domingo, 14 de novembro de 2021

PENSAR A MORTE É ENFRENTAR A PRIMEIRA DAS CERTEZAS


«Notre société, tournée vers les sciences "exactes", veut oublier ce moment inéluctable; elle cherche à oublier les rites, les croyances anciennes mais, au jour de notre passage dans l'autre monde, nous voici encore plus dépourvus, désamparés, plongés dans la crainte alors que des civilisations anciennes acceptaient et se réjouissaient même d'accéder à cet autre monde. Alors ne convient-il pas  de parler de la mort afin de surmonter notre angoisse?» (p. 36)

Entre as muitas obras publicadas sobre a Morte, Le sens caché des rites mortuaires - Mourir est-il mourir? (1993), de Jean-Pierre Bayard (1920-2008) é uma das mais notáveis e completas, sendo o seu autor um dos grandes especialistas do esoterismo contemporâneo. 

«La crainte de la mort a sans doute toujours existé; les vestiges les plus anciens montrent une réaction humaine fort compréhensible; la foi en une survie n'a pu modifier cette attitude défensive mais, dans notre civilisation de consommmation, la mort est encore plus mal perçue.» (p. 47)

Recorda o autor a última frase de Mémoires d'Hadrien, de Marguerite Yourcenar: «Tâchons d'entrer dans la mort les yeux ouverts...»

A Primeira Parte do livro trata da Fabulosa Aventura Humana, da morte em si mesma, do medo desta  e da mortalidade.

A Segunda Parte é dedicada ao Culto dos Antepassados. Debruça-se sobre a universalidade dos ritos mortuários, dos ritos no pensamento ancestral, dos costumes das sociedades tradicionalistas e da morte iniciática.

Relativamente aos ritos funerários, o autor detém-se especialmente no Oriente (karma, Bardo Thödol [o Livro dos Mortos do budismo tibetano], a alma e o nirvana, o ciclo dos renascimentos [Sri Aurobindo], incineração, viagem da alma na China Antiga), no Egipto [com particular referência ao embalsamamento], no Mazdeísmo, na Bacia Mediterrânica, nas Canárias, na África Negra [ausência do receio da morte, perda do nome, rituais da morte, purificação, pigmeus e ritos iniciáticos, reinserção no clã], no Maghreb, na Oceania, nos Índios da América, no México e na América Antiga, no vaudou, em Madagáscar.

Nos costumes das sociedades tradicionalistas, o autor aborda os ritos abraâmicos, israelitas, cristãos, islâmicos, celtas e ciganos. 

Ainda na Segunda Parte é reservado particular espaço à morte iniciática, aos ritos maçónicos (câmara de reflexão, graus de Mestre ao 33º do Rito Escocês Antigo e Aceite e cerimónias fúnebres).

A Terceira Parte trata do Culto do Corpo: o acompanhamento da morte, o combate à morte, as mortes violentas e os monumentos funerários. Se a morte não existe, segundo as teorias primitivas, então ela é devida a malefícios que vêm pôr fim à nossa existência: epidemias, pena de morte, guerras e duelos, sacrifícios, suicídio. Nos monumentos funerários distinguem-se as cavernas, as construções megalíticas, os túmulos etruscos e citas, as pirâmides, os túmulos, mausoléus e catacumbas cristãs, etc. 

A Quarta Parte ocupa-se do Culto da Alma: o mundo de além-túmulo, o inferno, as vidas anteriores, os sonhos e as premonições; a imortalidade e a ressurreição, as relíquias, os fantasmas, os vampiros, o tribunal supremo e a festa dos mortos; ainda, a reencarnação e a sua abordagem nas diversas religiões. 

No fim, o testamento vital, endereços úteis, uma extensa bibliografia e um índice pormenorizado.

Livro cuidadosamente ilustrado, ainda que escrito há mais de duas décadas, mantém a sua actualidade é será de grande utilidade para os interessados na matéria.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

SOBRE "LE GRAND REMPLACEMENT", DE RENAUD CAMUS


Como anunciara, quando li Tricks, debrucei-me agora sobre a polémica obra de Renaud Camus, Le Grand Remplacement, que conhecia de nome mas que só mais recentemente suscitou a minha curiosidade, embora não ignorasse o tema. 

De há muito que Renaud Camus (RC) está preocupado com o facto da população francesa nativa vir a ser substituída parcial ou mesmo totalmente pelos imigrantes das mais diversas origens que convergem para França, nomeadamente os africanos e os árabes. 

A obra que acabei de ler é a 5ª edição (2019) de um volume muito mais extenso (500 páginas) do que o original. Nela, RC engloba o primeiro livro dedicado ao tema, "Le Changement du peuple" (2013), artigos, entrevistas, conferências, discursos e outros textos, desde 2010 até 2017.

Inegavelmente, RC é um autor de pena elegante, de prosa fluente, e os factos são, no geral, confirmadamente objectivos, ainda que algumas conclusões possam ser por vezes forçadas e o remédio para os males invocados ineficaz, porque tardio, a menos que os governos europeus, no caso vertente o Governo francês, pudessem adoptar medidas que extravasam largamente os padrões actualmente aceites e que, mesmo assim, talvez se revelassem infrutíferas.

Sendo um conjunto de 28 publicações, na presente edição de Le Grand Remplacement, tratando invariavelmente do tema que preocupa o autor, a substituição parcial ou mesmo total da população francesa indígena pela população migrante, torna-se inevitável a repetição da argumentação e até a repetição de vários episódios, como o facto  do escritor Richard Millet ter manifestado há já alguns anos a sua estupefacção, perante as câmaras da televisão, de ter verificado um dia, às seis horas da tarde, na estação de Châtelet (a mais movimentada estação de metro de Paris) que era o único (ou quase) indivíduo branco naquele local àquela hora. Sendo o livro a compilação de textos de diversas datas, essa repetição seria sempre fatal, mas ocorre também dizer que se torna fastidiosa.

Desde há muito tempo que a obsessão de RC é a possibilidade de os franceses autóctones virem, num futuro próximo, a ser substituídos por migrantes de alheias etnias, religiões, tradições, costumes, etc. E é um facto que a população actual de França conta hoje com cerca de 15% de cidadãos franceses oriundos das migrações ou seus descendentes. Isto sem falar dos imigrantes já estabelecidos no solo francês mas que ainda não obtiveram a respectiva nacionalidade.

Os factos e os acontecimentos descritos por RC são, em geral, confirmados pelos dados oficiais, ainda que algumas das conclusões possam ser eventualmente adaptadas às conclusões a que o autor pretende chegar. E existem também, há que dizê-lo, outros factos e acontecimentos que, contrariando a tese de RC, o autor não menciona. 

