Li agora, por acaso, Ensayo Biológico sobre Enrique IV de Castilla y su Tiempo (1930), que comprara em Espanha há precisamente trinta anos.
Duas palavras sobre Gregorio Marañon (1887-1960): Médico, cientista, historiador, político, escritor, membro de todas as Academias espanholas, foi uma das mais notáveis figuras da cultura espanhola da primeira metade do século passado.
Este livro sobre o rei Henrique IV é um documento notável, ainda que a visão de Marañon sobre a sexualidade tenha evoluído profundamente desde a altura em que publicou o seu ensaio.
O rei Henrique IV (1425-1474), filho de João II de Castela e de Maria de Aragão, foi um monarca infeliz, tendo subido ao trono em 1454, quando o poder estava já na mão dos cortesãos. Ficou na história como um soberano intelectualmente limitado e, sobretudo, fisicamente diminuído. Todas as pesquisas convergem no sentido de que fosse impotente e até, provavelmente, homossexual.
Nesta obra, fruto de aturado estudo e demoradas investigações, Gregorio Marañon traça-nos um detalhado retrato morfológico do rei e das circunstâncias políticas do tempo.
Desde muito cedo que Henrique esteve na convivência directa de Juan Pacheco, seu aio, cinco anos mais velho, colocado nesse lugar pelo condestável Alvaro de Luna, poderoso valido de João II (com quem terá mantido relações íntimas). O jovem Juan Pacheco, mais tarde marquês de Villena, foi posto ao serviço do jovem Henrique pelo favorito de seu pai.
A história regista a vida escandalosa de Henrique IV (o próprio Menéndez Pelayo faz referência aos escritos clandestinos publicados na época), que atribuem ao príncipe, depois rei, uma conduta dissoluta não só com homens mas, na juventude, também com mulheres, ainda que se ignorando se essas relações eram concretizadas.
Henrique casou em 1440, então com 15 anos, com Branca de Aragão, então com 16 anos, filha de João II de Aragão e de Branca I de Navarra. Não tendo o matrimónio sido consumado ao fim de 13 anos, o papa Nicolau V autorizou o divórcio em 1453.
Casou Henrique segunda vez em 1455 com Joana de Portugal, filha do rei D. Duarte I e de Leonor de Aragão [por tradição mantenho o Dom nos reis de Portugal]. Também este matrimónio não terá sido consumado, ou talvez.
Desejando ter descendência, Henrique pretendera que sua mulher Branca tivesse relações com alguns dos seus favoritos, o que ela liminarmente recusou. Utilizou o mesmo expediente com sua mulher Joana, atitude que esta terá repudiado. Contudo, ficou a pairar uma dúvida, pois Joana engravidou e deu à luz, em 1462, uma rapariga, que ficou conhecida como Joana de Castela, Joana de Trastâmara, Joana de Portugal, a Beltraneja ou a Excelente Senhora.
A verdadeira filiação de Joana permanece um mistério. Diz-nos Marañon que, mesmo em casos de declarada impotência, há momentos em que se consegue consumar uma relação. Diz-nos ainda que, à época, já existiam processos rudimentares de inseminação artificial, o que poderá ter sido o caso.
A denominação de Beltraneja a Joana deve-se ao facto de ter sido apontado como seu pai um dos favoritos reais, Beltrán de La Cueva, mais tarde duque de Albuquerque. Todavia, ainda em 1462, Henrique II fê-la jurar pelas Cortes como sua herdeira. Mas em 1465, inspirado por Juan Pacheco, editou uma cédula que determinava que o herdeiro seria seu irmão Afonso, caso Joana se casasse. Porém, Afonso morreu em 1468, com 15 anos. Quem veio a herdar o trono seria a irmã Isabel, que ficou na história como Isabel I de Castela, a Católica, que casou com Fernando II de Aragão. Seriam pais de Joana a Louca, casada com Filipe , o Belo, arquiduque de Áustria e duque da Borgonha e avós de Carlos Quinto.
