domingo, 30 de agosto de 2020

A INSUPORTÁVEL SÉRIE TELEVISIVA DOS DURRELL



Josh O'Connor, no papel de Lawrence Durrell

A RTP2 tem transmitido diariamente uma série televisiva (creio que em repetição) intitulada "Os Durrell", sobre a permanência na ilha de Corfu da família Durrell, desde a sua chegada em 1935 até data que desconheço (Lawrence trocou a ilha pelo Egipto, em 1942), pois a série ainda vai nos primeiros episódios.


Segundo o genérico, esta série baseia-se no livro The Corfu Trilogy, de Gerald Durrell (o irmão mais novo de Lawrence) e foi realizada por Steve Barron, em 2016 (há mais realizadores e mais episódios até 2019, suponho). Enquanto Lawrence se distinguiu como escritor (é o autor do famoso Quarteto de Alexandria), Gerald interessou-se pelos animais e foi um conceituado naturalista.


Ignoro se as cenas "clownescas" a que tenho assistido decorrem da Trilogia de Gerald Durrell (que nunca li) ou se são fruto da imaginação delirante do realizador, nada tendo a ver com o pretendido subtil "humor britânico". Mas esta série, de evidente mau gosto, nem sequer respeita a verdade histórica. É certo que os padrões de qualidade da BBC, que a apresentou, andam muito por baixo, mas não havia necessidade de exagerar.


Mais valia que tivesse sido realizado um filme a partir de uma obra do próprio Lawrence Durrell, Prospero's Cell - A guide to the landscape and manners of the island of Corcyra (Corcyra é Corfu em grego) escrita em Alexandria em 1942 (a partir das notas que Lawrence tomou nos sete anos de estada na ilha) e publicada pela primeira vez em 1945. Neste livro, o autor regista as impressões recolhidas durante a sua permanência em Corfu, com alusões a The Tempest, de Shakespeare.

A ilha de Corfu é (ou foi) um lugar paradisíaco, carregado de uma história multi-secular. Muitas figuras notáveis fizeram da ilha local de vilegiatura, como a imperatriz Isabel da Áustria (Sissi) ou o imperador alemão Guilherme II que, após o assassinato daquela, comprou o seu palácio e mandou erguer nos jardins do mesmo uma estátua de Aquiles.


A título de curiosidade, note-se que o actor Josh O'Connor, que interpreta na série o papel de Lawrence Durrell, é um dos protagonistas do filme God's Own Country, de Francis Lee, um filme gay, onde O'Connor é um jovem fazendeiro britânico que se apaixona por um trabalhador migrante romeno, papel a cargo de Alex Secareanu. O filme recolheu imensos aplausos e foi galardoado no Festival Internacional de Berlim, de 2017.

Curiosamente, também, o actor Callum Woodhouse, que interpreta na série o papel de Leslie (o irmão do meio dos Durrell), é uma das principais personagens de B & B, um filme gay realizado em 2017 por Joe Ahearne.

Enfim, coincidências...
 

sábado, 15 de agosto de 2020

A ALEXANDRIA DE LAWRENCE DURRELL



Foi publicada em 1989 Alexandrie d'Égypte - Les lieux du Quatuor d'Alexandrie, uma obra com textos de Lawrence Durrell e fotografias de Rodolphe Hammadi. Prefaciou o livro (e suspeito que o organizou, pois não é feita referência a qualquer outra pessoa), o escritor e diplomata francês Olivier Poivre d'Arvor, homem da cultura e dos media, conselheiro cultural em diversos postos diplomáticos, director do Centro Cultural Francês de Alexandria, nomeado em 2016 embaixador de França na Tunísia.

O exemplar que possuo foi adquirido em 2007, através da Amazon, em estado impecável mas usado, já que exibe uma afectuosa dedicatória autógrafa de Olivier (Poivre d'Arvor) a um certo Luc (personagem que desconheço) de quem não é mencionado o apelido.

A obra, em bom papel, de menos de uma centena de páginas, inclui o prefácio de Poivre d'Arvor  ("Alexandrie, capitale de la mémoire") ; "Alexandria" ( prefácio, inédito em francês, de Lawrence Durrell à reedição de Alexandria: a History and a Guide, de E. M. Forster); uma entrevista com Lawrence Durrell realizada por Marc Alyn para a sua obra Le grand suppositoire; três cartas de Lawrence Durrell para Henry Miller; e "Les lieux du Quatuor d'Alexandrie" (35 fotografias alusivas à cidade, efectuadas por Rodolphe Hammadi e ilustradas com pequenos textos de Lawrence Durrell, extraídos da sua obra O Quarteto de Alexandria.

[Apraz dizer que Olivier Poivre d'Arvor publicou posteriormente (2009) um livro muito mais volumoso, Alexandrie Bazar - Le roman d'une ville, a que faremos referência em outra oportunidade]


[Por se referir expressamente à Alexandria de Forster, Durrell e Cavafy, não quero também deixar de mencionar Alexandria Still, publicado em 1977, pela Princeton University Press e reeditado em 1989, pela American University in Cairo Press, e que adquiri em Tunis, em Janeiro de 2001.]


No prefácio do livro, Poivre d'Arvor evoca vários locais míticos de Alexandria, cidade a que chama Capital da Memória. Como conheço todos esses locais, alguns já em vias de destruição aquando da minha primeira visita a Alexandria, li o texto com particular deleite. Por ocasião das minhas estadas na cidade, tive a oportunidade de ficar hospedado, por duas vezes, no Hotel Cecil, sobre a Corniche, o mesmo onde Lawrence Durrell começou a tomar notas para a redacção do Quarteto, do qual não resisto a transcrever dois parágrafos da primeira página:

« Capitally, what is this city of ours? What is resumed in the word Alexandria? In a flash my mind's eye shows me a thousand dust-tormented street. Flies and beggars own it today - and those who enjoy an intermediate existence between either.
Five races, five languages, a dozen creeds: five fleets turning through their greasy reflections behind the harbour bar. But there are more than five sexes and only demotic Greek seems to distinguish among them. The sexual provender which lies to hand is staggering in its variety and profusion. You would never mistake it for a happy place. The symbolic lovers of the free Hellenic world are replaced  here by something different, something subtly androgynous, inverted upon itself. The Orient cannot rejoice in the sweet anarchy of the body - for it has outstripped the body. I remember Nessim once saying - I think he was quoting - that Alexandria was the great winepress of love; those who emerged from it were the sick men, the solitaries, the prophets - I mean all who have been deeply wounded in their sex.»

No prefácio à obra de Forster, consagrada a Alexandria, Durrell considera que mais do que uma história e um guia, ela é uma pequena obra-prima que contém uma parte da melhor prosa que Forster escreveu. Lembra que chegou a Alexandria em 1941, vinte e três anos depois do livro ter sido escrito e oito anos depois da morte de Cavafy, que fora grande amigo de Forster, e que pouco de visível tinha mudado na cidade, pelo que utilizou o livro, durante dois anos, nas suas deambulações quotidianas. A única mudança verdadeira que constatou foi a cadeira vazia do poeta no seu café preferido. Mas diz também Durrell que, por ocasião da sua última visita a Alexandria, em 1977, muito do que tinha subsistido desaparecera, a começar pela população estrangeira, devido à nova política seguida depois da tomada do poder por Nasser. Refere ainda que o apartamento de Cavafy fora transformado numa pequena pensão e que o que restava do recheio fora conservado no último andar do Consulado da Grécia. [Existe, hoje, uma Casa-Museu Cavafy, no prédio onde habitou o poeta, na Rua Lepsius, agora Rua Sharm el-Sheikh, embora, ao que creio, no andar acima daquele que fora a sua residência, onde se guarda o parco espólio que não foi disperso pelos herdeiros.]

