terça-feira, 8 de março de 2011

MANIFESTAÇÕES EM ANGOLA



A exemplo do que se tem verificado no mundo árabe, fora convocada para ontem, em Luanda, através de sms e das redes sociais, uma manifestação contra o regime de José Eduardo dos Santos.

Por uma questão de precaução (inútil), o MPLA antecipou-se, promovendo uma marcha patriótica da paz, no passado sábado, que juntou milhares de pessoas.

A manifestação de ontem não chegou a realizar-se, porque o governo prendeu os manifestantes à medida que foram chegando à Praça da Independência, local previsto para a concentração.

José Eduardo dos Santos vai completar 70 anos e está há 32 anos no poder, como presidente da República, comandante em chefe das forças armadas e presidente do MPLA.

E dizendo isto, está tudo dito.

segunda-feira, 7 de março de 2011

FOTOGRAFIA ARTÍSTICA NO MAGHREB

 
Mohamed

O nº 77 da revista Qantara, a publicação trimestral do Institut du Monde Arabe, sediado em Paris, insere uma curiosa reportagem sobre os pioneiros da fotografia artística no Maghreb (e também no Mashreq), verdadeiros cultores de imagens românticas que, durante décadas, alimentaram o fascínio pelo "orientalismo". Foram eles Rudolf Lehnert e Ernst Landrock, cujo percurso deixou marcas indeléveis, como o comprova uma exposição de parte do seu acervo (nus excluídos, porque associados pelos tunisinos a um colonialismo ocidental e pelos europeus porque contrários à cruzada moralista em curso) realizada em 2006 na Tunísia.

Diga-se, entre parênteses, que caminhamos a passos largos, num retrocesso histórico, para a época em que os papas mandaram colocar parras sobre os sexos das estátuas da antiguidade clássica existentes no Vaticano.

Rudolf Lehnert nasceu na Boémia em 1878 e viria a morrer em Redeyef, no oásis de Gafsa, na Tunísia, onde residiu nos últimos anos da sua vida. Passou a sua adolescência em Viena, tendo-se formado no Instituto das Artes Gráficas da capital austríaca. Depois de uma viagem pela Itália, descobriu a Tunísia em 1903. Algum tempo depois encontra Ernst Landrock na Suiça, e os dois homens associam-se para abrir um atelier de fotografia na medina de Tunis. 

Um jovem

Pouco a pouco vão difundindo uma obra orientalista inédita: composições pictóricas de um equilíbrio perfeito, domínio absoluto dos efeitos de luz. Os "tipos" tornam-se finalmente retratos; a rua árabe e o sul tunisino nunca foram tão sublimados. Os nus orientais valeram ao estúdio o seu primeiro reconhecimento internacional em 1906. L & L vendem tiragens de grande luxo mas difundem igualmente heliogravuras e bilhetes postais de qualidade superlativa. O sucesso permitiu-lhes abrir outro estabelecimento em Tunis, em 1907, na prestigiada avenida de France, e um terceiro em 1911. Porém, a Primeira Guerra Mundial levou ao seu encerramento em 1914. Refugiados na Suíça, relançaram a carreira no Egipto em 1924. A concorrência é aqui maior e a produção mais documental. Em 1930, zangam-se e separam-se. Landrock continua a gerir o fundo no Cairo e Lehnert, tornado cidadão francês, regressa à Tunísia, onde virá a morrer em 1948. 

Um jovem

Redescoberto a partir dos anos 1980, Rudolf Lehnert é considerado hoje o mais talentoso dos fotógrafos orientalistas; e, por isso, também o mais controverso.


A casa Lehnert & Landrock continua a existir no Cairo, rua Sherif, nº 44, sendo hoje uma livraria, mas dispondo ainda de um bom stock de fotografias, gravuras, mapas, guias turísticos, etc. Um local de paragem obrigatória nas estadas na capital egípcia.

domingo, 6 de março de 2011

TAMBÉM NA ARÁBIA SAUDITA


Anteontem e ontem decorreram manifestações na Arábia Saudita, onde já há alguns dias, facto inédito, um grupo de intelectuais havia solicitado ao rei Abdullah uma Constituição, coisa não existente naquele país, governado pela sharia. Os protestos, partindo especialmente da população shiita, minoritária no país e economicamente discriminada, que já se fazem sentir desde há semanas, tiveram maior expressão em Holuf e Qatif, mas mesmo em Riyadh, a capital do reino, houve contestação e o pedido de um parlamento eleito. Estima-se que os manifestantes não tenham ultrapassado as 2.000 pessoas, enquanto os agentes das forças de segurança enviados para as localidades mais sensíveis seja da ordem dos 10.000 homens.

