sábado, 8 de setembro de 2018

ANTÓNIO BOTTO REVISITADO





Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada: 
- Sou ave
Bem educada.

Botto, "Palavras dum avestruz todo gris" (1922)




Acabou de ser publicado o livro O Mundo Gay de António Botto, de Anna M. Klobucka, licenciada em Estudos Ibéricos pela Universidade de Varsóvia, doutorada em Línguas e Literaturas Românicas pela Universidade de Harvard e professora do Departamento de Português da Universidade de Massachusetts Dartmouth, sendo também especialista em estudos do género e investigadora da obra de Fernando Pessoa.

Antes de comentar o livro, quero manifestar duas reservas. Em primeiro lugar, o facto de a edição respeitar a grafia do miserável Acordo Ortográfico 90; não havia necessidade. Em segundo lugar, a utilização da palavra gay no título. Eu sei que, devido ao predomínio universal da língua inglesa, facto que profundamente lastimo, gay passou a ser sinónimo de homossexual, embora o seu conceito possa ser mais vasto. O significado de gay em inglês é alegre, ou equivalente, e foi e continua a ser usado como apelido (por exemplo, o célebre dramaturgo do século XVIII, John Gay), o que se torna incómodo para os usuários que sendo Gay podem não ser gays. A palavra, proveniente do francês gai (igualmente qualificando as coisas alegres), começou a ser utilizada como sinónimo de homossexual masculino (e às vezes feminino, em alternativa a lésbica) nos Estados Unidos (só podia ser) nos finais dos anos trinta do século passado. Compreendo, contudo, a opção de Klobucka ao utilizá-la; é que a autora pretende analisar não só a figura de Botto, e a sua obra, como todo o universo em que se inseriu a sua vida. É portanto mais abrangente do que seria "o mundo homossexual de António Botto". Depois, confessa-nos Klobucka, também se inspirou no título do livro do famoso investigador irlandês de García Lorca, Lorca y el mundo gay (2009). Mas nunca me esqueço que a bomba atómica que os americanos lançaram sobre Hiroshima, em 1945, chamava-se "Enola Gay"!


Não me proponho, evidentemente, discorrer aqui sobre toda a matéria constante desta brilhante investigação da intelectual polaca mas apenas referir algumas notas, cuja pertinência importa registar, ou assinalar alguns aspectos menos conhecidos do grande público. Aliás, este livro, organizado numa perspectiva dos estudos do género, não é propriamente uma biografia do poeta "maldito" mas uma contribuição para o enquadramento da sua obra no período da sua vida.


António Thomaz Botto, nasceu em Concavada (Abrantes) em 17 de Agosto de 1897 e morreu no Rio de Janeiro, em consequência de um atropelamento, em 16 de Março de 1959. Poeta, ficcionista e dramaturgo, celebrizou-se pelas suas Canções (1921), em que se exaltava o amor homossexual e que provocaram, à altura, o escândalo na cidade e a ostracização do autor.


Segundo Klobucka, António Botto foi, a nível mundial, o primeiro poeta a assumir claramente na sua obra uma identidade homossexual, como Gide o faria em 1926 com Si le grain ne meurt, ignorando o conselho de Oscar Wilde de nunca empregar o "Je"!


Megalómano e mitómano, António Botto, de reduzida cultura e nada fazendo para aperfeiçoar os seus conhecimentos, é contudo um homem inteligente, de inegável talento e de especial sensibilidade, particularmente atento ao meio em que nasceu e viveu. Não pretendo envolver-me na peregrina questão de saber se Botto é um poeta maior ou menor, e menos ainda se é um grande ou pequeno poeta, porque esta tendência de hierarquizar os poetas numa escala valorativa levar-nos-ia ao estabelecimento de uma grelha em que um grande poeta menor poderia equivaler algebricamente a um pequeno poeta maior, se lhe fossem atribuídos valores numéricos. Logo, tarefa inútil.


Não sendo propriamente este livro, como se disse acima, uma biografia de António Botto, não seria todavia possível que ignorasse vários aspectos da vida do poeta. E são alguns desses aspectos que me apraz citar.

A vida de Botto foi sempre materialmente difícil, e foi mesmo muito difícil no período em que viveu no Rio de Janeiro. Funcionário público (escriturário de 1ª classe do Arquivo Geral de Identificação), foi despedido do cargo que ocupava, então no Governo Civil, em 1942, por  causa de um comportamento que foi conotado com a homossexualidade. A sua demissão consta do Diário do Governo nº 262 - II Série, de 9 de Novembro de 1942, pp. 5794-96


«a) ter desacatado uma ordem verbal de transferência dada pelo primeiro oficial investido ao tempo em funções de director, por impedimento do efectivo;
b) não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social;
c) fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.»

Diz-se que António Botto costumava referir esta circunstância afirmando que havia muitos pederastas mas que ele era o único reconhecido oficialmente pelo Estado.


A divulgação da obra de António Botto deve muito à amizade e interesse de Fernando Pessoa, que o apoiou e defendeu literária e pessoalmente. Aliás, conta-nos Anna Klobucka que foi através de Pessoa que chegou ao conhecimento de António Botto. Também José Régio manifestou o seu apoio ao poeta (António Botto e o Amor) e Pessoa escreveu "António Botto e o Ideal Estético Criador", incluído em Canções e "Aviso por Causa da Moral", manifesto distribuído nas ruas de Lisboa. Foram menos simpáticas para Botto as críticas de Georg Rudolf Lind (Teoria Poética de Fernando Pessoa) e de Óscar Lopes (Entre Fialho e Nemésio). 


A megalomania de António Botto levou-o a considerar-se amigo e conhecido de muita gente célebre e a criar uma vida virtual que acabou por assumir tão convictamente que, julgo, a certa altura ela se confundiria com a sua própria vida real. Mas nem todas as suas fantásticas amizades são falsas. Está provado que manteve uma relação com o infante D. Luis Fernando de Orleans y Borbón, primo direito do rei Alfonso XIII de Espanha, e que acompanhou aquele numa digressão a Roma. O infante tinha uma habitual companhia portuguesa, um jovem do Porto, António de Vasconcelos, que considerava como seu secretário e com quem partilhava a vida. O comportamento do infante e do seu secretário eram considerados atentatórios da moral pública, e ambos acabaram por ser expulsos de França quando pretendiam obter a ajuda da Embaixada de Espanha em Paris para se desfazer do corpo de um jovem marinheiro que morrera em sua casa na sequência de um acidente.Por causa deste caso, adicionado a anteriores proezas, o rei Alfonso XIII retirou ao primo todos os títulos e privilégios decorrentes do seu estatuto como membro da família real. Expulsos de França, Espanha e Bélgica, o infante e o seu inseparável Vasconcelos também viveram algum tempo em Portugal.

 

As grandes amizades virtuais de Botto foram o bailarino russo Vaslav Nijinsky e o poeta espanhol García Lorca, que, por razões cronológicas e geográficas nunca terá conhecido. Mas para o imaginário de Botto, estas duas famosas figuras da cultura universal, homossexuais conhecidos, emprestavam-lhe uma aura apetecível. Mas muitos outros vultos eram apontados como seus correspondentes e autores de textos em seu louvor, como Pirandello, Unamuno, Virginia Woolf, James Joyce, André Gide, Laurence Olivier, Gabriel Mistral, etc. Já no exílio no Brasil, afirmou mesmo que convivera com Bernard Shaw, Mussolini, Mistinguette, Kipling e os reis Afonso XIII de Espanha, Vítor Manuel de Itália e Eduardo VIII de Inglaterra. 


A recepção de António Botto em Portugal foi conturbada e deu lugar à polémica da "Literatura de Sodoma", que denunciava o desvio da heteronormatividade e a perversão dos espíritos (e dos corpos) por causa de obras como as Canções, ou Sodoma Divinizada, de Raul Leal, ou Poemas, de Judith Teixeira. Um artigo de "A Capital", denunciara já, pela pena do jornalista Armando Ferreira, o livro de Botto, que, na sua opinião, justificaria uma intervenção da polícia, devido a uma fotografia provocante do poeta exibida na capa. Na altura, fora publicado como Canções do Sul. A violência homofóbica tornou-se depois mais claramente assumida pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, dirigida por Pedro Theotonio Pereira, pelo governador civil de Lisboa, major Viriato Lobo, e pelo jornalista Álvaro Maia.



