terça-feira, 5 de março de 2013
PASSAGEM DE MODELOS
O jogo desta noite em Old Trafford, entre o Manchester United e o Real Madrid (1-2) foi um verdadeiro desfile de modelos: Cristiano Ronaldo, Nani (injustamente expulso aos 55'), Fábio Coentrão, Káká, van Persie, Higuain, Khedira, etc., etc.
Deve referir-se que os golos do Real Madrid só aconteceram depois da expulsão de Nani, o que provocou a ira de Sir Alex Ferguson e um sentimento de revolta interiorizado pela equipa que, contudo, se esforçou por alterar o resultado até ao último minuto.
Os profissionais da bola comentarão o desafio.
A LOUCURA NÃO TEM LIMITES
domingo, 3 de março de 2013
ROGER PEYREFITTE
Foi publicada há pouco tempo a primeira biografia do escritor Roger Peyrefitte (1907-2000), autor de cerca de 50 livros, figura polémica da literatura e da vida social francesa do século passado.
Deve-se esta primeira (e única, até agora) biografia a Antoine Deléry, que traça, fluentemente, a vida (e a obra) do autor de Les Amitiés particulières, livro inicial e fundamental, porventura o melhor romance de Peyrefitte, fruto da sua passagem, na infância, por um colégio interno dirigido por jesuítas.
Muitas e variadas observações se poderiam fazer sobre o livro recentemente publicado, uma das quais é a ausência, numa obra deste tipo, de quaisquer ilustrações, contrastando com o verdadeiro culto pelas imagens, especialmente por algumas mais específicas, alimentado pelo ilustre retratado.
Uma crítica do livro de Deléry pode ler-se no blogue "Les Diagonales du Temps", pelo que me abstenho de considerações que outros já fizeram e que, na generalidade, subscrevo.
Acrescentarei, ou acentuarei, somente alguns pormenores: o livro Roger Peyrefitte, le Sulfureux, permite compreender as contradições do escritor, corajoso e pusilânime, lúcido e ingénuo, vaidoso mas também simples, sumamente bisbilhoteiro e devassador da vida alheia, mesmo que, em alguns casos, o tenha feito para vender os seus livros, já que, especialmente no fim da vida, uma situação económica e financeira precária o deixou quase na miséria, devida em grande parte não só a um trem de vida superior aos seus rendimentos mas aos ruinosos empreendimentos da sua última (e para ele única) verdadeira paixão, Alain Philippe de Malagnac.
Todos sabemos que o amor não é racional, e que paixões de anciãos ou anciãs por jovens (quer se trate de homens ou mulheres) não resultam normalmente bem, até porque a diferença de idades convida a uma exploração dos mais velhos pelos mais novos, cada vez mais acentuada, nos tempos que correm, pelo enaltecimento da juventude, a qualquer preço, e pelo desenvolvimento de uma sociedade progressivamente mais materialista, em que a humanidade é convidada (diria mesmo) forçada a sacrificar no altar do dinheiro.
Roger Peyrefitte, aliás bastante imprevidente, desde o tempo em que foi diplomata em Atenas, não escapou a deixar-se encantar pelo canto das sereias, mas parece que morreu feliz. Valha-nos isso!
Gente muito diversa perpassa nesta biografia de Deléry, mas duas figuras, ambas nomes sonantes das letras francesas, se evidenciam: Henry de Montherlant e François Mauriac. Foi o primeiro amigo de Peyrefitte durante alguns anos, quando ambos se dedicavam à conquista de efebos numa França ainda não ocupada pelos alemães, mas as relações esfriaram por razões especialmente literárias (Montherlant projectara publicar Les Garçons, obra que só deu à estampa pouco tempo antes de morrer e que trata o mesmo tema de Les Amitiés particulières, e acabaram definitivamente cortadas. Quanto a François Mauriac, entre os quais sempre o vítriolo foi destilado, Peyrefitte não perdoava a Mauriac, escritor assumidamente católico, membro da Academia Francesa e Prémio Nobel da Literatura, que enquanto batia com a mão no peito, andasse discretamente atrás de rapazinhos, como então já era sabido, mas que a monumental e recente biografia de Jean-Luc Barré veio confirmar.
