sábado, 6 de junho de 2015

O TRIUNFO DA ORTODOXIA




Teve lugar ontem à noite, no Centro Cultural de Cascais, com a presença do presidente da Câmara Municipal, a inauguração da exposição "O Triunfo da Ortodoxia", que acolhe algumas dezenas de preciosos ícones ortodoxos, além de outras peças, provenientes do Museu Grão Vasco, de Viseu.

As obras expostas fazem parte de uma valiosa colecção, legada ao Museu Grão Vasco por Anna-Maria Pereira da Gama (1923-2005),  que durante a sua vida recolheu notáveis exemplares de mobiliário, escultura, medalhas, moedas, minerais, pratas e arte russa, com particular destaque para os ícones bizantinos e outros objectos da religião ortodoxa.

Este legado, recebido em 2013 pelo Museu Grão Vasco, é considerado o mais importante conjunto do género existente em Portugal, e o núcleo agora apresentado inclui imagens do Antigo Testamento, da Virgem, de Cristo, de temas místicos, representações de anjos, mártires, santos, doutores da Igreja, patriarcas e reformadores, calendários festivos e menológicos, e ainda objectos de metal, como cruzes de abençoar, placas, pequenos retábulos e medalhões de uso devocional.

Entre as obras expostas, importa destacar a "Mãe de Deus das 'Três Mãos'" (Moscovo, século XVIII), o "Cristo Pantocrator" (Moscovo, século XIX), "São Nicolau" (Rússia central, século XVIII), "Sofia (Sapiência de Deus)" (Rússia central, século XVIII) ou "Mandylion e o Milagre de Floros e Lavros" (Novgorod, século XVIII).

A exposição é uma iniciativa de parceria entre o Museu Grão Vasco, dirigido por Agostinho Ribeiro e a Fundação D. Luís I, sob a presidência de Salvato Teles de Menezes, sendo curador Sérgio Gorjão (anterior director do Museu), com a colaboração da embaixatriz Irina Marcelo Curto, especialista na matéria, de Graça Marcelino (técnica do Museu Grão Vasco), da família e dos testamenteiros da legatária e ainda da equipa técnica do Centro Cultural de Cascais.

Uma exposição que importa visitar.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

A CRIPTA IMPERIAL DE VIENA




Um dos locais emblemáticos de Viena é a discreta Cripta Imperial (Kaiser Gruft), situada sob a Igreja dos Capuchinhos (Kapuzinenkirche). Sendo um sítio que não atrai muitos turistas, impõe-se naturalmente aos verdadeiros visitantes da capital austríaca, nomeadamente aos que se interessam pela história em geral e pela história particular da Casa de Habsburg.

Igreja dos Capuchinhos

Na parede exterior do Mosteiro dos Capuchinhos, do lado esquerdo da porta da igreja, encontra-se um nicho com a estátua do padre Marco d'Aviano (1631-1699), frade capuchinho e capelão militar, beatificado em 2003 pelo papa João Paulo II. Segundo reza a lenda, foi após uma missa por ele celebrada na festa da Virgem, a 12 de Setembro de 1683, que os austríacos conseguiram ganhar a batalha contra os turcos e libertar Viena. Há quem lhe atribua igualmente a criação do cappuccino, designação italiana de kapuziner, um café com natas que começou a ser servido nos cafés vienenses no século XVIII.

Beato frade Marco d'Aviano

A história da igreja e da cripta conta-se em algumas linhas. Chegados a Viena em 1599, sob a direcção de Laurentius de Brindisi, e albergados pela Ordem dos Frades Menores, os Capuchinhos, graças ao cardeal Klehsl, instalaram-se um ano mais tarde em Sankt Ulrich, onde fundaram uma pequena igreja.

Igreja dos Capuchinhos

Em 1619, a imperatriz Ana, mulher do imperador Matias, decidiu construir no Mehlmarkt (Mercado da Farinha), hoje Neuer Markt (Mercado Novo), uma igreja para os Capuchinhos, prevendo a existência na mesma de uma cripta para si e para o seu marido. A própria imperatriz estipulou no seu testamento que caso morresse antes do marido, ficaria  a cargo deste a realização da sua vontade, utilizando os meios financeiros por ela destinados ao efeito. Ana morreu no ano seguinte e Matias três meses depois dela. Nessa altura, nem a igreja nem a cripta estavam concluídas, pelo que os corpos dos fundadores foram temporariamente inumados no mosteiro de Santa Clara, na Dorotheergasse.

A igreja e a cripta foram terminadas em 1633, tendo então sido transferidos para a Cripta dos Capuchinhos os restos mortais de Ana e Matias. Encontram-se ainda hoje nesse pequeno compartimento, o único existente à época.

Fernando III, sobrinho-neto de Matias, tinha a intenção de alargar a cripta, mas a sua morte prematura comprometeu o projecto. Dois dos seus filhos morreram no espaço de uma semana devido a uma epidemia. A primeira e a segunda mulher morreram de febre puerperal e três outros filhos morreram também prematuramente. Esta sucessão de infaustos acontecimentos teve por consequência tornar a cripta insuficiente para acolher tantos caixões, de tal forma que quando Fernando III morreu em 1657, o seu caixão foi colocado atravessado sobre os túmulos já existentes.  Nestas circunstâncias, o seu filho e sucessor, o imperador Leopoldo I, decidiu ampliar a cripta (Cripta de Leopoldo).

A cripta foi novamente alargada, sob José I, em 1701 e 1710, mas foi o imperador Carlos VI que terminou essa ampliação, mandando forjar uma grade sumptuosa de ambos os lados dos túmulos. Essa grade tornara-se necessária para proteger os sarcófagos dos roubos e danificações, só tendo sido retirada em 1909. Assim, a superfície da cripta tornou-se finalmente idêntica à da igreja construída exactamente por cima, passando a designar-se Cripta de Carlos.

Em 1748, a imperatriz Maria Teresa ordenou a construção de uma divisão suplementar mas esta verificou-se demasiado pequeno e foi destruída. Em 1753, os arquitectos Jean-Nicola Jadot de Ville-Issey e Nicolaus de Pacassi conceberam a Cripta de Maria Teresa. Em 1754, Baltahzar Ferdinand Moll construiu um sarcófago duplo, encomendado pela imperatriz, e destinado a si mesma e a seu marido Francisco Estevão de Lorena (Francisco I).
   