Joana de Trastâmara acabou por casar com seu tio D. Afonso V de Portugal em 1475. Dada a situação contínua de guerras na Península Ibérica, e os enlaces de conveniência, o papa Sisto IV dissolveu o casamento do tio com a sobrinha (que anteriormente autorizara) a pretexto de consanguinidade, em 1480. Pelo Tratado das Alcáçovas de 1479, Joana renunciara oficialmente ao trono de Castela a favor de sua tia Isabel, já rainha de facto. Divorciada do tio, Joana recusou casar-se novamente, tendo-se retirado primeiro para o Mosteiro de Santa Clara, em Santarém, depois para o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde morreu em 1530. D. João II de Portugal concedeu-lhe o tratamento de Excelente Senhora.
No tempo de Henrique IV ainda a Espanha não estava unificada e havia grande número de muçulmanos na Península por quem o rei nutria especial estima, com eles convivia (até intimamente) e como eles se vestia e comia. Escreve a propósito Gregorio Marañon, e transcrevemos: «Finalmente, está, sin duda, relacionada con su inclinación homosexual su famosa afición a los moros, de los que, como es sabido, tenía a su lado siempre una abundante guardia, con escándalo de su Reino y aun de toda la cristandad. Es sabido que en esta fase de la decadencia de los árabes españoles la homosexualidad alcanzó tanta difusión, que llegó a convertirse en uma relación casi habitual y compatible con las normales entre sexos distintos. Ya Palencia dice que "los moros de la guardia del Rey corrompían torpísimamente mancebos y doncellas". Y Don Enrique no sólo adoptó los vestidos de esta gente y sus posturas y alimentos, sino también "otros hábitos funestos, propensos a vergonzosa ruina".» (p.104) Ressalta daqui que Marañon desconhecia (ou fingia desconhecer) certos costumes do islão (embora condenados pelo Corão) habitualmente praticados. Bastava-lhe observar as cortes dos sultões e califas. Como também esses costumes (igualmente condenados pela Bíblia cristã) foram sempre praticados nos países católicos. O necessário, em alguns casos, era manter a discrição, noutros nem isso.
Ainda uma nota sobre Joana de Portugal, uma mulher lindíssima. Já dissemos que é possível que sua filha Joana seja mesmo filha de Henrique IV e não de Beltrán de La Cueva. No entanto, são-lhe conhecidas relações extra-conjugais, mesmo com geração, como a que manteve com Don Pedro, el Mozo, seu amante. Delas resultaram dois filhos: Apóstol e Pedro, segundo Marañon e Pedro Apóstol e Andrés Apóstol, segundo outras fontes, nascidos entre 1468 e 1471. Tendo-se recolhido, por ordem do marido, no castelo de Alaejos, viveu os últimos dias no convento de São Francisco, em Madrid, onde morreu em 1475, poucos meses depois da morte de Henrique IV.
A terminar o livro, Gregorio Marañon considera Joana de Portugal "una gran Reina y una mujer como las demás". Salienta que toda a Corte de Isabel a Católica se esforçou por denegri-la, inventando as piores calúnias. E termina: «Doña Isabel nació tocada por el dedo de Dios. Parece que por uno de esos trastrueques tan frecuentes en el misterio de la herencia, recayó en ella, mujer, todo el aliento viril que faltó a su mísero hermano Don Enrique. Y así pudo cumplir su egregio destino con grandeza tal vez no superada por ninguna otra de las mujeres conocidas. No la regateamos un punto de su gloria. Pero no podemos juzgarla que la misma medida que a Doña Juana, hecha, no con el bronce de los héroes, sino sencillamente con frágil arcilla de mujer.He aquí cómo la enfermedad de un Rey sirvió de fermento a la descomposición de toda una sociedad y originó el cuadro tenebroso de la España de los Trastamaras, que Menéndez Pelayo consideró como "uno de los más tristes y calamitosos períodos de nuestra Historia." También en aquellos años de inquietud se hablaba con indignación, como ahora, de la paciencia inacabable de nuestro pueblo, y todo hacía anunciar la disolución del Estado decrépito, falto del sustento de una consciencia política colectiva. Y, sin embargo, los augures se equivocaron, porque el sol que iba a nacer de tantas sombras iluminaría la grandeza más dilatada que jamás alcanzó pueblo alguno. Quién sabe si no nos aguarda ahora un milagro semejante. Porque Dios ha querido que en la vida de los pueblos, como en la de los hombres, se entre casi siempre en el vasto templo de la gloria, humillando la frente por la mezquina puerta del dolor.» (pp. 143, 144, 145, 146)

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