quinta-feira, 22 de março de 2018

INSTANTÂNEOS





Acabou de ser editado em língua portuguesa, com o título Instantâneos, o livro de Claudio Magris,  Instantanee (2016), uma colectânea de 48 textos breves, datados de 1999 a 2016, que presumo tenham sido publicados em jornais italianos, mas o livro em português é omisso, o que é lamentável, quanto à origem destas crónicas.

Claudio Magris nasceu em Trieste, em 1939, essa cidade mágica de literatos e artistas, hoje italiana, mas que foi já jugoslava, eslovena e até independente. Autor de vasta e notável obra, onde se conta o famoso romance Danubio (1986), Magris é um dos mais representativos escritores da Mitteleuropa, de que Trieste constitui um símbolo.

Nos textos agora dados à estampa na nossa língua, ressalta um humor muito inteligente, que  reflecte frequentemente quanto é efémera a nossa existência terrena. E o autor mostra também claramente a importância que atribui aos mais vulgares factos do quotidiano, que são afinal verdadeiras experiências de vida.

Como contribuição para um melhor conhecimento de Claudio Magris entre nós, transcrevemos algumas passagens da obra:


«(...) Morrer faz parte dos óbvios riscos do ofício de viver. Como disse um escritor polaco, Stanislaw Lec - que ele nunca leu, mas com quem certamente concordará inteiramente, embora não o saiba -, seja como for, viver é perigoso e quem vive morre.» (p. 15)

«(...) No programa televisivo fala-se, com insistência - naturalmente sem mencionar nomes, o esoterismo requer segredo - de importantíssimos banqueiros que participariam em ritos satânicos, missas obscuras, liturgias diabólicas e assim por diante, talvez parodiando cultos de outras civilizações que, no seu contexto, fazem sentido, mas, reciclados noutra parte qualquer, ficam desvirtuados, tal como certos objetos sacros reduzidos a bibelôs nas casas dos novos-ricos. Até há poucas noites, acreditava que os banqueiros se ocupavam de finanças; a maior parte deles honestamente e um ou outro, como acontece nas melhores famílias, fraudulentamente. É certo que se, pelo contrário, se dedicam a essas diaboliquices patetas, compreende-se que até o principal trapaceiro de meia-tigela o seja às claras. Se o principal responsável pelas burlas sofridas por muitos de nós é aquele mesmo Satanás de banda desenhada, temo sinceramente que não haja esperança para nós, aqueles que fazem poupanças, pois não me parece que ele seja solvente.» (pp. 54-5)

«EM ISTAMBUL, NO CANTO NORDESTE da Cisterna da Basílica, com a frescura da sua misteriosa água subterrânea e a simetria - inquietante como toda a simetria - das suas doze filas de colunas na sombra, duas delas estão apoiadas sobre grandes cabeças de Medusa, deitadas de lado ou invertidas, com a sua melena de serpentes emaranhadas e os seus olhos que no mito transformam em pedra quem os fita, por dizerem o insustentável e escuro horror de existir. Quando Justiniano, no século VI, mandou erigir a basílica, os mármores das esculturas pagãs foram evidentemente usados como matéria-prima de construção, talvez até com um certo gosto em humilhar as divindades antigas. (...) Aquela estrutura vertical é também a estratificação das civilizações que se foram sucedendo no tempo, sem que tais sucessões impliquem necessariamente um progresso ou uma ordem hierárquica, mas antes tão-só um alternar-se de mundos e de estratos de terra ou de folhas caídas, sem nunca desaparecerem definitivamente, nem tampouco se  transporem. As cúpulas islâmicas cobrem um universo que não é somente turco ou muçulmano, mas é também grego, latino, bizantino, genovês, veneziano, tradicionalista, modernista; um amálgama e uma mistura de culturas, línguas, religiões. Lá em baixo, com a cabeça torta ou virada ao contrário, a Medusa, mais do que petrificar, pisca-nos o olho.» (pp. 59-60)

«(...) Tudo isto é nada em relação àquilo que acontece quando, por exemplo, se perde a bagagem no aeroporto Kennedy de Nova Iorque, se telefona para o número indicado e uma voz gravada diz velozmente para nos dirigirmos ao número tal se o voo for proveniente da Europa, ao número tal se o voo for proveniente de outra cidade dos Estados Unidos e ainda mais uns tantos números de acordo com a companhia aérea em que se viajou, números que nem tampouco se consegue memorizar ou escrever, ao mesmo tempo que o telefone - não verde, mas a pagamento - interrompe a comunicação. Os humanistas podem saltar de alegria, mesmo que a mala perdida pese mais do que o credo filosófico, porque descobrem que a máquina ainda não substituiu o Homem, neste caso um ou uma telefonista de carne e osso.» (pp. 64-5)

«O ASSESSOR DA CÂMARA MUNICIPAL de Trieste para o pelouro das Obras Públicas, Franco Bandelli, estigmatizou, com a aprovação de muitos concidadãos, o hábito - cada vez mais disseminado na minha cidade - de fazer xixi na rua, a moda que instiga "os jovens mal-educados de boas famílias a urinar contra as paredes, nos portões e nas viaturas estacionadas". Tudo isto é consequência não tanto do progressivo desaparecimento dos velhos e gloriosos urinóis, engolidos pelas requalificações e pelas obras públicas, mas sobretudo de diversos outros fatores: o crescente consumo de cerveja, uma menor sensibilidade moral em relação à micção ao ar livre (que deixou de ser sentida como transgressão, a par de outros hábitos outrora reprovados socialmente e agora socialmente aceites) e o número insuficiente de forças de segurança pública (em particular, da polícia municipal) predispostas à repressão da infração, isto é, à inflição das multas recentemente estabelecidas pela Câmara de Trieste para quem mija na via pública. (...) Das três principais causas do deplorável costume, o declínio do urinol é talvez o mais importante. (...) Desaparecido ou cada vez mais raro "o velho templo verde" - além do mais deploravelmente machista, pois oferecia "alívio unicamente ao homem de pé" -, as autoridades milanesas da época, assediadas como um castelo medieval a partir do fosso cada vez mais cheio de chorume e ante a afanosa procura de remédios, pensaram a certa altura em adquirir as novíssimas casas de banho eletrónicas instaladas na Paris de Chirac, à época presidente da Câmara da Ville Lumière. (...) Todavia, Trieste tem um problema adicional relativamente a Milão: o mar, lugar por excelência onde urinar é tacitamente aceite, mas nem por isso menos inconveniente, enquanto profanação daquela paisagem e elemento do  mundo que, mais do que qualquer outro, evoca o infinito, o eros, o divino. De acordo com uma antiga tradição portuguesa, fazer xixi no mar é pecado, mesmo que venial. Mas como identificar os transgressores?» (pp. 73, 74, 76)