[Permito-me abrir um sucinto parêntese, a propósito da imperatriz Maria Teresa, sobre a natureza do Santo Império Romano Germânico. Extinto o Império Romano, em 395, pela morte de Teodósio e, mais concretamente, o Império Romano do Ocidente, pela deposição, em 476, do imperador Rómulo Augusto pelo rei Odoacro dos hérulos, encontrava-se vaga, no Ocidente, a dignidade imperial, já que, a Leste, se mantinha (e manteve até 1453) o Império Romano do Oriente ou Império Bizantino. [Segundo os cronistas, Odoacro poupou a vida a Rómulo Augusto, ou Augústulos, devido à sua juventude, teria entre 15 e 18 anos, e extraordinária beleza; o tempora o mores]. Assim, dada a vacatura imperial e também por outras razões, no dia de Natal de 800, o papa Leão III coroou em Roma, como imperador, o rei dos francos, dos germanos e dos lombardos, Carlos Magno, ficando praticamente instituído um novo império na Europa Ocidental, o Santo (ou Sacro) Império Romano Germânico.

Coroa do Santo Império Romano Germânico, executada provavelmente no século X para o imperador Otão I

Após a morte de Carlos Magno, e devido às vicissitudes ocorridas com a sua sucessão, o Império sofreu um desmembramento, só vindo a ser parcialmente recomposto com Otão I (962-973), que é considerado por muitos estudiosos o verdadeiro primeiro imperador do Santo Império. O território do Império passou a ter como superfície, grosso modo, a área dos países da Europa Central, e assim se manteve durante séculos.

Contrariamente a uma ideia que se generalizou, o Santo Império não era uma "monarquia" hereditária mas electiva. Eram os governantes das principais regiões que escolhiam o imperador, inicialmente os francos da Lorena e da Francónia, os saxões, os bávaros e os suábios. Mais tarde passaram a participar os bispos e os duques do reino até se estabelecer o conceito de "príncipe-eleitor". O colégio eleitoral só foi formalmente estabelecido em 1356, pela Bula Dourada, emitida pela Dieta de Nuremberga (Reichstag), presidida pelo imperador Carlos IV, tendo sido considerados sete eleitores: o eleitor do Palatinado, o rei da Boémia, o duque da Saxónia, o marquês de Brandemburgo e os arcebispos de Colónia, Mogúncia e Tréveris. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o duque da Baviera obteve direito de voto como oitavo eleitor. A partir de 855, os imperadores começaram a ser eleitos em Frankfurt e coroados em Aachen (Aix-la-Chapelle). A partir de 1562 passaram a ser coroados também em Frankfurt, na catedral de São Bartolomeu (Kaiserdom). A constituição do Reichstag do Santo Império tornou-se mais complexa com o tempo, mas não é este o lugar para proceder à sua análise detalhada.

Coroa do Santo Império Romano Germânico, mandada executar pelo imperador Rodolfo II em 1602, e mais tarde usada como coroa do Império Austríaco

Importa, todavia, acrescentar que, apesar do seu carácter electivo, o Santo Império foi, ao longo dos séculos, uma monarquia praticamente hereditária, limitando-se os eleitores a escolher (confirmar) o sucessor natural do anterior soberano. Isto é especialmente evidente a partir de Carlos-Quinto. Dada esta explicação por causa de Maria Teresa, é altura de fecharmos o parêntese].

O imperador Carlos VI (1711-1740) não teve filhos varões, e apenas duas filhas lhe sobreviveram, Maria Teresa e Maria Ana. Desejoso de legar o trono a Maria Teresa, em detrimento das filhas do seu irmão mais velho e antecessor (o imperador José I), Carlos VI, o último Habsburg na linha masculina, promulgou em 1713 a Pragmática Sanção, estabelecendo que sua filha Maria Teresa lhe sucederia no trono, a fim de evitar a divisão do império. Uma vez que as mulheres não podiam ser eleitas para o Sacro Império Romano Germânico, Maria Teresa, entretanto coroada, por direito próprio, rainha da Boémia e da Hungria, e sendo também arquiduquesa de Áustria, procurou obter a coroa para seu marido, o duque Francisco Estêvão de Lorena. Muitos soberanos europeus manifestaram-se contra a Pragmática Sanção, que deixara de facto Maria Teresa em Viena a governar o Império, e os próprios príncipes-eleitores recusaram inicialmente a eleição de Francisco de Lorena. Esta questão deu origem à Guerra da Sucessão Austríaca, em que Frederico II da Prússia se revelou como encarniçado inimigo de Maria Teresa. Em 1742, foi eleito imperador Carlos Alberto de Wittelsbach, eleitor da Baviera, que passou a ser designado Carlos VII e que morreu em 1745. Só então, e para uma conciliação geral, os eleitores decidiram eleger o marido de Maria Teresa como imperador, com o nome de Francisco I. A partir de agora, Maria Teresa poderia ser considerada imperatriz de pleno direito (como mulher de um imperador), mas nunca conseguiu ser imperadora, no sentido em que se usa em português a palavra embaixadora, isto é, a titular de um cargo.

 Francisco I morreu em 1765, tendo-lhe sobrevivido a mulher até 1780. Como Maria Teresa era imperatriz mas não imperadora, foi eleito imperador, após a morte do pai, ficando a co-governar com a mãe, o filho mais velho, José II. Sucedeu-lhe o irmão, Leopoldo II, e a este, em 1792, seu filho, Francisco II, que foi o último imperador do Santo Império. O estabelecimento em França do Primeiro Império e as invasões napoleónicas na Europa enfraqueceram definitivamente a Casa de Habsburg. Napoleão I, coroado imperador dos franceses, aspirava a ser considerado imperador do Ocidente, isto é, pretendia realmente cingir a coroa do Santo Império. Num hábil gesto político, o imperador Francisco II, que também era rei da Boémia, rei da Hungria e arquiduque de Áustria, além de uma lista infindável de outros títulos, criou em 1804 o Império Austríaco e proclamou-se imperador da Áustria, com o nome de Francisco I. Porém, no fim de 1805, após a estrondosa derrota em Austerlitz dos exércitos austríaco e russo, comandados por Francisco II e pelo czar Alexandre I (a Terceira Coligação) pelo exército francês de Napoleão, e a criação da Confederação do Reno pelo imperador francês (reunindo quase todos os estados germânicos, como os reinos da Baviera, da Saxónia, de Vestfália e de Württemberg, principados, grão-ducados, ducados e arcebispados), Francisco II foi compelido a extinguir o Santo Império Romano Germânico (1806), não só porque deixara de exercer a sua suserania sobre a maior parte dos estados alemães como para evitar que Napoleão viesse a ostentar a Coroa Imperial. Tendo sido durante dois anos duplo imperador, Francisco II passava agora a ser tão só Francisco I, imperador da Áustria. Por essa razão é normalmente mencionado nas inscrições como Franz II (I).

A Francisco II (I) sucedeu Fernando I, como imperador da Áustria, em 1835, mas os seus problemas mentais levaram a que o governo fosse efectivamente conduzido pelo célebre chanceler, o príncipe de Metternich. A revolução de 1848 levou à queda do chanceler e à abdicação do imperador. Sem filhos, e devido à natureza um tanto simplória de seu irmão Franz Karl, sucedeu-lhe o sobrinho, Francisco José, na altura com 18 anos, e que reinou até 1916, durante 68 anos, um dos reinados mais longos da história, a seguir a Luís XIV.

