quarta-feira, 1 de novembro de 2023

JERUSALÉM, 1913

Por sugestão de um amigo, revisitei Jerusalem 1913: The Origins of the Arab-Israeli Conflict (2007), da escritora e jornalista judia norte-americana Amy Dockser Marcus, que recebeu em 2005 o Prémio Pulitzer para a Melhor Reportagem.

Amy Dockser Marcus, autora de diversas obras, foi correspondente de "The Wall Street Journal" em Israel de 1991 a 1998, tendo o seu primeiro livro, The View from Nebo: How Archaeology is Rewriting the Bible and the Reshaping the Middle East (2000), obtido assinalável sucesso.

O conflito israelo-palestino é uma das questões com mais profundas repercussões internacionais ao longo do último século. As origens do antagonismo entre as duas partes são habitualmente referidas ao período do Mandato Britânico (1920-1948), quando o Reino Unido assumiu o controlo administrativo da Palestina a seguir à Primeira Guerra Mundial, embora a tensão entre as duas comunidades seja realmente anterior.

O livro de Amy Dockser Marcus é o primeiro relato "popular" de uma era chave na história do Médio Oriente, assunto sobre o qual têm sido escritos centenas de livros eruditos e também vários de pura propaganda política. Durante séculos, Jerusalém foi um local onde conviveram em paz as três grandes religiões monoteístas (judeus, cristãos e muçulmanos), de acordo com as suas ricas e diversificadas culturas. A ascensão do Sionismo e as grandes vagas de imigrantes judeus, procurando reclamar o que consideravam ser a sua casa ancestral e adquirindo consecutivamente terras e imóveis, alarmou a população árabe, que anteviu, judiciosamente, a sua progressiva perda de poder. 

A Palestina integrava, desde há cinco séculos, o Império Otomano, onde coexistiam credos diferentes, quase sempre pacificamente desde que aceitassem a autoridade da Sublime Porta. A Revolução dos Jovens Turcos (1908) obrigou o sultão Abdul-Hamid II a restaurar o Parlamento, sendo o poder real entregue a um triunvirato de três paxás (Mehmet Talat, Ismaïl Enver e Ahmet Djemal) que procuraram imprimir um novo rumo ao Império. Mas essa data assinala também, com o despertar dos nacionalismos, o início da decadência otomana. A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914) constituiu o desastre final. Mehmet V tinha sucedido a Abdul-Hamid II em 1909 e permaneceu no poder até à sua morte em 1918. Foi neste reinado que o Império Otomano, tendo-se juntado aos Impérios Centrais, viria a perder a guerra. O seu sucessor, Mehmet VI, não conseguiu impedir que os britânicos ocupassem Baghdad e Jerusalém, tendo a maioria do Império sido dividida pelos "aliados". Na Conferência de San Remo, em Abril de 1920, foram constituídos os territórios de mandato: a Síria e o Líbano para a França, a Palestina e a Mesopotâmia para O Reino Unido. O Tratado de Sévres (Agosto de 1920), confirmou San Remo e retirou ao Império Otomano o controlo da Anatólia e de Izmir, reduzindo-o à Turquia. Por outro lado, surgiu, independente, o Reino do Hejaz. Os nacionalistas ficaram decepcionados com Mehmet VI e foi instaurado um governo temporário sob a liderança de Mustafa Kemal Atatürk (1920). Em 1 de Novembro de 1922 a Monarquia foi abolida e proclamada a República, sendo primeiro presidente Mustafa Kemal Atatürk, que ganhara a guerra da independência turca (1919-1922). Mehmet VI foi exilado e sucedeu-lhe, já não como Sultão mas apenas como Califa, Abdul Mejid II (1922-1924). A República Turca foi reconhecida pelo Tratado de Lausanne em Julho de 1923. Em 1924, a Grande Assembleia Nacional Turca aboliu o Califado.

Achei por bem registar estes acontecimentos, que nos ajudam a compreender as vicissitudes ocorridas na Palestina durante o conturbado período da Primeira Guerra Mundial.

Mas regressemos ao conteúdo do livro. Quando chegou, em trabalho, a Telavive, em 1991, Amy Dockser Marcus apaixonou-se pela terra e pela sua história, e começou as suas investigações. Documentou-se, falou com a população local, árabes e judeus, e foi enviando as suas crónicas para o jornal, das quais resultou, em parte, o presente livro.

A questão da criação de um Estado para os judeus assumiu uma especial projecção com a publicação do livro Der Judenstaat (O Estado Judaico), em 1895/1896, do jornalista judeu austro-húngaro Theodor Herzl, que se  mostrou indignado com o famoso caso Dreyfus e com as perseguições e discriminações a que os judeus vinham sendo sujeitos em vários países da Europa. Depois das guerras dos judeus contra os romanos, admiravelmente descritas no célebre livro A Guerra dos Judeus, do famoso historiador judeu (cidadão romano) Flavius Josephus (37-100), a revolta da província romana da Judeia foi oficialmente encerrada em 70, com a vitória dos romanos, embora a luta se tenha prolongado até 73, com a tomada da fortaleza de Massada. As operações foram comandadas pelo imperador Vespasiano, tendo seu filho (e futuro imperador) Tito sitiado e destruído Jerusalém e arrasado o Segundo Templo (70). Em sua honra, ergueu-se, no Forum Romano, o Arco de Tito. No reinado do imperador Adriano eclodiu uma nova revolta judaica contra os romanos conduzida por um indivíduo que aqueles consideravam ser o Messias anunciado no Antigo Testamento. Adriano, que os judeus detestavam pela sua afeição pela cultura grega, sufocou a revolta e construiu, em 131, sobre as ruínas de Jerusalém anteriormente devastada por Tito uma nova cidade, Élia Capitolina (do seu nome, Públio Élio Adriano (Publius Aelius Hadrianus), edificando no local do Segundo Templo um novo templo dedicado a Júpiter Capitolino. Alterou também para Palestina o nome da província romana da Judeia, nome proveniente de Filistia, designação do território ocupado pelos filisteus desde os tempos faraónicos e que correspondia a uma vasta porção de terra compreendida entre o Mar Mediterrâneo e uma linha terrestre situada sensivelmente entre as actuais cidades de Gaza e de Telavive. Em consequência, os judeus dispersaram-se na sua maioria por territórios na Europa, na Ásia e na África, onde permaneceram maioritariamente até ao século XX, e ainda hoje parcialmente permanecem. A partir do século XIX, registou-se um importante fluxo migratório desses países para o continente americano, especialmente para os Estados Unidos da América. Esta migração do povo judeu, começada em 70, ficou conhecida como Diáspora, ainda que o termo também seja utilizado noutras circunstâncias. Costumam citar-se, a propósito, estas passagens do Antigo Testamento (Livro de Ezequiel - 22,15: «Eis que Eu mesmo te espalharei entre as nações e te expatriarei por todas as terras; colocarei um ponto final à tua imundície.»). Ou do (Livro de Jeremias - 9,16: «Também os espalharei por entre nações que nem eles nem seus pais conheceram; enviarei contra eles a espada, até que os tenha exterminado.»). Existem outras passagens semelhantes nos Livros do Antigo Testamento.

A Organização Sionista Mundial foi fundada por iniciativa de Theodor Herzl no primeiro Congresso Sionista Mundial, reunido em Basileia em Agosto de 1897. Herzl foi o seu primeiro presidente até à sua morte em 1904. A intenção primordial, além da conservação dos usos, costumes e rituais judaicos era a criação de um Estado para os judeus. Foram aventadas diversas hipóteses, entre as quais um território no Uganda, o planalto de Benguela (em Angola) e mesmo a ilha de Madagascar, mas a maioria dos delegados preferia a Palestina, especialmente por causa de Jerusalém. Deve dizer-se que Herzl não privilegiava a Palestina, que nem sequer conhecia e que acabou finalmente por visitar aquando da viagem àquele território do imperador alemão Guilherme II. O que ele realmente pretendia era um Estado independente, mas acabou por se vergar à tendência maioritária dos sucessivos Congressos sionistas.

