quarta-feira, 3 de junho de 2015

A CRIPTA IMPERIAL DE VIENA




Um dos locais emblemáticos de Viena é a discreta Cripta Imperial (Kaiser Gruft), situada sob a Igreja dos Capuchinhos (Kapuzinenkirche). Sendo um sítio que não atrai muitos turistas, impõe-se naturalmente aos verdadeiros visitantes da capital austríaca, nomeadamente aos que se interessam pela história em geral e pela história particular da Casa de Habsburg.

Igreja dos Capuchinhos

Na parede exterior do Mosteiro dos Capuchinhos, do lado esquerdo da porta da igreja, encontra-se um nicho com a estátua do padre Marco d'Aviano (1631-1699), frade capuchinho e capelão militar, beatificado em 2003 pelo papa João Paulo II. Segundo reza a lenda, foi após uma missa por ele celebrada na festa da Virgem, a 12 de Setembro de 1683, que os austríacos conseguiram ganhar a batalha contra os turcos e libertar Viena. Há quem lhe atribua igualmente a criação do cappuccino, designação italiana de kapuziner, um café com natas que começou a ser servido nos cafés vienenses no século XVIII.

Beato frade Marco d'Aviano

A história da igreja e da cripta conta-se em algumas linhas. Chegados a Viena em 1599, sob a direcção de Laurentius de Brindisi, e albergados pela Ordem dos Frades Menores, os Capuchinhos, graças ao cardeal Klehsl, instalaram-se um ano mais tarde em Sankt Ulrich, onde fundaram uma pequena igreja.

Igreja dos Capuchinhos

Em 1619, a imperatriz Ana, mulher do imperador Matias, decidiu construir no Mehlmarkt (Mercado da Farinha), hoje Neuer Markt (Mercado Novo), uma igreja para os Capuchinhos, prevendo a existência na mesma de uma cripta para si e para o seu marido. A própria imperatriz estipulou no seu testamento que caso morresse antes do marido, ficaria  a cargo deste a realização da sua vontade, utilizando os meios financeiros por ela destinados ao efeito. Ana morreu no ano seguinte e Matias três meses depois dela. Nessa altura, nem a igreja nem a cripta estavam concluídas, pelo que os corpos dos fundadores foram temporariamente inumados no mosteiro de Santa Clara, na Dorotheergasse.

A igreja e a cripta foram terminadas em 1633, tendo então sido transferidos para a Cripta dos Capuchinhos os restos mortais de Ana e Matias. Encontram-se ainda hoje nesse pequeno compartimento, o único existente à época.

Fernando III, sobrinho-neto de Matias, tinha a intenção de alargar a cripta, mas a sua morte prematura comprometeu o projecto. Dois dos seus filhos morreram no espaço de uma semana devido a uma epidemia. A primeira e a segunda mulher morreram de febre puerperal e três outros filhos morreram também prematuramente. Esta sucessão de infaustos acontecimentos teve por consequência tornar a cripta insuficiente para acolher tantos caixões, de tal forma que quando Fernando III morreu em 1657, o seu caixão foi colocado atravessado sobre os túmulos já existentes.  Nestas circunstâncias, o seu filho e sucessor, o imperador Leopoldo I, decidiu ampliar a cripta (Cripta de Leopoldo).

A cripta foi novamente alargada, sob José I, em 1701 e 1710, mas foi o imperador Carlos VI que terminou essa ampliação, mandando forjar uma grade sumptuosa de ambos os lados dos túmulos. Essa grade tornara-se necessária para proteger os sarcófagos dos roubos e danificações, só tendo sido retirada em 1909. Assim, a superfície da cripta tornou-se finalmente idêntica à da igreja construída exactamente por cima, passando a designar-se Cripta de Carlos.

Em 1748, a imperatriz Maria Teresa ordenou a construção de uma divisão suplementar mas esta verificou-se demasiado pequeno e foi destruída. Em 1753, os arquitectos Jean-Nicola Jadot de Ville-Issey e Nicolaus de Pacassi conceberam a Cripta de Maria Teresa. Em 1754, Baltahzar Ferdinand Moll construiu um sarcófago duplo, encomendado pela imperatriz, e destinado a si mesma e a seu marido Francisco Estevão de Lorena (Francisco I).
   
