UMA VALIOSA CONTRIBUIÇÃO PUBLICADA NO FACEBOOK POR DANIEL MADEIRA DE CASTRO, E QUE PELO SEU INTERESSE SE TRANSCREVE:
Regulares Ingleses contra Liberais Franceses
Um panorama atualizado da Maçonaria Mundial em 2016 - por Jean-Moïse Braitberg
A Maçonaria pretende ser o “Centro de União”. Mas onde se encontra esse
famoso centro? Em Londres ou Paris? As duas principais tendências da
maçonaria mundial, que se divide entre “regulares” e “liberais” somam
verdadeiras rivalidades históricas, diferenças reais de abordagem
espiritual, social, simbólica, que, seja o que for que se pense, não
estão perto de desaparecer. Especialmente se os liberais parecem agora
segurar a corda, é muitas vezes uma reação contra uma maçonaria
“inglesa” considerada dogmática, separada do mundo, envelhecida.
Os
Maçons acreditam em Deus? A Maçonaria é mista? Os Maçons fazem política?
Eles são progressistas ou conservadores? Os membros de muitas potências
francesas geralmente têm pouca dificuldade em responder a estas
perguntas básicas que parecem lógicas na paisagem maçônica francesa.
Mas, suponhamos que você seja membro de uma loja Inglesa ou afiliada à
Grande Loja Unida da Inglaterra. Estas perguntas parecerão absurdas a
você, ou deslocadas na medida em que elas são estranhas à visão de
Maçonaria que ainda prevalece em grande parte do mundo. Porque no seio
da Maçonaria Mundial, não é um estreito Pas-de-Calais que separa
ingleses e franceses, mas um oceano de incompreensão que, se raramente
se tinge de hostilidade aberta, banhada da arrogância mútua de dois
continentes soberbamente isolados entre si.
Golpe de cinzel no contrato fraternal
Nessa rivalidade histórica e geopolítica, Londres sempre se prevalecerá
do privilégio da anterioridade. Se o inspirador das constituições
Anderson fundadoras da Maçonaria Universal foi Jean-Théophile
Desaguliers, um pastor de origem francesa, mas já muito inglês, é em
Londres e no Reino Unido que as antigas obrigações se espalharam entre
1700 e 1717. No entanto, foi apenas duzentos anos mais tarde, em 1929,
que a Grande Loja Unida da Inglaterra, proclamou uma regra de vinte e
cinco pontos dos quais o oitavo foi o golpe de cinzel , senão de punhal
no contrato fraterno que, bem ou mal admitia a regularidade das lojas
francesas e afiliadas desde 1728: “Grandes Lojas irregulares ou não
reconhecidas: Existem algumas chamadas potências maçônicas que não
respeitam essas normas, por exemplo, que não exigem de seus membros a
crença em um Ser Supremo, ou que encorajam seus membros a participar
como tais em assuntos políticos. Estas potências não são reconhecidas
pela Grande Loja Unida da Inglaterra como sendo maçonicamente regulares,
e todo o contato maçônica com elas é proibido.” As lojas filiadas à
GLUI, e mais especialmente as lojas americanas e canadenses, que também
já havia mantido relações amigáveis com a maçonaria “continental” foram
mais lentas em adotar a mesma atitude sectária. A rutura entre as duas
maçonarias não foi definitiva até o início dos anos 1960. O fato é ainda
mais incompreensível que sobre o mérito, a exclusividade proclamada por
Londres aplica-se tanto às potências e lojas deístas como as da Grande
Loja de França ou do Direito Humano que trabalham sob os auspícios do
Grande Arquiteto do Universo, quanto a aquela que fazem da liberdade
absoluta de consciência a pedra angular de sua filosofia.
É verdade
que no que diz respeito à Federação Internacional du Droit Humain, que
possui há bastante tempo lojas em países dominados pela GLUI, a loja
mista é um dos principais motivos para o não reconhecimento, ainda mais
inaceitável que a liberdade de consciência. Se somarmos a essas
diferenças a visão política ou social que certas lojas liberais
defendem, não faltarão motivos para explicar a fratura que atravessa a
maçonaria mundial. Mas tanto quanto razões ideológicas ou filosóficas,
esta divisão é o resultado de circunstâncias geopolíticas ligadas à
respetiva influência da França e da Inglaterra no mundo desde o final do
século XVIII.
