segunda-feira, 30 de julho de 2018

EUNICE MUÑOZ




Completa hoje 90 anos Eunice Muñoz, uma das maiores actrizes portuguesas das últimas décadas, de quem tenho o privilégio de ser amigo.

Não tem este post a pretensão de recensear a sua extraordinária carreira artística. Sobre Eunice tudo já foi dito e escrito e a minha prosa nada acrescentaria ao brilho de uma vida dedicada ao teatro. Destina-se tão só a evocar a data, enviando-lhe um abraço da maior amizade.


domingo, 29 de julho de 2018

CRISTO RECRUCIFICADO



Nas minhas férias em Creta costumo ficar instalado num hotel em Ammoudara, a cerca de 10 km de Heraklion (ou Iraklio), a capital da ilha. Em estadas anteriores, desloquei-me algumas vezes à cidade, onde visitei os mais importantes locais de interesse cultural (monumentos, museus, igrejas, etc.), como igualmente visitei as ruínas de Cnossos, onde emergiu a célebre civilização Minoica, exumada por Arthur Evans no século XIX. Dessas deslocações dei conta aqui, aqui, aqui e aqui.



Havia, contudo, uma lacuna nas peregrinações por essas terras que albergaram uma das mais antigas civilizações conhecidas. E que, desta vez, me apressei a colmatar. Nunca visitara o túmulo de Nikos Kazantzakis, o célebre romancista (e dramaturgo) grego (1883-1957), natural de Creta, e autor de obras famosas como O Destino de Deus (São Francisco de Assis), Alexis Zorba, A Liberdade ou a Morte, A Última Tentação de Cristo ou Cristo Recrucificado.



O facto de o Teatro Experimental de Cascais (TEC) ter agora em cena uma adaptação da adaptação ao teatro de o Cristo Recrucificado (Ο Χριστός Ξανασταυρώνεται), livro publicado em francês em 1948 e em inglês em 1964, obra também conhecida no mundo anglo-saxónico como The Greek Passion, reforçou a minha vontade de me dirigir ao sul de Heraklion para visitar a sepultura.



O espectáculo que o TEC apresenta é uma adaptação da peça de François Daviel, que adaptara ao teatro o romance de Kazantzakis (1962). Existe também uma versão cinematográfica da obra, realizada por Jules Dassin, intitulada Celui qui doit mourir (1957), e uma ópera de Bohuslav Martinů, com o título A Paixão Grega (Řecké pašije).


Celui qui doit mourir (El que debe morir, na edição espanhola)

Nikos Kazantzakis foi um infatigável combatente pela independência da Grécia, um lutador solitário que colocou a pena ao serviço dos ideais que nortearam a sua vida, a defesa dos pobres e dos oprimidos contra as injustiças, os egoísmos, as humilhações. Esta sua derradeira obra é também uma interrogação sobre uma questão fundamental, de grande pertinência num país maioritariamente ortodoxo praticante à altura em que foi escrita: Ainda há lugar para Cristo no mundo moderno?


domingo, 1 de julho de 2018

OS ESPIÕES ASSASSINOS





O nº 2797 de "L'OBS" (14 a 20 de Junho) consagra um dossier aos serviços de espionagem israelitas, britânicos, franceses, americanos e russos. E aos assassinatos efectuados por estes serviços. O Mossad israelita é um dos mais poderosos serviços secretos. Nada nem ninguém o detém. Eliminou Wadie Hadad, chefe do braço armado das FPLP e tentou, aparentemente sem sucesso mas persistem dúvidas, assassinar Yasser Arafat. A CIA utiliza prisões secretas para torturar à vontade presumíveis terroristas. Mesmo em França, recentemente, François Hollande declarou aos jornalistas que ordenara pessoalmente operações "homo", isto é, execuções sumárias sem julgamento. O MI6, à beira do Tamisa e a DGSE do boulevard Mortier, no coração de Londres e de Paris, pretendem estar ao serviço da sociedade. A violência arbitrária de certas operações colocam a questão da sua legitimidade e da sua legalidade. Os serviços de informações destinados a proteger os Estados, logo as democracias, são por natureza anti-democráticos??? Quais as missões que se podem confiar aos serviços secretos e como definir os limites a respeitar? O segredo e a urgência, noções fundamentais neste tipo de operações, complicam muitas vezes o controle que as instituições democráticas têm a obrigação de efectuar. O que confere um imenso poder aos seus agentes, cuja actuação pode não respeitar os valores e as leis do Estado. Tanto mais que as ordens são muitas vezes susceptíveis de interpretações diversas.

