domingo, 3 de junho de 2018

A MENTIRA DAS GUERRAS HUMANITÁRIAS




Rony Brauman, antigo presidente de Médicos sem Fronteiras, acaba de publicar Guerres Humanitaires? Mensonges et Intox, onde denuncia a impostura das chamadas guerras humanitárias, guerras que, aliás, em Portugal, António Guterres defendeu quando se tratou do ataque à Sérvia.

O livro está organizado em forma de entrevistas, efectuadas ao autor por Régis Meyran, abordando as guerras da Líbia, Somália, Kosovo, Afeganistão e Iraque.

Começa Brauman por discorrer sobre o conceito de "guerra justa" que, na tradição cristã, aparece pela primeira vez em Santo Agostinho (século V). No século XIII, Tomás de Aquino enquadra-o teoricamente, fixando cinco critérios para que uma guerra possa ser considerada justa, os quais limitam simultaneamente as declarações das hostilidades (jus ad bellum) e os meios utilizados (jus in bellum).

A "Responsabilidade de proteger", R2P na gíria internacional, é originalmente o título de um relatório redigido por uma comissão de "personalidades de alto nível", instituída pelo governo canadiano em Dezembro de 2000, em resposta à pergunta do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sobre os critérios que deveriam reger as "intervenções humanitárias". Esse relatório oficializa o alargamento das circunstâncias da entrada em guerra (jus ad bellum), sem todavia criar novos mecanismos. Em substância, a legitimidade do uso da força assenta na gravidade da ameaça (crimes de massa), no facto de que se deve tratar de um último recurso, e na proporcionalidade da resposta, remetendo para o Conselho de Segurança a decisão de saber se estes elementos estão reunidos. Causa justa, último recurso, proporcionalidade, autoridade legítima, são os critérios clássicos da "guerra justa" já presentes em Tomás de Aquino.

O autor precisa devidamente os quatro critérios: 1) a intervenção deve ser decidida pelo Conselho de Segurança da ONU, a autoridade legítima; 2) a violência da resposta não deve exceder a das exacções, princípio da proporcionalidade; 3) todos os outros meios, nomeadamente diplomáticos e económicos tais como condenações públicas ou sanções financeiras devem ser tentados, princípio do último recurso; 4) devem existir razoáveis probabilidades de sucesso.

Os dois primeiros critérios são de ordem jurídica, decorrendo do direito internacional, embora uma decisão legal possa não ser legítima, e vice-versa. Assim, a guerra do Kosovo não foi "legal" porque decidida fora do Conselho de Segurança, ainda que eventualmente legítima, e a guerra da Líbia foi "legal", ainda que se duvide da sua legitimidade. Os dois últimos critérios são mais complexos, porque políticos, ou político-éticos. Até quando se pode ganhar tempo negociando, gesticulando? E qual o nível de violência que se pode tolerar esperando que, por outros meios não violentos, se chegará a uma solução? Estas questões implicam uma notável capacidade de cálculo, permitindo uma projecção do resultado final. Sendo "o objectivo da guerra uma melhor situação de paz", como lembra Michael Walzer em Guerres justes et injustes, obra largamente citada por Brauman, resta saber o que se entende como sucesso?




Num debate travado em plena guerra da Líbia, sobre o "dever de ingerência", o politólogo francês Pierre Hassner recordou duas ideias contraditórias de Clausewitz: por um lado, ninguém sensato deveria começar uma guerra sem ter previamente uma ideia clara do que pretende concretizar com essa guerra e de que forma a pode conduzir; e, por outro lado, devido às fricções, ao nevoeiro, à alteração de meios provocada pela mudança dos objectivos, nenhuma guerra termina segundo o esquema inicialmente previsto.

Embora as guerras recentes tenham sido geralmente desencadeadas por falsos motivos, ainda que anunciando a pretensão de serem "humanitárias", os dois primeiros critérios afiguram-se pertinentes. Quanto ao facto de serem o último recurso, isso foi deliberadamente ignorado nos conflitos examinados no livro. As "razoáveis probabilidades de sucesso" são impossíveis de estimar quando se fixam objectivos vagos e gerais, como a democracia, a libertação das mulheres, o bem-estar geral, etc. Voltando a Michael Walzer: "Uma intervenção estrangeira, se for breve, não pode alterar o equilíbrio do poder interno a favor das forças da liberdade; se a intervenção se prolongar [...] tal constituirá a ameaça mais grave para o sucesso dessas forças". Para Brauman, uma guerra "justa" é, finalmente, aquela 1) que se tentou activamente evitar; 2) cuja causa é justificável prima facie; 3) cujo objectivo é delimitado e atingível.