[Permito-me abrir um sucinto parêntese, a propósito da imperatriz Maria Teresa, sobre a natureza do Santo Império Romano Germânico. Extinto o Império Romano, em 395, pela morte de Teodósio e, mais concretamente, o Império Romano do Ocidente, pela deposição, em 476, do imperador Rómulo Augusto pelo rei Odoacro dos hérulos, encontrava-se vaga, no Ocidente, a dignidade imperial, já que, a Leste, se mantinha (e manteve até 1453) o Império Romano do Oriente ou Império Bizantino. [Segundo os cronistas, Odoacro poupou a vida a Rómulo Augusto, ou Augústulos, devido à sua juventude, teria entre 15 e 18 anos, e extraordinária beleza; o tempora o mores]. Assim, dada a vacatura imperial e também por outras razões, no dia de Natal de 800, o papa Leão III coroou em Roma, como imperador, o rei dos francos, dos germanos e dos lombardos, Carlos Magno, ficando praticamente instituído um novo império na Europa Ocidental, o Santo (ou Sacro) Império Romano Germânico.

Coroa do Santo Império Romano Germânico, executada provavelmente no século X para o imperador Otão I

Após a morte de Carlos Magno, e devido às vicissitudes ocorridas com a sua sucessão, o Império sofreu um desmembramento, só vindo a ser parcialmente recomposto com Otão I (962-973), que é considerado por muitos estudiosos o verdadeiro primeiro imperador do Santo Império. O território do Império passou a ter como superfície, grosso modo, a área dos países da Europa Central, e assim se manteve durante séculos.

Contrariamente a uma ideia que se generalizou, o Santo Império não era uma "monarquia" hereditária mas electiva. Eram os governantes das principais regiões que escolhiam o imperador, inicialmente os francos da Lorena e da Francónia, os saxões, os bávaros e os suábios. Mais tarde passaram a participar os bispos e os duques do reino até se estabelecer o conceito de "príncipe-eleitor". O colégio eleitoral só foi formalmente estabelecido em 1356, pela Bula Dourada, emitida pela Dieta de Nuremberga (Reichstag), presidida pelo imperador Carlos IV, tendo sido considerados sete eleitores: o eleitor do Palatinado, o rei da Boémia, o duque da Saxónia, o marquês de Brandemburgo e os arcebispos de Colónia, Mogúncia e Tréveris. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o duque da Baviera obteve direito de voto como oitavo eleitor. A partir de 855, os imperadores começaram a ser eleitos em Frankfurt e coroados em Aachen (Aix-la-Chapelle). A partir de 1562 passaram a ser coroados também em Frankfurt, na catedral de São Bartolomeu (Kaiserdom). A constituição do Reichstag do Santo Império tornou-se mais complexa com o tempo, mas não é este o lugar para proceder à sua análise detalhada.

Coroa do Santo Império Romano Germânico, mandada executar pelo imperador Rodolfo II em 1602, e mais tarde usada como coroa do Império Austríaco

Importa, todavia, acrescentar que, apesar do seu carácter electivo, o Santo Império foi, ao longo dos séculos, uma monarquia praticamente hereditária, limitando-se os eleitores a escolher (confirmar) o sucessor natural do anterior soberano. Isto é especialmente evidente a partir de Carlos-Quinto. Dada esta explicação por causa de Maria Teresa, é altura de fecharmos o parêntese].

O imperador Carlos VI (1711-1740) não teve filhos varões, e apenas duas filhas lhe sobreviveram, Maria Teresa e Maria Ana. Desejoso de legar o trono a Maria Teresa, em detrimento das filhas do seu irmão mais velho e antecessor (o imperador José I), Carlos VI, o último Habsburg na linha masculina, promulgou em 1713 a Pragmática Sanção, estabelecendo que sua filha Maria Teresa lhe sucederia no trono, a fim de evitar a divisão do império. Uma vez que as mulheres não podiam ser eleitas para o Sacro Império Romano Germânico, Maria Teresa, entretanto coroada, por direito próprio, rainha da Boémia e da Hungria, e sendo também arquiduquesa de Áustria, procurou obter a coroa para seu marido, o duque Francisco Estêvão de Lorena. Muitos soberanos europeus manifestaram-se contra a Pragmática Sanção, que deixara de facto Maria Teresa em Viena a governar o Império, e os próprios príncipes-eleitores recusaram inicialmente a eleição de Francisco de Lorena. Esta questão deu origem à Guerra da Sucessão Austríaca, em que Frederico II da Prússia se revelou como encarniçado inimigo de Maria Teresa. Em 1742, foi eleito imperador Carlos Alberto de Wittelsbach, eleitor da Baviera, que passou a ser designado Carlos VII e que morreu em 1745. Só então, e para uma conciliação geral, os eleitores decidiram eleger o marido de Maria Teresa como imperador, com o nome de Francisco I. A partir de agora, Maria Teresa poderia ser considerada imperatriz de pleno direito (como mulher de um imperador), mas nunca conseguiu ser imperadora, no sentido em que se usa em português a palavra embaixadora, isto é, a titular de um cargo.

