terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

SALAZAR E A DIPLOMACIA



Após um "período de nojo" no pós-Revolução de 1974, António de Oliveira Salazar e a sua actividade política tornaram-se progressivamente objecto de sistemático estudo, na sequência de duas obras devidas a colaboradores íntimos: Marcelo Caetano, com Minhas Memórias de Salazar e Franco Nogueira com Salazar (obra em seis volumes), a primeira biografia do fundador do Estado Novo. Ambas com ausência de fontes, dado os seus autores se encontrarem no exílio.

Desde então, têm sido publicadas, umas após outras, variadas obras sobre Salazar e a sua política, em registos diversos, as mais recentes suficientemente documentadas a fim de evitarem desnecessárias  especulações. Entre elas, os livros de dois portugueses residentes em Dublin: Filipe Ribeiro de Meneses (filho de embaixador), professor universitário no Trinity College, Salazar. A Political Biography, que referimos aqui e Bernardo Futscher Pereira (BFP), ele mesmo embaixador em Dublin, A Diplomacia de Salazar (1932-1949), a que nos referiremos hoje.

Citámos igualmente, em  post do mês passado, o recente livro de Fernando Rosas, Salazar e o Poder - A Arte de Saber Durar, especialmente consagrado aos passos sucessivos (Rosas enumera seis) de Salazar para conquistar e conservar o poder quase absoluto de que dispôs em Portugal ao longo de perto de 40 anos. Debruça-se Rosas essencialmente sobre a política interna, obviamente do seu ponto de vista ideológico, mas sem esquecer o seu ofício de historiador.

É diferente o trabalho de Bernardo Futscher Pereira. Recorrendo exaustivamente à indicação das fontes que utilizou, o autor chega ao pormenor de recordar que não pôde consultar alguns documentos, que deveriam ou devem existir, pelo facto dos mesmos terem sido subtraídos aos sítios onde era suposto encontrarem-se: o arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Arquivo Pessoal de Salazar. Recordo que um deles respeitava à descrição de parte da reunião de Sevilha entre Franco e Salazar. Tinha este o hábito de registar todas as suas conversas com terceiros, nomeadamente as de carácter político. Não o terá feito, relativamente à reunião com Franco, por motivos compreensíveis. Mas deu conta, posteriormente, do teor dessas conversações ao embaixador britânico em Lisboa, Ronald Campbell, especialmente interessado. Ora é uma parte do registo da reunião com Campbell que desapareceu.

Não é possível resumir num post um livro de quase 600 páginas, em que se descreve, pormenorizadamente, a acção diplomática de Salazar desde que assumiu a chefia do Governo até ao ano de 1949, que o autor escolheu para terminar a obra. Nem me permito tecer considerações de detalhe, já que não tomei notas enquanto procedi à leitura. Creio que BFP procurou exprimir com exactidão, naturalmente do seu ponto de vista, a política externa de Salazar, que sobraçou a pasta dos Negócios Estrangeiros de 1936 a 1947. Apenas dei conta de um lapso, a páginas 34: chamar ao recém-nomeado embaixador no Brasil Martinho Homem de Melo, quando se trata, realmente, de Martinho Nobre de Melo.

As ideias mestras de BFP parecem-me as seguintes:

1) Salazar esteve convencido até à desastrosa (como sempre) campanha da Rússia, da vitória da Alemanha, a qual condicionaria o futuro da Europa, mas nunca pensou em aliar-se ao Eixo, pois considerava perniciosas as influências estrangeiras;

2) Salazar procurou sempre a posição de neutralidade na Segunda Guerra Mundial, o que alguém chamou de "neutralidade colaborante". Por isso, a maioria dos portugueses considerou (e considera ainda) que ele nos salvou dos horrores da guerra;

3) Salazar, mesmo nos momentos mais críticos, defendeu sempre a manutenção da Aliança Luso-Britânica. Só se lamentou quando, na altura da invasão de Goa pela União Indiana, anos mais tarde, a Inglaterra, em nome da Commonwealth, se desvinculou das obrigações específicas do secular tratado;

4) Salazar, que detestava as democracias parlamentares (malgré a velha Inglaterra) era nitidamente simpatizante das potências do futuro Eixo (ideologia oblige), embora detestasse Hitler mas não Mussolini, que admirava e do qual conservou uma fotografia autografada sobre a sua secretária, até à aliança da Itália com a Alemanha;

5) Salazar apoiou claramente (e descaradamente) a revolução espanhola contra a República, já que esta, quanto a ele, representava um perigo para o Estado Novo.  O regime de Franco afigurava-se-lhe mais consentâneo com os seus ideais, embora as relações com o Caudilho nem sempre fossem fáceis. Aliás, Salazar não nutria especial admiração por Franco, por óbvias razões intelectuais, o que este lhe retribuía na mesma moeda, mas por razões opostas. Contudo, acreditou numa certa lealdade de Franco, enquanto este planeava, caso fosse necessário, invadir Portugal. Ainda assim, evitou que o ditador espanhol se aliasse formalmente ao Eixo. Mas a desconfiança Portugal/Espanha manteve-se (e mantém-se);