Os congressos sionistas realizados posteriormente consideraram que a Palestina era o único território para a constituição do novo Estado Judaico e iniciaram uma progressiva aquisição de terras, inicialmente por métodos normais e posteriormente com o uso da força, aos seus legítimos proprietários Havia sido, entretanto, estabelecido um escritório judaico em Jaffa, próximo do local onde hoje se ergue a cidade de Telavive, para tratar da compra de terrenos e casas e começar a instalar os colonatos judeus. Apesar do Império Otomano ter sido sempre terra de acolhimento para judeus, o sultão Abdul-Hamid II não via com bons olhos a entrada maciça de judeus na Palestina, apesar da intenção da criação de um estado ter sido, tanto quanto possível, mantida em segredo. Refira-se que a aquisição de propriedades se fazia nos terrenos mais férteis em detrimento de solos improdutivos, mas privilegiando sempre a cidade de Jerusalém, que era o objectivo primordial da Organização Sionista. Aliás, os judeus costumavam despedir-se no fim das suas reuniões com a expressão: «No próximo ano em Jerusalém!».

A autora resolveu intitular o seu livro Jerusalém 1913 devido a um facto que ela expressamente refere. Em Maio de 1913, o realizador judeu russo Noah Sokolovsky chegou à Palestina com a intenção de realizar um filme sobre os colonatos judaicos. Estávamos nas vésperas da Primeira Guerra Mundial e Sokolovsky pretendia registar o empreendimento dos judeus na Palestina. O realizador trabalhou rapidamente e concluiu o filme em Junho seguinte. Regressou à Rússia para a edição do mesmo que veio a ser apresentado em Setembro no Congresso Sionista anual, em Viena. O filme foi muito criticado, mesmo pelos sionistas, pois Sokolovsky focou-se quase exclusivamente nos judeus, ignorando as vibrantes comunidades árabes de Jaffa e Haifa, que eram largamente maioritárias e raramente são mostradas nas imagens.

Segundo Amy Dockser Marcus, 1913 é o ano decisivo para a colonização judaica da Palestina. As vagas de judeus são incessantes, o que começa a provocar alarme nas populações árabes, que já não ignoram as intenções políticas do fenómeno. São realizados protestos junto da Sublime Porta pelas mais importantes famílias palestinianas, os Husseini, os Khalidi, os Nashashibi. Ruhi al-Khalidi (sobrinho de Yussuf al-Khalidi, presidente da Câmara de Jerusalém entre 1899 e 1907), que chegou a ser deputado ao Parlamento Otomano, foi um dos principais activistas e o conservador da mais notável biblioteca privada de Jerusalém, que ainda hoje existe. Escritor, professor, artista e político, Ruhi al-Khalidi deixou umas memórias inacabadas (morreu subitamente em Constantinopla em 1913, talvez envenenado) que a família nunca publicou.

O relacionamento entre as sucessivas instalações judaicas na Palestina e o Império Otomano sofreu várias flutuações. Os Jovens Turcos preferiram a concepção de um Império em que a otomanidade prevalecesse sobre o islão, como o demonstra a extinção do Califado. Exigiam a submissão ao Império, em detrimento das confissões religiosas e também eles tentaram travar a imigração judaica. Mas a guerra foi desfavorável a Constantinopla e os ingleses aliciaram os árabes para combater os turcos com a (falsa) promessa de um Grande Estado Árabe. O livro do coronel Thomas Edward Lawrence (Os Sete Pilares da Sabedoria) e o célebre filme Lawrence da Arábia ajudam a compreender a sinistra intriga britânica.

Em 1918, segundo a estatística das Nações Unidas, viviam na Palestina 50 000 judeus e 500 000 árabes (maioritariamente muçulmanos sunitas, mas incluindo um número significativo de cristãos católicos e ortodoxos), além de outras minorias religiosas. 

A população judaica foi aumentando a um ritmo impressionante, nomeadamente depois dos Acordos (secretos ?) Sykes-Picot, de 1916, que previa a divisão de esferas de influência no Médio Oriente entre o Reino Unido e a França, na previsível derrota do Império Otomano.

E, sobretudo, depois da Declaração Balfour, de1917, em que Lord Balfour, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, no governo do primeiro-ministro David Lloyd George, endereçou uma carta ao barão Lionel Rothschild, líder da Comunidade Judaica do Reino Unido, para ser transmitida à Federação Sionista da Grã-Bretanha, em que declarava o seguinte:

"Caro Lord Rothschild,
 
Tenho o grande prazer de endereçar a V. Senhoria, em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia quanto às aspirações sionistas, declaração submetida ao gabinete e por ele aprovada:
`O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.´
Desde já, declaro-me extremamente grato a V. Senhoria pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.
Arthur James Balfour."

A ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha e as perseguições nazis aceleraram ainda mais o êxodo de judeus para a Palestina.

Segundo a Encyclopedia Britannica, havia em 1946, na Palestina, 1 200 000 árabes e 678 000 judeus, isto é, 64 % de população árabe. De 1918 para 1946 o número de judeus aumentou assim de 50 000 para 678 000,

O livro acompanha, quase quotidianamente, as actividades das principais personalidades árabes (muçulmanas e cristãs) e judaicas durante o ano decisivo de 1913, das suas relações entre si e das respectivas relações com os dirigentes otomanos, e depois turcos.  Os Jovens Turcos tinham-se comprometido adoptar uma série de reformas para a convivência das diversas comunidades mas as vicissitudes da guerra não permitiram a sua concretização. O Triunvirato que passou a governar o Império após a derrota na Primeira Guerra Mundial era constituído, como dissemos, por Ismaïl Enver, Mehmet Talat e Ahmet Djemal, a quem viria a ser atribuído o governo da Palestina. Em 1915, foi criada a Comissão do Crescente Vermelho, presidida por Husayn al-Husseini, e que englobava muçulmanos, judeus e cristãos, com a participação do judeu sefardita de Damasco Albert Antebi, grande amigo da família e figura proeminente que desempenhou um papel fulcral em todo o processo do estabelecimento judaico na Palestina, ainda que ele mesmo não se considerasse um sionista. Esta entidade tinha por missão negociar com o Governo Otomano as questões mais delicadas, já que os Jovens Turcos não privilegiavam qualquer confissão mas apenas exigiam a submissão a Constantinopla.

Em 1917, as tropas britânicos saem do Egipto em direcção à Palestina com a clara intenção de tomarem Jerusalém. Na iminência de perder a guerra, Ahmet Djemal, que não queria uma Palestina árabe (dado o apoio fornecido aos árabes pelos ingleses), persegue árabes cristãos e muçulmanos culpando-os de alianças pró-britânicas.

A autora recolheu sabiamente as memórias e testemunhos de pessoas, ou seus descendentes, desses conturbados tempos. E frisa a acção de duas personalidades notáveis que não sobreviveram ao fim da guerra: o árabe muçulmano Ruhi Khalidi (o herdeiro da celebérrima biblioteca) e o judeu não-sionista, mas que acabou por se ver envolvido na trama sionista, Albert Antebi: rivais, colaboradores, ambos devotos de Jerusalém, poderia mesmo dizer-se amigos. 

Uma outra figura notável da época, Wasif Jawhariyyeh, cristão ortodoxo de cultura árabe, poeta e compositor, escreveu no seu diário, depois da Declaração Balfour e da tomada de Jerusalém pelos britânicos: «the loss of our homeland» (p. 156)

Sobre Albert Antebi, a autora escreve: «During the war Albert Antebi ws also at work on a document describing his vision for the future, and it was clear that in it he no longer saw his place as being in Palestine. In 1914, soon after the war broke out, he had complained that the Zionists "claimed to be the only heirs of tomorrow." He recognized that this left him and others who shared his worldview as part of the past. The Zionists, he noted, had "conquered Palestine from the Arabs, Turkey, the European powers and the non-Zionists Jews." In papers found in his briefcase after he died, he argued that the region should be divided into cantons, with different groups controlling each one and the entire country overseen by France.» (pp. 156-7)

Entretanto, os judeus sionistas organizaram grupos terroristas armados que provocaram graves incidentes, como a explosão, em 22 de Julho de 1946, do grande Hotel King David, em Jerusalém, onde se encontrava o quartel-general britânico e de que resultou a morte de uma centena de pessoas de várias nacionalidades. O ataque foi protagonizado pela milícia sionista Irgun e organizado por Menachem Begin, que viria ser, posteriormente e por duas vezes, primeiro-ministro de Israel. Foi dito na altura que o objectivo era a destruição de planos comprometedores dos grupos paramilitares Irgun e Haganah relativos à estratégia sionista de ocupação da Palestina.

Em 1919, reunira-se o primeiro Congresso Árabe/Palestiniano em Haifa, para tentar coordenar a estratégia de afluxo de imigrantes judeus que chegavam cada vez em maior número. Tinham começado por essa altura as confrontações violentas entre os recém-chegados e os habitantes árabes instalados há milénios. Os judeus pretendiam impor a sua cultura, os árabes conservar a que desde sempre possuíam. Todavia, o aproximar do fim da guerra e da queda do Império Otomano dificultavam a adopção de soluções adequadas.

