terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEIXEIRA GOMES




Está em exibição em alguns cinemas (muito poucos) o filme Zeus, de Paulo Filipe Monteiro. Trata-se de uma película sobre a vida (nomeadamente o seu exílio em Bougie) do escritor português Manuel Teixeira Gomes, que foi o sétimo presidente da República.


Esta revisitação de uma personagem tão rica, e também controversa, do Portugal contemporâneo é uma oportunidade rara de conhecer um dos homens mais singulares que ocuparam entre nós a chefia do Estado. O filme deveria ser projectado em todos os cinemas, mas certamente o público seria escasso, como escasso é nas poucas (e pequenas) salas onde é agora apresentado. Hoje, quase ninguém conhece Teixeira Gomes, quer como escritor, quer como presidente. Não admira. Ainda há dias, falando com moços de vinte anos, de uma razoável classe média, estes ignoravam quem fora Mário Soares!!! É isto o estado a que chegámos.


Não é agora o momento para me debruçar mais demoradamente sobre a figura de Teixeira Gomes. Fá-lo-ei quando tiver oportunidade, tanto mais que foi publicado muito recentemente um livro, Manuel Teixeira Gomes - Biografia (2016), de José Alberto Quaresma, grosso de mais de 600 páginas, que ainda não tive tempo para ler.


Apenas algumas notas.

Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão (1860), junto ao mar que tanto amava, filho de um comerciante de frutos secos, negócio que lhe valeu um razoável desafogo de vida. Estudou em Coimbra, viajou pela Europa, especialmente pelos países do Mediterrâneo, envolveu-se na política (republicano que era), foi ministro plenipotenciário em Londres, depois em Madrid, regressou ao posto de Londres, e chegou a ser vice-presidente da Sociedade das Nações. Em 6 de Agosto de 1923, é eleito presidente da República pelas duas Câmaras do Congresso. Os tempos que passou em Belém foram de agitação, intriga, confrontos, tentativas revolucionárias. Não conseguindo um apaziguamento nacional, afrontado pelos seus opositores, inclusive pelo teor da sua obra literária, que foi considerada (talvez não sem razão) sensualista, acusado de ser pederasta, no parlamento e na rua, Teixeira Gomes renunciou ao cargo em 10 de Dezembro de 1926, prevendo o advento da ditadura militar.

Um dos seus mais acérrimos adversários foi Cunha Leal, um catavento político, arauto dos bons costumes, defensor da "moral" da Primeira República, a mesma que em 1923 não hesitara em proibir a representação da peça Mar Alto, de António Ferro, por ultraje ao pudor!!!

Em 17 de Dezembro, deixando a sua casa da Gibalta, os seus livros, os seus papéis, as suas obras de arte, Teixeira Gomes embarcou no primeiro navio que saía de Lisboa, o "Zeus" (nome premonitório) com destino a Oran. Viaja depois pela Argélia, pela Tunísia, pela Itália, até se instalar definitivamente em Bougie (hoje, Bejaia), no quarto nº 13 do Hotel de L'Étoile, aonde virá a morrer em 18 de Outubro de 1941. Não mais voltaria a Portugal.

A par da sua actividade política e diplomática, Teixeira Gomes foi um escritor notável, autor de obras de referência na literatura portuguesa, como Agosto Azul, essa evocação do Algarve mediterrânico com gregas reminiscências ("Uma copejada de atum" é um texto de antologia), ou Maria Adelaide, o seu único romance, de características eminentemente autobiográficas.

Voltando ao filme, pode dizer-se que é uma obra conseguida, dispondo certamente de limitados recursos, mas reconstituindo o ambiente da época e fornecendo uma moldura adequada à personalidade do escritor-presidente. A maior parte da película é rodada na Argélia, utilizando parcos meios mas obtendo o resultado bastante para nos transmitir a imagem do homem apaixonado pela cultura clássica e pela civilização árabe, cultura e civilização em que floresceu a sensualidade que viria a ser mais tarde objecto de tabus e perseguições, como a história regista e a humanidade experimentaria ao longo dos séculos. Em plano de fundo, há uma discreta atmosfera homoerótica que Paulo Filipe Monteiro convoca e que está de acordo com o testemunho dos contemporâneos. Um filme que confirma os méritos do realizador e que assinala o regresso ao cinema de Sinde Filipe, grande actor português, que empresta ao protagonista os traços que nos permitem apreender Teixeira Gomes na sua real dimensão de homem, de intelectual e de estadista. No elenco, cumprindo devidamente o seu papel, alguns outros actores portugueses e vários actores e figurantes árabes, que conferem uma particular autenticidade a esta evocação que só peca por tardia.

Os restos mortais de Teixeira Gomes seriam trasladados para Portugal no contratorpedeiro "Dão", enviado por Salazar à Argélia, em 18 de Outubro de 1950, precisamente nove anos depois da sua morte, e sepultados no cemitério de Portimão.

São contraditórios os depoimentos sobre a orientação sexual de Teixeira Gomes. Embora nunca tendo casado, foi pai de duas filhas, oficialmente reconhecidas, e conhecem-se-lhe diversas aventuras femininas. Todavia, a exaltação nos seus escritos dos corpos dos rapazes, fazendo lembrar estátuas gregas, e alguns testemunhos coevos, permitem supor que o escritor não desdenhava o sexo masculino. Aliás, a violenta campanha de que foi alvo enquanto presidente assentava também na condenação de tais preferências sexuais.