O papel da maçonaria francesa no desenvolvimento das
idéias liberais na Europa havia desafiado os britânicos e estes puderam
constatar o efeito dessa propaganda. Em primeiro lugar, na América por
ocasião da expedição do maçon Lafayette, depois na Irlanda uma geração
mais tarde. A grande revolta dos patriotas irlandeses de 1798 que foi
afogada em sangue tinha tido como líder Wolfe Tone, um republicano
liberal de religião presbiteriana que não sabemos se foi iniciado, mas
de quem uma loja do rito irlandês tem seu nome. Vestido em uniforme
francês, ele estava no navio comandado pelo maçon e corsário
Jean-Baptiste Bompard cuja tentativa de desembarque em Donegal terminou
em um fiasco. Esta foi a época em que como uma reação contra a maçonaria
do Iluminismo, os mais conservadores dos protestantes irlandeses
criaram a ordem para maçônica de Orange. O antagonismo entre duas visões
de maçonaria era parte da história. A animosidade inglesa em relação a
tudo que vinha da França, já grande, é reforçada nos anos seguintes
diante de Napoleão I e seu Areópago de marechais maçons que pretendiam
colocar a Europa sob um golpe regulada por um imperador coroado pelo
papa … a quem o maçon “inglês” Blücher fez vomitar na planície de
Waterloo.
Duas religiões, duas legitimidades
Não se pode
nunca destacar suficientemente a importância da questão religiosa na
diferença que opõe a visão do mundo anglo-saxã à visão de mundo latina
e, especialmente francesa. Mas aqui, ela é menos diferença doutrinária
entre católicos e protestantes que visões de mundo, resultantes de
diferentes sistemas de fidelidade. No Reino Unido, cuja história é tão
sangrenta quanto a da França pelas guerras religiosas, é a rainha ou o
rei que incorpora a legitimidade política confundida com a legitimidade
religiosa. A Maçonaria, cujo surgimento no final do século XVII foi
também uma empresa para reunir aqueles que estavam dispersos em excesso
de conflitos religiosos, naturalmente se alinhou sob a coroa
simbolizando a unidade do país. Tradicionalmente, e até hoje, são
príncipes de sangue real que dirigem, pelo menos simbolicamente, a
Maçonaria Inglesa. Foi o mesmo na França até a Revolução, primeiro, e
depois sob Napoleão, e sob as duas restaurações que se seguiram. Até a
Segunda República, as condenações papais tiveram pouco efeito sobre o
ingresso de católicos, incluindo muitos religiosos na Maçonaria. Neste
contexto, a figura eminente de Joseph de Maistre, um fervoroso Católica
que desprezava a República e também propagador na Europa do Rito Escocês
Retificado, ilustra essa distorção. Entretanto, com a evolução
autoritária do Segundo Império concomitante com mudanças sociais
trazidas pela Revolução Industrial, a Maçonaria francesa mudou
gradualmente de face. Anteriormente monarquista, católica e
aristocrática, ela gradualmente se torna popular, pequeno-burguesa,
republicana, senão protestante e judaica, pelo menos amplamente aberta
às correntes liberais dessas duas religiões. Isso foi verdade tanto para
a Grande Loja de França quanto para o Grande Oriente de França. No
entanto, esta evolução liberal, se não libertária, foi parada por dois
eventos, aparentemente independentes, mas que de fato imporia à
Maçonaria francesa uma nova aliança legalista. Em primeiro lugar, o
esmagamento da Comuna de Paris na qual estavam envolvidas lojas
parisienses obreiras, foi amplamente aprovado pelas lojas republicanas
burguesas do Grande Oriente de França. Então, em 1877, o abandono pelo
GODF da referência ao Grande Arquiteto do Universo, consagrou a
preeminência da potência enquanto “Igreja da República”, dando aos seus
membros um papel de Cavaleiros Templários seculares que eles assumem com
zelo até nossos dias.