Em Abril de 1939, seis líderes árabes, reuniram-se e formaram o que ficou conhecido por Alto Comando Árabe, dirigido por Haj Amin al-Husseini, pertencente a uma das mais eminentes famílias de Jerusalém, e que fora amigo pessoal de Albert Antebi. O Alto Comando apelou a uma greve geral dos trabalhadores árabes e ao boicote dos produtos judeus. Iniciava-se um período de pré-guerra civil com os britânicos pelo meio. O professor e escritor palestiniano cristão ortodoxo Khalil Sakakini, uma das mais respeitadas figuras dos cristãos árabes, escreveu: «I pray to God the end will be good.» (p. 166)

«Arthur Ruppin [activista sionista, considerado o pai da sociologia hebraica e figura do maior destaque na época] found himself frequently involved in disagreements over how the Jews should respond. Some want to revive the peace talks that had been initiated in 1913 and then suspended because of the war. Ruppin himself even joined a new group called Brit Shalom, which advocated attempting to find a way for the two sides to share Palestine. But he began to find himself increasingly at odds with his friends , who continued to adhere to the idea that Herzl himself had promoted: namely, that eventually the Arabs would realize the economic advantages the Zionist movement brought to Palestine and come to terms  with their presence in the country. Ruppin now found himself taking the position that rational approaches such as these had no relevance for the tribal conflict that existed between the Jews and the Arabs. Political conflicts were not governed by "rational arguments", he told them, "but by instincts." (pp. 166-7)

Não é possível no espaço de um post desenvover a excepcional narrativa de Amy Dockser. O seu livro merece uma atenta leitura. Já me alonguei demasiado. Mas ainda referirei alguns momentos essenciais.

Atendendo à chamada Grande Revolta Árabe contra o Império Otomano instigada pelos ingleses, ao desenvovimento das milícias sionistas e da resistência árabe, cita a autora: «By 1942, Khalil Sakakini was writing in his diary that he saw one of only two possible ways to end the fighting: either the Arabs would remain in control of the land, or the Jews would undertake to assume that control. War was inevitable.» (p. 169)

Amy Dockser Marcus regressou à Palestina no período 2004-2006. 

Em 2004 conseguiu visitar a Biblioteca Khalidi, agora dirigida por Haifa Khalidi, familiar do fundador, que se encontra quase encostada à yeschiva Beir Idra, o que chegou a suscitar problemas judiciais. A Biblioteca contém obras preciosas e há um projecto para a sua digitalização e disponibilização internacional. Retrospectivamente, Amy Dockser confirma a sua convicção que o ano de 1913 foi o momento da grande separação entre a maioria árabe e a minoria judaica que haviam convivido pacificamente durante séculos, até à mise-en-marche do projecto sionista.

Em 2006, Dockser lê uma pequena notícia no jornal israelita "Haaretz", segundo a qual a Turquia anunciava a transferência para a Autoridade Palestiniana do imenso arquivo Otomano, compreendendo cerca de 14 000 páginas de documentos acerca de Jerusalém e da Palestina datando de 1500 a 1914. «The archive apparently contained records and information about land deals and land purchases that would be relevant in Jerusalem today. It wasn't clear yet what the archive would reveal, but the shadow cast by 1913 seemed to loom ever larger over the city's future.» (p. 188)

«Haim Ramon, an Israeli politician, told the press in an interview in December 2005, as Israel embarked on an election campaign, that he feared for the city. Jerusalem, he said, could end becoming "the non-Jewish and non-Zionist capital of Israel", referring to the growing number of ultrareligious Jews and Palestinian Arabs in the city, neither of whom identified with the state. Because the borders of the city have been expanded far beyond what would have been recognizable to Albert Antebi or Ruhi Khalidi in 1913, Israel's Jewish demographic control is now in danger. Out of the larger city's population today of 650,000, one in three people is a Palestinian Arab. The Old City, where Antebi e Khalidi once lived side by side, and where the sites with the deepest national and religious significance to the different ethnic communities are located, is now home to approximately 32,000 Arabs and only 4,000 Jews, according to government statistics published by the Israeli press.» (pp. 189-190)

«In a book published in 2005 called The Jerusalem Lexicon by researchers at the Institute, the geographer Shlomo Hasson articulated what had become clear to most people who studied the problem of Jerusalem's future. "The existence of a democratic state and the continuation of Jewish hegemony in Jerusalem necessitate getting out of the existing situation and adopting new solutions," Hasson wrote. "Above all it is desirable to separate the space in which Jews live from the space where Arabs live and for each side to have the most sovereignity in its area." This is where things had led, from 1913 to our own time - back to the idea of a separate peace.» (p. 190)

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Já vai longo este texto. Li o livro aquando da sua publicação. Como referi no princípio, reli-o agora. Desde a sua edição, em 2007, muito água correu sob as pontes. Mas o livro de Amy Dockser Marcus, norte-americana e judia, de que referi as passagens que se me afiguraram mais importantes, talvez ajude a explicar a situação a que se chegou nos dias que correm. A autora é insuspeita de parcialismo e exprime a sua nostalgia dos tempos idos, dos que ainda conheceu e dos que já não chegou a conhecer. Ignoramos a sua posição sobre a situação actual mas não é difícil acreditar que se sinta profundamente angustiada.

Diga-se, em jeito de conclusão, que as colonizações e descolonizações britânicas foram dos fenómenos mais perversos que a História Universal conheceu num período inferior a meio milénio.


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

OS DOZE CÉSARES

Muitos autores antigos debruçaram-se sobre a personalidade dos imperadores romanos, nomeadamente sobre os que ocuparam o poder nas primeiras décadas do Império.

Entre os que escreveram sobre um ou vários Césares contam-se Cícero (106-43 AC), Nicolau de Damasco (64 AC- 4 DC, Philon de Alexandria (20 AC-50 DC), Velleius Paterculus (19 AC-31 DC), Séneca (4 AC-65 DC), Plínio, o Antigo (23-79), Flavius Josephus (37-100), Plutarco (46-120), Tácito (56-117), Plínio, o Jovem (61-114), Apiano (95-165), Aulus Gellius (123-165), Dion Cassius (155-229), Filóstrato (170-250), como os mais importantes.

Mas é sobretudo a Suetónio (69-141) que se deve a obra mais profunda e abrangente sobre os primeiros imperadores: De vitis Caesarum (Vidas dos Césares), habitualmente conhecida como Os Doze Césares.

O escritor latino Suetónio, que foi secretário do imperador Adriano, deixou-nos uma biografia suficientemente elucidativa embora nem sempre exacta (voluntária ou involuntariamente) dos primeiros onze imperadores romanos, antecedida da vida de Júlio César, que não é considerado imperador, ainda que fosse César e tivesse o título de imperator. Mas o Senado não chegou a conferir-lhe o título de princeps, que nos habilita a designar os imperadores de Roma. Assim, De vitis Caesarum inclui, além de Júlio César, os imperadores da Dinastia Júlio-Claudiana (Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), os efémeros três imperadores do ano 69 (Galba, Otão e Vitélio) e os imperadores da Dinastia Flaviana (Vespasiano, Tito e Domiciano).

A obra de Suetónio conta-nos, relativamente a cada César, os aspectos mais importantes da sua vida, englobando vida pessoal, vida política, vida militar, etc.

Mas existem outras formas de abordar os "reinados" destes "soberanos", como a que nos propõe Régis F. Martin, no seu livro Les douze Césars. Resolveu este autor dividir o livro pelos aspectos fundamentais das personalidades dos imperadores em vez de seguir a ordenação estabelecida por Suetónio de dividir a obra pelos reinados dos doze Césares.

É esta a proposta de Régis F. Martin:

I - Force et Origines du Mythe

II - Portraits et Miroirs Déformants

III - La Vie Quotodienne au Palais Impérial

IV - Séxualités Impériales: Stratégies, Fantasmes et Rituels

V - Le Pouvoir et la Maladie

VI - Les Personnalités en Présence

VII - Les Hommes et le Pouvoir

VIII - L'Image Surgie de la Mort

 

Não sendo possível comentar os conteúdos dos capítulos mencionados (o livro de Régis F. Martin tem cerca de 500 páginas), vamos deter-nos sobre dois dos aspectos muito controversos da vida (e da) morte) destes imperadores. 

