quarta-feira, 12 de setembro de 2012
SECESSÃO DA CATALUNHA ?
A manifestação de ontem em Barcelona, que, segundo o EL PAÍS, reuniu mais de um milhão de pessoas, constituiu uma prova exuberante da progressiva tendência independentista da Catalunha.
Perante a crise que afecta a Espanha, aquela comunidade autónoma reivindica a sua separação da monarquia e a sua dissociação das medidas de austeridade impostas ao país pelo governo de Mariano Rajoy.
A grandiosidade da manifestação não deve surpreender, já que neste clima de desagregação da Europa é perfeitamente natural que também as regiões com características específicas se comecem a desligar dos países que integram.
O sinal do fim de um certo tempo que os dirigentes europeus, por mediocridade intelectual, miopia política ou refinado cinismo se recusam a encarar.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
CARTA ABERTA AO PRIMEIRO-MINISTRO
O escritor Eugénio Lisboa, professor catedrático e doutor honoris causa de várias universidades e antigo conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Londres, enviou ao primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho, a Carta Aberta que, pela sua importância, se publica abaixo:
CARTA ABERTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL
Exmo. Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor Primeiro Ministro,
é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período
bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes
externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo
nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida,
de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos
singulares do seu belíssimo livro intitulado “The Garden Party”: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho
para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é
para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já
foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não
interessamos, que, até, incomodamos.
Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo.
Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo.
Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14.º andar, explicava, a desolação que se contempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio LisboaA MACHADADA FINAL
Em declarações ao jornal "i", Bagão Félix, antigo ministro (da área do CDS-PP) e conselheiro de Estado afirma que "foi dada «a machadada final» no regime previdencial", em consequência das medidas anunciadas por Passos Coelho na passada sexta-feira.
Dada a importância destas declarações, que se somam a muitas outras no mesmo sentido, proferidas por políticos relevantes da esfera dos partidos do Governo, transcrevemos a notícia:
O antigo governante Bagão Félix considera que, com a decisão do Executivo de promover o aumento da contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social, quando há uma redução dos benefícios existentes, foi dada "a machadada final" no regime previdencial.
"Acho que se deu a machadada final no regime previdencial. Não estou a dizer na Segurança Social, estou a dizer no regime previdencial, que é aquele em que há uma relação direta entre o esforço que os trabalhadores fazem e os benefícios que têm", afirmou hoje à agência Lusa o conselheiro de Estado, apontando o caso das pensões e dos subsídios de desemprego e doença, que têm vindo a ser reduzidos.
"E porquê? Porque os benefícios decrescem, mas há um aumento de sete pontos percentuais no desconto do trabalhador", justificou.
Na sua opinião, o desconto feito pelos trabalhadores para a Segurança Social, "no fundo, não é uma taxa. É um verdadeiro imposto. Deixou de ser uma contribuição [para um seguro] social para ser um imposto único".
Quanto à descida dos encargos das empresas para a Segurança Social, o antigo ministro das Finanças e da Solidariedade Social realçou que a mesma "já estava prevista no memorando de entendimento com a 'troika'", mas entende que a diminuição de 23,75 por cento para 18 por cento "não vai trazer grandes benefícios ao nível da geração de emprego" em Portugal.
"Não é por causa desta diminuição que vai haver um aumento de contratações. O que vai acontecer é que estas medidas, que diminuem o rendimento disponível das famílias, vão diminuir o consumo e, diminuindo o consumo, provavelmente é atacada a saúde das empresas e o desemprego tenderá a subir", concluiu.
Passos Coelho anunciou na sexta-feira um aumento de 11 para 18 por cento da contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores dos setores público e privado e a redução de 23,75 para 18 por cento da contribuição das empresas.
Com as novas medidas de austeridade os funcionários públicos continuam a perder o equivalente ao subsídio de natal e de férias, cuja suspensão tinha sido considerada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional.
Para os funcionários do setor privado, o aumento da comparticipação para a Segurança Social equivalerá à perda de um salário por ano. Os pensionistas continuaram sem subsídios de natal e férias.
O primeiro-ministro falava numa declaração ao país a partir da residência oficial em São Bento, numa altura em que a quinta avaliação pela 'troika' do Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) se encontra perto do fim.
*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
FOI VOCÊ QUE PEDIU UMA PRIMAVERA ÁRABE ?