Na entrevista a Marc Alyn, Durrell conta a sua chegada ao Egipto em 1941, fugindo à guerra e a sua estada no Cairo e em Alexandria, cidade onde congeminou o Quarteto, a obra que o tornaria célebre. Tendo deixado o Egipto em 1945, a redacção do livro iniciou-a em 1946, já então em Rhodes. [Quando visitei Rhodes o ano passado não encontrei traços da passagem de Durrell, talvez por culpa minha, dado não me ter forçado a investigar a sua permanência na ilha.] Lembra, também, que até à batalha de El Alamein, estava convencido de que os alemães ganhariam a guerra. [Lembro, a propósito, que o bar do Hotel Cecil se chama Bar Monty, em homenagem ao marechal Montgomery, vencedor da batalha e que o frequentava, tal como eu o frequentei.] Antes de começar Justine, o primeiro dos quatro volumes que compõem o Quarteto, Durrell ainda esboçou uma nova versão do Livro dos Mortos, embora Alexandria fosse sempre a personagem principal do romance. A uma pergunta do entrevistador, sobre a razão porque todas as personagens do romance detestam o Egipto, incluindo os egípcios, Durrell responde que é devido à podridão total e também ao clima, que provoca uma espécie de sufocação. Para o escritor, o clima é esgotante e isso, para ele, também é devido à imensidade da superfície plana. Recorda que, mais tarde, na Argentina, sentiu a mesma sensação de "desvitalização". Acrescenta que há lugares abençoados e lugares estéreis e que, pessoalmente, a Grécia sempre lhe serviu: Corfu, Rhodes, Chipre. «J'ai noté quelque part que j'avais un moment songé à situer mon roman à Athènes. Mais avec le jeu des quatre temps et des quatre volumes, je risquais de lasser mon lecteur en plaçant toujours les scènes dans un décor identique. Cela rendait presque impossible les reprises successives de la même histoire. Ou bien je tombais dans ces romans-fleuves à la Musil, ennuyeux comme la pluie: sept volumes de rien et qui coulent, qui coulent...»

Seguem-se as três cartas endereçadas a Henry Miller, todas em papel timbrado do British Information Office, de Alexandria, onde Durrell trabalhava. 

Na primeira carta, datada da Primavera de 1944, Durrell felicita Miller pelos seus livros e conta que, com a guerra, a sua depressão aumenta e que as casas de saúde estão cheias de "clientes". Evoca a atmosfera de sexo e de morte de uma intensidade terrível. «Des Arabes, des Coptes, des Grecs, des Levantins français; pas de musique, pas d'art; pas de vraie gaieté. Un ennui moyen-européen saturé, complet, auquel se joignent l'alcool, les Packard et les cabines de plage. PAS D'AUTRE SUJET DE CONVERSATION QUE L'ARGENT. Même l'amour est considerée en termes d'argent.» Diz, num aditamento, que não se encontra uma única pessoa que se interesse a algo que não seja fazer dinheiro ou possuir uma mulher. Mas conta, também, que encontrou uma estranha mulher de olhos negros, uma pessoa autêntica perdida na venalidade e no dinheiro. «C'est la seule personne avec qui j'ai pu vraiment parler; nous partageons une vraie vie de réfugiés. Elle reste assise des heures sur le lit et me parle de la vie sexuelle des Arabes, des perversions, de la circoncision, du haschish, des pâtés de viande, de l'ablation du clitoris, de la cruauté, du meurtre. Cette fille pauvre née de parents juifs tunisiens (sa mère était une Grecque de Smyrne, son père juif de Carthage), elle a vu l'intérieur de l'Égypte jusque dans ses plus obscurs tressaillements d'obscénité. Elle est le Tropique du Capricorne ambulant.»

Na segunda carta, datada de 23 de Maio de 1944, Durrell agradece uma carta de Miller, informa que dirige o «grand bureau de propagande de guerre dont le but est d'introduire discrètemet le nouveau monde solide que nos déments de compatriotes essaient "de forger dans le fer et le sang"». Informa da grande variedade de lindas raparigas que existe na cidade (coptas, judias, sírias, egípcias, marroquinas, espanholas), mais belas do que em Atenas ou Paris. «Nourriture sexuelle de qualité, mais dans une atmosphère moite, hystèrique, sablonneuse, dominée par le vent du désert qui transforme tout en manie indispensable. L'amour, la drogue et l'homosexualité, voilà les remèdes évidents pour quiconque est coincé ici pour quelques années.»... «A part cela, je suis coincé au milieu d'un petit livre sur Corfou - un guide, en réalité, concernant le paysage. C'est difficile. Je me sens à sec.»

Na terceira carta, datada de 22 de Agosto de 1944, Durrell acha maravilhoso poder corresponder-se tão rapidamente com Miller, de quem elogia a obra. «On ne pourrait pas habiter très longtemps ici sans pratiquer une mort d'une sorte ou d'une autre - le haschich, les adolescents ou la nourriture. Et pourtant, ce pays a la beauté grasse ou mortelle d'une chenille.»... «J'ai tant appris ici que je suis impatient de me remettre à écrire. J'ai une idée merveilleuse pour un roman sur Alexandrie, un lien facile pour toutes mes expériences grecques, en même temps qu'une espèce de boucherie spirituelle avec des filles sur les tables.»

A última parte do livro, intitulada "Les lieux du Quatuor d'Alexandrie", apresenta 35 fotografias de Rodolphe Hammadi, alusivas a Alexandria, tendo como "legendas" pequenos textos extraídos do Quarteto. 

Este breve livro, devido a Olivier Poivre d'Arvor, contitui uma bela homenagem a Alexandria e evoca de alguma forma a génese do famoso Quarteto em que Lawrenec Durrell imortalizou a cidade.


sábado, 1 de agosto de 2020

INTERNATOS




A referência do Eduardo Pitta feita há dias ao livro Internato (1946), de João Gaspar Simões, suscitou-me o desejo de relê-lo. Tomei conhecimento da existência desta obra por indicação de Isabel da Nóbrega, nos anos 60 do século passado, pouco tempo depois de nos conhecermos e estando ela já separada de João Gaspar Simões. Elogiou-me o livro e a "coragem" do escritor ao abordar um assunto que permanecia quase um tabu na literatura portuguesa. Procurei nas livrarias mas estava esgotado, porventura eliminado dos fundos editoriais. Consegui adquirir, anos mais tarde, num alfarrabista, um exemplar que pertencera ao falecido prof. Carlos Antero Ferreira, que ainda conheci pessoalmente e cuja assinatura consta da respectiva folha de guarda.

Mas porquê o "escândalo" de Internato? Nesta obra, JGS descreve a vida quotidiana num internato liceal masculino, um estabelecimento de classe média-baixa (para os padrões da época) mas com algumas irrisórias pretensões. Recriar o ambiente geral de um internato, com as diabruras de alunos adolescentes e mesmo alguma violência, com cenas de partidas e de copianço, artimanhas e mentiras, com preferências de professores por alunos ou de alunos entre si, com as sistemáticas críticas a professores e prefeitos, não constitui propriamente motivo de espanto. É o clássico destes estabelecimentos de ensino, que hoje vão rareando. Só que, neste caso, JGS vai mais além: ele debruça-se sobre as relações sexuais entre os alunos, e mesmo entre alguns deles e o director, ainda que nunca descendo (ou subindo) a pormenores demasiado íntimos. 

Toda a gente sabe que os colégios internos masculinos (e provavelmente também os femininos) foram sempre lugares de relacionamento homossexual dos alunos (pelo menos da maioria) e mesmo destes com alguns professores. Tal não constitui em si qualquer novidade. Aliás, a convivência em espaço fechado de pessoas do mesmo sexo torna apetecida a actividade homossexual. Isto é também verdade para os quartéis, os seminários, os conventos, os navios e por aí fora. Tal como acontece no teatro de guerra, nas grandes expedições ou em situações calamitosas. A imisção de mulheres em espaços tradicionalmente reservados a homens, com a chamada emancipação feminina, veio perturbar parcialmente esta "harmonia" que a história registou durante séculos e a literatura evoca amiúde pela pena dos seus mais ilustres cultores.