Os dossiers negros do Mossad são vastos. Registemos algumas operações. O rapto e assassinato do líder oposicionista marroquino Mehdi Ben Barka, inimigo nº 1 do rei Hassan II, em 1965, em frente da brasserie Lipp, em Paris, como moeda de troca pelo facto do rei ter autorizado o Mossad a colocar escutas nas salas de reuniões em que ocorreu uma reunião da Liga Árabe, em Casablanca. Este caso, que teve obviamente cumplicidades francesas, provocou a fúria do general De Gaulle, que decapitou o serviço de contra-espionagem francês. Outro caso foi o assassinato no seu hotel de Paris, em 1975, do cientista iraquiano Yahya Al-Meshad, que preparava a instalação de um reactor nuclear no seu país, a pedido de Saddam Hussein. Seguiram-se dois outros cientistas iraquianos, igualmente mortos pelo Mossad: Salman Rashid, envenenado em Genève e depois Abd Al-Rahman, envenenado em Paris. Como todos foram substituídos por outros mais bem pagos e mais bem protegidos, Israel decidiu-se a uma operação militar, em 1981, bombardeando o reactor nuclear a sudeste de Baghdad. Ariel Sharon, primeiro-ministro (e criminoso de guerra) mandou abater um avião civil por presumir que viajava a bordo YasserArafat, mas o comandante das forças aéreas hesitou, e ainda bem, porque não só não viajava Arafat mas o seu irmão, como o avião levava a bordo 30 crianças que iam receber tratamento ao Cairo. Quando o movimento Setembro Negro abateu 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, a primeira-ministra Golda Meir jurou vingança e todos os membros do comando acabaram por ser abatidos pelo mundo fora. Mas uma das operações foi um fiasco. O Mossad matou em Lillehamer, na Noruega, em 1973, Ahmed Buchiki, diante da sua companheira grávida, porque o confundiu com Ali Hassan Salameh, líder do Setembro Negro. Este facto abalou um pouco o Mossad, até porque os agentes israelitas foram presos pela polícia norueguesa.

Em 1978, Wadie Haddad (Abu Hani) morreu em grande sofrimento em Berlim-Leste. Líder da Frente Popular de Libertação da Palestina, fora ele que ordenara, em 1976, o desvio para Entebbe de um avião da Air France ligando Tell-Aviv a Paris. Foi morto graças a uma arma indetectável, conforme relatório da autópsia transmitido à Stasi, não tendo sido descoberta a substância que poderá ter causado a sua morte. Verificou-se depois que o Mossad tinha introduzido um dos seus agentes na comitiva de Abu Hani, que lhe trocara o tubo de pasta dentífrica por um outro de aparência idêntica mas contendo uma toxina mortal fabricada nos laboratórios israelitas. Cada dia que Haddad lavava os dentes ia-se envenenando lentamente.

Um outro homicídio espectacular, preparado pelo Mossad com a ajuda da CIA, foi o de Imad Moughnieh, libanês, dirigente do aparelho militar do Hizzbullah, que organizara os ataques de 1983 em Beirute contra o Quartel-General americano, o Quartel-General francês e a embaixada dos EUA.  E também os atentados anti-israelitas de Buenos Aires em 1992 e 1994. Tornara-se um homem a abater pelos serviços secretos israelitas, franceses e americanos. Estando Moughnieh em Damasco, o Mossad, com a ajuda da CIA (aval de Bush pai) colocou um explosivo indetectável (entrado clandestinamente na Síria pela mão dos americanos) na parte de trás da sua viatura, numa zona normalmente não revistada pelos seus guarda-costas. Em 12 de Fevereiro de 2008, quando entrou no carro, Moughnieh explodiu, num dos locais mais bem guardados do país. Um triunfo para o Mossad e uma humilhação para os sírios.