Contextualizando as Canções de 1921, Anna Klobucka escreve: «A primeira constatação a registar sobre as edições iniciais das Canções é a mais óbvia, mas nem por isso menos importante. Muitos dos poemas do conjunto reunido por Botto nos livros lançados nos finais de 1920 e no início de 1921 transmitem um discurso homoerótico cuja limpidez e naturalidade afirmativas não encontram paralelo, naquela época, em nenhuma literatura moderna europeia ou ocidental (pelo menos no que diz respeito a obras publicadas e divulgadas em circulação aberta)» (p. 96) 


Mais adiante: «...Se insisto em falar, a este propósito, nos discursos em circulação no foro público da literatura portuguesa, é para reconhecer e salientar a mais que provável transmissão no foro privado da expressão homoafectiva e homoerótica, em forma de prosa e porventura também poesia. Um exemplar confirmado, embora não preservado, de tal discurso seria uma parte da correspondência trocada entre António Nobre e Alberto de Oliveira entre 1890 e 1892 (altura em que Nobre esteve a estudar em Paris). Uma proporção substancial desta - "cerca de duas centenas de postais" só da parte de Nobre -, e que era referida pelos correspondentes como o seu "diário" partilhado, décadas mais tarde veio a ser destruída por Oliveira, tendo sido declarada "impublicável pela natureza pessoal e íntima do seu conteúdo". Segundo comenta Guilherme de Castilho [Correspondência, de António Nobre], "As razões que levaram o destinatário à sua destruição... conjugadas com o tom também já tão 'pessoal e íntimo' de muitas e muitas passagens das cartas (que no entanto Alberto de Oliveira não teve dúvidas em deixar tornar públicas) são indício da atmosfera em que esses documentos teriam sido gerados."» (pp. 97-98)

 

[Permita-se-me um apontamento de natureza pessoal. Tal como António Nobre, também Cesário Verde, um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, morreu precocemente devido a tuberculose. E parece que, como Nobre, teria também Cesário inclinações homoeróticas. O escritor Augusto Abelaira, de quem tive o privilégio de ser amigo, contou-me, há muitos anos, no ex-Café Ribamar (em Algés), não tendo eu, na altura, registado os pormenores, que Cesário, encontrando-se a apanhar bons ares na Malveira, teria sido surpreendido no campo na prática de actos sexuais com um rapaz saloio habitante da região. O caso foi abafado e não consigo recordar-me de que forma Abelaira obtivera aquela informação.]


A primeira edição de Canções, ainda com o título Canções do Sul, teve lugar em fins de 1920, em tiragem e divulgação muito limitada, tal como a primeira edição do Corydon, de André Gide, em 1911, anónima e de doze exemplares, e a de 1920, ainda anónima e apenas de vinte e um exemplares, só sendo o livro editado para o público em 1924. Era o padrão da época. Também a "Oda a Walt Whitman", de Lorca, que, segundo John K. Walsh é «possivelmente o mais significativo - certamente o mais completo - poema moderno sobre as homossexualidades», foi publicado uma única vez, antes da morte de Lorca em 1936, numa impressão de cinquenta exemplares patrocinada por intelectuais mexicanos e editada na Cidade do México, em 1933. 


O episódio da "Literatura de Sodoma", que referimos acima, tem lugar em 1923, na sequência dos livros mencionados, dos textos publicados na revista "Contemporânea" e dos artigos de alguns plumitivos. Em Fevereiro de 1923, num domingo de Carnaval, a polícia interveio num baile de travestis na escola da Graça, resultando na detenção, julgamento e condenação de dezasseis "homens que se vestiram de mulher". Uma semana depois constituiu-se um "movimento de acção moralizadora", composto por alunos universitários de Lisboa, liderados por Pedro Theotonio Pereira,
que prometia "meter na ordem" indiscriminadamente, os travestis da Graça, e "esses equívocos senhores que andam por aí, nas ruas e nos cafés, ... com maneiras femininas e elegâncias ridiculamente exageradas", juntamente com "os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais". O governador civil de Lisboa, que na sua tomada de posse, um ano antes, prometera proceder ao "saneamento moral da cidade", mandou apreender os livros de António Botto, Raul Leal e Judith Teixeira. A mais mediática figura que se opôs a estas acções, protestando contra a apreensão na Livraria Portugal-Brasil, contra a apreensão de um "livro pornográfico" (não identificado), foi Júlio Dantas, presidente da Academia das Ciências de Lisboa.



[Aproveito para introduzir uma nota pessoal. É um facto que a I República, em muitos aspectos, seguiu uma orientação mais puritana do que o Estado Novo. Recordo que, nesse mesmo ano, o governador civil proibira a peça Mar Alto, de António Ferro, que se estreara no Teatro de São Carlos. E a propósito de Júlio Dantas, respeitabilíssima personalidade, escreve o historiador Rui Ramos no VI Volume da História  de Portugal, dirigida por José Mattoso (p. 661): «Outros escritores gozavam de sólida reputação de pederastas, e não era por isso que sentiam necessidade de elocubrações sobre o tema ou de se exporem. Estavam nesse caso João Chagas, jornalista republicano e embaixador em Paris, Júlio Dantas, o presidente da Academia de (sic) Ciências, e Manuel Teixeira Gomes, o presidente da República - todos publicamente tidos por homossexuais convictos». Devo acrescentar que para Salazar a homossexualidade não constituía qualquer problema desde que fosse discreta. Muitos membros dos seus Governos e muitos amigos pessoais foram indiscutivelmente homossexuais. O que importava ao presidente do Conselho era a manutenção das aparências e a tranquilidade da ordem pública, sem sobressaltos "morais" que pudessem ser interpretados como tibieza do regime.] 


Ainda sobre o tema, escreve Anna Klobucka em nota de rodapé (p. 113): «Uma leitura mais abrangente dos textos em diálogo nas páginas da Contemporânea entre 1922 e 23, que o espaço restrito deste capítulo não me permite realizar, atenderia também à publicação no número 6 (dezembro de 1922) do "Soneto já antigo" de Álvaro de Campos, cuja forma dialogada e teor memorialista e confissional  [sic] à volta do "rapazito" que o poeta "tanto julg[ou] amar" aproximam-no irresistivelmente da "canção" de Botto sobre o "adolescente loiro" (no número 3), comentada acima. Tal leitura consideraria também o lançamento da separata do número 7 (janeiro de 1923) com uma versão parcial de "A Cena do Ódio" de Almada Negreiros, que muito curiosamente exclui os três versos que abrem o poema na sua versão original, impressa nas provas de página do Orpheu 3 ("Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,/ Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,/ e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!"), assim como outros textos publicados na revista e implicitamente relacionáveis com o debate que a Contemporânea e a Olisipo conjuntamente iam avançando. Note-se apenas que publicando o poema com os três primeiros versos cortados, Almada ao mesmo tempo se inscreve na vertente contracultural da Contemporânea e se autoexclui do sentido específico que ela assume desde o ensaio de Pessoa sobre Botto e o poema deste, ambos publicados em julho de 1922.»


No capítulo III - Homem, português, homossexual (atrever-me-ia a dizer que Anna Klobucka se inspirou no título da peça de Bernardo Santareno Português, Escritor, 45 Anos de Idade), a autora analisa a vida e a obra de Botto numa perspectiva queer que transcende os limites deste post. Refira-se a inclusão de muitos poemas inéditos, constantes do espólio existente na Biblioteca Nacional de Portugal, que permitem sustentar a tese da "inversão sexual" que dominava o entendimento da atracção pelo mesmo sexo na época de Botto, representando o homem homossexual como possuidor de uma alma feminina no corpo masculino.