As revoltas contra alguns regimes ditatoriais do mundo árabe, iniciadas no fim de 2010 na Tunísia e que alastraram ao Egipto, à Líbia, ao Iémen, ao Bahrein e à Síria, e provocaram contestações em outros países, tornaram-se conhecidas como "Primavera Árabe" e foram saudadas com entusiasmo (porventura excessivo) pela chamada comunidade internacional.
Importa notar que a falta de liberdade nesses países, a corrupção, as gritantes desigualdades económicas e sociais, a permanência no poder de líderes tornados vitalícios, a ausência dos mais elementares mecanismos de democracia representativa (salvo a fachada, em alguns casos), justificaram o aplauso e mesmo o apoio do mundo dito democrático às populações revoltadas.
Tiveram os levantamentos populares êxito rápido na Tunísia e no Egipto, onde os respectivos exércitos declinaram continuar a sustentar os regimes, mas na Líbia foi necessária uma intervenção internacional para provocar a queda da ditadura. No Iémen, após muitos confrontos, o presidente resignou e no Bahrein o exército saudita, a pedido do rei, esmagou a revolução. Na Síria, prossegue uma guerra civil, que já provocou milhares de mortos, sendo que os opositores do regime não são apenas sírios mas também (e maioritariamente) mercenários estrangeiros ao serviço de outros interesses.
Contas feitas, esperava muita gente que os novos governantes promovessem a instauração de regimes se não verdadeiramente democráticos, pelo menos tão democráticos quanto o conceito do mundo ocidental. Puro engano. Debrucemo-nos sobre a Tunísia e o Egipto, já que na Líbia e no Iémen a situação é ainda confusa. Realizadas eleições, consideradas mais ou menos livres, optaram maioritariamente os cidadãos por dar o seu voto aos partidos "religiosos", mais pelo facto desses partidos, enquanto na total ou semi-clandestinidade, desenvolverem uma acção social que os governos haviam descurado do que propriamente por convicções religiosas profundas. E o que está a acontecer agora? Instalados no poder, partidos como o Ennahda na Tunísia ou os Irmãos Muçulmanos (e seus aliados salafistas do partido An-Nur) no Egipto começaram a desenvolver uma política de acordo com os princípios religiosos que defendem, política que nada tem de democrático, e ainda a procissão vai no adro.
Mesmo que formalmente estejam a ser seguidas as regras da democracia representativa, começam a verificar-se casos de violência ou de constrangimento que nada auguram de bom. Ainda a semana passada, Jamel Gharbi, conselheiro regional da Sarthe (em França), foi violentamente atacado em Bizerta (Tunísia) por um gang salafista, perante a inércia das forças da ordem. Num país em que a maioria das mulheres (pelo menos nas cidades) usava cabeça descoberta, são as mesmas agora pressionadas a cobrir a cabeça com véu. A república laica de Bourguiba corre os maiores perigos e ainda não foi promulgada a nova Constituição. No Egipto, a televisão nacional autorizou igualmente às apresentadoras o uso do véu nas emissões, que era proibido desde a proclamação da república. Não que venha mal ao mundo pelo facto das apresentadoras usarem o hijab, mas o que se receia é que a partir da autorização venha a imposição. Também na Tunísia está em causa o estatuto da igualdade homem/mulher, que vem dos tempos de Bourguiba. Assim como, no país do jasmim, os obscurantistas religiosos, através da violência, tentam proibir todas as manifestações culturais que não estejam de acordo com os seus preconceitos, num incrível atentado contra uma vida intelectual e artística das mais avançadas do mundo árabe. O novo presidente egípcio, que já demitiu os mais altos comandos militares, tradicionais garantes de uma relativa igualdade entre muçulmanos e coptas (mais de 10% da população do país), apoia agora a contestação ao regime laico sírio de Bashar Al-Assad e fecha os olhos à repressão saudita no Bahrein.
Assistimos, assim, à progressiva instauração de uma ordem islâmica em países conhecidos pela sua abertura e tradições pacíficas. Aquilo a que Laurent Joffrin, nas páginas do Nouvel Observateur, denunciou como FASCISMO VERDE. Para que serviram então as revoluções contra as ditaduras, certamente corruptas e despóticas, se no seu lugar se instalam outras, embora de cariz diferente? Para que serviu a Primavera Árabe, que tanto excitou o mundo ocidental?
Curiosamente, ou não, na Arábia Saudita e nas petromonarquias do Golfo, os regimes mais totalitários do mundo árabe, não se passa (pelo menos aparentemente) nada. Nem os Estados Unidos e a Europa se preocupam minimamente.