Francisco José I casou com Elisabeth da Baviera (conhecida por Sissi, e que, na minha juventude, foi tema de diversos e aclamadíssimos filmes, protagonizados por Romy Schneider). Teve apenas um filho varão, o arquiduque Rodolfo, que se suicidou (ou foi assassinado) no pavilhão de caça de Mayerling, nos arredores de Viena, em 30 de Janeiro de 1889, juntamente com a sua amante a baronesa Maria Vetsera. Embora casado com Estefânia da Bélgica, Rodolfo não deixou descendência masculina, e estando as mulheres, devido à Lei Sálica, excluídas do trono, tornou-se herdeiro o seu sobrinho Francisco Fernando, por renúncia do pai, o arquiduque Carlos Luís. As relações de Francisco José I com Francisco Fernando foram sempre as piores, devido não só a divergências políticas, mas a temperamentos muito diferentes. Agravaram-se quando o imperador proibiu o sobrinho de casar com a condessa checa Sofia Chotek, sua grande paixão, por não ser uma princesa. Francisco Fernando recusou casar-se com qualquer outra mulher mas Francisco José foi inflexível, apesar das representações em seu favor do papa Leão XIII, do czar Nicolau II da Rússia e do imperador Guilherme II da Alemanha, que receavam as consequências que o conflito familiar poderia provocar na estabilidade monárquica. Finalmente, o imperador autorizou o casamento, mas com condições drásticas: Sofia não teria direito ao estatuto do marido, jamais poderia ser proclamada imperatriz, rainha ou arquiduquesa e os descendentes seriam excluídos da sucessão ao trono. Sofia nunca poderia aparecer ao lado do marido, não poderia sentar-se no camarote imperial, nem andar na carruagem imperial. Nas cerimónias da Corte não poderia acompanhar o marido e teria de ceder a precedência a toda a família imperial. Mesmo assim, Rodolfo aceitou e em 28 de Junho de 1900, no Palácio de Hofburg, perante o imperador, todos os arquiduques, ministros e dignitários da Corte, e também o cardeal-arcebispo de Viena e o arcebispo-primaz da Hungria, Francisco Fernando assinou o documento de renúncia. O casamento foi celebrado em 1 de Julho de 1900, em Reichstadt, na Boémia, mas nenhum membro da família imperial esteve presente à excepção da madrasta de Francisco Fernando, a princesa Maria Teresa de Bragança. Em 1909, Sofia recebeu o título de duquesa de Hohenberg, com o tratamento de Alteza, e isto foi o máximo privilégio outorgado pelo imperador.

Em 10 de Setembro de 1898, quando embarcava num vapor no Lago de Génève, a imperatriz Elisabeth, que de há muito adquirira o hábito de raramente permanecer em Viena e de viajar incógnita, foi assassinada por um anarquista italiano de 25 anos, Luigi Lucheni. A sua morte comoveu a Áustria e a Hungria, à qual ela era especialmente devotada.

Entretanto, em 19 de Junho de 1867, fora fuzilado em Querétaro, após julgamento sumário, pelos revolucionários republicanos, o arquiduque Maximiliano, irmão de Francisco José, que havia sido proclamado imperador do México em 1864, trono que aceitara persuadido pelo imperador francês Napoleão III.

Em 28 de Junho de 1914, o arquiduque herdeiro Francisco Fernando e sua mulher Sofia, foram assassinados, quando visitavam Sarajevo, pelo anarquista sérvio de 19 anos, Gavrilo Princip. Este acontecimento originou a Primeira Guerra Mundial. Devido à importância quase demencial que Francisco José atribuía à etiqueta espanhola, que fora introduzida na corte de Viena sobretudo pelo imperador Carlos VI, não foram prestadas a Francisco Fernando as honras devidas aos arquiduques, tendo Francisco José levado a sua "benevolência" a conceder que os restos mortais do sobrinho e da mulher, que chegaram a Viena de noite para que a população não se pudesse manifestar, ficassem expostos na capela do Palácio Imperial, a fim de que o povo lhes rendesse as últimas homenagens. Mesmo assim, o caixão de Sofia foi colocado num catafalco 20 cm abaixo do de Francisco Fernando. Como Sofia não poderia ser sepultada na Cripta Imperial e Francisco Fernando manifestara em vida o desejo de ser sepultado ao lado da mulher, ambos repousam hoje na cripta do Castelo de Artstetten, em Klein-Pöchlarn.

Lápide em memória das primeiras vítimas da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando e sua muher a duquesa Sofia de Hohenberg, que se encontram enterrados na cripta do Castelo de Artstetten

A morte de Francisco Fernando catapultou para herdeiro do trono seu sobrinho, o arquiduque Carlos Francisco, filho de seu irmão Otão.

Tendo vivido com serenidade exterior, pelo menos aparente, todos estes acontecimentos verdadeiramente trágicos, o imperador Francisco José I morreu finalmente em Viena, em 21 de Novembro de 1916, em plena guerra mundial, e o seu funeral foi a última grande manifestação fúnebre do Império.

Sucedeu-lhe o citado sobrinho-neto Carlos Francisco, com o nome de Carlos I, que foi o último imperador da Áustria, tendo "abdicado" em 11 de Novembro de 1918, no dia do armistício que terminou a guerra. Carlos casara com a princesa Zita de Bourbon-Parma em 21
de  Outubro de 1911, havendo do matrimónio oito filhos, o mais velho dos quais, o arquiduque Otão, que foi deputado ao Parlamento Europeu, tendo falecido em 2011.

Carlos I ainda tentou recuperar o trono da Hungria, governada pelo regente almirante Miklós Horthy, mas as suas tentativas foram infrutíferas. O casal e os filhos acabaram por se instalar na ilha da Madeira, em 1921, onde Carlos morreria de pneumonia em 1 de Abril de 1922. Está sepultado na igreja de Nossa Senhora do Monte. Foi beatificado em 3 de Outubro de 2004 pelo papa João Paulo II.

Carlos I

Após a viuvez, Zita habitou em Espanha, na Bélgica e nos Estados Unidos. Mais tarde viveu na Suíça e finalmente regressou à Áustria, onde morreu, em 14 de Março de 1989, com 96 anos. Devido a uma concessão especial do governo austríaco, foram realizados funerais com honras imperiais, tendo o  caixão sido levado para a Cripta Imperial de Viena na mesma carruagem que transportou os restos mortais de Francisco José I.

Mas regressemos à Cripta.

