quinta-feira, 22 de junho de 2023

OS NEGÓCIOS DE JÚLIO CÉSAR

A biografia de Júlio César, por Luciano Canfora, refere, logo no início, uma afirmação de Bertolt Brecht: «En écrivant le César, je n'ai pas à croire un seul instant, je le découvre maintenant, que les choses devaient obligatoirement se passer comme elles se sont passés» (Brecht, no seu "Diário de Trabalho" (Arbeitsjournal), de 23 de Julho de 1938, que testemunha uma concepção precoce do seu livro, aliás inacabado, Die Geschaefte des Herrn Julius Caesar, publicado em 1957, e editado em português, em 1962, com o título Os Negócios do Senhor Júlio César, em tradução do poeta António Ramos Rosa, quando as traduções ainda eram efectuadas por pessoas com um adequado nível de cultura.

Resolvi, por isso, reler este romance de Brecht que se distingue na sua produção literária, quase integralmente dedicada ao teatro, onde introduziu o "efeito de distanciação", coisa que estudei quando era novo, e que esteve na base do teatro didáctico ou narrativo, por oposição ao teatro dramático.

Já não me recordava do texto, lido há uns cinquenta anos, e que é uma original abordagem de um período da vida de César. Imagina Brecht um cidadão romano, anos depois da morte do Ditador Vitalício, tentando obter de um agente fiscal um Diário que teria sido escrito por um escravo, Raro, que durante anos fora secretário de César. Anota Raro as atribulações da carreira do Divino Júlio, as suas permanentes dívidas, o arresto periódico de alguns dos seus bens, as suas conspirações políticas, tudo isto numa atmosfera de uma Roma mergulhada em problemas financeiros, que Brecht faz corresponder a uma City, usando a linguagem dos banqueiros e dos empresários dos nossos dias. Exercício largamente irónico, realizado numa perspectiva marxista, em que o autor pretende transmitir-nos a alienação do mundo capitalista, recorrendo a factos reais como o negócio dos escravos, a questão agrária, a distribuição do pão e tantas outras facetas que povoavam o quotidiano de Roma. Aproveita Brecht para alternar as vicissitudes do imperator, descritas pelo escravo Raro, com considerações deste sobre a sua própria vida, ilustrando os costumes da época. Não se coíbe Raro, em muitas das entradas do Diário, de se lamentar das infidelidades do seu jovem amante Caébio (cidadão romano), que mantém por conta, e que acaba por abandoná-lo, passando-se para os partidários de Catilina, por Raro não lhe ter montado uma loja de perfumes, como lhe prometera. Uma fina ironia, um escravo sustentar um homem livre em troca de favores sexuais.

Apesar do texto ser em alguns momentos repetitivo quanto às matérias tratadas, este livro ilustra bem as preocupações económicas, financeiras e sociais no fim da República e alguns aspectos menos conhecidos da vida doméstica quotidiana de Júlio César. 


sexta-feira, 16 de junho de 2023

O JARDIM DE CINZAS

Concluí a leitura da tetralogia La reine oubliée, de Françoise Chandernagor, com a finalização do IV volume, Le Jardin de Cendres. São, no total, cerca de 2000 páginas dedicadas a Cleópatra Selene, a filha de Cleópatra VII e de Marco António, que, pelo seu casamento com Juba II, se tornou rainha da Mauritânia romana. Apesar do vivo interesse suscitado pela escrita da autora, baseada nas fontes históricas disponíveis e ficcionando os espaços históricos de que não existem registos, e do elevado nível da efabulação, talvez Françoise Chandernagor se tenha alongado demasiado, enchendo a obra com pormenores eventualmente dispensáveis, ainda que não desprovidos de interesse e que atestam a sua vastíssima cultura.

Os três primeiros volumes narram a vida de Selene em Alexandria, em Roma e, depois de casada, na Numídia. Este quarto volume encerra a narrativa, com Selene na Numídia, em Roma, no Oriente.

