terça-feira, 20 de outubro de 2015

O PALÁCIO DE CNOSSOS




O ponto culminante de uma estada em Creta é uma visita às ruínas do célebre Palácio de Cnossos, que foi o centro da Civilização Minoica. Até pela sua própria configuração, o Palácio terá contribuído para o nascimento da Lenda do Minotauro, o monstro que habitava o Labirinto, um espaço cujo desenho se identificaria com a arquitectura do palácio.



O palácio de Cnossos, como os de Phaistos, Malia e Zakros, terá sido construído cerca de 1900 AC., uma das épocas mais brilhantes da civilização cretense. Os palácios foram a consequência de uma economia centralizada e de uma organização social que tinha, no topo, o rei-sacerdote cujo modelo é o lendário Minos, bem conhecido pela tradição grega clássica. Pensou-se que a existência de vários palácios, alguns "menores", pressupunham a existência de diversos reis, mas, a tal verificar-se, não existia entre eles antagonismo político. Gozariam todos de uma certa autonomia, ainda que dependessem do rei de Cnossos, o mais importante e que exercia especialmente uma função religiosa. O soberano de Cnossos desempenhava também um papel essencial em matéria de administração, legislação e economia no conjunto da ilha.



Os grandes palácios preenchiam diversas funções e não podem comparar-se aos palácios modernos, destinados a habitação do soberano e da sua família, dos cortesãos, do pessoal de serviço e centros de vida mundana. Os palácios minoicos, rodeados de ricas villas e de uma vasta comunidade urbana, eram também sede da administração e da justiça, centros de artesanato e de comércio e lugares de controlo da actividade económica e da produção de vastas regiões. Nos armazéns dos palácios, guardavam-se não apenas os produtos destinados ao consumo dos habitantes - da realeza e dos demais -, mas especialmente os que se destinavam à redistribuição e ao comércio e que provinham dos "tributos" pagos, naturalmente em espécie, já que a moeda não era ainda conhecida.

O papel religioso desempenhado pelos palácios foi essencial. A ala Oeste era reservada ao culto da Deusa, mas como existiam por todo o lado elementos religiosos, os palácios eram igualmente grandes santuários, centros da vida religiosa onde, nos dias de festa, se desenrolavam as manifestações e as cerimónias.

A arquitectura dos palácios minoicos é tributária dos palácios e templos do Oriente, tendo em comum o pátio central rectangular, ainda que as paredes exteriores não sejam rectilíneas. Os palácios minoicos desenvolvem-se do interior para o exterior, partindo do grande pátio que é o centro estruturante e o eixo de toda a vida do palácio. As paredes eram cobertas por um revestimento decorado com frescos nas divisões mais importantes. Utilizavam-se muitas vezes pilares rectangulares ou colunas de madeira que adelgaçavam na direcção da base e que constituem uma das características da arquitectura minoica. As colunas eram essencialmente constituídas por troncos de árvore colocados ao contrário, o que impedia o crescimento da vegetação.

Os palácios foram diversas vezes destruídos, mas a cada destruição seguiu-se a reconstrução. Terão tido uma vida de cerca de 600 anos. Os palácios antigos foram destruídos por volta de 1700 AC, possivelmente por violentos sismos e reconstruídos no mesmo local. Voltaram a ser destruídos cerca de 1450 AC (erupção vulcânica de Santorini) ao mesmo tempo que a maior parte das cidades e aldeias de Creta, sendo o de Cnossos o menos danificado. Tendo sido então reabilitado, aí se instalou na nova dinastia dos reis aqueus, que reinaram em Creta segundo o modelo micénico. A destruição final do palácio, na sequência de um incêndio, ocorreu nos anos 1375 AC, não voltando a ser reconstruído.

O palácio de Cnossos, o mais importante de Creta, fora inicialmente edificado sobre as ruínas de um vasto habitat neolítico. Tinha 150 m de lado e uma superfície de aproximadamente 20 km quadrados. Possuía 1500 divisões distribuídas por três ou quatro pisos. A sua população seria comparável (com algum exagero) à actual população de Heraklion (140.000 habitantes). Nem a cidade nem o palácio propriamente dito eram protegidos por fortificações, um facto único para a época. Realmente, não eram ameaçados nem por guerras intestinas nem por invasões, e o mar estava convenientemente vigiado pela imponente frota de Minos. Creta, com reduzida superfície e população, tornou-se a primeira potência marítima da história  e a "talassocracia" de Minos permanece lendária.