As páginas seguintes da revista são dedicadas ao affaire Sergueï Skripal, que todos conhecemos, permanecendo a dúvida se a ordem foi emanada do Kremlin ou não, já que não é hábito agentes de um serviço atacarem ex-colegas, já retirados da actividade de espionagem. Kripal era um agente russo ao serviço (duplo) do MI5 britânico. Pode ter acontecido que, violando as regras do jogo, Kripal tenha prosseguido a sua actividade, agora sediado no Reino Unido, e isso tenha sido intolerável para o FSB (sucessor do KGB) que resolveu punir de forma evidente, e simultaneamente, o MI5 e Kripal, actuando em solo britânico mas não utilizando arma dissimulada, antes a utilização de um produto não mortal. Assim sendo, terá sido um golpe de mestre, e um aviso para dissuadir aventuras futuras de eventuais traidores.

Sobre a França, relata o jornalista que as operações "homo" começaram no país, de maneira profissional, aquando da guerra da Argélia. É então que o SDECE (antigo serviço de contra-espionagem) estrutura um Serviço Acção, que vai utilizar militares clandestinos, reservistas ou homens contratados pontualmente, para eliminar os inimigos da República. As suas operações mataram centenas de pessoas. Inicialmente, as regras eram não intervir em França, não matar cidadãos franceses e não deixar rasto. Mas tudo evoluiu. Em 1959 foi assassinado em Paris o advogado argelino Ould Aoudia. No fim da guerra da Argélia o feitiço voltou-se contra o feiticeiro, e vários membros do SDECE tentaram mesmo assassinar o general De Gaulle. Durante a V República, apenas Chirac se opôs a esta prática: raptar, sim, mas matar, não. Mas De Gaulle e Giscard autorizaram os homicídios e Mitterrand, que teoricamente se opunha, tudo permitia com a conhecida "ambiguidade mitterrandiana". Com Sarkozy, idem e Hollande viria mesmo a declarar em entrevista publicada recentemente em livro (Un président ne devrait pas dire ça...), que autorizara pessoalmente vários assassinatos. Segundo o articulista, Macron segue a mesma linha de Hollande, ainda com mais dureza, já que não tem estados de alma e não hesita em empregar qualquer tipo de forças, sejam clandestinas ou não. É isto a política da V República e a Justiça, dado o tipo de operações, nada pode fazer. As represálias sistemáticas, estejam os inimigos onde estiverem, é uma coisa que hoje se pratica às claras e se assume já politicamente.

A CIA actua também livremente através do Special Activities Center (SAC), capturando ou assassinando em qualquer parte os inimigos dos Estados Unidos. Foram os homens do SAC que capturaram Saddam Hussein, que neutralizaram numerosos líderes da Al-Qaida no Iraque e que localizaram e assassinaram Ben Laden (com cobertura televisiva em directo para a Casa Branca). Passaram agora a utilizar drones com autorização de George W. Bush e Barack Obama. O novo presidente, Trump, interessou-se bastante pelos drones e declarou que, para vencer os terroristas "é preciso eliminar as suas famílias".

Não permite o tempo, e o espaço, determo-nos mais demoradamente sobre a actividade dos espiões assassinos, mas os interessados poderão sempre adquirir a revista e ler, na íntegra, este curioso trabalho de investigação.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

A NOVA DESORDEM MUNDIAL





Na impossibilidade da transcrição online, e pelo seu grande interesse, publico as páginas de "L'OBS" (nº 2797 - 14 a 20/6/2018) contendo a entrevista de Marie Lemonnier ao politólogo e especialista das religiões, Olivier Roy, professor do Instituto Universitário Europeu de Florença.


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Uma entrevista de excepcional lucidez que procura derramar luz sobre o obscuro mundo em que vivemos.


GENET EM EXPOSIÇÃO



Uma exposição sobre Jean Genet (1910-1986) no Fort Saint-Jean, em Marselha - Jean Genet et la Méditerranée -  organizada pelo Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée (MuCEM) e pelo Institut Mémoires de l’édition contemporaine (IMEC), em 2016, está na origem do recém-publicado livro Apparitions de Jean Genet, de Emmanuelle Lambert.