O rei da Arábia Saudita (que usa o título de Guardião das Duas Mesquitas Sagradas (Meca e Medina), regressou quarta-feira ao país, após uma ausência de três meses nos Estados Unidos, onde foi submetido a uma intervenção cirúrgica, e posteriormente em Marrocos, onde permaneceu algumas semanas em recuperação.

O rei Abdullah bin Abdul-Aziz Al Saud, que é também primeiro-ministro, tem 87 anos e o seu estado de saúde é precário. O príncipe herdeiro, seu meio-irmão, Sultan bin Abdul-Aziz Al Saud, tem 83 anos e parece sofrer de cancro. O terceiro na linha sucessória, o príncipe Nayef bin Abdul-Aziz Al Saud, tem 77 anos.

O reino da Arábia Saudita foi fundado em 1932, juntando os reinos do Hejaz e do Nedj, por Abdul-Aziz Al Saud, após várias e sangrentas lutas tribais, aproveitando a queda do Império Otomano, as falsas promessas dos ingleses ao sherif de Meca, Hussein bin Ali, e o apoio dos americanos.

Entretanto o rei Abdullah, segundo informações de Al Jazira, aliás muito parca em comentários quanto aos eventos na Arábia Saudita, destinou 37 mil milhões de dólares para subsídios aos seus súbditos.

sábado, 5 de março de 2011

ANTIGUIDADES EM CRISE


A revolução que eclodiu em 25 de Janeiro no Egipto não poupou o sector das Antiguidades. O arqueólogo Zahi Hawass, figura muito conhecida, e controversa, da egiptologia, que desde 2002 exercia as funções de secretário-geral do Supremo Conselho das Antiguidades Egípcias (com a categoria de vice-ministro da Cultura desde 2009)  e que na efémera remodelação ministerial de 31 de Janeiro, efectuada por Mubarak, quando nomeou Ahmed Shafiq como chefe do governo, fora promovido a ministro de Estado para as Antiguidades, declarou ontem que não integraria o governo do novo primeiro-ministro Essam Sharaf.

Shafiq, que era publicamente muito contestado por ter sido designado pelo ex-presidente Mubarak nas vésperas da sua queda, apresentou a sua resignação ao Conselho Supremo das Forças Armadas, que nomeou Sharaf em sua substituição.

Os actos de vandalismo e roubo que se verificaram no Museu do Cairo nos primeiros dias da revolução, e que se estenderam a diversos sítios arqueológicos egípcios, e cuja avaliação actual revela serem muito mais importantes e graves do que inicialmente anunciado, terão levado Hawass (figura, aliás, muito próxima da família Mubarak) a afastar-se do cargo. O polémico egiptólogo, em declarações à imprensa, afirmou não ter possibilidades de evitar a continuação da pilhagem de antiguidades no país, divulgando uma lista das peças roubadas ou danificadas e dos locais pilhados desde a queda de Hosni Mubarak. Acrescentou ainda que a polícia não tinha capacidade para impedir os ataques armados dos criminosos.

O presidente da Associação dos Comités Nacionais Blue Shield, Karl von Habsburg, cuja missão é a protecção das heranças culturais em zonas de conflito, manifestou-se hoje aterrado com a ideia de que a partida de Zawass signifique uma escalada de roubos sem precedente, quer de objectos do Egipto faraónico, quer das outras civilizações que floresceram no vale do Nilo. Entre as zonas atingidas pelos ladrões encontram-se as salas de depósito das escavações levadas a cabo junto à pirâmide de Dahshur, pelo Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque.

Zahi Hawass era muito crítico em relação ao Estado de Israel e declarou à televisão egípcia, em Abril de 2009, que «os judeus ainda que poucos controlam o mundo inteiro». Mais tarde esclareceu a sua posição, afirmando que não acreditava numa «conspiração judaica para o controle do mundo».

A preocupação demonstrada por Karl von Habsburg quanto à protecção e segurança das antiguidades egípcias está a provocar a maior inquietação entre os arqueólogos e homens de cultura de todo o mundo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

NÃO RESULTOU...


Pretendeu imitar o Grande Timoneiro, mas na verdade a Terceira Teoria Universal não resultou.

quinta-feira, 3 de março de 2011

MANIFESTAÇÕES NA ARMÉNIA


A vaga geral de contestação que está a assolar os vários continentes estendeu-se anteontem à Arménia, onde em Yerevan, a capital, 10.000 pessoas exigiram a imediata demissão do governo e a realização de eleições legislativas e presidenciais.

Por ocasião do aniversário dos graves confrontos que tiveram lugar há três anos e que provocaram vários mortos e dezenas de feridos, a população manifestou-se agora contra o presidente Serge Sarkissian, então eleito, e cuja resignação é exigida. Um dos chefes da oposição, o ex-presidente Levon Ter-Petrossian, declarou que a única questão a negociar com as autoridades é a rápida realização de eleições. A população protesta também contra as desigualdades sociais e o aumento do custo de vida.