Neste IV volume, entre os factos históricos mais relevantes importa salientar a adopção por Augusto (17 AC), de Caius César e de Lucius César, filhos de sua filha Julia e de Marcus Agrippa e "adquiridos" aos pais pelo imperador. As crianças passaram de netos biológicos a "filhos adoptivos" de Augusto e presumíveis herdeiros do Império. Mas morreram ambos cedo. A sucessão de Augusto revelava-se periclitante. O herdeiro presuntivo do Império, Marcellus, filho de Caius Claudius Marcellus e de Octávia (irmã de Octávio Augusto), o sobrinho predilecto do imperador (que o casara com sua filha Julia), morrera subitamente em 23 AC. Pensou então Augusto "legar" o Império a Marcus Agrippa, general notável, grande construtor, homem de confiança e verdadeiramente o nº 2 da ainda "República" e a quem obrigara a divorciar-se da mulher Claudia Maior (sobrinha do próprio Augusto) para casar com Julia. Mas Agrippa morreu em 12 AC. Pensando na sucessão, Augusto optara por retirar a Julia e Agrippa os ditos filhos e adoptá-los para garantir a transmissão do Poder na Família.

Entretanto, Livia Drusilla, a mulher de Augusto (o casal não tinha filhos), vigiava as movimentações do marido, tentando acautelar o destino dos filhos do seu primeiro casamento com Tiberius Claudius Nero: Tibério (o futuro imperador) e Nero Claudius Drusus. Mas Augusto não gostava dos enteados e optara pelos netos. E quer Caius César (m. 4 AD), quer Lucius César (m. 2 AD) morreram antes do imperador. Augusto detestava Tibério, preferindo, se necessário. o irmão mais novo deste. Mas Nero Claudius Drusus, morreu de uma queda de cavalo em 9 AC.

O imperador foi então obrigado a uma derradeira jogada, adoptando Tibério (4 AD) e obrigando-o a divorciar-se de sua mulher Vipsânia Agripina (filha de Marcus Agrippa) para lhe dar em casamento a própria filha Julia, agora viúva de Agrippa, o que desagradou imensamente aos novos esposos. Tibério deveria ter por sucessores seu filho biológico Castor, do seu casamento com Vipsânia, filha de Agrippa, e  Germanicus, filho de seu irmão Drusus (entretanto falecido) e de Antonia. Diga-se que os novos esposos, Tibério e Julia, se detestavam mutuamente, tendo casado por imposição de Augusto.

Mas Octávio César Augusto, na sua sinistra ambição pelo poder, obrigou todos os familiares a casarem, divorciarem, recasarem, à medida das suas conveniências pessoais. 

Regressando a Selene. Numa das campanhas no norte de África em que insistiu em acompanhar o marido, Selene, ainda desconsolada pela morte dos filhos, como relatado no post anterior, descobriu um bébé berbere que resolveu adoptar (6 AC) e a quem deu o nome de Aedemon (o Discreto) que, com uma ama da Bitínia, passou a viver no palácio real. A rainha tinha construído junto à residência um jardim quase fúnebre, a que chamou jardim de cinzas, recordando, em túmulos e cenotáfios, os seus filhos e os seus irmãos também mortos. Dir-se-ia que Selene vivia agora de recordações e com o desgosto de não possuir um filho varão, apenas lhe restando a filha mais velha Théa. Mas, talvez por milagre de Isis, Selene voltou a conceber, e desta vez um rapaz, a quem chamou, obviamente, Ptolemeu. O filho adoptivo e o filho biológico cresceram juntos, tornaram-se amigos, e embora Aedemon fosse mais forte manifestou sempre uma certa deferência pelo príncipe herdeiro.

Mas um novo desgosto atingiria Selene. Tendo obtido uma pequena serpente para divertimento de sua filha Théa, cujo veneno era diariamente extraído pelo encantador, aconteceu que um dia o homem esqueceu-se da operação e numa brincadeira a serpente mordeu Théa. Apesar dos rápidos socorros, a mordedura revelou-se fatal. O encantador foi morto e Selene mergulhou de novo num pesado luto.