É assim tanto uma briga doutrinária quanto um
conflito de legitimidade que levou a partir de 1877 a uma rutura de
fato entre o Grande Oriente da França e a Grande Loja Unida da
Inglaterra. Conflito ainda mais marcado pelo fato de que a época era de
expansão colonial. E nós sabemos quanto a Maçonaria operava tanto para o
poder colonial francês quanto para o papel do Império Britânico, como
um traço de união com as elites locais. Como zelosos missionários,
funcionários e militares maçons de ambas as margens do riu delimitaram
suas respetivas zonas de influência como fizeram na África após o
incidente de Fashoda. Para as obediências francesas as possessões na
África, Indochina e do Pacífico. Para a GLUI a Índia, Oriente Médio e
suas colônias africanas. A América do Norte, embora já adquirida pela
GLUI permaneceu ainda aberta por muito tempo às relações com a maçonaria
liberal, enquanto a América Latina, constituída por Estados soberanos
teve o prazer de conciliar as duas influências, mas com uma preferência,
por vezes, pela visão liberal.
Assim, o mapa da maçonaria mundial
fora da Europa foi delimitado a partir do final do século XIX. E iso até
a descolonização. Essa teve, primeiro, o efeito de eliminar a Maçonaria
de territórios onde ela não estava estabelecida somente entre os
colonos e expatriados ou entre uma franja fina das elites
ocidentalizadas. Este foi o caso para as lojas francesas em todo o
Magrebe, bem como na Indochina onde tudo o que era maçônico foi de barco
para o exílio e a derrota. Para os ingleses, foi a ascensão do
nacionalismo árabe que em seu auge depois de 1956, varreu as poderosas
potências maçônicas egípcia e iraquiana. Somente resistiriam para os
liberais as maçonarias da África negra e de Madagáscar e para a
“regulares” a maçonaria indiana, ainda que muito reduzida desde os dias
de Kipling, permanece até hoje a única maçonaria de alguma importância
na Ásia.
“Guerra Fria” entre maçons
Se este quadro,
traçado apressadamente permanece ainda atual em termos gerais, ele
sofreu desde os anos sessenta a uma série de alterações que modificam um
pouco as suas perspetivas. De particular interesse é a crescente
influência da Grande Loja Nacional Francesa, que defende os interesses
da GLUI sob a bandeira francesa. Mais uma vez, é preciso fazer um pouco
de geopolítica. O Rito Inglês no estilo Emulação introduzido na França
em 1901, na Loja Anglo-saxã, criada dentro da Grande Loja de França
tinha uma influência muito limitada até depois da Segunda Guerra
Mundial, quando sob a influência de muitos maçons americanos presentes
nos quadros da OTAN, foi criada a GLNF reconhecida imediatamente como
regular pela GLUI. Até então, ao contrário dos ingleses, os maçons
americanos mantinham relações cordiais com seus irmãos franceses. Mas a
decisão do general de Gaulle de se retirar da OTAN, quando as bases
militares deixaram o território francês em meados da década de 1960
levou a uma verdadeira guerra fria entre maçons franceses, todas as
potências combinadas, exceto a GLNF e maçons do mundo anglo saxão.
A
famosa “arrogância” francesa foi na época qualificada de
cripto-comunista, epíteto com que foi presenteado o Grão-Mestre do GODF,
Jacques Mitterrand, por todos aqueles que, na maçonaria francesa e
internacional reprovavam a politização da potência. Entenda-se isso como
progressista. Esta reputação colou-se de uma vez por todas à obediência
da Rue Cadet e foi, portanto, possível, ao abrigo de regularidade e
ortodoxia do rito, talhar-lhe algumas pedras brutas em seu jardim
africano. Assim, enquanto que, por tradição e também pelo jogo político,
a maioria das lojas da África Negra permaneceram na órbita do GODF após
a independência, vimos aqui e ali, principalmente no Gabão, aparecer
potências nacionais ligadas à GLUI, mas apoiadas, se não sustentadas
pela GLNF.
Aqui se coloca a questão de difícil compreensão para o
profano, da relação entre rito e potência. Se a diferença entre
“regular” e “liberais” se limitasse apenas ao rito, ela não teria razão
de ser. O que é comumente chamado de ritos ingleses, isto é, os chamados
Emulação e Rito de York, que são os da GLNF, são praticados por algumas
lojas do Grande Oriente de França e do Droit Humain. Além disso, o
antigo Grão-Mestre do GODF Alain Bauer é um alto dignitário do Rito de
York no seio da obediência. Da mesma forma, o Rito Escocês Antigo e
Aceito (REAA) quase desconhecido no Reino Unido, e muito menos na
Escócia, é praticado por algumas lojas americanas e de uma forma quase
exclusiva pela Grande Loja de França e do Droit Humain. A mesma situação
vale para os altos graus cujos capítulos em todo o mundo, obedecem à
mesma distribuição geopolítica que as lojas simbólicas.
