terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEIXEIRA GOMES




Está em exibição em alguns cinemas (muito poucos) o filme Zeus, de Paulo Filipe Monteiro. Trata-se de uma película sobre a vida (nomeadamente o seu exílio em Bougie) do escritor português Manuel Teixeira Gomes, que foi o sétimo presidente da República.


Esta revisitação de uma personagem tão rica, e também controversa, do Portugal contemporâneo é uma oportunidade rara de conhecer um dos homens mais singulares que ocuparam entre nós a chefia do Estado. O filme deveria ser projectado em todos os cinemas, mas certamente o público seria escasso, como escasso é nas poucas (e pequenas) salas onde é agora apresentado. Hoje, quase ninguém conhece Teixeira Gomes, quer como escritor, quer como presidente. Não admira. Ainda há dias, falando com moços de vinte anos, de uma razoável classe média, estes ignoravam quem fora Mário Soares!!! É isto o estado a que chegámos.


Não é agora o momento para me debruçar mais demoradamente sobre a figura de Teixeira Gomes. Fá-lo-ei quando tiver oportunidade, tanto mais que foi publicado muito recentemente um livro, Manuel Teixeira Gomes - Biografia (2016), de José Alberto Quaresma, grosso de mais de 600 páginas, que ainda não tive tempo para ler.


Apenas algumas notas.

Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão (1860), junto ao mar que tanto amava, filho de um comerciante de frutos secos, negócio que lhe valeu um razoável desafogo de vida. Estudou em Coimbra, viajou pela Europa, especialmente pelos países do Mediterrâneo, envolveu-se na política (republicano que era), foi ministro plenipotenciário em Londres, depois em Madrid, regressou ao posto de Londres, e chegou a ser vice-presidente da Sociedade das Nações. Em 6 de Agosto de 1923, é eleito presidente da República pelas duas Câmaras do Congresso. Os tempos que passou em Belém foram de agitação, intriga, confrontos, tentativas revolucionárias. Não conseguindo um apaziguamento nacional, afrontado pelos seus opositores, inclusive pelo teor da sua obra literária, que foi considerada (talvez não sem razão) sensualista, acusado de ser pederasta, no parlamento e na rua, Teixeira Gomes renunciou ao cargo em 10 de Dezembro de 1926, prevendo o advento da ditadura militar.

Um dos seus mais acérrimos adversários foi Cunha Leal, um catavento político, arauto dos bons costumes, defensor da "moral" da Primeira República, a mesma que em 1923 não hesitara em proibir a representação da peça Mar Alto, de António Ferro, por ultraje ao pudor!!!

Em 17 de Dezembro, deixando a sua casa da Gibalta, os seus livros, os seus papéis, as suas obras de arte, Teixeira Gomes embarcou no primeiro navio que saía de Lisboa, o "Zeus" (nome premonitório) com destino a Oran. Viaja depois pela Argélia, pela Tunísia, pela Itália, até se instalar definitivamente em Bougie (hoje, Bejaia), no quarto nº 13 do Hotel de L'Étoile, aonde virá a morrer em 18 de Outubro de 1941. Não mais voltaria a Portugal.

A par da sua actividade política e diplomática, Teixeira Gomes foi um escritor notável, autor de obras de referência na literatura portuguesa, como Agosto Azul, essa evocação do Algarve mediterrânico com gregas reminiscências ("Uma copejada de atum" é um texto de antologia), ou Maria Adelaide, o seu único romance, de características eminentemente autobiográficas.

Voltando ao filme, pode dizer-se que é uma obra conseguida, dispondo certamente de limitados recursos, mas reconstituindo o ambiente da época e fornecendo uma moldura adequada à personalidade do escritor-presidente. A maior parte da película é rodada na Argélia, utilizando parcos meios mas obtendo o resultado bastante para nos transmitir a imagem do homem apaixonado pela cultura clássica e pela civilização árabe, cultura e civilização em que floresceu a sensualidade que viria a ser mais tarde objecto de tabus e perseguições, como a história regista e a humanidade experimentaria ao longo dos séculos. Em plano de fundo, há uma discreta atmosfera homoerótica que Paulo Filipe Monteiro convoca e que está de acordo com o testemunho dos contemporâneos. Um filme que confirma os méritos do realizador e que assinala o regresso ao cinema de Sinde Filipe, grande actor português, que empresta ao protagonista os traços que nos permitem apreender Teixeira Gomes na sua real dimensão de homem, de intelectual e de estadista. No elenco, cumprindo devidamente o seu papel, alguns outros actores portugueses e vários actores e figurantes árabes, que conferem uma particular autenticidade a esta evocação que só peca por tardia.

Os restos mortais de Teixeira Gomes seriam trasladados para Portugal no contratorpedeiro "Dão", enviado por Salazar à Argélia, em 18 de Outubro de 1950, precisamente nove anos depois da sua morte, e sepultados no cemitério de Portimão.

São contraditórios os depoimentos sobre a orientação sexual de Teixeira Gomes. Embora nunca tendo casado, foi pai de duas filhas, oficialmente reconhecidas, e conhecem-se-lhe diversas aventuras femininas. Todavia, a exaltação nos seus escritos dos corpos dos rapazes, fazendo lembrar estátuas gregas, e alguns testemunhos coevos, permitem supor que o escritor não desdenhava o sexo masculino. Aliás, a violenta campanha de que foi alvo enquanto presidente assentava também na condenação de tais preferências sexuais.