Esta longa narrativa, em quatro volumes, da história de Selene, a "rainha que a história esqueceu", permitiu a Françoise Chandernagor uma descrição documentada da vida em Roma no tempo de Augusto, mais precisamente da vida da família de Augusto.

As más notícias continuaram a perseguir Selene. Em 2 AC, Julia (única filha de Augusto, casada com Tibério em 11 AC, por imposição do pai, e de quem vivia praticamente separada desde 6 AC), foi exilada para a ilha de Pandatária por decisão do imperador, sob o pretexto de uma vida dissoluta. Augusto, que desde muito cedo se arvorara em guardião da "moral e dos bons costumes", informou o Senado que não poderia tolerar o comportamento da própria filha, acusada de actos libidinosos com os jovens da aristocracia romana. Pior, foi acusada de ser amante de Iullus Antonius (filho de Marco António e de Fulvia), marido de sua prima Marcella. Os acusados de deboche foram condenados à morte mas Iullus Antonius suicidou-se. Lucius Antonius, filho do casal foi desterrado para Marselha. Escribónia (que fora mulher de Augusto) e mãe de Julia, decidiu acompanhar a filha no exílio, tendo ambas vivido com as maiores dificuldades, até que em 3 AD, perante a crescente impopularidade em Roma da atitude do imperador, este decidiu permitir que ambas regressassem ao continente, ficando alojadas em Reggio di Calabria. No seu testamento, Augusto dispôs que Julia não fosse sepultada no mausoléu imperial e Tibério, futuro imperador, agravou ainda mais as condições de vida de Julia, que morreu, dizem que à fome, em 14 AD, com 54 anos. Segundo a autora (e ainda que a história registe a leviandade de Julia), este "escândalo sexual" escondeu uma eventual conspiração, já que uma certa aproximação de Julia e Iullus Antonius (que apesar da sua serenidade não teria esquecido que se devia a Augusto a morte de seu pai) e de mais alguns aristocratas teria por objectivo o restabelecimento do normal funcionamento da República, que para o imperador já só existia formalmente. O exílio de Julia magoou profundamente Selene, já que ambas tinham convivido na infância em casa de Octávia.

Dos cinco filhos de Julia com Marcus Agrippa, Caius César e Lucius César (ambos adoptados por Augusto) morreram jovens e sem geração; Julilla (ou Julia a Jovem), veio a casar com Marcus Emilius Lepidus; Agripina (a Velha) casou com Germanicus (filho de Druso, o Velho que era irmão de Tibério) e de Antónia Menor; e Agrippa Postumus (já nascido depois da morte do pai e que se comportava animalescamente, o que levou Augusto a desterrá-lo para uma ilha, seria assassinado por ocasião da morte do imperador, talvez por decisão deste ou de Tibério). Acrescente-se que quando Augusto designou Tibério como sucessor impôs a este a adopção de Germanicus e do próprio Postumus.

Castor, filho único de Tibério e de sua primeira mulher Vipsânia, de seu nome Nero Cláudio Druso Júlio César, usou este pseudónimo por alusão a um lutador célebre. Casou com sua prima direita Livilla, filha de Antonia e de Druso, o Velho e teve três filhos. Morreu ainda em vida de seu pai e nenhum dos filhos teve direito à sucessão do avô.

Julilla foi desterrada para as ilhas Tremiti, em 8 AD, acusada de adultério com o senador Silano. Curiosamente, foram estas ilhas as escolhidas por Mussolini para deportar os homossexuais italianos durante o regime fascista. Deixou duas filhas e um filho e ainda um bébé, já nascido nas ilhas, e que Augusto obrigou fosse abandonado. A exemplo de sua mãe Julia, parece que o desterro, também neste caso, não seria por causa do adultério invocado pelo imperador mas por razões políticas, pois seu marido (que Augusto mandou depois matar) estaria envolvido numa revolta. Acresce que por detrás de tudo estaria Livia, da família dos Claudii, sempre desejosa de destruir todos os ramos da família dos Julii.