Segundo os organizadores, « L’exposition cherche à faire comprendre comment la Méditerranée, avec ses appels au voyage et à la liberté, avec la diversité de ses cultures, avec les rencontres qu’elle a suscitées à plusieurs moments de sa vie… constitue un pôle magnétique du parcours littéraire de Jean Genet, auquel il revient obstinément. Elle a pour ambition de montrer comment la Méditerranée représente pour lui une « échappée belle ». Articulée autour de quatre thèmes dont chacun fait se croiser un moment de sa vie, une de ses oeuvres et un territoire méditerranéen (Le Journal du voleur – L’Espagne ; Les Paravents – L’Algérie ; Un captif amoureux – La Palestine ; la fin de sa vie au Maroc), l’exposition rassemble également des oeuvres qui témoignent de la sensibilité de Jean Genet, de ses rencontres avec les artistes plasticiens (notamment Alberto Giacometti) et avec le monde des arts du spectacle (évocation de la figure du Funambule).



A exposição foi comissariada por Albert Dichy, director literário do IMEC e um dos grandes especialistas da vida e obra de Genet e por Emmanuelle Lambert, escritora, organizadora do catálogo (que à época não consegui adquirir) e autora do presente livro.

Num récit de 110 páginas, Lambert conta a sua paixão pela obra deste "escritor maldito" do século passado e o convite que lhe endereçaram para participar na aventura que foi a obtenção da vasta documentação, muitas das peças inéditas, que permitiu organizar um itinerário de Genet, do seu nascimento à sua morte. As consultas dos arquivos e dos ficheiros, nomeadamente instituições sociais, polícia, exército, etc., foi tarefa complexa mas era certamente indispensável, ainda que muita informação constasse já de duas das obras fundamentais sobre o sulfuroso escritor: Jean Genet - Essai de chronologie, de Albert Dichy & Pascal Fouché e Jean Genet, de Edmund White.


Analisando as cartas da mãe de Jean Genet dirigidas ao director da Assistência, Lambert recolhe um curioso pormenor: na terceira e última carta da mãe, Camille Genet, esta pede notícias de Jean "et de son frère Frédéric", um irmão (?) que não consta de quaisquer ficheiros da administração. Talvez essa dúvida sobre a existência de um outro filho tivesse impedido a consulta do dossier Genet muito para lá dos prazos legais estabelecidos. (p. 29)

O livro de Lambert está semeado de pequenas curiosidades obtidas no seu trabalho de pesquisa do material para a exposição. Mas, no geral, todos conhecemos já o percurso de Genet, até nos mais ínfimos pormenores, graças às investigações prosseguidas após a sua morte.

A obra em apreço vem juntar-se à imensa bibliografia passiva de Jean Genet. Desde o livro de Sartre, Saint Genet, Comédien et Martyr, até hoje, a vida e a obra de Genet têm sido dissecadas, mas surgem sempre novos factos, novas interpretações, como se o homem sepultado em Larache permanentemente nos desafie a compreendê-lo nas contradições de que foi, e é, o protagonista.


domingo, 24 de junho de 2018

A IRRESISTÍVEL ASCENSÃO DE EMMANUEL MACRON




Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron (n. 21.12.1977) foi eleito presidente da República Francesa em 7 de Maio de 2017, com 66,10 % dos votos expressos contra 33,90 % a favor de Marine Le Pen. O escrutínio registou 11,52 % de votos brancos ou nulos e a taxa de abstenção foi de 25,44 %. Isto é, em  47 568 693 cidadãos eleitores, Macron apenas obteve 20 743 128 votos, o que significa que tão só 43 % dos franceses o elegeram para a chefia do Estado, menos de metade dos eleitores inscritos.

Tendo sido membro do Partido Socialista e ministro da Economia no governo de Manuel Valls, sob a presidência de François Hollande, abandonou o Governo em 2016 (já se tinha demitido do partido) para fundar o seu próprio partido, La République en Marche, e preparar a sua candidatura à presidência em 2017.

Antes da experiência governamental, Macron foi inspector de Finanças e depois, protegido pelo influente conselheiro de Mitterrand, Sarkozy e Hollande, o economista judeu Jacques Attali, tornou-se sócio do Banco Rothschild em França, tendo recebido entre 2009 e 2013, a quantia de 3,3 milhões de euros.