 Francisco I morreu em 1765, tendo-lhe sobrevivido a mulher até 1780. Como Maria Teresa era imperatriz mas não imperadora, foi eleito imperador, após a morte do pai, ficando a co-governar com a mãe, o filho mais velho, José II. Sucedeu-lhe o irmão, Leopoldo II, e a este, em 1792, seu filho, Francisco II, que foi o último imperador do Santo Império. O estabelecimento em França do Primeiro Império e as invasões napoleónicas na Europa enfraqueceram definitivamente a Casa de Habsburg. Napoleão I, coroado imperador dos franceses, aspirava a ser considerado imperador do Ocidente, isto é, pretendia realmente cingir a coroa do Santo Império. Num hábil gesto político, o imperador Francisco II, que também era rei da Boémia, rei da Hungria e arquiduque de Áustria, além de uma lista infindável de outros títulos, criou em 1804 o Império Austríaco e proclamou-se imperador da Áustria, com o nome de Francisco I. Porém, no fim de 1805, após a estrondosa derrota em Austerlitz dos exércitos austríaco e russo, comandados por Francisco II e pelo czar Alexandre I (a Terceira Coligação) pelo exército francês de Napoleão, e a criação da Confederação do Reno pelo imperador francês (reunindo quase todos os estados germânicos, como os reinos da Baviera, da Saxónia, de Vestfália e de Württemberg, principados, grão-ducados, ducados e arcebispados), Francisco II foi compelido a extinguir o Santo Império Romano Germânico (1806), não só porque deixara de exercer a sua suserania sobre a maior parte dos estados alemães como para evitar que Napoleão viesse a ostentar a Coroa Imperial. Tendo sido durante dois anos duplo imperador, Francisco II passava agora a ser tão só Francisco I, imperador da Áustria. Por essa razão é normalmente mencionado nas inscrições como Franz II (I).

A Francisco II (I) sucedeu Fernando I, como imperador da Áustria, em 1835, mas os seus problemas mentais levaram a que o governo fosse efectivamente conduzido pelo célebre chanceler, o príncipe de Metternich. A revolução de 1848 levou à queda do chanceler e à abdicação do imperador. Sem filhos, e devido à natureza um tanto simplória de seu irmão Franz Karl, sucedeu-lhe o sobrinho, Francisco José, na altura com 18 anos, e que reinou até 1916, durante 68 anos, um dos reinados mais longos da história, a seguir a Luís XIV.