O que provocou a estranheza, e até a inquietação, do livro de JGS não foi a existência de factos que todos mais ou menos conheciam, pelo menos subconscientemente, mas sim a sua revelação em livro, ainda para mais por parte de um escritor de que se ignora qualquer inclinação homossexual. Ao que acresce a publicação da obra na vigência do Estado Novo, cujos códigos morais excluíam a homossexualidade. Sejamos mais claros: Salazar não se preocupava com a pratica de relações homossexuais, tendo tido quase sempre, durante o seu longo consulado, ministros reconhecidamente homossexuais no seu Governo. Em matéria de sexualidade, Salazar era uma personalidade amoral, não digo imoral. O que Salazar não se podia permitir, e não permitia, era a existência pública de comportamentos homossexuais, condutas que o regime condenava. Assim, o que se passava no confinamento de quatro paredes não perturbava a ordem pública, era uma coisa que não aparecia, e por isso não parecia, e na moral como em política só o que parece é, nas próprias palavras do antigo presidente do Conselho. Agora, se a "transgressão" homossexual se tornava visível e ameaçava contestar os alicerces do Estado (e da Igreja), então havia que reprimi-la, e para isso o regime dispunha de uma atenta polícia de costumes.

Do ponto de vista literário, para lá da "revelação", o romance de JGS está visivelmente mal estruturado, é repetitivo e chega a roçar o mau gosto como, por exemplo, no caso das alcunhas utilizadas para os alunos do internato. E há um ligeiro desequilíbrio na descrição das conversas entre rapazes que teriam, supostamente, idades entre os dez e os dezoito anos. É essa a impressão que retirei desta recente leitura. Mas é pertinente a forma como observa a técnica de sedução utilizada pelos alunos ou a existência de um grupo especial, os "meninos bonitos", que seriam os mais belos rapazes do internato, e de como destes saíam os "favoritos" do director, que não desdenhava as companhias masculinas. E também a forma como analisa a presença da religião católica nos mais ínfimos actos da vida do colégio. Aliás, a última parte do livro é especialmente dedicada à "conversão" do jovem protagonista à religião, aos seus temores da confissão, à suspeita de que um padre havia traído o segredo do confessionário, à descrença total no catolicismo e, finalmente, à fuga do internato, embora sem consequências trágicas.

Dada a delicadeza do tema para a época (as referências à homossexualidade dos alunos e a crítica à sufocante presença da religião nas escolas) é natural que o livro tenha passado discretamente pelo meio literário. Embora fosse um miúdo quando ele foi publicado, já crescido não soubera da sua existência e, como escrevi acima, foi a Isabel da Nóbrega que mo assinalou, já nos finais dos anos sessenta.

Todavia, não possui Internato a grandeza de Les Amitiés Particulières (1943), o célebre romance de Roger Peyrefitte (passado ao cinema por Jean Delannoy), primeiro livro da extensa bibliografia do antigo diplomata, que recebeu o Prémio Renaudot e é talvez o seu melhor trabalho. Cotejando as datas de publicação, pode supor-se que JGS conhecesse a obra de Peyrefitte. Mas enquanto na obra do francês existe mesmo um amor homossexual, em JGS as relações são mais de circunstância, ainda que não se possa excluir, em alguns casos, uma nítida inclinação pelo mesmo sexo.

EROTISMO EM TERRAS DO ISLÃO

 
Chah Abbas 1er enlaçant l'un de ses "minions"

L’histoire insoupçonnée de l'érotisme en terre d’Islam 

(PUBLICADO PELA REVISTA TELQUEL)

Culture Le 28 juillet 2017 


Surprenante, audacieuse et longue, longue… l’histoire de l’érotisme dans les pays arabo-musulmans fait la part belle à l’homosexualité et à la célébration des plaisirs interdits. Interdits ? Pas tout à fait…





« Dans leur langue, il n’est pas louable qu’un homme exprime sa passion pour un jeune homme. Ils réprouvent fortement ce genre d’expression. C’est pour cela, quand ils veulent traduire nos livres, qu’ils remplacent « j’aime un jeune homme » par « j’aime une jeunefemme » ou par « j’aime une personne » pour ne pas être dans l’embarras. Ecrire sur ces choses-là est une pure perversion pour eux. » L’auteur de ces lignes n’est pas un écrivain européen ou un journaliste américain déplorant le sort réservé à la littérature gay dans les zones tribales afghanes, mais un voyageur égyptien décrivant les mœurs du peuple… français au 19ème siècle. Dans cet extrait de ses souvenirs de voyage à Paris, le cheikh Rifaa Tahtawi explique comment les écrivains français étaient gênés et embarrassés à l’idée de traduire en français des poèmes et des contes arabes célébrant
la beauté masculine ou évoquant des amours homosexuelles. Eh oui. Les traducteurs européens déployaient alors des trésors d’imagination, entre ruses et jeux de mots, pour ne pas choquer leurs lecteurs avec cette littérature libertine et « étrangère » aux mœurs des européens à l’époque.


L’islam ose, l’Europe censure


Dans son célèbre A la recherche du temps perdu, Marcel Proust se souvient de l’hésitation de sa mère à lui offrir l’une des deux traductions disponibles des Mille et une Nuits : la première, plus ou moins fidèle au texte originel en arabe, ou une autre, élaguée et expurgée de tout contenu érotique ou homosexuel. Pour ces sociétés européennes, la perversion, le libertinage et la corruption morale venaient de l’autre : le musulman. La littérature arabe, persane ou
turque était à l’époque vue d’un mauvais œil. Les mœurs arabes ont ainsi pu choquer : au 17 ème siècle, Joseph Pitts, un jeune anglais capturé par des corsaires algériens, décrit dans ses mémoires, non sans aversion et horreur, comment à Alger « les hommes tombent amoureux des garçons, comme en Angleterre ils le feraient avec des femmes ».


Ces exemples peuvent faire sourire ou irriter. Surtout si l’on s’en tient à l’idée, largement répandue aujourd’hui, selon laquelle l’homosexualité est une mode étrangère, une greffe, une perversion occidentale que des esprits malintentionnés tentent d’importer dans nos chastes contrées musulmanes. Les tenants de ce discours, conservateur et binaire, esquivent ainsi tout un pan de l’histoire et de la culture musulmanes. Exit donc la poésie libertine arabe et persane, adieu les traités érotiques, écrits pourtant par des théologiens musulmans. Quant à Abou Nouass, Omar El Khayam et Al Jahid, tous ces (grands) auteurs de textes à caractère homosexuel, ils n’ont tout simplement jamais existé. Il y a pourtant une histoire musulmane de l’homosexualité, qui éclaire sous un autre angle l’évolution des sociétés musulmanes et leurs rapports avec la sexualité et le plaisirComme les chez les Grecs anciens, l’amitié amoureuse entre les éphèbes est décrite comme une source d’exaltation dans la littérature musulmane.


En tant que religion et selon les textes sacrés, l’islam interdit l’homosexualité et la considère comme un vice et une turpitude. Sur ce point, l’islam s’inscrit dans la continuité des autre religions monothéistes, en reprenant l’histoire de Sodome et le sort du peuple de Loth pour interdire l’homosexualité.