«(...) Pão e vinho, que sobre uma mesa fraternamente posta estreitam a humanidade, tornam-se assim obsceno banquete no empanturramento dos poderosos que, ao partirem o bolo, julgam repartir entre si o mundo, como aconteceu em Moscovo, quando Churchill e Estaline partilharam não só um soberbo esturjão, mas também as desventuradas nações balcânicas, setenta e cinco por cento da Roménia destinada à influência soviética e vinte e cinco à inglesa; com a Grécia fez-se o contrário e assim por diante, quando Churchill, ao mesmo tempo que corta um apurado naco de comida, cede territórios que, confessará mais tarde, não sabe sequer bem onde se situam exatamente, como a Bessarábia. Dez anos mais tarde, na edição de 1954, a introdução coletiva ao Livro da Comida Saborosa e Saudável diz que, a bem do país, é "necessário introduzir o sumo de tomate como bebida de massas".» (pp. 82-3)

«(...) Existe uma brutal indiferença ou uma irritação dos saudáveis em relação aos doentes e uma conspiração dos doentes contra os saudáveis.» (p. 129)

«(...) Os nossos cemitérios são cidades, necrópoles e metrópoles de mármore, majestosos triunfos da morte e da sua ordem; trazem à lembrança mais a especulação imobiliária do que a vida eterna.» (p. 136)

«(...) Amar significa também compreender e proteger aquela solidão de que o outro precisa; compreender que ele ou ela pode querer almoçar fora de casa não só porque tem um banal e sempre respeitado almoço de trabalho que não ofende nenhum casamento, mas porque naquele dia precisa de estar unicamente com os seus pensamentos, com o seu vagabundear rafeiro, e perder-se. E, por sua vez, diz um verso de Rilke "Os próprios amantes [...] não deparam constantemente com limites?"» (p. 142)

«NA ÉPOCA DA SECULARIZAÇÃO, a publicidade substitui por vezes os taciturnos pregadores da chamada idade das trevas, fustigadores da carne entusiasmados por recordar que por baixo de um par de gloriosos seios está um esqueleto destinado a desfazer-se em pó. (...) É preciso reconhecer que a publicidade televisiva, se por um lado é com certeza uma chatice que dá cabo do honesto descanso de quem só quer ver um programa, por outro é também uma espécie de grande pregadora quaresmal, a herdeira da universalidade dos Mistérios medievais em que toda a beleza, riqueza e poder acabam por se reduzir a pó. Se não fossem as empresas que produzem desodorizantes, cremes depilatórios, pensos higiénicos e champô, quem se lembraria ainda de que está destinado ao pó?» (pp. 152-3)

* * * * *

Não li o original italiano mas a tradução parece-me fluente, ainda que algumas expressões tenham provocado a minha perplexidade. O que verdadeiramente se dispensava era a opção editorial de publicar o livro utilizando o sinistro Acordo Ortográfico ilegalmente vigente. Tragédias do Portugal contemporâneo.

domingo, 18 de março de 2018

VLADIMIR VLADIMIROVITCH PUTIN




Com cerca de 75% dos sufrágios expressos, Vladimir Vladimirovitch Putin foi reeleito presidente da Federação Russa, para um quarto mandato, que terminará em 2024. Os outros sete candidatos tiveram votações despiciendas, com excepção do comunista (milionário) Pavel Grudinin, à volta dos 12% e do ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, na ordem dos 6%.

O resultado obtido por Putin não constitui surpresa, na medida em que o presidente incarna os mais profundos sentimentos dos russos. Esta votação esmagadora traduz a vontade do povo na prossecução de uma política de afirmação da Velha Rússia na cena internacional, depois das humilhações sofridas no final da União Soviética e durante a presidência do ébrio Boris Yeltsin. Indubitavelmente, Putin restituiu aos russos a sua honra perdida nos anos de turbulência, em que o Mundo Ocidental assumiu com Gorbachov promessas que depois não cumpriu, a fim de promover o fim da União Soviética que foi, nas palavras de Putin, «a maior tragédia geopolítica do século XX». Existia um compromisso em troca do fim do comunismo: a não interferência ocidental nos países do bloco de Leste e muito menos nas antigas repúblicas da URSS. Pois, rapidamente, esses países ingressaram na União Europeia e na NATO e, pior do que isso, mesmo a Estónia, a Letónia e a Lituânia (antigas repúblicas soviéticas) seguiram o mesmo caminho. Pelo caminho, o Ocidente, com destaque para a Alemanha, o Vaticano e os EUA desencadearam o fim da Jugoslávia, num processo protagonizado por Bill Clinton e Madeleine Albright, a fim de serem instaladas bases militares americanas no Kosovo. Com a Ucrânia, as coisas não foram tão fáceis. Chegara a altura de Putin dizer NÃO. A queda de Yanukovitch e a instalação de um governo "ocidentalizante" em Kiev, levou o presidente a anexar a Crimeia (que aliás era russa e passara a ucraniana devido a uma estranha oferta de Nikita Khrustchov) e a apoiar os separatistas do Donbass, um situação que ainda não se encontra totalmente clarificada.

Também a intervenção russa na Síria é digna do maior aplauso. Os países ocidentais, por interesses geoestratégicos, ambições económicas ou simples caprichos, decidiram apoiar os rebeldes sírios, já então em conúbio com os terroristas do Daesh. Para evitar uma disseminação do terrorismo djihadista, Putin decidiu em boa hora intervir a favor da manutenção do regime legal sírio de Bashar Al-Assad, que preside um estado laico, não totalmente identificado com as chamadas "democracias liberais", é certo, mas mil vezes mais democrático do que a totalitária Arábia Saudita, tão incensada pelos próceres ocidentais. Eu, que estive na Síria algumas vezes, pude testemunhá-lo pessoalmente.