O plano complicado do palácio de Cnossos e o facto de o labrys (o machado de dupla face) - o símbolo mais sagrado da religião minoica - se encontrar gravado muitas vezes nas paredes e nos pilares do palácio, levam a pensar que o palácio era o labirinto, a morada do labrys. Uma tabuinha em Linear B recentemente descoberta atesta a existência do título religioso de "Senhora do Labirinto". Após a destruição, as ruínas parecem ainda mais labirínticas. Foi o que deu à palavra o sentido que hoje conhecemos e que, do grego, passou ao latim e às línguas europeias modernas. Refira-se, a título de curiosidade, que o machado de dupla face era usado como ceptro pela deusa Deméter-Ártemis, deusa da terra, e que os rituais associados à deusa envolviam actos lésbicos, pelo que o mesmo é hoje um dos símbolos lésbicos mais conhecidos.



Após uma escavação preliminar realizada em 1878 por Minos Kalokairinos, um habitantes de Heraklion, o palácio foi escavado sistematicamente pelo arqueólogo inglês Arthur Evans entre 1900 e 1905, tendo os trabalhos prosseguido até aos nossos dias.



O nome "minoico" foi inventado por Arthur Evans, a partir do nome Minos que, segundo os mitos antigos, reinou em Creta. A civilização minoica durou cerca de 2000 anos e é universalmente considerada como uma das civilizações mais desenvolvidas da época.



Segundo a lenda, Minos era filho de Zeus e da princesa Europa, a qual foi enganada pelo deus, metamorfoseado em touro, e conduzida para Creta. Aqui, em Gortyna, Zeus consumou o acto, de que nasceram Minos, Radamanto (que foi rei de Phaistos) e Sarpedão. Depois, Europa casou com Astérios, rei de Creta, que adoptou os filhos de Zeus. Minos, o primogénito, sucedeu-lhe no trono e casou com Pasífae, filha de Hélios, tendo tido quatro filhos: Androgeu, Catreu, Deucalião, Glauco e quatro filhas: Ariadne, Fedra, Xenodica e Acacalis. Por ocasião de uma grande cerimónia Minos quis sacrificar a Poséidon e pediu-lhe para lhe enviar um animal digno desse sacrifício. Poséidon fez sair do mar um touro inteiramente branco, de uma tal beleza que Minos não teve coragem de sacrificá-lo substituindo-o por outro touro. Poséidon irritado com a desconsideração resolveu despertar em Pasífae um amor louco pelo animal, a tal ponto que ela pediu a Dédalo, o célebre artesão de Cnossos, que fabricasse uma vaca oca mas suficientemente perfeita para enganar o touro e  introduziu-se dentro dela a fim de que o animal a penetrasse. Foi desta união abominável que nasceu o Minotauro, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro, que Minos encerrou no Labirinto (que fora construído por Dédalo) para evitar o escândalo.  Mais tarde, Androgeu, o filho mais velho de Minos, participando nos Jogos Panatenaicos, ganhou todos os prémios, tendo as suas vitórias despertado tal ira nos atenienses que estes o mataram numa emboscada. Para vingar o assassinato do filho, Minos enviou uma expedição a Atenas que venceu o rei Egeu, que ficou obrigado a entregar a Creta, todos os nove anos, sete raparigas virgens e sete rapazes [a lenda não explica se teriam de ser também virgens mas a mim parece-me que não se encontrariam] que serviriam de alimento ao Minotauro, que vivia encerrado no Labirinto. O filho do rei de Atenas, Teseu, não podendo conformar-se com o pagamento de tão pesado tributo, decidiu vingar-se, para isso participando como voluntário no contingente de jovens enviados a Creta. Em Cnossos, conheceu Aridne, a filha de Minos, que se apaixonou por ele e resolveu ajudá-lo, dando-lhe um fio (o célebre fio de Ariadne) que o ajudaria a encontrar a saída do Labirinto, já que quem nele entrasse (dada a complexidade da construção) jamais encontraria a saída. Teseu matou o Minotauro, saiu do Labirinto seguindo o fio que desenrolara desde a entrada e abandonou Cnossos na companhia de Aridne. A lenda conhece outros desenvolvimentos, como a fuga de Dédalo e a morte de Ícaro, mas a sua narração não é comportável neste texto.