Le mythe fondateur de Sodome


Comme l’explique le Tunisien Abdelwahab Boudhiba dans La sexualité en islam (1975, éd.Puf), l’islam a une vision du couple fondée sur « l’harmonie préétablie et préméditée des sexes ». Ce qui suppose une complémentarité foncière du masculin et du féminin. Le but de cette complémentarité est la jouissance et le plaisir, mais aussi et surtout la procréation et la perpétuation de la race humaine. Dans cet esprit, l’homosexualité serait une violation de l’harmonie naturelle et une menace d’anarchie et de déséquilibre.


Le Coran ne précise pas de châtiment spécifique sanctionnant l’acte homosexuel, ce qui ouvre la porte à tout un débat théologique sur la nature de la punition. D’après un hadith du prophète, la sanction doit être la peine de mort, reproduisant par là même le châtiment divin qui s’est abattu sur le peuple de Loth. Toutefois, la similitude avec Zina (la fornication) est évoquée par certains ouléma musulmans pour établir des variations dans la sanction : la lapidation jusqu’à la mort pour l’homosexuel marié, et des coups de fouet pour le célibataire.

L’homosexualité féminine est traitée avec une indulgence relative. Elle n’est pas assimilée à la fornication ni à l’homosexualité masculine. Les Sihakyate (lesbiennes) font l’objet d’une simple réprimande laissée à la discrétion du juge. L’absence de pénétration anale, qui définit l’homosexualité aux yeux des théologiens musulmans, explique vraisemblablement cette « mansuétude ».

Dans la théologie musulmane, la pratique de l’homosexualité, pour pouvoir être démontrée comme un fait avéré, requiert les mêmes preuves que dans le cas de la fornication : le témoignage de quatre personnes attestant avoir vu et discerné une pénétration totale, ou bien un aveu sans rétractation des personnes concernées. Des exigences draconiennes qui rendent quasiment inapplicables les sanctions qui frappent les pratiques homosexuelles. Fréderic Lagrange remarque dans son livre Islam d’interdits, Islam de Jouissance (Editions Tétraèdre, 2008), que le juriste musulman remercie souvent Dieu ‘‘de pouvoir cacher les vices des croyants qui ne sont pas ostentatoires dans leur transgression de la loi divine’’.


Mais l’évolution de la société musulmane, suite aux conquêtes militaires et au contact avec d’autres civilisations, a produit des réalités nouvelles et des modes de vie différents de ce que le texte religieux prescrit et interdit. L’élargissement de l’empire musulman, notamment sous la dynastie abbasside, a engendré un changement des valeurs et des normes, et de nouvelles habitudes sont apparues. Les amours masculines n’étaient plus dissimulées, cachées ni réprimés, mais elles étaient affichées, proclamées et tolérées. Des amours non seulement charnelles et sexuelles, mais aussi philosophiques et mystiques.


Califes amoureux


Dans son Histoire des califes, le théologien et historien égyptien Jalaloudine Assayouti, fournit cette description du calife abbasside Al Amine : ‘‘ Il achetait, sans compter, des eunuques qu’il réservait à son plaisir, renonçant ainsi à ses femmes et concubines’’. Al Amine, fils et successeur du grand calife Haroun Arrachid, vouait un amour démesuré à certains de ses esclaves mâles, et composait pour eux des poèmes où il manifestait sa passion et sa flamme. Le calife, dont l’empire s’étendait du Maghreb jusqu’à la Chine, décrit ainsi son
serviteur Kawthar dans l’un de ses poèmes : ‘‘Kawthar est ma religion et ma vie, ma maladie et mon médecin. Bien injuste est celui qui blâme un cœur pour son amour’’.

D’autres califes abbassides, comme Al Moâtassim et Al Wathiq, écrivaient des poèmes d’amour dédiés aux jeunes garçons et éphèbes. Alssayouti, grand théologien malékite, nous apprend à ce propos que le calife Al Moâtassim avait ‘‘un mignon d’une beauté exceptionnelle qui s’appelait Ajib, et dont il était follement amoureux’’.


Ces quelques exemples renseignent sur les changements qui ont touché la société musulmane lorsqu’elle est passée d’un petit Etat désertique à un empire qui domine le monde. Les rapports avec l’homosexualité ont également muté. Ce qui relevait de la turpitude qu’il fallait taire et cacher est devenu une pratique courante et consacrée même par les califes, détenteurs du pouvoir politique mais également spirituel et religieux.


Dans son traité historique Albidaya wa Alnihaya, Ibn Kathir juriste et théologien syrien du 14ème siècle, déplore que l’homosexualité touche ‘‘la majorité des rois et des princes, mais aussi les commerçants, les gens ordinaires, les écrivains, les ouléma et les juges, sauf ceux que Dieu a voulu préserver de ce vice’’. Quant à Al Maqrizi, l’historien égyptien du 15ème siècle (cité par Malek Chebel dans Le dictionnaire amoureux de l’Islam, Editions Plon, 2004), il témoigne qu’à son époque ‘‘ l’homosexualité était si répandue que les femmes devaient s’habiller en hommes pour avoir grâce aux yeux de leurs prétendants’’.


Cette mutation mentale et culturelle s’explique par l’influence qu’ont exercée les cultures et civilisations annexées par les conquêtes militaires musulmanes. L’héritage grec, persan et hindou ont été déterminants dans ce changement culturel.


Les éphèbes du paradis


L’un des premiers textes littéraires en arabe traitant de la question de l’homosexualité est Mofakharat Alghilman wa Aljawari d’Al Jahid (traduit en français par l’écrivain marocain Maâti Kabbal sous le titre Ephèbes et courtisanes, Payot, 2008). Dans ce livre, écrit sous forme de dialogue, deux hommes débattent de leurs préférences sexuelles : le premier expose les raisons de son amour pour les jeunes garçons, tandis que le second défend sa passion pour les femmes.


Le dialogue entre les deux hommes est un petit bijou de l’art de la polémique très prisé dans la littérature arabe classique. Toutes les références sont mobilisées pour damer le pion à son interlocuteur et appuyer ses positions : la poésie, l’histoire, les anecdotes drôles et
croustillantes, mais aussi les hadiths et les versets coraniques. L’amoureux des femmes évoque sans hésitation des paroles du prophète rendant hommage aux femmes et à leurs mérites, tandis que l’autre défend sa préférence pour les jeunes garçons en citant deux versets du Coran qui décrivent les plaisirs du paradis auxquels vont goûter les croyants. Parmi ces délices, les versets promettent des garçons beaux ‘‘ comme des perles conservées’’, selon l’expression coranique, destinés au service des heureux élus.


Cet argument peut étonner, mais il est souvent utilisé dans les récits historiques et littéraires pour justifier l’amour envers les éphèbes. Yahya Ibn Aktham, Qadi al qodat (plus haut grade de la magistrature musulmane) sous le calife Al Mamoun, recourait également à cet argument pour justifier ses goûts sexuels et son penchant pour les garçons. Sur le ton de la boutade, ce génie de la théologie musulmane, comme on le décrivait dans les livres d’Histoire, argumentait : ‘‘Pourquoi ne pas désirer sur terre ce que Dieu réserve à ses fidèles au paradis ?’’. Il est stupéfiant de constater que les écrivains musulmans, souvent des ouléma et des hommes de religion, n’éprouvaient aucune gêne ou embarras à citer des histoires et des
poèmes célébrant l’homosexualité. Cela faisait partie, pour beaucoup d’entre eux, d’une simple manifestation de connaissance encyclopédique et d’érudition.


Célébrer la beauté masculine et déclarer son amour à un jeune éphèbe n’avaient pas toujours une connotation sexuelle et ne couvaient pas forcément un désir de jouissance. Dans certains cas, il s’agissait tout simplement d’un simple jeu littéraire, une démonstration de la maîtrise du verbe et son maniement dans les différentes situations. D’autres formes de passions homosexuelles dans l’histoire musulmane ressemblent plutôt à un amour platonique ne débouchant pas forcément sur des relations sexuelles. Ces manifestations d’amour platonique entre des personnes du même sexe, sont très présentes dans la littérature mystique musulmane.