Um deles é sobre a sua sexualidade. Discute-se frequentemente se teria havido imperadores homossexuais. Como não existia no Império Romano a noção de homossexualidade (o conceito é muito recente e remonta aos fins do século XIX), não houve tecnicamente homossexuais na Roma Antiga mas apenas pessoas que mantinham permanente ou esporadicamente relações com outras pessoas do mesmo sexo. Uma simples questão de gosto, como preferir peixe ou carne. Realmente era assim. Parece poder afirmar-se com alguma segurança que Cláudio ou Vespasiano não mantiveram esse tipo de relações. Júlio César é o que hoje se poderia chamar um bissexual perfeito. Dele escreveu Suetónio (52,6) que «era marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos». Acerca de Augusto não constam especiais referências, salvo o facto (ainda segundo Suetónio) de ter tido, aos 18 anos, relações com seu tio avô Júlio César, que exactamente por isso o teria adoptado; e que, em Espanha, se teria prostituído a Aulus Hirtius. Segundo as imagens que possuímos, Augusto era, nessa altura, um rapaz muito bonito. Do austero Tibério não há notícia desse comportamento, à excepção das célebres (mas não confirmadas) orgias na piscina da sua villa em Capri, onde, já no fim da vida, se entregava a actos libidinosos com rapazinhos e mesmo crianças e organizava com eles jogos sexuais, chamados spinthrias. Calígula manteve toda a espécie de relações, inclusive com Lepidus, marido de sua irmã Drusilla, da qual foi igualmente amante. Galba foi um homem austero, mas manteve relações homossexuais, de preferência com homens maduros. Otão teve também os seus amantes, e terá sido favorito do próprio Nero. Quanto a Vitélio, terá feito parte da corte de rapazinhos dos tempos de Tibério, em Capri. Tito, ao contrário de seu pai Vespasiano, foi um grande consumidor de jovens e de eunucos. Domiciano também teve vários rapazes novos, segundo Dion Cassius e Suetónio. Quanto a Nero, para além das numerosas relações homossexuais, foi o único imperador que celebrou dois casamentos homossexuais, assumindo num o papel de mulher e noutro o papel de homem. É possível que tenha também violado várias vezes o seu jovem primo Britannicus, filho de Cláudio e quatro anos mais novo. Aqui fica uma síntese das relações homossexuais imperiais, sendo certo que todos os imperadores tiveram igualmente relações heterossexuais.

O outro aspecto que importa relevar é o da morte dos imperadores. Júlio César, como toda a gente sabe, foi assassinado no Senado em 15 de Março de 44 AC (os Idos de Março). Augusto morreu de morte natural, ainda que exista o episódio do seu envenenamento, contado por Dion Cassius e Tácito. No final da sua vida, Lívia teria envenenado os figos que Augusto colhia directamente no seu jardim. Vespasiano morreu seguramente de morte natural, tal como Tito (apesar de alguns rumores de envenenamento) ou Tibério (não obstante a estória que alguns contam que teria sido sufocado por Calígula nos momentos finais). Cláudio foi sem dúvida envenenado já na recta final da vida por obra de sua mulher Agripina (II), mãe de Nero. Nero e Otão suicidaram-se, o primeiro ridiculamente, o segundo estoicamente. Calígula e Domiciano foram mortos por uma conjura. Galba e Vitélio foram executados publicamente, o primeiro com grande dignidade, o segundo perante o escárnio dos romanos.

Recorda-nos Régis Martin que a ideia geral que prevalece na opinião pública se encontra formatada pelas inexactas películas fabricadas em Hollywood, que preteriram a autenticidade histórica a favor da exaltação da excentricidade destinada a seduzir as massas. Entre os muitos filmes que contribuíram para os mitos acerca dos primeiros tempos do Império Romano contam-se Quo Vadis?, de Mervyn Le Roy (a partir do romance de Henryk Sienkiewicz), Júlio César, de Mankiewicz (a partir de Shakespeare), as múltiplas Cleópatra, sendo a mais célebre também de Mankiewicz, Ben Hur, de William Wyler, Calígula, de Tinto Brass, Eu, Cláudio, de Josef Sternberg (inacabado), [e, acrescento eu, Eu, Cláudio, de Herbert Wise], Fabíola, de A. Blasetti, Satiricon, de Fellini, os seis Os Últimos Dias de Pompeia, sendo o mais conhecido o de Mario Bonnard e Sergio Leone. Também os muitos livros escritos acerca da época alimentaram as fantasias sobre a Roma Imperial, pelo que importa sempre distinguir entre as obras históricas, devidamente documentadas, e romances ou peças de teatro que, reclamando-se da história, a deturpam ou modificam, consoante os objectivos que pretendem alcançar. O que não significa que algumas dessas obras não sejam notáveis. [Estou a lembrar-me das peças de Shakespeare sobre temas romanos, do Calígula, de Albert Camus, dos livros de Robert Graves sobre Cláudio, das Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, de Juliano, de Gore Vidal, dos livros de Françoise Chandernagor, de O Primeiro Homem de Roma, de Collen McCullough, e tantos outros.

Tudo o que escrevi é muito pouco comparado com o manancial inexaurível constituído pelo livro de Martin. E sobre o livro de Suetónio não falo, já que Martin se refere primordialmente a ele, ao mesmo tempo que recolhe elementos dos outros autores citados no início deste texto.

* * *

A presente edição portuguesa de Os 12 Césares (1963) foi traduzida por João Gaspar Simões, célebre crítico literário, romancista, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, historiador da literatura e figura maior do movimento da Presença.

sábado, 30 de setembro de 2023

A IGREJA DO NAUFRÁGIO DE SÃO PAULO, EM VALETTA

A Igreja Colegiada do Naufrágio de São Paulo, em Valetta, é uma das mais importantes da cidade, por ela em si mesma e pelo que representa. Muitos escritores consideram o naufrágio do Apóstolo São Paulo na costa da ilha (c. 60 AD) como o maior acontecimento na história de Malta, pois foi ele que trouxe aos seus habitantes a fé cristã. A ilha é referida nos Actos dos Apóstolos (28, 1), atribuídos a São Lucas: « Estando já a salvo, soubemos que a ilha se chamava Malta».

O culto de São Paulo espalhou-se por toda a ilha e muitas igrejas são-lhe dedicadas, entre elas a Catedral de São Paulo em Mdina. E em Rabat existe a Gruta onde o Apóstolo viveu durante os três meses que permaneceu na ilha e à volta da qual foram escavadas catacumbas para os cristãos dos primeiros séculos e que serviram depois como abrigos subterrâneos durante a Segunda Guerra Mundial. 

A construção da igreja na versão actual começou em 1639 e prolongou-se por 40 anos. Mede 35 m de comprimento e 22 m de largura e possui uma nave central e duas naves laterais. A Sacristia encontra-se do lado esquerdo e o Oratório do lado direito. Nas naves laterais existem dez Capelas, cada uma com a sua cúpula. São dedicadas, do lado esquerdo a S. Miguel, S. Crispim e S. Crispiniano, Santíssimo Sacramento, S. Caetano e Santo Crucifixo e do lado direito a S. Martinho, São Homobonus, Nossa Senhora da Caridade, S. José e Santa Teresa d'Ávila. 

Fachada (em 2007)

 

A fachada ostenta uma imagem da Imaculada Conceição, sobre a porta central, flanqueada por duas torres com sinos. Sob os campanários encontram-se as estátuas de pedra de S. Pedro e de S. Paulo. Sobre cada uma das portas laterais há inscrições em mármore em honra de S. Paulo, uma comemorando a dedicação do templo em 1569 e a outra comemorando o restauro da nova fachada, concluído em 1886. A igreja é coberta por uma magnífica abóbada elíptica, ricamente pintada. A Capela-Mor, onde se  encontra o riquíssimo Altar-mor, foi alargada em 1762, pelo Grão-Mestre Manuel Pinto da Fonseca, para que pudesse acolher no recinto o trono do Grão-Mestre. Este manteve-se, ao lado do trono do Bispo de Malta mesmo depois da ocupação de Bonaparte em 1798 e só foi retirado após as reformas do Concílio Vaticano II. No dia da festa de S. Paulo, o Altar-Mor é ornamentado com treze magníficos e grandes castiçais de prata ladeados por seis pequenas estátuas de ouro e prata dos Apóstolos, cópias exactas das que existem na Basílica de S. João de Latrão, em Roma. No centro do altar é colocada uma base de prata, sobre a qual é posto, durante os três dias precedendo a festa, o relicário do Santo, em ouro e pedras preciosas.