O historiador Rui Ramos escreve: «No entanto, a insistência no tema [a homossexualidade] não pode ser explicada por mera inclinação pessoal. Outros escritores gozavam de sólida reputação de pederastas, e não era por isso que sentiam necessidade de elocubrações sobre o tema ou de se exporem. Estavam neste caso João Chagas, jornalista republicano e embaixador em Paris, Júlio Dantas, o presidente da Academia de [sic] Ciências, e Manuel Teixeira Gomes, o presidente da República - todos publicamente tidos por homossexuais convictos.» (História de Portugal, direcção de José Mattoso - Volume VI, p. 661 - 1994)

E o crítico Vasco Pulido Valente (VPV), com a sua proverbial acrimónia, escreveu no PÚBLICO (cito de cor porque não encontro de momento o recorte do jornal), «que tivemos um presidente da República pedófilo, Manuel Teixeira Gomes.»

Ainda o mesmo VPV escreveu no blogue "O Espectro": «O dr. Jorge Sampaio, antes de acabar o mandato, foi à Argélia prestar homenagem ao penúltimo Presidente da I República, Teixeira Gomes. Todos nós podemos, aliviadamente, repousar na certeza que o dr. Jorge Sampaio nunca leu os romances (em geral, autobiográficos) do escritor Teixeira Gomes. Mas mesmo um ingénuo devia perceber que a veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular. Em 1924, o norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de 11,12 anos, para como ele disse, lhes "colher as primícias". Costumes.» (5 de Março de 2006)

Permita-se-me uma referência particular. Desde miúdo, ia passar férias ao Algarve com os meus pais. Depois, mais crescidinho, talvez a partir dos vinte anos, comecei a ir sozinho ou com amigos. Não só nas férias, mas várias vezes ao ano, mercê de circunstâncias propícias. Inicialmente, como no tempo dos meus pais, a minha base era Portimão. Mais tarde, instalar-me-ia também em Armação de Pera e Albufeira, mas nunca esquecendo Portimão e a sua Praia da Rocha.

Nas minhas frequentes idas a Portimão, nos anos sessenta, conheci naturalmente alguns habitantes daquela acolhedora terra. Entre eles, um grupo em que pontificavam alguns cavalheiros, já na casa dos sessenta anos, que se reuniam todas as noites num dos muitos cafés que existiam na altura na simpática cidade. Se a memória não me falece, um deles era a Casa Inglesa, mas havia outros. Possivelmente, hoje todos destruídos em nome do turismo e do "progresso"!

Vem isto a propósito de conversas com esses cavalheiros - bem informados quanto aos costumes da sociedade algarvia - acerca de Teixeira Gomes, cuja importância na altura eu apenas superficialmente conhecia. Todos eles sabiam de "estórias" sobre Teixeira Gomes, referindo em particular os seus passeios noturnos na ponte, sobre o rio Arade, que liga Portimão à vizinha aldeia de Fegarrudo. Envolto numa capa preta, Teixeira Gomes encontrava muitas vezes, quase sempre, jovens solícitos, imbuídos dessa sensualidade mediterrânica dos tempos em que o Algarve era ainda o Al-Gharb.

Um destes sujeitos, o mais velho, já aposentado de uma Conservatória, ou das Finanças, não me recordo, ainda conhecera pessoalmente Teixeira Gomes, aquando das suas raras visitas a Portimão. Todos sabiam, porém, dos costumes do escritor-presidente, que não era objecto da mínima censura, sendo, pelo contrário, enaltecido pela sua independência de espírito e pelo seu apego às raízes magrebinas daquela província meridional de Portugal.

Nunca qualquer desses cavalheiros me referiu que Teixeira Gomes privasse com crianças, isto é, que fosse "pedófilo", na exclusiva acepção que a palavra deveria revestir, mas que foi, infelizmente, prostituída pela justiça e pela comunicação social.  Gostava, sim, de rapazes jovens e seria por isso um "pederasta", no sentido helénico da palavra que a História nos transmitiu.

Estes testemunhos  valem o que valem, lamento não tê-los então registado com pormenor, sendo-me agora impossível, decorrido mais de meio século, reconstituir detalhadamente aquilo que ouvi, e que era suposto ser do conhecimento geral das gentes de Portimão.

* * * * *

Em 1938, o jornalista Norberto Lopes entrevistou Teixeira Gomes em Bougie, tendo publicado O Exilado de Bougie - Perfil de Teixeira Gomes (1942)


Postal encontrado na edição encadernada de "O Exilado de Bougie", adquirida a um alfarrabista

Em 1946, Urbano Rodrigues publicou A Vida Romanesca de Teixeira Gomes.


Em 1950, Urbano Tavares Rodrigues publicou Manuel Teixeira-Gomes - Introdução ao estudo da sua obra.


Em 1961, David Mourão-Ferreira publicou Aspectos da Obra de M. Teixeira-Gomes.


Em 1982, Urbano Tavares Rodrigues publicou a sua dissertação de doutoramento: M. Teixeira Gomes - O Discurso do Desejo.


Ficarão para mais tarde algumas considerações sobre a obra literária de Manuel Teixeira Gomes, que urge revisitar.

Deixo uma pergunta. Quando, num passado recente, algumas inutilidades pátrias foram trasladadas para o Panteão Nacional, onde repousam chefes de Estado e escritores, porque não conceder essa honra ao único presidente da República verdadeiramente consagrado como escritor? Não sei se o mesmo apreciaria a convivência de muitos dos que o precederam, mas não me eximo a registar a sugestão.

sábado, 14 de janeiro de 2017

AINDA ERDOĞAN




A propósito da trajectória política de Recep Tayyip Erdoğan, já várias vezes evocada neste blogue, transcrevo, pelo seu interesse, o artigo de Chantal Verdeil, publicado no site OrientXXI, acerca do livro Erdoğan, nouveau Père de la Turquie ?, de Nicolas Cheviron e Jean-François Pérouse:



Erdogan, « nouveau père de la Turquie » ?