Sexe, amour et chasteté


Le collier de la colombe, écrit par l’Andalou Ibn Hazm, est certainement l’un des plus beaux livres en arabe sur le thème de l’amour. Un texte plein de délicatesse, de mélancolie et de sensibilité. Ibn Hazm était aussi un homme de religion et fondateur d’un rite très rigoriste et ultra-orthodoxe. Dans Le collier de la colombe, ce juriste et théologien cite sans jugement ni distinction les passions homosexuelles aussi bien que les amours hétérosexuelles. Pour lui, tous les récits, anecdotes et poèmes méritent d’être cités dès lors qu’ils relèvent de l’amour chaste et platonique. Ibn Hazm avait une vision romantique et mélancolique de l’amour, qui se définissait selon lui par le tumulte des sentiments et la passion pour l’être aimé, sans que le corps ne vienne pervertir tout cela, et surtout dans un cadre illicite. L’amour d’un homme pour une personne du même sexe entrait dans cette définition, d’où les exemples d’amour homosexuel qu’Ibn Hazm décrit dans son livre.

Sur cet aspect, la littérature musulmane reprend des thèmes qu’on retrouve déjà chez les grecs antiques, notamment celui de ‘‘l’exaltation de l’amitié amoureuse pour les éphèbes’’ comme le remarque Fréderic Lagrange. Dans Le Banquet de Platon, il est question de l’amour idéal et passionné qui liait le philosophe Socrate à son disciple Alcibiade. Le philosophe grec apprend à son disciple, jeune et beau, que l’amour spirituel et intellectuel est plus intense et plus durable que la rencontre des corps, voués à s’affaiblir un jour. L’essence même de ce que l’on nomme de nos jours l’amour platonique.


On retrouve fortement cette idée chez les mystiques musulmans qui conçoivent l’accompagnement d’un jeune homme comme une initiation spirituelle et l’amour entre deux hommes comme une forme d’amour divin. Dans Massarii Al’ochaq (Les sorts des amoureux), le cheikh Abou Mohammed Al Qarii raconte l’histoire d’un soufi musulman affecté et peiné par la mort d’un jeune homme dont il ne se séparait jamais. Le soufi a pleuré toutes les larmes de son corps après la disparition de son compagnon et passait des journées entières debout face à la tombe du jeune garçon. Un jour, on l’a retrouvé mort au pied de la sépulture de son bien-aimé. Les Mille et une nuits foisonnent également d’histoires de mystiques follement amoureux de jeunes garçons, mais d’un amour chaste et platonique.



Histoires de lesbiennes…


Objet de fantasmes orientalistes et lié souvent au hammam et au harem, le lesbianisme en histoire musulmane demeure très mal connu. Les sources sont très rares et, dans une société fortement masculine, les femmes ne pouvaient pas s’exprimer elles-mêmes sur ce sujet, bien que l’homosexualité féminine soit sanctionnée avec moins de sévérité que l’homosexualité masculine.

Chihabeddine Al Tifachi, juriste tunisien du 13ème siècle, a consacré une partie de son livre Nozhat Alalbab (Le plaisir des esprits) au lesbianisme. Le cadi tunisien fournit dans cette partie des explications ‘‘scientifiques’’ sur les origines biologiques de l’homosexualité
féminine, pour converger après sur des descriptions précises et étonnantes sur les lesbiennes de son temps. Al Tifachi explique donc que ces femmes ‘‘ utilisent excessivement les parfums et sont pointilleuse sur la propreté et l’hygiène. Elles n’achètent que les meubles, les mets et les bijoux les plus chers et les plus rares’’. L’élégance et le raffinement des femmes qui s’adonnent à l’amour saphique, selon cette description, laisse croire qu’il s’agit surtout de personnes qui appartiennent à des classes sociales aisées. Al Tifachi n’épargne pas à son lecteur de certains détails concernant les positions sexuelles et les techniques de coït chez les lesbiennes. A l’instar d’Al Jahid dans son livre sur les avantages comparatifs de l’homosexualité masculine et l’hétérosexualité, Al Tifachi réserve quelques pages au débat entre les adeptes du lesbianisme et ses détracteurs. Risque écarté de grossesse et discrétion en cas d’adultère sont cités parmi les avantages et ‘‘ les vertus’’ de l’homosexualité féminine.


L’une des références historiques sur le saphisme est l’œuvre d’un auteur marocain du 16ème siècle, Mohammad Hassan Al Wazzan, originaire de Fès et enlevé par des corsaires italiens qui l’ont vendu au Pape. Ce dernier l’a adopté comme fils en le baptisant sous le nom de Jean Léon de Médicis, dit Léon l’africain. Dans son livre La description de l’Afrique, Hassan Al Wazzan décrit les ruses des lesbiennes dans la ville de Fès pour séduire d’autres femmes souvent mariées. Ecrivant son livre à l’intention du maître du Vatican, il relate et condamne, avec une touche d’humour, les stratagèmes de ces femmes. Toujours dans ce livre, le diplomate pontifical décrit une autre catégorie d’homosexuels qu’il a croisés en territoire marocain, celle des travestis. ‘‘Ce sont des hommes qui s’habillent en femmes et portent des ornements comme les femmes. Ils se rasent la barbe et vont jusqu’à imiter les femmes dans leur façon de parler… Chacun de ces êtres abjects a un concubin et se comporte avec celui-ci exactement comme une femme avec son mari », s’enflamme Hassan Al Wazzan. Qui a dit que l’homosexualité est une ‘‘ invention’’ occidentale ?

segunda-feira, 27 de julho de 2020

DE OLHOS ABERTOS




Relido, quarenta anos depois da publicação, Les yeux ouverts (1980), de Marguerite Yourcenar (1903-1987), o livro permanece um espanto. Mais propriamente, trata-se da edição em volume das diversas entrevistas concedidas por Yourcenar, entre 1971 e 1979, ao crítico literário francês Matthieu Galey (1934-1986), na sua residência "Petite Plaisance", na ilha Mount Desert, no Maine (EUA), que escolhera para fixar domicílio, depois de uma vida de viagens na Europa, na Ásia e na África.

Este livro bem poderia ser considerado como as memórias de Marguerite Yourcenar, já que a intervenção do entrevistador é muito limitada. Ele deixou a escritora dissertar sobre os temas que lhe eram caros, embora esta dissesse mais tarde que ele se debruçou em especial sobre os assuntos que mais lhe interessavam e não sobre as suas verdadeiras preocupações. Mas Galey possui o inegável mérito de ter organizado o produto dessas conversas de forma a estabelecer uma linha de continuidade da vida de Yourcenar desde o seu nascimento até àquele momento, pouco tempo antes dela ter sido solenemente recebida, em 22 de Janeiro de 1981, na Academia Francesa, a primeira mulher a quem foi concedida essa honra, desde a fundação da Casa, pelo cardeal-duque de Richelieu.

Neste livro "autobiográfico", Marguerite Yourcenar fala da sua vida, da família, das influências recebidas, dos amigos e das amizades, da natureza e dos animais, dos livros que leu, da solidão e da escrita, das paixões e do mundo, do amor e da morte. Especialmente dos livros que escreveu, sobre a criação dos quais fornece inestimáveis pormenores. Detém-se demoradamente sobre a génese das Memórias de Adriano, dos esboços que traçara sobre a vida do imperador, do esquecimento desse interesse, que cultivara durante anos, e de como esses papéis lhe apareceram, muito mais tarde, numa mala de haveres pessoais que tinham ficado retidos na Europa e só chegaram aos Estados Unidos já depois da Segunda Guerra Mundial. Foi essa epifania que a motivou definitivamente a escrever a obra.