O autor procede a um exame detalhado das guerras abordadas no livro, aqui impossível de descrever, pelo que mencionaremos apenas alguns aspectos das guerras recentes que, motivadas por interesses que nada tinham a ver com os invocados, provocaram, inutilmente (como é óbvio) a morte e o deslocação de dezenas de milhões de pessoas. Sendo a invasão do Iraque a última mencionada no livro, é um facto que desse acto tresloucado e insidioso está o mundo, especialmente a Europa, a sofrer as consequências, com as vagas imparáveis de imigrantes e o alastramento em força do terrorismo ao Velho Continente. Os autores dessa invasão, criminosos contra a Humanidade, continuam impunes.

Começando pela Líbia, sabemos hoje que tudo assentou numa mentira, propagandeada à exaustão. Embora o ataque fosse autorizado pelo Conselho de Segurança (com a abstenção da Rússia e da China), as razões invocadas eram falsas e as operações transcenderam largamente o que fora previamente acordado. Não estava à partida em causa a substituição de Muammar Qaddafi, e muito menos o seu assassinato, ao que tudo leva a crer directamente encomendado por Nicolas Sarkozy. Em 21 de Fevereiro de 2001 a Al-Jazira informou que a aviação líbia estava a bombardear os manifestantes de Tripoli. O sinistro Bernard-Henri Lévy, que viu as imagens (falsas) no aeroporto do Cairo, tornou-se o grande arauto desta invasão. Só que não houve qualquer bombardeamento em Tripoli, como o reconheceram, aliás, em 2 de Março, o secretário de Estado da Defesa e e o chefe de Estado-Maior americano perante o Congresso, mais honestos que os dirigentes franceses e britânicos. Como não existiu qualquer tentativa de aniquilar a população de Benghazi. Nem Qaddafi para tal tinha meios. Mas, ainda em 2 de Março, o secretário-geral da Liga Líbia dos Direitos do Homem afirmava em Paris que 6.000 pessoas tinham sido já mortas pelo regime, das quais 3.000 em Tripoli e 2.000 em Benghazi, o que fez passar despercebido o desmentido da Casa Branca sobre o ataque a Tripoli. A hipótese de um ataque a Benghazi poderia perfeitamente ser travada, desde que se atacasse essa famosa (inexistente) coluna de carros que caminhava pelo deserto. Em 18 de Março Qaddafi anunciou que aceitava um cessar-fogo mas o comandante dos rebeldes Khalifa Haftar recusou-a liminarmente, bem como os seus novos aliados franco-britânicos-americanos. Nova proposta do líder líbio a 20, foi igualmente rejeitada. A campanha de intoxicação da opinião pública ocidental foi desmesurada. Como escreve Brauman, foi uma story telling à maneira de Fort Apache, ou alter facts, na terminologia da Casa Branca. A guerra da Líbia foi uma guerra de Sarkozy, tornada possível pelo empenhamento anglo-americano e do Qatar, que arrastou consigo a Liga Árabe. O Pentágono mostrou-se inicialmente reticente mas Obama acabou por intervir a favor de Hillary Clinton, então secretária de Estado, criminosa e intervencionista assumida. Tratou-se de uma excelente montagem dilomática por instigação do Eliseu, de que BHL (sempre este facínora) foi um comunicador infatigável e eficaz. É claro que por detrás desta guerra fica a questão ainda não devidamente esclarecida de que Sarkozy pretendia desembaraçar-se de Qaddafi, que havia financiado secretamente a sua campanha eleitoral para a presidência da República, através de notas entregues a Claude Guéant pelo intermediário Ziad Takieddine. Ao contrário do Parlamento britânico, que publicou um inquérito em 2016, através da comissão de Negócios Estrangeiros, afirmando que esta guerra foi conduzida sobre "postulados errados", que a ameaça sobre Benghazi foi "sobre-avaliada", que "ela não assentou em qualquer elemento tangível" e que a França prosseguiu interesses particulares, a Assembleia Nacional francesa ainda não julgou útil debruçar-se sobre o assunto. O Qatar desempenhou um papel político essencial, neutralizando uma parte das críticas que faziam desta intervenção uma ingerência ocidental, "arabizando-a" não só pela sua presença activa na frente de combate mas também no plano mediático e diplomático. E a Liga Árabe, não opôs obstáculos, sendo mais passiva do que entusiasta.  Os anglo-americanos impuseram a NATO, o que não estava inicialmente previsto, mas que era militarmente indispensável. É interessante interrogarmo-nos sobre a evolução desta aliança militar em princípio defensiva e geograficamente limitada que se tornou ofensiva desde a guerra da Jugoslávia e viu nos últimos anos os seus teatros de intervenção alargarem-se para lá da Europa e do Atlântico, nomeadamente no Afeganistão e na Líbia. A morte de Qaddafi tornou-se necessária, não só pela questão do financiamento a Sarkozy mas pelo facto de que a prisão do Guia, acusado de crimes contra a humanidade, teria de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional, o que seria absolutamente inconveniente para o Ocidente pelos segredos de Estado que poderia revelar.