Ao longo de uma vasta obra, que exigiu uma investigação exaustiva e requereu uma cultura invulgar, não conseguiu Peyrefitte furtar-se, na quase totalidade, ao tema da homossexualidade. Devem-lhe os gays um tributo pela sua coragem e persistência, mas os seus últimos livros penetram no âmbito da vida privada de terceiros, ainda que, no espírito de autor e editores, estivesse em mira o número de exemplares vendidos. E os mexericos, ontem como hoje, continuam a ser razoavelmente vendáveis.
Abordou Roger Peyrefitte quase todas as "veneráveis" instituições do seu tempo: a Carreira Diplomática, a Igreja Católica, a Ordem de Malta, a Maçonaria; grandes vultos da História: Alexandre Magno, Frederico II, Voltaire, De Gaulle; mas também os Judeus, os Americanos e os Franceses, sem esquecer as eternas paixões pela Grécia e pela Itália.
Considera-se hoje Peyrefitte um escritor prolífico mas menor. Não tenho a certeza. Já lá vai o tempo em que Sade, hoje estudado cuidadosamente nas universidades, era tido por um escritor maldito. É certo que a obra de Peyrefitte é sem dúvida desigual, mas, para além do primeiro e indubitavelmente melhor livro, Les Amitiés particulières, merecem referência La Mort d'une mère, Les Ambassades, Du Vésuve à l'Etna, L'Exilé de Capri, Retours en Sicile (o último, hoje esgotado mesmo na generalidade dos alfarrabistas).
Sendo certo que Antoine Deléry prestou um serviço à literatura ao escrever a biografia de Roger Peyrefitte, a melhor forma de conhecer a obra (e, através dela, o homem, já que os livros são quase todos autobiográficos, mesmo quando não é utilizado o "Je") é ler alguns dos seus melhores livros. E nunca esquecer-nos que as distinções mundanas (como a Academia Francesa ou o Prémio Nobel da Literatura) são veneras temporárias para a satisfação de vaidades particulares. Quantos são os franceses (já nem falo dos estrangeiros) que conhecem 1% dos membros que pertenceram à sua Academia? E quantos cidadãos do mundo cultivado sabem o nome dos nobelizados? A maioria dos escritores que obteve o Nobel é hoje totalmente desconhecida, enquanto alguns monstros sagrados da literatura nunca o receberam.
Como se dizia na cerimónia da coroação do Papa (não sei se ainda hoje se diz, mas o momento é propício): Sic transit gloria mundi!
sexta-feira, 1 de março de 2013
NINGUÉM FOI PUNIDO
Crise financière : "Personne n'a été puni !"
Charles Ferguson, le réalisateur d'"Inside Job", dénonce la dérive d'une micro-élite des affaires, de la politique et de l'université, corrompue par l'argent facile.
Entrevista ao Nouvel Observateur, nº 2518 (7 a 13/2/2013)
"La finance est une industrie parasite, source d'instabilité" ;
"L'argent a joué un rôle de plus en plus corrupteur en politique";
"La société américaine s'apparente plus à une dictature du tiers-monde qu'à une démocratie avancée"...
Ces jugements ne sont pas proférés par un leader d'Occupy Wall Street ni par un ennemi du capitalisme, mais par Charles Ferguson, 57 ans, entrepreneur Internet à succès reconverti en réalisateur et auteur engagé.Son magistral "Inside Job", qui disséquait la crise des subprimes, a remporté l'oscar du meilleur documentaire en 2011. Son livre (1) étoffe et actualise sa démonstration : Ferguson y fournit les preuves des délits commis par le secteur financier pendant la crise. Et démontre, plus largement, comment l'accumulation de revenus astronomiques au sommet de la pyramide de la finance, des affaires et de l'université a créé une "économie de la canopée", qui fonctionne au détriment de l'intérêt national.
"Trois ans après la terrifiante crise causée par la fraude financière, pas un seul responsable n'est en prison, et c'est mal !" déclariez-vous en recevant votre oscar. Qu'en est-il deux ans après ?