Em 1787, José II ordenou o encerramento das portas e das janelas da cripta. Os enterros poderiam continuar a realizar-se na medida em que a entrada a partir do interior da igreja apenas fora fechada com tijolos secos fáceis de remover. Para criar um lugar para si mesmo e seus descendentes, José II mandou desmontar o altar que se encontrava no meio da cripta e proibiu qualquer visita à mesma. As missas passaram a ser celebradas na igreja, por cima. O seu irmão e sucessor, Leopoldo II, decidiu reabrir a cripta logo no início do seu reinado.

A cripta foi uma vez mais alargada, em 1824, durante o reinado do imperador Francisco II (I) (Cripta de Francisco), e de novo, em 1840, sob o reinado de Fernando I (Criptas de Fernando e da Toscana).

Em 1845, foi instalado na cripta um sistema de iluminação a gás.

Em 1808/9, foi construída a cripta de Francisco José, notável pelo seu revestimento branco, e foi instalada a iluminação eléctrica. Ladeiam o túmulo do imperador os sarcófagos de sua mulher Elisabeth e de seu filho Rodolfo. Ao lado da Cripta de Francisco José foi criada uma outra divisão, que serve de actual Capela da Cripta.

A última divisão foi construída entre 1960 e 1962,  a Nova Cripta, e recebeu vários sarcófagos que se encontravam em zonas exíguas da Cripta dos Capuchinhos. Em 2003/4, foi introduzido ar condicionado no recinto e a entrada foi deslocada do lado esquerdo para o lado direito da igreja.

O esquema da Cripta, cujo mapa se apresenta, engloba as seguintes divisões:



- Cripta dos Fundadores: Ana e Matias.

- Cripta de Leopoldo: Vários arquiduques; urna com o coração da rainha Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo I e mulher de D. João V de Portugal (sepultada em Lisboa); Leonor Maria, filha de Fernando III e mulher do rei Miguel da Polónia; Leonor Gonzaga, 3ª mulher de Fernando III; Margarida Teresa, 1ª mulher de Leopoldo I; Maria Leopoldina, 2ª mulher de Fernando III; Maria Ana, 1ª mulher de Fernando III; urna com o coração da imperatriz Cláudia Félix, 2ª mulher de Leopoldo I (o corpo foi sepultado na igreja dos Dominicanos, em Viena); imperador Fernando III; Fernando IV, rei romano da Hungria e da Boémia, filho do imperador Fernando III; Leonor Madalena, 3ª esposa de Leopoldo I.

- Cripta de Carlos: Vários arquiduques; urna com o coração da imperatriz Amélia Guilhermina, mulher de José I (sepultada no mosteiro dos Salesianos); José I; Isabel Cristina, mulher de Carlos VI; Leopoldo I; Carlos VI.

José I e a urna com o coração de Amélia Guilhermina

Leopoldo I

Carlos VI

- Cripta de Maria Teresa: Condessa Karoline Fuchs-Mollard, governanta da jovem imperatriz Maria Teresa que se lhe ligou afectivamente e a quem chamava "Fuchsin" (a raposa). Quer Maria Teresa quer mesmo Francisco I pediam muitas vezes conselho à "velha senhora", que foi nomeada Obersthofmeisterin (superintendente). Por determinação expressa da imperatriz foi enterrada no círculo familiar da cripta. O sarcófago ostenta a seguinte inscrição: «Em memória imortal de uma educação para as nobres virtudes. Da parte de um coração reconhecido e benevolente. Eu, Maria Teresa». É a única pessoa não pertencente à família imperial que se encontra sepultada na Cripta; José II; Maria Josefina, 2ª mulher de José II; Isabel de Parma, 1ª mulher de José II, não chegou a ser imperatriz por ter morrido antes do marido ter ascendido ao trono; Francisco I Estêvão de Lorena e Maria Teresa (sarcófago duplo).

Maria Teresa e Francisco I
Maria Teresa e Francisco I (sarcófago duplo), seu filho José II, abaixo (mortos) e Eu (ainda vivo)

- Cripta de Francisco: Francisco II (I); Maria Luísa, 3ª mulher de Francisco II (I); Isabel Guilhermina, 1ª mulher de Francisco II (I), não chegou a ser imperatriz por ter morrido antes do marido ter ascendido ao trono; Maria Teresa Carolina, 2ª mulher de Francisco II (I); Carolina Augusta, 4ª mulher de Francisco II (I).

Francisco II (I)

- Cripta de Fernando: Fernando I; Maria Ana, mulher de Fernando I. Nos nichos das paredes encontram-se os caixões de 37 príncipes e princesas da família imperial.

- Cripta da Toscana: Diversos príncipes; Maria Carolina (filha de Maria Teresa e de Francisco I), rainha de Nápoles e das Duas Sicílias; Leopoldo II; Maria Luísa, mulher de Leopoldo II.

- Cripta de Francisco José: Francisco José I, imperatriz Elisabeth, sua mulher; arquiduque Rodolfo, seu filho.

Francisco José I, Elisabeth e Rodolfo

- Capela da Cripta: Além do altar, encontra-se um busto do último imperador da Áustria, Carlos I, sepultado, como se disse, na ilha da Madeira, e uma estátua da Virgem, homenagem das mulheres húngaras, em 1899, à memória da imperatriz Elisabeth. Aí repousam a imperatriz Zita, os seus filhos, o arquiduque Otão e o arquiduque Carlos Luís, e a arquiduquesa Regina de Saxe-Meiningen, mulher do arquiduque Otão.

Zita

- Nova Cripta: Imperador Maximiliano do México, irmão de Francisco José; imperatriz Maria Luísa de França, mulher de Napoleão I e filha de Francisco II (I); diversos príncipes.

Maximiliano do México
Carlos José de Lorena, neto de Fernando III e arcebispo de Tréveris e príncipe-eleitor

Na Cripta dos Capuchinhos estão enterradas 148 pessoas, entre s quais 12 imperadores e 17 imperatrizes. Em dois sarcófagos repousam a mãe e o filho. À excepção de uma pessoa, a condessa Karoline Fuchs-Mollard, como se escreveu acima,  todos pertenceram às famílias Habsburg ou Habsburg-Lorena.

Outros túmulos

Após a sua dissecação, a maior parte dos defuntos era embalsamada. As vísceras, os cérebros e os olhos eram colocados em urnas de cobre conservadas na Catedral de Santo Estêvão. Os corações eram colocados em urnas de prata depositadas na Herzlgruft da Capela do Loreto da igreja de Santo Agostinho, anexa ao Hofburg.

Os sarcófagos, de estilo variado, testemunham as diferentes influências que ocorreram em sucessivas épocas. Uns são realmente sumptuosos, outros revelam uma modéstia real ou aparente. Mas nenhum nos faz esquecer o carácter efémero da vida terrena.

A cada sarcófago correspondem duas chaves: uma guardada pelos frades capuchinhos, a outra conservada  no armário das chaves da Geistliche Schatzkammer (Tesouro Eclesiástico) da Residência Imperial.