É verdade que existem na Rússia grupos económicos poderosos que aproveitando o fim da URSS oligarquizaram o sistema. Também é verdade que Putin tem estado constrangido a apoiar-se nesses grupos, bem como na Igreja Ortodoxa, cuja influência no país, apesar de décadas de comunismo, é muito poderosa. Tenho a certeza que Putin nutre alguma nostalgia pelo comunismo. Também sei, pelos contactos em visitas à Rússia e aos países de Leste ou pelos imigrantes desses países em Portugal, que todos acham que se vivia melhor no tempo do Comunismo (obviamente depois da época estaliniana, altamente repressiva). Com a legitimidade acrescida pela votação de hoje, seria bom que Putin promovesse uma certa re-socialização do país e se libertasse em alguma medida das pressões da Igreja Ortodoxa, ainda muito rígida em matéria de costumes.

Concluindo, penso que, a exemplo do que acabou de acontecer na China com Xi Jinping, a Constituição Russa possa ser alterada, a fim de permitir a reeleição de Putin para um quinto mandato, em 2024. Não é só a Rússia que precisa deste homem. O Mundo Ocidental, que tem estado entregue a líderes sem carisma nem projecto, carece da existência de estadistas com uma visão de futuro, que saibam definir um rumo, e prossegui-lo. No meio da mediocridade reinante, Vldimir Putin emerge como um dos poucos verdadeiros estadistas do mundo contemporâneo.


VISITA DO SHEIKH AHMED AL-TAYEB A PORTUGAL




O sheikh Ahmed Mohamed Al-Tayeb, Grande Imam de Al-Azhar, visitou Lisboa, por ocasião do 50º aniversário da Comunidade Islâmica Portuguesa. Numa cerimónia que contou com a presença do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dos anteriores presidentes da República, do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e de muitas outras personalidades, o sheikh Al-Tayeb dissertou sobre o exemplo de tolerância religiosa que é Portugal e concedeu uma entrevista significativa à RTP.

https://www.msn.com/pt-pt/video/sicnoticias/grande-im%c3%a3-do-cairo-vemos-o-com%c3%a9rcio-de-armas-a-espalhar-o-caos/vp-BBKlKwJ

quinta-feira, 15 de março de 2018

VLADIMIR PUTIN




O nº 2783 (8 a 14 de Março) de "L'Obs" inclui um dossier dedicado ao presidente da Federação Russa, Vladimir Vladimirovitch Putin, uma figura incontornável da política internacional.

Não se trata de um trabalho exaustivo, obviamente, nem particularmente objetivo (a peça de abertura é assinada por Sara Daniel), mas, em todo o caso, merece ser lido.  Aborda a trajectória rápida de Putin, de agente do KGP a presidente da Câmara Municipal de São Petersburgo, rapidamente primeiro-ministro sob a presidência do bêbado Yeltsin e finalmente presidente da Rússia.

Debruça-se sobre a vida íntima de Vladimir Vladimirovitch, o segredo mais bem guardado da Rússia, o seu divórcio, uma pretensa amante, mas omite que o incumbente já foi considerado um ícone gay por uma revista, salvo erro holandesa, e que não perde oportunidade de exibir os seus dotes físicos. Há, contudo, um clima pouco favorável à homossexualidade no país, mais de natureza social do que legal, e em grande parte motivado pelas pressões da Igreja Ortodoxa que, como todas as obediências ortodoxas (muito mais do que as católicas, pelo menos nos tempos presentes) sempre se caracterizou por uma ostensiva homofobia.

É certo que Putin será reeleito este mês para a presidência da Rússia, e muitos aventam que no final do próximo mandato, em 2024, em vez de trocar o lugar com o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, como fez anteriormente, Putin, através de uma emenda à Constituição, este possa prosseguir com um quinto mandato na chefia do Estado.

É dedicada uma peça ao ressurgimento dos Cossacos, que beneficiam de um apoio claro do presidente, e que constituem uma juventude dedicada à prossecução dos ideais da Santa Rússia, e outra peça ao poderio militar russo, ainda recentemente evocado por Putin no seu discurso sobre o estado da Nação, onde salientou a existência de uma nova arma capaz de iludir os sistemas de defesa norte-americanos.

Putin é considerado pela opinião pública russa como o homem providencial capaz de restaurar o prestígio da antiga União Soviética, depois do desmoronamento desta, em consequência da trajectória errática e incompreensível de Gorbachev, e do percurso trágico-cómico de Yeltsin, que permitiu aos antigos países de Leste, e especialmente a antigos países da União, como a Estónia, a Letónia e a Lituânia, integrarem a União Europeia e mesmo a NATO, quando já fora dissolvido o Pacto de Varsóvia. Às tentativas da Ucrânia de prosseguir idêntico caminho, Putin disse, obviamente NÃO. Daí a ocupação da Crimeia, que aliás era russa antes de ser ucraniana, e o apoio à secessão de Donbass.

Mas o prestígio de Putin tornou-se mais evidente com o apoio ao regime de Bashar Al-Assad, na Síria, combatendo os terroristas islâmicos, constituídos por diversos grupos e que englobaram no seu seio aquilo que foi inicialmente chamado de Oposição Democrática. Estes grupos jihadistas, fiéis ao Estado Islâmico (ISIS ou Daesh) e partidários da instauração da sharia, têm-se caracterizado pelos actos mais atrozes, recebendo inexplicavelmente (ou talvez não, interesses comerciais obligent) apoio dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, da Arábia Saudita, do Qatar, da Turquia, etc.  Não sendo totalmente desinteressada a ajuda da Rússia (os russos têm interesses estratégicos na Síria, como a base naval de Tartus e a base aérea de Lataqia), ela tem permitido enfrentar e derrotar os guerrilheiros jihadistas, primeiro em Alepo e outras zonas e agora em Ghuta Oriental, onde estes constituíram a população como cativa, para lhes servir de escudo humano, o que tem provocado numerosas e lamentáveis baixas. Parece que o Ocidente se convenceu agora de que a única alternativa ao caos geral, com repercussões na Europa, é a manutenção do regime de Assad, cuja queda transformaria toda a região num verdadeiro inferno. O presidente Assad preside um Estado laico, com total liberdade religiosa, e tem recebido o aplauso de altos dignitários católicos e ortodoxos. A batalha pela libertação da Síria conta também, ao lado dos russos, com a participação do Irão e do partido xiita libanês Hizballah, o que tem provocado as maiores reticências dos sauditas (sunitas), que vêem com os piores olhos a emergência de uma potência xiita na região, o Irão, nação milenária herdeira de notáveis civilizações.