- Malheureusement, rien n'a changé ! Regardez le "New York Times" du 23 janvier, qui décrit les comportements horrifiques des banquiers de Morgan Stanley, en s'appuyant sur les documents produits lors d'un procès intenté par une banque taïwanaise, qui avait acheté leurs produits toxiques. C'est incroyable... Mais ce qui est encore plus étonnant, c'est que personne n'ait été puni alors que, dans les deux ou trois ans qui ont suivi la crise, on a appris beaucoup de choses nouvelles, notamment grâce à ce type de procès.
Comment expliquez-vous l'absence de sanction judiciaire, en dépit de toutes ces preuves ?
- C'est que le secteur financier a un tel pouvoir économique et politique... qu'il peut dissuader ou empêcher les poursuites. Pourtant, il suffirait qu'Obama nomme un procureur général et un assistant aux affaires financières avec un mandat de fermeté. Les financiers ont commis des fraudes sur titres, des fraudes comptables, des infractions à la loi sur les "services honnêtes" ainsi que sur les lois Sarbanes-Oxley et RICO. Ils ont pratiqué les pots-de-vin, se sont livrés à des parjures et fausses déclarations aux enquêteurs fédéraux, etc.
Mais la crise a-t-elle été causée par ces comportements criminels ou bien par la culture de Wall Street ?
- C'est la culture de Wall Street, mais aussi l'insuffisance de régulation. Les deux sont liées : si vous régulez correctement une industrie, ses comportements changent... Le profil des banquiers d'affaires a en effet beaucoup évolué. Jusqu'en 1980, la finance était un univers sélectif, avec une population sociologiquement assez homogène, qui avait fait les grandes universités et déjeunait au Harvard Club. Cela a commencé à changer avec la dérégulation des années Reagan. Aujourd'hui, la finance attire des gens qui ont la mentalité de vendeurs de voitures d'occasion : jeunes, rapides, agressifs, court-termistes, cupides et dépourvus de tout sens moral !
La légitimité idéologique de la dérégulation - le libéralisme économique - ne serait donc que le "cache-sexe" de la cupidité ?
- En grande partie, oui. Bien sûr, certains croient sans doute sincèrement dans les vertus du marché totalement libre. Mais je trouve tout de même suspect que la plupart des nombreux experts qui plaident pour un laisser-faire extrême - dont des universitaires réputés - touchent aussi personnellement beaucoup d'argent grâce à ce système !
Vous insistez sur les millions de dollars que des personnalités académiques comme Larry Summers - ex-conseiller de Clinton et Obama et ancien président de Harvard - touchent des institutions financières. Suite à vos révélations, l'université Columbia a modifié sa politique de déclaration d'intérêts. D'autres universités ont-elles suivi ?
- Oui, certaines institutions ont suivi l'effort de transparence de Columbia. Mais le problème persiste, surtout dans de nombreuses écoles de commerce et départements d'économie, de droit ou de médecine, qui sont en lien étroit avec des industries régulées comme la finance, l'énergie, la pharmacie, les télécoms, l'agroalimentaire... En tout cas, mon film a accéléré la prise de conscience de ces conflits d'intérêts dans les médias, et aussi parmi les étudiants et les juges.
Les défenseurs de Wall Street expliquent que sans la liberté d'innover, les marchés à terme, fort utiles, n'existeraient pas. Peut-on trouver un juste milieu entre la liberté d'innover et la menace d'un risque systémique ?
- Absolument. Regardez : l'aéronautique est régulée, Airbus est régulé, Boeing est régulé, les compagnies pharmaceutiques sont régulées... Ce qui n'empêche en rien toutes ces industries de lancer régulièrement des produits innovants !
Pour vous, les démocrates sont aussi coupables que les républicains ?