Une irrésistible ascension



Paru quelques mois avant la tentative de coup d’État et l’épuration toujours en cours qui l’a suivi, Erdoğan, nouveau Père de la Turquie ? de Nicolas Cheviron et Jean-François Pérouse permet d’inscrire ces évènements dans une perspective plus large, en éclairant le parcours de l’homme fort de la Turquie et les fractures qui divisent la société et la vie politique turques.


Il y a une fracture entre les héritiers d’Atatürk, « le père des Turcs » selon le surnom donné à Mustafa Kemal depuis 1934 et les partisans de Recep Tayyip Erdogan. Pourtant, les deux auteurs présentent ce dernier comme le « nouveau père de la Turquie », un qualificatif que ne renierait pas l’intéressé lui-même, qui inscrit son action dans la continuité de celle de son illustre prédécesseur. Mustapha Kemal avait œuvré pour que la Turquie accède à l’indépendance et à la modernité ; Erdogan lui aurait fait retrouver « son essence et son esprit », avec un régime de fer, conservateur sur le plan des mœurs (valorisation de la femme comme gardienne de la famille), bien plus libéral au plan économique, et affichant sans complexe ses convictions religieuses (restriction à la vente d’alcool, autorisation du port du voile dans la fonction publique et les universités, développement des écoles d’imams et de prédicateurs…). Dirigeant autoritaire d’une Turquie nouvelle que la longévité de son pouvoir a tout autant façonnée que révélée, telle est l’image qui se dégage de cette biographie solidement documentée et remarquablement équilibrée.

Pour présenter cette figure qui domine la vie politique turque depuis plus de vingt ans, les deux auteurs ont adopté un plan chronologique, évoquant successivement la « formation », l’« ascension », la « métamorphose », la « consolidation » puis enfin le « vertige » : parvenu au sommet du pouvoir, Recep Tayyip Erdogan dirige une Turquie au bord du gouffre, gagnée par la violence terroriste, entretenue par ses dissensions internes entre partisans et opposants du Parti de la justice et du développemente (AKP), entre Kurdes et Turcs… et le conflit syrien. Depuis une dizaine d’années, il s’est engagé dans un de bras de fer contre tous ceux qui pourraient contester son pouvoir : procès qui permettent d’épurer la magistrature ou l’armée, répression des manifestations comme le mouvement de Gezi, intimidation des journalistes et censure d’organes de presse. L’épuration, qui touche les différents corps de la fonction publique turque prolonge — avec une tout autre ampleur il est vrai — une politique menée depuis des mois, voire des années. Elle est soutenue par une large partie de la population qui est descendue dans les rues à l’appel du président menacé, et qui vote massivement en sa faveur. Ce sont ces succès électoraux répétés qui ont permis à Erdogan et à ses partisans d’occuper les différents rouages du pouvoir turc d’où ils peuvent désormais mener la répression.

L’expérience islamiste


Le livre s’intéresse d’abord aux premiers pas en politique de Recep Tayyip Erdogan au sein de l’Union nationale des étudiants turcs (MTTB). Cette vieille institution de la droite turque dont la création remonte à 1916, farouchement anticommuniste, se lie dans les années 1960 à la Ligue islamique mondiale et promeut alors le retour à des valeurs morales, religieuses et nationales. Dans les années 1970, elle forme bien des militants d’une « mouvance conservatrice en quête de revanche » sur le kémalisme, dont Recep Tayyip Erdogan.

Né en 1954, Erdogan est issu d’un milieu modeste. Son père, récemment immigré du Rize — une région de la mer Noire — à Istanbul travaille comme capitaine d’un bateau sur le Bosphore. Footballeur au sein de l’équipe de la Régie de l’électricité, des tramways et des funiculaires d’Istanbul, Recep Tayyip Erdogan fait ses premiers pas de militant au MTTB et y rencontre bon nombre de ses futurs compagnons de route, dont Abdullah Gül et Ahmet Davutoglu. Son ascension est inséparable de celle de l’islam politique en Turquie dont le « père », Necmettin Erbakan, fonde successivement le Parti de l’ordre national (MNP) en 1970, interdit après le coup d’État de septembre 1980 qui épargne relativement la mouvance religieuse, puis le Parti de la prospérité (Refah Partisi) en 1983. Ce dernier promeut un « ordre juste » (adil düzen), fondé sur la libre initiative et le soutien aux plus démunis dans un esprit paternaliste et charitable. Contre un capitalisme jugé « esclavagiste », il exalte l’être humain, la justice et le droit divin, celui qu’invoquent les « opprimés » au plan religieux par la laïcité kémaliste.

Si Recep Tayyip Erdogan ne fait pas partie des membres fondateurs du Parti de la prospérité, il y adhère et devient très vite un de ses cadres pour la région d’Istanbul. Les campagnes électorales qu’il y mène lui offrent l’occasion d’imprimer sa marque. Recep Tayyip Erdogan n’hésite pas à faire appel à des femmes militantes, voilées ou non, pour mieux conquérir les électeurs au-delà des cercles religieux conservateurs. En 1994, son activisme paie : il est élu à la mairie d’Istanbul, une ville qui accueille à l’époque 350 000 migrants chaque année, nécessitant la construction de 80 000 logements, 50 écoles primaires, 16 collèges, 6 lycées (selon un rapport publié par la mairie, cité p. 147).

Necmettin Erbakan est quant à lui nommé premier ministre en juillet 1996. Mais le 28 février 1997, le Conseil de la sécurité nationale met fin à l’expérience islamiste. Le Parti de la prospérité est contraint de céder aux exigences de l’armée et de la magistrature. Il est supprimé en 1998, et Recep Tayyip Erdogan, accusé d’avoir tenu des propos antikémalistes, envoyé en prison. Sa courte détention est l’occasion d’une « métamorphose ». Il rompt avec son « maître » Erbakan, et fonde le Parti de la justice et du développement (AKP), qui sera sa machine de guerre pour atteindre le sommet du pouvoir.