Entretanto, preparam-se manifestações de contestação dos governos vigentes em vários países, como na Indonésia, em Angola e noutros estados da África sub-sahariana.

quarta-feira, 2 de março de 2011

HITLER E OS LIVROS (II)


Foi publicada em português o mês passado, com o título A Biblioteca Privada de Hitler, a obra a que nos referimos aqui, em 17 de Maio de 2009, a propósito da edição em francês do original de Timothy W. Ryback, Hitler's Private Library.


Tivemos então oportunidade para tecer várias considerações sobre a paixão de Adolf Hitler pelos livros, o que não o impediu de mandar queimar as obras de muitos autores, quer pela origem dos mesmos, quer pelos temas que não se configuravam com a ideologia nacional-socialista. Importa, todavia, salientar, como o fez Ryback, que não só Hitler coleccionava livros com paixão, como os lia de forma quase compulsiva, afirmando mesmo alguns autores que o Führer lia à média de um livro por dia, o que não deixa de ser notável (ou preocupante), na medida em que durante mais de dez anos foi o senhor dos destinos do III Reich.


A obra notável de Philipp Gassert e Daniel S. Mattern, The Hitler Library - A Bibliography (2001), traça um inventário dos livros da biblioteca de Hitler, e o livro de Ambrus Miskolczy, Hitler's Library (2003), inicialmente publicado em húngaro (2000), com o título A Führer olvas: Tallózás Hitler könyvtárában, debruça-se especialmente sobre as obras que Hitler leu e anotou, as que leu inteiramente, as que leu superficialmente e as que escreveu, por excelência o Mein Kampf, já que das outras (uma em colaboração com Dietrich Eckart) não reza a história.


A primeira referência internacional á biblioteca de Hitler é feita pelo jornalista americano Frederick Oechsner, em 1943, no seu livro This is the Enemy. Refere o autor que Hitler possuía cerca de 16.300 livros na sua residência na Chancelaria, em Berlim, e na casa de campo de Berchtesgaden. Os livros estavam divididos em três grupos: a secção militar, contendo à volta de 7.000 volumes; a secção dedicada à arquitectura, escultura, pintura, teatro, etc., com cerca de 1.500 livros; uma terceira secção, com predominância de livros sobre astrologia, espiritualidade, nutrição, Igreja Católica, ficção, etc. Esta secção incluía um livro sobre o estudo das mãos, às quais Hitler atribuía a maior importância, a ponto de catalogar as mãos de diversas personalidades, ou pessoas amigas, ou inimigas. Hitler apreciava as mãos de Hindenburg, Mussolini, Franco, Beethoven ou Wilhelm Furtwangler e detestava as de Goering, de Röhm, de Max Liebermann, de Fritz Ebert, de Lenine.


A leitura destas obras permitirá aos estudiosos uma melhor percepção sobre o pensamento de Adolf Hitler, sobre as suas convicções mais profundas ou mais circunstanciais (através das muitas anotações e comentários marginais que fazia), das personalidades que lhe eram realmente mais próximas (através das dedicatórias), e da evolução dos seus interesses (através da data da publicação ou da aquisição das obras). Um manancial para historiadores, políticos e militares, e certamente para muitas mais pessoas

terça-feira, 1 de março de 2011

AMORES SÁFICOS


Foi publicada há dias, o que acontece entre nós pela primeira vez, uma história da homossexualidade feminina em Portugal. O autor, Paulo Drumond Braga, traça-nos um percurso dos amores sáficos no nosso país, entre o século XIII e o século XX, recorrendo às mais variadas fontes, dos textos literários aos processos da Inquisição. O percurso histórico da homossexualidade feminina sempre foi mais difícil de tratar do que o da homossexualidade masculina, dada a menor visibilidade da primeira, embora ambas sempre fossem consideradas como pecado, como crime (punível com a pena de morte), como doença, etc. Recorde-se que a Rainha Vitória, por alturas do processo de Oscar Wilde, afirmou que o lesbianismo não existia.

A obra de Paulo Drumond Braga, com um considerável aparato bibliográfico, inicia-nos numa matéria pouco estudada entre nós, ainda que o autor tenha sido obrigado a recorrer a muitos dados específicos da homossexualidade masculina. Um pequeno livro, que abre portas a estudos mais profundos sobre o tema.


Lembremos aqui a notável tradução que Eugénio de Andrade realizou de alguns poemas da poetisa de Lesbos, publicada em Dezembro de 1974, bem como a tradução brasileira (do alemão) da obra de Marion Giebel, Sappho, um estudo publicado na Alemanha em 1980 e no Brasil em 1985..


Adenda: A Alice Moderno, largamente citada no livro Filhas de Safo, se refere o meu falecido amigo Breno de Vasconcellos no seu livro Paz Cinzenta... - Os Açores através de algumas figuras e episódios de uma época, editado em Lisboa em 1979.