Rapto de Europa (pintura num vaso do séc. IV AC)

Diga-se, num parêntese, que Idomeneo, que foi rei de Creta, e era filho de Deucalião e neto de Minos, inspirou a Mozart a ópera Idomeneo, re di Creta (K. 366), que se estreou em 1781, no Residenz Theatre, em Munique.

Porque a história milenar de Creta necessita de ser devidamente enquadrada no tempo, transcrevo um quadro cronológico, embora já tivesse referido aqui os períodos fundamentais desde a Época Neolítica. Comparados com o que escrevi anteriormente, notam-se algumas discrepâncias nos períodos da Idade do Bronze, que, mesmo na cronologia que abaixo se apresenta, não são ainda consensuais entre os investigadores:



Como se disse acima, a primeira pessoa a identificar o sítio do palácio de Cnossos foi Minos Kalokairinos, que começou os preparativos em 1877 e iniciou as escavações em 1878, mas as autoridades turcas puseram termo à operação algumas semanas mais tarde. Apesar do carácter não profissional do empreendimento, devido à ausência total, nessa época, de regras quanto a escavações, os resultados das pesquisas de Kalokairinos foram notáveis. Partes da ala Oeste e os armazéns Oeste foram então referenciados pela primeira vez. É mesmo possível que a ala Leste tenha sido explorada e reconhecidos os limites do pátio central. Na ala Oeste, as escavações chegaram quase à Sala do Trono. Os objectos encontrados nas escavações foram incluídos na própria colecção de Kalokairinos, na sua casa de Heraklion.

No decurso das violências perpetradas pelos turcos, em 25 de Agosto de 1898, a casa de Kalokairinos foi pilhada e incendiada, tal como o conjunto da sua colecção. Apenas se salvaram alguns objectos raros que Kalokairinos oferecera a museus gregos e da Europa, com a intenção de suscitar o interesse por Cnossos.

Teseu matando o Minotauro (Vaso com figuras negras)

A prossecução das pesquisas interessou diversos investigadores estrangeiros, como o cônsul americano em Creta, W.J. Stillman, que foi o primeiro a estabelecer uma ligação entre Cnossos e o lendário Labirinto. Mas os seus esforços não tiveram êxito devido à interdição das autoridades otomanas. O próprio Schliemann, que já escavara Tróia e Micenas, ambicionava estender a sua actividade a Cnossos. Porém, a longa ocupação de Creta pelos turcos, desde 1669, levava as autoridades locais a recear que os achados fossem transportados para os museus do Império Otomano, o que provocou um excesso de zelo dos cretenses relativamente a novas escavações.

O mítico palácio do rei Minos foi finalmente posto a descoberto pelo arqueólogo inglês Arthur Evans, homem viajado e possuidor de sólida cultura clássica, já com um importante trabalho desenvolvido enquanto director do Ashmolean Museum da Universidade de Oxford.

O investigador desembarcou pela primeira vez em Creta em 1894, para tentar descobrir uma escrita egeia então desconhecida. Reuniu uma grande quantidade de selos minoicos e sustentou a ideia, que para ele era evidente e que se confirmaria, de que existiam dois sistemas de escrita na Grécia pré-histórica. Esses sistemas ficariam conhecidos como Linear A e Linear B, além de uma terceira forma de escrita pictográfica mais antiga, o hieroglífico cretense. O sistema Linear B viria a ser decifrado pelo linguista britânico Michael Ventris nos anos 50 do século passado. Os outros dois permanecem desconhecidos.

Com a proclamação da autonomia da ilha em 1898 e a chegada do Alto-Comissário, o príncipe Jorge da Grécia, a situação política tornou-se mais propícia à continuação das escavações. Evans, que adquirira os terrenos da zona do palácio ao seu proprietário turco, pôde assim prosseguir o seu trabalho, mediante a condição colocada pelo novo Governo cretense de que todas as antiguidades permaneceriam em Creta, à excepção dos objectos que a Associação para a Propagação da Instrução de Heraklion, que viria a tornar-se o Serviço Arqueológico de Creta, não considerasse indispensáveis para o museu que se previa construir.

E foi quase exclusivamente à sua custa que Evans prosseguiu as expropriações e começou as escavações em grande escala que conduziriam à descoberta total do palácio. Pode classificar-se como notável o trabalho de Sir Arthur Evans, apesar de várias críticas relativamente a medidas que adoptou na reconstituição possível do imenso complexo, algumas ditadas mais pela sua intuição do que pelo rigor científico. Mas o seu contributo é inestimável.