As grandes migrações árabo-africanas para França começaram em finais do século XIX, e foram sempre bem aceites pelos governos franceses, até porque se tratava de pessoal trabalhador, pouco reivindicativo e que aceitava desempenhar as tarefas cada vez mais desinteressantes para os franceses de souche. Na grande maioria foram remetidos para as periferias das cidades, englobados em cités, confinados a uma vida mais do que modesta. O problema do convívio surge por altura dos anos oitenta do século passado, quando essas populações tranquilas começam a manifestar as suas exigências, devido até ao seu peso demográfico e às deficientes condições de integração. Principiam a surgir entre a juventude os pequenos delitos, o tráfico de droga, a insuficiência de escolaridade, etc. E o convívio começo a tornar-se difícil. Tudo isto é agravado pelo fundamentalismo islâmico. A campanha wahhabita desencadeada em especial pela Arábia Saudita, e levada a cabo por imames locais, o interminável conflito israelo/palestiniano (com o qual RC pouco se importa) e, a coroar este caldo de cultura, a invasão anglo-americana do Iraque, as "primaveras árabes", o bombardeamento da Líbia e o assassinato de Qaddafi, a guerra na Síria, a turbulência no Afeganistão, determinaram um aumento exponencial de imigrantes e a radicalização dos comportamentos de algumas faixas de franceses muçulmanos, com expressão nos diversos atentados ocorridos em solo gaulês. Nunca esquecer, e eu tive ocasião de verificar in loco, que o regime de Qaddafi constituía um tampão a sul do Mediterrâneo que impedia o afluxo para França (e Itália) de, nomeadamente, milhares de africanos sub-saharianos, que eram travados em Tripoli ou Benghazi, e utilizados nos trabalhos menores que os líbios desdenhavam fazer.

Só muito tarde os governos europeus se aperceberam, ou quiseram aperceber-se, desta substituição populacional que tanto preocupa RC e tantos milhares de pessoas.

Ao proceder ao diagnóstico da situação, aventa o autor algumas medidas para travar o "agravamento" da situação ou até revertê-la. Não creio que sejam eficazes ou exequíveis.

Numa perspectiva mais geral, e como Toynbee ensina, as migrações maciças e o declínio das civilizações insere-se no plano geral da História. Quem estiver interessado poderá ler A Study of History, um estudo imenso de que existe uma versão inglesa condensada, por acaso até traduzida em português (1964) pelo prof. Vieira de Almeida. Numa perspectiva mais dos nossos dias, podemos recorrer a Umberto Eco, quando afirma, em 1997: «Os fenómenos que a Europa tenta ainda enfrentar como casos de emigração são pelo contrário casos de migração. O Terceiro Mundo está a bater às portas da Europa, e entra mesmo quando a Europa não está de acordo. O problema já não é decidir (como os políticos fingem acreditar) se se admitem em Paris raparigas estudantes com chador ou quantas mesquitas devem erigir-se em Roma. O problema é que no próximo milénio (e como não sou profeta não posso especificar a data) a Europa será um continente multirracial, ou se preferirem, "colorado". Se lhes agradar, será assim; e se não lhes agradar, será assim na mesma. Este confronto (ou choque) de culturas poderá ter saídas sangrentas, e estou convencido de que em certa medida as terá, que serão inevitáveis e durarão muito tempo. Porém, os racistas deveriam ser (na teoria) uma raça em vias de extinção. Não existiu um patrício romano que não suportava que se tornassem também cives romani os gauleses, ou os sarmatas, ou os judeus como São Paulo, e que pudesse subir ao trono imperial um africano, como veio por fim a acontecer? Este patrício esquecemo-lo, foi derrotado pela história. A civilização romana foi uma civilização de mestiços. Os racistas dirão que é por isso que se dissolveu, mas foram precisos quinhentos anos - e acho que é um espaço de tempo que nos permite também a nós fazer projectos para o futuro.»

O problema das populações exógenas na Europa reveste-se de particular acuidade em França. Suponho que é difícil reverter os erros do passados.  Não podem os governos franceses livrar-se agora dos indivíduos árabo-africanos, até porque a expulsão dos mesmos, não sendo eticamente aceitável, também não seria exequível, pois sendo eles de pleno direito (excepto os ilegais) cidadãos franceses, não haveria países para devolvê-los. E também ninguém advoga o fuzilamento em massa!!! E quanto às actuais imigrações ilegais em curso, elas poderão ser dificultados mas não decisivamente travadas, como refere Umberto Eco, a menos que se bombardeiem os barcos que fazem a travessia do Mediterrâneo, o que não se afigura compatível com o actual status civilizacional. Claro que também existem imigrações terrestres, contra as quais a Polónia e a Hungria vêm erguendo muros, ou a Turquia retendo migrantes por conta do dinheiro da União Europeia, mas não serão medidas decisivas.

Que fazer?

Não possuindo remédio milagroso para obstar a todas as futuras calamidades profetizadas por RC, e contornando Soumission, de Michel Houellebecq, que prevê um futuro presidente da República Francesa de origem tunisina, não são muitas as opções a considerar. Sendo os negros e os "escuros" seres humanos a quem é devido o "ontológico" respeito, devem ser -lhes garantidos os mesmos direitos económicos e sociais de que desfruta a população autóctone, exigindo-se-lhes em troca o respeito pelas tradições e costumes da República, se necessário com a utilização dos meios indispensáveis. E deve atender-se, também, ao melhoramento da sua inserção social o que, apesar do muito que está escrito em seu favor ou desfavor, é ainda deficiente, decorrente até da enlouquecida globalização económica sofrida pelo mundo nos últimos anos. Há, porém, uma medida de mais fácil aplicação e que se afigura de alguma razoabilidade, atendendo até ao índice do crescimento demográfico das populações emergentes: a concessão de direitos políticos deve processar-se com muita parcimónia, para evitar um dos principais receios de Michel Houellebecq e de Renaud Camus: que os franceses venham a ser governados, a breve trecho, por indivíduos cujas etnias, religiões, costumes, nada tenham a ver com a França, e a sua Grandeza, para evocar o general De Gaulle.

É claro que este tema convoca vastos desenvolvimentos, não é apenas a França, e mesmo a Europa, que está em causa, mas o planeta por inteiro, já que, embora menos visíveis ou menos mediatizadas, se verificam hoje outras transferências de populações, como, por exemplo, no continente americano. Mas este texto constituiu tão só uma modesta proposta de reflexão sobre o livro de Renaud Camus.

Aguardemos...


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

SOBRE "LE CAMP DES SAINTS", DE JEAN RASPAIL

Publicado em 1973, o livro Le Camp des Saints, de Jean Raspail (1925-2020), passou sem especial controvérsia, ou realce, pelo meio editorial e com o particular silêncio da crítica de esquerda. Foi a partir da sua edição americana em 1975, com o título The Camp of the Saints, que a obra adquiriu particular notoriedade, vindo a ser reeditada em França em 1978 e obtendo então um sucesso de vendas, o que levou à realização de nova edição em 1985. A amplitude real dos eventos ficcionados atingiu tal dimensão que conduziu à presente edição de 2011, que agora comento, à qual o autor acrescentou um prefácio, "Big Other", título parafraseando a obra de George Orwell, e onde explica a carreira acidentada do livro, obra verdadeiramente premonitória, cujo argumento é amplamente confirmado pelos factos que se verificaram posteriormente, em especial desde o início da passada década. 