Altar-Mor

A igreja possui um valioso conjunto de peças, em ouro, prata e pedras preciosas, como custódias, relicários, salvas, cálices, lampadários, tabernáculos, turíbulos, tendo vários destes objectos sido oferecidos pelos Grão-Mestres Pinto da Fonseca e Manoel de Vilhena.

Muito antes da igreja conventual de São João ter sido designada Co-Catedral, em 1816, a Igreja paroquial do Naufrágio de São Paulo era a igreja do Bispo de Malta em Valetta. Este, aliás, continua a possuir o seu trono na Igreja de São Paulo. 

Atrás do Altar-Mor encontra-se o Coro, construído um ao antes da erecção da cúpula, e realizado com os fundos concedidos por Don Cesare Passalacqua, procurador e grande benfeitor da igreja e cujo retrato se encontra na Sacristia. O Coro possui 22 cadeiras de madeira, 11 de cada lado, uma das quais ostentando as armas do  Capítulo.

Sobre o Coro, num nicho aberto na parede, encontra-se, segundo a tradição, parte da coluna original em que S. Paulo foi martirizado em Roma, no local onde hoje se ergue a igreja San Paolo alle Tre Fontane. Esta parte da referida coluna onde o santo foi decapitado foi doada à igreja, em 1818, pelo Papa Pio VII. 

Por Breve de 1733, o Papa Clemente XII elevou à categoria de Colegiada a igreja paroquial do Naufrágio de São Paulo. A cerimónia da investidura dos primeiros cónegos do novo Reverendo Capítulo da nova Colegiada teve lugar em 1733 no Palácio do Inquisidor, na Vittoriosa, e foi conduzida pelo Inquisidor, como representante da Santa Sé em Malta, Mgr. Giovanni Francesco Stoppani. Por Bula Apostólica de 1815, o Papa Pio VII concedeu aos cónegos do Capítulo o direito a usarem roquete, mozzetta de púrpura e cappa magna de arminho, bem como cordão de ouro e cruz peitoral. 

São Paulo

A estátua de madeira do titular da Igreja, São Paulo, foi esculpida por Melchiorre Gafà (1635-1667) em Roma, em 1659, tendo sido encomendada por Paolo Testaferrata, Barão de Gomerino. Durante anos foi conservada na casa particular da família e oferecida mais tarde à igreja pelos seus herdeiros. Esta estátua é passeada processionalmente em Valetta em dias solenes, como na festa de São Paulo, em 10 de Fevereiro.

Revestiam especial interesse nesta igreja paroquial as Confrarias ou Guildas Comerciais que lhe estavam afectas. Cada Confraria apoiava a Capela em que se realizavam os serviços religiosos em honra do seu santo padroeiro. Durante muitos anos houve sete Confrarias cada uma com a sua Capela, a saber: a Guilda dos Retalhistas e Vendedores de Carne, Peixe e Verduras tinha a Capela de S. Miguel; a Guilda dos Sapateiros e Fabricantes de Arreios a Capela de S. Crispim e São Crispiniano; a Guilda dos Ferreiros a Capela de S. Eligius (hoje Capela do Santíssimo Sacramento); a Guilda dos Ourives a Capela de Santa Helena (hoje Capela de Nossa Senhora da Caridade); a Guilda dos Tapeceiros, Alfaiates e Tecelões a Capela de S. Homobonus; a Guilda dos Mercadores de Vinho a Capela de S. Martinho. Também, durante anos, mesmo os Remadores e Trabalhadores Portuários tiveram uma Capela própria, a de Santa Ágata, hoje Capela de S. Caetano. 

Não cabe neste post a descrição das riquíssimas Capelas, tal como também não mencionámos  a decoração e as preciosas pinturas que ornamentam toda a igreja.

Na Capela de São José existe sobre o altar uma urna de mármore que contém um relicário de bronze dourado e pedras preciosas encerrando um fragmento do pulso direito de S. Paulo. A sua autenticidade foi garantia por diversos bispos e oferecida à igreja por Vincenzo Aloisio Bonavia, em 1823. Esta relíquia tem peregrinado não só em Malta mas também em Espanha e na Itália. 

Muito haveria a escrever a propósito do opúsculo em apreço, mas a presente apreciação já vai longa.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

AMORES PROIBIDOS NO IRÃO ISLÂMICO

Li agora a edição francesa de Les Garçons de l'amour (2022), tradução do persa (Pesaran-e Eshq), cuja data de publicação suponho ser 2011.

O autor, Ghazi Rabihavi, nasceu em Abadan (Irão) em 1956 e instalou-se em Teherão aos 22 anos, na altura em que começou a revolução. O Xá abandonou o país em 1979 e o ayatollah Ruhollah Khomeini regressou ao Irão, que se tornou uma república islâmica, após consulta da população em referendo nacional. Rabihavi editou várias novelas, sempre sob o cutelo da censura, e foi proibido de publicar em 1994. Em 1995 exilou-se em Londres, onde exerce a sua actividade entre o romance, o teatro e o cinema.

A presente obra é de carácter autobiográfico e o narrador, Djamil, assume a personagem do autor. Djamil, que vive com o pai numa aldeia próximo da cidade de Abadan, reconhece a sua paixão por um belo rapaz da sua idade, Nadji (ambos têm então 18 anos), que recolhe feno num ribeiro próximo. Estabelece-se uma relação entre os dois, que é mal vista pela família. A acção começa no início da Revolução no Irão e a acção dos fundamentalistas islâmicos já se faz sentir. Um momento de viragem é o incêndio do cinema Rex, em Abadan (1978), cuja autoria ainda hoje é discutida e onde morreu mais de um milhar de pessoas. Foi atribuído à SAVAK, a polícia do Xá, para culpar os islamistas ou aos fundamentalistas para responsabilizar o regime. Meses depois o Xá foi constrangido ao exílio.

Os dois rapazes resolvem partir para Abadan com o sonho de, mais tarde, alcançarem a Europa. Acabam por conseguir passagem clandestina para um país vizinho (não mencionado) que só pode ser o Iraque. Daí sonham emigrar para um país europeu mas virão a ser obrigados a regressar ao ponto de partida.

Entretanto fazem sentir-se as consequências da guerra Irão-Iraque, começada em 1980 mas que já estava latente.

Ao longo de quase 500 páginas, a vida de Djamil (e de Nadji) durante o tempo desta aventura é descrita minuciosamente como de um diário se tratasse, o que torna o livro monótono, até pela repetição exaustiva de situações semelhantes. A homossexualidade está sempre em pano de fundo, pois os moços são frequentemente objecto de propostas sexuais e até de assédios e violações. Quer de não muçulmanos (havia no Irão larga percentagem de cristãos católicos e ortodoxos e de arménios) ou mesmo laicos, quer até de fundamentalistas, já que as relações masculinas do mesmo sexo eram (e ainda são?) uma prática corrente no país. Mas a República Islâmica viria a condenar severamente tais práticas, inclusive com a pena de morte, para tudo o que pusesse em causa os preceitos da sharia. Os "guardas da Revolução" encarregar-se-iam de escrutinar as vidas alheias. Ainda assim, os relacionamentos perduraram, mas agora sempre entre quatro paredes e no maior sigilo, pois que o espírito está pronto mas a carne é fraca.

O périplo dos dois rapazes, primeiro juntos, depois separados e finalmente de novo reunidos, até uma separação final, constitui uma verdadeira saga de incompreensões, humilhações, maus tratos e o próprio Djamil é vítima de uma agressão com ácido que o deixa parcialmente desfigurado.

A extensão do livro não permite recorrer a pormenores, mas a história seria bastante cativante se o autor não tivesse optado por uma narração quase diária em vez de assinalar os factos significativos deste "amor impossível", numa sociedade relativamente permissiva no tempo do Xá, do ponto de vista estritamente legal, mas que nunca o foi do ponto de vista social. E depois do regime islâmico a condenação deixou de ser apenas social mas também legal, com frequentes enforcamentos, pelo menos nos primeiros anos revolucionários, ainda que o fervor religioso tenha ligeiramente abrandado nos últimos tempos. 