Transcrevo um poema do espólio, incluído em "Poesias dispersas II" (E 12/104):

«Não sei porque não me dizes
O dia do teu embarque
Se vais aqui ao meu lado
E vestido de soldado?
Escusas de mentir ou iludir 
- Creio que vais, logo mais, de manhã cedo?
Não somos nós dois verdadeiros amigos,
mais do que amigos - tens medo?
(...)
Habituei-me, contigo,
A todo o prazer que o corpo tem,
E o teu sendo aquele onde ninguém
Mais pode ter senão eu
Porque me deu os infinitos de um prazer que vem do além,
E quando se gosta como eu gosto
- Sou infeliz porque me vou
Eu que te quero tanto bem?

- Mas eu não quis ofender-te,
Nem por sombra pensaria, meu amor.
Vai descansado.
A Pátria não te demora. Serei sempre dedicado,
E andarei na tua alma, dentro daquela certeza
De te ver chegar, mais homem
Nessa onda reprimida
Que tens no coração e na expressão do olhar
Feita de sonho para encher a minha vida.
Adeus!

Mas quero-te beijar.»

[Este poema poderia muito bem enquadrar-se no contexto da guerra colonial, mas é naturalmente muito anterior. A referência à farda como fetiche da masculinidade e a alusão às virtudes viris do serviço militar obrigatório fizeram sempre parte do imaginário da homossexualidade masculina. Em Portugal como no Mundo. Genet, por exemplo, exemplificou genialmente essa atracção em Querelle de Brest]


O universo de Botto é povoado de marinheiros, soldados, operários e campinos, evocando a sua filiação regional com o Ribatejo e a sua vivência em Alfama [Também Pedro Homem de Mello tocaria a mesma tecla]. Em O Livro do Povo, Botto convoca o folclore, também numa dimensão nacionalista cara a António Ferro, que fora, por alguma razão, o editor de "Orpheu".


«Em contextos literários e performativos como o da peça Alfama (e outros considerados mais acima) as manifestações mais ou menos veladas do afeto homoerótico e desejo homossocial são descodificáveis num processo de leitura intencional e estrategicamente enviesado, desproporcionalmente atento a meias palavras, alusões e efeitos que comportam o seu sentido queer. Em outros textos de Botto, nomeadamente os que o celebrizaram - os poemas das Canções -, mas também na epistolografia amorosa das Cartas que me foram devolvidas (1932), o homoerotismo e a sensibilidade queer surgem claros e manifestos sem véus e sem o filtro do autoquestionamento torturado que tendia a infletir a expressão (ou a não expressão) dos seus pares contemporâneos.» (pp. 171-2)

 


«Como o autor empírico cuja experiência biográfica sustenta o discurso do epistológrafo amoroso das Cartas, Botto conhecia tanto a condição da obscuridade pessoal e a relativa despreocupação do aparelho judicial português com a prática da homossexualidade masculina (pelo menos nos anos da sua juventude) como a condição de existir na sociedade na pele de uma figura pública facilmente reconhecível - no caso, não apenas como "artista célebre" mas, concretamente, como homossexual.» (p. 173-4)

A amizade e a estreita ligação de Fernando Pessoa a António Botto, a forma como sempre o defendeu e a maneira como o incentivou na prossecução da sua obra, levam Anna Klobucka a referir que Jorge de Sena considerou poder afirmar-se que António Botto foi, de algum modo, mais um "heterónimo" de Fernando Pessoa. Cito: «Num ensaio importante por vários motivos, publicado originalmente como introdução à edição dos Poemas ingleses de Fernando Pessoa pela Ática (1974), Jorge de Sena formulou uma quase-proposta ("quase se seria tentado a considerar"), sugerindo que "de certo modo, Botto foi também um heterónimo de Fernando Pessoa - e que este se 'realizou' também na poesia daquele, e na vida a que ela correspondia" (1984, 328)» (p. 182)



 [A autora não refere em que página da Introdução àquela edição dos Poemas Ingleses da edição da Ática (1974) figura a afirmação de Jorge de Sena. Procurei no meu exemplar ao longo das páginas da Introdução (13 a 87) mas não consegui encontrá-la. Exigiria certamente uma leitura atenta. Também não consegui identificar a referência à segunda parte da citação (1984, 328), que interpretei como constando da única obra de Sena mencionada na Bibliografia (Líricas Portuguesas, vol. I, 1983 {aliás 1984}, António Botto, 65-68). Nem na apresentação do poeta, nem nos prefácios, nem na página 328]


É, todavia, pertinente a sugestão de Jorge de Sena. Através de António Botto, Fernando Pessoa pôde ir  homofilamente mais além do que aquilo que se encontra traduzido no ortónimo, nos heterónimos, no semi-heterónimo e nos pseudónimos. Porque estes eram todos Pessoa, e Botto era realmente uma outra pessoa, o que libertava Pessoa de compromissos eventualmente indesejáveis.

Também um poema de Fernando Pessoa, datado de 1919 e revelado pela primeira vez em 2002, sendo atribuído então por Richard Zenith a um "heterónimo gay anónimo", verbaliza o desejo sexual na comunicação entre homens:

«Ah, se soubesses com que mágoa eu uso
Este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso
De tão senti-lo, nem o amor perder.
Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, a mim me escuso,
Se soubesses? E se o soubesses? Quê?
Que gesto teu para mim melhoraria
Este mal-estar de mim comigo e o amor?»

("Fernando Pessoa's Gay Heteronym?", Richard Zenith, in Lusosex: Gender and Sexuality in the Portuguese-Speaking World, orgs. Susan Canty Quinlan e Fernando Arenas, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2002, 35-56)

Não cabe aqui desenvolver a "apropriação" de Botto por Pessoa, mas o livro que aqui comento fá-lo exemplarmente. O poeta de Mensagem vive uma vida homossexual por interposta pessoa (Botto) , através da qual também se exprime literariamente.  



Anna Klobucka discorre depois brilhantemente sobre a possível comparação da relação Pessoa/Botto com a relação Wilde/Gide, recorrendo à introdução do livro já clássico de Jonathan Dollimore, Sexual Dissidence: Augustine to Wilde, Freud to Foucault (1991), matéria vasta e apaixonante com a qual os interessados se deleitarão lendo a prosa desta autora polaca que escreve um português mais correcto, preciso e elegante do que o de muitos escritores portugueses.


Não tendo este post quaisquer pretensões biográficas, importa todavia salientar que Botto deixou o solo pátrio em Agosto de 1947, com destino ao Brasil, acompanhado pela sua mulher Carminda Silva Rodrigues, que se manteve uma presença constante e dedicada até ao fim da sua vida. A vida em Portugal tornara-se-lhe mais difícil com a exoneração da função pública, mas esta deslocação não se revelou o êxito que as expectativas prometiam. Prossegue, contudo, a sua actividade, como salienta a autora: «Este trabalho de invenção e comunicação continua no Brasil, durante a última década da vida de Botto, e a análise da sua documentação oferecem - entre outros benefícios epistemológicos possíveis - um contraponto sugestivo às ainda recentes iniciativas de recuperação e construção de uma história da homossexualidade masculina no Brasil no século vinte, particularmente através dos estudos de Richard Parker (Abaixo do Equador. Culturas do Desejo, Homossexualidade Masculina e Comunidade Gay no Brasil) e James Green (Além do Carnaval. A Homossexualidade Masculina no Brasil do Século XX). O objetivo central deste capítulo não será, portanto, uma descrição completa (ou tão completa quanto possível) da vivência brasileira de Botto, mas antes uma reflexão documentada sobre a intersecção entre o seu "mundo gay" português e europeu e as "homopaisagens" (neologismo de Parker a que regressarei) brasileiras, principalmente cariocas, mas também mais amplamente novomundistas na sua projeção simbólica, segundo veremos.» (p. 223)




Há um livro fundamental sobre a homossexualidade no Brasil, porém não referido no livro de Anna Klobucka, mas que consta da minha biblioteca:  Devassos no Paraíso - A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, de João Silvério Trevisan (1986), obra ilustrada de quase 600 páginas, uma referência obrigatória para o estudo da matéria.



A chegada de Botto ao Rio de Janeiro foi entusiasticamente saudada pela imprensa local, à qual o poeta facultou toda a sua autobiografia imaginária. Procurou integrar-se no meio literário do Rio e estabeleceu uma relação de amizade com o escritor homossexual brasileiro Lúcio Cardoso, um nome prestigiado no Brasil. Na antiga capital do país, Botto escreve, engata nas ruas e na praia, vive com acrescidas dificuldades e acaba por morrer em consequência de um atropelamento na avenida de Nossa Senhora de Copacabana.

