terça-feira, 15 de agosto de 2017

AL-JÂHIZ E OS JOVENS





Chegou-me recentemente às mãos o Livre des mérites respectifs des jouvencelles et des jouvenceaux (Kitâb mufâkharat al-jawârî wa-l-ghilmân), do prosador árabe Al-Jâhiz (de seu nome completo Abu Uthman Amr ibn Bahr al-Kinani al-Basri), que nasceu em Basra (Bassorá) em 776, onde morreu em fins de 868 ou princípios de 869, obra traduzida e editada em França em 2000.

O texto deste livro, que poderá ser considerado o mais antigo tratado de erotologia árabe, é uma obra que tanto pela sua raridade como pelo seu valor literário, deverá ser considerada fundamental.

A vida de Al-Jâhiz coincide com o apogeu de Basra, na época de ouro dos califas Abássidas, que governaram o mundo árabo-muçulmano entre 750 e 1258. É a época da Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma), fundada em Baghdad pelo califa Harun al-Rashid e desenvolvida por seu filho Al-Ma'mun.

Basra partilhava então com Kufa o estatuto de grande metrópole do Iraque. Aliás, na sua obra, Al-Jâhiz procede a uma larga digressão sobre a rivalidade entre as duas cidades. Mas com a queda da dinastia Omíada, em Damasco, e a transferência da capital do Califado para Baghdad o prestígio daquelas duas cidades entrou em declínio.

Sem nos determos nos complexos meandros político-religiosos da época (lembremos o mutazilismo), recorde-se que a intensa actividade intelectual da época foi acompanhada de uma relativa liberdade de costumes, que deu lugar ao mujûn, estilo de vida e filosofia que se poderia classificar de hedonista e libertino. Nesse ambiente frívolo e ligeiro, os poetas encontraram inspiração para uma poesia moderna, essencialmente erótica e báquica. Também a música e o canto conheceram um prodigioso desenvolvimento. Os chefes de fila da corrente modernista foram Bashar ibn Burd e Abu Nuwas, e a sua irrupção no meio literário provocou uma forte reacção por parte dos poetas tradicionais.

Al-Jâhiz em árabe é uma alcunha (o homem dos olhos salientes), devido a uma deformação da córnea. O escritor pssou a maior parte da vida em Basra, mas viajou pela Síria e teve longas estadas em Baghdad, onde beneficiou da protecção do poder, mas conservando sempre a sua independência intelectual.

Autor de uma obra abundante, mais de duzentos títulos, apens nos chegou um pequena parte. As suas três obras mais célebres são igualmente as mais volumosas: constituem uma condensação do saber acumulado na época: o Livro dos animais (Kitab al-hayawân); o Livro da Exposição e da Demonstração (Kitab al-bayân wa-l-tabyîn), um tratado de retórica e de poética em glória ao talento oratório e poético dos árabes; e o Livro dos Avarentos (Kitab al-bukhala'), colocando em cena avarentos, a maior parte das vezes de origem iraniana.

Pouco preocupado com o conformismo, interessou-se por todas as formas de amor e de sexualidade, não só no livro agora em apreço como em vários outros. Também neste domínio foi um pioneiro, pois abriu caminho a numerosos escritores, jurisconsultos e teólogos  que redigiram tratados de erotologia. Esta corrente culminará com As Mil e Uma Noites (Alf Layla wa-layla), um monumento do género, cuja trama foi esboçada no século X, tomando a sua forma quase definitiva no século XV.

Não cabe aqui discorrer sobre a sexualidade no islão (Malek Chebel tem notáveis obras sobre o assunto), matéria interminável. Desde a divisão entre a sexualidade lícita (halâl) e a sexualidade ilícita (harâm), da interpretação do Corão e dos Hadiths, ao aborto e à prostituição, da tradição (Sunna)  à jurisprudência (fiqh), é todo um universo por vezes difícil de compreender no contexto da cultura dita ocidental. Uma coisa é certa. Entre o proibido em teoria e aquilo que realmente se pratica a diferença é abissal, especialmente no que ao homem diz respeito. Que o digam os viajantes, investigadores, turistas e todos quantos há séculos visitam ou se estabeleceram no mundo árabe. De todos os desvios, o mais repreensível (e também o mais comum) é a homossexualidade masculina, mas a sociedade não podia senão fechar os olhos a uma prática que tendia a banalisar-se não só por causa da segregação sexual e da promiscuidade mas também pela moda. O califa abássida Al-Amin (809-813) possuía um verdadeiro "harem" masculino, tal como o emir aghlabida de Ifrîqiya (a actual Tunísia), Ibrahim II (875-902). Os adolescentes cristãos foram muito cobiçados, como o atesta Abu Nuwas num dos seus poemas. A pederastia conheceu tal voga que, de desvio em relação à religião tornou-se mesmo norma em poesia. Numerosos poetas, insuspeitos de qualquer inclinação homossexual, sacrificaram ao gosto da época cantando um amor puramente fictício por jovens efebos.

Al-Jâhiz traduz bem a amplitude do fenómeno, oferecendo a um amante de rapazinhos a ocasião de dar réplica, neste livro, a um amante de raparigas, "com armas iguais".

