terça-feira, 15 de setembro de 2015

QUEM MATOU ROLAND BARTHES?




Acabou de ser publicado o segundo romance de Laurent Binet, La septème fonction du langage, cujo ponto de partida é a morte por atropelamento do célebre filósofo, sociólogo e semiólogo francês Roland Barthes, na Rue des Écoles, em 1980, após um almoço com François Mitterrand.

Neste livro, em que intervém uma parte significativa da intelectualidade francesa da época, segundo Binet todos são suspeitos. Adivinha-se, por isso, que suscitará polémica numa rentrée literária que se afigura de melhor qualidade relativamente aos anos anteriores.

Laurent Binet

Recorde-se que Laurent Binet publicou em 2010 um livro que obteve o Prémio Goncourt do primeiro romance, HHhH, e que comentámos aqui. O autor, agregado de letras e professor na Universidade de Paris, é também músico, produzindo-se como cantor-compositor do grupo Stalingrad.

Oportunamente registaremos a nossa opinião sobre a obra.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO E AS VERDADEIRAS CONSPIRAÇÕES




TUDO COMEÇOU MUITO ANTES.

Mas tomemos como ponto de partida o assassinato do Papa João Paulo I em Setembro de 1978. O conclave que teve lugar após a morte do Pontífice, um homicídio inédito nos últimos séculos, catapultou para a cadeira de Pedro uma figura sinistra, o cardeal Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, o primeiro papa não italiano em cinco séculos, que assumiu hipocritamente o nome de João Paulo II. Esta eleição não foi certamente inspirada pelo Espírito Santo mas imposta pelo governo secreto mundial (cuja existência muitos se empenham em negar), que "recomendou" a votação no prelado polaco, julgado capaz de provocar um sismo político na Europa: o desmoronamento da União Soviética e o fim do comunismo. Uma empresa de vulto, confiada a um homem considerado suficientemente hábil para alterar o equilíbrio de forças a nível  mundial.

Não hesitando nos meios para alcançar os fins, João Paulo II  manobrou as reivindicações laborais do sindicato polaco Solidariność, chefiado pelo corrupto Lech Walesa, convertendo-as numa contestação ao regime de Varsóvia. A eleição de Wojtyla foi conjugada pelo governo secreto com as eleições de Margaret Thatcher, para primeiro-ministro do Reino Unido, em 1979 (ficaria no lugar até 1990) e de Ronald Reagan, para presidente dos Estados Unidos, em 1981 (ficaria no lugar até 1989). Este "triunvirato" foi mandatado não só para alterar a ordem internacional saída de Yalta e Potsdam, isto é, a eliminação dos regimes comunistas da Europa, mas igualmente para iniciar o desmantelamento das estruturas socialistas e social-democratas dos países "ocidentais". Começaram assim as privatizações arbitrárias e os ataques ao "Estado Social" e abriu-se caminho para progressiva perda de influência dos partidos socializantes do chamado mundo livre, além da desregulação dos mercados financeiros e, do ponto de vista religioso, operou-se um retrocesso das posições da Santa Sé para um conservadorismo tridentino. Durante uma década, com o auxílio de alguns comparsas menores, estas três personagens realizaram um trabalho perseverante para a consecução dos objectivos que lhes haviam sido determinados, trabalho ora subterrâneo, ora à luz do dia, que contaria com a contribuição inesperada do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbatchov (eleito para o cargo em 1985), que por ingenuidade, fraqueza de espírito, ignorância política ou motivos pessoais acabou por se converter num aliado objectivo dos desígnios da tríade "libertadora".

Enquanto a Velha Rússia se afundava não só económica mas politicamente, Gorbatchov assumia em 1988 o cargo de presidente do Presidium do Soviete Supremo (sucedendo a Andrei Gromyko), e em 1989 passava a presidente do Soviete Supremo (cargo anteriormente não existente mas que se integrava nas proclamadas políticas da Perestroika e da Glasnost). Os dados estavam lançados, e em 9 de Novembro de 1989 caía o Muro de Berlim. Daí à reunificação da Alemanha foi um passo. Em 3 de Outubro de 1990 a República Federal da Alemanha (governada por Helmut Kohl) absorvia a República Democrática Alemã, e ficava livre o caminho para o estabelecimento do IV Reich. Em 15 de Março de 1990, Gorbatchov alterou mais uma vez a designação do seu cargo, passando a presidente da União Soviética. Entretanto, sucediam-se as mudanças nos países da Europa de Leste, com maiores ou menores convulsões, à excepção do episódio sinistro do fuzilamento de Nicolae Ceaușescu, em 25 de Dezembro de 1989, após um simulacro de julgamento transmitido pela televisão.

Em Agosto de 1991, estando Gorbatchov na sua datcha da Crimeia, um grupo de dirigentes políticos e militares da União Soviética tentou removê-lo do cargo, perante o descalabro generalizado do país e devido às suas contínuas cedências às exigências ocidentais. O golpe falhou, e Gorbatchov, que fora detido três dias, regressou a Moscovo, mas só lhe restava demitir-se, o que veio a suceder em 25 de Dezembro de 1991. Extinta a União Soviética, o ébrio Boris Yeltsin, que assumira a presidência da Rússia (10 de Julho de 1991) tornou-se o único interlocutor do antigo império soviético, mantendo-se no cargo até 31 de Dezembro de 1999, altura em que foi substituído por Vladimir Putin.