Finalmente, Caio Octávio César Augusto morreu em 19 de Agosto de 14 AD, em Nola, na casa que fora de seu pai, depois de uma frustrada visita à ilha de Capri.  Os funerais foram sumptuosos.

Selene, que viera com Juba a Roma assistir às cerimónias fúnebres, encontrou-se depois com o novo imperador Tibério, numa residência que este tinha sobre o mar, uma espécie de estranha caverna na Câmpania chamada Spelunca. Selene convivera com Tibério quando eram miúdos e mantivera com ele uma relativa amizade, se era possível manter amizade com Tibério cujo feitio desconfiado e hesitante o tornava uma criatura problemática. Estando o filho de Selene, o jovem Ptolemeu, em idade de casar, Selene aconselhou-se com Tibério sobre a possibilidade de o unir a uma família aristocrática, o que o imperador logo descartou, pois o rapaz, apesar de filho de reis, era um berbere e nenhuma família romana o aceitaria. Propôs a Selene que procurasse esposa nas famílias reais do Oriente.

Entretanto, Germanicus pacificava a Germânia com grande êxito (daí o apelido) na companhia de sua querida esposa Agripina, a Velha, segunda filha de Julia e de Marcus Agrippa, que sempre o acompanhava nas campanhas militares, e dos sucessivos filhos. O terceiro filho, Caius, foi alcunhado pelas tropas de "Caligula", devido às botinhas (caligae), semelhantes às sandálias dos militares, que usava em miúdo nos teatros de guerra. Tendo sido enviado para o Oriente, Germanicus decidiu visitar o Egipto (região que Augusto interditara a toda a sua família e a todos os altos dignitários e que era administrada por um funcionário menor. Era ainda a maldição de Marco António e de Cleópatra). 

Tibério enfureceu-se com a atitude de Germanicus, recordando que o Egipto era desde Augusto uma propriedade pessoal do imperador e que nenhum membro da Família ou alto funcionário estava autorizado a visitar. E mandou-o regressar a Roma. Houve, pelo meio, uma intriga e, aprestando-se a voltar a Roma, Germanicus morreu em Antioquia, presumivelmente envenenado. Pensa-se que o suposto envenenamento tenha sido provocado por Pison ou por sua mulher Plancine e ordenado por Lívia, que abominava os descendentes de Marco António: ele era filho de um Claudii e de Antónia Menor, filha de Marco António. Tibério não estaria envolvido na conspiração. Agripina, mulher de Germanicus, acompanhada pelos filhos organizou, com grande pranto, o cortejo fúnebre para Roma. E não mais deixou de atribui à Família a responsabilidade pela morte do marido, o que viria a causar grande mal-estar. Tibério ordenou uma investigação, mas não foi às últimas consequências devido à pressão da mãe e entretanto Pison suicidou-se. Germanicus era muito querido em Roma e a sua morte suscitou a maior emoção. 

Tendo também morrido Castor (23 AD), único filho de Tibério e de Vipsânia, sua primeira mulher, que o imperador esperava lhe sucedesse, tentou aprontar para a sucessão os dois filhos gémeos deste, Tiberius Gemellus e Drusus Gemellus, mas que ainda eram crianças. Apesar de haver um filho vivo de seu irmão Nero Cláudio Druso, o futuro imperador Cláudio (Tibério Cláudio César Augusto Germânico), aparentemente débil mas um estudante brilhante, embora não fosse encarado como um possível sucessor. Cláudio era irmão do falecido Germanicus, e eram os filhos deste que estavam na linha de sucessão: Nero César, Drusus Celer e Calígula. 

Farto das pretensões de Agripina, Tibério desterrou-a para a ilha de Pandataria e a seu filho Nero César para a ilha de Pontia e encerrou Drusus Celer nos subterrâneos do Palatino. Todos haveriam de morrer em pouco tempo, assassinados.