O livro é composto por uma introdução e por duas partes distintas. A introdução destina-se a justificar a escolha de um assunto tão delicado e critica os místicos e os ascetas. A primeira parte, a mais importante, ocupa-se do debate entre um amante de rapazinhos e um de donzelas, cada um justificando as suas preferências, com o a ajuda de argumentos que vão do Corão à opinião pessoal. Na última parte, o autor relata uma série de vinte e oito anedotas irreverentes (na realidade, trinta, já que duas estão incluídas nas vinte e oito), com a intenção de despertar o interesse do leitor.

Esta obra insere-se num costume do período árabe pré-islâmico, os torneios oratórios e poéticos, que se realizavam principalmente por ocasião das grandes feiras anuais, como a de 'Ukâz. Esta tradição, uma verdadeira instituição social, perpetuou-se até à época omíada, perdendo, na época abássida, o seu carácter sociológico para se converter em simples género literário.

Registe-se que Al-Jâhiz mantém uma estrita neutralidade no debate, embora seja suposto ele preferir as donzelas. Os actores do debate recorrem a vários poetas, como Al-A'shâ, Imru l-Qays, 'Alqama b. Abada e Abu Nuwas. Com este texto, Al-Jâhiz dá-nos uma visão global bastante completa sobre a sexualidade e as suas diversas formas. Mas sempre com a preocupação de torná-lo divertido, de não aborrecer o leitor.

Não podemos deixar de ficar surpreendidos com a liberdade desta obra. Ainda que marcado pelo helenismo ambiental, Al-Jâhiz está profundamente ligado aos valores do mundo muçulmano. Todavia, curioso de tudo, tem a preocupação de se abrir a um vasto universo, incluindo o modo de funcionamento do corpo. Naquele tempo, se o compararmos à exigência actual de um puritanismo excessivo, a Arábia era feliz. Os tratados de Al-Jâhiz são um reflexo de um mundo desaparecido.

O próprio Charles Pellat, que estabeleceu e publicou em árabe o texto deste tratado (1957), recusou-se a traduzi-lo em francês, "pela sua obscenidade". Escreve Malek Chebel: « Há certamente que fazer uma história cruzada, que consisitiria em demonstrar como os tradutores ocidentais [...] fazem valer a moral cristã na apresentação dos textos, a exactidão científica. Sem dúvida para não chocar os seus leitores ou para não serem classificados de "racistas", têm muitas vezes a tendência para mascarar ou atenuar os aspectos incongruentes (sexualidade por exemplo) da cultura islâmica.» (Ephèbes et Courtisanes, p. 83)




De facto, este tratado decorre de uma interrogação que remete para a Antigudade Clássica e de que é testemunho, por exemplo, o diálogo de Os Amores, do Pseudo-Luciano de Samósata, que é incluído neste volume, bem como outras obras que retomaram esta problemática no Ocidente, como é violentamente atestado no começo do século XVII, em Veneza, com Alcibiade enfant à l'école, de Antonio Rocco (também inserido neste volume), ou, nos nossos dias, com os estudos de Michel Foucault.


Em 1983, as edições &etc publicaram uma tradução (adaptada e resumida) de Os Amores, de Luciano de Samósata, considerado hoje como Pseudo-Luciano.

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito do seu texto e do comentário a uma obra que considero fundamental. Se me permite gostaria de lhe sugerir, para além do polémico Malek Chebel, outros autores que se dedicam ao estudo da sexualidade no Islão: o já clássico Abdelwahab Bouhdiba, Khaled El-Rouayheb e Frédéric Lagrange, sobretudo este último. Penso que já deve conhecer a obra de Ahmad ibn Souleiman ibn Kamal Pacha "Le Bréviaire arabe de l'amour", traduzido do árabe para francês e apresentado por Mohamed Lasly, e o livro do Cheikh Nefazoui " Le Jardin parfumé. Manuel d'érotologie arabe", traduzido para francês pelo barão R*** e também apresentado por Mohamed Lasly numa edição de 1999. Por fim a Revista Qantara, publicada pelo Institut du Monde Arabe, no seu número 98/Janeiro de 2016, dedica o seu dossier ao tema Le jardin parfumé et autres plaisirs des sens. Pedindo desculpa por esta breve incursão por uma matéria que tanto me interessa, apresento-lhe os meus respeitosos cumprimentos

Anónimo disse...

Porque não se dispõe o erudito autor do blog a traduzir e editar as obras do

Al-Jâhiz e do infeliz Antonio Rocco,impedido de prosseguir a sua bem-humorada

análise das originalidades da pedagogia helénica? Eis um serviço público que

só o honraria e lhe concederia um lugar ainda mais destacado no panorama da

Cultura nacional. Avance!

Nuno disse...

Boa noite, pode dar uma opinião sobre o terrorismo actual? Cumprimentos

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

Boa noite, Nuno

Este post é sobre Al-Jâhiz e as relações dos jovens e não sobre o terrorismo.

O terrorismo actual é um assunto demasiado complexo para ser opinado no espaço de um blogue. Só de ouvir os comentários na televisão (aliás raramente vejo televisão) e de lê-los nos jornais fico estupefacto. Por isso cada vez intervenho menos na matéria, que dá para uma conversa de longas horas à mesa de um café. Sugiro, contudo, a leitura de alguns livros e artigos do prof. Olivier Le Roy, um especialista na matéria.

Acrescentarei somente que se continua a fazer uma abordagem pelas consequências e não pelas causas. Assim, não chegaremos a lado algum!

Cumprimentos