Os pormenores descritos pelo autor, que não cabem no espaço de um post, são suficientes para justificar a leitura do livro.

A guerra da Somália, em 1990, foi a primeira "guerra humanitária" do pós-guerra fria. Já estamos um pouco esquecidos dela. O país entrou em guerra civil no fim dos anos 1980 devido às reivindicações territoriais do presidente Siad Barre, que foi destituído em Janeiro de 1991. O problema da análise desta guerra é mais complexo, devido à existência de clans, apanágio das sociedades tradicionais e pré-estáticas. A visão clânica dos somalis ia a par com uma organização social muito pouco hierarquizada. O Estado, que nunca havia sido poderoso, desmoronou-se, mas a fome que ocorreu atingiu mais as populações deslocadas do que a população em geral. O envio de ajuda alimentar foi muito problemático. A fuga de milhares de pessoas para a Etiópia, em termos onusianos, podia considerar-se uma "ameaça contra a paz". Boutros-Ghali apelou para os Estados Unidos e em 9 de Dezembro de 1993 foi lançada a operação Restore Hope com grande difusão pelas cadeias televisivas norte-americanas. Mas a desorganização foi geral. Brauman chama-lhe "crime humanitário". O que aconteceu foi uma coligação de boas vontades, de um lado, e do outro uma Somália a ferro e fogo, entregue a gangs, um verdadeiro fiasco. A pouco e pouco as forças da ONU converteram-se num clan, a par dos demais e Clinton, desejoso de sair do vespeiro, procurou uma saída airosa, projectando a captura de Aïdid, que se tornara o principal opositor da presença norte-americana. Foi desencadeada uma verdadeira caça ao homem que se saldou por uma operação desastrosa conduzida contra Aïdid. Morreram dezoito rangers e quinhentos somalis, um piloto foi feito prisioneiro e vários soldados linchados nas ruas. A cena horrível e humilhante deu a volta ao mundo e Clinton decidiu terminar o empenhamento americano e preparou a saída discreta do país. Esta guerra foi empreendida devido a simplificações enganadoras e a alegações mentirosas e a sociedade somali foi posta de parte, apesar de lhe ter sido confiada a missão grandiosa de "pacificação" e de reconstrução do Estado.

A guerra do Kosovo foi desencadeada num clima de intensa propaganda com base em alegações de massacres e mesmo de genocídio. O Kosovo não fora sequer mencionado nos acordos de Dayton (21 de Novembro de 1995) que puseram fim à guerra da Bósnia-Herzegovina., o que contribuiu a deslegitimar o presidente Ibrahim Rugova, opositor de longa data a Belgrado. As coisas teriam evoluído noutro sentido se este tivesse recebido o apoio europeu, mas surgiu uma nova oposição, o Exército de Libertação do Kosovo (UCK), que começou a actuar em 1996 contra o governo de Milosevic e chegou ao poder no fim da guerra de 1999.