A primeira parte do plano do governo secreto mundial ficara concluída em 1991, mas não inteiramente. Restava a Jugoslávia. Havia, pois, que destruí-la. O país, composto por seis repúblicas, fora uma construção artificial criada no fim da Primeira Guerra Mundial. Aguentara-se no período entre as duas guerras, com lutas fratricidas durante as ocupações alemã e italiana, mas sobreviveu à Segunda Guerra, sob a liderança de Tito, que oportunamente se distanciara de Moscovo a favor do Movimento dos Não-Alinhados. Morto Tito, presidente vitalício, em 1980, sucederam-se rotativamente os presidentes das seis repúblicas. Em 1991, Slobodan Milošević foi eleito presidente da Sérvia, lugar que ocupou até 1997, quando se tornou o terceiro presidente da República Federal da Jugoslávia, até 2000. Mas desde Junho de 1991 que a Federação Jugoslava colapsara com a proclamação unilateral de independência por parte da Eslovénia e da Croácia, prontamente reconhecidas pelo Vaticano (com o entusiasmo proselitista de João Paulo II) e pela Alemanha. Recorde-se que a Eslovénia e a Croácia são católicas e a Croácia apoiara a Alemanha nazi. Também a Macedónia proclamara a independência em Setembro e a Bósnia/Herzegovina em Outubro. A União Europeia viria a proceder ao reconhecimento oficial em 1992, ficando a Jugoslávia então reduzida à Sérvia e ao Montenegro. Mas na Bósnia, de população maioritariamente muçulmana, as coisas não correram bem, devido a razões endógenas e também a influências exteriores. E sendo um terço da população ortodoxa, verificou-se uma intervenção da Sérvia. O conflito durou até 1995, registando-se mais de 250.000 mortos. Todavia, sobrava ainda o Kosovo, região autónoma da Sérvia, de população maioritariamente albanesa, que, em 1998, reivindicou igualmente a independência. Milošević não cedeu e enviou as suas tropas. Em Fevereiro de 1999 teve lugar a Conferência de Rambouillet, organizada pela NATO, a fim de resolver o problema do Kosovo. Foram feitas exigências inaceitáveis à Sérvia, que esta recusou. Apesar da hesitação de alguns países europeus, a secretária de Estado norte-americana, a famigerada Madeleine Albright, contra a vontade da maior parte dos participantes, exigiu o bombardeamento da Sérvia se esta não aceitasse o ultimato da NATO. Mesmo a França, aliada tradicional da Sérvia, se viu compelida a condescender. Abolido o conceito de independência das nações, ignorado o direito internacional, foi ultrapassado o conceito do direito de ingerência, substituindo-o agora pelo de dever de ingerência. A Sérvia foi bombardeada durante três meses (Março a Junho), com todas as suas infraestruturas destruídas e Belgrado largamente danificada, como eu pessoalmente tive ocasião de verificar. O primeiro-ministro português, António Guterres chamou-lhe "guerra humanitária", certamente um novo conceito jurídico. Milošević foi forçado a render-se, sendo substituído em 2000 por Vojislav Koštunica. O Kosovo passou a ser administrado pela ONU e proclamou a sua independência em 2008 (com um governo constituído por terroristas e traficantes de armas e droga), que não foi reconhecida por elevado número de países. Entretanto, os Estados Unidos instalaram no território uma importante base militar, o que era, aliás, a intenção norte-americana ao promover o conflito na Jugoslávia.

Mas o início do novo século traria mais novidades, como seria de esperar atendendo aos desenvolvimentos dos últimos 20 anos. Em 11 de Setembro de 2001, registou-se o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono, em Washington, logo atribuídos à Al-Qaida. A organização de Osama Bin Laden fora criada e apoiada militar e financeiramente pela CIA para ajudar a expulsar os soviéticos do Afeganistão. Cumprida a missão, teriam ficado sem trabalho os militantes dessa Base ou o ataque aos Estados Unidos continuou a fazer parte de um plano milimetricamente delineado? As opiniões dividem-se, mas a confusão das notícias provenientes da Casa Branca nos primeiros momentos e as investigações a que especialistas conceituados procederam posteriormente suscitam as maiores dúvidas quanto à natureza do ataque. Como foi possível destruir subitamente as Twin Towers por dois aviões de carreiras regulares sujeitos à monitorização das torres de controlo dos aeroportos?