- En effet, sur la lancée des années Reagan, l'administration Clinton - aidée par le président de la Federal Reserve, Alan Greenspan, et le Congrès - se fit l'apôtre de la dérégulation financière. C'est notamment elle qui, avec Larry Summers et le sénateur démocrate Phil Gramm, a dérégulé les produits dérivés négociés hors cote, dont certains seront au coeur de la crise de 2008. L'Association internationale des Swaps et Dérivés a même rédigé une large partie du texte de loi...
Espérez-vous un changement du second mandat d'Obama ?
- J'ai de gros doutes. La Maison-Blanche vient par exemple de nommer Mary Jo White à la SEC. Le gouvernement laisse entendre qu'elle va être dure avec la finance, parce qu'elle a été procureur. Elle a effectivement été procureur cinq ans, au début de sa carrière, mais elle a ensuite emprunté la "porte à tambour" (revolving door), c'est-à-dire qu'elle a intégré un cabinet d'avocats spécialisé dans la défense des criminels de la finance. Elle n'a rien d'une réformatrice !
Vous expliquez que la finance est le noyau dur d'une oligarchie, qui dicte sa loi à des politiciens de plus en plus corrompus... Ont-ils tué le rêve américain ?
- Ils l'ont en tout cas très gravement endommagé. Car les inégalités se sont accrues considérablement. Et la société américaine est devenue une sorte de jeu de dés pipés, où ceux qui ne sont pas issus d'une famille fortunée ont très peu de chances de s'en sortir. L'ascenseur social, qui était un de nos atouts, marche aujourd'hui moins bien aux Etats-Unis qu'en Allemagne, en Suède et même en France !
(1) "L'Amérique des prédateurs", par Charles H. Ferguson, JC Lattès.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
AS CHAVES DE SÃO PEDRO
No preciso momento em que escrevo este post (20 horas em Roma), Bento XVI, em Castel Gandolfo, devolve as chaves de São Pedro ao Colégio de Cardeais que o elegeu para Sumo Pontífice da Igreja Católica, em 19 de Abril de 2005.
Até à reunião do Conclave, a iniciar-se nos próximos dias, assegurá interinamente o governo da Igreja, para gestão dos assuntos correntes, o cardeal Tarcisio Bertone, Camerlengo da Santa Sé.
Muito se tem especulado acerca das verdadeiras razões que levaram Bento XVI a renunciar ao munus apostólico, facto inédito desde o século XV, e até desde séculos anteriores, já que as renúncias do século XV decorreram da situação excepcional do Cisma do Ocidente e as anteriores foram raríssimas.
Em termos gerais, no tempo e nas circunstâncias em que se verifica, esta renúncia é a primeira na história da Igreja. E atendendo à idade e ao estado de saúde de Bento XVI, quando comparado com os pontífices que o antecederam e nomeadamente com os vários papas de que já fui contemporâneo, em especial com João Paulo II, não parece que as razões invocadas sejam absolutamente convincentes, ou pelo menos absolutamente determinantes da atitude daquele que neste momento renuncia ao cargo.
Além do mais, conservando Bento XVI o título de Papa, embora Emérito, e habitando o Vaticano, embora num mosteiro, ele constituirá sempre uma sombra para o seu sucessor, e jamais se evitará a tentação de considerar que existem simultaneamente dois papas, mesmo sem cisma e ainda que Bento XVI se abstraia, como se espera, de qualquer intervenção pública. Irá meditar, orar, escrever e ler, e a sua biblioteca de 20.000 volumes (neste capítulo estamos praticamente empatados) abandonará o Vaticano, para onde fora transportada quando Josef Ratzinger trocou a sua morada em Roma pelos aposentos pontifícios, e seguirá para o mosteiro Mater Ecclesiae.
As verdadeiras razões da renúncia pontifícia serão conhecidas mais tarde, não se sabe quando, embora com a aceleração do tempo presente, de que fala o filósofo alemão Hartmut Rosa, os segredos do Vaticano, e quaisquer outros, já não sejam guardáveis por uma quase eternidade.
