sábado, 22 de agosto de 2015

VIRGÍNIA VITORINO



Tendo passado alguns dias em Alcobaça, em casa de um amigo, deparei com a Rua Virgínia Vitorino (ou Victorino, para usar a grafia da época). E verifiquei que a pequena casa de gaveto entre essa rua e a Rua Frei Fortunato é a casa onde nasceu, em 13 de Agosto de 1895, a poetisa, dramaturga e tradutora Virgínia Vitorino, cuja naturalidade desconhecia.



O piso térreo é agora ocupado pelo Café Tertúlia, que expõe algumas recordações daquela escritora e onde se realizam periodicamente eventos culturais.


Virgínia Vitorino com Amélia Rey-Colaço e Robles Monteiro

Hoje praticamente esquecida, Virgínia Vitorino, que frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e o Conservatório Nacional e foi professora de liceu, dirigiu durante anos o teatro radiofónico da Emissora Nacional. As suas peças, que alcançaram imenso êxito à época, foram representadas pela Companhia Rey-Colaço/Robles Monteiro no Teatro Nacional D. Maria II. Aliás, Virgínia, grande amiga de Amélia Rey-Colaço, pertencia à tertúlia intelectual que reunia também outras mulheres do mais elevado nível cultural entre nós, como Fernanda de Castro, Judith Arvelos, Oliva Guerra, Judith Teixeira, e mais tarde Germana Tânger (felizmente ainda viva) e Natália Correia.


Conta-me a proprietária do Café Tertúlia que Virgínia Vitorino, de costumes ousados desde a juventude (ia fumar para a janela) abandonou muito cedo Alcobaça, meio por demais conservador para o seu gosto, tendo-se mudado para Lisboa. Acrescenta ainda aquela senhora que, encontrando-se muito idosos os pais da escritora, se recorda desta ter ido buscá-los, instalando-os na sua casa da capital.


Não reza a crónica dos últimos anos de Virgínia Vitorino, sabendo-se que morreu em 1967.


Vasculhando a minha biblioteca, encontrei cinco peças de teatro, todas estreadas no Teatro Nacional e representadas pelo inesquecível elenco da época áurea daquela casa de espectáculos: Degredados (1931), A Volta (1932), Fascinação (1933), Manuela (1934) e Vendaval (1942). Porém, nenhum volume de poesia. Talvez estes livros provenham do tempo em que, frequentando leilões e alfarrabistas, me empenhei especialmente em coleccionar tudo o que me apareceu de teatro português.







O teatro de Virgínia Vitorino retrata a sociedade da época (e de sempre), evidenciando a tradicional sujeição das paixões às conveniências, os amores contrariados, as infidelidades conjugais, os preconceitos de classe, tudo envolto na atmosfera do princípio do século passado, com eventual recorrência ao normativo religioso. Por elas perpassa, por vezes, um perfume de lesbianismo, ainda que nesse tempo não fossem permitidas, legal e socialmente, referências explícitas ao tema.

Lendo Vendaval, por exemplo, encontramos uma peça de excelente construção dramática a que nem sequer falta algum suspense "policial", servida por um diálogo que pretendendo reproduzir a linguagem dos estratos sociais da época não desmerece a utilização correctíssima da língua portuguesa. Alguns poderão achá-la datada, melodramática, que a autora se limitou a escrever comédias de salão, que a sociedade do nosso tempo é muito diferente daquela que Virgínia Vitorino retrata (e, de certa forma, condena). Na verdade, não será assim tão diferente, e as grandes tragédias humanas são intemporais. Caso contrário, não seriam representados hoje os clássicos gregos, ou Shakespeare. Só a roupa é que  muda. Não que VV se possa equiparar a eles, obviamente, mas no registo que cultivou, e que atraiu aos teatros, durante anos consecutivos, milhares de pessoas, pode dizer-se que cumpriu o seu papel. Só isso permite justificar o prestígio que rodeou o seu nome.


P.S.: Informa-me um amigo, que é avesso a escrever nas caixas de comentários dos blogues, que Virgínia Vitorino morreu em Lisboa, no Hotel Borges, onde residia. E sugere-me que acrescente ao grupo de senhoras que mencionei acima, os nomes de Teresa Leitão de Barros e de Maria Adelaide de Lima Cruz.

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