Roosevelt precisou do ataque a Pearl Harbor para intervir na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Bush necessitava também de um acontecimento dramático para invadir o Médio Oriente. Assim, o ataque aos EUA caiu como sopa no mel. Será esta uma conclusão exagerada? Não me parece. Num primeiro momento desencadeou-se uma guerra inútil, a pretensa ocupação do Afeganistão, refúgio da Al-Qaida, sendo sabido que nem ingleses, nem russos alguma vez conseguiram ocupar o montanhoso país. Os afegãos não gostavam dos taliban que parcialmente os governavam depois da partida do soviéticos, mas gostavam ainda menos dos americanos que os bombardeavam. É claro que o objectivo final não era realmente o Afeganistão, mas o Iraque. E em 2003, George W. Bush, depois da infamante Cimeira das Lajes (16 de Março de 2003), onde se reuniu com Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, uma reunião que cobriu de opróbrio o nosso país, decidiu invadir o Iraque. Os neoconservadores americanos descobriram um pretexto infantil, a existência de armas de destruição maciça que Saddam Hussein estaria disposto a utilizar, pondo em perigo não só a Europa mas os próprios Estados Unidos. O ridículo não tem limites, mas os americanos ignoram o ridículo. Na altura, alguns jornalistas e analistas políticos portugueses, sem vergonha na cara, também defenderam acerrimamente aquelas posições e não me recordo que se tenham retractado. Honra seja feita à França que se demarcou da iniciativa e ao seu  ministro dos Negócios Estrangeiros, Dominique de Villepin, que proferiu no Conselho de Segurança da ONU um discurso que, ineditamente, foi calorosamente aplaudido. Houve mesmo quem jurasse ter visto as armas, pelo menos os comparsas das Lajes. Mas afinal não existiam. Em 20 de Março de 2003, americanos, ingleses e aliados da "coligação" começavam a bombardear o Iraque. Pelo meio ficou a estranha morte do cientista britânico David Kelly, ex-inspector da ONU no Iraque, que apareceu suicidado perto de sua casa, em Oxfordshire, em Julho de 2003. Blair irritou-se quando lhe foi perguntado por um jornalista no Japão, onde se encontrava, se tinha sangue nas mãos.

Diga-se em abono da verdade que a campanha de intoxicação promovida pelos Estados Unidos a nível mundial não logrou o efeito ambicionado e as manifestações que por toda a parte tiveram lugar, reunindo milhões de pessoas, em protesto contra esta nova guerra, evidenciou que os EUA podem sempre mentir mas já não podem convencer.

De novo na Europa, tivemos em 2004 a "Revolução Laranja" na Ucrânia, instigada pelos "serviços" ocidentais, a propósito do escrutínio que deu a vitória a Viktor Yanukovitch para a presidência da República. A votação viria a ser anulada, devido às manifestações, realizando-se novo acto que acabaria por confirmar a vitória de Viktor Yushchenko. Estas "revoluções laranjas", que seguem o manual "Otpor", já tinham determinado na Sérvia a expulsão de Slobodan Milošević, e foram decisivas nas manifestações, na Praça Tahrir, contra o presidente Hosni Mubarak. A agitação voltaria à Ucrânia, nomeadamente a Kiev, com a insurreição na Praça Maidan, em Dezembro de 2013, contra a oposição de Viktor Yanukovitch, agora presidente da República, à adesão da Ucrânia à União Europeia. Obrigado a fugir, Yanukovitch refugiou-se na Rússia e foi instalado um "governo popular" em Kiev, ao serviço do governo secreto mundial, cujo objectivo é o cerco da Rússia, na sequência do desmoronamento da União Soviética. Só que Putin não brinca em serviço e anexou a Crimeia, que, aliás, fazia parte da Rússia, antes de ter sido oferecida à Ucrânia por Nikita Khrushchov, além de ter começado a apoiar os ucranianos russófonos do Donbass.

Aquando da dissolução da União Soviética, havia um compromisso tácito da NATO e da União Europeia de que os países da Europa de Leste, e por maioria de razão as repúblicas que faziam parte da União, se manteriam independentes de blocos ocidentais, dado ter sido extinto o Pacto de Varsóvia. Mas nada disto aconteceu. Não só os países de Leste passaram a integrar a NATO e a própria UE, como as próprias ex-repúblicas soviéticas da Estónia, da Letónia e da Lituânia. Tudo isto com a aquiescência do bêbado Boris Yeltsin. Pretendia-se agora a Ucrânia. Não resultou!

A estratégia de desestabilização teria de incluir, para além do Iraque, o resto do Mundo Árabe. É assim que surge em fins de 2011 a "Primavera Árabe", com as manifestações da Tunísia, que levaram à fuga do presidente Ben Ali, as manifestações no Marrocos e na Argélia (estas prontamente dominadas, pelo menos por ora), a insurreição na Líbia contra Qaddafi, de que foi especial arauto o pseudo-filósofo judeu francês (ao serviço do sionismo internacional) Bernard-Henri Lévy e que teve o apoio de Nicolas Sarkozi (cuja campanha eleitoral Qaddafi havia subsidiado) e de David Cameron e ainda as manifestações contra Hosni Mubarak, no Egipto, que determinaram a renúncia deste ao cargo presidencial. E também, como teria de ser, as manifestações na Síria, contra Bashar Al-Assad, que não fugiu e enfrentou a contestação, protagonizada mais por estrangeiros do que por sírios, como já então se sabia, e é agora meridianamente claro.

Não sendo Qaddafi propriamente uma personagem muito frequentável, representava uma garantia de estabilidade no Norte de África, mas os líderes ocidentais entenderam que teria de ser derrubado (e assassinado, para não dar com a língua nos dentes) e o governo secreto obteve do Conselho de Segurança da ONU autorização para a NATO bombardear a Líbia, a (falso) pretexto de que o coronel ia massacrar toda a população do seu país. O aval da ONU era limitado mas as forças ocidentais ignoraram os seus termos e liquidaram o país. A Líbia, hoje, é um caos.

No Egipto, após o episódio Morsi (da Irmandade Muçulmana) surgiu o marechal Al-Sisi que tenta repor um pouco de ordem na casa. A Tunísia, país a que me ligam fortes laços, foi largamente infiltrada pelo terrorismo internacional.