Em 23 AD, morrera também Juba II, marido de Selene e sucedeu-lhe seu filho Ptolemeu, que casou com a princesa Shalmar do reino de Osroene, que viria a morrer de parto ao mesmo tempo que o recém-nascido.

Entretanto, um jovem de origem humilde, Lucius Aelius Sejanus, que subira na carreira militar, foi designado por Tibério prefeito da Guarda Pretoriana e foi ganhando influência até se tornar no braço direito do imperador. Quando Tibério se retirou para Capri, Sejanus assumiu de facto o poder em Roma.

Tibério não apreciou a casa que Augusto mandara edificar na ilha e mandou construir em Capri uma sumptuosa moradia, a Villa Jovis, onde se instalou até morrer. Dada a sua desconfiança e misoginia não recebia praticamente ninguém, ficando Sejanus encarregado de transmitir todas as ordens e fornecer todas as informações ao imperador. Durante onze anos Tibério não foi a Roma, nem mesmo às sessões do Senado, nem sequer ao funeral de sua mãe Lívia, que morreu em 29 AD, com 86 anos.

Viúvo, Ptolemeu casou em segundas núpcias com uma princesa judia, Phasael, em Antium, na Villa marítima de Selene. [Curiosamente, segundo a minha investigação, Phasael é nome de homem, mas cito Chandernagor].

O poder de Sejanus cresceu imparavelmente, a ponto de ele pretender mesmo casar com a viúva de Castor, filho de Tibério, a que o imperador evidentemente se opôs. Embora misógino, tendo amado, ao que consta, sua primeira mulher Vipsânia de quem foi obrigado por Augusto a divorciar-se para se casar com Júlia, com quem nunca manteve relações, não há, ao longo da sua vida, notícia de ter possuído, como era de norma na aristocracia romana, os seus delicati, salvo, para o fim da vida, as crianças da sua piscina de Capri, como relata Suetónio. Mas no momento do grande favoritismo de Sejanus, Françoise Chandenagor insinua que o imperador poderia ter ficado seduzido pelo prefeito, que teria começado a vida como mignon. Nunca ouvira, mas registo a opinião da autora que, aliás, mais adiante refere que não partilha da convicção de Suetónio.

Mas apesar de ter entregue a administração a Sejanus, Tibério, avisado de que ele estaria envolvido numa conspiração, mandou matá-lo  de forma hábil, atendendo ao poder que o prefeito pretoriano já tinha alcançado. Depois, nomeou Naevius Macron, um homem da sua confiança, para o substituir (em latim é Macro mas Chandernagor escreve Macron...).

Finalmente, Tibério morre no ano 37, designando seu sobrinho-neto Calígula como sucessor. Havia ainda Tiberius Gemellus (filho de Tiberius Drusus, dito Castor, já falecido), e em consequência neto de Tibério, que o adoptara tal como a Calígula. O Senado proclamou Calígula como imperador e este, num gesto de amizade, decidiu que co-governaria com Gemellus, mas pouco depois mandou matá-lo.

A história, já longa, aproxima-se do fim, e devido à extensão abreviarei o relato. Ptolemeu, que havia sido chamado a Roma por Calígula, acompanha-o na campanha da Germânia e é por este assassinado. Selene, que ficara a governar a Mauritânia, coadjuvada por seu filho adoptivo Aedemon, é informada da morte de seu filho Ptolemeu e presente que Roma irá invadir o seu reino. O pressentimento concretiza-se e a esquadra romana entra no porto de Cesareia. Selene recorda-se da tomada de Alexandria por Octávio e recusa-se a fugir para zona segura; prefere afogar-se numa cisterna, evocando a sua cidade natal. Calígula será mais tarde assassinado e substituído por seu tio Cláudio, mas estes acontecimentos estão já fora do horizonte temporal do romance.