Muitos dos que combateram os regimes de Ben Ali e Mubarak, e que, felizmente, não perderam a vida durante os violentos confrontos que os opuseram às forças policiais daqueles governantes, interrogam-se hoje se terá valido a pena tão frontal, arriscado e perigoso combate. Vive-se hoje, pelo menos do ponto de vista económico e social, muito pior na Tunísia e no Egipto do que no tempo dos ditadores depostos. Quanto mais não seja pela ausência de turismo, uma das importantes fontes de receita daqueles países, e também de investimento.
As ditaduras não são boas (embora algumas possam ser melhores do que certas democracias de fachada). Mas a ter de escolher-se entre uma ditadura laica e uma ditadura religiosa, parece-me não oferecer dúvidas de que se deve escolher a ditadura laica.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O ESCÂNDALO MILLET
Reina grande agitação nos meios literários (e não só) franceses, após a publicação há pouco mais de uma semana de dois livros do escritor Richard Millet, membro do Conselho de Leitura da prestigiadíssima editora Gallimard: Langue fantôme: Essai sur la paupérisation de la littérature suivi de Éloge littéraire d'Anders Breivik e De l'antiracisme comme terreur littéraire.
Não sendo propriamente Richard Millet um escritor menor (leia-se sobre a matéria o texto de Pierre Assouline no seu blogue La République des livres), e descontando o que nos dois livros possa ser considerado como provocação ou exibicionismo, importa proceder à sua leitura com serenidade e espírito crítico. E perguntar se Millet estará sozinho (claro que não está) nas teses que defende, ou se, pelo contrário, haverá já muita gente, no chamado mundo ocidental, que perfilhe as suas ideias, ou que, no mínimo, se interrogue quanto à bondade das mesmas.
Naturalmente que o racismo, que Millet sustenta ao condenar o antiracismo (mesmo como terror literário) é repugnante. E que o elogio, ainda que literário, de Anders Breivik, responsável pelo assassínio de 77 pessoas em Oslo, em Julho do ano passado, só pode merecer condenação. É certo que Millet não aprova o crime, mas entende que o gesto convidou a uma meditação sobre a decadência da Europa e que as jovens vítimas «eram futuros colaboradores do nihilismo multicultural».
Que a Europa se encontra em profunda decadência parece evidente, mas não é exactamente pelas razões invocadas por Millet, como por exemplo os minaretes das mesquitas e os best-sellers anglo-saxónicos. A questão do multiculturalismo é suficientemente complexa para poder ser tratada neste espaço, mas deverá perguntar-se se a presença dos árabes (e dos negros) na Europa durante décadas provocou algum sobressalto cívico. O que começou a agitar os muçulmanos do Velho Continente foi a política ocidental em relação aos países islâmicos. Importa recordar o livro de Huntington (possivelmente uma encomenda) sobre o choque de civilizações, e também as guerras do Golfo, a invasão do Afeganistão e do Iraque e tudo o mais que não cabe aqui citar. Já quanto aos best-sellers, talvez Millet tenha alguma razão, uma vez que dos livros aos filmes e à televisão, o que provém do mundo anglo-saxónico é, em grande parte, uma incitação à violência.
Porque o assunto não constitui um fait-divers, como o futuro se encarregará de demonstrar, voltaremos oportunamente a este tema.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
BLAIR E BUSH NO T.P.I.
Escrevendo em "The Observer", o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, Prémio Nobel da Paz e herói do movimento anti-apartheid, acusa Tony Blair e George Bush de terem mentido sobre as armas de destruição maciça no Iraque, de promoverem a devastação daquele país e de terem "deixado o mundo mais desestabilizado e dividido do que qualquer outro conflito na história".
Segundo Tutu, o derrube de Saddam Hussein no Iraque criou as condições para a guerra civil na Síria e para a possibilidade de um conflito generalizado no Médio Oriente envolvendo o Irão.