Mas é na Síria que, desde 2011, a situação é mais dramática. A chamada oposição democrática a Assad, que nunca foi democrática, acabou por ser ultrapassada pelos guerrilheiros islamistas, a maior parte estrangeiros, e o país mergulhou numa trágica guerra civil, que já provocou vários milhões de mortos, feridos e refugiados. Um remake do Iraque. As primeiras reacções ocidentais inclinavam-se, na sua sanha contra Assad, a bombardear o país, como estava decidido a fazer o insignificante Hollande, travado no último minuto por Obama, que se terá apercebido, in extremis, do disparate total desse tipo de intervenção.

É neste contexto que surge, em 2014, o "Estado Islâmico" (EI) ao qual já nos referimos várias vezes neste blogue. E surge por geração espontânea, já armado e equipado, qual Minerva saída da cabeça de Júpiter. E ocupando, de um dia para o outro, um território com uma superfície equivalente à de Portugal. Os guerrilheiros do EI, especializaram-se em decapitações (frente às televisões), em ataques a cristãos, mas também a muçulmanos menos rigorosos, na destruição de igrejas, e mesmo de mesquitas, e no aniquilamento do património histórico das regiões que ocupam. Neste caos total, impõe-se uma questão: Quem financia o EI? Quem lhe fornece armamento? Quem lhe transmite as informações indispensáveis às operações que conduz? A Arábia Saudita, o Qatar, a Turquia, Israel, a própria CIA? Insondáveis são mais uma vez os desígnios do governo secreto mundial.

Como cereja no topo do bolo, temos agora (já havia em menor escala e aumentaram com a deposição de Qaddafi) o drama dos refugiados. Despojados de tudo, especialmente os sírios, buscam na Europa o seu porto de abrigo. Mas vêm (já vinham) do Norte de África, morrendo aos milhares no Mediterrâneo, primeiro em busca de melhor vida, depois fugindo ao jihadismo global. Mas vêm agora, em números imprevisíveis (ou não), através da Grécia, pela Bulgária, pela Sérvia, pela Hungria, pela Áustria, procurando alcançar a Alemanha.

Um êxodo nunca visto desde a Segunda Guerra Mundial ou a confirmação, como tem afirmado o Papa Francisco, de que estamos já na Terceira Guerra.

Estas linhas, apressadamente escritas, pretendem demonstrar que nada do que se diz acima aconteceu por acaso. Podem os estadistas (se ainda algum existe) ocidentais rasgar as vestes mas é impossível acreditar que os acontecimentos descritos se devem ao acaso, ou à imperícia dos homens, ou à falta de previsibilidade das suas acções. NÃO! O que acontece obedece a um plano cujos objectivos já não são apenas o petróleo ou outras riquezas naturais, nem tão só a redefinição de fronteiras do Médio Oriente traçadas pelo Acordo Sykes-Picot. Está em causa um paradigma civilizacional, e a entrada de um número que tende a ser ilimitado de refugiados, ou migrantes, ou como lhe quisermos chamar, implica uma miscigenação da Europa. Com que fim? Para alargar o terrorismo ao Velho Continente? Com certeza que não. As populações que se deslocam não são terroristas, e se algum vier incluído, mais facilmente ganharia a Europa por outro meio de transporte.

Fizemos um resumo, muito sucinto, dos acontecimentos estranhos dos últimos trinta anos. Muito e muito ficou por dizer. Mas apontámos alguns marcos essenciais.

Que há uma mão invisível (ou não tanto) por detrás de tudo isto, é inegável. Chamámos-lhe o "governo secreto mundial". Quem o compõe? Há muitas teorias. Numerosos são os que afirmam tratar-se dos Sábios de Sião. Ignoro!

Como terá escrito Unamuno (ou talvez até Cervantes), «yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay».

terça-feira, 1 de setembro de 2015

PASSAGEM PARA A ÍNDIA



Foi publicada o mês passado a tradução portuguesa (Verão Ártico) do livro Arctic Summer (2014) do sul-africano Damon Galgut (n.1963), onde é ficcionada a vida do célebre escritor E.M. Forster (1879-1970), um dos mais famosos romancistas britânicos do século passado, autor de obras inolvidáveis, como Passagem para a Índia, que seria adaptada ao cinema (1984) por David Lean, obtendo uma carreira triunfal.

O romance de Damon Galgut, que recorreu a vasta bibliografia (referida em apêndice) para escrevê-lo, ainda que eu duvide que a tenha lido integralmente, centra-se fundamentalmente em quatro períodos:  a vida de Edward Morgan Forster em Inglaterra, enquanto estudante universitário, as duas estadas na Índia, e os três anos que permaneceu em Alexandria, entre as viagens àquele país.

Porque é sul-africano (além de pessoa de evidente sensibilidade), e porque a África do Sul foi outrora como a Índia, e de alguma forma o Egipto, um domínio britânico, Damon Galgut encontra-se em posição privilegiada para discorrer como os ingleses tratavam os nativos, independentemente da sua condição social e cultural. A segregação evidente entre os súbditos de Sua Majestade e os autóctones foi uma constante da política imperialista da Grã-Bretanha até ao desmoronar do seu vastíssimo Império. O apartheid na África do Sul mais não foi do que o prolongamento de uma atitude que durou séculos. Nas suas deambulações pela Índia e Alexandria, o próprio Forster se sentiu também segregado, duplamente segregado, primeiro porque sendo homossexual não podia (não devia) estabelecer relações íntimas com os indígenas, nem com os ingleses intoxicados pela moral vitoriana, depois porque a própria socialização com aqueles lhe era proibida pela situação política vigente. E eram sobretudo os indianos e os egípcios que interessavam a Forster. A sua vida, em Inglaterra ou no estrangeiro, foi sempre a de um "marginal", apesar da progressiva celebridade literária que ia conquistando.