Não é novidade para ninguém que o Mundo se encontra numa encruzilhada, que se avizinha uma época que ainda é de profunda interrogação mesmo para os espíritos mais lúcidos e cultos, e que a Igreja Católica Apostólica Romana enfrenta desafios decisivos, porventura os mais difíceis da sua história. Como homem inteligente e erudito, entendeu Bento XVI (mas, em verdade, será o seu segredo, não partilhado ou partilhado por raros confidentes) que as chaves de Pedro deverão estar nas mãos de quem possa responder a esses desafios, até porque, a dar-se o caso de a Igreja ter de rever atitudes sempre sustentadas por ele, não seria curial (verdadeiramente de Cúria) que fosse o próprio a corrigir posições por si intransigentemente defendidas.
Creio que a eleição de um novo papa, atendendo ao seu perfil, poderá lançar alguma luz sobre as perspectivas que se avizinham, ainda que não seja de admitir mudanças profundas, pelo menos imediatas, na orientação da Igreja, instituição bimilenar e naturalmente conservadora.
Nas páginas de "The New York Times", de ontem, Hans Küng, teólogo e professor emérito da Universidade de Tübingen, onde foi colega de Josef Ratzinger, interrogava-se sobre a possibilidade de uma "primavera vaticana", a exemplo da chamada "primavera árabe". Não creio em tal hipótese, e pelas consequências da dita "primavera árabe" será preferível evitar essa tentação, a despeito das esperanças nela depositadas e das radicais diferenças entre o Mundo Árabe e o Vaticano.
Para os amantes de literatura sobre a Santa Sé, deixamos a indicação de um livro que, ao tempo da sua publicação (1955), provocou escândalo nos meios católicos: Les clés de Saint Pierre, de Roger Peyrefitte. Que o autor, a quem voltaremos em breve, desejava a polémica, e a notoriedade, não há que duvidar. Mas o que lá se escreve tem mais a ver com a realidade do que com a ficção, e por isso, perdoem-me os leitores católicos (que hoje já não se escandalizarão), a leitura desta obra a ninguém fará mal. E, afinal, literatura é sempre literatura.
O ATAQUE À MESQUITA DE ALEPO
Os rebeldes sírios, na maioria criminosos de delito comum, que não acreditam nem em Deus nem no Diabo, atacaram hoje a mesquita dos Omíadas, em Alepo, construída no século VIII, um símbolo histórico e religioso da cidade e do mundo, considerada património mundial pela UNESCO.
O edifício sofreu consideráveis danos e o tecto do museu desabou em consequência do incêndio provocado pelos combates. A mesquita e o seu mobiliário antiquíssimo já haviam sofrido consideráveis danos aquando dos confrontos de Outubro passado.
Segundo informa o Gulf News, a fortaleza da Cidadela continua nas mãos das tropas fiéis a Bashar Al-Assad, mas os combates prosseguem em toda a cidade.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
LA "COMMEDIA DELL'ARTE"
Segundo o jornal La Repubblica, a Itália está ingovernável face aos resultados para a Câmara dos Deputados e para o Senado. O nosso PÚBLICO antecipa o caos, na sequência da votação de ontem e hoje. Os resultados neste momento, ainda não definitivos, indicam que a coligação de Bersani terá ganho na Câmara por umas décimas e que a coligação de Berlusconi obteve no Senado mais um lugar do que Bersani.O actor Beppe Grillo, fundador do Movimento Cinco Estrelas, obteve 25% (!) dos votos para a Câmara e 23% (!) para o Senado. Sem qualquer desprimor para a vida artística, parece que a Itália, terra onde floresceram as artes desde a Antiguidade, regressa às suas tradições, desprezando a política e os políticos.
Não compreendo como Berlusconi alcançou os resultados já apurados, mas os italianos terão, certamente, as suas razões.
Creio que a confusão, agravada pelas incertezas da próxima eleição de um novo papa, se tenha instalado em Roma. E afigura-se-me que nada será como dantes, seja no Vaticano, na República Italiana, em toda a Europa.
Os resultados definitivos das eleições seguem dentro de momentos, e os da eleição do papa, dentro de dias.