Francisco José I casou com Elisabeth da Baviera (conhecida por Sissi, e que, na minha juventude, foi tema de diversos e aclamadíssimos filmes, protagonizados por Romy Schneider). Teve apenas um filho varão, o arquiduque Rodolfo, que se suicidou (ou foi assassinado) no pavilhão de caça de Mayerling, nos arredores de Viena, em 30 de Janeiro de 1889, juntamente com a sua amante a baronesa Maria Vetsera. Embora casado com Estefânia da Bélgica, Rodolfo não deixou descendência masculina, e estando as mulheres, devido à Lei Sálica, excluídas do trono, tornou-se herdeiro o seu sobrinho Francisco Fernando, por renúncia do pai, o arquiduque Carlos Luís. As relações de Francisco José I com Francisco Fernando foram sempre as piores, devido não só a divergências políticas, mas a temperamentos muito diferentes. Agravaram-se quando o imperador proibiu o sobrinho de casar com a condessa checa Sofia Chotek, sua grande paixão, por não ser uma princesa. Francisco Fernando recusou casar-se com qualquer outra mulher mas Francisco José foi inflexível, apesar das representações em seu favor do papa Leão XIII, do czar Nicolau II da Rússia e do imperador Guilherme II da Alemanha, que receavam as consequências que o conflito familiar poderia provocar na estabilidade monárquica. Finalmente, o imperador autorizou o casamento, mas com condições drásticas: Sofia não teria direito ao estatuto do marido, jamais poderia ser proclamada imperatriz, rainha ou arquiduquesa e os descendentes seriam excluídos da sucessão ao trono. Sofia nunca poderia aparecer ao lado do marido, não poderia sentar-se no camarote imperial, nem andar na carruagem imperial. Nas cerimónias da Corte não poderia acompanhar o marido e teria de ceder a precedência a toda a família imperial. Mesmo assim, Rodolfo aceitou e em 28 de Junho de 1900, no Palácio de Hofburg, perante o imperador, todos os arquiduques, ministros e dignitários da Corte, e também o cardeal-arcebispo de Viena e o arcebispo-primaz da Hungria, Francisco Fernando assinou o documento de renúncia. O casamento foi celebrado em 1 de Julho de 1900, em Reichstadt, na Boémia, mas nenhum membro da família imperial esteve presente à excepção da madrasta de Francisco Fernando, a princesa Maria Teresa de Bragança. Em 1909, Sofia recebeu o título de duquesa de Hohenberg, com o tratamento de Alteza, e isto foi o máximo privilégio outorgado pelo imperador.

Em 10 de Setembro de 1898, quando embarcava num vapor no Lago de Génève, a imperatriz Elisabeth, que de há muito adquirira o hábito de raramente permanecer em Viena e de viajar incógnita, foi assassinada por um anarquista italiano de 25 anos, Luigi Lucheni. A sua morte comoveu a Áustria e a Hungria, à qual ela era especialmente devotada.

Entretanto, em 19 de Junho de 1867, fora fuzilado em Querétaro, após julgamento sumário, pelos revolucionários republicanos, o arquiduque Maximiliano, irmão de Francisco José, que havia sido proclamado imperador do México em 1864, trono que aceitara persuadido pelo imperador francês Napoleão III.

Em 28 de Junho de 1914, o arquiduque herdeiro Francisco Fernando e sua mulher Sofia, foram assassinados, quando visitavam Sarajevo, pelo anarquista sérvio de 19 anos, Gavrilo Princip. Este acontecimento originou a Primeira Guerra Mundial. Devido à importância quase demencial que Francisco José atribuía à etiqueta espanhola, que fora introduzida na corte de Viena sobretudo pelo imperador Carlos VI, não foram prestadas a Francisco Fernando as honras devidas aos arquiduques, tendo Francisco José levado a sua "benevolência" a conceder que os restos mortais do sobrinho e da mulher, que chegaram a Viena de noite para que a população não se pudesse manifestar, ficassem expostos na capela do Palácio Imperial, a fim de que o povo lhes rendesse as últimas homenagens. Mesmo assim, o caixão de Sofia foi colocado num catafalco 20 cm abaixo do de Francisco Fernando. Como Sofia não poderia ser sepultada na Cripta Imperial e Francisco Fernando manifestara em vida o desejo de ser sepultado ao lado da mulher, ambos repousam hoje na cripta do Castelo de Artstetten, em Klein-Pöchlarn.

Lápide em memória das primeiras vítimas da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando e sua muher a duquesa Sofia de Hohenberg, que se encontram enterrados na cripta do Castelo de Artstetten

A morte de Francisco Fernando catapultou para herdeiro do trono seu sobrinho, o arquiduque Carlos Francisco, filho de seu irmão Otão.

Tendo vivido com serenidade exterior, pelo menos aparente, todos estes acontecimentos verdadeiramente trágicos, o imperador Francisco José I morreu finalmente em Viena, em 21 de Novembro de 1916, em plena guerra mundial, e o seu funeral foi a última grande manifestação fúnebre do Império.

Sucedeu-lhe o citado sobrinho-neto Carlos Francisco, com o nome de Carlos I, que foi o último imperador da Áustria, tendo "abdicado" em 11 de Novembro de 1918, no dia do armistício que terminou a guerra. Carlos casara com a princesa Zita de Bourbon-Parma em 21
de  Outubro de 1911, havendo do matrimónio oito filhos, o mais velho dos quais, o arquiduque Otão, que foi deputado ao Parlamento Europeu, tendo falecido em 2011.