Syed Ross Masood e E.M. Forster

O escritor viajou pela primeira vez para a Índia devido à insistência de um jovem estudante indiano que conhecera em Inglaterra, Syed Ross Masood, por quem se apaixonara. Galgut conta (reinventa) a permanência de Forster naquele subcontinente com abundância de peripécias e de locais visitados. Como não conheço a Índia, não me posso pronunciar sobre a verosimilhança desta "peregrinação". Todavia, é verdade que Masood gostava muito dele, insistia que com o seu talento deveria escrever um livro sobre o seu país, mas a relação não foi consumada devido às objecções do indiano.

Mohammed El-Adl

Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, Forster foi colocado em Alexandria, ao serviço da Cruz Vermelha Internacional. Durante a sua permanência na cidade, Forster, que ainda era virgem, tem a sua primeira experiência sexual com um soldado numa gruta de praia junto ao Palácio de Montazah, residência real mandada construir por Fuad I, no extremo leste da cidade. Em 1917, conhece o condutor de carros eléctricos Mohammed El-Adl, um jovem de 17 anos, que será a sua segunda e última verdadeira paixão. Neste caso, e apesar das reservas do rapaz, haverá um "comércio" carnal. Bem como a visão dos muitos prazeres proibidos que a cidade oferecia. Teria também a oportunidade de conhecer o grego Cavafy, o "poeta da cidade" como lhe chamava Durrell, outro grande escritor que habitou em Alexandria, também durante outra Guerra Mundial, a Segunda, e registou as suas impressões nessa inesquecível tetralogia que é O Quarteto de Alexandria. Cavafy (um dos nomes maiores da poesia do século XX), mais expedito e mais liberto do que Forster, conhecia bem o submundo da cidade, que evoca em alguns dos seus poemas, e fazia as suas conquistas no Café Billard (hoje desaparecido), na rua Safiya Zaghlul, um pouco acima do Café Elite, que ainda se mantém. Mas rapazes disponíveis não faltavam por toda a cidade, e existiam mesmo casas de prostituição masculina a par das de prostituição feminina, permitidas pelo governo egípcio e toleradas pela administração britânica. Refere Galgut as aventuras e desventuras de Forster em Alexandria, com a citação de inúmeros locais frequentados pelo escritor ou onde este se encontrava com Mohammed. Porque a maior parte desses locais continua a existir, embora a cidade tenha crescido desde então desmesuradamente, os nomes estão certos mas, por vezes, fico com a sensação de que a distância entre eles não é compatível com a descrição de Galgut. Terá Galgut estado em Alexandria e visitado os sítios? Ou será informação documental? Sobre a Índia, que não conheço, não me permiti opinar sobre as deslocações atribuídas a Forster, mas sobre Alexandria, que conheço bem, subsistem-me algumas dúvidas.

A segunda viagem de Forster à Índia será a convite de Bapu Sahib, marajá de Dewas, um conhecimento dos tempos universitários em Inglaterra, a fim de ocupar o cargo de secretário particular. Também aqui há envolvimentos físicos, mas sem especial relevo. O ambiente de fim de época continua a desiludi-lo e apressa o seu regresso à pátria, não sem passar pelo Canal de Suez, onde reencontra Mohammed, já então gravemente doente. Forster visitará a Índia uma terceira vez, mais tarde, então escritor de renome internacional, mas para participar em cerimónias oficiais.

Masood e Mohammed morrerão ainda em vida de Forster, o que lhe provocará profunda mágoa.

São ainda referidas no livro as relações de Forster com Leonard e Virginia Woolf e com Edward Carpenter. Muitas outras haveria a mencionar.

Como referi acima, insere Damon Galgut em apêndice uma vastíssima bibliografia sobre Forster, incluindo quatro biografias do escritor. Não as li, mas creio que Galgut terá retirado delas o que de mais importante julgou para nos dar a imagem do escritor. Com este livro, penso que Galgut não pretendeu escrever uma biografia (obviamente), nem mesmo uma biografia romanceada, mas um romance biográfico. No entanto, e do que conheço sobre Forster, parece-me que se alongou em certos períodos e reduziu ou omitiu outros. Também não conheço o original de Galgut, mas algumas das transliterações dos nomes árabes são francamente más, talvez por ignorância do tradutor, já que os ingleses (ao contrário dos franceses) são quem melhor reproduz o alfabeto árabe.

Arctic Summer, é o título de um livro que Forster nunca chegou a concluir.

A obra de E.M. Forster, que começou a escrever quando ainda estudava no King's College, em Cambridge, é vasta. Importa destacar Passagem para a Índia (A Passage to India), que lhe conferiu celebridade mundial (1924); Where Angels Fear to Tread (1905); The Longest Journey (1907); A Room With a View (1908); Howards End (1910); e Maurice, escrito entre 1913 e 1914, mas publicado postumamente em 1971, o único romance homossexual de Forster. Como se disse, Passagem para a Índia foi adaptada ao cinema por David Lean (1984) . O realizador James Ivory encarregar-se-ia de transpor para o ecrã A Room With a View (1985), Maurice (1987) e Howards End (1992). Sublinhe-se que Forster escreveu também muitos contos, alguns famosos, onde se permitiu ir mais longe em matéria homossexual, mas que, por isso mesmo, só foram publicados, os mais ousados, depois da sua morte, e alguns ensaios, de que Aspects of the Novel (1927) é o mais importante.