Une corruption généralisée


La classe politique est alors complètement discréditée : le séisme d’octobre 1999, qui a fait près de 20 000 morts a mis en lumière des vices de construction synonymes de corruption généralisée. L’instabilité politique a des conséquences dramatiques sur l’économie : dévaluation de la monnaie, forte inflation, rebond du chômage qui dépasse 10 % de la population active en 2002. Aux élections générales de novembre 2002, le nouveau parti rafle plus de 34 % des suffrages. Recep Tayyip Erdogan devient premier ministre de Turquie le 14 mars 2003, poste qu’il va mettre à profit pour consolider son pouvoir en réduisant l’opposition laïque héritière du kémalisme, en attaquant successivement ses différents bastions que sont l’armée et la haute magistrature.

Après quelques années d’ouverture démocratique (2003-2007) qui coïncident avec de nouvelles démarches en faveur de l’entrée de la Turquie dans l’Union européenne, l’heure est à la « confrontation » (2007) à coup de grands procès ( Ergenekon)1, tandis que les victoires électorales de l’AKP lui permettent d’occuper tous les hauts postes de l’État. Recep Tayyip Erdogan acquiert une stature internationale, proche un moment de Silvio Berlusconi et de Vladimir Poutine, artisan avec Ahmet Davutoglu d’une politique « néo-ottomane » tournée vers l’Asie centrale et le Proche-Orient, héraut de la cause palestinienne dans le monde arabe après l’attaque de la flotille destinée à briser le blocus de Gaza en mai 2010.

Proche des milieux d’affaires dont plusieurs figures ont financé les études de ses enfants en Occident selon une pratique courante de la haute bourgeoisie turque, il met en scène son ascension lors des somptueuses cérémonies de mariage (plusieurs milliers d’invités) qui scellent des alliances avec cette même classe d’entrepreneurs.

D’autres transformations moins visibles sont pointées du doigt par les auteurs dans une conclusion remarquablement équilibrée. Les identités secondaires se manifestent davantage, l’Assemblée compte désormais trois députés d’origine arménienne et une chaîne publique en kurde a été lancée. Avec les Kurdes, Recep Tayyip Erdogan a oscillé entre l’ouverture au nom d’une commune appartenance à l’islam sunnite et la répression au nom d’un nationalisme étroit.

Le temps du raidissement


Le début des années 2010 est pourtant moins favorable à Recep Tayyip Erdogan : les révolutions arabes mettent à bas sa politique « néo-ottomane ». Il rompt avec Bachar Al-Assad, puis avec l’Égypte reprise en main par les militaires. Son régime est accusé de complaisance avec les djihadistes, et doit faire face à de nouvelles oppositions : celle de la confrérie de Fethullah Gülen dont il a longtemps été un allié et celle qui s’est cristallisée autour de la défense du parc de Gezi à Istanbul. La seconde est sévèrement réprimée, la première réduite par une épuration de corps d’État particulièrement « infiltrés » (magistrature, police) tandis que ses médias sont muselés. Ce raidissement est perceptible jusqu’à ces derniers mois, comme en témoignent les menaces qui planent sur le monde universitaire, les milliers d’arrestations et d’emprisonnement arbitraires d’opposants, et plus généralement l’effrayant recul des droits humains. La démocratisation espérée au début des années 2000 paraît bien loin.

En août 2014, Erdogan est élu président de la Turquie avec des pouvoirs très étendus. En juillet 2016, un coup d’État fait vaciller son pouvoir pendant quelques heures. L’énorme épuration en cours dans tous les corps de l’État ne devrait que le consolider et faire de lui le « père » d’une société profondément bouleversée.

 NDLR. Les «  procès Ergenekon  » désignent un ensemble de seize procès monstres, débutés en 2008 contre un réseau composé de militaires et civils accusés de former un État parallèle. Le procès Balyoz, en 2010, concerne des militaires accusés de fomenter un coup d’État contre le gouvernement AKP. Les procès KCK se déroulent à l’encontre des journalistes, avocats et élus politiques du KCK accusés d’être le paravent civil du PKK.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

LIBERDADE, IGUALDADE, DELITO DE SOLIDARIEDADE



(Clique na imagem para aumentar)

Pelo seu interesse, e  não estando disponível online, publicamos a crónica de Raphaël Glucksmann na página de "L'OBS" (nº 2723, de 12 a 18 de Janeiro 2017) :

Um Estado que entrega a Legião de Honra a um príncipe wahhabita, a um autocrata russo ou a Isabelle Balkany e envia a julgamento Cédric Herrou, camponês do Vale da Roya porque veio ajudar os migrantes, é verdadeiramente «republicano»? Pode falar-se de «modelo social» quando «coabitam» 2 800 000 habitações vazias e 140 000 sem abrigo?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES POR JEAN DANIEL





No nº 2723 de "L'OBS" (12 a 18 de Janeiro 2017), Jean Daniel evoca Mário Soares:

Notre ami Mário Soares 

Peu de lecteurs et même d’amis peuvent se douter des liens qui nous unissaient avec Mario Soares, le chef de l’Etat portugais qui vient de nous quitter. Un moment donné, nos locaux étaient rue des Pyramides, il arrivait que l’ambassade du Portugal adresse chez nous certaines personnalités intéressées par cette «trop chère Révolution des œillets». Déjà, le titre était à la fois un vers de Sully Prudhomme et de Verlaine. Evidemment, nous étions en 1974, dans la nostalgie et le regret, et nous avons cru voir revenir Mai-68. Entre-temps, on s’était habitué à voir régner Salazar au Portugal comme Franco en Espagne sans apercevoir les signes d’une impatience insurrectionnelle. Le Portugal avait alors avec la France une situation coloniale commune. La guerre d’Algérie n’était pas terminée lorsque les Portugais régnaient en Angola, au Mozambique et en Guinée-Bissau. Les chroniqueurs du colonialisme français étaient très attentivement suivis par les militaires des colonisateurs portugais.