O autor, para além de narrar, através de um alter ego, uma história pessoal ainda que matizada, enfatiza o facto destes "amores proibidos" pela lei corânica (e por todas as leis das religiões monoteístas, infelizmente) serem correntes no Irão, integrarem mesmo a componente civilizacional, e nunca terem cessado de existir, no tempo do Xá e depois dele. Só por isso, o livro de Ghazi Rabihavi merece o elogio de todos os homens livres.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

O EGIPTO É A MÃE DO MUNDO

Foi publicado no mês passado Ce que je sais de toi, primeiro romance de Éric Chacour, natural de Montreal e filho de pais egípcios. O autor é diplomado em economia aplicada e relações internacionais, trabalha hoje no sector financeiro e partilha a sua vida entre o Québec e a França.

Este livro dá-nos o ambiente da sociedade egípcia dos anos 60 do século passado até ao princípio deste século. É um magnífico fresco de um Egipto que eu ainda conheci e que se encontra em vias de extinção. E o autor, ainda que nascido no Canadá, sabe bem do que fala, no caso concreto, do que escreve.

Neste texto, utilizarei os nomes egípcios na transliteração que Chacour usa no livro, que é a usual em francês, mas que não corresponde à transliteração oficial da língua árabe para caracteres latinos, normalmente respeitada pelas versões em inglês.

A estória é simples e comum, os pormenores deliciosos, o desfecho talvez surpreendente. Mas o todo é magnífico.

Resumamos:

Tarek [um nome de que conservo as mais gratas recordações], filho de uma abastada família do Levante, há muito tempo imigrada no Egipto, torna-se médico, a exemplo do seu pai. Como todo o bom egípcio, mesmo que não muçulmano (Tarek é cristão) casa-se com uma mulher, Mira Nakeilian (da comunidade arménia), por quem se julga suficientemente atraído. A família habita na zona elegante de Dokki, numa villa em cujo rés-do-chão o pai possui o consultório, que Tarek herdará por morte deste. A mãe é a grande matriarca, como acontece nas sociedades árabes (cristãs ou muçulmanas), quem verdadeiramente tem a última palavra, ainda que no Ocidente se propague a ideia de que as mulheres são consideradas inferiores nos países orientais. Tarek tem uma irmã, Nesrine, uma espécie de confidente, que só casará muito mais tarde, depois dos "acontecimentos". E há, inevitavelmente, uma criada, Fatheya.

[Deve dizer-se que desde o século XVIII habitavam o Egipto muitas comunidades "estrangeiras": judeus, gregos, italianos, sírios, libaneses, palestinianos, franceses, ingleses, etc., algumas das quais possuíam até jurisdição própria. O Egipto, teoricamente fazendo parte do Império Otomano, era na realidade uma colónia britânica, desde a derrota das tropas francesas aquando da invasão de Napoleão Bonaparte em 1798. Em 1919, Londres concedeu uma independência nominal ao Egipto mas só com a Revolução de 1952 (promovida pelo Movimento dos Oficiais Livres), que depôs o rei Faruq, que abdicou em seu filho Ahmed Fuad II (uma criança) se começou a caminhar para uma verdadeira independência. Em 1953, foi proclamada a República, com o general Naguib como presidente, e em 1954 um golpe de Estado depôs Naguib e instituiu um Conselho da Revolução (presidido por Nasser) que liderou o país entre 1954 e 1956. Em 1956, o coronel Gamal Abdel Nasser foi eleito presidente da República.]

Ainda em vida do pai, a quem já ajudava no consultório, Tarek resolve abrir um dispensário na paupérrima zona de Moqattam [ao lado da Cidade dos Mortos, essa extensão de vários quilómetros quadrados, no leste do Cairo, que abriga uma infinidade de sepulturas, onde vivem mais de seis milhões de pessoas e que tive a oportunidade de visitar, discretamente, uma vez]. Tarek desloca-se semanalmente ao dispensário e é sempre aguardado por uma interminável fila de pacientes a quem atende gratuitamente, ou mediante parco pagamento, nada que se compare com os honorários da sua rica clientela de Dokki.

Um dia, no fim da consulta, um rapaz aguarda-o à saída. Pede-lhe que vá a sua casa ver a mãe que já não se pode deslocar. Tarek acede e constata que a mãe, mulher simples, muito pobre mas inteligente, que o acolhe com entusiasmo (e insiste em estar de boa saúde), é vítima de uma progressiva doença do sistema nervoso. A pedido do filho, Tarek acede continuar a visitá-la e acaba por receber o filho, Ali, um belo rapaz de 19 anos, como auxiliar no dispensário. Esperto e empenhado, o rapaz torna-se imprescindível e os próprios pacientes começam a pedir a Ali, que verifica os casos mais urgentes, precedência no seu atendimento pelo doutor.

A mãe está encantada com a nova ocupação do filho (não sabemos se ela conhece as outras ocupações dele, pois o filho todos os dias se desloca ao centro da cidade, porventura para vender alguns bens recuperados da sucata de que é armazém a zona de Moqattam, o bairro dos zabbaline (em árabe, do lixo) e pede a Tarek que, por sua morte, tome o rapaz sob a sua protecção. 

E, finalmente, a mãe morre. Tarek decide contratar Ali para seu auxiliar na própria clínica de Dokki, sem prejuízo do dispensário que continua a ser objecto da sua actividade benévola. É claro que Tarek, talvez imperceptivelmente (tais ideias nunca lhe tinham ocorrido), começa a ficar seduzido por Ali.

Nestes anos, Nasser é a grande figura do Egipto, as mulheres consideram-no o homem mais belo do país. Pelo meio da estória há a Guerra dos Seis Dias, o assassínio de Sadate, e mil e uma coisas que os conhecedores do Cairo conhecem e adoram. Ruas, lojas, comidas, monumentos, artistas, músicas, locais diversos,etc.

Um dia, Tarek é visitado inesperadamente por Omar, homem já idoso, corpulento e muito rico, um dos grandes comerciantes de algodão do Egipto, uma figura poderosa na vida política e social do país. Chega no fim da consulta e insiste em estar a sós com o médico. Tarek que o conhece, Omar é visita de casa, recebe-o, tendo aquele insistido em saber se estão sós, já que se trata de assunto muito importante. O homem começa por invocar o amor por sua mulher Dahlya, com quem está casado há 32 anos, e tenta explicar-se por meias palavras o seu problema. Como Tarek não o entende bem, Omar acaba por ser mais explícito e o médico fica a saber que o homem se queixa de que desde há algum tempo não consegue excitar-se e ter ejaculação. Tarek vai tentar explicar-lhe mas eis que Ali surge da dependência ao lado. Omar tem um ataque de fúria e sai intempestivamente. Tarek repreende Ali pela sua aparição súbita mas este diz-lhe que não tem importância, que ele conhece o homem e que é um seu cliente. Tarek fica siderado. "Cliente?". Então o rapaz confessa-lhe que Omar é um dos clientes com quem ele habitualmente se prostitui e que o homem não precisa realmente de medicamentos, conforme se recorda da última vez que esteve na cama com ele. E diz a Tarek: «Tu crois que tu fais le seul métier où les gens acceptent qu'on les palpes?». E Tarek interroga-se: » Imaginer Omar avec Ali. Le corps usé du premier se payant la vigueur du second. Quel tarif pouvait justifier d'imposer sa déchéance à un jeune homme tel qu'Ali?».

E a uma pergunta de Tarek sobre a sua prostituição «Ce n'est pas difficile pour toi?», Ali responde: «Qu'est-ce que tu veux dire? Difficile de devoir vendre mon corps? De coucher avec des hommes que je n'ai pas choisis? Avec des vieux, des malpropres? D'obéir à leurs fantasmes? Non, ça va, ce n'est pas difficile. Et toi, ce n'est pas difficile d'examiner les incontinents et de manipuler des plaies gorgées de pus? Tu veux que je te dise? Ce qui est difficile, c'est d'attendre toute une nuit et de rentrer sans avoir trouvé de client...»

O livro está recheado de sábias e oportunas reflexões do autor sobre a vida, a natureza humana, o mundo.

[A homossexualidade, é condenada penal, social e moralmente no Egipto pela religião muçulmana, como, aliás, em toda a parte, pelo judaísmo e pelo cristianismo, uma herança trágica das religiões monoteístas, mas sempre foi largamente praticada nos países árabes (e em todo o mundo) apesar dos mais variados interditos. Supõe-se que as novas organizações designadas LGBTQI+,etc., com os seus programas radicais, contribuirão poderosamente para acentuar a rejeição das ligações do mesmo sexo. Em grande parte do mundo árabe, até há bem pouco tempo, a actividade homófila foi significativamente tolerada, ainda que «sobre a nudez forte da verdade estivesse o pouco diáfano manto da hipocrisia».]

Retomemos o fio condutor.