Como refere o autor nesse prefácio, este livro seria hoje impublicável, ou objecto de uma censura que o amputaria e desfiguraria completamente. Aliás, Jean Raspail inclui em apêndice todas as passagens do livro que cairiam eventualmente sob a alçada das celeradas leis Pleven (1972), Gayssot (1990), Lellouche (2001) e Perben (2003) que introduziram em França severas penalidades e interdições relativamente a afirmações consideradas (ou supostamente consideradas) racistas e anti-semitas. Não tendo, porém, efeitos retroactivos, Le Camp des Saints, publicado em 1973, escapou, e continua a escapar, à censura francesa, sendo publicado no respeito integral do texto original.

A propósito do título do livro, o autor cita o Apocalipse:  «À la fin des mille ans, Satan sera delivré de sa prison. Il en sortira pour séduire les nations qui sont aux quatre coins de la terre, Gog et Magog, et les rassembler pour le combat, elles qui égalent en nombre le sable de la mer. Elles partirent en expédition sur la surface de la mer, elles investirent le camp des saints et la ville bien-aimée. Mais Dieu fit tomber un feu du ciel qui les dévora. Et le diable qui les séduisait fut jeté dans l'étang de feu et de soufre, où étaient déjà la bête et le faux prophète, et où leur tourment, de jour et de nuit, durera aux siècles des siècles.»

Dada a sua extensão, qualquer comentário pormenorizado sobre o assunto do livro seria sempre demasiado longo e imperfeito. Para um adequado conhecimento do enredo deve ler-se a obra ou, pelo menos, a sinopse que consta da Wikipédia. 

Eis um resumo de um possível resumo do texto. Cem barcos, alguns deles quase podres, partem de Calcutá, do delta do Ganges, com um milhão de bengalis, na maioria famélicos e doentes, e dirigem-se à Côte d'Azur, o paraíso idealizado dos "damnés de la terre", após infrutíferas tentativas de vários países em desviar a rota da "armada" ou até em aniquilá-la. A hesitação, primeiro na Europa (ignorando-se o destino final) e depois em França é de pânico absoluto. Os defensores dos direitos do homem, os anti-racistas, as organizações não governamentais, as Nações Unidas e apêndices, os espíritos bem-pensantes, a esquerda chique, proclamam a imperiosidade do acolhimento mas perante a iminência de um desembarque geral a população do sul de França abandona casas e haveres e dirige-se para o norte do país. O presidente da República apela à tranquilidade e garante que a fronteira será defendida manu militari, sem convicção, já que não ignora que as tropas se recusarão a disparar contra uma multidão faminta, composta especialmente por velhos, mulheres e crianças, embora não só. Simultaneamente, ocorrem em toda a França greves e tumultos dos imigrantes já instalados, árabes ou negros, que se solidarizam com os recém-chegados, ao contrário de outros imigrantes, igualmente árabes e negros mas pertencendo já às elites franceses e que pretendem conservar os privilégios adquiridos. Tirando um punhado de bravos, as tropas cederão à invasão migrante e os novos habitantes ficarão instalados nas casas e cidades abandonadas pelos seus proprietários. Uma nova era começa.

Trata-se, evidentemente, e com uma larga antevisão (1973), do problema das migrações maciças para a Europa ocorridas nos últimos anos, sobretudo a partir da invasão anglo-americana do Iraque e da guerra na Síria. E do receio dos franceses, já com um número considerável de migrantes árabes e africanos no seu território (vindos de Marrocos, da Tunísia, da Argélia, especialmente depois da descolonização, e de algumas antigas colónias africanas que entretanto alcançaram a independência) se verem substituídos na sua terra natal por cidadãos oriundos de excêntricas paragens. O mérito de Jean Raspail é o de ter previsto a amplitude do fenómeno com cinquenta anos de avanço. O problema não se colocava ainda com especial acuidade na altura em Raspail escreveu o seu livro, já que os migrantes então existentes foram essenciais para fazer funcionar a economia francesa carecida de mão-de-obra mais barata e disponível para a execução de tarefas que os nativos se recusavam a desempenhar.

Esta obra é o que se costuma designar em França por "roman à clef": as personagens fundamentais, os jornais, as instituições, são designadas por nomes supostos, alguns tão diferentes do original que só um especialista conseguirá determinar a verdadeira identidade. Exercício difícil não só para um estrangeiro, ainda que bem informado sobre a pretérita vida política e cultural francesa do último meio século, mas igualmente para o francês de hoje, mesmo que possua uma cultura média. 

Trata-se de um romance inegavelmente bem escrito, e muito claro, até pelo menos três quartos do seu texto. A partir daí, e quando o autor começa a debruçar-se sobre as perturbações registadas na própria França, nos seus meios operários, estudantis, militares, políticos, etc., Jean Raspail deixa-se envolver na teia dos acontecimentos que ele mesmo convoca e o livro torna-se algo ininteligível e até, digamos, um tanto maçador. O pormenor das possíveis repercussões no tecido social do país, decorridas da pretensa invasão bengali, é mais do domínio de uma análise sociológica do que de um romance de antecipação histórica. Expostas as linhas gerais, o detalhe ficcional é supérfluo.

Pode, contudo, considerar-se Le Camp des Saints o primeiro grito de alarme literário sobre o problema das imigrações em território francês, que Renaud Camus explicitaria mais recentemente no seu livro Le Grand Remplacement (2011 e edições seguintes).

A tese fundamental de Raspail é a de que o mundo ocidental, através de todos os seus movimentos e organizações internacionais criou um clima propício à deslocação maciça de populações do terceiro mundo, só entrando em pânico quando essas populações lhe batem à porta. É também uma violenta denúncia da hipocrisia da sociedade contemporânea e dos seus principais representastes (no livro nem o Papa, um papa fictício,  e a Igreja Católica escapam) e da tibieza daqueles cuja missão é precisamente a preservação dos valores e do modo de vida da civilização ocidental.

A argumentação de Jean Raspail é pertinente (obviamente do seu ponto de vista) mas ignora alguns dados históricos de irrefutável veracidade. Sempre, ao longo dos tempos, se verificaram volumosas transferências de populações, motivadas pelas mais variadas causas: fome, guerra, anseio de melhor nível de vida, curiosidade de outras paragens, ou até forçadas pelos governos dos seus próprios países. A História está cheia de exemplos e contra essas movimentações a pena de Raspail é inútil. Arnold Toynbee, em A Study of History, explica isso.