A Conferência de Rambouillet (6 de Fevereiro/19 de Março de 1999) foi para os Estados Unidos a fachada diplomática que ocultava o projecto de guerra que adquiria consistência, dadas as condições inaceitáveis que impunha a Milosevic, começando por uma série de princípios anunciados como "não negociáveis". Curiosamente, o presidente pacifista Rugova fora afastado da conferência, em proveito do criminoso Hashim Thaçi, líder do UCK. O próprio Henry Kissinger, outro criminoso de guerra, escreveu: «O texto de Rambouillet, que apelava à Sérvia para acolher as tropas da NATO em todo o território da Jugoslávia, era uma provocação, um pretexto para começar os bombardeamentos. Rambouillet não poderia ser aceite pelo mais pacífico dos sérvios. Era um documento diplomático espantoso que nunca poderia ter sido apresentado dessa forma.» Foi o lado americano, representado pela secretária de Estado Madeleine Albright, outra criminosa [curiosamente, e em minha opinião, a maior parte dos secretários de Estado norte-americanos são criminosos de guerra. Basta analisar as suas posições durante os respectivos mandatos], quem levou a questão aos extremos, enquanto a posição de Hubert Védrine, pelos franceses e de Robin Cook, pelos britânicos, era mais aberta às expectativas sérvias. Os americanos queriam esta guerra para testar armamento e para transformar o Kosovo numa base militar americana. Pouco antes o começo da conferência de Rambouillet, a NATO autorizara o seu secretário-gerl, Javier Solana, a empreender se necessário ataques aéreos à Sérvia. Tenha-se em conta que o ministro alemão da Defesa anunciara a existência de um plano denominado "Ferro a Cavalo", segundo o qual as forças sérvias de Milosevic tinham previsto desde os fins de 1998 pegar na população albanesa do Kosovo e expulsá-la da província. Esta informação não proveio exactamente da NATO mas do próprio governo alemão, para justificar à sua opinião pública, muito dividida, a sua participação na guerra. Os próprios oficiais alemães contestaram no "Der Speigel", a vontade genocidária dos sérvios. O plano "Ferro a Cavalo" foi uma pura criação dos serviços especiais, a pedido do ministro da Defesa Rudolf Scharping. É um facto que o êxodo maciço das populações se deveu fundamentalmente aos bombardeamentos "aliados" e não à acção organizada dos paramilitares sérvios, que também existiu.

Acrescente-se que o UCK é um reagrupamento de pequenos grupos ultranacionalistas à moda albanesa, financiados pelo "imposto revolucionário", pelo tráfico de droga (e parece que também de órgãos humanos), muito pouco recomendável, e o Estado do Kosovo só foi reconhecido a pouco e pouco devido a pressões norte-americanas. Por exemplo, a Espanha e Chipre, tal como a Rússia e a China, nunca o reconheceram. A seguir à guerra, o Kosovo transformou-se num protectorado onusiano, e a ONU designou um pro-cônsul, Bernard Kouchner, personagem eticamente controversa, que foi co-fundador de Médicos sem Fronteiras e ministros dos Negócios Estrangeiros de Sarkozy, que exerceu funções administrativas durante dezoito meses. Foi a seguir que o UCK tomou as rédeas do poder e proclamou a independência.

Esta guerra foi declarada pela NATO contra toda a legalidade internacional, tendo a ONU legalizado a intervenção a posteriori, com o fez, aliás, em relação ao Iraque, cuja invasão havia condenado em 2003...

O Kosovo é hoje controlado por máfias, não tem uma economia viável, tornou-se numa espécie de caserna da NATO e os sérvios foram expulsos ou relegados para os seus enclaves, tal como os ciganos, sob o olhar indiferente das tropas a Aliança Atlântica.

A concluir o capítulo dedicado ao Kosovo, o autor escreve: « L'amplification et la distorsions des faits sont les traits communs à ces trois guerres [Somália, Líbia e Kosovo], certes, mais on arguera que toutes les guerres donnent lieu à des assauts de propagande. De ce point de vue du rapport à la vérité en situation de guerre, démocraties et dictatures ne sont effectivement pas très différents, à ceci près peut-être que les démocraties convoquent plus volontiers la morale, quand les dictatures se réclament de la sécurité ou de la souveraineté. Je pense pour ces dernières à la Tchétchénie, à la Syrie, au Yémen notamment, mais aussi bien sûr à la "guerre contre le terrorisme" où se dévoile la face cachée de la démocratie américaine, à savoir le penchant dictatorial de l'Amérique impériale.» (p. 88)