Os seus restos mortais seriam trasladados para Portugal em 1965 e depositados num gavetão no Cemitério do Alto de São João, em 11 de Novembro de 1966, estando presentes na cerimónia, entre outros, José Régio, Ferreira de Castro, David Mourão-Ferreira e Natália Correia.  A viúva, Carminda Rodrigues, enviaria mais tarde para Portugal o espólio do poeta, que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP).



Já vai longo este post, e importa terminar. Não pretende, como se disse, ser um resumo, pálido que seja, do livro de Anna Klobucka, cuja leitura vivamente se recomenda, nem tão pouco uma súmula da biografia do poeta. Encontrando-se a sua obra dispersa por vários livros, empreendeu a editora Quasi a publicação da Obra Completa, em nove volumes, organizada por Eduardo Pitta, mas de que, dado o desaparecimento daquela casa, apenas foi publicado o primeiro volume: Canções e Outros Poemas (2008). Está agora previsto que seja a editora Assírio & Alvim a retomar a tarefa da publicação da opera omnia. Encontrado-se vasto material inédito na BNP, seria do maior interesse que essa importante parte do espólio fosse integrada na projectada nova edição, pois certamente traria notável contributo para o conhecimento  da vida e obra do poeta. Tudo isto suscita uma última questão: para quando a publicação de uma biografia de António Botto? É A HORA!


domingo, 26 de agosto de 2018

OS DOIS CORPOS DO REI




A revista "L'OBS", no seu nº 2805, de 9-15 de Agosto corrente, insere um curioso artigo, de Alexandre Le Drollec, sobre o culto da imagem imposto por Emmanuel Macron à sua chegada ao Eliseu. E sobre o controle de toda a comunicação visando o presidente, e também a esposa, que se encontram rodeados de especiais conselheiros para o efeito, e de uma fotógrafa que tem o privilégio, por vezes exclusivo, do acesso aos eventos oficiais.

Na impossibilidade de transcrever integralmente o texto, reproduzo algumas citações de personalidades entrevistadas pelo autor:

«Chaque image est encadrée, calculée, controlée

«Chaque président souhaite, à sa manière, maîtriser son image. Mais Macron se démarque de ses prédécesseurs sur un point: il l'assume complètement. Dès qu'ils sont arrivés, son équipe et lui ont d'ailleurs été trés clairs en nous disant: "On veut tout contrôler"

«Macron veut d'emblée marquer les consciences en usant d'une kyrielle de symboles renvoyant à l'Ancien Régime.»

«Le pas lent qu'il adopte lors du Congrès de Versailles, quand il traverse l'aile du Midi entouré de gardes républicains, illustre parfaitement cette quête de solennité.»

«Cette recherche de "présidentialité" reste aujourd'hui une obsession dans l'équipe Macron. En ce moment, ils ont une nouvelle lubie: mettre du bleu-blanc-rouge partout à l'image. Ils l'ont fait pour la cérémonie en hommage à Arnaud Beltrame puis pour la panthéonisation de Simone Veil.»

Bâtir l'image d'un leader est aussi affaire de dosage. Cette représentation d'un pouvoir vertical ne doit être que l'un des ingrédients du récit présidentiel. Il faut savoir injecter une dose de proximité, d'horizontalité. Aussi, au Palais, prend-on toujours soin de "raconter" un autre Macron. Plus humain, plus détendu. Sur les réseaux sociaux, place donc à l'autre visage du président. Un jour, il enchaîne selfies et poignés de main. Le lendemain, il répond au standard de l'Elysée. «En jouant sur ces deux tableaux, Emmanuel Macron a le souci de réunir les fameux "deux corps du roi" théorisés par Kantarowicz, à savoir un corps naturel, terrestre et mortel, et un autre corps, politique éternel, représentant l'unité de la nation.»


***

Poderíamos prosseguir com as citações, mas chega. Sabemos que o Poder é representação, no exacto sentido da representação teatral. Mas exige protagonistas convenientes. E convincentes. Não é o caso de Macron, apesar dos esforços de uma poderosa equipa. Nele tudo é postiço. Assemelha-se a um parvenu. A sua carreira é pouca clara, e ainda menos clara a razão da sua candidatura, para além da desmedida ambição que nem procura esconder. Perguntar-se-á porque foi esta a escolha dos franceses. Par défaut, certamente. Descartados ab initio os candidatos François Fillon, de Les Républicains e Benoît Hamon, do Partido Socialista, ficaram na disputa Marine Le Pen, da Frente Nacional e Jean-Luc Mélenchon, de La France Insoumise, isto é, os dois candidatos credíveis, situados nos extremos do espectro partidário. Como a maioria dos franceses recearia dar o seu voto a propostas excêntricas, baseada nessa previsão surgiu a candidatura de Macron, assumindo-se como vencedora. Mas não à primeira volta. Macron teria de enfrentar na 2ª ou Le Pen, ou Mélenchon. Aconteceu Le Pen, e Macron venceu. Não sei se teria vencido se o seu adversário fosse Mélenchon (a coisa esteve por um triz), mas isso são águas passadas. Em cerca de 50 milhões de cidadãos eleitores, Macron apenas obteve o voto de 20 milhões, com 15 milhões para a abstenção, votos brancos ou nulos. Muito pouco para quem se julga Júpiter. 

Não sei se Emmanuel Macron sonha com a criação de um Terceiro Império (vontade não lhe faltaria), mas não é Luís Bonaparte quem quer, e tal história, que, segundo Marx, já se repetiu como farsa, teria de merecer agora um qualificativo suplementar, embora o autor de Das Kapital já não seja vivo.

Esta vontade de poder de Macron vai revelar-se perigosa, pois sendo um indivíduo inegavelmente inteligente e sem escrúpulos (como o revelou o caso Benalla) não hesitará em lançar mão dos meios mais discutíveis para alcançar os seus inconfessáveis fins. Eleito aos 39 anos, e sendo o mais jovem presidente da Quinta República, a sua natureza não se resignará a abandonar o Olimpo ao fim de cinco anos. Uma recandidatura é possível, uma reeleição é mais do que improvável. Mas, até que fosse reeleito, sairia do Eliseu aos 49 anos. E depois? Que fazer? 

É sobre estas interrogações que todos os franceses devem meditar!

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

MARINE LE PEN E A WEBSUMMIT





Quando foi anunciada a lista de oradores da próxima Websummit, a realizar em Lisboa em Novembro deste ano, verificou-se que da mesma constava o nome de Marine Le Pen, líder do Front National, agora designado como Rassemblement National.

Esta notícia provocou grande agitação em alguns meios políticos, que pretenderam que o Governo obrigasse a organização do senhor Paddy Cosgrave a retirar o convite, já que essa reunião é apoiada pelo Governo português e pela Câmara Municipal de Lisboa (para deslumbramento do senhor Medina), logo com dinheiros públicos.

Parece que o nome da senhora Le Pen desapareceu da lista dos convidados, para posteriormente reaparecer. Alguns partidos políticos e personalidades rasgaram então as vestes, exigindo o banimento da líder daquele partido (preferem que se lhes chame movimento) francês, que obteve os votos de um terço dos cidadãos gauleses nas últimas eleições presidenciais, e poderia ser mesmo hoje a inquilina do Eliseu não fora o surgimento de um fenómeno evanescente que dá pelo nome de Emmanuel Macron.

É curioso constatar que tendo as reacções em Portugal sido fundamentalmente provenientes da área da Esquerda, esta se tenha esquecido de que a parte substancial do eleitorado da senhora Le Pen é proveniente de muitos franceses que antes votavam no PSF e no PCF e eram filiados da CGT. Sinais dos tempos.

Pode não se concordar com muitas das ideias e das propostas do Rassemblement National, pode não se gostar pessoalmente de Marine Le Pen, mas a sua voz exprime as convicções de mais de dez milhões de cidadãos. Além disso, a Websummit não é um comício político propriamente dito, ainda que mesmo as intervenções ditas técnicas sejam política e ideologicamente condicionadas.