Evidentemente, existem na Rússia alguns condicionalismos à liberdade de expressão, mais por exigência dos sectores religiosos, mas também pela oligarquia financeira que suporta Putin e na qual este se apoia. Longe, todavia, das restrições existentes na União Soviética, da qual o presidente é naturalmente saudoso. Vladimir Vladimirovitch pode recuperar parcialmente a "honra perdida" da velha União mas não pode - e possivelmente não quer - restaurar o regime comunista, do qual tantos russos são nostálgicos. Basta ouvir o testemunho dos imigrantes russos em Portugal para podermos formar uma opinião objectiva a esse respeito.

A Rússia é hoje um Estado democrático, embora de um padrão diferente das chamadas "democracias liberais". Mas o poder reside, aparentemente, num só homem. E escrevo aparentemente, porque Putin está constrangido a uma série de compromissos com a elite política, económica e financeira. É um tsar menos poderosos do que os que chefiaram o Império. Em qualquer caso, é sempre conveniente recordar a máxima de Catarina II: «A Rússia é demasiado grande para ser governada por mais de uma pessoa».


domingo, 11 de março de 2018

A BALANÇA DA EUROPA




Carlos Gaspar, especialista de relações internacionais, publicou recentemente A Balança da Europa, onde analisa os acontecimentos verificados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, a grande guerra civil europeia.

Trata-se de uma obra sintética que, todavia, não impede o autor de fazer referências pormenorizadas à evolução política do Velho Continente, aos tratados, alianças, guerras, protagonismos, etc. Sendo evidentemente um europeísta, Carlos Gaspar não se exime a criticar atitudes e decisões erradas e funestas que os políticos europeus assumiram neste longo meio século.

O livro está dividido em quatro capítulos: 1) O fim da Europa; 2) A reconstrução da Europa; 3) A reinvenção da Europa; 4) O declínio da Europa. A quantidade de informação, cronologicamente apresentada, torna esta obra de muito útil consulta para recordar como após a queda do III Reich o continente europeu se organizou para recuperar dos escombros do conflito e para fazer uma barreira ao comunismo soviético que se instalara a leste.

No último capítulo, o autor trata do declínio da Europa, um tema hoje recorrente. Ainda há dias comentei neste blogue o livro de Michel Onfray, Décadence, onde o filósofo francês anuncia o fim da civilização ocidental. Escreve Gaspar que a Guerra Fria terminou duas vezes, a primeira com a queda do Muro de Berlim, a segunda com os atentados contra New York e Washington em 11 de Setembro de 2001. «A queda do Muro anuncia o fim da União Soviética e da divisão bipolar, o "11 de Setembro" antecipa o termo do "momento unipolar" e a reconfiguração da balança entre potências conservadoras e potências revisionistas, onde está em jogo a ordem do internacionalismo liberal que prevalece na primeira década do pós-Guerra Fria.» (p. 119) E mais: «O "terrorismo catastrófico" e a surpresa estratégica - o "11 de Setembro" é comparado a Pearl Harbour - conjugam-se para negar o triunfalismo do "fim da história" e revelar o "revisionismo hegemónico" dos Estados Unidos.» (p. 119). É claro que Carlos Gaspar não comunga da tese de que não houve verdadeiramente qualquer surpresa nestes dois casos. Sobre Pearl Harbour, o académico e ministro francês Alain Decaux, já falecido, afirma no seu livro Nouveaux dossiers secrets de l'Histoire (1967), que Roosevelt teve conhecimento prévio do ataque japonês a Pearl Harbour e não tentou evitá-lo, pois um tal evento seria o pretexto para justificar ao povo americano a sua decisão de entrar na Segunda Guerra Mundial. Quanto ao ataque de 11 de Setembro existe vastíssima literatura sobre o assunto, por exemplo James Gourley ou Thierry Meyssan, em que se afirma que o ataque da Al-Qaida, uma organização chefiada por um antigo agente da CIA, Osama bin Laden, teve lugar com a cumplicidade das autoridades norte-americanas e a própria realidade do evento não correspondeu à forma como foi descrito pela "comunidade internacional". Assim, como em Pearl Harbour, os EUA necessitavam de um acontecimento choque que os habilitasse a conduzir uma intervenção extremamente impopular, mesmo aos olhos de muitos governos europeus, como foi a invasão do Iraque, sob o falso pretexto da existência de armas de destruição maciça. Creio que os americanos se deverão precaver contra estas "habilidades", pois no futuro casos semelhantes dificilmente serão levados a sério.

A rejeição do Tratado Constitucional por franceses e holandeses (2005) é realçada por Gaspar que salienta a Cimeira do G-20, em 2008, sem resultados aparentes quanto aos fins em vista, bem como a intervenção russa na Geórgia, que pretendia (bem como a Ucrânia) entrar na NATO. O Ocidente havia prometido a Yeltsin respeitar os limites da União Soviética e suas zonas de influência, mas rapidamente a NATO (e a União Europeia) se estendeu aos países de Leste e mesmo à Estónia, á Letónia e à Lituânia. Com a invasão da Geórgia, Putin colocou um travão à expansão oriental da Aliança e deixou um claro aviso à Ucrânia. Também em 2008, a falência do Lehman Brothers precipitou uma crise do sistema financeiro internacional, cujas consequências ainda estamos a sofrer. A chamada "Primavera Árabe" de 2010 perturba a já conturbada ordem internacional, com manifestações na Tunísia, Egipto, Iémen, Bahrein, Líbia e Síria, e alguma agitação em Marrocos e na Argélia. O movimento na Tunísia parece ter sido inicialmente espontâneo, mas logo foi aproveitado pelos dirigentes ocidentais para o estenderem a outros países árabes, com apoio em dinheiro, armas e logística. «Os neoconservadores dos dois lados do Atlântico quiseram impor manu militari a democracia no "Grande Médio Oriente", mas nem os Estados Unidos, nem os seus aliados europeus estão preparados para a "Primavera Árabe".» (p. 126)