No campo musical, Forster escreveu (de parceria com Eric Crozier) o libretto (1951) para a ópera Billy Budd, de Britten, baseada no romance homónimo de Herman Melville.

Ainda uma referência a dois livros fundamentais sobre Alexandria: Alexandria: a History and a Guide (1922) e Pharos and Pharillon (1923), o primeiro dos quais é indispensável para se compreender histórica e geograficamente Alexandria no princípio do século passado.

Dito isto, que é pouco mas poderá despertar a vontade de mergulhar na obra de Forster e no seu universo (a Índia e Alexandria, muito mais do que, por exemplo, a Itália que também visitou e amava), fico com a sensação de que fiz um resumo imperfeito. Recomendo, por isso, a leitura de Verão Ártico, que não sendo um livro notável, e apesar de algumas reservas, se lê com agrado. E, a seguir, a leitura dos principais livros do famoso escritor britânico.

domingo, 30 de agosto de 2015

O MUNDO É FECHADO E O DESEJO INFINITO


A propósito do seu novo livro Le monde est clos et le désir infini, Daniel Cohen concedeu uma entrevista a "L'Obs" desta semana (nº 2651), que pelo seu inegável interesse se reproduz:






(Clique nas imagens para aumentar)  




«O título O mundo é fechado e o universo infinito é inspirado pelo grande livro de Alexandre Koyré, Do mundo fechado ao universo infinito, no qual este historiador das ciências descreveu e analisou a revolução de Galileu e de Descartes: no século XVIII, a humanidade ocidental tomou consciência de que o Universo é simultaneamente infinito e vazio, privado da presença de Deus. Vivemos hoje uma experiência quase inversa: o mundo tornou-se demasiado pequeno...»



Um exercício de lucidez.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

RECORDANDO PALMYRA



Templo de Baal (2005)

Refere a comunicação social que os militantes do "Estado Islâmico", que ocuparam em Maio a cidade de Palmyra, hoje, em árabe, Tadmur, destruíram o célebre templo de Baal, construído há cerca de 2.000 anos, e um dos mais famosos monumentos do famoso complexo arqueológico greco-romano.

Transcreve-se a notícia da BBC:

Palmyra's Baalshamin temple 'blown up by IS'


Islamic State militants have destroyed Palmyra's ancient Temple of Baalshamin, Syrian officials and activists say.

Syria's head of antiquities was quoted as saying the temple was blown up on Sunday. The UK -based Syrian Observatory for Human Rights (SOHR) reported that it happened a month ago.

IS took control of Palmyra in May, sparking fears for the site.

It is considered one of the ancient world's most important cultural centres.


Bilheteira à entrada do complexo arqueológico (Clique na imagem para ler)

The ancient city, which is a Unesco World Heritage site, is famed for its well-preserved Greco-Roman ruins, and the Baalshamin temple, built nearly 2,000 years ago, is one of the city's best-known buildings.

The Islamic State group has destroyed several ancient sites in Iraq. The militants believe any shrines or statues implying the existence of another deity are sacrilege and idolatry, and should be destroyed.
IS "placed a large quantity of explosives in the temple of Baalshamin today [Sunday] and then blew it up causing much damage to the temple," Syrian antiquities chief Maamoun Abdulkarim told AFP news agency.


Eu, frente ao Templo de Baal (2005)

"The cella (inner area of the temple) was destroyed and the columns around collapsed," he said.

Emma Loosley, a professor at Exeter University who lived near the ancient city for three years, said the temple's cella was "pretty much perfect".

"I can't think of another temple as beautifully preserved as the temple of Baalshamin, and what was special about Palmyra was that it was a unique culture," she told the BBC.


Placa numa coluna mencionando o nome do templo (Baalshamin)

"It had its own gods, its own form of art and architecture that you don't get anywhere else."


Os militantes do "Estado Islâmico"?!?  E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?
 

NANI NA TURQUIA

Publicado há duas horas pelo Nani:
 
2 h ·
Experiência diferente jogar num clima assim, a chover torrencialmente e com uma temperatura muito elevada!

Different experience playing in a climate like this, raining hardly and with high levels of temperature!



"Sofre-se muito mas também se curte!", como diria um amigo meu falecido há já alguns anos.

UMA REFLEXÃO QUE SE IMPÕE



Não sendo possível, nem desejável, construir uma Fortaleza Europa, impermeável a todos os fluxos migratórios, impõe-se uma reflexão serena, mas urgente, sobre o "que fazer ?", retomando a expressão, velha de mais de um século, do famoso Ulianov.

Soyons réalistes : 10 raisons d’ouvrir les frontières

Au moment où l’Europe reste démunie face à l’arrivée des migrants, deux chercheurs qui travaillent sur les flux migratoires prennent à contre-pied le discours dominant. Voici leur plaidoyer.

 

Entre 2000 et 2014, 40.000 migrants sont morts aux frontières, dont 22.000 en tentant de rejoindre l’Europe, qui est aujourd’hui devenue, pour eux, la destination la plus dangereuse au monde. Pour la seule année 2014, plus de 3500 sont morts noyés en Méditerranée.