No decorrer das entrevistas, Yourcenar revela a sua imensa erudição e também algum pretensiosismo, disfarçado de humildade. Sob a aparência de uma modesta camponesa "exilada voluntária" entre os Estados Unidos e o Canadá, pretendendo conviver quase sempre com gente simples, conservou, contudo, a sua natureza aristocrática. Nascida no seio de uma rica família belga, órfã de mãe desde o nascimento, manteve uma relação privilegiada com o pai, que lhe incutiu o prazer da leitura, ainda que não a acompanhasse muito de perto, envolvido que estava nas suas aventuras amorosas.

Nesta "autobiografia" incompleta, Yourcenar revela o seu pensamento sobre múltiplos assuntos, do passado e do presente, que naturalmente não vou consignar, mas acho curioso fazer catorze citações das últimas páginas:

- «À notre époque où les progrès technologiques se sont jusqu'ici accompagnés de catastrophiques revers, ce serait la foi du charbonnier. Mais en quoi l'homme de gauche, optimiste à tout prix, diffère-t-il du capitaliste de droite qui rêve aussi de progrès, ou du moins en rêvait avant-hier? Chaque fois que je vais dans un super-market, ce qui du reste m'arrive rarement, je me crois en Russie. C'est la même nourriture imposée d'en haut, pareille où qu'on aille, imposée, par des trusts au lieu de l'être par des organismes d'État. Les États-Unis, en un sens, sont aussi totalitaires que l'URSS, et dans l'un comme dans l'autre pays, et comme partout ailleurs, le progrès (c'est-à-dire l'accroissement de l'immédiat bien-être humain) ou même le maintien du présent état de choses dépend de structures de plus en plus complexes et de plus en plus fragiles.» (p. 259)

- «Je condamne l'ignorance qui règne en ce moment dans les démocraties aussi bien que dans les régimes totalitaires. Cette ignorance est si forte, souvent si totale, qu'on le dirait voulue par le système, sinon par le régime.» (p. 271)

- «Mais qu'il s'agisse de répondre à une lettre ou d'ouvrir toute grande ma porte, je ne fais bien entendu aucune différence entre un Noir et un Blanc. Ou plutôt, il y aurait peut-être un petit sentiment de sympathie supplémentaire, dont il faut se méfier, car c'est du racisme à rebours.» (p. 278)

  - «Hadrien, lui aussi, avait beaucoup d'amis juifs, libéraux et hellénisés. Il se heurte au fanatisme du vieil Akiba, et j'avoue qu'à moi-même Akiba ("c'était peut-être un héros, ce n'était pas un sage") n'inspire guère plus de sympathie que Khomeini. Le fanatisme juif n'est pas plus respectable qu'aucun fanatisme.» (p. 279)

- «D'autre part, j'ai de fortes objections au féminisme tel qu'il se présente aujourd'hui. La plupart du temps, il est agressif, et ce n'est pas par l'agression qu'on parvient durablement à quelque chose. Ensuite, et ceci sans doute vous paraîtra paradoxal, il est conformiste, du point de vue de l'établissement social, en ce sens que la femme semple aspirer á la liberté et au bonheur du bureaucrate qui part chaque matin, une serviette sous le bras, ou de l'ouvrier qui pointe dans une usine.» (p. 284)

- «Le viol est le crime d'une société  qui n'a pas su résoudre, non pas tellement le problème des sexes que celui de la sexualité.» (p. 288)

- «Mais il y a parfois, chez de très grands hommes, une tendance à l'impersonnalité totale, dont Hadrien nous parle: "Un homme qui écrit ou qui calcule n'appartient plus à son sexe. Il échappe même à l'humain." C'est beaucoup plus rare, du moins jusqu'à nos jours, même chez les plus éminentes des femmes.» (p. 291)

- «C'est par ignorance ou par préjugé sexuel que trop de gens procréent au hasard des enfants qui fourniront des soldats aux guerres futures, et en attendant des clients aux promoteurs.» (p. 302)

- «{Car vous condamnez également la télévision?} - Certes, de la manière dont on nous offre. C'est pourquoi je n'en n'ai pas. Je n'ai pas besoin de gens qui arrivent à heure fixe chez moi comme des colporteurs qui viendrait proposer leurs marchandises ou essayer d'insinuer en moi les opinions qu'on leur a dit d'exprimer. Avez-vous lu 1984, d'Orwell, avec son monde de télévision obligatoire? Nous en sommes quasiment là.» (p. 305)

- «{Et les journaux, en lisez-vous tous les jours?} - Pas tous les jours. Je lis des piles de rapports économiques, techniques, écologiques; (...) Il faut tous les lire et les vérifier les uns par les autres. Mais l'édition dominicale du New York Times ou la sélection hebdomadaire du Monde me suffisent, et encore! D'abord parce que la presse est trop souvent un miroir faussé, où les événements et les hommes nous apparaissent déformés, grandis, rapetissés, suivant les cas. Et ensuite parce que le dessous des cartes, presque toujours, nous échappe...» (p. 305)

- «Comme André Gide, qu'on accusait guère d'être mystique, je pense que le problème social est plus important que le problème politique, et le problème moral plus important que le problème social. On en revient toujours à la lutte entre le bien et le mal.» (p. 310)

- «Les Démocrates et les Républicains se passent ici leurs opinions de pères en fils, si bien qu'on a parfois l'impression qu'il s'agit de deux clans plutôt que de deux partis, et les indépendants les meilleurs et les plus intelligents n'ont jamais pu se faufiler entre ces blocs.» (pp. 310-311)

- «J'ai été stupéfaite que Mémoires d'Hadrien atteigne un tirage qui doit avoisiner à présent  le million d'exemplaires: je croyais l'avoir écrit pour trois personnes.» (p. 328)

- «Pour ne pas rater la dernière expérience, le passage, Hadrien parle de mourir les yeux ouverts. Et c'est dans cet esprit que j'ai fait vivre Zénon à sa mort.» (p. 330)

E é de olhos abertos que Marguerite Yourcenar deseja, no fim do livro, que ocorra a sua morte.

"Les yeux ouverts" é, também, o título deste livro autobiográfico, publicado há quarenta anos. As convicções da escritora podem ser, na generalidade, subscritas hoje, passado que é quase meio século.

Existem duas grandes biografias de Marguerite Yourcenar a que faremos referência em futuros posts: Marguerite Yourcenar, de Josyane Savigneau (1990) e Vous, Marguerite Yourcenar - La passion et ses masques (1995), de Michèle Sarde.

Marguerite Yourcenar visitou algumas vezes Portugal. Recordo-me da sua vinda à Fundação Gulbenkian, onde fez uma conferência, "apresentada" por Agustina Bessa-Luís e David Mourão-Ferreira. Foi a única vez que a vi pessoalmente e com quem tive o privilégio de trocar algumas breves palavras.

terça-feira, 21 de julho de 2020

RECORDANDO MADAME CHRISTINA E CAVAFY


Madame Christina e Eu - Café-Restaurante Elite (Janeiro de 2001)

Recordo, hoje, Madame Christina Konstantinou, que ainda entrevistei no seu Café-Restaurante Elite, na Rua Safiyya Zaghlul, em Alexandria, há quase vinte anos.

 
Café-Restaurante Elite - Alexandria (Janeiro de 2001)

Pertencendo à vasta comunidade grega de Alexandria, Madame Christina permaneceu no Egipto mesmo após a retirada das comunidades "estrangeiras", na sequência da tomada do poder pelo coronel Nasser em 1954. O seu estabelecimento foi sempre um lugar de referência para encontros da intelectualidade da cidade. Tive o privilégio de ter falado por três vezes com Madame Christina, (era assim tratada) nas minhas visitas a Alexandria, tendo-a entrevistado em 2001. Não voltei a vê-la. Nas minhas viagens posteriores, já raramente ia ao Café, devido à sua avançada idade. Em 2005, morreu. Depois da sua morte, ainda conversei lá com um filho, que vivia habitualmente em Paris e que me disse possuir em sua casa alguns dos manuscritos de Cavafy, um dos quais figurava em fotocópia à entrada do estabelecimento.