[Esta obsessão dos Estados Unidos de impor a democracia aos outros, é uma ingenuidade e uma mentira. Em primeiro lugar os EUA estão-se nas tintas, é o termo, para se preocuparem se há ou não democracia nos outros países, o que verdadeiramente lhes importa é impor o capitalismo na sua forma mais crua, e alargar a esfera do imperialismo americano. Aliás, só teoricamente os Estados Unidos são uma democracia; ainda há poucos anos as mulheres e os negros não tinham direito de voto, e com a divisão Republicanos/Democratas (as duas faces d mesma moeda), só conseguem alcançar a Presidência ou os lugares da Administração os candidatos apoiados pelo poder financeiro, que não pelo povo. Depois, a democracia não é coisa que se imponha, ela decorre da evolução política dos países. A ideia peregrina de George W. Bush de levar a democracia ao Iraque, cujo regime os americanos apoiaram activamente durante anos (para lá do embuste das armas de destruição maciça), só se compreende quando se percebe que essa exportação da democracia não passava do apropriamento dos poços de petróleo. Houve até quem escrevesse, por causa da Questão Palestiniana, que o caminho para Jerusalém passava por Baghdad, não me recordo se Robert Kagan, se William Kristol, afirmação que contou com o apoio entusiástico do execrável jornalista português José Manuel Fernandes, então no jornal PÚBLICO. A revolução na Tunísia, que se saldou pela fuga de Ben Ali, provocou as maiores convulsões no país, houve sérias confrontações, o partido islamista Ennhada tentou tomar o poder, facilitaram-se os atentados jihadistas, como no Museu do Bardo e em Sousse, a economia caiu, o turismo quase desapareceu, o desemprego aumentou. Tem havido agora alguns esforços de recuperação, mas a situação continua tensa. Na Líbia, o grande arauto da revolução contra Qaddafi foi o pseudo-filósofo francês e agente sionista Bernard-Henri Lévy, que contou com o apoio de Sarkozy, Obama e Cameron. Como predissera Qaddafi, que acabou assassinado, a Líbia transformou-se num caos, que perdura e abriu caminho à incontrolável emigração em massa não só de líbios mas de gentes do Sahel para a Europa. No Egipto, depois da experiência islamista de Morsi, que sucedeu ao deposto Mubarak, alguma ordem só voltou ao país com o golpe de Estado (neste caso bem aceite pelo Ocidente, devido a interesses estratégicos), do marechal Abdelfattah Al-Sisi, que governa de facto ditatorialmente, com mão muito mais dura do que a de Mubarak. O Iémen continua mergulhado numa profunda guerra civil. Na Síria, Bashar Al-Assad decidiu resistiu, e apesar da interferência de americanos, franceses, ingleses, turcos, sauditas e outros, enfrentou a rebelião de uma chamada oposição civil, rapidamente irmanada com os terroristas do Daesh. Neste duro combate, em que há a lamentar milhões de vítimas, valeu-lhe o apoio de Vladimir Putin (não totalmente desinteressado mas eficaz), do Irão e do Hizb'allah libanês. Uma parte da Síria está destruída - e valha-nos que não se concretizou uma intervenção ocidental formal, como pretendiam Hollande (esse miserável francês que foi presidente da República) e Cameron (um primeiro-ministro britânico abaixo de qualquer suspeita), - destruída materialmente, artisticamente, economicamente mas não moralmente, aguardando a reconstrução do que for possível, já que não se pode ressuscitar os mortos, restabelecer os estropiados físicos e mentais, reconstituir as famílias, restaurar todos os monumentos. E há ainda um longo caminho a percorrer, o da reconciliação nacional, onde talvez o caso da Argélia possa servir de exemplo. É por causa deste descrédito nas supostas democracias ocidentais e nos seus concupiscentes dirigentes que os povos, através de eleições livres se vão distanciando dos partidos do sistema e procurando outras soluções governativas, talvez inencontráveis no quadro dos actuais regimes. Atente-se nas recentes eleições na Áustria, onde Sebastian Kurz, do Partido Popular Austríaco é chanceler e da Itália, onde o Movimento Cinco Estrelas foi agora o partido mais votado, juntamente com a coligação de direita que engloba a Liga (do Norte), a Frente Nacional e os Irmãos de Itália. Mesmo na Alemanha, o novo governo de Angela Merkel é uma solução precária numa situação de um progressivo desequilíbrio das forças tradicionais. Mas vou fechar o parêntese para regressar a Gaspar.]

O autor refere depois a ingerência ocidental, especialmente americana e alemã na Ucrânia, a fuga do presidente Viktor Yanukovych, a farsa da Praça Maidan e a instalação de um poder anti-russo em Kiev que levou o presidente Putin a anexar a Crimeia e a sustentar a secessão da região de Donetsk e Luhansk.

Também o Tratado de Lisboa, de 2007, que substituiu o fracassado Tratado Constitucional, foi rejeitado (2008) pelos irlandeses, tendo de ser repetida a votação em 2009, para obter finalmente aprovação. A táctica da União Europeia é a de ir repetindo votações até ver se consegue decisões favoráveis dos povos. «Com efeito, os projectos originais da Constituição europeia partem do princípio de uma ruptura com o modelo westfaliano que criou o sistema de Estados nacionais. Para Jurgen Habermas, a tendência dominante na conjuntura internacional é a substituição do sistema de Estados por uma constelação global pós-estatal, que deve começar a ser realizada por uma vanguarda, com a unificação da Europa num regime continental. O sistema de Estados é considerado como o responsável pelas guerras que dominam a história europeia, mas a integração torna possível transcender os Estados, "constitucionalizar a balança do poder" e transformar a identidade dos povos da Europa continental, vinculados a um "patriotismo constitucional" pós-nacional. Esse projecto neo-kantiano, embora vinculado à defesa dos valores do direito e da paz, tem afinidades perigosas com a teoria anti-kantiana da ordem hemisférica, enunciada por Carl Schmitt para legitimar o Grossraum europeu do Reich nazi, no triplo sentido em que se propõe edificar uma ordem regional pós-westfaliana na Europa continental, que exclui a Grã-Bretanha e se opõe à hegemonia dos Estados Unidos. O projecto europeu de Habermas separa-se da tradição schmittiana pela sua subordinação à regra da constituição republicana, pela rejeição da dominação imperialista e pela defesa dos direitos humanos como valores universais. Mas também diverge da visão original de Kant, cuja federação republicana é uma aliança entre soberanos, não uma sociedade pós-estatal e pós-nacional, e cuja definição dos deveres cosmopolíticos se limita à obrigação da hospitalidade para receber refugiados políticos perseguidos pelas autocracias. O projecto kantiano, parte integrante da identidade europeia como uma comunidade republicana liberal, não implica a superação do modelo westfaliano. Para Jean-Marc Férry, a construção de um Estado europeu é a finalidade do projecto de integração como um processo político gradual, que começa com a consolidação de uma aliança de Estados (Staatenbund) para evoluir no sentido de uma união política constitucional entre os Estados membros, sem ter de chegar à formação de um "Estado dos povos" (Volkerstaat), que transcende os Estados nacionais, como defendem os modelos de organização política do espaço continental de Schmitt e de Habermas.» (pp. 134-5)

