segunda-feira, 18 de julho de 2011

MORTE ESTRANHA NO REINO UNIDO


O antigo jornalista do News of the World, Sean Hoare, o primeiro a confirmar publicamente a prática de escutas ilegais no tablóide, foi encontrado morto nesta segunda-feira, em casa.

Segundo informa o jornal Público, a morte está ainda por esclarecer, mas não é considerada suspeita. Mesmo assim, o chefe da Scotland Yard apresentou ontem a sua demissão e o escândalo das escutas está a agitar a vida política britânica e a provocar uma tempestade na Câmara dos Comuns. O magnata Rupert Murdoch, envolvido profundamente nos processos menos límpidos do seu império comunicacional tenta salvar dos escombros o que pode, mas as ligações perigosas da política e do jornalismo atingem aqui um pico inusitado.

Recorde-se que desde os tempos do sinistro Tony Blair que a promiscuidade entre o poder e a comunicação social se instalara em Downing Street, para não recuarmos mais no tempo. O diário Guardian fornece uma notícia detalhada sobre Hoare e o escândalo que abala o Reino Unido, se ainda alguma coisa, depois das mentiras sobre as armas de destruição maciça do Iraque, poderá abalar aquele país.

O DILEMA SÍRIO

Monumento a Saladino, frente às muralhas da Cidade Velha de Damasco

A revolta popular contra o regime de Bashar Al-Assad e a consequente repressão governamental, que já provocou mais de mil mortos, revestem-se da maior gravidade, ainda que grande parte da comunicação social a nível mundial não lhes atribua a importância devida, preferindo salientar apenas os aspectos exteriores susceptíveis de criar maior impacto junto do público.

É certo, e sabido, que a república síria, sendo formalmente uma democracia, como o eram a tunisina e a egípcia, é um regime ditatorial e que Bashar "herdou" o poder por morte de seu pai, o presidente Hafez Al-Assad. Também é verdade que o novo presidente, no poder há uma década, empreendeu reformas económicas e sociais, mas o sistema político manteve-se praticamente inalterado. A "primavera de Damasco" não trouxe - nem poderia trazer - o estabelecimento de uma democracia representativa.

Os movimentos de contestação política, iniciados na Tunísia no final do ano passado e que rapidamente se propagaram ao Egipto e a outros países árabes, não poupariam obviamente a Síria, ainda que fosse crível esperar que não se revestissem da violência que têm assumido. 

Todos os países árabes são governados de forma mais ou menos autoritária  e apesar do triunfo das revoluções na Tunísia e no Egipto, não foi ainda dita a última palavra sobre o desfecho da contestação popular. A Tunísia já adiou as eleições para uma assembleia constituinte e no Egipto a Junta Militar mantém um suspense sobre o evoluir dos acontecimentos. Nem todas as cartas estão jogadas. A situação na Líbia arrasta-se penosamente, com numerosas vítimas, e nem Qaddafi sai nem o Conselho Provisório, apoiado pela NATO, se instala em Tripoli. 

O caso da Síria é, todavia, mais complicado. Como, aliás, todo o Médio Oriente, fruto de uma partilha, feita a régua e esquadro pela Grã-Bretanha e a França, de territórios outrora pertencentes ao Império Otomano. Os novos países, criados segundo os interesses ocidentais, retalharam etnias e religiões, dispersaram tribos, dividiram populações. A convivência pacífica na Síria, nos últimos anos, e uma relativa liberdade, é, paradoxalmente, facto da existência de um regime ditatorial que assegura a coexistência de gentes muito diversas. E esse regime funciona sob a direcção da "família" alauita, que não representa mais do que 10% da população do país. A implantação de um regime de eleições livres levaria inevitavelmente à queda do regime. 

A contestação coroada de (aparente) êxito na Tunísia, que levou à saaída do presidente Ben Ali, foi o rastilho que incendiou o mundo árabe. Os povos de todos os países decidiram aproveitar a oportunidade, julgando ver chegada a sua hora, mas as coisas não foram, não são, nem serão tão fáceis de resolver, como os mais entusiastas puderam pensar. E as consequências revelar-se-ão pesadas. Além do mais, existem outros actores nestas revoluções que não apenas os povos revoltados, porque ninguém acredita que não haja ingerências estrangeiras nestes movimentos inicialmente espontâneos. Na Líbia, sob o pretexto inicial de uma acção humanitária, a intromissão é por todos visível. Sem prejuízo de sabermos que Qaddafi é o mais antigo líder árabe no poder, o mais imprevisível e o mais opressor.

Regressando ao Médio Oriente, o panorama é desolador. O Iraque, que manteve alguma tranquilidade interna durante o regime de Saddam Hussein (descontando a repressão dos curdos), foi devastado pela invasão anglo-americana e de mais alguns países. O Líbano conheceu nas últimas décadas uma interminável guerra civil, que nada garante não volte a reacender-se. A Jordânia vive um equilíbrio instável. A Palestina continua ansiando por uma independência justa, sucessivamente protelada. A Síria, onde tem reinado um clima de paz nos tempos recentes, arrisca-se a uma confrontação de duração imprevisível e de efeitos devastadores, caso se verifique um desmoronamento do actual regime.