Além do mais, e apesar dos acontecimentos a que vimos assistindo nos últimos anos (muitos dos quais, i. e., o terrorismo, são exógenos a essas movimentações e decorrem da instrumentalização política de terceiros), é possível uma assimilação razoável dos recém-chegados no seio dos indígenas de tradições milenares, desde que criadas as condições indispensáveis para uma integração progressiva e humana. Uma coisa que a França (nem a maioria dos países) não soube fazer desde há mais de um século. Nem é preciso pertencer às inúmeras associações anti-racistas, anti-xenófobas, anti-qualquer coisa, que vivem (elas e os seus membros) à custa dos subsídios dos governos, para compreender que nada impede a sã convivência de brancos, negros, árabes, ou quaisquer outras raças (ou etnias) ou mesmo de credos diferentes ou sem credo algum, desde que seja possível estabelecer um "pacto" tácito de relacionamento, "pormenor" até hoje sistematicamente ignorado.

A análise do livro de Raspail levar-nos-ia muito longe, não cabendo naturalmente no espaço de um post. Mas não posso deixar de referir uma passagem de uma conferência do célebre Umberto Eco em Valência, no Convénio organizado sobre as Perspectivas do Terceiro Milénio, em 23 de Janeiro de 1997, e incluída no seu livro Cinque scritti morali (1997), de que existe uma tradução portuguesa, da qual reproduzo: «Os fenómenos que a Europa tenta ainda enfrentar como casos de emigração são pelo contrário casos de migração. O Terceiro Mundo está a bater às portas da Europa, e entra mesmo quando a Europa não está de acordo. O problema já não é decidir (como os políticos fingem acreditar) se se admitem em Paris raparigas estudantes com chador ou quantas mesquitas devem erigir-se em Roma. O problema é que no próximo milénio (e como não sou profeta não posso especificar a data) a Europa será um continente multirracial, ou se preferirem, "colorado". Se lhes agradar, será assim; e se não lhes agradar, será assim na mesma. Este confronto (ou choque) de culturas poderá ter saídas sangrentas, e estou convencido de que em certa medida as terá, que serão inevitáveis e durarão muito tempo. Porém, os racistas deveriam ser (na teoria) uma raça em vias de extinção. Não existiu um patrício romano que não suportava que se tornassem também cives romani os gauleses, ou os sarmatas, ou os judeus como São Paulo, e que pudesse subir ao trono imperial um africano, como veio por fim a acontecer? Este patrício esquecemo-lo, foi derrotado pela história. A civilização romana foi uma civilização de mestiços. Os racistas dirão que é por isso que se dissolveu, mas foram precisos quinhentos anos - e acho que é um espaço de tempo que nos permite também a nós fazer projectos para o futuro.»

Voltaremos ao tema, quando comentarmos Le Grand Remplacement, de Renaud Camus. 


 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

TRICKS

No último capítulo do livro Soi-même comme un roi, de Élisabeth Roudinesco, que acabei de ler há dias, é feita uma referência especial ao problema da substituição da população europeia por populações migrantes, o "grand remplacement", teorizado formalmente pela primeira vez por Renaud Camus (n. 1946), mas que dera já origem a uma obra como La France Juive (1886), de Édouard Drumont, grossa de 1200 páginas em dois volumes, então especialmente virada para a influência judaica. Também, em 1973, Jean Raspail publicou Le camp des saints, que na altura passou quase despercebido mas que trinta anos mais tarde viria a obter um sucesso monumental junto de todos os identitários nacionalistas e seria traduzido em numerosas línguas.  Livro sucessivamente reeditado, na reedição de 2011 Raspail redigiu um prefácio intitulado "Big Other", em homenagem (equívoca) ao romance de George Orwell. Finalmente, em 2011, Renaud Camus publica Le Grand remplacement, onde desenvolve a sua tese da substituição dos franceses de souche por muçulmanos árabes e negros, que passaram a ocupar, no seu imaginário, os anteriormente vituperados judeus. Esta obsessão com a preservação dos franceses de cepa, ameaçados pelos imigrantes, seria ainda o tema do famoso romance Soumission (2015), de Michel Houellbecq, a que fizemos oportunamente referência neste blogue. Sobre os livros de Drumont, Raspail e Renaud Camus iremos debruçar-nos em próximos posts.

Como escrevi acima, a referência de Roudinesco a Renaud Camus suscitou-me o desejo de ler Tricks, o primeiro livro deste escritor a obter considerável sucesso, o qual repousava há anos na minha biblioteca, e cujo tema nada tem a ver com as preocupações identitárias. Publicou Renaud Camus Tricks em 1979, e o livro foi objecto de diversas edições e reedições (também em línguas estrangeiras). A minha edição (a 3ª), considerada a definitiva, contou com um prefácio de Roland Barthes, de quem o autor foi amigo. "Tricks", que se poderá traduzir aqui genericamente por "engates", descreve 46 relações homossexuais do autor com parceiros diversos, em apartamentos, em discotecas especializadas, em saunas, em sanitários públicos, na praia, em variados locais, inclusive nos jardins de Notre-Dame.

No prefácio, cumplicidade oblige, Roland Barthes tenta atribuir um especial valor literário à descrição destes "tricks", conferindo-lhes quase um estatuto de experiência mística mais do que simples actividade sexual, mas é evidente que nem a boa vontade do Mestre consegue iludir o facto de que se trata de vulgares engates. Conta o livro os encontros de Renaud Camus nos primeiros meses de 1978,  com rapazes e homens com quem manteve as mais diversas relações sexuais, descritos com abundância de pormenores, incluindo o físico dos parceiros, curiosamente todos (excepto um) com bigode (era a moda na época, imitando o vocalista Freddie Mercury, dos Queen) e razoavelmente peludos. Diga-se em abono da verdade que Renaud Camus, que publicou posteriormente uma vasta e variadíssima obra, ainda navegava nas águas da sua militância homossexual e estava longe da actividade política com que está a coroar a sua carreira de escritor.  Tendo convivido com os mais distintos intelectuais do seu tempo, como Barthes, Aragon, Matzneff, Marguerite Duras ou Robbe-Grillet, Renaud Camus, considerado um homem de esquerda, foi membro do Partido Socialista francês e convicto apoiante da candidatura presidencial de François Mitterrand em 1981. Confesso admirador do escritor francês Tony Duvert (caído em desgraça por se dedicar a jovens demasiado jovens), assinou algumas das suas obras usando ora o prenome Tony ora o apelido Duvert em homenagem ao falecido plumitivo, ostracizado pela ditadura dos costumes que vigora hoje no Ocidente.

Também é verdade que a descrição que Camus faz dos seus engates, apesar da minúcia, nunca é pornográfica, contém pelo meio pormenores interessantes e talvez seja mais autêntica e literariamente mais conseguida da que é feita por Arthur Dreyfus no seu recente livro Journal sexuel d'un garçon d'aujourd'hui (2021), que não comprei nem li, e que relata, em 1300 páginas, as suas centenas de engates homossexuais estabelecidos através da internet. Presumo que, neste caso,  se trata de uma actividade bastante impessoal, mas segundo a doxa que nos é imposta os contactos humanos devem ser progressivamente substituídos por contactos digitais, mesmo no que ao sexo diz respeito. Não me espantaria se, num futuro próximo, a consumação carnal dos engates sexuais via computador ou telemóvel viesse a realizar-se também online, como, aliás, já se regista, alternativamente, em algumas situações particulares.