A cerimónia do enterro cumpria o ritual seguinte: o cortejo fúnebre saía da Residência Imperial e dirigia-se à Capela da Residência ou à Catedral de Santo Estêvão, onde o caixão, colocado sobre um catafalco, ficava exposto. Mais tarde, o caixão era conduzido ao portal do Mosteiro dos Capuchinhos, onde o conservador dos túmulos, os padres e outras figuras do clero aguardavam o cortejo para o conduzir à igreja, que se encontrava coberta por panejamentos negros ornamentados com o brasão da pessoa falecida.

Depois da missa de requiem, durante a qual o caixão ficara colocado num estrado no meio da igreja, os despojos eram transportados pelos capuchinhos, à luz de tochas, para o interior da cripta. Aqui, o conservador abria o caixão para verificar se a identidade da pessoa falecida era realmente a mencionada pelo mestre de cerimónias. Algumas semanas depois o caixão de madeira era benzido e colocado no respectivo sarcófago que seria fechado para sempre.

Existe uma versão mais completa do cerimonial, utilizada em diversas ocasiões, e que foi praticada, por exemplo, aquando do funeral da imperatriz Zita, em 1 de Abril de 1989.

O cortejo fúnebre dirige-se até à Igreja dos Capuchinhos, cuja porta se encontra fechada, e atrás da qual estão os frades. O mestre de cerimónias bate três vezes à porta da igreja com o bastão. Do interior, o conservador dos túmulos imperiais pergunta: «Quem pretende entrar?». O mestre de cerimónias responde, enumerando todos os títulos do defunto, neste caso: « Sua Majestade a Imperatriz Zita, por graça de Deus imperatriz da Áustria, rainha da Hungria, rainha da Boémia, da Dalmácia, da Croácia, da Eslovénia, da Galícia-Lodoméria e da Ilíria, rainha de Jerusalém, etc., arquiduquesa de Áustria, grã-duquesa da Toscana e de Cracóvia, duquesa da Lorena e de Salzburg, da Carníola, Caríntia e Bucovina, grã-duquesa da Transilvânia, duquesa da Morávia, duquesa da Alta e da Baixa Silésia, de Modena, Parma, Placência e Guastalla, de Auschwitz e Zator, de Teschen, Friul, Ragusa e Zara, duquesa principesca de Habsburg e do Tirol, de Kyburg, Görz e Gradiska, princesa de Trento e Brixen, Duquesa da Alta e da Baixa Lusácia, duquesa de Hohenems, Feldkirche, Bregenz, Sonnenberg, etc., etc.».

A porta permanece fechada, respondendo o conservador: « Nós não vos conhecemos».

O mestre de cerimónias bate uma segunda vez, e à mesma pergunta do conservador responde como anteriormente, enunciando os títulos da defunta. O conservador volta a responder: «Nós não vos conhecemos». A porta permanece fechada.

O mestre de cerimónias bate uma terceira vez, o conservador formula a mesma pergunta, mas agora o mestre de cerimónias responde: « Zita, uma pobre pecadora». Então, o conservador proclama: «Que entre». As portas da igreja abrem-se e os monges capuchinhos acolhem o defunto no seu seio.

Este ritual tem muito a ver, para não dizer tudo, com a cerimónia de uma iniciação maçónica.

Muito mais, e com muito interesse, haveria a dizer sobre a Cripta Imperial, mas o post vai já demasiado longo.



NOTA: A Casa de Habsburg retirou o seu nome do castelo de Habsburg, na Suíça e as origens da família remontam ao século X. O estatuto social dos Habsburg conheceu uma elevação notável em 1273, quando o conde Rodolfo IV de Habsburg acedeu ao trono do Santo Império com o nome de Rodolfo I. O poder da família foi-se alargando pela Europa Central, tendo começado a consolidar-se definitivamente com a eleição de Frederico III, em 1452 (sepultado na Catedral de Santo Estêvão, em Viena), época em que se criou a divisa AEIOU: "Austriae est imperare orbi universo" (a Áustria reina sobre o universo).

CARLOS QUINTO, pelo Ticiano (Museu do Prado)

O imperador Carlos Quinto, o mais notável dos Habsburg, "IL SOMMO IMPERATORE", segundo o Don Carlo, de Verdi, em cujo Império o sol nunca se punha, que reinou anteriormente à construção da Cripta Imperial, e porque também foi rei de Espanha, encontra-se sepultado no Panteão Real do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, próximo de Madrid.

O último imperador Habsburg (na linha masculina, já que as mulheres estavam excluídas do trono), foi Carlos VI, pai de Maria Teresa. Com o casamento desta com Francisco de Lorena (Francisco I) a dinastia passou a designar-se Habsburg-Lorena e manteve-se no poder até 1918, quando acabou o Império Austríaco.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O MUSIKVEREIN DE VIENA




O Musikverein (Clube da Música), construído pela Gesellschaft der Musikfreunde (Sociedade dos Amigos da Música), é uma das grandes salas de concerto de Viena. Sede da Orquestra Sinfónica de Viena, acolhe regularmente outras grandes orquestras e os maiores intérpretes a nível mundial.


Tive a oportunidade de aqui assistir, alguns dias atrás, na Grande Sala (com capacidade para 2.000 pessoas), a um notável concerto, cujo programa menciono abaixo, com a Orquestra da Casa, dirigida pelo maestro estónio Olari Elts e a violoncelista argentina Sol Gabetta. Na véspera, estivera Daniel Barenboim ao piano (Schubert), mas outros compromissos impediram-me de estar presente.


Refira-se que é no Musikverein, na Grande Sala (o edifício tem outras salas mais pequenas) que se realiza o famoso e tradicional Concerto de Ano Novo, habitualmente transmitido pelas televisões.


O edifício situa-se junto da Karlsplatz e nas traseiras do célebre Hotel Imperial, na Kärntner Ring, onde esteve alojado Richard Wagner e Hitler se instalou após o Anschluss.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O "NABUCCO" EM VIENA




A Wiener Staatsoper apresenta esta temporada a sempre apreciada ópera Nabucco, de Verdi. No espectáculo de 14 deste mês, a que assisti, interpretaram os principais papéis Željko Lučić, em Nabucco (que alternava, quiçá vantajosamente, com Plácido Domingo, agora regressado a barítono), Carlos Osuna, em Ismaele (e que se estreava neste papel na Ópera de Viena), Michele Pertusi, em Zaccaria (substituindo Mikhail Kazakov, por motivo de doença), Monika Bohinec, em Fenena e Maria Guleghina, em Abigaille, um fantástico desempenho, entusiasticamente aplaudido pelo público.