Os “Regulares” majoritários, mas em declínio constante
Isto pode parecer absurdo e, em princípio, contrário ao espírito da
Maçonaria, cujo principal objetivo é reunir o que está espalhado. No
entanto, é ela que, ainda hoje, desenha a paisagem maçônica mundial e
ainda mais nas próximas décadas vai decidir o futuro da maçonaria em
geral. Não nos enganemos: em nível global, a maçonaria não para de
declinar desde os anos 1960. Para isso pode-se encontrar muitas
explicações, mas não se saberia analisar o fenômeno, sem levar em conta a
especificidade da Maçonaria “regular”, ali onde ela era mais poderosa,
ou seja, no mundo Anglo Saxão. Se tomarmos o exemplo dos Estados Unidos,
os maçons que encarnaram até a Segunda Guerra Mundial, as ideias
fundamentais da democracia americana, gradualmente abandonaram qualquer
pensamento social, em favor de uma visão conservadora, congelado,
antiquada da sociedade americana. Tudo o que esta última fez evoluir na
segunda parte do século XX foi, se não combatido, pelo menos, ignorado
pelas lojas. A emancipação dos negros, embora ainda existam batalhar a
vencer, já é uma realidade na sociedade americana, embora brancos e
negros tenham uma maçonaria separada com base no princípio da
segregação. O lugar da mulher na sociedade americana, provavelmente o
mais avançado do mundo ocidental, ainda é um tabu na Maçonaria
estadunidense onde lojas mistas estão ausentes e lojas femininas quase
inexistem. Finalmente, a questão do reconhecimento do fato homossexual
não só está a milhares de quilômetros das preocupações das lojas
americanas, mas certas entre elas, como recentemente no Tennessee,
pronunciaram-se abertamente em favor de medidas discriminatórias contra a
comunidade gay.
A isso se soma uma prática maçônica muito estranha
que se transforma a iniciação em uma espécie de trote e a frequência às
lojas uma formalidade social. Na verdade, durante as aulas de um dia,
cerimônias de um dia inteiro, que os candidatos ingressam e passam pelos
três primeiros graus, antes de prosseguir em uma carreira maçônica nos
altos graus de maneira quase tão rápida, pontuadas por três ou quatro
sessões realizadas por ano.
Distante das realidades da sociedade,
envelhecida, reduzida a uma atividade de clube de serviço, a maçonaria
americana, que teve quase quatro milhões de membros nos anos 1950 não
contam hoje nem com a metade disso. E, ainda, este número inclui todos
aqueles que em um momento ou outro foram iniciados. O número real de
membros da Maçonaria norte-americana seria mais perto de duzentos mil
membros, em sua maioria com idade superior a setenta anos.
Esta
situação não é muito diferente no Reino Unido, onde a maçonaria, antes
emblemática de um certo modo de vida britânico, está em declínio
constante. Certamente, os rituais são praticados ali de maneira mais
séria do que nos EUA, mas as sessões obrigatórias têm lugar apenas uma
vez a cada dois meses, e a Maçonaria britânica, em seu todo muito
conservadora e comprometida com a crença em um deus revelado, está
separada de uma sociedade cada vez mais multicultural e cada vez menos
religiosa. A ausência de debates sociais em loja, o envelhecimento dos
membros, a recusa absoluta das lojas mistas e a quase ausência da
maçonaria feminina completam um quadro pouco dinâmico que se pode, com
apenas alguns detalhes a mais ou a menos, transpor para a Austrália,
Nova Zelândia, África do Sul, Canadá e Israel, países onde a maçonaria
ligada à GLUI foi por muito tempo poderosa.