A crise financeira de 2008, entendida inicialmente como uma crise americana, rapidamente alastra à Europa. A Grécia está na bancarrota, a Irlanda, Portugal e a Espanha correm o risco de lhe seguir o caminho e mesmo a Itália não está imune à crise. No Conselho Europeu de Maio de 2008, Merkel decide que uma troika formada pelo BCE, a Comissão Europeia e o FMI deve decidir as condições do Programa de Assistência à Grécia, cujo resgate é estimado em 110 mil milhões de euros. Os acontecimentos posteriores são do nosso conhecimento. A queda do governo grego, o novo governo do Syriza, a rejeição por este das condições desumanas de austeridade impostas pela troika, o diktat de Berlim [no melhor estilo nazi] e a aceitação final pelo Syriza das condições alemãs, para evitar a saída do euro. A partir daqui começa a desintegração acelerada da Europa potenciada pelas crises nos países árabes e pelo êxodo de milhões de pessoas, convertidas em refugiados. E também pelos atentados na Europa, atribuídos ao fundamentalismo islâmico. Portugal e a Irlanda "beneficiam" também de um programa de assistência da troika com pesadíssimos custos para as populações. O "Brexit", inesperado para muitos, converte-se numa realidade e leva o primeiro-ministro Cameron [um idiota] a demitir-se, sendo substituído por Theresa May [outra idiota]. A eleição de Donald Trump também constitui uma surpresa, pelo menos na Europa, que não no seu próprio país.

O último sub-capítulo do capítulo IV (O declínio da Europa), intitula-se "O fim das ilusões". «Desde o "11 de Setembro", entre o regresso da barbárie com o totalitarismo pan-islâmico e a deriva imperialista norte-americana na guerra sem fim contra o "Eixo do Mal", os limites da tese hegeliana tornam-se evidentes. O modelo ocidental do Estado de direito prevalece contra o nazismo e o comunismo, mas a ordem democrática da sociedade aberta e da economia de mercado é contestada pelos autoritarismos pós-totalitários da Rússia e da  China. A comunidade internacional continua a ser uma ficção e as Nações Unidas não só não conseguem garantir a segurança colectiva como continuam subordinadas ao jogo das grandes potências.» (p. 145)

Não discorro sobre os acontecimentos mais recentes referidos por Carlos Gaspar, como a eleição de Macron [uma vitória sobre o vazio dos partidos tradicionais, que em breve se esbaterá], as consequências do "Brexit", a radicalização do Labour, de Jeremy Corbin, as posições "anti-europeias" da Polónia e da Hungria, etc., porque este texto já vai longo.

Termino com a transcrição do último parágrafo: «O declínio da Europa é real, mas não é irreversível se for possível assegurar o empenho dos cidadãos na defesa dos valores ocidentais em que assenta a sociedade dos Estados e a continuidade da balança europeia. As lições da História mostram que "a balança do poder só dura enquanto alguém estiver preparado para correr riscos para a manter, e que a ordem internacional só pode ser assegurada pelos que estão preparados para fazer sacrifícios para a construir e impor.» (p. 158)

quarta-feira, 7 de março de 2018

REVISITANDO A GUERRA DO GOLFO




O filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007) publicou em 1991, a propósito da Guerra do Golfo, três textos fundamentais: La guerre du Golfe n'aura pas lieu, La guerre du Golfe a-t-elle vraiment lieu? e La guerre du Golfe n'a pas eu lieu, antes, durante e depois do conflito. Neles, o notável pensador questiona-se, como de resto na maior parte da sua vasta obra, sobre a "verdade absoluta" e o sistema dos signos. Baudrillard é um crítico da expansão contínua das novas tecnologias geradoras de uma intoxicação mediática, que ultrapassa os limites da absorção da informação, e criadoras de um "feudalismo tecnológico", que engendra uma servidão voluntária.

Os textos em questão foram editados em 1991, sob o título do último, e constituem uma desmontagem de toda a propaganda norte-americana a propósito da primeira guerra transmitida em directo pela televisão (esta guerra mobilizou tanto os militares como os jornalistas), técnica utilizada mais tarde na invasão do Iraque em 2003, a que o filósofo francês ainda assistiu.

São pertinentes, e prenhes de corrosivo humor, as considerações sobre esta "não-guerra" (a de 2003 haveria de ser trágica para o Iraque e para o Mundo) desencadeada por Bush Pai, continuada em outros termos por Bill Clinton, e finalizada por Bush Filho, um dos grandes criminosos do nosso tempo.

Este psicodrama, que de alguma forma contou com a conivência de Saddam Hussein, um antigo aliado dos EUA na guerra com o Irão, foi um dos grandes embustes do fim do século passado, como o havia sido igualmente, em 1989, a "insurreição" de Timisoara, «un des plus beaux bluffs, un des plus beaux mirages collectifs de l'Histoire contemporaine.» (p. 68)

A campanha de des(informação) levada a cabo pelas televisões mainstream a propósito da guerra na Síria, especialmente nas últimas semanas, convidou-me a reler o livro de Jean Baudrillard, o que me proporcionou grande satisfação, por constatar que a mistificação tecnológica evocada pelo filósofo francês continua presente, com muito maior acuidade, neste conflito sem dúvida sangrento onde se convencionou (isto é, o Ocidente) estabelecer a priori qual é o lado bom e o lado mau da guerra.