Por outro lado, até seria interessante ouvir o que uma figura tutelar da chamada extrema-direita francesa teria para dizer numa conferência do tipo da Websummit, para poder contestar directamente a sua intervenção, se fosse caso disso. Parece que se pretende calar as bocas antes de elas se abrirem, o que significa não só o policiamento da livre expressão como a exigência de um pensamento único alinhado no politicamente correcto. Sugere também que existe o receio de ouvir coisas que possam suscitar a adesão dos auditórios, mas julgadas inconvenientes pelos guardiães da ortodoxia estabelecida.

Surge, agora, a informação que  Cosgrave cancelou definitivamente (?) o convite endereçado a Marine Le Pen para se deslocar à cimeira. Não só esta é uma atitude de extrema deselegância (o que deve ser indiferente a uma pessoa com os interesses de Paddy Cosgrave) como este lamentável folhetim assume proporções de uma opera buffa de péssimo libretto, tanto mais que o Governo português não chegou ao ridículo de proibir (era o que mais faltava) a vinda de Le Pen a Portugal.

Este caso serviu apenas para facultar um acréscimo de popularidade a Marine Le Pen, com a certeza de que se podem combater as ideias com argumentos e não tapando a boca dos adversários.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

RECORDAÇÕES DE INFÂNCIA



Para uns dias de férias na praia resolvi levar um livro há muitos anos adormecido na minha biblioteca: Un souvenir d'enfance de Léonard De Vinci, de Sigmund Freud, traduzido por Marie Bonaparte. Lera algumas das obras mais importantes do Mestre de Viena, mas esta, inexplicavelmente, permanecia em sossego numa estante. Leonardo, o homem que Freud considera o Fausto italiano, devido ao seu incansável e insaciável espírito de investigação. (p. 26)

Neste livro, Freud debruça-se sobre a sexualidade infantil (um dos seus temas de eleição) e enuncia as três possibilidades de curiosidade intelectual após o período de investigação da dita sexualidade infantil. (p. 34)

Insiste Freud, neste seu ensaio, que Leonardo se limitou, no decorrer da sua vida, a uma homossexualidade platónica (salvo, talvez, o período em que se iniciou nas artes, quando trabalhou como garzone, dos 14 aos 21 anos, no atelier de Andrea Del Verrocchio, à época o mais notável pintor e escultor florentino). Sabemos hoje que não foi assim, e Freud possivelmente o saberia também, mas a prática habitual da homossexualidade de Da Vinci ou não encaixaria nos seus esquemas mentais  ou a sua exposição pública não seria conveniente para os padrões da época.

Segundo Freud, uma única vez Leonardo inseriu nos seus escritos científicos um dado relativo à sua infância. É quando refere que, ainda no berço, um abutre se lhe dirigiu e lhe abriu a boca com a cauda, tendo-lha enfiado várias vezes entre os lábios. Transcrevo o original italiano da pena do artista: «Questo scriver si distintamente del nibbio par che sia mio destino, perchè nella mia prima infantia è mi parea che essendo io in culla, che un nibbio venissi a me e aprissi la bocca colla sua coda e molte volte mi percotessi con tal coda dentro alle labbra.» (Codex Atlanticus di Leonardo da Vinci - Biblioteca Ambrosiana di Milano). (p. 64)

Esta investida do abutre corresponde à ideia de um fellatio, até porque coda (cauda, em italiano) é o símbolo mais conhecido e a designação do ersatz do membro viril. (p. 53) Ao longo da obra, Freud discorre sobre as circunstâncias do nascimento de Leonardo, filho ilegítimo, arrancado aos cinco anos aos braços da mãe para passar a viver com o pai e com a madrasta que, aliás, cuidadosamente se ocupou dele. Todavia, a ligação à mãe biológica, que o amamentou, permaneceu para sempre em Leonardo. E sendo Freud um estudioso das civilizações orientais, em especial da egípcia, não deixa de salientar que na escrita sagrada hieroglífica os egípcios figuravam a Mãe sob a imagem de um abutre. A divindade maternal, com cabeça de abutre, era designada por Mut, sendo curioso que "mãe" se diga "Mutter" em alemão. (p. 57)

Escreve o Mestre: «Si nous tenons compte de la vraisemblance historique suivant laquelle Léonard se comporta toute sa vie sentimentalement en homosexuel, la question se pose: ce fantasme n'a-t-il pas trait à quelque lien causal entre les rapports de Léonard enfant avec sa mère et son ultérieure homosexualité, manifeste bien que platonique?» (p. 77) «Chez tous nos homosexuels hommes, nous avons retrouvé, dans la toute première enfance, période oublié ensuite par le sujet, un três intense attachement érotique à une femme, à la mère généralement, attachement provoqué ou favorisé par la tendresse excessive de la mère elle-même, ensuite renforcé par un effacement du père de la vie de l'enfant.» (pp. 78-9)

Ao longo da obra, Freud vai tecendo pertinentes considerações. Por exemplo: «Tout le monde, même l'être le plus normal, est capable du choix homosexuel de l'objet, l'a accompli à un moment donné de sa vie, puis, ou bien s'y tient encore dans son inconscient, ou bien s'en défend par une énergique attitude contraire.» (p.92) «La fable de la cicogne, du grand oiseau qui apporte les enfants, que l'on conte à ceux-ci quand leur curiosité s'éveille, les phallus ailés des anciens, l'expression "vögeln" (de Vogel: oiseau) dont on désigne en allemand populaire l'activité sexuelle de l'homme, le nom d'ucello (oiseau) donné par les Italiens au membre viril; autant de fragments d'un grand ensemble nous enseignant que le désir de voler ne signifie rien autre, dans nos rêves, que le désir ardent d'ètre apte aux actes sexuels. C'est là un souhait infantile très précoce.» (p. 129)

Ou ainda: «Mais même en possession de la plus ample documentation historique et du maniement certain de tous les mécanismes psychiques, l'investigation psychanalytique  en deux points importants resterait impuissante à rendre compte de la nécessité qui commanda à un être de devenir ce qu'il fut et de devenir rien d'autre. Nous avons dû admettre que, chez Léonard, le hasard de sa naissance illégitime et l'excessive tendresse de sa mère exercèrent l'influence la plus décisive sur la formation de son caractère et sur sa destinée, le refoulement survenu après cette phase d'enfance ayant conditionné et la sublimation de la libido en soif de savoir et l'inactivité sexuelle de toute sa vie.» (p. 148) «La psychanalyse reste donc impuissante à expliquer ces deux particularités de Léonard: sa tendance extrême au refoulement des instincts et son extraordinaire capacité à la sublimation des intincts primitifs.» (p. 149)

Na capa do livro é apresentada a pintura de Leonardo da Vinci "A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana", exposta no Museu do Louvre. Freud tece diversas considerações sobre as pinturas inacabadas de Leonardo, sempre insatisfeito com as suas obras, o que é o caso do quadro em questão, da "Gioconda" ou da "Última Ceia". Relativamente ao primeiro, Freud enfatiza a ligação primordial entre a Virgem e o Menino (a Mãe e o Filho) considerando Santa Ana uma figura acessória. E estabelece uma comparação geométrica entre a pintura e o abutre dos seus sonhos. Reproduzimos abaixo a interpretação de Freud:


A parte tracejada do desenho representa o abutre. À esquerda, a cabeça e o pescoço do abutre, o corpo confunde-se com o manto azul da Virgem, e à direita alta, a cauda na direcção da boca do Menino. Insondáveis os desígnios de Freud e da psicanálise.

Em 2015, Mário Cláudio publicou Retrato de Rapaz, sobre a vida de Salaï, discípulo e amante preferido de Leonardo Da Vinci. Nesta obra de ficção, a todos os títulos exemplar, o escritor não só retrata Salaï como evidentemente Leonardo, utilizando as informações hoje existentes sobre o Mestre florentino e que não eram ainda conhecidas no tempo de Sigmund Freud. Sobre o livro de Mário Cláudio escrevi então aqui, à data em que o mesmo recebeu o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.


sábado, 11 de agosto de 2018

A QUEDA DO OCIDENTE




Acabou de ser publicado, com o título A Queda do Ocidente? Uma Provocação, o livro de Kishore Mahbubani, originalmente intitulado Has the West Lost It? A Provocation, editado também no corrente ano.