Habitado por um narcisismo doentio, possuído por uma ambição desmedida, cínico quanto baste, exibicionista e megalómano, meticuloso na programação da sua carreira, a falta de comparência de candidatos credíveis dos partidos tradicionais possibilitou-lhe alcandorar-se à chefia do Estado.

Profundamente calculista, simulou aos 15 anos uma paixão pela sua professora Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha, casada e com três filhos mais velhos do que ele, com quem passou a viver depois dos 18 anos e com quem viria a casar em 2007, após o divórcio desta. Criou assim um primeiro caso de notoriedade que serviu para alimentar a lenda de menino-prodígio, aliada a outra, também afincadamente trabalhada, de que é um espírito brilhante. Daí a tão propagada notícia de que foi "colaborador" do falecido filósofo Paul Ricoeur.

Declarando após a eleição que não seria Júpiter, como se alguém o pudesse alguma vez tomar pelo pai dos deuses, passou a governar a França despoticamente (mas não iluminadamente), quiçá convencido que é mais importante do que Luís XIV ou Napoleão Bonaparte. Todavia, para mal dos franceses, o rei vai nu.

Julgo que Emmanuel Macron anseia pelo seu 18 de Brumário, que Marx descreveu como farsa a propósito de Luís Bonaparte. Não creio que o mesmo evento tenha lugar três vezes na História. E se tivesse, como o classificaria o velho filósofo de Tréveris?

Seguindo as instruções dos mestres que o apoiaram na sua aventura para a Presidência, Macron, destituído de quaisquer princípios, usando uma falsa espontaneidade, desprovido de escrúpulos, vai progressivamente liquidando o que resta do edifício do Estado francês, a favor do ultraliberalismo destruidor da economia da nação. Um seu antigo colega de Governo, em livro já publicado, afirmou que Macron tem um algoritmo no lugar do coração.



Como escreve Mathieu Morel, no site "Vu du Droit", do advogado Régis de Castelnau, a propósito de Macron, ESTE HOMEM SERÁ CAPAZ DE ABSOLUTAMENTE TUDO, SEM QUALQUER LIMITE.

Com a devida vénia, transcrevemos as palavras de Morel:


Macron : Jupitre est-il dangereux ?

 
«Le roi possédait un miroir magique, don d’une fée, qui répondait à toutes les questions. Chaque matin, tandis que le roi se coiffait, il lui demandait :
– Miroir, miroir en bois d’ébène, dis-moi, dis-moi que je suis le plus beau. Et, invariablement, le miroir répondait :
– En cherchant à la ronde, dans tout le vaste monde, on ne trouve pas plus beau que toi. »
Une fois de plus, on aurait tort de ne voir, dans les outrances répétées – et de plus en plus sidérantes – que nous sert frénétiquement notre distingué Jupitre Überschtroumpführer, que de bénignes maladresses, des erreurs de communication ou même un anodin excès de confiance qu’il suffirait de mettre sur le compte de son ardeur juvénile et « disruptive ».

On aurait tort également, sans doute, d’y déceler la fameuse preuve d’un esprit brillant, hors du commun, qu’on nous a copieusement vendu depuis son éclosion « miraculeuse », à grands renforts de feux d’artifice et de paillettes.

Ses insultes répétées, ses provocations grossières, ses initiatives ostensiblement débiles portent un message clair derrière cette fausse candeur faussement spontanée : « je suis votre chef, je fais ce que je veux, comme je veux, quand je veux et, pour commencer, je vous emmerde ». On pourrait évidemment, puisqu’on se targue d’être en démocratie, juger la méthode un peu culottée si on oubliait que, en bon élève des années « Mitterrand » (et lui-même « bébé Hollande/Attali »), ses provocations et initiatives visent également à repousser tous ses contempteurs, en bloc et sans la moindre espèce de nuance, dans les recoins forcément sombres de l’extrême-droite qui en rappelle d’ailleurs les heures, si l’on en croit l’adage éculé. Extrême-droite qu’en langage moderne, on aime qualifier plutôt de trucosphère ou autre machinosphère (ça sonne tellement plus « cool » et 2.0). Voilà plus de 30 ans que le camp du Bien se fabrique ainsi son adversaire favori, aussi inoffensif qu’efficace. Du moins jusqu’à la prochaine surprise funeste dont ils seront, une fois encore, les seuls responsables et les vierges les plus outragées (avant, une fois de plus, de retourner promptement leur veste).