 Un sourire large et accueillant 

 Mais revenons au cher Mario, dont la disparition met notre journal véritablement en deuil. Tous les journalistes voyageurs ou aventuriers ont l’occasion de croiser des fortes personnalités, des hommes hors du commun, mais pas souvent des chefs d’Etat qui défient la postérité. 

Lorsque j’ai rencontré Mario Soares, il était en exil en France entre deux séjours en prison dans les colonies. 

 Je ne savais rien de lui. Et puis je l’ai revu lorsqu’il est revenu pour sa Révolution des œillets. Ce fut un coup de foudre, le seul peut-être que j’aie eu avec un homme d’Etat. Comme si nous avions été intimes auparavant, il savait tout sur moi. Je savais peu de choses sur lui. J’avais quelques années de plus que lui et il me traitait en aîné, ce qui m’intimidait. Et puis, au fur et à mesure des événements se sont succédé, il m’a impressionné. Il ressemblait à un personnage de Simenon, comme un "Français radical-socialiste" avant que l’on dise « social-démocrate ». Il avait un sourire large, accueillant, et capable soudain de se crisper, surtout quand il était question des communistes ou des extrémistes. Il avait comme rival une personnalité remarquable, Alvaro Cunhal, d’une grande allure, d’une grande beauté, autorité implacable. Claude Roy, le grand romancier, notre collaborateur, l’admirait, et Mario s’en impatientait. 

Socialistes et communistes 

 J’ai mille choses à raconter sur mon ami Mario. Une seule aujourd’hui, car elle n’est pas tellement reconnue. C’était à l’époque où les communistes et tous les groupes extrémistes de frondeurs, de casseurs, de révoltés donnaient à la révolution sa jeunesse, sa gaîté, son idéal. Ailleurs, en Europe, ils avaient des solidarités multiples, notamment en Allemagne, en Italie, mais aussi en Espagne. Les communistes portugais ont commencé à collaborer d’une manière organisée avec les Russes qui ne cessaient d’observer la faiblesse croissante des révolutionnaires et qui avaient infiltré plusieurs régions militaires. Après un voyage inattendu, Henri Kissinger fit un rapport : selon lui, le Portugal était déjà perdu pour l’Occident, car les Russes, eux, n’avaient pas perdu de temps. Les réactions américaines n’ont pas été immédiates. En revanche, le conflit recommençait entre Portugais.  

Au journal, nous étions très attentifs et préparés à nous inquiéter. Nous avions des amis partout, qui d’ailleurs n’étaient pas d’accord entre. Il reste que, une nuit d’émeute, un colonel que nous allions souvent visiter et qui a fini bien plus tard comme ambassadeur à l’Unesco, m’a dit que je pourrais rendre service à mon ami Mario Soares. C’était le colonel Melo Antunes (homonyme du romancier). Il me chargeait de faire comprendre qu’il ne fallait pas que mon "leader socialiste" prît des risques de passer la nuit soit à Lisbonne, soit même dans les environs. Un complot se préparait où les Russes n’étaient pas étrangers, et où se mêlaient à la fois les officiers extrémistes et les communistes. Je me suis acquitté de cette mission avec l’impression de participer à l’Histoire, sans me rendre compte qu’il s’agissait de son meilleur côté. 

Pendant ce temps-là, à Paris, il y avait autour de François Mitterrand des groupes de personnalités hostiles à Mario Soares parce qu’il était socialiste, et les autres farouches partisans pour la même raison. Cette querelle, bien dans la tradition socialiste, nous sépara Jean-Pierre Chevènement et moi. Il n’en est rien resté, sauf que les amis de Chevènement ont sincèrement cru qu’ils protégeaient la démocratie au Portugal. 

Un démocrate passionné 

Alors, voilà le mot, « démocratie », sur lequel je voulais insister et finir. Il est partout question des racines et de la philosophie de la démocratie. Les uns la disent déjà morte et les autres l’ont toujours cherchée. Personnellement, l’appellation de "démocrate" s’est toujours identifiée à Mario Soares. Parce qu’il était un passionné naturel de la liberté, parce que la fraternité était un don chez lui, et parce que l’égalité ne le conduisait pas à la violence. Nous aimions beaucoup Mario Soares, aujourd’hui nous l’aimons plus encore, car dans l’état où nous sommes c’est un miracle de rester un exemple. 

Jean Daniel
  
Nota: este texto transcrito do "site" não é exactamente igual ao publicado em papel na revista.

 

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES




Mário Soares morreu hoje em Lisboa, aos 92 anos de idade. O funeral terá honras de Estado.

Advogado, opositor do anterior Regime, homem de interesses culturais, fundador e secretário-geral do Partido Socialista, sucessivamente ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro e presidente da República, Mário Soares, figura incontornável da vida nacional, é a grande personalidade política da segunda metade do século XX português.

Como todos quantos se distinguem em qualquer actividade pública, Mário Soares suscitou profundas dedicações e foi alvo de persistentes ódios. Com as suas virtudes e os seus defeitos a ninguém deixou indiferente. Tomou decisões certas e erradas, mas o País deve-lhe inestimáveis serviços.

Não cabe aqui a biografia de Mário Soares (seria estulta pretensão), porque foi já muitas vezes escrita e os órgãos de comunicação social repetirão, até à exaustão, nos noticiários necrológicos, o essencial e o acidental da sua vida.