A ideia de "exportar a democracia", tão cara a Bush e ao seu bando, nunca teve por objectivo a instalação da democracia nos países árabes mas sim o estabelecimento de uma economia de mercado ultra-liberal, que teve nos neo-conservadores americanos os mais ardorosos defensores. Samuel Huntington agitara o espantalho do choque de civilizações, Francis Fukuyama achou que a História chegara ao fim, e até o académico Bernard Lewis se prestou para assessorar a administração Bush na invasão do Iraque.

Nem a democracia "à ocidental" se exporta, nem a tradição dos países árabes é compatível com a instalação súbita de um regime tipo norte-americano, isto supondo que os Estados Unidos são uma democracia e não uma oligarquia. O que tem interessado mais recentemente ao Ocidente em geral e a Israel em particular é o retalhar dos países árabes para mais facilmente poderem ser dominados. Além da obtenção de condições mais favoráveis para o espoliar das suas riquezas naturais, nomeadamente o petróleo.

Voltando à Síria, para terminar, estamos perante um dilema: a manutenção do regime de Assad, com a introdução de reformas, é a mais favorável, por agora, para a paz no país, mas a repressão violenta levada a cabo nas últimas semanas poderá inviabilizar tal propósito. Ou seja, não há uma solução razoável à vista.  Aguardemos, pois, o evoluir dos acontecimentos.

domingo, 17 de julho de 2011

UMA ÓPERA PARA O TEMPO PRESENTE


Les Troyens, de Berlioz, no Metropolitan, sob a direcção de James Levine. Jessye Norman interpreta Cassandra

Uma ópera para ver e ouvir, naturalmente, mas também para meditar, já que os tempos que vivemos são quiçá perigosos para não recearmos os Cavalos de Tróia que subrepticiamente, ou não, se introduzem na nossa vida quotidiana. Nunca é demais atendermos às profecias de Cassandra.

sábado, 16 de julho de 2011

E O CENTRO DE SAÚDE FICOU PARA MELHORES DIAS


Há uns dias que andava para publicar este boneco, mas precisava de confirmar uma informação que tinha sabido. A de que o Isaltino Morais, que há muito devia estar a cumprir a pena de prisão a que foi condenado, transferiu o dinheiro que estava destinado à construção do Novo Centro de Saúde de Algés, (a maior ambição dos seus moradores há já dezenas de anos), para concluir a segunda fase do Parque doa poetas. O atual Centro de Saúde é um velho edifício de habitação, com escadarias e sem o mínimo de condições, situado já em Lisboa e que é frequentado por uma envelhecida população. De todas as formas possíveis os habitantes chamaram a atenção da Câmara de Oeiras para a necessidade de novas instalações, quer nas ruas, em intervenções nas Assembleia Municipais, que em Baixo-assinados com muitas milhares de assinaturas. Desde sempre a promessa de que no próximo mandato é que era o Centro foi sendo adiado de ano para ano. Nas últimas eleições, para além da promessa, deitaram abaixo una velha garagem dos bombeiros, fizeram lá um grande buraco, colocaram uma cerca de metal e vários cartazes com a imagem do futuro edifício do noco Centro de Saúde de Algés. Agora é que é, mas pelos vistos continua a não ser. O dinheiro que lhe estava destinado foi transferido para acabar a segunda fase do Parque dos poetas, a obra emblemática do Isaltino. Dá-se prioridade a pessoas de pedra e não às pessoas de carne. Haja vergonha.

(Publicado hoje pelo blogue "We Have Kaos in the Garden")

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CORFU



Durante uns breves dias passados numa praia da Dalmácia, reli Corfou, do australiano Robert Dessaix (n. 1944), autor de várias obras, nomeadamente as interessantíssimas Night Letters.

Lera o livro há cerca de dez anos, quando foi publicado, e voltei agora a ele, não em Corfu (o que não deixo de lamentar) mas numa zona próxima. A ilha não é hoje o que Dessaix descreve e o próprio Dessaix refere que já não era, quando a conheceu, o que a tornou famosa. Não esqueçamos que a aldeia de Gasturi foi um local de refúgio (e meditação) da imperatriz Elisabeth de Áustria (Sissi), que ali edificou um palácio. Mas com o turismo de massas e a globalização acelerada deste nosso mundo, tudo muda, certamente para pior. A vida autêntica das gentes de Corfu, que era motivo de atracção dos viajantes e constituía, como em tantos outros lugares, um encanto para o espírito (e não só) e as paisagens soberbas entre o Adriático e a Albânia, pertencem ao passado.

A obra de Robert Dessaix não é um guia turístico, embora aluda a locais, usos e costumes da terra. É um romance inspirado na vida do actor e autor australiano Kester Berwick, mas é também, de certo modo, ainda que não confessado, uma biografia de Dessaix. Num permanente flash-back, mais literariamente em analepse, percorre a vida do narrador (o próprio Dessaix ?), a vida de Berwick, e as de umas tantas pessoas que o autor assegura serem fictícias.