Ce sire, au fond, est un parfait produit des années 80, une version aboutie – peut-être un peu tardive, c’est l’espoir qu’il nous reste – de l’Homme que ces 30 ou 40 dernières années ont tenté de fabriquer : une imposture, une illusion, un start-up-marabout, une uber-escroquerie. Le philosophe est un cuistre infantile, le « penseur » une machine à poncifs pompeux, le bâtisseur est un vandale, le centriste ouvert est un fanatique borné, l’esthète fin révèle un plouc fini, le « subversif dérangeant » n’est qu’un banal immature inconséquent, le démocrate est un mégalomane totalitaire, et le gendre idéal bienveillant un vicelard narcissique. On ne peut même pas dire qu’il sonne faux : il sonne creux, d’où qu’on toque.

Il ne lui reste plus qu’à compter sur l’effet de sidération que produisent ses pitreries scandaleuses pour – pendant que la plèbe s’offusque à bon droit de la mise à sac sauvage de tout le séculaire édifice sur lequel ce mal élevé s’est laissé hisser pour se goinfrer – engager mécaniquement toutes les liquidations que ses maîtres lui ont commandées.

Ce qu’il fera avec d’autant plus de zèle qu’il a été élu par dépit, vainqueur d’un concours de circonstances, rescapé d’une roulette russe tellement acrobatique qu’il est permis de se demander si le barillet était tout à fait réglementaire. Et soyons sûrs qu’il mènera l’entreprise de démolition bien plus loin que tous ses prédécesseurs puisque, absolument vain et dénué de tout ce qui ressemble à des principes, il est parfaitement polymorphe.

Ce roi nu, si prompt à rabrouer avec la violence puérile qui les caractérise les enfants qui le démasquent, n’est que le zélé valet, le reflet présomptueux d’une époque qui, poussant l’imposture et l’incohérence à des niveaux olympiques, a érigé en « valeurs fondamentales » l’exhibitionnisme pudibond et le puritanisme libertaire. Par son abyssale inconsistance, il est le parfait porte-voix – et le terrifiant porte-flingue – des opportunismes de ses maîtres insatiables. Et ce n’est que parce qu’il lui fallait une histoire, une légende, qu’on la lui a écrite, jusqu’à en faire le fils spirituel d’un philosophe dont il n’était, en réalité, qu’un marque-page. C’est le pion malléable sur lequel, faut-il croire, il était opportun de miser au bon moment. De diverses manières, quelques un(e)s ont su saisir leur chance et tirer le gros lot. Il ne faudrait pas en conclure pour autant qu’un tel individu ne présente qu’un danger « superficiel ». Au contraire.Mais ça n’est pas par son idéologie – quoi qu’on pense de celle à laquelle il s’est vendu – qu’il est dangereux. Il n’en a pas (ou plus exactement, il serait prêt à se vendre à toutes… c’est d’ailleurs ce qu’il fait, à certains égards).

C’est précisément par sa vacuité, pour elle, contre elle, à cause d’elle, ou un peu tout « en même temps », que cet homme sera capable d’absolument tout, sans aucune limite.


sexta-feira, 22 de junho de 2018

A TERRA E OS MORTOS





Foi publicado recentemente o texto do discurso de Maurice Barrès à Ligue de la Patrie française, em 10 de Março de 1899, com o título La Terre et les Morts, que evoca a palavra de ordem do escritor: "Les morts d'abord!"

Membro da Academia Francesa, Maurice Barrès (1862-1923), escritor e político, é considerado o pai do nacionalismo francês. Autor prolífico, devem-se-lhe nomeadamente três trilogias: Le culte du moi, uma exaltação do individualismo; Le Roman de l'énergie nationale e Les Bastions de l'Est. Em Les Déracinés, 1º volume do Roman de l'énergie nationale, disserta sobre as raízes, o amor à terra, a odisseia da sua Lorena natal e ataca a Alemanha imperial.