A mulher de Tarek, que já notou as cada vez mais demoradas permanências do marido no consultório e no dispensário, começa a fazer viagens pelo pais, com o pretexto de passar uns dias nesta ou naquela cidade e, depois, já sem qualquer pretexto. E Tarek resolve instalar Ali em casa durante as ausências da mulher, e tornam-se amantes.

Mas começa a difundir-se na cidade o boato de que Tarek é ajudado na sua prática médica por um rapaz de má vida. Boato sem dúvida propagado por Omar: a melhor defesa é o ataque. Entretanto as marcações de consultas começam a ser anuladas e a clientela elegante da clínica começa a rarear. E há mesmo uma proposta de egípcios regressados da Arábia Saudita e convertidos ao salafismo que pretendem adquirir o dispensário (a caridade sempre foi uma das armas dos Irmãos Muçulmanos) e até de admitir Ali desde que este "renuncie ao pecado".

De repente, aconteceu o impensável. O consultório de Tarek foi vandalizado, mas sem que algum objecto tenha sido roubado. E o médico descobre o seu gato de estimação, Tarbouche, pregado numa parede, ainda com o sangue a escorrer. E esta inscrição na parede: «Il t'attend en enfer.» Quem? O gato, ou Ali?

O rapaz tinha sido dispensado dias antes, para serenar os ânimos, mas não voltará a reaparecer. A mãe anuncia-lhe que Ali morreu, provavelmente afogado. Tarek não acredita. Quer ver os despojos. Esta diz-lhe que ela mesma, quando soube, ordenou que deitassem o cadáver na vala comum, já que era empregado da casa (do consultório) e não tinha família. Tarek, desesperado, tenta encontrar indícios da morte, mas debalde. Vai mesmo ao Mogamma [célebre e gigantesco edifício administrativo que existe na Praça Tahrir e ao pé do qual passei muitas vezes] para descobrir o que sucedeu, que registos existem, mas não obtém qualquer informação. 

Neste momento, Tarek toma a decisão mais importante da sua vida. Abandona o Egipto e emigra para o Canadá, onde reiniciará a vida a partir do zero.

Termino aqui a descrição da narrativa, quando o livro se encontra sensivelmente a meio. Mas não seria correcto da minha parte desvendar os inesperados episódios seguintes e a surpreendente conclusão.

Ce que je sais de toi é um livro notável, pelo que diz e pelo que deixa entrever. Como primeiro romance, constitui uma agradável surpresa. E recorda-nos a coexistência (nem sempre pacífica) entre as diversas comunidades egípcias: muçulmana, copta, ortodoxa grega, melkita, maronita, etc., pelos seus usos e costumes. A comunidade judaica quase desapareceu depois da revolução de Nasser.

Procurei sintetizar da melhor forma a primeira metade do livro. Obviamente com muitas falhas, já que não é condensável a riqueza do texto. Os interessados poderão adquirir a obra e apreciar a sua qualidade.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

AS ESTRANHAS ESCOLHAS DO PAPA FRANCISCO

Pela Bula Áurea "In supremo apostolatus solio", de Clemente XI (7 de Novembro de 1716), foi criado o Patriarcado de Lisboa, em paralelo com o Arcebispado existente, e que foi depois, naturalmente, absorvido pelo recém-criado Patriarcado.

Pela Bula "Inter praecipuas apostolici ministerii", de Clemente XII (17 de Dezembro de 1737), ficou estabelecido que o Patriarca de Lisboa seria elevado à dignidade cardinalícia no primeiro Consistório a seguir à sua nomeação.

Tudo favores da Santa Sé ao Fidelíssimo Rei o Senhor Dom João V. Estes privilégios, e muitos outros!

O princípio da elevação a Cardeal do Patriarca de Lisboa no primeiro Consistório seguinte manteve-se até data recente. Foi quebrado pelo Papa Francisco, quando o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, nomeado em 18 de Maio de 2013, foi designado Cardeal apenas no segundo Consistório após a sua nomeação, isto é, em 14 de Fevereiro de 2015. Argumentou-se então que a excepção se devia ao facto de se encontrar ainda vivo o anterior Patriarca de Lisboa (já emérito), o Cardeal D. José Policarpo (ainda possuidor das suas prerrogativas cardinalícias).

Verifica-se, agora, uma segunda excepção, também da responsabilidade do Papa Francisco: a nomeação de D. Rui Valério para Patriarca de Lisboa, em 10 de Agosto de 2023, que não será seguida da sua elevação ao cardinalato no próximo Consistório, que terá lugar no dia 30 de Setembro corrente. Poderá voltar a argumentar-se que tal procedimento se deve ao facto de ainda se encontrar vivo (e no uso das suas prerrogativas cardinalícias) o Patriarca emérito de Lisboa, D. Manuel Clemente, que havia resignado por limite de idade.

Mas surge aqui uma imensa interrogação. Ao anunciar há várias semanas os novos cardeais a empossar no próximo dia 30, o Papa já tinha aceite a resignação de D. Manuel Clemente e certamente já teria decidido quem seria o seu sucessor, que poderia ser criado cardeal no próximo Consistório. Mas isto pode, todavia,  dever-se às razões anteriores mencionadas. O que é mais extraordinário é que o Sumo Pontífice tenha criado cardeal D. Américo Aguiar, Bispo titular de Dagnum e Auxiliar de Lisboa, sem o designar então para outras funções, e o tenha nomeado hoje para Bispo de Setúbal, Diocese que se encontrava vacante há quase dois anos. 

Não constitui escândalo público que o Papa nomeie cardeal um bispo residencial em Portugal, mas não é da história que isso tenha acontecido sem que o Patriarca de Lisboa fosse cardeal. O Bispo emérito de Leiria-Fátima, D. António Marto, foi cardeal, mas havia um cardeal em Lisboa. Mas que o novo Bispo de Setúbal seja elevado a cardeal sem que seja cardeal o Patriarca de Lisboa já parece uma atitude estranha. Tanto mais que a Diocese de Setúbal é sufragânea do Patriarcado de Lisboa e teoricamente na dependência deste.

Já estamos habituados a decisões controversas do Papa Francisco. Contudo, esta atitude significa uma afronta gratuita ao Patriarcado de Lisboa e, lato sensu, a todo o Episcopado Português. É que, com a sua elevação à púrpura cardinalícia, o novo Bispo de Setúbal terá precedência sobre todos os prelados portugueses: sobre o Patriarca de Lisboa, sobre o Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, sobre o Arcebispo de Évora e sobre todos os Bispos Residenciais.

Não havia necessidade.

Que mais surpresas nos esperam?

É claro que não está em causa a figura de D. Américo Aguiar mas tão só o desrespeito de normas pontifícias com quase trezentos anos ou a sua involuntária ignorância, o que não parece ser o caso.


quarta-feira, 20 de setembro de 2023

O MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA, EM VALETTA

O Museu Nacional de Arqueologia, em Valetta, está instalado num prédio barroco que foi, em tempos, o Albergue da Língua de Provença. Construído para os Cavaleiros provençais, é anterior a 1571 e a sua fachada exibe características maneiristas habitualmente associadas ao ao famoso arquitecto local Gerolamo Cassar, pelo que se presume tenha sido ele o autor, já que subscreveu os mais importantes edifícios de Valetta naquela época.

A divisão mais importante é o Grande Salão, situado no primeiro piso. Era usado para as reuniões dos cavaleiros e também como refeitório e sala de banquetes. As paredes da sala estão admiravelmente pintadas e o tecto possui excelentes painéis.

O edifício teve diversos ocupantes, desde 1798, quando a Ordem foi expulsa de Malta. Em 1826 passou a acolher a Malta Union Club, cujo arrendamento expirou em 2002, mas só foi executado em 12 de Agosto de 1955. Nesta data foi destinado a Museu Nacional de Malta, que foi inaugurado em Janeiro de 1958 por Agatha Barbara, ministra da Educação. Assumiu as funções de director o Capitão Charles G. Zammit (filho de Sir Themistocles Zammit, um médico que foi o promotor da arqueologia maltesa). 

A exposição permanente do período neolítico encontra-se no piso térreo, e as peças provêm das escavações efectuadas em vários templos e locais de Malta e de Gozo. Ocorrem por vezes exposições temporárias, que são apresentadas no Grande Salão, que também é utilizado para conferências e outros eventos. Ainda no piso superior pode ver-se um conjunto de peças da Idade do Bronze e da Arte Fenícia.