Madame Christina, nessa altura uma velha senhora, foi a única pessoa que conheci que ainda conhecera pessoalmente Constantin Cavafy, o imenso poeta grego-egípcio de Alexandria, amigo de E.M. Forster, evocado por Lawrence Durrell no Quarteto de Alexandria e que é uma das figuras cimeiras da poesia universal do século XX. (Foi traduzido pela primeira vez em português por Jorge de Sena e em francês por Marguerite Yourcenar).

Consta que Cavafy frequentara o Café Elite, mas não é verdade. O estabelecimento foi inaugurado em 1953, conforme averiguei, e Cavafy morrera em 1933. Christina Konstantinou falara com ele quando era muito jovem. É certo que Cavafy fora um frequentador de tertúlias de café, mas tinha os seus hábitos no Café Billiard Palace, alguns metros acima do Elite (quem sobe, vindo da praça de Raml) e que já não existia na altura em comecei a ir a Alexandria. Ainda fiz algumas tentativas para encontrar o local, mas debalde.

Era no Billiard Palace, especialmente nos bilhares da cave, que Cavafy engatava os jovens egípcios que levava a casa, situada nas proximidades, na Rua Lepsius, hoje Rua Sharm el-Sheikh, que é actualmente a Casa- Museu Constantin Cavafy, a cargo do Consulado-Geral da Grécia.

Contou-me com muita graça Madame Christina que, vendo entrarem rapazes no prédio, a vizinhança se interrogava sempre quanto ao andar a que se dirigiam, já que no apartamento por baixo de Cavafy existia uma casa de prostituição feminina (actividade então perfeitamente legal em Alexandria). As coscuvilhices das vizinhanças são eternas e Cavafy não escapava a elas, embora a prática homossexual fosse nessa altura perfeitamente admitida no Egipto. Hoje a homossexualidade é condenada, embora continue a praticar-se abundantemente, ainda que mantendo a conveniente discrição.

Com muita dificuldade, localizei anos depois, no Cemitério Grego-Ortodoxo de Alexandria, a sepultura de Madame Christina. Lamento não ter gravado essa interessantíssima conversa, mas o encontro fora imprevisto, ela nem todas as noites ia ao Café, e eu não estava precavido do indispensável gravador.


Jazigo da família de Madame Christina, com a data da sua morte: 12 de Maio de 2005 (Cemitério Grego-Ortodoxo de Alexandria)

  Conservo recordações de um passado inesquecível!

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ALI DUAJI




Tive conhecimento, através do meu amigo Abdeljelil Larbi, da publicação, há poucos dias, da tradução portuguesa de um livro do escritor tunisino Ali Duaji,  Périplo pelos bares do Mediterrâneo e outras histórias.

Trata-se da primeira obra deste autor editada em português e creio que da primeira tradução em português de um autor tunisino, mas posso estar enganado. Tenho várias obras de ficção de escritores tunisinos, mas todas em francês, ou porque foram escritas directamente en francês, ou porque foram traduzidas do árabe para o francês.

A presente edição inclui não só a novela Périplo pelos bares do Mediterrâneo (Jawlah bayna hânât al-Bahr al-Mutawassit), publicada pela primeira vez na revista "Al-'âlam al-'arabi", entre Setembro de 1935 e Fevereiro de 1936, como também cinco pequenos contos publicados em jornais e revistas entre 1936 e 1953: O Tio Giacomino (Al-''amm Jâkômînô), A Minha Vizinha (Jâratî), Ramadão (Ramadhan), Ele Faz-me Passar as Noites em Branco (Sahirtu minhu al-layâlî) e O Segredo do Sétimo Quarto (Sirr al-ghurfah as-sâbi'ah).

Ali Duaji (1909-1949), realizou apenas estudos primários, mas logo se interessando pela literatura. Começou a trabalhar no comércio aos doze anos, e desde muito cedo a enviar textos para jornais e revistas. Pertenceu a um grupo de intelectuais que se reunia nos cafés do bairro de Bab Suika e que ficou conhecido como grupo "Taht as-Sur", nome de um dos cafés que a tertúlia frequentava. Em 1936, fundou o jornal "As-Surur", célebre pelas suas caricaturas satíricas. Duagi foi um crítico da sociedade da sua época e a sua obra dispersa, especialmente os seus contos, foi reunida num volume publicado em 1969, vinte anos após a sua morte, vítima de tuberculose, numa antologia intitulada Sahirtu minhu al-layali (Noites acordadas). É a partir de então que o seu nome, entretanto caído no esquecimento,  começa a ser recuperado e os seus textos (Duagi foi ficcionista, poeta, dramaturgo) a adquirirem nova visibilidade pública. Em 2014, as suas Obras Completas são editadas com o patrocínio do Ministério da Cultura da Tunísia. O grande escritor egípcio Taha Hussein (1889-1973) prefaciou um dos seus contos e considerou Duaji uma voz especial entre os modernos escritores árabes.

A novela Périplo pelos bares do Mediterrâneo descreve a viagem de barco efectuada pelo autor a partir de Tunes, com paragem na Córsega, em Nice, em Nápoles, no Pireu, em Atenas, em Istanbul  e Esmirna. Era suposto o périplo terminar em Alexandria, mas o relato acaba nesta última cidade turca.

Como o próprio escritor indica, não lhe interessa referir (ou mesmo visitar, salvo excepções) museus ou monumentos, mas sim contactar as populações, observar os seus usos e costumes, fixar as suas características particulares, salientar episódios curiosos. Tudo isto numa linguagem muito simples, revelando mesmo por vezes uma certa ingenuidade, o que terá tornado os seus escritos muito populares e apreciados.

As observações registadas por Duaji, que numa leitura de relance poderão parecer superficiais, revelam a acuidade de um espírito atento a simples pormenores do quotidiano, numa tradição dos velhos contos árabes.

domingo, 12 de julho de 2020

GUILHERME II




Comprei há muito anos (talvez trinta), num alfarrabista, Guilherme II, de Emil Ludwig, conhecido autor de biografias de figuras célebres. Este livro (Wilhelm der Zweite, 1925, no original), traduzido num português estranho, não por ter sido editado em Porto Alegre (não está escrito em brasileiro) mas pelo vocabulário utilizado e pela retorcida sintaxe, foi publicado em 1934, numa edição especial para Portugal. Por motivo meramente acidental, restaurar-lhe a capa aquando da limpeza periódica de uma das estantes, li-o agora.

Começa o autor por dizer que não se trata «nem da exposição do período guilherminesco nem tão pouco da história integral do seu patrono: apenas um retrato de Guilherme II.» De facto, não estamos sequer em presença de uma biografia clássica mas de instantâneos da vida de Guilherme e da relação com as criaturas que lhe foram mais próximas. Não obstante, a descrição de Emil Ludwig ocupa 400 páginas num formato que se mais reduzido atingiria à vontade 700 ou 800 páginas, tal a preocupação de penetrar nos estados de alma das personagens, muitas vezes com pormenores supérfluos ou repetições desnecessárias.

Como não conheço qualquer outra biografia de Guilherme II, não posso avaliar da objectividade com que Ludwig aborda a figura do kaiser, mas é evidente uma especial antipatia por aquele que foi o último imperador da Alemanha. Sem pretender fazer uma crítica do livro, confino aqui alguns apontamentos.