Também Camus provocou uma certa polémica em França ao manifestar-se contra a exagerada proporção de judeus em certas emissões televisivas [o que até era verdade, mas não se pode dizer], no caso concreto a propósito de uma emissão de France Culture. Vários intelectuais acusaram-no de anti-semitismo mas Camus recebeu também a solidariedade de muitos dos seus pares, que defenderam o seu direito à liberdade de expressão.

Causa alguma admiração esta viragem ideológica e política de Renaud Camus. Tendo sido um fervoroso defensor dos direitos dos homossexuais, e continuando a ser ele mesmo um homossexual assumido, a sua hostilidade em relação aos árabes e aos negros, geralmente considerados excelentes parceiros sexuais (segundo afirmam os conhecedores), revela-se surpreendente. Poderia atribuir-se essa antipatia a algumas experiências mal sucedidas, mas isso não basta para atacar aquelas comunidades, ainda que se possa admitir que o número de representantes de certas etnias em solo francês esteja a provocar um desequilíbrio na manutenção das tradições e costumes ancestrais dos gauleses. Mas é também uma verdade que, desde há mais de um século, os governos da República Francesa não souberam lidar com as sucessivas camadas de população migrante, descurando a sua integração no solo nacional.

Voltaremos brevemente a Renaud Camus.

Nota 1: Um dos jovens com quem Camus manteve comércio carnal era português, de nome Zé, natural de Coimbra mas vivendo desde pequeno no Brasil.

Nota 2: Considerando que o livro tem cerca de 500 páginas, confesso que a partir sensivelmente de metade passei a lê-lo obliquamente e com alguma rapidez. Não há paciência (nem tempo) para tomar conhecimento destas aventuras quase diárias de Camus que, embora variando na forma de actuação, no tipo dos protagonistas, na variedade dos locais, na abundância dos pormenores e até nalguns aspectos reconhecidamente interessantes, pela sua repetição se tornam fastidiosas.

Nota 3 - Importa ainda salientar que ao longo do livro perpassam bastantes referências culturais, o que se traduz, naturalmente, num valor acrescentado.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

QUEER MAROC

Não sou propriamente um entusiasta da teoria queer, nem me identifico geralmente com as ideias hoje em voga das distinções entre género e sexo, da construção das identidades e da parafernália LGBTQIA+. Estas "modas", oriundas dos Estados Unidos (tinham de ser) e que passaram depois à Europa, tiveram em Judith Butler (n. 1956) um dos seus principais, e controversos, arautos, embora posteriormente esta tenha reconsiderado algumas das suas teses. Sobre a matéria, e para um conveniente esclarecimento, deve ler-se o recente livro da psicanalista e socióloga Élisabeth Roudinesco, Soi-même comme un roi-Essai sur les dérives identitaires (2021), que acerca de sexo, raça e colonialismo nos informa como evoluíram todos os conceitos ditos identitários, as suas virtudes e os seus infortúnios.

A minha referência ao presente livro, Queer Maroc, de Jean Ziganiaris (2013), que adquiri aquando da sua publicação, deve-se ao facto de um dos sub-capítulos ser especialmente dedicado ao célebre, e praticamente desconhecido, romance do escritor marroquino Mohamed Leftah, Le dernier combat du Captain Ni'mat (2011), que recebeu o Prémio de La Mamounia, e que é um dos mais notáveis testemunhos da homossexualidade no Egipto dos nossos dias. Sobre esta obra, de uma autenticidade e actualidade esmagadoras, escrevi aqui em 2014: http://domedioorienteeafins.blogspot.com/2014/07/o-encanto-singular-dos-nubios.html. 

Foi exactamente por esse motivo que regressei agora a Queer Maroc, que não li completamente. Deve dizer-se, contudo, que este livro está particularmente bem escrito, e presta grande serviço aos interessados, especialmente quando esclarece os leitores menos atentos quanto a uma atitude estabelecida na sociedade marroquina, e no mundo árabe em geral: existe no islão uma dicotomia sexo/religião, que muitas vezes, mesmo muitas vezes, leva a separar na prática a actividade sexual dos preceitos corânicos, já que, como diz a Bíblia, "o espírito está pronto mas a carne é fraca".

Ziganiaris revisita os escritores marroquinos que escreveram sobre a temática da homossexualidade, nomeadamente Rajae Benchemsi, Tahar ben Jelloun, Driss Chraïbi, Abdelkébir Khatibi, Mohamed Leftah, Rachid O, Abdelhak Serhane, Abdellah Taïa.

Não é meu propósito discorrer aqui, e agora, sobre este livro, mas não devo eximir-me à enunciação dos seus capítulos:

1ère partie - "Et l'espace littéraire marocain créa la femme"

I - Les figures de la mère: esclave du traditionalisme ou réinventrice de la tradition?                      

II - La place de la femme dans l'histoire du Maroc: Harems, princesses et prostitution coloniale  

III - Femmes, fantasmes, sexualité: regards sur les figures de l'amant

2ème partie - "On ne nait pas homme, on le devient"

I - Émancipation familiale,  émancipation sexuelle

II - L'amant: entre libéralisation de la sexualité et reproduction de la domination masculine

3ème partie - Par-delà l'assignation de genre: corps transidentitaires et présence du queer dans la littérature marocaine

I - Trouble dans le genre 

II - La beauté des corps transidentitaires 

 

Os interessados nestas matérias encontrarão neste livro, e não só relativamente ao Marrocos, uma explanação detalhada sobre a criação e a evolução do conceito queer e da sua divulgação particularmente no mundo ocidental.

Por seu lado, o livro de Élisabeth Roudinesnco é uma incursão de penetrante lucidez nestes domínios, abordando as questões com um irrecusável bom senso, sem ideias pré-concebidas, não hesitando criticar o que é manifestamente errado (ou oportunista) mas admitindo os avanços registados em muitas das matérias abordadas.


     

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

A MORTE DE D. JOÃO II

Folheei hoje O Obito de D. João II (sic), de Ricardo Jorge, obra publicada em 1922. A morte do monarca em Alvor (1495) tem suscitado muitas interrogações, e várias têm sido as suspeitas de que a mesma fosse devida a envenenamento.

Começa o autor, famoso médico, investigador e professor, por fazer desfilar perante nós uma série de envenenamentos de figuras históricas, supostamente autênticos, recorrendo contudo ao dito de espírito de Alfred  de Vigny: "duas coisas se contestam o mais das vezes aos reis, a nascença e a morte, negando-se-lhes que uma seja legítima e a outra natural".

