA: O PRINCÍPIO DO FIM


Héracles matando a Hidra de Lerna (Museu do Louvre)

Nunca fui um entusiasta da União Europeia. Quando foi criada a CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), em 1951, ainda era criança e nada percebia da matéria. Aquando dos Tratados de Roma (1957) que originaram a CEE (Comunidade Económica Europeia) e a CEEA (EURATOM) (Comunidade Europeia da Energia Atómica), continuava a ser muito jovem e, não pertencendo Portugal a essas organizações, o assunto passava-me realmente ao lado. O Tratado de Bruxelas (1965), que reuniu as três instituições sob a designação de Comunidade Europeia (CE) e as suas perspectivas provocou-me alguma apreensão, mas continuava a não dizer directamente respeito a Portugal. Comecei verdadeiramente a interessar-me em 1986, quando Portugal aderiu à CE. A interessar-me e a interrogar-me.

O Tratado de Maastricht (1992), que criou a União Europeia (1993) foi saudado por muita gente como uma etapa fundamental na construção de uma "nova" Europa, eu diria, de uma "nova" meia-Europa, já que não incluía os países da Europa de Leste, então ainda na órbita da União Soviética. As esperanças eram largamente incensadas mas nem todos depositavam as mesmas expectativas no futuro que se avizinhava. Já houvera o Acto Único Europeu (1986), preconizando as etapas que levariam à consagração do mercado interno e à criação da UE. Seguiram-se-lhe outros tratados. A história deste espaço europeu está recheada de tratados: Tratado de Amesterdão (1997); Tratado de Nice (2001), visando o alargamento aos países de Leste e prevendo a elaboração de uma Constituição Europeia, documento abortado pela não ratificação pela França e pela Holanda; Tratado de Lisboa (2007), que entrou em vigor em 2009 e substituiu a projectada Constituição.

O Tratado de Lisboa reformulou substancialmente os mecanismos até então em vigor, foi objecto de larga contestação em muitos países e prosseguiu, sob o pretexto de uma maior democratização da UE, a retirada das parcelas de soberania ainda detidas pelos estados-membros, reduzindo a uma caricatura as independências nacionais.

Entretanto, em 1 de Janeiro de 2002, entrara em vigor a moeda única da UE, o euro (caro a Mitterrand para evitar a "hegemonia" alemã) , embora nem todos os países a ela tenham aderido. E a União sofreu um súbito e perigoso alargamento em 2004 com a entrada apressada dos países que haviam saído da esfera de influência soviética.

Existem muitos mais documentos na história atribulada deste "espaço de democracia", como o Acordo Schengen, pactos de adesão, protocolos, declarações, etc., alguns abortados, mas o que escrevi chega. Nem vale a pena invocar os ideais "generosos" dos pais fundadores, Jean Monnet e Robert Schuman.

Manda a verdade que se diga que a "construção" europeia foi realizada quase sempre à revelia dos cidadãos dos diversos países, aos quais nunca foi explicada a natureza dos tratados acordados pelos respectivos governos nem pedida a sua opinião quanto à subscrição dos mesmos. Nem tão pouco se informaram as populações sobre a transferência progressiva das mais importantes parcelas das soberanias nacionais.

Vêm estas linhas a propósito da Grécia e do "acordo" desta madrugada em Bruxelas. Já se escreveu, nos últimos meses, especialmente nas últimas semanas e obsessivamente nos últimos dias, tudo e o seu contrário sobre a situação da Grécia.

Com todas as suas instituições, sustentando uma burocracia cuja manutenção implica importâncias astronómicas, a União Europeia, ao fim dos 50 anos da sua existência tornou-se um monstro terrível, uma Hidra de Lerna, a qual acabou por ser morta pelo mitológico Héracles (voltamos sempre à Grécia), que Tsipras talvez pretenda agora incarnar.

Não vale a pena reeditar a argumentação sustentada pelos diversos quadrantes ideológicos e políticos europeus. Mas importa recordar que o ultimato desta madrugada a Atenas denuncia uma fractura irreversível na União Europeia. Nada ficará como antes.