Sem pretender expor o riquíssimo pensamento de Baudrillard nesta obra, não resisto a fazer a transcrição de três pequenas passagens:

«Il est quand même admirable que nous traitions les Arabes, les Musulmans, d'intégristes, avec la même répulsion que nous traitons quelqu'un de raciste, alors que nous vivons dans une société typiquement intégriste, quoique simultanément en voies de désintégration. Nous ne pratiquons pas l'intégrisme fondamentaliste dur, nous pratiquons l'intégrisme démocratique mou, subtil et honteux, celui du consensus. Cependant, l'intégrisme consensuel (celui des Lumières, des Droits de l'homme, de la gauche au pouvoir, de l'intellectuel repenti, de l'humanisme sentimental) est tout aussi féroce que celui de n'importe quelle religion tribale ou société primitive.» (pp. 89-90)

«Variante de Clausewitz: la non-guerre, c'est l'absence de politique poursuivie par d'autres moyens...» (p. 95)

«Dans ce sens, le consensus comme degré zéro de la démocratie et l'information comme degré zero de l'opinion sont en afinité totale: le Nouvel Ordre Mondial sera à la fois consensuel et télévisuel. C'est bien pourquoi les bombardements ciblés ont soigneusement épargné les antennes de la télévision irakienne (qui crèvent pourtant l'oeil dans le ciel de Bagdad). La guerre n'est plus ce qu'elle était...» (p. 97-8)

VOILÀ!


segunda-feira, 5 de março de 2018

A VIDA SEXUAL EM MARROCOS




Por mero acaso, veio parar-me às mãos, literalmente, o livro da escritora marroquina Leila Slimani, Sexe et Mensonges - La vie sexuelle au Maroc (2017). Trata-se da recolha de depoimentos de 15 mulheres e um homem marroquinos, sobre os constrangimentos da vida sexual no país.

Devido às pressões sociais, à opressão religiosa e também à legislação civil, a actividade sexual fora dos limites impostos pelas regras sócio-religiosas é uma falta grave, um pecado, ou um crime. O status estabelece que os actos sexuais só devem ter lugar dentro do casamento, donde as relações extra-conjugais, a homossexualidade feminina e masculina e o aborto serem actos penalizados.

É evidente que as transgressões estão generalizadas, nomeadamente entre os homens mas também entre as mulheres, em especial nas gerações mais novas. Não se está a ver os rapazes marroquinos guardarem castidade até ao casamento, e para muitas raparigas dos nossos dias as relações começam bem novas, excluindo algumas vezes a conclusão normal, por receio de não chegarem virgens ao casamento, o que introduz uma desclassificação social imediata. Quantos hímens não são reconstruídos, o que se tornou também num negócio. A dificuldade de acesso às mulheres leva os homens à homossexualidade (que é muito natural no mundo árabe) e ao recurso à prostituição feminina, à violação, a casamentos arranjados pelas famílias. Curiosamente, os pregadores islâmicos não condenam a masturbação feminina e masculina, considerando-a preferível à prática de outros actos. Neste universo de tabus, floresce também a prostituição masculina, ainda que a autora se debruce quase exclusivamente sobre as mulheres. O único homem entrevistado é um polícia, e neste caso não se trata de recolher a sua experiência sexual mas de registar as suas declarações enquanto agente da autoridade.

Deve dizer-se que o livro é bastante repetitivo, quer pela forma como está organizado, quer pela pouca originalidade das entrevistas. Não conheço o resto da obra de Leila Slimani, que tem 36 anos, tendo-se tornado conhecida por ter sido galardoada em 2016 com o Prémio Goncourt pelo livro Chanson douce.

Uma conclusão apontada por Slimani, e essa é bem real, é que a vida sexual em Marrocos é caracterizada pela hipocrisia e que quase tudo se pode fazer desde que às escondidas, sendo mais fácil para as pessoas de estatuto social médio ou alto e nomeadamente para os homens. E que o suborno às polícias é uma prática corrente, ainda que nem sempre bem sucedido. Mas é pena que a autora não tenha entrevistado tantos homens quanto mulheres para ficarmos com um panorama equilibrado, pois assim obtemos uma visão parcial de um problema global. Leila Slimani preferiu cavalgar a onda feminista.

A autora salienta as pregações dos fundamentalistas, como a de Abdellah Nhari, imam em Oudja, que apelou ao assassínio do jornalista Mokhtar Laghzioui que se exprimiu numa cadeia de televisão a favor da liberdade sexual. E para ilustrar a hipocrisia dos próprios dirigentes religiosos cita o caso de Fatima Nejjar (62 anos) e de Moulay Omar Benhammad (63 anos) que foram encontrados num velho Mercedes, perto de uma praia de Mohammedia, em evidente prática sexual. Uma situação como esta, que acontece todos os dias em Marrocos, teve o aspecto insólito de ambos os participantes serem figuras respeitadas do Movimento da Unicidade e Reforma (MUR), ramo ideológico do PJD (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), no poder, e ambos combaterem tenazmente o vício e a depravação. O caso, apesar das tentativas para o abafar, provocou o maior gozo no país.

O Código Penal marroquino prevê no seu artigo 489º que toda a «conduta tendenciosa ou contra natura entre duas pessoas do mesmo sexo é punida de seis meses a três anos de prisão.» E o artigo 490º estabelece «a prisão de um mês a um ano para todas as pessoas de sexo diferente que, não estando unidas pelos laços do casamento, tenham entre si relações sexuais.» O artigo 491º dispõe que «qualquer pessoa casada convicta de adultério» arrisca um a dois anos de prisão. Se estas disposições fossem cumpridas rigorosamente, pelo menos metade da população marroquina estaria na cadeia.