A Orquestra, cuja direcção esteve a cargo do conhecido e vetusto maestro Jesús López Cobos, emprestou ao espectáculo o brilho requerido, tal como se verificou com a magnífica actuação do Coro. Outro tanto não se poderá dizer da encenação de Günter Krämer, pretensamente moderna, retirando à ópera a sua contextualização bíblica para a converter, honni soit qui mal y pense, num demagógico espectáculo de propaganda sionista, em que os escravos hebreus foram ostensivamente transformados nos judeus que eram conduzidos aos campos de concentração nazis. Além de um "cenário" inexistente, de um guarda-roupa confrangedor e de uma iluminação improvável.


Compreendo que Viena tenha necessidade de exorcizar periodicamente os seus fantasmas, que continuam a assombrar a cidade, não obstante, desde 1938, terem já decorrido quase 80 anos sobre a delirante aclamação do Führer na Heldenplatz. Mas, com intuitos políticos ou mesmo sem eles, não vale a pena estragar uma obra de arte com o pretexto de renovar as produções, a maior parte das vezes de forma gratuita e até ridícula. São poucas as óperas e menos ainda os encenadores capazes de apresentar um tema clássico num contexto moderno. Costumo recordar, a propósito, a encenação de Der Ring des Nibelungen, de Wagner, em Bayreuth, em 1976-1980, por Patrice Chéreau, mas este caso é praticamente ímpar na história das produções operáticas.


É tempo de correr dos teatros líricos com os pretensiosos encenadores "modernos" e de restituir às óperas a dignidade que lhes foi conferida durante décadas, sob pena de tornar incompreensíveis os espectáculos, como sucede habitualmente nestes casos, onde a letra do texto (agora, ainda para mais, projectada em legendas electrónicas) nada tem a ver com a acção que se desenrola sobre as tábuas do palco.





Nota: o frontão da Ópera, onde figura, inscrito a letras de ouro, o nome de Francisco José I, encontra-se tapado, como se pode ver na foto, por uma espécie de barracão de lona ou de papelão, fazendo propaganda à ópera para crianças (Oper für Kinder).



PALMYRA




A conquista de Palmyra pelo auto-denominado Estado Islâmico, sustentado por "forças ocultas" aos olhos dos ingénuos e dos ignorantes, é um crime contra a Humanidade. Não sabemos ainda se as antiquíssima ruínas serão destruídas, havendo só noticia de que algumas peças únicas da Antiguidade foram retiradas do museu local.

Estive alguns dias em Palmyra, em Setembro de 2005, e fiquei deslumbrado pela magnificência do conjunto arqueológico, de estonteante beleza ao entardecer,  e pelo cuidado que o governo de Bashar Al-Assad, ainda que com meios modestos, dispensava ao museu da cidade.



As ruínas de Palmyra situam-se a alguma distância de Tadmur, nome árabe da localidade, mas o percurso faz-se facilmente a pé.

Continua a constituir um enigma para muita gente como foi possível a um punhado de fanáticos apoderarem-se em poucos meses de um território maior do que Portugal. Insondáveis (ou estúpidos) são os desígnios dos Estados Unidos da América. E abomináveis as monarquias da Península Arábica. Mas tudo começou com a invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, encabeçada por dois criminosos de guerra, George W. Bush e Tony Blair, apoiados por outros proxenetas menores mas nem por isso menos danosos.

A destruição do Médio Oriente, a que vimos assistindo desde há mais de dez anos, constitui um dos actos mais ominosos das últimas décadas, com o seu cortejo de milhões de vítimas e a destruição de um património cultural de inestimável valor universal. Não pode haver perdão para os autores materiais e morais desta hecatombe, a maior parte infelizmente ainda vivos, nem para os turiferários de uma guerra justificada pela mais completo argumentário de mentiras alguma vez produzido na História.



Não é este o momento para analisar a criação do "Estado Islâmico" nem para confiar as minhas impressões pessoais sobre a inesquecível estada em Palmyra. Mas não posso deixar de manifestar hoje a mais profunda indignação pela situação que se vive na Síria e no Iraque e pela manifesta hipocrisia do Mundo Ocidental.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

JUAN GOYTISOLO, PRÉMIO CERVANTES














Para memória futura, regista-se o discurso do escritor espanhol Juan Goytisolo, no passado dia 23 de Abril,  na cerimónia de recepção do Prémio Cervantes.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O GRANDE AUSENTE



Coroa do Santo Império Romano Germânico

Voltei à cidade de Viena, ao fim de quase vinte anos de ausência, para revisitar a majestosa capital do Santo Império Romano Germânico (que o foi praticamente sem interrupções durante cinco séculos) e, depois de 1804 (ou 1806), do Império Austríaco (ou, se preferirem, do Império Austro-Húngaro).

Alguma coisa mudou: mais turismo, mais luxo, maior oferta cultural, aumento da tecnologia em detrimento dos postos de trabalho. Mas permanece o encanto dos palácios e das igrejas, dos museus e dos jardins, das estátuas e dos sumptuosos prédios, dos restaurantes old fashion e dos cafés agora pouco literários, dos hotéis tradicionais e dos globalizados hotéis modernos. Continuam imponentes as grandes avenidas, começadas a surgir com o Ring, o anel que envolve o venerável Hofburg, e onde foram erigidos no século XIX, os edifícios da Staatsoper, do Parlamento (Reichsrat), da Nova Câmara Municipal (Neues Rathaus), do Burgtheater, da nova Universidade, do Kunsthistorisches Museum e do Museu de História Natural.

Todavia, Viena é uma cidade estranha. Vive assombrada por duas figuras tutelares. Uma, omnipresente, é permanentemente mencionada nos monumentos e nos livros, nos nomes das praças e das ruas, e a sua imagem figura nos quadros dos hotéis e dos restaurantes, das lojas e dos cafés, dos museus e dos teatros, em pinturas, em fotos ou em bustos: o imperador Franz Josef I, cujo nome está inscrito em letras de ouro no frontão da Ópera Imperial.

A outra, raramente é referida, apenas em voz baixa e em conversas discretas, quase nunca mencionada nos jornais, onde a sua fotografia escassas vezes aparece e sempre sob falsos pretextos, mas (como já verifiquei claramente em Munique há três ou quatro anos) organiza os espíritos e disciplina a vida em sociedade, contribui para uma certa ordem na cidade, onde não há no chão nem um papel, nem uma ponta de cigarro, onde não se vêem graffiti nas paredes, onde os transeuntes só atravessam as ruas nas passadeiras e com os semáforos verdes, onde os alunos das escolas marcham ordenadamente nas visitas de estudo aos  museus, uma figura que cultivou um mito que não desagradou aos austríacos órfãos de Francisco José e que, sabe-se lá porquê, é hoje estranhamente evocada nas páginas interiores dos menus dos restaurantes e cafés, através da foto de um quase sósia, o grande escritor Stefan Zweig (por sinal judeu, mas que a espantosa semelhança do rosto justifica a inclusão). Trata-se de um antigo cabo do exército germânico (aliás, de naturalidade austríaca), que, após a falência da república de Weimar, desempenhou um papel crucial na Europa em meados do século passado e que, presumivelmente, morreu suicidado em Berlim, em 30 de Abril de 1945. Esse é o Grande Ausente.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

O INCONSCIENTE DO ISLÃO




O antropólogo e filósofo argelino Malek Chebel, autor de vasta e notável obra, acabou de publicar um pequeno volume, Linconscient de l'islam, onde denuncia as derivas do mundo arabo-muçulmano actual.