A tábua cronológica do Neolítico de Malta é a seguinte:

1) Fase Ghar Dalam - 5 200 - 4500 AC

2) Fase Skorba Cinzento - 4 500 - 4 400 AC

3) Fase Skorba Vermelho - 4 400 - 4 100 AC

4) Fase Zebbug - 4 100 - 3 800 AC 

5) Fase Mgarr - 3 800 - 3 600 AC

6) Fase Ggantija - 3 600 - 3 000 AC (Inclui uma sub-fase Saflieni - 3 300 - 3000 AC)

7) Fase Tarxien - 3 000 - 2 500 AC

As fases Ghar, Skorba e princípio de Zebbug correspondem ao Período Neolítico Inferior.

As fases Zebbug (final), Mgarr, Ggantija e Tarxien correspondem ao Período Templo.

A exposição de peças do neolítico compreende seis salas. 

A sala 1 é dedicada ao neolítico inferior e apresenta várias peças de cerâmica tais como cabeças de animais e figuras humanas, utensílios do quotidiano, lâminas de pedra e de sílex, núcleos de obsidiana, ou objectos encontrados em túmulos, como ossos ou o célebre Círculo de Pedra Xaghra.

Na sala 2 há ruínas do período Templo, que nos ajudam a compreender a arquitectura das estruturas megalíticas, com reconstituições dos monumentos. E indicações de como se procedia à construção dos templos.

A sala 3 é dedicada às representações humanas, com estátuas de diversas divindades. Existe uma estátua colossal de mulher do período Tarxiano e muitas figuras de cerâmica e de alabastro. E ainda um relicário de pedra encerrando dois volumosos pénis. Há aliás muitas representações de símbolos fálicos que se supõe terem sido venerados na época, bem como fragmentos de corpos abraçados , não se distinguindo se pertencem ao mesmo sexo ou a sexos diferentes. 

A sala 4 contém numeroso objectos de cerâmica incomuns, como uma "roda solar" de argila, seixos com incisões, cilindros de pedra com incrustações em ouro, colares, pingentes de pedra verde, etc.

Na sala 5 pode ver-se uma das peças mais famosas do Museu: a "Senhora Adormecida", escultura em barro proveniente do hipogeu de Hal Safieni. E outras peças do mesmo hipogeu.

A sala 6 está adornada com numerosos blocos de pedra e altares provenientes dos templos tarxianos. E também objectos diversos, como chávenas, tigelas, etc.

O Catálogo refere-se apenas ao Período Neolítico, embora o Museu abrigue agora peças da Idade do Bronze e da Arte Fenícia, das quais, passados vários anos sobre a minha visita, já não me recordo.


domingo, 17 de setembro de 2023

O ENGATE DOS VAGABUNDOS

Foi publicado há algumas semanas Prélude à son absence, primeiro romance de Robin Josserand, francês, de 31 anos, bibliotecário em Lyon.

Trata-se de um livro presumivelmente autobiográfico, em que o narrador, suposto alter ego do autor, é um jovem de 30 anos, que trabalha na Bibliothèque de la Part-Dieu, em Lyon. Nos dezassete andares do edifício, o narrador, de que não sabemos o nome, aborrece-se entre as estantes de livros, os ficheiros, as obras de arte e os objectos anacrónicos que ali permanecem desde 1972, data de inauguração da biblioteca. E possui um fascínio especial por Jean Genet, que se revela ao longo da obra e do qual cita, em epígrafe, a citação da tarja da 13ª edição do Journal du voleur: «Il faut d'abord être coupable.»

Aliás, o autor diz ao que vem logo no primeiro parágrafo do livro: «Si je devais réfléchir à ce pour quoi j'ai commencé à écrire, je dirais que la littérature, pour moi, consiste à décrire de beaux jeunes hommes. Des garçons partout, des garçons tout le temps: le project vain d'un voyeur innocent. Mais à force de buter, le désir s'est usé. À ceux croisés régulièrement dans ma rue, je refuse désormais mon regard, regard qui n'est plus ce qu'il était, qui ne s'attarde plus partout, que je peux dès lors laisser aller sans crainte. La jouissance me fait l'effet d'un coup reçu au sommet du crâne et le plaisir vient cogner dans ma tête comme un troupeau de bêtes fuyantes. Dorénavant, ma vie est en surdine et d'aucuns diront que j'ai un peu abandonné la partie. Cette existence est devenue laide, décevante. Je n'écris plus. Je viens d'avoir trente ans.»

Talvez por isso, o narrador manifesta agora uma predilecção especial pelos sem-abrigo e nos intervalos em que abandona o serviço para se passear pelas ruas adjacentes não deixa de perscrutá-los com um atento olhar. Assim, surpreende um dia, sentado em frente de uma farmácia, um jovem vagabundo que, pela sua beleza, lhe desperta particular atenção. E há uma troca de sorrisos. 

Durante alguns dias, o rapaz não se mostra nas redondezas, que o narrador percorre com redobrada atenção. Julga vê-lo ali ou acolá, mas é sempre um outro clochard. Até que finalmente o descobre e se vai estabelecendo um parco relacionamento, através de oferta de cigarros, de uma pequena moeda, da oferta da valiosa 13ª edição do Journal du voleur, que o narrador subtrai da biblioteca e que presume possa interessar ao sem-abrigo.

Os encontros furtivos de rua sucedem-se, até que o narrador o convida para se instalar no seu apartamento. Convite aceite após alguma hesitação do rapaz, que desde o início percebeu o jogo e deixa claro estar fora de questão qualquer relação sexual.

Mas o narrador não perde a esperança de ver aquele corpo sujo, que não despe uma peça de roupa, cujo vestuário miserável instintivamente o excita. E tentará a sua sorte, citando Koltès: «Ce n'est pas toujours celui qui aborde qui est le plus faible.»

Com persistência, consegue saber o nome e a idade do rapaz: Sven, 22 anos. 

A instalação de Sven no apartamento não implica deste a aceitação de quaisquer regras ou a prestação de quaisquer favores sexuais. Entra e sai às horas que lhe apetece, levando uma vida obscura, entre desaparecimentos bruscos, desejos insólitos e telefonemas insistentes que escapam à compreensão do narrador. E há, também, pelo meio álcool e drogas. Nem remexendo nos dois sacos com os seus pertences, que o vagabundo depositou na sua casa, o narrador consegue saber algo da sua vida, salvo que nasceu em Paris, talvez no seio de uma família burguesa e que, por opção, se tornou clochard. E encontra uma pequena fotografia de Sven, que subtrai, já que este recusa terminantemente deixar-se fotografar.

A vida sobressaltada do narrador prossegue, com ausências forçadas ao trabalho, devido ao ritmo alucinante em que se tornou o seu quotidiano. O apartamento é agora um local de imundície e de desassossego. As impertinências, as más vontades, os desejos insólitos e provocadores de Sven sucedem-se. E a paciência do narrador parece ilimitada. Mas para evitar que o rapaz, por quem está apaixonado, desapareça definitivamente (o que já quase aconteceu), resolve convidá-lo para uns dias de repouso na Bretanha, na ilha de Groix, donde lhe será difícil evadir-se. A viagem será um  pesadelo. E as férias também. A recusa a contactos permanece inalterável e a mão na perna ou no pescoço de Sven vale 50 ou 100 euros, mesmo assim regateados, porque este não está normalmente disposto. Por isso, o narrador, continua a saga de se masturbar sozinho no quarto várias vezes ao dia. 

Mas as férias têm um desfecho imprevisível, que não deve ser aqui revelado.

A obra é salpicada amiúde por citações musicais e literárias, como convém no domínio culto dos livros que tratam de homossexualidade. Nunca é demais invocar os grandes espíritos que também apreciaram as carnes dos seus semelhantes sexuais, já que sabemos, desde sempre, que o espírito está pronto mas a carne é fraca.

Até cerca de metade do livro a narrativa de Robin Josserand é muitíssimo interessante, revelando um promissor escritor. Com a continuação, a estória perde ritmo, talvez pela repetição de situações e pela circunstância, que se me afigura inverossímil, do narrador aceitar durante tanto tempo todas as impertinências do rapaz, mesmo tratando-se de uma verdadeira paixão, o que não parece ser o caso. A atracção física por Sven afigura-se relevar mais de um interesse sexual e de uma obsessão fetichista. Sempre houve, no milieu homossexual, um desejo por mendigos, vagabundos, drogados, quiçá criminosos, como existe um interesse, nunca desmentido, por fardas. E o coração tem razões que a razão desconhece.

Com a reserva apontada, Prélude à son absence prenuncia uma estimulante rentrée literária.