Trata-se de um exercício sobre os comportamentos humanos, as ilusões e desilusões da vida, a felicidade (?), o teatro (especialmente Tchekov, já que Dessaix estudou em Moscovo nos anos 70), o sexo, o amor, a amizade, a morte. Recheada de referências culturais (talvez em excesso, ainda que não pretensiosas), Corfou é uma obra que seduz o leitor, que o prende até o fim.  Escrita com elegância, aconselha-se vivamente a sua leitura, em especial às pessoas de gosto requintado.

DEAMBULAÇÕES NA EX-JUGOSLÁVIA

Dubrovnik - Igreja de São Brás, padroeiro da cidade

Desfeita a Jugoslávia, após a última guerra nos Balcãs, subsistem as seis repúblicas que constituíram outrora aquela federação. Todas muito diferentes, na paisagem, nos costumes, na língua, na religião, procuram agora esbater as rivalidades e os ódios criados por uma guerra em parte fomentada do exterior e que provocou milhares de vítimas. Ainda hoje se choram os mortos e não há a certeza que os vivos os mereçam.

Dois breves apontamentos.

Um sobre Dubrovnik, na Croácia, mais propriamente na região da Dalmácia, que não tem muito a ver com a verdadeira Croácia (setentrional). Foi a cidade, durante séculos, capital da República de Ragusa, mais tarde República de Dubrovnik, que haveria de ser extinta por Napoleão e a seguir, no pós-Congresso de Viena,  integrada no Império Áustro-Húngaro. Uma cidade miniatura (refiro-me à cidade antiga dentro das muralhas) que se assemelha a uma Veneza sem canais. Aliás, Dubrovnik foi, durante séculos, concorrente, aliada ou rival da Sereníssima República. Parcialmente destruída ao longo do tempo por terramotos e incêndios, bombardeada e cercada em 1991, em plena guerra balcânica, encontra-se hoje recuperada, pujante e hospitaleira para os muitos milhares de turistas que anualmente a visitam. George Bernard Shaw escreveu: «Those who seek paradise on Earth should come to Dubrovnik» e chamou-lhe a "pérola do Adriático".

Dubrovnik - Palácio Sponza

A costa da Dalmácia é, de facto, uma das mais belas de toda a Europa. Não foi por acaso que o imperador Diocleciano mandou construir um palácio em Split, para onde se retirou em 305, e onde viveu até à sua morte em 311. E que o marechal Tito, presidente da Jugoslávia, edificou a sua residência de Verão na ilha de Brioni, na costa da Ístria, um pouco a norte da Dalmácia.

Mostar - Ponte Velha (Rapaz prestes a mergulhar no rio Neretva)

Um outro apontamento, agora sobre Mostar, capital da Herzegovina, na República da Bósnia-Herzegovina. A Ponte Velha (Stari Most), que data de 1566, foi totalmente destruída em 1993, aquando do conflito que opôs sucessivamente sérvios, croatas e muçulmanos (bósnios) no território de uma Jugoslávia em fragmentação. Património mundial da UNESCO, foi a ponte reconstruída através da recuperação das pedras originais, tombadas no rio Neretva. 

Mostar constituía um exemplo da convivência pacífica de várias etnias e de religiões diversas. Ali coabitaram, durante séculos, católicos, ortodoxos, muçulmanos, judeus. A estúpida guerra da década de 90 criou um fosso entre as comunidades, que agora, pouco a pouco, se vai esbatendo. 

A quem aproveitou a desintegração da antiga Jugoslávia? Uma pergunta que hoje muita gente faz, quando também se interroga a quem terá aproveitado a invasão do Iraque, já no princípio deste século. E a quem aproveitarão as outras invasões por vir ou já em curso?

domingo, 3 de julho de 2011

INTERRUPÇÃO

Por motivo de ausência do seu autor, a actividade deste blogue será interrompida durante alguns dias.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

AS PRECIPITAÇÕES POLICIAIS AMERICANAS


Afinal, Dominique Strauss-Kahn parece que não é culpado do crime porque foi inopinadamente preso nos Estados Unidos da América, a bordo de uma avião da Air France. Como sublinhámos oportunamente neste blogue, é possível que se tenha tratado de uma conspiração de contornos ainda mal definidos e que terá aproveitado a forças ainda não identificadas. Como refere hoje o PÚBLICO, o ex-director do Fundo Monetário Internacional  foi libertado e restituída a caução que lhe fora exigida.

Espera-se da justiça norte-americana que esclareça devidamente este caso, que tanta tinta fez correr, nomeadamente na altura dos "empréstimos" a países da União Europeia, e que não fique a pairar qualquer dúvida, o que desde já declaro que não acredito, sobre a possibilidade de uma relação entre a prisão e a política financeira do FMI.

A ver vamos.