Sobre a guerra do Afeganistão já muito se escreveu. O ataque dos Estados Unidos foi a resposta inevitável aos ataques de 11 de Setembro, porque era preciso fazer alguma coisa. E logo se misturaram dois objectivos: derrubar o regime taliban de Kabul e destruir as bases de treino da Al-Qaida. Os talibans afegãos, que não são um partido mas uma espécie de frente relativamente diversificada, são, em primeiro lugar, nacionalistas. Talvez islamo-nacionalistas mas não djihadistas internacionalistas. Praticaram indiscutivelmente o terrorismo mas dentro das suas fronteiras e contra um inimigo local identificado. A sua aliança com Al-Qaida data da guerra de resistência ao Exército vermelho dos anos 1980, época em que eram, se bem nos lembramos, apoiados pelos Estados Unidos, tal como o grupo de Bin Laden, quando este era recebido no Pentágono. Só quando as tropas americanas se instalaram em território saudita, no contexto da guerra do Golfo de 1991, é que elas se tornaram inimigas da Al-Qaida. Mas o poder taliban instalado em Kabul entre 1995 e 2001 depois da vitória sobre outras facções afegãs, nomeadamente a dirigida pelo comandante Massud, era muito bem aceite por Washington. Numa primeira fase, os americanos destruiram uma parte das estruturas da Al-Qaida mas falharam a captura de Bin Laden, embora esta se pudesse efectuar ulteriormente utilizando métodos policiais.  O estado-maior americano havia baptizado esta operação de "Justiça Infinita", antes de renomeá-la Enduring Freedom ("Liberdade Duradoura"). Com um tal começo, não estranha que se tenha convertido numa guerra em nome da civilização.

O regime taliban caiu cinco semanas depois do começo da ofensiva, e no fim de 2001 foi instalado um governo interino presidido por Hamid Karzaï. Teria sido a oportunidade para as tropas estrangeiras abandonarem o território deixando aos afegãos o cuidado de encontrarem a sua própria fórmula política, mas foi precisamente o contrário que aconteceu. Os contingentes de ocupação aumentaram, foi iniciada uma certa reconstrução do país, é certo, e ao longo de uma década esta situação permitiu a abertura de um mercado florescente para as companhias de segurança privadas. Tal não obstou, todavia, ao avanço inexorável dos talibans, com operações militares de que resultaram centenas de mortos. Igualmente, os comportamentos coloniais, a pesada tutela americana, o jogo duplo do Paquistão e da Arábia Saudita, a corrupção omnipresente, bem como a hostilidade que suscita, em qualquer parte, a presença duradoura de exércitos estrangeiros, são suficientes para explicar o sucesso da rebelião islamista.

Quanto às armas de destruição maciça do Iraque, tratou-se de uma gigantesca mentira difundida a nível planetário, mas refutada pelo mundo ocidental, mesmo por todo o mundo. Rony Brauman escreve: «Il faut se rappeler les manifestations dans le monde entier, en particulier dans l'Europe occidentale. Pas toujours pour des bonnes raisons, au demeurant, si l'on pense à des sondages internationaux selon lesquels plus de la moitié de la population mondiale pense que les attentats du 11 septembre seraient en réalité une manipulation de la CIA. Mais la propagande a fonctionné admirablement aux États-Unis, où 80% da la population a soutenu cette "guerre preventive" contre un "nouvel Hitler". Cela dit, cette guerre, dont nous vivons aujourd'hui encore les suites désastreuses, n'a été possible qu'en raison de la promesse faite à Bush par Tony Blair, alors Premier ministre, de le soutenir "quoi qu'il arrive". Et cela contre l'avis des Britanniques qui, comme les Français et autres Européens, y étaient opposés. [...] Cela n'a toutefois pas profondément ébranlé Blair, qui a réagi à ces critiques en défendant son choix: "Nous avons pris la bonne décision. Le monde est meilleur et plus sûr". Tout cela a suscité la naissance de mouvements violents, radicaux, et qui pour certains ont débordé des frontières, Al-Qaida et État islamique, d'autres restés à l'intérieur de leurs frontières tout en radicalisant leurs positions: l'Armée rouge en Afghanistan a provoqué la naissance des talibans et d'Al-Qaida, l'attaque irakienne de 1980 a radicalisé la "Révolution islamique" en Iran, l'invasion de l'Irak en 2003 a entrainé la création de l'État islamique...» (pp. 100-101)

O direito humanitário, que ainda não se chamava humanitário, nasceu com a primeira Convenção de Genève de 22 de Agosto de 1864. Tratava da "melhoria da sorte dos militares feridos nos exércitos em campanha". Os termos da Convenção evoluíram, estendendo o seu campo aos feridos e náufragos (1906), aos prisioneiros (1929) e finalmente às populações civis (1949). Em 1977 foram adoptados "protocolos adicionais" a fim de adaptar os textos aos conflitos implicando forças "irregulares" nos conflitos internos, a seguir às guerras de descolonização e à guerra do Vietnam. Dos dez artigos da primeira convenção estamos agora com 559 artigos na convenção em vigor. 