Importa todavia consignar o testemunho, que a História registará, das gerações mais antigas. Mário Soares (como muitos dos seus contemporâneos) acreditou num projecto de sociedade que propôs aos portugueses e estes maioritariamente sufragaram: a social-democracia. Acreditou e lutou por ele, não hesitando em alguns contorcionismos para o tornar viável. Os tempos eram propícios à criação dessa comunidade mais justa que os povos reclamavam e que permanece uma reivindicação dos nossos dias. Mas os ventos da história mudaram de rumo. A sociedade socialista, republicana e laica que tantas vezes invocou encontra-se hoje em adiantado estado de decomposição. Ao saudar a queda do Muro de Berlim - e devemos combater todos os muros de separação - e o subsequente desmoronamento da União Soviética, Mário Soares não previu o advento do capitalismo financeiro internacional à escala global, a desregulamentação do sector financeiro promovida por Thatcher e Reagan, a flexibilização do trabalho, a privatização das empresas estatais, a instauração de um "pensamento único" económico que se convencionou chamar neo-liberal. Ainda lutou contra o "monoteísmo de mercado", mas um pequeno país como Portugal não se poderia opor a tão vastas e rápidas transformações, quando os grandes países de sólidas tradições sociais prontamente aquiesceram a tão súbitas e drásticas mudanças de padrão civilizacional.

Talvez, em alguns momentos, tenha transigido com a agressão do "progresso", mas no ocaso da vida teve a lucidez bastante para denunciar os perigos desta corrida à sacralização do dinheiro, como se este, tal bezerro de ouro dos tempos que vivemos, constituísse não um meio mas um fim.

Nesta hora de luto nacional, creio que os portugueses reconhecem, sem favor, a batalha que Mário Soares sempre travou em defesa da liberdade.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A VINGANÇA DE ATATÜRK



Mustafa Kemal Pasha, a quem a Grande Assembleia Nacional concedeu em 1934 o apelido de Atatürk (o Pai dos Turcos), proibindo o seu uso por qualquer outra pessoa, é o fundador da Turquia moderna,

Herói da guerra, político hábil, seguidor do Iluminismo, franco-maçon ocasional, muçulmano pouco convicto, Atatürk conseguiu, através de vitórias militares e manobras diplomáticas, preservar para a República da Turquia a Anatólia, uma porção de território na Europa (incluindo Istanbul), uma parte da Arménia e a região de Antakia (a  velha Antioquia, historicamente pertencendo à Síria). Sobre os escombros do Império Otomano, o "homem doente da Europa", no dizer de Nicolau I, Atatürk obteve,  no termo da Guerra da Independência, o reconhecimento dos limites actuais do país, contra a vontade dos Aliados que desejavam confinar o novo Estado a um território bem menor.

Os curdos, a quem fora prometido um estado autónomo pelo Tratado de Sèvres (1920) não lograram  ver as suas reivindicações contempladas pelo Tratado de Lausanne (1923), que definiu as fronteiras, o que originou sucessivas revoltas que duram até aos nossos dias. Aos arménios foi concedida uma área reduzida, a República da Arménia, que seria integrada na antiga União Soviética. A parte substancial da Arménia histórica foi incorporda como província do leste da Turquia, tendo os arménios sofrido uma violenta repressão nos finais do Império Otomano e advento da República, considerada pelos historiadores como o primeiro genocídio do século XX, mas que os turcos se recusam a reconhecer.

Não cabe numa dúzia de linhas evocar a obra de Atatürk. Refiram-se tão só alguns pontos. Para lá da consolidação da independência, ele promoveu a secularização do país. Deposto o sultão, abolido o califado, proclamado presidente da República, Atatürk empenhou-se em transformar a Turquia num estado laico. A começar pelos costumes. Foi proibido o uso do fez pelos homens e interditado o porte de véu pelas mulheres nos estabelecimentos públicos; eliminaram-se os títulos de cortesia (effendi, bey, pasha); adoptou-se a legislação civil e penal ocidental; e, tarefa ciclópica, o alfabeto árabe foi substituído pelo alfabeto latino (com ligeiras modificações) para utilização na língua turca. Também significativa a transferência da capital de Istanbul para Ankara, que fora a sede do contrapoder "revolucionário" ao governo dos últimos grão-vizires.

Importa salientar que estas medidas suscitaram profunda contestação e que Atatürk só conseguiu impô-las pelo seu prestígio pessoal, pela sua capacidade política, e também pela força, quando foi necessário utilizá-la.

À sua morte, em 1938, Atatürk tornara-se um símbolo nacional. A sua memória passou a ser venerada e a manutenção da sua herança política reivindicada pelas Forças Armadas que, para preservar o secularismo kemalista perante a emergência das tendências islâmicas que foram surgindo posteriormente, procederam a quatro golpes de Estado (1960, 1971, 1980 e 1997). No último, os militares não tomaram o poder, limitando-se a impor aos partidos condições de governação que garantissem a manutenção do Estado laico, já que a Turquia adoptara, a partir de 1945, o regime multipartidário.

Todavia, a situação alterou-se, progressivamente, com a criação do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdoğan, em 2001. Considerado como islamista moderado, o AKP venceu as eleições legislativas em 2002, 2007 e 2011, conduzindo Erdoğan à chefia do governo em 2003. Nas eleições presidenciais de 2014, Erdoğan, que fora prefeito de Istanbul de 1994 a 1998, ascendeu à chefia do Estado. Após a eleição do seu correligionário Abdullah Gül para a presidência da República, em 2007 (onde permaneceu até 2014), Erdoğan, como primeiro-ministro, começou suavemente uma política de islamização visando alterar o status quo secular. Ascendendo a presidente, pôde, com a conivência do seu primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu, prosseguir mais intensamente essa política de reversão do legado de Atatürk. Mas a sua ambição, aliás não oculta, de transformar o regime numa república presidencialista levou-o a um conflito com Davutoğlu, que resignou em Maio de 2016, sendo substituído por Binali Yıldırım. Todavia, a insuficiente presença do AKP na Assembleia Nacional não lhe permitiu ainda a alteração da Constituição.

