domingo, 15 de setembro de 2019

SALÓNICA XXIX - BEY HAMAM



O Bey Hamam, também conhecido por "Banhos do Paraíso", é um edifício de banhos turcos situado na Avenida Egnatia, a leste da Igreja de Panagia Chalkeon.


Construído pelo sultão Murat II, entre 1436 e 1444, foi o primeiro e o mais importante hammam edificado em Salónica e o único que ainda permanece de pé. No local teriam existido anteriormente banhos públicos, no tempo do Império Romano.


Estes Banhos tinham uma parte reservada a homens e outra a mulheres. Cada uma delas compreendia três secções: um quarto frio, um quarto tépido e um quarto quente.


A parte masculina incluía uma grande sala octogonal fria, com uma galeria suportada por colunas, arcadas com janelas  e uma cúpula pintada. Seguia-se uma sala tépida, também octogonal, com uma cúpula com occuli e uma série de pinturas de plantas. Finalmente, passava-se ao complexo das salas quentes, de estrutura cruciforme, com uma mesa de massagem no centro. Oito pequenas salas tépidas e quentes existiam neste espaço e encontravam-se equipadas com bacias e bancos de mármore.


Anexo ao edifício existia uma cisterna para fornecimento de água e uma caldeira para aquecimento da mesma, depois convertida em vapor.


Os banhos continuaram a ser utilizados, com o nome de Banhos do Paraíso, até 1968, isto é, mais de meio século depois de os otomanos terem sido expulsos de Salónica, o que demonstra a afeição do povo grego a este tipo de "ritual" muçulmano. Nessa data, os Banhos transitaram para os serviços arqueológicos da cidade. O terramoto de 1978 danificou o edifício que foi posteriormente restaurado e é hoje utilizado para a realização de exposições e eventos culturais.


terça-feira, 10 de setembro de 2019

SALÓNICA XXVIII - IGREJA DE SOTIROS




A Igreja de Sotiros (Ναός του Σωτήρος), isto é, do Salvador, é uma capela bizantina do século XIV, situada na Avenida Egnatia, próximo do Arco de Galério. Também é conhecida como Igreja da Metamorfose do Salvador.


As investigações realizadas aquando do restauro (a capela fora gravemente danificada pelo terramoto de 1978) revelaram que o templo fora inicialmente dedicado à Virgem Maria, no tempo dos Paleólogos. Foi encontrado nas pesquisas um relicário contendo duas inscrições relativas a essa consagração, o que contradiz a visão geralmente aceite pelos eruditos que identificavam a igreja com o monydrion de Kir Kiros, mencionado no chrysobull do imperador João V, que está hoje no Mosteiro de Vatopedi.


Outros estudiosos pretendem que este monydrion fosse a capela de um maior complexo monástico, que identificam com o Mosteiro de Kir Joel.


Os trabalhos de restauro revelaram uma forma arquitectónica rara e foram encontrados dois túmulos, o que sugere que a sua estrutura poderia ser a de um monumento funerário. Uma moeda encontrada nas escavações aponta para 1350 a data da construção.


Esta igreja nunca foi convertida em mesquita durante a ocupação otomana, talvez pelo facto das suas reduzidas dimensões.


As pinturas das paredes estão distribuídas por três zonas. Oito profetas estão pintados entre as janelas da abóbada e no cimo desta pode ver-se a ascensão de Cristo, ladeado pelos anjos e contemplada pela Virgem e os Apóstolos. Nas paredes existem imagens relativas a temas litúrgicos. Estes frescos são contemporâneos da edificação da igreja.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O MUNDO DE ONTEM




Stefan Zweig (1881-1942) foi, certamente, um dos escritores mais lidos e traduzidos mundialmente na primeira metade do século passado. Natural de Viena, em cuja universidade se licenciou, e desfrutando de uma confortável situação económica, graças à fortuna da família, pôde consagrar-se à sua grande paixão, a literatura. Romancista, poeta, dramaturgo, biógrafo e jornalista, escreveu mais de trinta livros, que foram vertidos para os mais diversos idiomas. Em Portugal, a Livraria Civilização publicou, ao tempo, todos esses livros, embora existam agora algumas edições mais recentes.

Relativamente esquecido nas últimas décadas, autor de uma obra irregular, mas com momentos de inegável talento, Zweig não é um dos nomes cimeiros da literatura ocidental, mas também não é um escritor menor, como alguns pretenderam fazer crer durante um certo período. Os seus livro tiveram ampla divulgação na Áustria e na Alemanha, e alcançaram rápida projecção em todo o mundo.