[Entretanto, descobri um erro. Ricardo Jorge escreve que em 1643 Luís XII teria morrido envenenado, mas quem morreu em 1643 foi Luís XIII.]

A morte do príncipe D. Afonso (1475-1491), na ribeira de Santarém, privara D. João II do seu filho e herdeiro, levando-o a diligenciar passar a herança régia para o bastardo D. Jorge de Lancastre (1481-1550), duque de Coimbra, filho de Ana de Mendoça. A esta tentativa se opôs denodadamente a rainha D. Leonor, que até recebera o bastardo na Corte e o educara juntamente com o filho. Mas a sucessão do trono pelo bastardo, não.

Muita gente quis mais tarde imputar a D. Leonor (a benemérita rainha) a responsabilidade da morte do marido. Até Camilo, atribuindo-a concretamente ao mestre judeu João do Porto, médico da rainha. Nestas histórias de soberanos estranhamente mortos aparecem sempre figuras de médicos, cuja intervenção Ricardo Jorge veementemente contesta, quanto à maioria dos casos, embora não deixe de lembrar os inúmeros assassinatos que foram imputados à vontade de Filipe II. Mas no caso em apreço não se verificou, de facto, um conjugicídio.  

Importa não esquecer neste momento que, prosseguindo uma política de centralização real, D. João II conseguiu que fosse ordenada a decapitação do duque de Bragança e ele mesmo apunhalou no Paço seu primo e cunhado, o duque de Viseu, irmão da rainha. Além de outros crimes que perpetrou.

Todavia, na hora extrema, D. João II arrependeu-se dos seus actos e pediu perdão por escrito à rainha, à sogra e ao cardeal de Alpedrinha (um dos mais altos dignitários católicos do tempo). E confirmou a sucessão na pessoa de seu outro primo direito e cunhado (também irmão da rainha), D. Manuel, duque de Beja, o futuro D. Manuel I.

Os textos de Rui de Pina e de Garcia de Resende constituem as únicas peças do processo relativo à morte de D. João II. Desde muito tempo antes do seu passamento que o rei sofria de males, atribuídos ao facto de ter bebido água peçonhenta na herdade da Fonte Coberta, próxima de Évora. 

«Assim enfermiço, no mez de julho de 95 nas Alcaçovas a doença do rei toma um "grande crescimento para mal, que se gastava e sumia e enfraquecia muito..." Dahi a tres mezes, a 25 de outubro "sahio-lhe a alma da carne", suum diem obiit.» (p. 61)

O envenenamento pela água das fontes obsessionou as gentes medievais até ao paroxismo da violência sanguinária. «No seculo XV na Aquitania os miseros gafos foram acusados de andar a empeçonhar as aguas, por instigação de judeus; duns e doutros se fez chacina pela forca e pelo queimadeiro.» (p. 62)

Como nota Ricardo Jorge, a ingestão de água peçonhenta em 1491 não justificaria as crises sucessivas em 1492, 1493 e 1495. Se envenenamento houvera, de que veneno se valeriam para o atentado? O grande tóxico ao tempo, e mesmo depois, era o arsénico, existente nos produtos para matar ratos. Distante a Antiguidade, em que predominavam os venenos vegetais, reinavam então os venenos minerais, à frente dos quais o rosalgar, conhecido raticida.

«Arsenicum vagum nomen est, diz magistralmente o Amato [Lusitano], porque tres arsenicos se apuram no drogário temporaneo: - o vermelho (arsen. rubeum), a sandaraca dos gregos, o bisulfureto de arsenico dos quimicos; - o amarelo (auripigmentum), oiropimento, o trisulfureto de arsenico; - o branco (arsen. album aut sublimatum), o acido arsenioso. A separação entre o acido arsenioso e os sulfuretos datava do Avicena. O termo de rosalgar (risalgalum) aplica-se mais propriamente à primeira especie, mas também é usado para a terceira, e até como apelativo comum de todos tres. Na linguagem popular portuguesa, rosalgar é o vocabulo corrente. O mais baixo e trivial nas boticas era o vermelho, o primeiro rosalgar; o oiro pimento vinha em melhor estima; apreciava-se, como a qualidade mais fina, o branco, raro e caro, provindo do oriente.» (p. 68)

«Naqueles tempos de venenismo e sortilegios, os arcanos dos envenenadores desentranhavam-se nos mais diabolicos efeitos. Matava-se a praso, deixando ao paciente meses ou anos de vida; era o venenum attemperatum, o lento, especie de contracto de passagem para o outro mundo em dia prefixado. Havia o modo fulminante, em que a droga ingerida, ou apenas respirada ou tocada, abatia de chofre a vitima. Tudo servia de vehiculo, tudo se podia impregnar de veneno mortal - as botas, os estribos, as joias, os lenços, as luvas, o sobrescrito duma carta, a chama de uma tocha, etc.» (p. 70)

«O arsenico não podia deixar de trazer-se ad rem, ao pensar-se na morte de D. João II por envenenamento. A incorrução do corpo do monarca veiu dar força á indiciação do rosalgar. Foi a primeira ideia do Camilo e o objecto da consulta feita ao dr. Carlos Lopes, que, em face dos praxistas, mostrou a invalidade do facto para a justificação da tese proposta. O dr. Silva Freitas forrageou tambem o testemunho dos mestres consagrados, extraindo identicas inferencias. A inteireza dos cadaveres é coisa relativamente frequente e devida ás causas mais banaes; por outro lado os corpos de homens ou de animais mortos pelo arsenico, se por vezes resistem á putrefacção, noutras deixam-se apodrentar e consumir como se nada fôra.» (pp. 71-2)

«É para reparar que nenhum se preocupasse com a veracidade da propinação pela agua da Fonte Coberta. O rosalgar deitado na agua sobrenada; ao beber, vê-se e sente-se. [...] Já o patriarca toxicologo, o rabino Maimonides, dizia que da agua bem pura nada ha que temer, a fraude não pode com ela.» (p. 72)

«E assim se engendra com paciencia e geito uma especie de puzzle nosografico, sem valor demonstrativo real. Nem vale a pena esmerilhá-lo. Antº de Lencastre desfaz alguns destes forçados ajustes clinicos, e entre eles a possibilidade do incomodo sofrido na Fonte Coberta ser imputavel ao arsenico. D. João refez-se depressa, e o rosalgar, quando intoxica, não dá licença a uma reposição tão pronta do pé para a mão; a ausencia de paralisias perifericas afasta tambem o arsenismo.» (pp. 73-4)