6) Salazar tudo tentou durante a Guerra para evitar a ocupação de qualquer parcela do território nacional, não conseguindo dissuadir, após intermináveis dilações, a instalação de bases inglesas e americanas nos Açores, em princípio apenas enquanto durasse o conflito. Mas os americanos mantiveram-se até hoje, como é seu costume, porque as bases lhes têm sido úteis (por exemplo, ainda recentemente na invasão do Iraque);

7) Salazar, no dizer de BFP, «abominava tanto o comunismo soviético quanto o imperialismo americano». Detestava os americanos, no que era acompanhado por muito boa gente (e, verdade se diga, que a história, ao longo destes duzentos anos, tem-se encarregado de demonstrar esse mesmo imperialismo, ora disfarçado ora ostensivo). Também os americanos, que Salazar classificava, pertinentemente, de ignorantes e novos ricos, não o compreendiam e estiveram mesmo no ponto crucial de invadir os Açores, ou Cabo Verde, sem o agrément do Governo Português;

8) Salazar, apesar das atrocidades alemãs (inicialmente pouco noticiadas), entendia que, para impedir a expansão do comunismo na Europa (e no Mundo), a Alemanha era a guarda-avançada, já que não acreditava na resistência da França, e considerava como último recurso de defesa de uma Europa conservadora e cristã, os Pirinéus. Daí, além doutras razões, uma certa simpatia pelo regime nazi;

9) Salazar, no fim da Guerra, e entendendo que chegavam novos tempos, resolveu realizar eleições «tão livres como na livre Inglaterra». Não o foram, e o regime voltou a fechar-se, com a insolubilidade do problema colonial, até à queda final, com Caetano, depois de uma curta e efémera "primavera", como o são normalmente as primaveras políticas;

10) Salazar procurava nunca tomar decisões difíceis para Portugal, enredando sempre as negociações em pormenores jurídicos, incompreensíveis para os seus parceiros, especialmente quando as mesmas se revestiam de carácter urgente. Só cedia, in extremis, e perante a ameaça da força, apesar das opiniões dos seus colaboradores, que escutava com atenção mas geralmente não aceitava. No entanto (jurista minucioso que era), cumpria escrupulosamente os compromissos assumidos (coisa que os actuais estadistas menosprezam, por ignorância ou má-fé);

11) Salazar procurou intransigentemente, até ao fim, e apesar dos "ventos da história", conservar integralmente todas as parcelas do território português, na extensão que lhe era então atribuída. Deve-se-lhe prestar justiça no aspecto em que, atendendo às suas profundas convicções (já deslocadas no seu tempo), defendeu, sem oportunismos conjunturais, a defesa do que ele considerava o território nacional;

12) Na opinião de BFP, Salazar era vaidoso, arrogante, implacável contra os que não seguiam fielmente as suas instruções, razoavelmente insensível às dores alheias, não esquecendo as ofensas (reais ou imaginárias) que lhe faziam e nunca perdendo a oportunidade de se vingar delas. Salazar e também o embaixador Teixeira de Sampaio, secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e que foi o braço direito do ditador durante o período em que este ocupou interinamente a pasta dos Estrangeiros, costumavam dizer que o embaixador britânico Campbell era "um bloco de gelo". Julgo que esta expressão serviria também para caracterizar Salazar. Sujeito a frequentes depressões e padecendo regularmente de enxaquecas, pretextou várias vezes retirar-se da vida pública mas jamais concretizou esse propósito, não só porque os seus seguidores o dissuadiam mas porque o seu verdadeiro apego ao poder e a convicção de que seria insubstituível para o Regime (e foi) eram convencimento suficiente para se manter no cargo.

Faltando-me o engenho e a arte, e também a memória, para resumir as linhas fundamentais do livro de Bernardo Futscher Pereira, aqui ficam estas notas dispersas, em que espero não ter traído o pensamento do autor.

1 comentário:

Anónimo disse...

para quem pretende saber sobre Salazar , rosas não me parece aconselhável pois historiador e bloquista são uma só pessoa , não parece que haja afastamento e independência , já agora é verdade que Salazar teve uma foto de Mussolini no gabinete mas que retirou mais tarde por ter ficado desiludido com este , alias ele (Salazar ) diz no livro "como se levanta um estado " que fascismo , nazismo e comunismo é tudo o mesmo e não demonstra simpatia em particular por um em questão , depois já sabemos que ele próprio em democracia lhe foi colado este rotulo .