O suisso Henry Dunant, impressionado com os agonizantes do campo de batalha de Solferino, entre Napoleão III e Francisco José (1859), escreveu Un Souvenir de Solférino (1862), a que chamou "manifesto humanitário". O livro teve um extraordinário êxito na Europa e deu origem à criação, em 1863 a uma "Sociedade para o socorro dos feridos militares", que se tornaria, dez anos mais tarde, o Comité Internacional da Cruz Vermelha e suscitaria a criação de sociedades nacionais da Cruz Vermelha em todos os países do mundo (actualmente 194). A sua primeira iniciativa foi a realização de uma conferência diplomática em 1864, para a "melhoria da sorte dos militares feridos nos exércitos em campanha", exactamente como a primeira Convenção de Genève. O paradoxo desta convenção foi ter sido assinada no momento em que começava a tornar-se caduca. De facto, as evoluções técnicas e os movimentos políticos que começaram a verificar-se tornaram ultrapassada a noção de campo de batalha e a distinção entre combatentes e não combatentes (os irregulares). Sendo o final do século XIX o da aceleração das conquistas coloniais, estas foram "ipso facto, transformadas em guerras justas em nome do direito natural, do comércio, da circulação e da propriedade" (Enzo Traverso, Le XXe siècle  des guerres, 2004). Ser humanitário é por defenição, referir-se à espécie humana, só que, como escreveu Orwell, há humanos mais iguais do que outros. A distinção foi teorizada por Gustave Moynier, co-fundador e primeiro presidente da Cruz Vermelha (durante 36 anos!!!), que escreveu que os princípios que a fundavam eram o produto da moral evangélica e da civilização. Portanto, este progresso era "inacessível às tribos selvagens [...] que cediam sem pensamentos reservados aos seus instintos brutais enquanto as nações civilizadas procuravam humanizá-lo" (Les Causes du succès de la Croix-Rouge, 1888). 

O autor expende depois as suas ideias sobre os novos tipos de guerras, a utilização de drones, os chamados danos colaterais, as intervenções ditas cirúrgicas, etc., e escreve: «Pour des forces politiques en guerre, qu'il s'agisse d'États ou d'acteurs non-étatiques, les frontières de l'intolérable sont celles de leurs intérêts. Le crime de guerre, par exemple, désigne les cruautés excessives, que "ne justifient pas les exigences militaires". Mais qui définit ces exigences en dernier resort? Le vainquer, bien sûr. Plus largement, selon que le pouvoir sera ou non soucieux de s'attirer les bonnes grâces de la population, il se conduira avec plus ou moins d'aménité à son égard. Et selon le degré d'importance qu'il attache à son image internationale, il modulera son niveau de brutalité. L'armée américaine, encore elle, a mis au point un logiciel qu'emploient ses officiers de ciblage (targeting officers) pour anticiper, en fonction de toutes sortes de paramètres (densité de population, neure de la journée, types de constructions etc.), les dommages collatéraux de bombardements de quartiers urbains. Objectif: éviter des pertes civiles supérieures à vingt-neuf morts, car le chiffre trente est le seuil à partir duquel des signaux négatifs apparaissent dans la presse, selon les conseillers. C'est à ce genre de détail raffiné que l'on voit le formidable pragmatisme d'une république impériale. En tout cas, le droit humanitaire est soumis par sa nature même à la logique de la guerre et c'est pourquoi les ONG ne devraient pas tenter de s'en faire les championnes, comme c'est souvent le cas.» (pp. 122-3)

E o autor conclui: «Il y a sans doute des guerres justifiables, encore faut-il s'en expliquer et c'est précisement là que les critères de la "guerre juste" peuvent nous aider, comme j'ai tenté de le montrer. Mais il n'y a pas de "guerre juste", il n'y a que des faux prophètes. Et je m'inquiéte de la facilité avec laquelle l'histoire, réécrite pour les besoins de la cause, devient l'Histoire.» (p.126)


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