Segundo Ricardo Jorge, a nefrite crónica foi a causa real da morte de D. João II, considerando  que este diagnóstico não deixa dúvidas nem dá margem a objecções. E cita António de Lencastre: «"D. João II morreu de uremia, motivada por nefrite cronica, que não podia ser originada pelo envenenamento mesmo cronico de arsenico". Vai no andamento da doença, assiste ás suas crises evolutivas, finca o dedo nos inchaços fugazes, que "no verão de 94 assentam em mortal idropesia" como diz o cronista. A scena do desenlace em Alvor assume a nitidez dum "boletim medico", calcado sobre o depoimento do cronista. "É um quadro admiravel de uremia mista. A forma gastro-intestinal com vomitos, diarreia e soluços, alternando com a comatosa, não faltando as convulsões..." [...] O rei desesperava-se contra os acessos de modorra, dizendo nos intervalos - "Acordem-me, que não quero morrer como besta". E como esta sonação viera da supressão do fluxo, restabeleceram-no para aliviar os sentidos do enfermo. Unica coisa que fizeram com juizo. Tudo o mais foi uma serie pegada de asneiras - ida para banhos, caçada aos porcos e outras, todas autorizadas pela idiotia dos medicos cubicularios. Se algum medico ajudou a dar cabo de el-rei, foram este mata-sanos. Salvou-se das responsabilidades de tanto disparate o mestre Leão que se recusou a subscrever o ditame dos colegas e a acompanhar o regio amo até á estancia nefasta do Algarve.» (pp. 77-8-9)

Num texto gongórico mas breve, e certeiro, assim nos descrevia, há um século, o eminente higienista Ricardo Jorge, a causa da morte do Príncipe Perfeito, a partir de um capítulo do livro A Rainha D. Leonor, do Conde de Sabugosa, baseado no testemunho do dr. D. António de Lencastre.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

UM ACIDENTE

 Vi hoje pela primeira vez (depois de ter arrancado a raiz de um dente) o filme Accident (1967), de Joseph Losey, com argumento de Harold Pinter a partir do romance de Nicholas Mosley (que não li). 

O filme tem como protagonista Dirk Bogarde, sempre notável, e que tão bem conhecemos de outros filmes como O Criado (também de Losey) ou Morte em Veneza (de Visconti).

O famoso actor interpreta a figura de Stephen, professor un peu raté em Oxford, e transporta-nos para a atmosfera da velha universidade, onde as mais cruas realidades se ocultam sob a capa de grande integridade e puritanismo, onde os valores sempre exaltados da família disfarçam com dificuldade as tentações do sexo.

As relações entre as personagens são no mínimo ambíguas, como convém ao realizador e ao argumentista. Aflora mesmo uma subtil atracção homo-erótica de Stephen pelo seu aluno preferido William (desempenhado por Michael York, então ainda muito sedutor nos seus louros 25 anos), mas as relações (ou delas sugestões) visíveis são claramente hetero.

Os restantes actores compõem um magnífico elenco que confere à película a verossimilhança exigida pelo cinema de qualidade.

O acidente de automóvel, que põe termo à vida do rapaz, é uma conclusão metafórica da impossibilidade da prossecução do relacionamento que se havia estabelecido entre as principais personagens.


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A RAINHA D. AMÉLIA

Só agora tive oportunidade de ler Rainha D. Amélia - Uma Biografia, de José Alberto Ribeiro (JAR), publicado em 2013/2019. Trata-se de um importante estudo sobre a última rainha de Portugal, figura a quem o autor tem dedicado muito do seu trabalho de investigação. Para o efeito, JAR teve oportunidade de consultar os diários privados de D. Amélia, todos redigidos em francês, que esta manteve ao longo de 65 anos da sua vida, desde que chegou a Portugal até próximo do seu falecimento em França. Os restos mortais da rainha foram trasladados para Portugal durante o Estado Novo.

Era desejo de D. Amélia que estes diários, bem como outros papéis privados fossem queimados após a sua morte, o que não aconteceu, como aliás sucede, felizmente, na maioria dos casos. Estou agora a lembrar-me de Kafka. O principal herdeiro foi seu sobrinho Henrique, conde de Paris, que recebeu o maior lote dos diários. Outro lote, mais pequeno, ficou em posse de Louis Jouve, último mordomo de D. Amélia. Os diários que são propriedade da Casa Real de Orléans estão depositados nos Arquivos Nacionais de França, em Paris. Os documentos que ficaram em posse do mordomo, diários e outros papéis, são hoje propriedade do coleccionador francês Rémi Fénérol. Regista o autor ter tido a prerrogativa de ter sido, em ambos os casos, a primeira pessoa a ter consultado estes arquivos na sua totalidade.

Relativamente aos documentos da colecção Fénérol, desejou o proprietário que algumas informações ficassem secretas até sua ulterior decisão, vontade que o autor respeitou mas que, obviamente, ao referir certos assuntos, estes nos suscitam a maior curiosidade. É o caso de revelações de D. Amélia sobre a morte do Delfim de França (Luís XVII) ou, ainda mais importante, sobre a morte do arquiduque Rodolfo de Habsburg. Sobre este último caso, refere o autor constar dos papéis de D. Amélia as dúvidas manifestadas pela imperatriz Elisabeth de Áustria (Sissi), quando visitou D. Amélia no Palácio da Pena, sobre as circunstância da morte de seu filho Rodolfo no Pavilhão de Caça de Mayerling. [Consagra a história oficial que Rodolfo, filho de Sissi e do imperador Francisco José se terá suicidado depois de ter morto com um tiro de pistola a sua presumível amante. a baronesa Maria Vetsera. Num primeiro momento, foi dito que se tratou de um acidente com a limpeza da arma, tendo Francisco José intercedido para o efeito junto do Papa, pois um suicidado não poderia ter enterro religioso o que seria um impensável escândalo para a Casa Imperial Austríaca. Depois divulgou-se a versão oficial do suicídio. Mas há a tese de que Rodolfo foi assassinado por ordem do próprio Governo austríaco (eventualmente com conhecimento do próprio pai, o imperador) quer pelo facto de ter ideias que não se coadunavam com a política da época, quer pelo facto da baronesa Maria Vetsera ser um transexual. O realizador húngaro Miklós Jancsó tem um curioso filme sobre o assunto, Vizi privati, pubbliche virtù (1976), onde aborda estas perspectivas "heterodoxas".]

Existem alguns livros publicados sobre a rainha D. Amélia, como o de Laurence Catinot-Crost, Amélie de Portugal, Princesse de France (2000) ou de Stéphane Bern, Eu, Amélia, Última Rainha de Portugal (1999), e uma vasta bibliografia onde é tratada, directa ou indirectamente,  a figura da rainha D. Amélia. Em 1914, Lucien Corpechot publicou, com a supervisão da monarca, Souvenirs sur la Reine Amélie de Portugal, com tradução portuguesa em 2007: Memórias Inéditas da Rainha D. Amélia. [Possuo, há muitos anos, a edição, ricamente ilustrada, Rainha D. Amélia, de Ayres de Sá (1928)].

Na transcrição de documentos a que procede, JAR menciona frequentemente ANP, sigla que não consta das Fontes Manuscritas mencionadas no Índice, onde figuram, por exemplo, ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo), APDVV (Arquivo do Paço Ducal de Vila Viçosa), AFDM (Arquivo da Fundação D. Manuel II), etc. Presumo que o autor se queira referir aos Archives Nationales de France (em Paris), que designa pela sigla ANF (que, pelo facto de se encontrarem em Paris, passou a designar por ANP nas Notas.