Tendo como objectivo os "plenos poderes", o presidente Erdoğan tem desenvolvido uma actividade por vezes contraditória, nomeadamente na condução de uma errática política externa, com aproximações e recuos relativamente a Israel, à Rússia, aos Estados Unidos, à Síria (de Bashar Al-Assad), ao Irão, etc. No plano interno verifica-se o silenciamento da oposição, com a censura dos media, o saneamento da administração pública, a alteração da legislação laica kemalista e a decapitação das chefias das Forças Armadas, que têm assistido perplexas (e impotentes) à sua perda de influência.

A tentativa, abortada, de golpe de Estado em 15 de Julho de 2016, afigurou-se, à primeira vista, um golpe ensaiado pelo próprio Erdoğan para se desembaraçar definitivamente dos seus opositores. Contudo, foi por ele desde logo atribuída a Muhammet Fethullah Gülen, imam e homem político, fundador do movimento "Hizmet" (serviço), que fora até 2013 seu aliado e que Erdoğan acusa de estar por detrás das acusações de corrupção de que o presidente foi alvo. Gülen, que dispõe de uma poderosa rede de seguidores em todas as áreas da vida turca, exilou-se então nos Estados Unidos e nega hoje qualquer participação na intentona. Na sequência da tentativa de golpe, foram presas, demitidas, ou mesmo mortas centenas de milhares de pessoas, entre militares, professores, juízes, jornalistas, funcionários públicos, escritores e artistas, num processo depuratório de que não há memória. O golpe foi publicamente atribuído à rede de Gülen no aparelho de Estado e na sociedade civil, mas ainda hoje se desconhecem os contornos dessa tentativa, que poderia ter constituído para os turcos a oportunidade de se desembaraçarem de Erdoğan, mas acabou afinal por constituir para este a ocasião de se desfazer dos seus numerosos adversários políticos, que ainda os há, embora o regime se encaminhe a passos largos para uma versão totalitária.

A vaga de atentados na Turquia, com destaque para os mais recentes, configura a passagem à via terrorista de uma oposição incapaz de se opor aos projectos de Erdoğan. Como habitualmente, desconhecem-se as  motivações dos autores dos atentados, já que estes ou são sumariamente abatidos, ou se encontram em fuga. E os implicados na tentativa de golpe do ano passado ainda não foram julgados.  Uma parte dos ataques deve-se ao PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que não desistiu, em cem anos de história, de obter um Estado próprio. Mas nem todos são de sua autoria. É possível que o Daesh, que o presidente favoreceu e agora se vê, realpolitk oblige, forçado a combater, por causa do acordo com a Rússia, esteja na origem de alguns deles. Mas a lista pode, e deve, ser mais longa.

Lavra na Turquia um grande descontentamento com a islamização forçada promovida por Erdoğan. E com a sua desmedida ambição. O presidente procura percorrer, no sentido inverso, o caminho de Atatürk, quando impulsionou a secularização do país. E sonha com um aumento do território, uma espécie de restabelecimento do Império Otomano em dimensão menor, e com uma hegemonia espiritual da Turquia sunita em oposição ao Irão xiita e em prejuízo da Arábia Saudita e do Egipto, uma espécie de ressurreição do Califado. Só que os tempos são outros. Se Erdoğan e o seu partido, o AKP, têm obtido maiorias nas últimas eleições, isso deve-se principalmente à população rural da Anatólia, já que as grandes cidades estão hoje largamente secularizadas, a intelligentsia tem um peso inquestionável na vida do país e a juventude, largamente ocidentalizada, recusa-se, em geral, a aceitar um tipo de sociedade que não conheceu e na qual não se revê.

Um interessante livro foi publicado pouco antes da tentativa de golpe de Estado: Erdoğan, "nouveau Père de la Turquie"?, da autoria de Jean-François Pérouse, director do Institut Français d'Études Anatoliennes, na Turquia, e do jornalista Nicolas Cheviron. Nele se analisa com rigor a trajectória deste homem que dirige uma Turquia à beira do abismo, travando um braço de ferro com todos os que poderiam contestar o seu poder.

Mesmo o actual "entendimento" com a Rússia é precário, já que Putin apenas deseja neutralizar o apoio da Turquia aos opositores de Assad (Daesh incluído). E para Erdoğan o novo relacionamento com o Irão é certamente contra natura. Mas algumas cedências teve de fazer para se permitir continuar a luta contra os curdos.

Não é certo que esta carreira vertiginosa transforme Erdoğan num Atatürk "às avessas" e que Erdoğan possa morrer tranquilamente no seu palácio presidencial Ak Saray (Palácio Branco), de Ankara, como Atatürk morreu de morte natural no Palácio de Dolmabahçe, em Istanbul. Mas, como escreveu Karl Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, os grandes eventos repetem-se na História: primeiro ocorrem como tragédia, depois como farsa.

Ainda é cedo para avaliar se o novo "Pai da Pátria" conseguirá impor a sua vontade ao país inteiro e sobreviver ao clima de generalizada insegurança que se vive na Turquia ou se a fractura que originou na sociedade provocará a implosão do regime. Mas uma queda estrondosa de Erdoğan seria vista como a vingança póstuma de Atatürk!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A FRACTURA



 حبر العالم خير من دم الشهيد

 "A tinta do sábio é mais preciosa do que o sangue do mártir" (Hadith atribuído ao Profeta)

Gilles Kepel, islamólogo famoso, professor na École Normale Supérieure e em Sciences Po, autor de numerosas obras que modelaram o pensamento francês e mundial sobre o Islão, acabou de publicar La Fracture, onde considera que o Daesh operou uma "fractura" no ideal de "integração" dos filhos dos imigrantes pós-coloniais, fazendo cair uma suspeição terrível sobre a coesão sonhada da pátria.