A constituição do "espaço político europeu" (então ocidental), que pretendia ser mais tarde uma união política, começou a construir-se pelo lado errado, embora o mais fácil e apetecível, o de uma união económica. A sua evolução, como se conclui dos documentos que citei, foi longa e atribulada, com avanços e recuos, mas sempre pouco democrática, ainda que evocando sempre a Democracia. E chegámos ao momento actual. Por ironia do destino, parece que (e talvez seja esse o desígnio de Schäuble) só agora se começa a desenhar a união política pré-configurada pela adopção da economia de mercado livre: a união dos países que se renderam ao neoliberalismo por ora triunfante. Não havendo já escolhas possíveis no espaço da União, as eleições nacionais passaram a ser uma farsa e o papel dos dirigentes dos países europeus uns meros títeres às ordens do capitalismo internacional. O caso Syriza tem o mérito de demonstrar aos mais crédulos que a Democracia na Europa acabou.

A rendição de Alexis Tsipras às exigências de Berlim decorreu da necessidade de evitar, para já, na Grécia uma guerra civil. As exigências de Berlim aos gregos, que nada têm a ver com a dívida (que todo o mundo sabe impagável) decorreu da necessidade de mostrar que não há lugar a alternativas ao pensamento único que se revê no monoteísmo do mercado. E de deixar um aviso aos cidadãos dos países que terão em breve eleições legislativas que só uma governação do "Centro" é exequível.

Os Estados Unidos da Europa, que Victor Hugo propôs no século XIX e muita gente tem defendido, lembrando os Estados Unidos da América,  não são viáveis. A Europa, embora vestida como Civilização Ocidental, é um mosaico de velhas culturas, muitas línguas, várias religiões (ainda que na generalidade cristãs), usos e costumes diferentes. São mais de dois mil anos de história, de alianças e guerras, de valores alternada e sucessivamente comuns e distintos. Nada tem a ver com os Estados Unidos da América, que apesar de uma população predominantemente anglo-saxónica (não falo propriamente dos nativos que foram exterminados pelos colonizadores), tiveram longas e mortíferas guerras até chegarem à União. E que, além disso, pouco mais contam do que duzentos anos de vida comum.

Talvez por isso se tenha começado a construir a Europa na vertente económica, já que na política e cultural tal constituiria uma impossibilidade. O que é mais difícil de perceber é como líderes socialistas (ou social-democratas) subscreveram tratados que consagravam a antítese da mais elementar governação socializante. Porventura com a ideia da preservação de um Estado Social minimamente decente, ideia peregrina, pois ele seria uma das mais desejadas presas do Capital, agora convertido no grande capitalismo financeiro. De resto, e apesar dos protestos póstumos de François Hollande ontem em Bruxelas, a Internacional Socialista já desapareceu (o actual presidente até é grego, o senhor George Papandreou).

À divisão Oeste/Leste da Europa, destruída pela desintegração da União Soviética (precioso serviço que ficámos a dever a Mikhail Gorbachov), surge agora a divisão Norte/Sul, protagonizada pela Alemanha. Nem falta uma "cortina de ferro" material, como a que está a ser construída pela Hungria na fronteira com a Sérvia. Diz-se que é a divisão entre os ricos e trabalhadores do Norte e os pobres e preguiçosos do Sul. Duplamente falso. Nem o Norte é mais trabalhador, nem sequer em geral mais rico, mas, por razões as mais diversas, obedece ao diktat alemão.

Escrevi aqui em 2012 sobre o fim da União Europeia, um "cadáver adiado que procria". Já escrevera aqui, em 2011, sobre o perigo alemão, a propósito do livro de Pierre Béhar, Du Ier au IVe Reich (1990).

Neste momento não se sabe o que vai acontecer nos próximos dias. Será o governo de Alexis Tsipras capaz de apresentar amanhã o programa exigido pela União Europeia, ou pelo Eurogrupo (por acaso uma instituição ilegal) ou por Merkel e Hollande, já não se sabe exactamente por quem? Será esse programa aprovado pelo Parlamento grego? E depois? Será para cumprir? Haverá novas exigências dos credores? E a dívida? Sim, e a dívida?

Em qualquer caso, o Syriza e o "Oxi" dos gregos tiveram o mérito de lembrar, aos que porventura ainda duvidassem, que, sob a falsa aparência de liberdade, vivemos num regime totalitário que respeita algumas liberdades formais, para melhor ocultar a natureza ditatorial de uma governação absoluta.

Quro crer que, esta madrugada, começou definitivamente a contagem decrescente para o fim da União Europeia. Pode haver sobressaltos de percurso, tentativas de remediar algumas situações. remendos ali e acolá, mas instalou-se uma desconfiança que permanecerá. Sem esquecer que para lá da divisão Norte/Sul que apontámos, continua a existir uma divisão com o Leste, cristão mas ortodoxo, agora protagonizado por Vladimir Putin.