… e os liberais minoritários que progridem
Em última análise, com exceção da pequena Islândia, pais que tem a
maior proporção de maçons no mundo, é na França que a maçonaria inglesa
seria mais dinâmica. E não é sem interesse saber dos os esforços feitos
pelas potências francesas, incluindo o Grande Oriente da França
principalmente (ver quadro), mas também o Droit Humain, para se
implantar e, se possível progredir no Reino Unido (duas lojas do GODF,
doze lojas do DH e uma loja do Grande Oriente da Itália) e na Irlanda
(três lojas do GODF). Note-se também que ao lado de algumas lojas
liberais localizadas em Nova York, é na Califórnia que as esperanças de
um renascimento da maçonaria americana são maiores, com uma loja do GODF
em San Francisco, mas também contatos esporádicos sob a cobertura de
simpósios históricos e em outros eventos entre a Grande Loja da
Califórnia e o GODF, bem como da Grande Loja Feminina de França e o
Droit Humain. Observou-se também, na década de 2000, a presença de
representantes do GODF e da Grande Loja de França, durante uma
conferência maçônica por iniciativa da Grande Loja de Minnesota. No
entanto, por mais promissores que sejam, esses contatos não foram
acompanhados por nenhum acordo entre as potências e o horizonte de
reconhecimento ainda parece muito distante.
Fora a África Ocidental,
tradicional território de potências francesas, e em alguns países do
sul da Europa (ver caixa), é hoje na América Latina que a Maçonaria
liberal mais se desenvolve. Tradicionalmente ligada à emancipação dos
povos da região através da memória de maçons ilustres que foram José
Martí em Cuba, Giuseppe Garibaldi no Uruguai e Simon Bolívar, o
libertador do subcontinente, a maçonaria liberal ali se desenvolve há
bastante tempo uma fraternidade matizada de cultura latina e
secularismo. O México tem sido há tempos a ponta de lança, enquanto que
no Uruguai se encontra a loja mais antiga da América do Sul filiada ao
GODF. No Brasil, que tem uma infinidade de potências, incluindo a
tradição “egípcia”, a maçonaria é um bom exemplo de diversidade, mas
também de desunião, mas com um aumento acentuado de lojas do Droit
Humain. Por outro lado, na Argentina e, em menor medida, no Chile, onde
se encontra um Grande Oriente Latino-americano, a margem de progressão
da maçonaria liberal continua a ser considerável.
O mesmo se aplica
ao Extremo Oriente, onde, além da Índia, que conta com cerca de 20.000
maçons, maçonaria tanto “regular” quanto liberal nunca fez sucesso.
Provavelmente porque têm a sua própria abordagem simbólica, os chineses,
japoneses e Thais nunca estiveram realmente interessados em uma
maçonaria que, embora queira ser universal, baseia-se na mitologia
bíblica, bem como uma forma de pensamento, características e ferramentas
simbólicas de mentalidade ocidental. Falar de colunas do templo de
Salomão a um chinês para quem o mundo é circular ou de secularismo a um
japonês, cuja identidade é inseparável do culto xintoísta não faz
sentido algum.
Resta o mundo árabe-muçulmano, onde algumas pessoas
nutrem desde longo tempo a esperança de restaurar a maçonaria à sua
antiga glória para conter o máximo possível o fanatismo religioso.
Totalmente ausente da Argélia, a Maçonaria existe na Tunísia com lojas
filiadas ao GODF, cujos membros se reúnem na discrição mais absoluta.
Fora a notável exceção do Marrocos, onde quase todas as potências
liberais estão representadas, e o Líbano, onde se enreda uma
multiplicidade de potências cujo número de membros não excede,
normalmente, dez membros, a maior parte do mundo árabe e muçulmano
também parece fechado para a Maçonaria como ela é hoje, para o
secularismo, para a emancipação das mulheres e para a tolerância em
relação à homossexualidade.
A cifra de sete milhões de maçons em
todo o mundo, às vezes apresentada, é certamente falsa. Sem dúvida, ela
está realmente mais perto de dois milhões de maçons ativos. E desse
número, pouco mais do que três a quatro centenas de milhares de irmãos e
irmãs estão sinceramente comprometidos com a liberdade de consciência, o
respeito pelos outros na sua diversidade e convencidos de que devem
trabalhar tanto para a melhora do homem em seus aspetos morais quanto
materiais. É muito pouco. Mais uma razão, nestes tempos tenebrosos, pare
que cada um se ocupe em recuperar a sua luz sobre o mundo.