O mundo árabe sempre celebrou o sexo, como se comprova não só pela história dos costumes como pela abundante literatura erótica, uma das riquezas da civilização islâmica. É curioso que uma visão puritana do islão começou com o declínio intelectual e politico e com a colonização ocidental. Curiosamente, o artigo 489º do Código Penal marroquino, que reprime a homossexualidade, é uma cópia exacta do antigo artigo 331º do Código Penal francês, abolido em 1982. E a condenação da homossexualidade nas ex-colónias britânicas é um resquício da legislação puritana vitoriana que a independência dos países não revogou.

Este livro não acrescenta propriamente novidades às pessoas que conhecem razoavelmente o Marrocos, antes confirmando a ideia existente. Tem o mérito de ser escrito por uma marroquina, embora já hoje bastantes pessoas no país denunciem uma situação pouco sadia, onde a vida diária é alicerçada sobre mentiras no que toca ao sexo. A autora refere os trabalhos de alguns escritores árabes em que a matéria é tratada cientificamente.

Julgo, contudo, que a inversão deste estado de coisas não é possível a curto prazo, porque mesmo um abrandamento da repressão legal não impediria a censura social (cultural) que só o tempo poderá alterar. Ainda que nos últimos anos se tenham registado alguns progressos, como, por exemplo, a possibilidade de discussão pública de matérias ligadas ao sexo.


sexta-feira, 2 de março de 2018

O ANTI-SEMITISMO




O intelectual e universitário francês Pascal Boniface, fundador e director do IRIS (Institut de relations internationales et stratégiques), conferencista e presença frequente na imprensa, rádio e televisão, autor de numerosas obras, acaba de publicar L'Antisémite, livro em que refuta as acusações de anti-semitismo que lhe têm sido dirigidas pelos meios judaicos franceses, pelo facto de defender a existência de um Estado Palestiniano, aliás conforme determinação das Nações Unidas em 1947.

Essas acusações, que acabam por envolver também o IRIS, e até a sua família e colaboradores e amigos, constituem um assassinato de carácter, na medida em que Pascal Boniface jamais foi anti-semita, conforme prova no livro,  antes tem condenado muitas vezes e publicamente o anti-semitismo e o racismo. O que Boniface critica é a política dos sucessivos governos israelitas em relação aos palestinianos e ao seu direito a dispor de um estado soberano o que, convenhamos, está contemplado pelo direito internacional e é da mais elementar justiça.

Por causa destas sistemáticas acusações, Pascal Boniface foi constrangido a abandonar o Partido Socialista francês, onde conta, todavia, com numerosas amizades. E o IRIS tem sido objecto de uma campanha infame com vista a que lhe sejam retirados os parcos subsídios que aquele recebe do Estado francês.

Nos últimos anos, estabeleceu-se, propositadamente, no Ocidente uma grande confusão entre anti-semitismo, anti-sionismo, anti-Israel, etc., o que provocou uma amálgama de conceitos tendentes a rotular de anti-semitas todas as pessoas que não subscrevem alegremente as acções mais violentas do regime de Telavive. Assim, quem é contra as políticas dos governos israelitas é contra a existência de Israel, o que é uma conclusão no mínimo absurda. Lembramo-nos nós de que os próprios judeus religiosos mais ortodoxos foram inicalmente contra a criação do Estado de Israel, pretendendo que os judeus permanecessem nas terras onde viviam...

Não são só os não judeus que são alvo da ira do lobby judaico francês. Alguns judeus ilustres, como Rony Brauman, Esther Benbassa, Dominique Vidal, Alain Gresh, Stéphane Hessel, Edgar Morin, Charles Enderlin, têm sido sofrido ataques infames por se atreveram a criticar os governos israelitas. Existe uma atitude por parte do CRIF (Conseil Représentatif des Institutions juives de France) tendente a afastar da vida pública os indíviduos e instituições que se atrevam a emitir reservas sobre a política israelita, invocando-se sempre o pretexto de que as criticas ao governo de Israel contribuem para um aumento do anti-semitismo, o que é comprovadamente uma falácia.

Sustenta Boniface que o anti-semitismo em França é hoje muito inferior ao que existia no fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo este, são anti-semitas os partidários de uma extrema-direita pura e dura que não despareceu e um número de jovens franceses de origem árabe, ainda que não verdadeiramente maioritário, na medida em que a posição geral dos jovens beurs é fundamentalmente contra a política de Israel respeitante à questão da Palestina, posição aliás partilhada por grande parte da população francesa. Só que hoje quaisquer actos assumem uma visibilidade que não possuíam há algumas décadas e alguns ataques terroristas registados contra judeus obtiveram uma divulgação de uma amplitude só possível nos nossos dias.

O número da revista "L'Obs"  (2779) de algumas semanas atrás consagrou um dossier a "Le Nouvel Antisémitisme", com depoimentos inflamados, especialmente de Pierre-André Taguieff. A publicação deste trabalho insere-se na linha editorial da revista e destina-se a demonstrar uma grande preocupação pelo crescimento, suposto, das tendências anti-semitas em França e noutros países da Europa. Assim, haveria uma vaga inusitada de anti-semitismo que exigiria a adopção de medidas extraordinárias de protecção das comunidades judaicas, medidas de excepção que se traduzem sempre, como sabemos, num cerceamento das liberdades públicas.

É hoje por demais evidente que a campanha conduzida pelo lobby judaico no sentido de promover um crescente clima de medo interessa principalmente a Israel, pois leva a um constrangimento de expressão daqueles que entendem dever condenar a sistemática violação dos direitos dos palestinianos. Só que, a longo prazo, creio que tal atitude acabará por resultar contraproducente aos próprios interesses de Telavive. Isso já foi compreendido por muitos judeus franceses esclarecidos que tentam, contra ventos e marés, assumir uma posição de independência no delicado problema da Questão Palestiniana.

Condeno naturalmente todos e quaisquer ataques a judeus, como igualmente condeno ataques a cristãos ou muçulmanos, ou quaisquer outros motivados por razões étnicas ou religiosas. Mas penso que o exacerbar da questão do anti-semitismo em França terá como resultado um efeito contrário ao supostamente pretendido: é que os franceses, mesmo os mais anti-racistas e anti-xenófobos começam a alienar as suas simpatias relativamente a Israel, considerando que se trata de uma questão que está a ser artificialmente empolada. E tudo o que entra numa espiral injustificada acaba por se traduzir num efeito contrário.