Em primeiro lugar importa situar o imperador no tempo e no espaço familiar. Guilherme II (1859-1941), que foi imperador da Alemanha e rei da Prússia (1888-1918), era filho de Frederico Guilherme (efémero imperador-rei sob o nome de Frederico III) e de Vitória, princesa real do Reino Unido, filha da rainha Vitória. Seu avô fora o imperador Guilherme I, no reinado do qual se constituiu o Império Alemão (o Segundo Reich, sucessor do Santo Império Romano-Germânico) sob a égide do rei da Prússia (1871).

O nascimento de Guilherme foi complicado, devido a um parto difícil, de que resultou uma lesão no braço esquerdo, que ficou mais curto e semi-paralisado, defeito que procurava ocultar mas que marcou indelevelmente o seu comportamento para toda a vida. A mãe tinha-lhe pouca estima, que lhe era retribuída pelo filho, que nutria por ela especial aversão, extensiva à rainha Vitória, sua avó, aos futuros Eduardo VII e Jorge V, seu tio e seu primo, e à Inglaterra em geral. Talvez culpasse a mãe pelo seu problema congénito, mas esta considerava-o pouco capaz para reinar, inferior aos outros filhos havidos posteriormente. Todavia, Guilherme era inteligente e culto, de rápido raciocínio, mas com uma profunda instabilidade emocional, que lhe foi altamente prejudicial ao longo do seu reinado e lhe acabou por ser fatal.

A mãe achava-o dotado de uma natureza feminil, mais preocupado com decorações e condecorações, fardas e ornamentos do que com a política e é conhecido que preferia o convívio dos seus companheiros militares ou amigos pessoais à frequência das mulheres, que, no quotidiano, não partilhavam a sua vida. Não consta, porém, que tenha mantido qualquer relação homossexual, apesar do seu mais íntimo amigo e conselheiro, o príncipe Philipp zu Eulenburg, ter sido acusado (e julgado) de manter um círculo homossexual no seu palácio, como se verá mais adiante. De resto, Guilherme II era casado com Augusta Vitória de Schleswig-Hosltein e teve sete filhos.

Um dos defeitos deste livro de Emil Ludwig (existem muitas outras biografias do imperador) é, apesar da sua extensão, a de se preocupar excessivamente com fait-divers, descurando aspectos mais relevantes para a compreensão do desenrolar dos acontecimentos. Ludwig é parco na indicação de datas, a ordem cronológica é muitas vezes confusa e a indicação das personagens intervenientes, indicadas normalmente só pelos apelidos (quando muitos actores eram da mesma família), torna por vezes difícil a sua identificação, especialmente quando também se omitem os cargos, ou estes não são claramente explicitados.

A volubilidade de Guilherme II levou-o a cometer demasiados erros políticos, desde logo a demissão do chanceler  Otto von Bismarck, o artífice da criação do Império Alemão, logo após a sua subida ao trono. E quis rodear-se sempre de pessoas que o adulavam, afastando as que o aconselhavam prudentemente. Uma das vozes que refreava a sua pulsão militarista, incentivada por muitos outros, era exactamente o príncipe Eulenburg, o mais íntimo dos seus amigos, dos quais existe uma correspondência quase apaixonada, e que despediu sem uma palavra, quando estalou o escândalo em 1907. Com a saída do príncipe, ficou Guilherme mais sujeito aos conselhos da ala do regime defensora da guerra.

Durante o seu reinado, o imperador saltitou de alianças e projectos de alianças entre os vários países europeus, do Reino Unido à Rússia, da França à Áustria, à Itália, ao Império Otomano. Foram atribuladas as suas relações com Eduardo VII e Jorge V e também com o czar Nicolau II. A sua aversão à Inglaterra enquadrava-se num misto de amor/ódio de que nunca se libertou. Andou 30 anos a desdizer-se e a proclamar-se pacifista e acabou por se deixar envolver estupidamente na Primeira Guerra Mundial, por causa do atentado de Sarajevo. Principalmente por uma questão de fidelidade ao velho imperador Francisco José, da Áustria-Hungria, e também porque considerava sagradas as pessoas reais, achando inconcebível o seu assassinato.

O despedimento, em 1890, pouco depois da sua ascensão ao trono, do príncipe Bismarck do lugar de chanceler, figura que Guilherme considerava incómoda, foi um erro, até porque o Chanceler de Ferro, embora demasiado militarista, era um hábil negociador de alianças e tinha uma ampla visão política. Caprivi, que lhe sucedeu, e Hohenlohe estiveram cerca de cinco anos no lugar, o príncipe Bernhard von Bülow, oito anos, Hollweg, sete anos, Michaelis e von Hertling, menos de um ano cada, e o princípe Max von Baden, o último dos chanceleres, pouco mais de um mês (1918), para lhe conseguir arrancar a abdicação, não devidamente formulada, já que o imperador pretendia manter-se como rei da Prússia, só oficializada já na Holanda, para onde precipitadamente fugiu. Entretanto, a República (de Weimar) havia sido proclamada. Estas mudanças de chanceleres e o seu tempo de permanência no cargo não as obtive no livro, em que é matéria tratada muito confusamente, mas colhi-a noutras fontes.

O escândalo Eulenburg, imprecisamente descrito no livro, consistiu na persistente difusão na imprensa (1906/1907), primeiro veladamente, depois com acusações concretas, de uma ligação homossexual entre o príncipe Philipp zu Eulenburg, embaixador e íntimo do imperador como se disse acima, e o general conde Kuno von Moltke, comandante militar de Berlim. Segundo o jornalista Maximilian Harden, haveria mesmo um círculo homossexual que se reuniria no Palácio de Liebenberg, residência do príncipe, de que fariam parte altas personalidades da aristocracia alemã, e que envolveria também a presença de jovens soldados e de rapazes dos meios operários. Nessa época, a conduta homossexual era proibida na Alemanha (§ 175º do Código Penal, disposição revogada, espantosamente, só em 1994) e considerada infamante [É estranha a introdução deste § 175º em 1871, já que o rei Frederico II da Prússia, o Grande (1712/1740-1786), personalidade de referência em toda a Alemanha (e idolatrado por Hitler), era um homossexual célebre, praticando assiduamente com os seus soldados]. Durante o processo que se seguiu vários oficiais, cujos nomes a polícia conhecia, suicidaram-se. O processo contra Eulenburg nunca foi concluído por entretanto ter sido proclamada a república. A intenção de Harden era mais precisamente atingir a reputação do kaiser, e afastar Eulenburg, cujas opiniões pacifistas e anti-imperialistas o imperador acatava, substituindo-o por figuras ligadas à ala dura e militarista do Império. Harden escrevia a soldo dessas forças e foi-lhe muito útil o conhecimento de informações que lhe foram fornecidas pelo diplomata barão Friedrich von Holstein, uma personagem sinistra que durante trinta anos manobrou na sombra a política externa da Alemanha, após a saída de Bismarck. Aliás, por causa da homossexualidade, já Friedrich Alfred Krupp, o famoso industrial dono das fábricas de aço Krupp, que passava uma parte do ano em Capri, onde convivia intimamente com os acessíveis rapazes da ilha, se suicidara em 1902, depois de ter sido denunciado pela imprensa. Krupp fazia também parte do círculo de amigos do imperador, que acusou o jornal do partido social-democrata de ter mentido sobre as inclinações do industrial.

Os anos que precederam a eclosão da Primeira Guerra Mundial são largamente descritos por Emil Ludwig, embora a prosa seja um tanto confusa. Ressalta a constante mudança de espírito do imperador e as peripécias que haviam de conduzir ao fim da dinastia Hohenzollern. O livro termina, um pouco abruptamente, com a chegada de Guilherme à fronteira da Holanda. Nem uma palavra sobre o tempo de exílio; é verdade, que quando foi escrito, Guilherme II ainda estava vivo.