Quadros
A Aliança Maçónica Europeia. Um lobby maçônico em Bruxelas
Tradicionalmente, na Europa, os “regulares” estavam no Norte e os
liberais no sul. Esta realidade geográfica se cruza com outra história,
que deixou traços. Fora das maçonarias austríaca e alemã,
predominantemente “regulares”, são essencialmente os liberais que foram
perseguidos por ditaduras comunistas e fascistas. Assim, certamente,
existe maior tradição de discrição no sul da Europa. Depois de 1989, foi
a corrida para o Leste para uns e para outros. Quase trinta anos
depois, se contarmos belas realizações nos Balcãs, a presença maçônica
na Rússia e na Europa Oriental ainda está em formação. Se as maçonarias
polonesa e húngara são bem constituídas, eles mostram coragem em países
cujos governos leem seu futuro no seu passado mais obscuro.
Fora
seus dois pilares que são a França e a Bélgica, a Maçonaria liberal é
representada por potências nacionais ligadas principalmente ao Grande
Oriente de França e ao Droit Humain em cerca de quinze países europeus.
Com exceção da Sérvia, as potências liberais desses países *, a que se
juntam a Turquia e o Marrocos constituíram há dois anos a Aliança
Maçônica Europeia que agrupa 22 potências. “Trata-se de representar
junto às autoridades europeias uma força de diálogo e proposta baseada
no secularismo e nos valores de escuta e tolerância da Maçonaria
adogmática. Julgamos ser útil se fazer ouvir por meio de lobbies junto a
Bruxelas para não deixar este terreno às religiões e à extrema direita.
Atualmente, somos signatários da petição Wake Up Europe denunciando os
abusos do regime autoritário de Viktor Orban na Hungria. Não nos opomos à
que os “regulares” se juntem a nós, mas por enquanto eles estão
ausentes neste terreno”, explica Henri Sylvestre, Grande Secretário para
os Assuntos Externos do GODF, potência que, junto com o Grande Oriente
da Bélgica e as federações do Droit Humain estavam na origem desse
projeto.
Contacto - Aliança Maçônica Europeia, 75 rue de Laeken, 1000 Bruxelas secretariat@ame-ema.eu
* Áustria, Bélgica, Espanha, França, Grécia, Hungria, Luxemburgo,
Marrocos, Holanda, Polônia, Portugal, Romênia, Eslovênia, Suíça,
Turquia.
Inglaterra. Quando os franceses desembarcam…
Terra de Missão, ou terra simplesmente incógnita para os franceses de
tradição adogmática, o Reino Unido tem alguns poucos passageiros (quase)
clandestinos, seguidores de uma maçonaria aberta de Rito Francês,
trabalhando em Inglês, e que até defende as lojas mistas. Chocante!
Em 2010, Philippe Bodhuin, de Calais era conselheiro da ordem do GODF e
membro da Loja Hiram, única loja francesa trabalhando em francês em
Londres por mais de cem anos. “Esta situação não era absolutamente
satisfatória. A ideia nos ocorreu de criar uma loja trabalhando em
Inglês, de modo a não limitar o recrutamento aos expatriados”. Isso foi
feito em 2010, quando foram criadas as R.L “Freedom of Conscience” –
Liberdade de Consciência – que se reúne em um templo do Droit Humain, já
presente no Reino Unido. A partir de um núcleo de 26 membros
originários da Loja Hiram, esta nova loja procedeu então a uma dúzia de
iniciações, incluindo dois ingleses. O que é mais um feito que, de
acordo com Philippe Bodhuin que é o atual venerável, “Recebemos
regularmente membros da GLUI que não assinam o livro de presença, mas
estão muito interessados em nossos trabalhos com os ritos francês e
Inglês. Eles ainda descobrem uma maçonaria ativa na qual é possível não
acreditar em deus ou na imortalidade da alma, crença obrigatória em
lojas inglesas, embora muitos de seus membros não acredito nisso.”
Quanto às lojas mistas, está programado assim que a oportunidade surgir.
Além disso, o fato de estar em Londres é de interesse para esta loja,
para misturar-se a uma população cosmopolita atraída pela maçonaria, mas
que ignorava tudo sobre a maçonaria de Rito Francês. O que já permitiu
estabeleceu contactos com maçons de Malta e criar três lojas na
República da Irlanda.