Considerando o número de mortos durante e após a guerra no Iraque, para além da destruição do país e do sofrimento da população, Desmond Tutu entende que tal é motivo bastante para que Bush e Blair sejam julgados pelo Tribunal Penal Internacional da Haia, uma vez que dirigentes de outros países, com muito menos responsabilidades, foram presentes àquela instituição para serem julgados por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade
O texto do jornal, que deve ser lido e meditado, é um notável libelo acusatório contra o ex-presidente dos Estados Unidos, George Bush e o ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que continuam a passear-se (pelo menos o segundo) pelo mundo, indiferentes às tragédias que desencadearam.
domingo, 2 de setembro de 2012
A GUERRA NA SÍRIA
A propósito da guerra na Síria, publica o jornal PÚBLICO um artigo da autoria de Jaswant Singh, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa da União Indiana, intitulado "O Significado da Síria", e no qual se tecem considerações pertinentes sobre o que está em jogo no conflito que se verifica naquele país.
Pelo relevante interesse da análise, transcrevemos alguns parágrafos:
«Em primeiro lugar, tentemos desenlear parte do emaranhado de ironias e contradições que estão a dificultar os esforços para acabar com a violência na Síria. Apesar de negar liberdade política aos seus cidadãos, no que diz respeito à liberdade social a Síria é bastante mais tolerante do que muitos outros países árabes, especialmente a Arábia Saudita, que lidera a investida para derrubar Assad. Governada por uma minoria de alauítas (uma seita xiita), a Síria alberga um conjunto de grupos diferentes: árabes, arménios, cristãos, curdos, drusos, ismaelitas e beduínos.»
«No seu livro intitulado A Peace to End all Peace [A Paz para Acabar com Toda a Paz, ndt], sobre a história do mundo árabe no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, David Fromkin refere que actualmente o Médio Oriente reflecte o fracasso das potências europeias na consolidação dos sistemas políticos por elas impostos. A Grã-Bretanha e os seus aliados "arruinaram a velha ordem", destruindo o domínio turco da língua árabe no Médio Oriente. Mas depois "criaram países, nomearam governantes, delinearam fronteiras [e introduziram] um sistema de Estado" que viria a tornar-se inoperante.»
O livro referido é de importância capital para a compreensão da situação no Médio Oriente.
«Em Agosto de 1919, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Arthur Balfour, resumiu a essência do problema com o qual se confrontam actualmente os responsáveis políticos. "A infeliz verdade", escreveu, "é que a França, a Inglaterra e os Estados Unidos estão... tão inextricavelmente confusos que nenhuma... resposta satisfatória é possível neste momento."»
Não se deve esquecer que Lord Balfour foi o responsável pela Declaração que levou à criação de Israel em território palestiniano.
«A combinação de receios étnicos e confessionais e de rivalidades, memórias históricas e cegueira deliberada entre os poderes externos parece estar predestinada a desestabilizar novamente todo o Médio Oriente. A Turquia está novamente a expandir-se, embora ainda com dificuldades; o Iraque foi invadido e abandonado; o Irão está isolado e em risco, Israel está em estado de ansiedade e beligerante e o Afeganistão e o Paquistão têm uma situação interna desequilibrada e uma política fragilizada.Na verdade, o grande arco que se estende do Cairo ao Hindu Kush ameaça tornar-se o centro da desordem global. Não é de admirar que o enviado iraniano, Saeed Jalili, tenha anunciado, após uma reunião que teve recentemente com Assad em Damasco, que "o Irão não permitirá de modo algum que o eixo de resistência, do qual a Síria é considerada um pilar fundamental, seja quebrado".»
A actuação do novo presidente do Egipto, Morsi, só poderá contribuir para a referida desordem global.
«Como afirmou sabiamente Michael Ignatiev a crise da Síria revelou que este é "o momento em que o Ocidente deveria perceber que o mundo se dividiu realmente em dois. A Rússia e a China enfrentam uma aliança fraca de democracias capitalistas lutadoras". Os interesses nacionais dos países ocidentais deixarão de determinar os impulsos morais e políticos da comunidade global actual. Na verdade, seja qual for o resultado, o tormento da Síria evidenciou um enfraquecimento maior e irreversível do papel de domínio global do Ocidente.»
O tempo se encarregará de demonstrar de que lado está a razão, mas nessa altura só poderemos dizer: "É tarde".
sábado, 1 de setembro de 2012
PEIXE COM PÉNIS NA CABEÇA
Foi apanhado no delta do Mekong, no Vietname, um peixe estranho, vindo posteriormente a verificar-se que tinha o pénis na cabeça.
Segundo o PÚBLICO, desde que em 2009 foi recolhido pela primeira vez um peixe deste tipo, foram apanhados até agora nove exemplares.
É pena que esta característica não seja compartilhada pelos seres humanos pois evitavam-se muitas decepções.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