O autor é professor na Universidade Nacional de Singapura, foi embaixador do seu pais nas Nações Unidas e é especialista em relações internacionais.

A presente obra constitui uma lúcida reflexão sobre a situação actual do mundo, e ainda que não subscreva integralmente todas as conclusões de Mahbubani reconheço que este livro é uma contribuição inestimável para a compreensão da já tão anunciada decadência do Ocidente.

Mahbubani começa por se debruçar sobre a Nova Ordem Internacional (outros o têm feito), interrogando-se sobre a forma como o Ocidente tem tratado o Resto do Mundo (The West and the Rest) e considerando que o Ocidente pode e deve, no seu próprio interesse, melhorar as suas relações
com os outros países. E aponta como boa notícia que a economia mundial não está a encolher, embora se verifique uma inversão do crescimento. Durante as últimas décadas a primazia era do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido). Mas em 2015 o G7 contribuiu tão só com 31,5 %, enquanto o E7 (os Sete Emergentes: Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia), com 36,3 %.

Trata depois a forma como a sabedoria ocidental foi aproveitada pelos países então considerados subdesenvolvidos. A disseminação da razão ocidental acabou por desencadear três revoluções silenciosas que explicam o sucesso de muitos países não ocidentais nas últimas décadas. A primeira revolução foi de teor político: a passagem de um regime feudal para um sistema democrático, prevalecente na Ásia e cujas histórias de sucesso estão a influenciar os países da África e da América Latina. [pessoalmente acho algum exagero nesta apreciação]; a segunda revolução foi do foro psicológico, levando milhões de indivíduos a acreditar que podem garantir uma vida melhor para si e para os seus filhos; a terceira revolução foi no campo da governação. Os três países asiáticos mais populosos (China, Índia e Indonésia) tiveram líderes fortes na era pós-colonial, e assim era preciso: Mao-Tsé-Tung, Jawaharlal Nehru e Sukarno, que se focaram mais na política do que na governação. Por outro lado, os líderes actuais, Xi Jinping, Narendra Modi e Jokowi partilham a convicção de que a boa governação transformará e fará florescer as suas sociedades.

O autor passa em revista os principais acontecimentos políticos das últimas décadas e relembra ter alertado a Europa, há vinte e cinco anos, para cuidar melhor do Norte de África, caso contrário o pequeno Mediterrâneo começaria a ser atravessado por barcos carregados de refugiados [recordo que, há anos, Umberto Eco fez a mesma observação]. Refere também a explosão mundial das viagens, salientando que o turismo internacional é o derradeiro sinal de riqueza.

Mas é quando fala da húbris ocidental que o livro é mais certeiro. Com a queda da União Soviética, «os líderes ocidentais desligaram todos os sinais de alarme que os poderiam ter alertado relativamente a outras mudanças significativas» (p. 58). «O ensaio de Fukuyama, O Fim da História, provocou muitos danos cerebrais no Ocidente». Foi nessa altura que se ligaram os motores no resto do planeta, nomeadamente na China (Deng Xiaoping) e na Índia.

Um dos capítulos mais interessantes é o relativo aos erros estratégicos do Ocidente: o Islão, a Rússia e a interferência nas questões internacionais. A invasão mais insensata foi a do Iraque, em Março de 2003, na sequência do 11 de Setembro, liderado [supostamente] por Osama Bin Laden. E ao fazê-lo, depôs um líder secular forte e opositor de Osama: Saddam Hussein. «A invasão do Iraque foi um desastre. E as suas consequências foram piores ainda porque reforçaram a convicção entre 1,5 mil milhões de muçulmanos de que a perda de vidas muçulmanas não era relevante para o Ocidente. Uma questão pertinente para os historiadores futuros será a de tentarem perceber se o aumento de incidentes terroristas nas capitais do mundo ocidental não terá sido uma consequência indirecta desta imprudente campanha de bombardeamento de sociedades islâmicas.» (p. 66)

«O Ocidente comete um erro básico em todas as suas interações com o mundo islâmico: subestima a religião islâmica. Os analistas ocidentais observam estes países e veem apenas um conjunto de sociedades débeis. Associam o mundo islâmico a Estados falhados, como o Afeganistão e a Somália, ou a Estados devastados, como o Iraque e a Síria. Muito embora várias destas sociedades se estejam a debater com problemas complexos, a religião em si mesma está a crescer em força. Com efeito, sem rodeios, o islão pode muito bem ser atualmente a religião mais dinâmica e vibrante do planeta.» (pp. 66-7) Estima o autor que a população muçulmana, que em 2015 constituía 24,1 % da população mundial, será em 2060 equicalente a 31,1 % da mesma.

O segundo maior erro estratégico do Ocidente foi o de continuar a humilhar a Rússia. A dissolução da União Soviética por Gorbachev fora um presente em especial para os Estados Unidos. «Contrariamente às garantias implícitas dadas a Gorbachev e aos líderes soviéticos em 1990, o Ocidente expandiu a NATO até aos países anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia, entre os quais a República Checa, a Hungria, a Polónia, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia e a Eslováquia. Tom Friedman tinha toda a razão quando afirmou: "Opus-me à expansão da NATO na direcção da Rússia depois da Guerra Fria, num momento em que a Rússia atravessava o seu período mais democrático e menos ameaçador. Continua a ser uma das atitudes mais idiotas que tomámos e, claro, abriu caminho à ascensão de Putin."» (pp. 69-70) Quando o Ocidente ameaçou expandir a NATO até à Ucrânia, até mesmo indivíduos de duvidosíssima reputação como Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski se manifestaram contra. «Estes avisos foram ignorados. Os Estados Unidos apoiaram as manifestações contra o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia quando o seu regime colapsou em 2014. Putin sabia que o governo ucraniano seguinte poderia levar o país a aderir à NATO. O resultado poderia ser o de a Crimeia, que pertencera à Rússia entre 1793 e 1954, ser usada pela NATO contra a Rússia. Putin sentiu que não tinha outra hipótese senão reapropriar-se da Crimeia. Até mesmo Gorbachev o apoiou.» (pp.70-1)

«O episódio da Crimeia mostrou que há um limite para a humilhação que um país pode suportar. Era inevitável que o povo russo dissesse "basta!", e a eleição de Putin refletiu a vontade das pessoas.... No verão de 2017, o líder russo foi aviltado pelos meios de comunicação social norte-americanos por ter interferido nas eleições dos Estados Unidos. Tal interferência representa claramente um comportamento errado. Por outro lado, nenhum líder norte-americano fez a pergunta óbvia nos debates de 2017: terão os Estados Unidos interferido nas eleições de outros países? Dov Levin, do Instituto de Política e Estratégia da Universidade Carnegie Mellon, compilou uma base de dados que prova que sim - mais de 80 vezes entre 1946 e 2000.» (pp. 71-2)

O terceiro erro do Ocidente são as intervenções imprudentes nos assuntos internos de vários países. Não foi uma coincidência o fim da Guerra Fria ter trazido as chamadas "revoluções coloridas". Vejamos as principais: Jugoslávia, 2000; Geórgia, 2003; Ucrânia, 2005; Iraque, 2005; Quirguistão, 2005; Tunísia, 2010; Egipto, 2011. Muitas destas revoluções foram geradas internamente, mas quando postas em marcha o Ocidente apressou-se a apoiá-las, visto que para os decisores políticos ocidentais, nomeadamente os norte-americanos, a exportação da democracia era em si um bem. [Isto é a opinião do autor. Claro que para os ocidentais é-lhes indiferente que haja democracias ou não nos terceiros países. Daí o incondicional apoio à Arábia Saudita. Quando dizem pretender exportar a democracia os ocidentais apenas desejam exportar a economia ultraliberal de mercado. O Ocidente há muito, designadamente os Estados Unidos, não possui valores morais mas tão só materiais. E a própria democracia representativa ocidental se converteu numa farsa.]