Carlos I ainda tentou recuperar o trono da Hungria, governada pelo regente almirante Miklós Horthy, mas as suas tentativas foram infrutíferas. O casal e os filhos acabaram por se instalar na ilha da Madeira, em 1921, onde Carlos morreria de pneumonia em 1 de Abril de 1922. Está sepultado na igreja de Nossa Senhora do Monte. Foi beatificado em 3 de Outubro de 2004 pelo papa João Paulo II.

Carlos I

Após a viuvez, Zita habitou em Espanha, na Bélgica e nos Estados Unidos. Mais tarde viveu na Suíça e finalmente regressou à Áustria, onde morreu, em 14 de Março de 1989, com 96 anos. Devido a uma concessão especial do governo austríaco, foram realizados funerais com honras imperiais, tendo o  caixão sido levado para a Cripta Imperial de Viena na mesma carruagem que transportou os restos mortais de Francisco José I.

Mas regressemos à Cripta.

Em 1787, José II ordenou o encerramento das portas e das janelas da cripta. Os enterros poderiam continuar a realizar-se na medida em que a entrada a partir do interior da igreja apenas fora fechada com tijolos secos fáceis de remover. Para criar um lugar para si mesmo e seus descendentes, José II mandou desmontar o altar que se encontrava no meio da cripta e proibiu qualquer visita à mesma. As missas passaram a ser celebradas na igreja, por cima. O seu irmão e sucessor, Leopoldo II, decidiu reabrir a cripta logo no início do seu reinado.

A cripta foi uma vez mais alargada, em 1824, durante o reinado do imperador Francisco II (I) (Cripta de Francisco), e de novo, em 1840, sob o reinado de Fernando I (Criptas de Fernando e da Toscana).

Em 1845, foi instalado na cripta um sistema de iluminação a gás.

Em 1808/9, foi construída a cripta de Francisco José, notável pelo seu revestimento branco, e foi instalada a iluminação eléctrica. Ladeiam o túmulo do imperador os sarcófagos de sua mulher Elisabeth e de seu filho Rodolfo. Ao lado da Cripta de Francisco José foi criada uma outra divisão, que serve de actual Capela da Cripta.

A última divisão foi construída entre 1960 e 1962,  a Nova Cripta, e recebeu vários sarcófagos que se encontravam em zonas exíguas da Cripta dos Capuchinhos. Em 2003/4, foi introduzido ar condicionado no recinto e a entrada foi deslocada do lado esquerdo para o lado direito da igreja.

O esquema da Cripta, cujo mapa se apresenta, engloba as seguintes divisões:



- Cripta dos Fundadores: Ana e Matias.

- Cripta de Leopoldo: Vários arquiduques; urna com o coração da rainha Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo I e mulher de D. João V de Portugal (sepultada em Lisboa); Leonor Maria, filha de Fernando III e mulher do rei Miguel da Polónia; Leonor Gonzaga, 3ª mulher de Fernando III; Margarida Teresa, 1ª mulher de Leopoldo I; Maria Leopoldina, 2ª mulher de Fernando III; Maria Ana, 1ª mulher de Fernando III; urna com o coração da imperatriz Cláudia Félix, 2ª mulher de Leopoldo I (o corpo foi sepultado na igreja dos Dominicanos, em Viena); imperador Fernando III; Fernando IV, rei romano da Hungria e da Boémia, filho do imperador Fernando III; Leonor Madalena, 3ª esposa de Leopoldo I.

- Cripta de Carlos: Vários arquiduques; urna com o coração da imperatriz Amélia Guilhermina, mulher de José I (sepultada no mosteiro dos Salesianos); José I; Isabel Cristina, mulher de Carlos VI; Leopoldo I; Carlos VI.

José I e a urna com o coração de Amélia Guilhermina

Leopoldo I

Carlos VI

- Cripta de Maria Teresa: Condessa Karoline Fuchs-Mollard, governanta da jovem imperatriz Maria Teresa que se lhe ligou afectivamente e a quem chamava "Fuchsin" (a raposa). Quer Maria Teresa quer mesmo Francisco I pediam muitas vezes conselho à "velha senhora", que foi nomeada Obersthofmeisterin (superintendente). Por determinação expressa da imperatriz foi enterrada no círculo familiar da cripta. O sarcófago ostenta a seguinte inscrição: «Em memória imortal de uma educação para as nobres virtudes. Da parte de um coração reconhecido e benevolente. Eu, Maria Teresa». É a única pessoa não pertencente à família imperial que se encontra sepultada na Cripta; José II; Maria Josefina, 2ª mulher de José II; Isabel de Parma, 1ª mulher de José II, não chegou a ser imperatriz por ter morrido antes do marido ter ascendido ao trono; Francisco I Estêvão de Lorena e Maria Teresa (sarcófago duplo).