Le décompte macabre continue chaque jour. Et les survivants sont bloqués aux frontières externes mais aussi internes de l’Europe (comme ces derniers jours entre l’Italie et la France), multipliant les situations de mise à l’écart, de violence et d’humiliation. Cela au nom d’une raison d’Etats européens qui disent répondre aux peurs et aux demandes des habitants pour plus de sécurité, de contention et d’imperméabilité.

Et pourtant, nous affirmons qu’il serait plus rationnel, plus juste, plus sûr, d’ouvrir les frontières. A l’opposé de l’idée trop répandue dans les médias et les discours politiques, cette proposition n’a rien d’un fantasme naïf et irréaliste. Au contraire : c’est l’ouverture des frontières qui permettrait enfin de sortir d’un engrenage de violences qui a déjà fait des milliers de morts parmi les migrants, et de dessiner un horizon pour un véritable projet politique européen en matière d’asile et d’immigration.

Voici dix raisons pour lesquelles il faut ouvrir les frontières.

1. Parce que fermer les frontières ne sert à rien

Notre premier argument est de bon sens. Le fait migratoire est un fait social, une réalité du monde contemporain, auquel il est absurde de vouloir résister. Vouloir empêcher les migrations est aussi vain que de vouloir empêcher la nuit de succéder au jour. Les gens ne choisissent pas de migrer ou de rester parce qu’une frontière est ouverte ou fermée.

L’idée que la fermeture des frontières puisse limiter les flux migratoires est irréaliste et criminelle, et méconnaît complètement la réalité des migrations. Elle ne fait que rendre les déplacements plus précaires, plus coûteux et plus dangereux, transformant la Méditerranée en charnier. Ouvrir les frontières, c’est avant tout permettre aux gens de migrer dans des conditions sûres et dignes, c’est mettre un terme à la tragédie qui se joue aux frontières de l’Europe.

2. Pour lutter contre les passeurs

Ouvrir les frontières, légaliser les mobilités de tous, c’est tuer dans l’oeuf le business de ceux qui ont fait profession du trafic de cargaisons humaines, en profi tant, de plus en plus et de manière de plus en plus dangereuse, d’une économie de la prohibition. Ouvrir les frontières, c’est la manière la plus efficace de lutter contre les passeurs. C’est permettre aux migrants d’arriver en avion plutôt qu’en bateau.

3. Parce que l’invasion annoncée est un fantasme

Aucune enquête n’a prouvé la véracité des «appels d’air» ou des «invasions» tant annoncés et fantasmés. La construction du mur entre le Mexique et les Etats-Unis n’a nullement ralenti les flux migratoires entre les deux pays, pas plus que l’ouverture de la frontière entre l’Inde et le Népal n’a provoqué d’afflux massifs de migrants, comme l’ouverture des frontières au sein de l’Europe de Schengen.

Ni l’opération de sauvetage Mare Nostrum, menée par l’Italie en 2014, ni les régularisations de migrants en situation irrégulière (600.000 en Espagne en 2005, 500.000 en Italie en 2006, près de cinq millions aux Etats-Unis en 2014, etc.) n’ont jamais provoqué d’augmentation soudaine et significative de la migration «clandestine». Elles ont juste permis de commencer à réconcilier les migrants avec leurs sociétés de départ et de destination.

4. Pour permettre aux migrants de rentrer au pays

Argument paradoxal, et pourtant : ouvrir la frontière, c’est certes laisser entrer le migrant, mais c’est aussi lui permettre de repartir sans inquiétude. Beaucoup de migrants sont aujourd’hui coincés dans leur pays de destination, par peur de ne plus pouvoir y revenir ensuite si jamais ils en sortaient.Ouvrir les frontières rendrait la mobilité plus fluide, et permettrait à des milliers de migrants de rentrer au pays voir une famille qu’ils n’ont parfois pas revue depuis plusieurs années.

5. Parce que les migrants pourront déployer tout leur potentiel économique

Toutes les études montrent que la contribution économique des migrants à leur pays de destination est d’autant plus positive que leur situation y est sûre et légale. Rendre toutes les migrations légales ferait de facto disparaître l’immigration «clandestine», et permettrait aux migrants de déployer leur plein potentiel économique dans le pays d’accueil.

Leur contribution économique est aussi dirigée vers leur pays d’origine: les transferts financiers des migrants vers leurs familles représentent trois fois le montant de l’aide officielle au développement versé par les pays industrialisés. Il est absurde de lier l’aide au développement au contrôle des migrations puisque au contraire, c’est la mobilité qui est un facteur potentiellement puissant de développement.

6. Pour permettre un progrès social

L’embauche des travailleurs étrangers en situation irrégulière dans les pays riches est un «dumping social», l’équivalent d’une «délocalisation sur place»: les pires conditions sociales sont imposées à des travailleurs sans droits. La légalisation des migrants leur donnerait accès aux mêmes droits et aux mêmes rémunérations que les autres salariés.

Elle rendrait visible leur participation à l’économie du pays d’accueil, notamment par leur contribution – et celle de leurs employeurs – aux prestations sociales. Par nature, la migration «illégale» n’existe plus avec des frontières ouvertes. Les situations de précarité administrative disparaissent et les conditions de travail s’améliorent et s’harmonisent.