José Alberto Ribeiro procura fornecer-nos o retrato de D. Amélia e da sua época através do testemunho da própria, consagrado nos seus Diários. A transcrição segue uma ordem tendencialmente cronológica, e os escritos da rainha são intercalados por considerações do autor visando contextualizar os acontecimentos referidos. Apesar das aspas e dos parágrafos torna-se às vezes difícil distinguir o que é de D. Amélia e de JAR, tal a profusão de citações, e de compreender os parentescos (inúmeros) da soberana. Sabemos que as casas reais europeias estavam ligadas através de uma inextricável teia de casamentos, e que todos os reis e príncipes eram primos uns dos outros. Talvez tivesse sido conveniente a inclusão, em apêndice, de uma nota explicativa da família mais próxima de D. Amélia (do lado francês, já que o português é minimamente conhecido), pois as duas árvores genealógicas apresentadas no fim do volume (Casa de Orléans e Casa de Bragança) são manifestamente insuficientes. A da Casa de Orléans, além de letra minúscula é ilegível a meio, dada a costura do livro (seria preferível um desdobrável) e não dá uma ideia dos parentes mais próximos de D. Amélia e das sucessivas alterações da chefia da Casa de Orléans (no seu ramo oriundo dos Bourbons), não apresentando também a representação da Casa de Bourbon (que existe), nem da Casa Imperial de França (Bonaparte).

A descrição dos acontecimentos verificados durante o reinado de D. Amélia e no seu exílio é feita por JAR numa perspectiva de neutralidade, como é conveniente em investigação histórica, embora nem sempre aconteça. Não fiz propriamente uma leitura crítica do livro, e por isso não sou garante da autenticidade de todas as afirmações, mas saltaram-me aos olhos algumas incorrecções que seria conveniente corrigir em edições futuras.

Por exemplo, a propósito de tomadas de posição "avançadas para a época" da infanta Eulália de Espanha, está escrito (p. 215) que o rei Afonso XIII era seu tio. Mas não é verdade, era de facto seu sobrinho; na página 224 está escrito que o casamento de D. Manuel II (1913) no Palácio de Sigmaringen foi celebrado pelo cardeal-patriarca de Lisboa, monsenhor Neto. Também não é verdade. O cardeal D. José Sebastião Neto resignara de patriarca de Lisboa em 1907, retirando-se para um convento, tendo sido substituído nessa data por D. António Mendes Belo; na página 265 está escrito que o golpe militar de 25 de Maio de 1926 foi liderado pelo general Costa Gomes. Também não é verdade. O golpe militar foi em 28 de Maio e não em 25 e o general era Gomes da Costa e não Costa Gomes. Este último esteve muito mais tarde envolvido em diversas conspirações mas em 1926 ainda era uma criança.

A esposa de D. Manuel II, a princesa Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen, é mencionada algumas vezes como rainha, o que também é incorrecto. Ao tempo do seu casamento, D. Manuel II era já ex-rei, pelo que a esposa nunca foi rainha de Portugal. Aliás, na realeza europeia, as mulheres que casaram com alguns ex-reis não passaram a usar o título de rainhas.

Existem algumas outras imprecisões, mas não é  minha intenção estar a assinalá-las aqui; tal como vários erros ortográficos na menção de nomes estrangeiros.

Mas tem muito mérito esta obra de JAR ao dar-nos a conhecer, através dos diários de D. Amélia, a sua visão do Portugal e do mundo e dos acontecimentos seus contemporâneos. A rainha foi uma das últimas representantes de uma aristocracia dos finais do século XIX e não compreendeu (certamente não poderia compreender) os "ventos de mudança" que de todos os lados sopravam. São compreensíveis as suas indignações com a forma que revestia a vida política no nosso país, nos reinados de seu sogro, de seu marido, de seu filho e no exílio. Mas o mal já vinha de trás; os portugueses não conseguiram entender-se, constitucionalmente, desde a Revolução de 1820. Lembremo-nos dos pronunciamentos do tempo de D. Maria II. O reinado de D. Pedro V foi curto, mas a instabilidade agravou-se com D. Luís e sobretudo com D. Carlos. Os monarcas não encontraram remédio para uma "conciliação" nacional. Quando D. Carlos deu plenos poderes a João Franco já era tarde e também o rei, pela forma como conduziu a sua vida, não se terá apercebido da gravidade da situação, que o levou à imprudência de atravessar o Terreiro do Paço (1908) em carro descoberto num momento em que a tensão estava ao rubro. Tinha sido publicado há pouco tempo o livro de António de Albuquerque, O Marquês da Bacalhoa, que, usando nomes supostos, atacava violentamente D. Carlos, D. Amélia (denunciando uma relação lésbica desta com a condessa de Figueiró), etc. Aliás, o próprio Afonso Costa, chefe do Partido Republicano, proclamara nas Cortes que por menos crimes que os de D. Carlos rolara no cadafalso a cabeça de Luís XVI.

O Regicídio, que foi (sabe-se hoje, pelo menos) um acto politicamente inútil, já que D. Carlos se encontrava gravemente doente, catapultou para o trono o infante D. Manuel, com 18 anos e sem qualquer experiência política, até porque era mais dedicado aos seus luxos pessoais, e j'en passe... Não conseguiu, nem conseguiria, impedir a proclamação da República, em 1910. Mesmo no exílio, e os diários de D. Amélia são disso testemunho, D. Manuel II interessou-se sempre mais pela sua vida privada do que pelos acontecimentos verificados em Portugal.

Tentou D. Manuel II, uma vez que do seu casamento com Augusto Vitória de Hohenzollern não havia nem era esperada descendência, assegurar a sucessão do trono, especialmente após a morte do herdeiro presuntivo, seu tio, o infante D. Afonso. Não havendo descendentes do ramo constitucional preenchendo os requisitos essenciais, gizou-se uma aproximação com o ramo legitimista da Casa de Bragança, chefiada por D. Miguel (II) a favor de seu filho D. Duarte Nuno. Os chamados pactos de Dover (1912) e de Paris (1922) não foram conclusivos, mas os monárquicos portugueses acabariam por aceitar D. Duarte como uque de Bragança e chefe da Casa Real Portuguesa.

Registe-se que D. Amélia visitou Portugal em 1945, a convite de Salazar, estadista que muito apreciava, pois fora capaz de pôr alguma ordem no país, depois dos buliçosos anos da Monarquia Constitucional e da I República.

Muitas e muito interessantes coisas se poderiam ainda escrever sobre este livro e sobre a época a que se refere e por isso se aconselha a sua leitura. Estudando a vida das figuras que, pelas suas funções, desempenharam papéis importantes em Portugal, aprendemos sempre mais sobre a nossa História.