Este livro reúne, precedidas de uma introdução, as crónicas do autor aos microfones de France Culture, entre o Verão de 2015 e o Verão de 2016, isto é, desde o ataque a "Charlie Hebdo" até ao atentado de Nice.

Ao longo das páginas deste livro, Gilles Kepel, eminente arabista e meu amigo, desenvolve o seu pensamento sobre as causas (e as consequências) do terrorismo dito islamista, debruçando-se sobre os actos praticados durante um annus horribilis. Desde então, não cessaram os actos visando "abalar as bases do Estado, apressar a decomposição da sociedade, desencorajar toda a gente e introduzir a desordem nos espíritos", para citar uma frase de Dostoyevsky, em Os Possessos, e cuja última ilustração foi o atentado no mercado de Natal de Berlim.

Profundo conhecedor do mundo islâmico, falando correctamente a língua árabe (literal e nas suas versões dialectais), Gilles Kepel investiga há mais de trinta anos esse mundo fascinante, e tive ocasião de fazer aqui em 2013 um comentário ao seu livro Passion arabe.

A evolução da situação no Mundo Árabe, nomeadamente após os ataques de 11 de Setembro de 2001, a invasão do Iraque, as "primaveras árabes", a guerra na Líbia e na Síria, e agora os atentados terroristas na Europa, tem levado os especialistas a uma reflexão sobre a relação dos muçulmanos com o Ocidente, já que nem todas as "certezas" que foram escritas podem ser dadas como adquiridas. Regressa a questão do "Orientalismo", tão bem equacionada por Edward Saïd e que suscitou larga controvérsia e contestação. Este é o momento da revisão de opiniões até aqui indiscutidas e indiscutíveis.

Também as teses de Gilles Kepel, figura incontroversa da islamologia, passaram a ser objecto de discórdia, ou porque o consagrado professor inflectiu a sua análise sobre os acontecimentos presentes, ou porque estes mudaram a própria natureza das coisas.

Confrontam-se hoje duas teorias principais: uma, sustentada por Kepel, a de que estamos a assistir a uma radicalização do islão; outra, que é defendida por Olivier Roy (também eminente islamólogo, professor e autor de cerca de trinta obras sobre o assunto), a de que estamos perante uma islamização do radicalismo. Como nesta área não há compartimentos estanques, nem um mundo a preto e branco, considero que os fenómenos se interpenetram, mas sou levado a privilegiar a tese de Olivier Roy. Não cabe aqui, evidentemente, explicar porquê: seria necessário revisitar a história do Ocidente, do Mundo Árabe e das suas relações mútuas durante, pelo menos, os últimos duzentos anos. Sobretudo nos últimos cinquenta anos.

Recomendo vivamente a leitura dos livros de Gilles Kepel, de Olivier Roy, e dos demais investigadores (e não apenas franceses) sobre tão premente problemática. Gostaria de ser optimista quanto ao futuro, mas não posso. Até porque, também eu, conheço alguma coisa da matéria.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O QUE É A VERDADE?



Anis Amri

O que é a verdade? Angústia filosófica sem resposta objectiva. Nem Platão, nem Santo Agostinho, nem Nietzsche encontraram conveniente definição. Mas até as evidências mais elementares surgem hoje comprometidas.

O presumível autor do ataque ao mercado de Natal, junto à (semi-destruída) igreja-memorial do imperador Guilherme, em Berlim, foi presumivelmente morto esta madrugada em Milão.

Segundo as primeiras informações divulgadas, teria deixado um documento de identificação no camião que originou a tragédia. Já se tornou um hábito os terroristas colocarem a sua identidade nos veículos com que cometem os atentados, talvez para facilitarem o trabalho das polícias! Discutiu-se depois se esse documento seria autêntico, uma vez que o suposto teria usado nomes diversos. Finalmente, foi o condutor reconhecido pelas impressões digitais detectadas, ao que parece, na roupa do motorista polaco do camião, o qual terá assassinado para se apoderar do veículo. O homem em questão era, pois, Anis Amri, um tunisino de 23 anos, já anteriormente preso pela prática de vários delitos.

De acordo com as mais recentes notícias, Anis Amri terá sido abatido esta madrugada, em Milão, numa operação policial de rotina, quando se deslocava na Praça 1º de Maio, a pé ou de carro, existindo as duas versões. Recusando identificar-se, terá disparado sobre um dos agentes, sendo morto de seguida. Ignora-se se a polícia o teria podido neutralizar, a fim de obter os convenientes esclarecimentos. E estranha-se que, encontrando-se toda a Europa em alerta, tenha conseguido chegar tranquilamente a Milão.

Já há quatro dias, o assassino do embaixador russo na Turquia foi convenientemente abatido, quando não alvejara mais ninguém além do diplomata.

O facto dos presumíveis autores dos atentados serem mortos in loco antes de julgamento suscita graves apreensões. É que importaria ouvi-los para esclarecimento dos seus actos e, especialmente, de quem os ordenou, já que não se afigura que tenham sido espontâneos e de iniciativa própria. Que me recorde, apenas Salah Abdeslam se encontra detido numa prisão francesa, indiciado pela organização dos ataques em Paris.

As notícias confusas e contraditórias que surgem sistematicamente nestes casos levantam a questão de saber o que está realmente a passar-se em matéria de terrorismo. Impõe-se o conhecimento da verdade, pelo menos da verdade possível, não bastando as reais ou pretensas reivindicações do Daesh. Tanto mais que a informação sobre os acontecimentos em Alepo tem motivado, nos últimos dias, as maiores controvérsias na comunicação social.

A forma como todos estes acontecimentos são relatados provocam no público uma pertinente desconfiança quanto ao que na realidade se verifica, alimentando a dúvida de que uma parte da verdade é sonegada e originando as mais variadas especulações. Seria bom que as autoridades, nomeadamente o poder político se encarregasse de um módico de verossimilhança.