Começa o consagrado ensaísta por referir que a terra do islão é simultaneamente uma terra de paz (dar as-salam) e uma terra de guerra (dar al-harb), que numa tradução mais literal seria "casa da paz" e "casa da guerra". O que conduz directamente à guerra santa, desencadeada sucessivamente pelos califas das diversas dinastias e pelos sultões otomanos, até à queda do califado em 1924. Noto um lapso de Chebel na primeira página: refere o autor a queda do califado em 1923, mas essa foi a data da proclamação da república turca; o califado só foi abolido em 1924.

Sustenta Chebel que essa guerra "permanente" não tinha por fim apenas a islamização do mundo pagão, mas igualmente a satisfação de um desejo de poder e de um desejo sexual.«...seule la première génération de califes, celle d'Umar, d'Uthman et d'Ali ne semble pas avoir eu recours à ce moyen inattendu pour enrichir ses harems.» Continuando o seu raciocínio, Chebel afirma: «Les objectifs de la conversion à l'islam, pour vertueux qu'aient pu être naguère ses prédicats, se sont progressivement vidés de leur sens religieux. Aussi le projet spirituel initial s'est-il transformé en un simple festin céleste, avec ses récompenses ici-bas, ses objectifs de nombre et d'amélioration du pedigree de la classe au pouvoir.»

O livro compõe-se de cinco capítulos: La guerre pour les femmes; Idéologies du kamikaze ordinaire; Du Ma(n)ternel; Livres interdits et autodafé; Imolation ou sacrifice.

 No primeiro capítulo, especialmente dedicado às mulheres, o autor entende que para compreender a génese da guerra santa (jihad) há que recuar à organização elementar do harém, com o seu código endógeno, a sua violência simbólica e o seu mimetismo. O harém, apartamento exclusivo reservado às mulheres, opõe-se ao serralho, o palácio do sultão (na Turquia antiga), ainda que, por ficar integrado no espaço residencial soberano, tenha dado lugar a interpretações incorrectas ao longo da história, como é o caso do título da ópera de Mozart, O Rapto do Serralho. A palavra harém só entrou no dicionário francês em meados do século XIX. Segundo Chebel, o harém, instituição árabe, turca e persa, continua, sem a esgotar, a ideia do gineceu que os gregos desenvolveram no passado. O autor considera que o harém pode ser definido de diferentes maneiras: a dimensão histórica, a dimensão romântica, a regra do equilíbrio, a regra do desejo, a dimensão política, a dimensão demográfica, a regra do desvio. Não cabe neste espaço especificar estas noções.

Segundo o Corão, a poligamia da Jahiliyyah, a época pré-islâmica, ficou reduzida a uma tetragamia, ainda que a possibilidade de quatro esposas legais não exclua, naturalmente, a existência de concubinas. Não é referida neste livro a existência no serralho de muitos rapazes, especialmente cativos de guerra, para serviço íntimo dos soberanos e altos dignitários, mas Chebel alude ao facto em outros volumes da sua vasta obra. Os janízaros (yeniçeri = nova força), corpo de elite otomano, que eram adolescentes cristãos raptados às suas famílias, antes de integrarem o exército na idade adulta, serviam também para a satisfação dos desejos dos seus senhores. Mas este capítulo, o mais longo do livro e que prepara o capítulo seguinte, trata especialmente das mulheres. E do poder que elas detiveram no mundo arabo-muçulmano, especialmente na Sublime Porta, como favoritas e mães de sultões (sultanas Valide), sem esquecer que o harém não era um compartimento tão estanque que não permitisse, em condições especiais, a entrada de terceiros, donde o elevado número de gravidezes impossíveis de esconder. Roxelane, mulher de Solimão, o Magnífico, exerceu uma influência notória, a ponto de mandar matar o favorito e grão-vizir do marido, Ibrahim Pasha, e o próprio filho mais velho (de uma outra esposa) de Solimão para garantir a sucessão do seu próprio terceiro filho (Selim II). Deste Selim II, chamado "o Bêbado", se diz que procedeu à conquista de Chipre não para dilatar a fé mas por causa do bom vinho da ilha.

Com o advento da modernidade o harém foi perdendo a sua importância tornando-se residual. Quando Abdul Hamid II, o último sultão otomano a exercer os seus poderes autocráticos, foi deposto em 1909 pela Revolução dos Jovens Turcos, tinha apenas no seu harém seis mulheres e duas escravas negras, ao contrário das dezenas que lhe eram atribuídas pela vulgata.

O segundo capítulo, muito breve, trata do kamikaze vulgar. A ideia do kamikaze (vento divino), divulgada aquando dos ataques suicidas dos aviadores japoneses na Segunda Guerra Mundial, é contrária tanto ao Decálogo como ao Corão, que recusa o suicídio como solução final e priva de sepultura os que, evitando a fogueira dos homens, se encontrarão inevitavelmente na Gehena. Afirma Chebel que foi necessário o 11 de Setembro para realizarmos a lógica assassina de que se alimenta o kamikaze. Julgo que os jovens-bomba palestinianos já nos haviam interpelado muito antes na sua luta por um Estado nacional. Séneca e Plutarco defenderam o suicídio mas a maioria dos filósofos opôs-se-lhe. O autor refere que, segundo Albert Camus, existe um laço directo entre o nihilismo e o crime: «Celui qui nie tout et s'autorise à tuer, Sade, le dandy meutrier, l'Unique impitoyable, Karamazov, les zélateurs du brigand déchaîné, le surréaliste qui tire dans la foule, revendiquent en somme la libérté totale, le déploiement sans limites de l'orgueil humain.» (L'Homme révolté). Noto que a citação no livro do período de Camus foi transcrita com imprecisão. Por isso consultei o original e apresentei a versão exacta do escritor francês.

A interpretação do Corão que os djihadistas invocam para os ataques suicidas fundamenta-se no versículo 154 da Sura II, mas o contexto actual é profundamente distinto do que existia no começo da islamização, além do que um muçulmano não pode matar outros muçulmanos, conceito hoje olimpicamente ignorado.