Maria Teresa e Francisco I
Maria Teresa e Francisco I (sarcófago duplo), seu filho José II, abaixo (mortos) e Eu (ainda vivo)

- Cripta de Francisco: Francisco II (I); Maria Luísa, 3ª mulher de Francisco II (I); Isabel Guilhermina, 1ª mulher de Francisco II (I), não chegou a ser imperatriz por ter morrido antes do marido ter ascendido ao trono; Maria Teresa Carolina, 2ª mulher de Francisco II (I); Carolina Augusta, 4ª mulher de Francisco II (I).

Francisco II (I)

- Cripta de Fernando: Fernando I; Maria Ana, mulher de Fernando I. Nos nichos das paredes encontram-se os caixões de 37 príncipes e princesas da família imperial.

- Cripta da Toscana: Diversos príncipes; Maria Carolina (filha de Maria Teresa e de Francisco I), rainha de Nápoles e das Duas Sicílias; Leopoldo II; Maria Luísa, mulher de Leopoldo II.

- Cripta de Francisco José: Francisco José I, imperatriz Elisabeth, sua mulher; arquiduque Rodolfo, seu filho.

Francisco José I, Elisabeth e Rodolfo

- Capela da Cripta: Além do altar, encontra-se um busto do último imperador da Áustria, Carlos I, sepultado, como se disse, na ilha da Madeira, e uma estátua da Virgem, homenagem das mulheres húngaras, em 1899, à memória da imperatriz Elisabeth. Aí repousam a imperatriz Zita, os seus filhos, o arquiduque Otão e o arquiduque Carlos Luís, e a arquiduquesa Regina de Saxe-Meiningen, mulher do arquiduque Otão.

Zita

- Nova Cripta: Imperador Maximiliano do México, irmão de Francisco José; imperatriz Maria Luísa de França, mulher de Napoleão I e filha de Francisco II (I); diversos príncipes.

Maximiliano do México
Carlos José de Lorena, neto de Fernando III e arcebispo de Tréveris e príncipe-eleitor

Na Cripta dos Capuchinhos estão enterradas 148 pessoas, entre s quais 12 imperadores e 17 imperatrizes. Em dois sarcófagos repousam a mãe e o filho. À excepção de uma pessoa, a condessa Karoline Fuchs-Mollard, como se escreveu acima,  todos pertenceram às famílias Habsburg ou Habsburg-Lorena.

Outros túmulos

Após a sua dissecação, a maior parte dos defuntos era embalsamada. As vísceras, os cérebros e os olhos eram colocados em urnas de cobre conservadas na Catedral de Santo Estêvão. Os corações eram colocados em urnas de prata depositadas na Herzlgruft da Capela do Loreto da igreja de Santo Agostinho, anexa ao Hofburg.

Os sarcófagos, de estilo variado, testemunham as diferentes influências que ocorreram em sucessivas épocas. Uns são realmente sumptuosos, outros revelam uma modéstia real ou aparente. Mas nenhum nos faz esquecer o carácter efémero da vida terrena.

A cada sarcófago correspondem duas chaves: uma guardada pelos frades capuchinhos, a outra conservada  no armário das chaves da Geistliche Schatzkammer (Tesouro Eclesiástico) da Residência Imperial.

A cerimónia do enterro cumpria o ritual seguinte: o cortejo fúnebre saía da Residência Imperial e dirigia-se à Capela da Residência ou à Catedral de Santo Estêvão, onde o caixão, colocado sobre um catafalco, ficava exposto. Mais tarde, o caixão era conduzido ao portal do Mosteiro dos Capuchinhos, onde o conservador dos túmulos, os padres e outras figuras do clero aguardavam o cortejo para o conduzir à igreja, que se encontrava coberta por panejamentos negros ornamentados com o brasão da pessoa falecida.