A sua trajectória ideológica evoluiu ao longo do tempo. Próximo de Charles Maurras, o fundador da Action française, mas republicano e não monárquico, colaborador de Gabriele d'Annunzio, anti-dreyfusard (contra Zola, que acusou de ser veneziano), mas penetrado por ideias socialistas, manteve-se sempre fiel às tradições, à família, ao exército, à terra e aos mortos. Depois da Primeira Guerra Mundial, mostrou-se favorável a uma reconciliação com a Alemanha. Naturalmente controverso, há que distinguir entre a obra literária e a acção política. Inspirador de várias gerações de escritores, como Henry de Montherlant, André Malraux, François Mauriac, Louis Aragon, ele foi uma referência nos meios tradicionalistas franceses, ao lado de Paul Bourget, René Bazin e Henry Bordeaux. Os protagonistas da nova escola monárquica, Jacques Bainville, Léon Daudet, Henri Massis, Jacques Maritain, Georges Bernanos, devem-lhe a inspiração.

Em 1928, foi inaugurado o monumento Barrès na colina de Sion (Moselle), que inspirou o seu romance La Colline inspirée, com a presença do presidente do Conselho, Raymond Poincaré e do marechal Lyautey.

A defesa da identidade nacional, sempre proclamada por Barrès, foi mesmo evocada em Metz, durante a campanha presidencial de 2007, pelo candidato Nicolas Sarkozy,

Quando morreu, em 4 de Dezembro de 1923, teve funerais nacionais em Notre-Dame de Paris, com a presença do presidente da República Alexandre Millerand, do presidente do Conselho, Raymond Poincaré e do marechal Foch.

O nome de Barrès foi ostracizado em França (e no mundo) nas últimas décadas, devido às suas posições ideológicas e políticas, consideradas de extrema-direita segundo a vulgata politicamente correcta. Analisando a sua vida e obra podemos constatar que tal preconceito se deve à ignorância. O seu percurso não encaixa realmente naquilo que se convencionou chamar de extrema-direita. As vidas não são lineares e o homem é sempre ele e a sua circunstância. Existe a obrigação de contextualizar antes e emitir os vereditos depois!


segunda-feira, 18 de junho de 2018

O RAPTO DE SÃO MARCOS




São Marcos (10 AC? - 65 DC?), discípulo de São Paulo, considerado como um dos quatro autores dos Evangelhos, foi, segundo a tradição, o primeiro bispo (ou patriarca, no caso vertente) de Alexandria, diocese de que foi fundador. É o santo mais importante da Igreja Copta, igualmente venerado por católicos e ortodoxos.

Catedral Copta de São Marcos (Alexandria)

O seu corpo foi sepultado na igreja (hoje a Catedral Patriarcal Copta) de Alexandria, mas em 828 os supostos restos mortais foram roubados por dois mercadores venezianos (Rustico da Torcello e Buono da Malamocco) e transportados para Veneza, a pedido do doge Giustiniano Participazio (Particiacus, em latim). Entendia o duque que, para contrariar a preponderância de Roma, que possuía as relíquias de São Pedro (e também de Aquileia e Ravenna), era necessário à República um símbolo poderoso, tanto mais que as relações de Constantinopla com Roma se tinham deteriorado e se caminhava a passos largos para o primeiro Cisma do Oriente. Para isso, nada melhor do que uma relíquia de São Marcos, que fora o evangelizador de Veneza.

Catedral Copta de São Marcos (Cairo)

Os dois venezianos e seus acompanhantes aproveitaram-se da confusão então reinante em Alexandria, já ocupada pelo Poder Califal, subornaram os guardiões do esqueleto e usaram de um estratagema para iludir os guardas "alfandegários" do porto de Alexandria: colocaram no cesto que continha a preciosa encomenda, cobrindo-a, pedaços de porcos recém-abatidos. Sendo o porco um animal impuro para os muçulmanos, o espectáculo dos animais mortos afugentou rapidamente os guardas e a mercadoria pôde passar sem mais vistorias para o barco que a aguardava no porto.