O terceiro capítulo debruça-se sobre a relação mãe/filho masculino. É um dos grandes temas, quase sempre tabu, da civilização islâmica. Escreve Chebel: «Le ma(n)ternel est le nom que je donne à un processus d'introjection symbolique, ou de "dévoration", de l'enfant mâle par sa propre mère pour que celle-ci puisse se construire par son truchement et trouve sa place de mère dans le rhizome familial. Le "n" de manternel symbolise le sentiment éprouvé par la mère qui fonctionne comme une "mante religieuse", au lieu d'adopter un sentiment maternel ordinaire.»

Nesta relação, Chebel refere os estudos que analisaram a passagem da cultura árabe entre a Jahiliyyah e o islão, entre o paganismo beduíno e o monoteísmo árabe, uma mutação que foi sentida como um sismo, provocando grane número de resistências.

Uma passagem: «Dans la mesure où la femme arabe ou musulmane ne peut exister en tant qu'individu que lorsqu'elle a mis au monde des enfants mâles et que ces mêmes enfants ont à leur tour enfanter d'autres enfants mâles, il apparaît évident que la relation mère-enfant s'inverse au fil du temps, pour devenir une relation enfant-mère.»

Ou: «La "manternalisation" est un type de consommation symbolique de la mère à l'égard de son enfant, voire dans certains cas - toujours symboliques -, le mimétisme d'une relation anthropologique à une échelle plus large, héréditaire. Précisons ici que le tabou de l'inceste n'en est pas moins posé.»

O capítulo quarto fala-nos do "inferno das bibliotecas árabes", na medida em que o Corão é o único livro que vale a pena ser chamado livro. É referida a fatwa lançada pelo ayatollah Khomeiny em 1989 a propósito de Os Versículos Satânicos, de Salman Rushdie. Escreve o autor: «Ce qui dérange le plus dans la question des versets sataniques tient à un bout de phrase, qui aurait été dicté par Satan au Prophète et que le Coran avait formulé une premiére fois de cette manière, avant de l'abroger aussitôt: "Avez-vous considéré Al-Lat, Al-'Uzza et Manat, cette troisième (idole)? Ce sont de 'sublimes déesses' et leur intercession est certes souhaitée"» (Corão, LIII, 19-21). E segue-se toda uma explicação, aliás exaustivamente tratada à época da "excomunhão" do livro.

Mesmo nos nossos dias, e sem a virulência de Khomeiny, o Ministério da Informação e o Ministério dos Assuntos Religiosos e dos Waqfs argelinos, organizadores do Salão Internacional do Livro de Argel, em 2007, impediram, sem o mínimo pretexto,  a venda dos livros de Abû-l-'Ala al-Ma'arri, o célebre poeta cego da Síria, individualista, agnóstico e vegetariano (m. 1057).

«Les livres suspectés de déviationnisme ne portent pas forcément sur le religieux. La politique est aussi l'une des  causes de friction, sans compter que l'État s'en mêle assez fréquemment... Après la religon, et la politique, la sexualité constitue la troisième mauvaise veine qui exaspère les censeurs et les moralistes.» Chebel refere também Al-Jâhiz e os mutazilitas, Al-Mutanabbi, um dos maiores poetas árabes, assassinado em 965, Abu Nawas e Omar Khayyam. Averróis (Ibn Rushd), o célebre "comentador" de Aristóteles, acabou a vida desterrado, e se pior não lhe aconteceu tal deveu-se à protecção dos califas almohadas. Mahmud Muhammad Taha e Farag Foda, ambos do século XX, morreram assassinados. O próprio Taha Hussein (1889-1973), o grande escritor cego egípcio, considerado o decano da literatura árabe, foi perseguido pelos académicos de Al-Azhar, e não fora o seu imenso prestígio, teria sofrido as consequências da sua independência de espírito.

Tudo isto, sem esquecer As Mil e Uma Noites,  o livro "mais obsceno" alguma vez escrito, aos olhos de alguns moralistas hipócritas e impostores, e cuja introdução no Ocidente se deve a Antoine Galland (1646-1715), que redescobriu esses contos maravilhosos e os traduziu do árabe para francês. Há alguns anos, uma associação egípcia, Advogados sem Fronteiras, tentou interditar a sua publicação, reclamando-se do artigo 178 do antiquíssimo Código Penal Egípcio, felizmente sem êxito. Quem, no mundo, não conhece Sheherazade, Sindbad, o marinheiro, Zumurud (que serviu de fio condutor do filme homónimo de Pasolini), Aladino e a lâmpada maravilhosa, Ali Baba e os quarenta ladrões?

Conclui Chebel: «Il faut opérer une séparation étanche entre le pouvoir temporel et le pouvoir intemporel, renvoyer la religion et les religieux dans leurs mosquées, et réévaluer le rôle du politique et de ses prérrogatives.» Vasto programa, certamente difícil de executar.

O quinto e último capítulo trata da imolação ou sacrifício, evocando a imolação pelo fogo, em 2011, do vendedor ambulante tunisino Mohammed Bouazizi, que Chebel trata de "diplômé", versão então largamente difundida mas que não corresponde à verdade. Este suicídio, que pôs fim ao regime de Ben Ali, foi objecto de vasta propaganda mas nunca se esclareceram, exactamente, como normalmente acontece neste género de situações, as circunstâncias precisas em que ocorreu o caso.

Lembra Chebel que o islão proíbe o suicídio (Corão, IV, 29-30), embora existam versículos passíveis de interpretações distintas, como referimos acima. Neste capítulo trata o autor, ainda que de forma assaz confusa, pois coexistem as versões do Génesis e do Corão, do sacrifício exigido a Abrahão de seu filho Isaac ou Ismaïl, conforme o cristianismo ou o islão. E também dos sacrifícios animais e das suas proibições.

Conclui Malek Chebel: «Cet opus sur L'inconscient de l'islam est une page ouverte sur tous les artefacts, les strates et les éléments psychiques qui restent inexplorés, car soumis au tabou implacable d'un certain islam, que le Coran semble résumer par cette image: "sourds, muets, aveugles" (summûn, bûkmûn, 'ûmyûn) (II,18). «Le Prophète n'a-t-il pas dit dans un hadith qûdsi, c'est-à-dire inspiré par Dieu: "Allah a voulu se faire connaître, il a créé le monde pour que l'homme, saisi de sa Sublime Beauté, puisse le vénérer à sa guise.»

«Ici s'achèvent ces réflexions sur l'interdit, la faute et la transgression en islam.»


Ainda que constituindo uma abordagem importante sobre alguns dos temas mais delicados do islão, parece-me que Malek Chebel não foi tão cuidadoso no tratamento dos assuntos desenvolvidos neste livro, ao contrário do que se verifica nas suas obras anteriores, a cuja precisão estamos habituados, sendo algumas delas indispensáveis a qualquer islamólogo. Mas regista-se a intenção, que se saúda.