quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

MUDAM-SE OS TEMPOS...


Tony Duvert: escritor francês. Nasceu em Villeneuve-le-Roy (arredores de Paris) em 2 de Julho de 1945. Romancista, ensaísta, poeta, jornalista, autor de livros que, ao tempo, marcaram a literatura francesa, como Récidive, Paysage de fantaisie (Prémio Médicis 1973), Journal d'un innocent, Quand mourut Jonathan, L'Île Atlantique ou L'enfant au masculin. O seu cadáver, em estado de putrefacção, foi encontrado em 20 de Agosto de 2008, na casa da sua mãe (onde vivia há 14 anos, mas na companhia desta, entretanto falecida, só durante os primeiros dois anos), em Thoré-la-Rochette (Loir-et-Cher), tendo as autoridades determinado que o óbito ocorrera um mês antes. Os restos mortais foram incinerados no cemitério de Tours Sud, em Esvres, e as cinzas espalhadas no respectivo jardim. O escritor viveu os últimos anos da sua vida em reclusão voluntária, quer pelo seu temperamento, quer pelos constrangimentos decorrentes da temática da sua obra.

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Em livro agora publicado, Retour à Duvert, o escritor Gilles Sebhan apresenta-nos a biografia possível de Tony Duvert, escritor "maldito" desde os finais do século passado, apesar do sucesso inicial da sua obra, quando uma brisa de "liberdade sexual" perpassou pela França, após a revolta estudantil do Maio de 1968. Aliás, um dos líderes desse movimento cujas repercussões se fizeram sentir em toda a Europa, Daniel Cohn-Bendit (mais tarde e durante 20 anos deputado ao Parlamento Europeu pelo partido ecologista "Os Verdes") exaltava mesmo as delícias das relações sexuais com menores, embora mais tarde tenha afirmado que as sua declarações apenas se destinavam a chocar a burguesia de então.

Importa não esquecer que outro grande escritor francês, o marquês de Sade, igualmente considerado "maldito" durante mais de um século, é hoje objecto do reconhecimento público, estando os seus livros traduzidos e publicados em dezenas de países. A sua obra integra mesmo, desde 1990, a famosa colecção de clássicos "Bibliothèque de La Pléiade", o templo por excelência da respeitabilidade literária francesa.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", como escreveu o poeta.

O livro que Gilles Sebhan agora deu à estampa é uma versão corrigida e aumentada do seu livro publicado em 2010, Tony Duvert - L'enfant silencieux. Nos cinco anos que medeiam entre as duas obras, Sebhan recolheu depoimentos de pessoas que durante mais ou menos tempo privaram com Tony Duvert, incluindo o seu irmão Alain Duvert, o eminente professor René Schérer, o jornalista Jean-Pierre Tison  ou o escritor Mathieu Lindon, filho de Jêrome Lindon, o proprietário das Éditions de Minuit, que publicavam os livros de Duvert. E recebeu vasta correspondência dos leitores do primeiro livro, narrando as suas histórias pessoais, em geral gente simples e sem pretensões literárias, mas cuja vida seguira uma trajectória de solidão mais ou menos paralela ao percurso de Tony Duvert. Mais do que isso, Gilles Sebhan teve acesso a papéis dispersos e mesmo a fotografias do escritor (aliás incluídas neste segundo livro), mas não propriamente à correspondência do mesmo, um considerável volume de cartas em poder de Tison. Também alguns documentos com interesse para compreender o percurso de Duvert lhe foram mostrados mas não entregues, pelo que apenas foi registada uma rápida observação visual.

Tony Duvert

Não cabe aqui uma reflexão sobre um problema que hoje assombra a comunicação social e se tornou fulcral na sociedade contemporânea ocidental: a pedofilia. Questão evidentemente pertinente mas nem por isso incontroversa, como todas as normas da moral oficial que vigoram em determinados períodos da história. Convém não esquecer que ainda há alguns séculos os homossexuais eram queimados na fogueira por vontade do Santo Ofício e que nos nossos dias os casamentos entre pessoas do mesmo sexo passaram a ser contemplados pela lei civil do Ocidente cristão.

É verdade que Tony Duvert, para lá da sua evidente preferência por efebos, nomeadamente pelos norte-africanos (opção que compartilhou com os maiores escritores franceses que o antecederam ou foram seus contemporâneos - André Gide, Prémio Nobel da Literatura, é um caso paradigmático) foi, contraditoriamente, uma pessoa de trato difícil, um homem pouco sociável, cujo temperamento o levou a afastar-se progressivamente dos amigos, a criar o vazio à sua volta. O que nada tem a ver com a sua orientação sexual. Gilles Sebhan tem o mérito de retratar tão objectivamente quanto possível, com os elementos de que dispõe, o cidadão Tony Duvert enquanto homem e enquanto escritor. Refere mesmo que este segundo livro agora publicado é ainda uma biografia incompleta aguardando a consulta de documentos inéditos.

Não pretendendo alongar-me com citações, e muitas haveria a fazer, não resisto a uma referência constante da página 69. Nela se indica que Tony Duvert, numa das suas permanências em Marrocos, o seu país de predilecção, et pour cause, esteve alojado na Résidence El Hartsi. Guéliz - 8 rue Ouadi El Makhazine. Marrakech. «Cette résidence, il ne l'avait pas trouver au hasard. C'était un endroit bien connu des Européens, écrivains et artistes essentiellement, qui voulaient venir là s'amuser ou se perdre - chacun trouvera le mot qui lui convient. Ainsi repère-t-on, par la présence dans des archives d'une lettre envoyée à cette adresse, que l'écrivain Armand Guibert y a séjourné en février 1970. Traducteur de Pessoa, spécialiste de Federico García Lorca et de Sédar Senghor, auteur de recueils de poèmes, il a également rédigé un Journal de Marrakech resté en grande partie inédit dans lequel il évoque des garçons qui pourraient être - ou sont - les mêmes que ceux que fréquentait Duvert et qui se pressaient à la sortie de la fameuse résidence.»

Deve referir-se que Armand Guibert, profundo conhecedor de Marrocos, da Argélia e da Tunísia, foi o primeiro grande tradutor e divulgador de Fernando Pessoa em França. E também um grande amigo de Portugal, aonde se deslocava com frequência. Recordo que alguns amigos meus portugueses se referiam sempre com a maior simpatia ao brilhante intelectual francês Guibert, falecido em 1990,  com quem teriam convivido nos anos 60 ou 70.

E, como poderia dizer Eduardo Prado Coelho, o mais importante a escrever sobre este livro é tudo o que não escrevi.

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