Com ele colaboraram vários arqueólogos e arquitectos, continuando os trabalhos até 1931, data em que Cnossos revelou a sua imagem tal como hoje a vemos. Quando morreu, em 1941, uma nova civilização estava identificada. As escavações foram interrompidas durante a Segunda Guerra Mundial, tendo prosseguido posteriormente, nomeadamente as conduzidas por Sinclair Hood, director da Escola Britânica de Arqueologia, de Atenas. Outros investigadores se sucederam, ao longo dos últimos anos, com grande êxito nos seus trabalhos, quer no que respeita à identificação de novos locais no complexo do palácio, quer quanto à descoberta de novos e importantes objectos.

Fresco da Taurokathapsia (as "touradas" cretenses) - Original no Museu de Heraklion

Desde o início das escavações que Arthur Evans compreendera a necessidade de restaurar e consolidar as ruínas do palácio. Sendo o gesso um material muito frágil e que fora largamente utilizado na construção, tendo as ruínas ficado expostas às condições atmosféricas, importava preservá-las de eventuais danos. As primeiras intervenções de Evans, que se  limitaram à utilização de suportes de madeira para manter a superestrutura, revelaram-se inúteis, quer pelo peso das coberturas, quer pelas mudanças de tempo na região. Após 1925, os trabalhos de reconstituição tiveram um grande incremento, especialmente com a utilização do cimento armado, que desempenhou um papel decisivo na consolidação das edificações. A intenção inicial de Evans fora empregar os mesmos materiais dos arquitectos minoicos, mas a sua utilização nas ruínas não resultara. Também o posterior uso imoderado do cimento e do ferro se revelou contraproducente. Igualmente, foi Evans muito criticado pela utilização de cores berrantes no restauro, com a intenção de restituir, talvez precipitadamente, o que considerou ser a policromia minoica.

Já depois da Segunda Guerra Mundial, o Serviço Arqueológico de Creta procedeu a uma intervenção de fundo, substituindo os elementos em gesso mais degradados por um material extraído das pedreiras locais e que já fora utilizado na época minoica. Os sectores mais frágeis do palácio foram igualmente protegidos por uma cobertura.

O Palácio de Cnossos, que é uma relíquia arqueológica do maior valor, tem beneficiado nas últimas décadas de um programa especial de consolidação e de protecção, supervisionado pelos serviços de Heraklion e financiado por instituições gregas e europeias.

Não comporta este texto a possibilidade de proceder a uma descrição pormenorizada das instalações do palácio, pelo que se fará referência apenas aos locais mais importantes. Todavia, para orientação do leitor, apresenta-se abaixo a planta do complexo palacial:

Planta geral do Palácio


Legendas


Planta do Piano Nobile (nº 12 da Planta geral)

A entrada no recinto processa-se através do Pátio Ocidental, após a passagem pela bilheteira, a seguir à qual se encontra a cafetaria e a loja. Logo no início, um busto de Sir Arthur Evans, descerrado na presença do próprio em 1935.

Entrada

Bilheteira

Loja

Loja

Busto de Sir Arthur Evans

Ainda antes de penetrarmos no Pátio Ocidental, podemos ler três "notícias" sobre as escavações no Palácio:





Seguem-se algumas imagens da Fachada Oeste, do Corredor da Procissão e das casas a Sul:










* * *



Agora os Propileus Sul e a indicação aconselhada do caminho a prosseguir:





Cópia de fragmentos do Fresco da Procissão (o original encontra-se no Museu de Heraklion)

Algumas imagens dos Armazéns Oeste:





Entramos agora no Piano Nobile:







Segue-se o corredor com a cópia do fresco "O Príncipe dos Lírios" (o original encontra-se no Museu de Heraklion:



Temos agora a Sala do Trono:



(Este é o trono mais antigo do mundo que se encontra no sítio original)


Passamos à Bacia Lustral Norte:






Continuando:

Apartamentos Reais

Pátio Central (onde provavelmente se realizavam as "touradas")
Mégaro (Grande Sala) da Rainha
Idem
Grande Sala a que Evans deu o nome de "Octroi" (Alfândega), na Zona Norte
Idem
Área teatral
Idem
Idem

Reconheço que não captei imagens de todas as zonas do Palácio mas, apesar de o Verão estar a terminar, o dia estava soalheiro e a temperatura era relativamente elevada, o que me obrigou a apressar a visita.

1 comentário:

Maria Andrade disse...

Trabalho belíssimo o seu. Parabéns e obrigada por publicar.