Aquando dos acontecimentos do 11 de Setembro a maioria dos norte-americanos achou-se vítima inocente de um ataque injustificado. Mas muita gente viu nele uma resposta aos atropelos cometidos pelo Ocidente no mundo islâmico.

Segundo o autor, os países ocidentais necessitam de adoptar uma nova estratégia em relação aos outros países, a estratégia dos "Três Emes": minimalista, multilateral e maquiavélica. O Ocidente já não é o dono do mundo e deverá deixar de se envolver em questões que não lhe dizem respeito. As interferências dos Estados Unidos no Médio Oriente não fazem qualquer sentido, como não fizeram no Sudeste Asiático. «O Resto do Mundo não precisa de ser salvo pelo Ocidente ou educado em função das suas estruturas governamentais e elevados padrões morais. E, seguramente, dispensa ser bombardeado.» (p. 81)

A dimensão multilateral implica a existência de instituições globais mais fortes e eficazes. A Assembleia Geral das Nações Unidas é um parlamento global que deveria exercer a sua actividade independentemente o que não acontece devido aos vetos do Conselho de Segurança. O autor saúda a eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU.

A terceira dimensão de uma nova estratégia ocidental terá de ser baseada numa estratégia maquiavélica, no sentido da promoção da virtù (virtude). Mahbubani salienta a astúcia estratégica e lembra Sun Tzu: "Conhece o inimigo, conhece-te a ti mesmo, e a vitória nunca estará em causa, nem em cem batalhas". E, no Ocidente, poucos estão conscientes de quão rapidamente a extensão do seu poder global está a diminuir.

«Os meus amigos asiáticos, africanos e latino-americanos vão ficar perturbados com o meu apelo à astúcia do Ocidente: temerão que eu esteja a tentar prolongar o domínio ocidental sobre a ordem mundial. Não é esse o meu motivo para apelar a uma maior astúcia estratégica. Faço-o porque um Ocidente ingénuo e ideológico é perigoso. A incapacidade do Ocidente em proceder a importantes correcções estratégicas é responsável por muitos dos reveses que o mundo sofreu nos últimos tempos. O planeta tornar-se-á mais instável se o Ocidente não mudar radicalmente de rumo.» (p. 105)

»As democracias não foram concebidas para assumirem desafios a longo prazo. Conseguem responder a ameaças imediatas, como Hitler ou Estaline. No entanto, mesmo se a ameaça vier a ter de ser enfrentada pelos netos dos votantes, estes não elegerão um político que declare: "Vamos sacrificar o presente para salvarmos os nossos netos".» (p. 105)

«Uma das manifestas incongruências do nosso tempo é o facto de o Reino Unido e a França continuarem como "membros permanentes" do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), aprovando resoluções obrigatórias que os restantes países têm de cumprir. Ambas as nações apenas ocupam aquele lugar pelas suas façanhas no século XIX, e não por serem grandes promessas para o século XXI... A melhor maneira de reforçar a credibilidade do CSNU é o Reino Unido ceder o seu lugar à Índia e, tal como defendo no livro The Great Convergence, a França partilhar o seu assento com a UE.» (p. 112)

«O cerne do problema que o Ocidente enfrenta é que nem os conservadores nem os liberais, nem a direita nem a esquerda, compreenderam ainda que a história tomou outro rumo no início do século XXI. A era do domínio ocidental está a chegar ao fim. Os responsáveis destes países deviam levantar a cabeça, deixando de se centrar somente nos seus conflitos internos, para se focarem nos desafios mais abrangentes a nível mundial. Em vez disso, estão a acelerar, de várias maneiras, a sua irrelevância e desintegração.» (p. 125)

«É por isso que este livro pretende ser, em última análise, uma oferenda ao Ocidente, lembrando-o de quanto ele fez para elevar a condição humana a um ponto sem precedentes. Seria trágico, portanto, se o Ocidente se transformasse no principal instigador de agitação e incerteza no período mais promissor da nossa história. Se tal viesse a acontecer, os historiadores vindouros ficariam intrigados com o facto de a civilização mais bem sucedida de sempre ter sido incapaz de aproveitar a maior oportunidade alguma vez apresentada à humanidade. Uma pequena dose de maquiavelismo é tudo do que precisamos para salvar o Ocidente e o Resto do Mundo. Caso contrário, o Ocidente terá mesmo caído.» (p. 126)

Procurei apontar os principais aspectos do livro de Mahbubani, que aborda muitas matérias que é impossível especificar neste post. O autor procede a uma análise pertinente de muitos dos eventos verificados nos últimos tempos, análise que naturalmente subscrevo. Há, todavia, outras apreciações que me confundem e cuja dificuldade de compreensão Mahbubani, ele mesmo, reconhece no fim do livro. Donde parece resultar uma contradição. Em todo o caso, ficam expostas algumas das ideias deste livro que me foi recomendado por um amigo.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

EUNICE MUÑOZ




Completa hoje 90 anos Eunice Muñoz, uma das maiores actrizes portuguesas das últimas décadas, de quem tenho o privilégio de ser amigo.

Não tem este post a pretensão de recensear a sua extraordinária carreira artística. Sobre Eunice tudo já foi dito e escrito e a minha prosa nada acrescentaria ao brilho de uma vida dedicada ao teatro. Destina-se tão só a evocar a data, enviando-lhe um abraço da maior amizade.


domingo, 29 de julho de 2018

CRISTO RECRUCIFICADO



Nas minhas férias em Creta costumo ficar instalado num hotel em Ammoudara, a cerca de 10 km de Heraklion (ou Iraklio), a capital da ilha. Em estadas anteriores, desloquei-me algumas vezes à cidade, onde visitei os mais importantes locais de interesse cultural (monumentos, museus, igrejas, etc.), como igualmente visitei as ruínas de Cnossos, onde emergiu a célebre civilização Minoica, exumada por Arthur Evans no século XIX. Dessas deslocações dei conta aqui, aqui, aqui e aqui.



Havia, contudo, uma lacuna nas peregrinações por essas terras que albergaram uma das mais antigas civilizações conhecidas. E que, desta vez, me apressei a colmatar. Nunca visitara o túmulo de Nikos Kazantzakis, o célebre romancista (e dramaturgo) grego (1883-1957), natural de Creta, e autor de obras famosas como O Destino de Deus (São Francisco de Assis), Alexis Zorba, A Liberdade ou a Morte, A Última Tentação de Cristo ou Cristo Recrucificado.



O facto de o Teatro Experimental de Cascais (TEC) ter agora em cena uma adaptação da adaptação ao teatro de o Cristo Recrucificado (Ο Χριστός Ξανασταυρώνεται), livro publicado em francês em 1948 e em inglês em 1964, obra também conhecida no mundo anglo-saxónico como The Greek Passion, reforçou a minha vontade de me dirigir ao sul de Heraklion para visitar a sepultura.



O espectáculo que o TEC apresenta é uma adaptação da peça de François Daviel, que adaptara ao teatro o romance de Kazantzakis (1962). Existe também uma versão cinematográfica da obra, realizada por Jules Dassin, intitulada Celui qui doit mourir (1957), e uma ópera de Bohuslav Martinů, com o título A Paixão Grega (Řecké pašije).