No tempo em que vivemos, de tão profundas e significativas modificações, é interessante, e profícuo, reler O Mundo de Ontem (Die Welt von Gestern), editado em 1942 (a edição portuguesa que menciono é de 1953), onde Stefan Zweig traça a sua autobiografia até à ascensão de Adolf Hitler ao poder. O escritor debruça-se especialmente sobre a sua vida em Viena nos tempos de estudante, as suas amizades com personalidades sucessivamente mais notáveis, as viagens ao estrangeiro, a sua actividade literária, os usos e costumes da sociedade austríaca até ao início da Primeira Guerra Mundial. É esse mundo (de ontem) cujo desaparecimento Zweig profundamente lamenta. Um mundo que começou a desaparecer em 1914, que teve um efémero e pálido retorno entre as duas Guerras e que se afundou após a instalação do nazismo na Alemanha, e depois na Áustria.

Neste livro, por vezes demasiado minucioso e encerrando algumas contradições, ainda que bem traduzido (os tradutores antigos esmeravam-se habitualmente no seu trabalho) o escritor relata também a sua vida durante o período da Primeira Guerra, o tempo da Primeira República Austríaca e da República de Weimar, a credulidade ingénua dos austríacos de que Hitler nunca atacaria a Áustria (os mesmos que haveriam de ovacionar o Führer na Praça dos Heróis, em Viena e ratificar o Anschluss de 1938), e todas as desgraças subsequentes.

Sendo judeu, Stefan Zweig, verificando a situação existente de facto na Áustria e prevendo avisadamente o futuro, decidiu abandonar a sua casa de Salzburg e exilar-se em Inglaterra em 1934. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Zweig rumou em 1940 para os Estados Unidos, e daí para o Brasil, onde viria a suicidar-se (juntamente com a mulher), em Petrópolis, em 23 de Fevereiro de 1942, ao constatar que todo o mundo que era o seu se desmoronava à sua volta.

Abro um parêntese para recordar uma coincidência: o suicídio do casal Zweig talvez tenha sido um acto premonitório do suicídio de outro casal (Hitler e Eva Braun), sendo que a causa do suicídio de Zweig foi afinal a própria política de Hitler.

Não pretende este texto resumir uma biografia de Stefan Zweig (há várias editadas), mas tão só realçar o desencantamento do mundo sentido pelo escritor e amplamente exposto neste livro. Apesar de não termos desde há 70 anos uma guerra mundial, a aceleração do "progresso" processa-se hoje a uma velocidade que teria sido também insuportável para Zweig. Nunca, ao longo da História, tantas coisas mudaram tanto em tão pouco tempo. E mesmo os espíritos mais argutos têm dificuldade em adaptar-se ao mundo de hoje, o chamado "mundo novo" no léxico político de Emmanuel Macron. E ainda sobre guerras mundiais, é bom lembrar, temos tido, como já observou o Papa Francisco, uma guerra mundial a retalho, ora a frio ora a quente, como demonstram os conflitos na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria, na Ucrânia, etc. 

Revisitemos, pois, a obra de Stefan Zweig.

domingo, 1 de setembro de 2019

SALÓNICA XXVII - YENI TZAMI




A Yeni Tzami (em grego, Γενί Τζαμί, em turco, Yeni Camii = Mesquita Nova) foi construída pelo arquitecto italiano Vitaliano Poselli em 1902 para a comunidade Dönmeh, isto é, para o grupo de judeus que se tinham convertido (pelo menos aparentemente) ao islão. Esta comunidade centrou-se especialmente em Salónica, e não era olhada com muito bons olhos quer por judeus, quer por muçulmanos. 



Foi a última mesquita construída em Salónica, num estilo um pouco híbrido, combinando influências islâmicas com tendências modernas, e já num lugar um pouco excêntrico ao centro da cidade.



Após a libertação de Salónica do Império Otomano, e a troca de populações entre a Grécia e a Turquia, a mesquita foi desactivada e passou a servir como museu arqueológico (1925), até à construção do actual Museu. 



Exactamente por isso, fica situada numa rua que ainda hoje se chama Rua do Museu Arqueológico.



A Yeni Tzami é agora utilizada como centro de exposições e outras manifestações culturais.



No terreno exterior existe um grande número de sarcófagos da era romana e dos primeiros tempos cristãos, encontrados em escavações na zona da cidade, bem como estelas votivas e algumas estátuas.