Saída do corpo de São Marcos de Alexandria (Mosaico na Basílica de Veneza)

Chegados os restos mortais a Veneza, foram depositados na capela do então palácio ducal de Rialto e depois transferidos para a igreja que a seguir se construiu e que é hoje a Basílica de São Marcos. Nestas coisas de relíquias sagradas deve manter-se sempre uma atitude prudente. Há santos cujas relíquias estão espalhadas por esse mundo fora, e o tráfico de relíquias foi comum durante séculos. Posso testemunhar, pessoalmente, que visitei na Basílica de Veneza o túmulo de são Marcos. Já tinha visitado, e voltei posteriormente a visitar, o relicário de São Marcos na Catedral Copta de Alexandria. E há também relíquias de São Marcos na Catedral Copta do Cairo (Abbassiyya), que visitei numa das minhas deslocações à capital egípcia. Todos estes bocados do santo (e porventura há mais) são independentes do presente concedido em 1968 ao papa Cirilo VI de Alexandria (os patriarcas de Alexandria usam o título de papa) pelo papa Paulo VI: um pequeno pedaço de osso de São Marcos que fora oferecido àquele pontífice pelo cardeal Giovanni Urbani, patriarca de Veneza.


Vem isto a propósito do livro que acabei de ler, Quand Dieu apprenait le dessin, um romance de Patrick Rambaud (n. 1946), publicado no princípio deste ano e supostamente sobre o mesmo tema. Mas quase nada do que escrevi vem lá. É Rambaud um escritor prolífico, autor de vasta e variada obra, galardoado com o Prémio Goncourt em 1997, também notabilizado pelas obras satíricas escritas sobre vários políticos, nomeadamente Nicolas Sarkozy e François Hollande.

Chegada do corpo de São Marcos a Veneza (Mosaico na Basílica de Veneza)

Foi o primeiro livro dele que li (e provavelmente o último). Esperava não propriamente um romance histórico, muito menos um ensaio, mas, pelo menos, uma ficção que incidisse directamente sobre o tema. Ora o que Rambaud nos propõe é um texto sobre costumes medievais, usando como pretexto o roubo dos restos mortais de São Marcos. Não se pode negar a ironia que perpassa ao longo das cerca de 300 páginas, mas os hábitos na corte de Luís, o Pio, soberano do Sacro Império Romano Germânico e filho de Carlos Magno e a vida na Alemanha da época, inseridos no roteiro da viagem dos venezianos e que ocupa a quase totalidade do livro, não justifica a publicitação do mesmo como tendo por tema o resgate do corpo do santo. É verdade que o título do livro remete para a capacidade de Deus para desenhar, recorrendo à designação da 6ª novela da 6ª jornada do Decameron, de Bocaccio, comparando essa inabilidade divina referida no conto com a inabilidade de Deus em desenhar a Veneza emergente no século IX, não comparável à delicadeza das posteriores pinturas de um Guardi ou de um Canaletto. Nesta perspectiva, a descrição dos venezianos e dos bárbaros que os assolavam não necessitava do episódio "São Marcos", mas foi essa a vontade do escritor.

Altar e Túmulo de São Marcos (Basílica de Veneza)

O humor característico de Rambaud está, todavia, presente ao longo do livro. Traduzo da página 50: «Em Bizâncio veneram-se os cueiros do Menino Jesus, a toalha de mesa da Última Ceia e a cana que deram como cetro a Jesus. Existe lá uma confusão de objectos piedosos, incluindo o pénis mumificado de Moisés, o cesto da Multiplicação dos Pães, o topo do crânio de João Baptista ou a esponja envinagrada com que os romanos molharam os lábios de Cristo quando ele pediu água. Afinal, dizia para si Rustico, os espartanos tinham conseguido recuperar o cadáver de Leónidas e os atenienses pretendiam deter os ossos de Teseu. Arron, rei dos Persas, oferecera o Santo Umbigo de Jesus a Carlos Magno, que por sua vez o deu ao papa Leão III. Mesmo em Rialto, no meia da laguna principal, no sítio do palácio ducal, os venezianos recolhem-se perante a relíquia de São Teodoro...».

Eu mesmo vi, há alguns anos, na capela de São Paulo, incrustada na muralha da Cidade Velha de Damasco, junto a Bab Kisan (Porta de Kisan), a réplica do cesto em que o santo foi descido para fugir da perseguição de que era alvo.

É pena que Rambaud não tenha abordado o tema de outra forma.