Celui qui doit mourir (El que debe morir, na edição espanhola)

Nikos Kazantzakis foi um infatigável combatente pela independência da Grécia, um lutador solitário que colocou a pena ao serviço dos ideais que nortearam a sua vida, a defesa dos pobres e dos oprimidos contra as injustiças, os egoísmos, as humilhações. Esta sua derradeira obra é também uma interrogação sobre uma questão fundamental, de grande pertinência num país maioritariamente ortodoxo praticante à altura em que foi escrita: Ainda há lugar para Cristo no mundo moderno?


domingo, 1 de julho de 2018

OS ESPIÕES ASSASSINOS





O nº 2797 de "L'OBS" (14 a 20 de Junho) consagra um dossier aos serviços de espionagem israelitas, britânicos, franceses, americanos e russos. E aos assassinatos efectuados por estes serviços. O Mossad israelita é um dos mais poderosos serviços secretos. Nada nem ninguém o detém. Eliminou Wadie Hadad, chefe do braço armado das FPLP e tentou, aparentemente sem sucesso mas persistem dúvidas, assassinar Yasser Arafat. A CIA utiliza prisões secretas para torturar à vontade presumíveis terroristas. Mesmo em França, recentemente, François Hollande declarou aos jornalistas que ordenara pessoalmente operações "homo", isto é, execuções sumárias sem julgamento. O MI6, à beira do Tamisa e a DGSE do boulevard Mortier, no coração de Londres e de Paris, pretendem estar ao serviço da sociedade. A violência arbitrária de certas operações colocam a questão da sua legitimidade e da sua legalidade. Os serviços de informações destinados a proteger os Estados, logo as democracias, são por natureza anti-democráticos??? Quais as missões que se podem confiar aos serviços secretos e como definir os limites a respeitar? O segredo e a urgência, noções fundamentais neste tipo de operações, complicam muitas vezes o controle que as instituições democráticas têm a obrigação de efectuar. O que confere um imenso poder aos seus agentes, cuja actuação pode não respeitar os valores e as leis do Estado. Tanto mais que as ordens são muitas vezes susceptíveis de interpretações diversas.

Os dossiers negros do Mossad são vastos. Registemos algumas operações. O rapto e assassinato do líder oposicionista marroquino Mehdi Ben Barka, inimigo nº 1 do rei Hassan II, em 1965, em frente da brasserie Lipp, em Paris, como moeda de troca pelo facto do rei ter autorizado o Mossad a colocar escutas nas salas de reuniões em que ocorreu uma reunião da Liga Árabe, em Casablanca. Este caso, que teve obviamente cumplicidades francesas, provocou a fúria do general De Gaulle, que decapitou o serviço de contra-espionagem francês. Outro caso foi o assassinato no seu hotel de Paris, em 1975, do cientista iraquiano Yahya Al-Meshad, que preparava a instalação de um reactor nuclear no seu país, a pedido de Saddam Hussein. Seguiram-se dois outros cientistas iraquianos, igualmente mortos pelo Mossad: Salman Rashid, envenenado em Genève e depois Abd Al-Rahman, envenenado em Paris. Como todos foram substituídos por outros mais bem pagos e mais bem protegidos, Israel decidiu-se a uma operação militar, em 1981, bombardeando o reactor nuclear a sudeste de Baghdad. Ariel Sharon, primeiro-ministro (e criminoso de guerra) mandou abater um avião civil por presumir que viajava a bordo YasserArafat, mas o comandante das forças aéreas hesitou, e ainda bem, porque não só não viajava Arafat mas o seu irmão, como o avião levava a bordo 30 crianças que iam receber tratamento ao Cairo. Quando o movimento Setembro Negro abateu 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, a primeira-ministra Golda Meir jurou vingança e todos os membros do comando acabaram por ser abatidos pelo mundo fora. Mas uma das operações foi um fiasco. O Mossad matou em Lillehamer, na Noruega, em 1973, Ahmed Buchiki, diante da sua companheira grávida, porque o confundiu com Ali Hassan Salameh, líder do Setembro Negro. Este facto abalou um pouco o Mossad, até porque os agentes israelitas foram presos pela polícia norueguesa.

Em 1978, Wadie Haddad (Abu Hani) morreu em grande sofrimento em Berlim-Leste. Líder da Frente Popular de Libertação da Palestina, fora ele que ordenara, em 1976, o desvio para Entebbe de um avião da Air France ligando Tell-Aviv a Paris. Foi morto graças a uma arma indetectável, conforme relatório da autópsia transmitido à Stasi, não tendo sido descoberta a substância que poderá ter causado a sua morte. Verificou-se depois que o Mossad tinha introduzido um dos seus agentes na comitiva de Abu Hani, que lhe trocara o tubo de pasta dentífrica por um outro de aparência idêntica mas contendo uma toxina mortal fabricada nos laboratórios israelitas. Cada dia que Haddad lavava os dentes ia-se envenenando lentamente.

Um outro homicídio espectacular, preparado pelo Mossad com a ajuda da CIA, foi o de Imad Moughnieh, libanês, dirigente do aparelho militar do Hizzbullah, que organizara os ataques de 1983 em Beirute contra o Quartel-General americano, o Quartel-General francês e a embaixada dos EUA.  E também os atentados anti-israelitas de Buenos Aires em 1992 e 1994. Tornara-se um homem a abater pelos serviços secretos israelitas, franceses e americanos. Estando Moughnieh em Damasco, o Mossad, com a ajuda da CIA (aval de Bush pai) colocou um explosivo indetectável (entrado clandestinamente na Síria pela mão dos americanos) na parte de trás da sua viatura, numa zona normalmente não revistada pelos seus guarda-costas. Em 12 de Fevereiro de 2008, quando entrou no carro, Moughnieh explodiu, num dos locais mais bem guardados do país. Um triunfo para o Mossad e uma humilhação para os sírios.

As páginas seguintes da revista são dedicadas ao affaire Sergueï Skripal, que todos conhecemos, permanecendo a dúvida se a ordem foi emanada do Kremlin ou não, já que não é hábito agentes de um serviço atacarem ex-colegas, já retirados da actividade de espionagem. Kripal era um agente russo ao serviço (duplo) do MI5 britânico. Pode ter acontecido que, violando as regras do jogo, Kripal tenha prosseguido a sua actividade, agora sediado no Reino Unido, e isso tenha sido intolerável para o FSB (sucessor do KGB) que resolveu punir de forma evidente, e simultaneamente, o MI5 e Kripal, actuando em solo britânico mas não utilizando arma dissimulada, antes a utilização de um produto não mortal. Assim sendo, terá sido um golpe de mestre, e um aviso para dissuadir aventuras futuras de eventuais traidores.

Sobre a França, relata o jornalista que as operações "homo" começaram no país, de maneira profissional, aquando da guerra da Argélia. É então que o SDECE (antigo serviço de contra-espionagem) estrutura um Serviço Acção, que vai utilizar militares clandestinos, reservistas ou homens contratados pontualmente, para eliminar os inimigos da República. As suas operações mataram centenas de pessoas. Inicialmente, as regras eram não intervir em França, não matar cidadãos franceses e não deixar rasto. Mas tudo evoluiu. Em 1959 foi assassinado em Paris o advogado argelino Ould Aoudia. No fim da guerra da Argélia o feitiço voltou-se contra o feiticeiro, e vários membros do SDECE tentaram mesmo assassinar o general De Gaulle. Durante a V República, apenas Chirac se opôs a esta prática: raptar, sim, mas matar, não. Mas De Gaulle e Giscard autorizaram os homicídios e Mitterrand, que teoricamente se opunha, tudo permitia com a conhecida "ambiguidade mitterrandiana". Com Sarkozy, idem e Hollande viria mesmo a declarar em entrevista publicada recentemente em livro (Un président ne devrait pas dire ça...), que autorizara pessoalmente vários assassinatos. Segundo o articulista, Macron segue a mesma linha de Hollande, ainda com mais dureza, já que não tem estados de alma e não hesita em empregar qualquer tipo de forças, sejam clandestinas ou não. É isto a política da V República e a Justiça, dado o tipo de operações, nada pode fazer. As represálias sistemáticas, estejam os inimigos onde estiverem, é uma coisa que hoje se pratica às claras e se assume já politicamente.

A CIA actua também livremente através do Special Activities Center (SAC), capturando ou assassinando em qualquer parte os inimigos dos Estados Unidos. Foram os homens do SAC que capturaram Saddam Hussein, que neutralizaram numerosos líderes da Al-Qaida no Iraque e que localizaram e assassinaram Ben Laden (com cobertura televisiva em directo para a Casa Branca). Passaram agora a utilizar drones com autorização de George W. Bush e Barack Obama. O novo presidente, Trump, interessou-se bastante pelos drones e declarou que, para vencer os terroristas "é preciso eliminar as suas famílias".

Não permite o tempo, e o espaço, determo-nos mais demoradamente sobre a actividade dos espiões assassinos, mas os interessados poderão sempre adquirir a revista e ler, na íntegra, este curioso trabalho de investigação.