A TUNÍSIA EM TODO O SEU ESPLENDOR
Os tunisinos são, realmente, um povo espectacular. Segundo relata o PÚBLICO, em notícia que se transcreve, a bem da fraternidade mediterrânica (os portugueses participam também, ainda que por extensão de conceito, do Mare Nostrum), os alunos de um liceu de Tunis resolveram dançar o Harlem Shake, com alusões aos grupos salafistas, no pátio da escola.
Gravado o divertimento em vídeo, eis que o ministro da Educação, Abdellatif Abid, anunciou através da comunicação social tratar-se de um comportamento "imoral", ameaçando a expulsão dos alunos e a demissão dos professores.
Não me parece que este seja para a Tunísia um bom ca«minho para a Democracia, mas nada como ler o jornal citado:
Na maior parte dos casos, um vídeo com um grupo de pessoas a dançar o Harlem Shake limita-se a ser divertido ou embaraçoso, mas para os alunos de um liceu da capital da Tunísia pode ser um pouco mais complicado do que isso.
Depois de terem divulgado a sua versão do mais recente fenómeno da Internet, os jovens da escola Menzah 6, em Tunes, arriscam-se a ser castigados por ordem do ministro da Educação.
No anúncio que fez ao país, através da rádio Mosaique, Abdellatif Abid classificou o comportamento dos alunos como "imoral" – entre os jovens que começam a dançar freneticamente há alguns com barbas falsas e túnicas, numa referência aos grupos salafistas radicais. No centro da imagem vê-se um deles a simular um acto sexual com uma aluna (ou com um aluno) vestida (ou vestido) com uma burqa, o longo véu que cobre a maior parte do corpo das mulheres e cujo uso foi imposto pelo regime taliban no Afeganistão entre 1996 e 2001.
Em resposta, "o Ministério da Educação ordenou uma investigação e irá tomar as medidas adequadas", declarou o governante, que admitiu mesmo a expulsão de alunos e a demissão de professores. Segundo o site da revista Tunivisions, Abdellatif Abid disse que a directora do Liceu Menzah 6 deveria ter consultado a direcção regional de educação ou o ministério.
Se o vídeo chocou o Governo da Tunísia, a decisão de abrir um inquérito chocou os responsáveis da escola e está a gerar uma onda de protestos nas redes sociais. Hafedh Mosrati, professor no Liceu Menzah 6, pediu ao ministro que deixe a direcção da escola resolver o assunto: "Eles gravaram este vídeo sem a autorização da direcção, o que é contra as regras, mas estes assuntos devem ser resolvidos internamente, pelo conselho de disciplina", disse Mosrati, citado pela agência AFP. Na próxima sexta-feira, milhares de pessoas vão dançar o Harlem Shake em frente ao edifício do Ministério da Educação, num protesto convocado através do Facebook.
A decisão do Ministério da Educação chega num momento particularmente delicado na vida política do país. O primeiro-ministro, Hamadi Jebali, da ala mais moderada do partido islamista Ennahda, demitiu-se na semana passada, depois de não ter conseguido apoios para formar um novo governo com personalidade sem filiação partidária. A ideia de Jebali era travar os protestos que se seguiram ao assassínio do activista da oposição Chokri Belaid, no dia 6 de Fevereiro.
Como o seu plano não vingou, Hamadi Jebali viu-se sozinho, sem o apoio do seu próprio partido, e será substituído por Ali Larayedh, até agora ministro do Interior e conotado com a ala mais radical do Ennahda.
A nomeação de Larayedh – que deverá formar um novo Governo em duas semanas – foi duramente criticada pela oposição, a começar pela Frente Popular, partido de que Belaid era secretário-geral: "Esta decisão aprofunda a crise, porque Larayedh chefiava o ministério responsável pela morte de Belaid e pela violência que se alastrou pelo país", disse Zied Lakdar, líder do partido da oposição.
Os islamistas do Ennahda são os mais representados no Parlamento, com 89 dos 217 lugares, mas precisaram de se aliar aos partidos seculares do centro-esquerda Congresso para a República e Ettakatol para formar governo, após as eleições de Outubro de 2011.
Nota: O sublinhado é meu, para mostrar que os tunisinos não são preconceituosos
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