O historiador Rui Ramos escreve: «No entanto, a insistência no tema [a homossexualidade] não pode ser explicada por mera inclinação pessoal. Outros escritores gozavam de sólida reputação de pederastas, e não era por isso que sentiam necessidade de elocubrações sobre o tema ou de se exporem. Estavam neste caso João Chagas, jornalista republicano e embaixador em Paris, Júlio Dantas, o presidente da Academia de [sic] Ciências, e Manuel Teixeira Gomes, o presidente da República - todos publicamente tidos por homossexuais convictos.» (História de Portugal, direcção de José Mattoso - Volume VI, p. 661 - 1994)

E o crítico Vasco Pulido Valente (VPV), com a sua proverbial acrimónia, escreveu no PÚBLICO (cito de cor porque não encontro de momento o recorte do jornal), «que tivemos um presidente da República pedófilo, Manuel Teixeira Gomes.»

Ainda o mesmo VPV escreveu no blogue "O Espectro": «O dr. Jorge Sampaio, antes de acabar o mandato, foi à Argélia prestar homenagem ao penúltimo Presidente da I República, Teixeira Gomes. Todos nós podemos, aliviadamente, repousar na certeza que o dr. Jorge Sampaio nunca leu os romances (em geral, autobiográficos) do escritor Teixeira Gomes. Mas mesmo um ingénuo devia perceber que a veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular. Em 1924, o norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de 11,12 anos, para como ele disse, lhes "colher as primícias". Costumes.» (5 de Março de 2006)

Permita-se-me uma referência particular. Desde miúdo, ia passar férias ao Algarve com os meus pais. Depois, mais crescidinho, talvez a partir dos vinte anos, comecei a ir sozinho ou com amigos. Não só nas férias, mas várias vezes ao ano, mercê de circunstâncias propícias. Inicialmente, como no tempo dos meus pais, a minha base era Portimão. Mais tarde, instalar-me-ia também em Armação de Pera e Albufeira, mas nunca esquecendo Portimão e a sua Praia da Rocha.

Nas minhas frequentes idas a Portimão, nos anos sessenta, conheci naturalmente alguns habitantes daquela acolhedora terra. Entre eles, um grupo em que pontificavam alguns cavalheiros, já na casa dos sessenta anos, que se reuniam todas as noites num dos muitos cafés que existiam na altura na simpática cidade. Se a memória não me falece, um deles era a Casa Inglesa, mas havia outros. Possivelmente, hoje todos destruídos em nome do turismo e do "progresso"!

Vem isto a propósito de conversas com esses cavalheiros - bem informados quanto aos costumes da sociedade algarvia - acerca de Teixeira Gomes, cuja importância na altura eu apenas superficialmente conhecia. Todos eles sabiam de "estórias" sobre Teixeira Gomes, referindo em particular os seus passeios noturnos na ponte, sobre o rio Arade, que liga Portimão à vizinha aldeia de Fegarrudo. Envolto numa capa preta, Teixeira Gomes encontrava muitas vezes, quase sempre, jovens solícitos, imbuídos dessa sensualidade mediterrânica dos tempos em que o Algarve era ainda o Al-Gharb.

Um destes sujeitos, o mais velho, já aposentado de uma Conservatória, ou das Finanças, não me recordo, ainda conhecera pessoalmente Teixeira Gomes, aquando das suas raras visitas a Portimão. Todos sabiam, porém, dos costumes do escritor-presidente, que não era objecto da mínima censura, sendo, pelo contrário, enaltecido pela sua independência de espírito e pelo seu apego às raízes magrebinas daquela província meridional de Portugal.

Nunca qualquer desses cavalheiros me referiu que Teixeira Gomes privasse com crianças, isto é, que fosse "pedófilo", na exclusiva acepção que a palavra deveria revestir, mas que foi, infelizmente, prostituída pela justiça e pela comunicação social.  Gostava, sim, de rapazes jovens e seria por isso um "pederasta", no sentido helénico da palavra que a História nos transmitiu.

Estes testemunhos  valem o que valem, lamento não tê-los então registado com pormenor, sendo-me agora impossível, decorrido mais de meio século, reconstituir detalhadamente aquilo que ouvi, e que era suposto ser do conhecimento geral das gentes de Portimão.

* * * * *

Em 1938, o jornalista Norberto Lopes entrevistou Teixeira Gomes em Bougie, tendo publicado O Exilado de Bougie - Perfil de Teixeira Gomes (1942)


Postal encontrado na edição encadernada de "O Exilado de Bougie", adquirida a um alfarrabista

Em 1946, Urbano Rodrigues publicou A Vida Romanesca de Teixeira Gomes.


Em 1950, Urbano Tavares Rodrigues publicou Manuel Teixeira-Gomes - Introdução ao estudo da sua obra.


Em 1961, David Mourão-Ferreira publicou Aspectos da Obra de M. Teixeira-Gomes.


Em 1982, Urbano Tavares Rodrigues publicou a sua dissertação de doutoramento: M. Teixeira Gomes - O Discurso do Desejo.


Ficarão para mais tarde algumas considerações sobre a obra literária de Manuel Teixeira Gomes, que urge revisitar.

Deixo uma pergunta. Quando, num passado recente, algumas inutilidades pátrias foram trasladadas para o Panteão Nacional, onde repousam chefes de Estado e escritores, porque não conceder essa honra ao único presidente da República verdadeiramente consagrado como escritor? Não sei se o mesmo apreciaria a convivência de muitos dos que o precederam, mas não me eximo a registar a sugestão.

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