7. Parce que la liberté de circulation est un droit fondamental

Le droit de quitter son pays est inscrit dans la Déclaration universelle des Droits de l’Homme. C’est une question de liberté et d’égalité. Le destin des uns et des autres est déterminé par l’endroit où ils/elles sont né/e/s. C’est la fermeture des frontières qui crée le privilège du lieu de naissance, cette inégalité insupportable. L’ouverture des frontières reconnaît la légitimité de toute migration, et le droit à la mobilité de chacun.

8. Pour mieux connaître les migrants et mieux protéger ceux qui en ont besoin

Il faut le répéter : ouvrir les frontières, ce n’est pas supprimer les frontières. Soyons légalistes : le fait d’autoriser les libres circulations permettrait de mieux les accompagner, de savoir où vont les migrants et dans quelles conditions. C’est s’assurer que les migrations se déroulent dans les meilleures conditions possibles pour tous, et que ceux qui ont besoin d’être protégés le soient effectivement.

9. Parce qu’il est possible de remettre l’hospitalité au centre de la politique

Des voisins solidaires et mobilisés, un tissu associatif dense capable d’organiser l’accueil des étrangers et aider leur insertion, des villes qui créent de meilleures conditions de logement en centres d’accueil pour les errants : telles sont les formes d’une hospitalité sans condition qui existent déjà dans la société et qu’un gouvernement aurait la possibilité de mobiliser et d’aider, à l’opposé de la guerre aux migrants qui forme aujourd’hui le régime officiel de pensée et d’action.

10. Pour réaffirmer l’unité de l’Homme

Dans les années 1930, les juifs ou les exilés espagnols étaient devenus des «indésirables». Aujourd’hui, face au retour de l’idée qu’une partie des humains sont indésirables, nous avons le choix de réaffirmer l’unité de l’Homme et traduire cette idée en politique. Contre l’obscurantisme, il s’agit simplement de relancer l’humanisme.
Michel Agier et François Gemenne

MICHEL AGIER est anthropologue, directeur de recherche à l’Institut de Recherche pour le Développement et directeur d’études à l’EHESS. Il a publié, aux Editions La Découverte, «la Condition cosmopolite» (2013) et «Un monde de camps» (sous sa direction, 2014).

FRANÇOIS GEMENNE est politologue, enseignant aux universités de Liège et de Versailles-Saint-Quentin, directeur exécutif du programme Politiques de la Terre à Sciences-Po. Il va publier, en 2016, «Vive l’immigration», aux Editions La Découverte.

domingo, 23 de agosto de 2015

NÃO VIVEMOS EM DEMOCRACIA




A propósito da publicação do seu livro Le Bon Gouvernement, que será posto à venda esta semana, o historiador e sociólogo Pierre Rosanvallon, professor no Collège de France, fundador do grupo "La République des Idées"  e uma das figuras maiores da intelectualidade francesa contemporânea, concedeu à revista "L'Obs" (nº 2650 - 20 a 26 Agosto 2015) a entrevista que reproduzimos:

Clique nas imagens para ler 

Nesta entrevista, Rosanvallon considera que existe um divórcio dramático entre o "momento eleitoral" e o "momento governamental", que não cessa de se acentuar. E que é preciso distinguir duas dimensões:  a primeira, resulta do desvio entre a linguagem das campanhas eleitorais fundada na ideia de uma inversão na ordem das coisa e a linguagem governamental que representa o regresso à realidade; a segunda, resulta do facto de que a democracia foi sempre pensada como um processo de selecção e de legitimação dos detentores do poder e não como uma concepção específica da maneira de exercer o poder.

Um dos problemas, segundo o autor, é também a forma como o poder executivo se tem imposto ao poder legislativo, o que explica que os responsáveis políticos estejam cada vez mais desligados da sociedade e profissionalizados, tornando-se puros homens do aparelho. Rosanvallon preconiza o desenvolvimento urgente do que, nos Estados Unidos, se chama good government organizations, que militam por mais transparência, controlo pelos cidadãos e luta contra a corrupção. Não pretendem tomar o poder, mas vigiá-lo e controlá-lo.

Nesta linha de pensamento, propõe a criação de várias organizações que contribuam para um "bom governo". Pessoalmente, não creio que a criação de mais conselhos e comissões conduza ao aprofundamento da democracia. Penso até que já temos órgãos a mais e cidadãos que vivem à custa de instituições que, conforma a prática demonstra, se revelaram perfeitamente inúteis, ou quase.

Sem prejuízo da brilhante análise do reputado especialista, sou de opinião que o problema é outro, de natureza diferente, e cujo tratamento não cabe nestas linhas. O capitalismo contemporâneo internacional e a forma como se impôs aos regimes ditos democráticos desvitalizou a democracia. Aliás, esta, a democracia dita liberal, implica, nos termos, uma contradição profunda.

Deixo apenas uma questão. A União Europeia consagrou como única forma de governação possível para os países que a integram a adopção de um modelo hoje ultraliberal, que impede o funcionamento de qualquer governo cuja ideologia esteja em desacordo com os seus pressupostos. E se do resultado de eleições nacionais sair um governo diferente, logo ele é compelido a demitir-se face ao estrangulamento económico e financeiro (por ora ainda não militar) de que é alvo. Donde resulta a perfeita inutilidade de eleições nacionais se o modelo está previamente definido.

Por isso, afigura-se legítimo afirmar que a DEMOCRACIA nos países ocidentais (para a estes apenas nos referirmos) é uma FARSA.