Depois da missa de requiem, durante a qual o caixão ficara colocado num estrado no meio da igreja, os despojos eram transportados pelos capuchinhos, à luz de tochas, para o interior da cripta. Aqui, o conservador abria o caixão para verificar se a identidade da pessoa falecida era realmente a mencionada pelo mestre de cerimónias. Algumas semanas depois o caixão de madeira era benzido e colocado no respectivo sarcófago que seria fechado para sempre.

Existe uma versão mais completa do cerimonial, utilizada em diversas ocasiões, e que foi praticada, por exemplo, aquando do funeral da imperatriz Zita, em 1 de Abril de 1989.

O cortejo fúnebre dirige-se até à Igreja dos Capuchinhos, cuja porta se encontra fechada, e atrás da qual estão os frades. O mestre de cerimónias bate três vezes à porta da igreja com o bastão. Do interior, o conservador dos túmulos imperiais pergunta: «Quem pretende entrar?». O mestre de cerimónias responde, enumerando todos os títulos do defunto, neste caso: « Sua Majestade a Imperatriz Zita, por graça de Deus imperatriz da Áustria, rainha da Hungria, rainha da Boémia, da Dalmácia, da Croácia, da Eslovénia, da Galícia-Lodoméria e da Ilíria, rainha de Jerusalém, etc., arquiduquesa de Áustria, grã-duquesa da Toscana e de Cracóvia, duquesa da Lorena e de Salzburg, da Carníola, Caríntia e Bucovina, grã-duquesa da Transilvânia, duquesa da Morávia, duquesa da Alta e da Baixa Silésia, de Modena, Parma, Placência e Guastalla, de Auschwitz e Zator, de Teschen, Friul, Ragusa e Zara, duquesa principesca de Habsburg e do Tirol, de Kyburg, Görz e Gradiska, princesa de Trento e Brixen, Duquesa da Alta e da Baixa Lusácia, duquesa de Hohenems, Feldkirche, Bregenz, Sonnenberg, etc., etc.».

A porta permanece fechada, respondendo o conservador: « Nós não vos conhecemos».

O mestre de cerimónias bate uma segunda vez, e à mesma pergunta do conservador responde como anteriormente, enunciando os títulos da defunta. O conservador volta a responder: «Nós não vos conhecemos». A porta permanece fechada.

O mestre de cerimónias bate uma terceira vez, o conservador formula a mesma pergunta, mas agora o mestre de cerimónias responde: « Zita, uma pobre pecadora». Então, o conservador proclama: «Que entre». As portas da igreja abrem-se e os monges capuchinhos acolhem o defunto no seu seio.

Este ritual tem muito a ver, para não dizer tudo, com a cerimónia de uma iniciação maçónica.

Muito mais, e com muito interesse, haveria a dizer sobre a Cripta Imperial, mas o post vai já demasiado longo.



NOTA: A Casa de Habsburg retirou o seu nome do castelo de Habsburg, na Suíça e as origens da família remontam ao século X. O estatuto social dos Habsburg conheceu uma elevação notável em 1273, quando o conde Rodolfo IV de Habsburg acedeu ao trono do Santo Império com o nome de Rodolfo I. O poder da família foi-se alargando pela Europa Central, tendo começado a consolidar-se definitivamente com a eleição de Frederico III, em 1452 (sepultado na Catedral de Santo Estêvão, em Viena), época em que se criou a divisa AEIOU: "Austriae est imperare orbi universo" (a Áustria reina sobre o universo).

CARLOS QUINTO, pelo Ticiano (Museu do Prado)

O imperador Carlos Quinto, o mais notável dos Habsburg, "IL SOMMO IMPERATORE", segundo o Don Carlo, de Verdi, em cujo Império o sol nunca se punha, que reinou anteriormente à construção da Cripta Imperial, e porque também foi rei de Espanha, encontra-se sepultado no Panteão Real do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, próximo de Madrid.

O último imperador Habsburg (na linha masculina, já que as mulheres estavam excluídas do trono), foi Carlos VI, pai de Maria Teresa. Com o casamento desta com Francisco de Lorena (Francisco I) a dinastia passou a designar-se Habsburg-Lorena e manteve-se no poder até 1918, quando acabou o Império Austríaco.

1 comentário:

Elias Lima disse...

Excelente e muito interessante toda essa explicação! Muito obrigado.