* * * * *

NOTA: Os nomes próprios estão grafados neste texto umas vezes em português, outras em latim, tal como na obra de Françoise Chandernagor estão escritos umas vezes em francês, outras em latim. Tal deve-se ao facto de algumas figuras terem já assumido historicamente o seu nome nas línguas latinas.

Os volumes desta Tetralogia são romances, na vizinhança do género romance histórico. Mas o enquadramento geral é histórico. A autora refere no fim de cada volume o seu método de trabalho: seguir cronologicamente os acontecimentos e preencher com ficção os intervalos para os quais as fontes são mudas. E deve salientar-se que a parte claramente efabulada é de grande criatividade. Também é possível, mas dificilmente verificável, que alguns factos históricos tenham sido ligeiramente distorcidos para se conformarem ao fio da narrativa. Françoise Chandernagor não menciona usualmente datas, pelo que as indicadas no post decorrem quase todas da  minha pesquisa e são de minha responsabilidade. Entendi referi-las para facilitar, em alguns casos, a compreensão do texto.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

O HOMEM DE CESAREIA

Acabei de ler L'Homme de Césarée (2020), III volume da tetralogia La reine oubliée, de Françoise Chandernagor, dedicada a Cleópatra Selene, única filho de Cleópatra VII que chegou à idade adulta.

Neste livro, a autora debruça-se sobre o período em que Selene, tendo desposado Juba II, por graça de Augusto, se encontra na Mauritânia romana (equivalente à actual Argélia do norte e a parte de Marrocos), território que o imperador concedera ao jovem esposo (então com 28 anos e um magnífico aspecto) que fora levado como refém para Roma por Júlio César, quando seu pai fora derrotado pelas tropas romanas.

Tendo o primeiro volume abrangido a vida de Selene no Egipto, e o segundo em Roma, este terceiro refere-se, pois, à sua vida como regina da Mauritânia.

A capital do reino era Iol, nome que Juba mudou para Cesareia (em homenagem a Augusto), hoje designada por Cherchell, na zona de Tipasa. Não deve ser confundida com Cesareia da Judeia nem com alguma outra cidade que tenha recebido o mesmo nome como forma de glorificar qualquer dos Césares.

A Tetralogia de Françoise Chandernagor é devedora da ficção e da história. À medida que a autora avança no tempo, é natural que as fontes históricas relativas a Selene se vão reduzindo, desempenhando a ficção um papel progressivamente mais importante. Assim se revela a capacidade criativa de quem escreve, recorrendo à imaginação para nos relatar uma estória que poderá, ou não, ter existido.

Curiosa a narração da consumação do acto nupcial por Juba com um vigor que foi comentado pelos escravos mais próximos e narrado depois aos rapazinhos da corte, o que muito os divertiu pois estavam habituados às investidas do seu jovem soberano, de acordo com as práticas antigas e aceites. Note-se que a paixão por Selene não afastou Juba desses rapazinhos que faziam as delícias das grandes casas romanas. «Célibataire, il [Juba] l'était resté dans ses moeurs au point de continuer à honorer, en passant, l'un et l'autre de ses delicati, ses enfants délicieux - divertissement de jeune homme qui pour lui, féru de culture grecque, demeurait la marque suprême du bon goût.» (p. 56)

Mas Juba, que havia sido levado para Roma com três anos e de cuja educação se encarregara Júlio César, depois do assassinato deste ficara a cargo da viúva, Calpurnia, e mais tarde do pai desta, Lucius Calpurnius Piso Caesonis, na célebre Villa dei Papyrus, em Herculanum, que as cinzas do Vesúvio haveriam de proteger até aos nossos dias. Calpurnius acolhera na Villa o epicurista Filodemus, que muito contribuiu para a ilustração de Juba, que veio a ser um dos maiores intelectuais do seu século. Dele diz Plutarco que foi «le plus doué des rois» e «le plus grand des historiens grecs» (p. 54)

Nos primeiros tempos do reinado, Juba leva Selene de visita à Mauritânia profunda, tendo passado uma temporada em Volubilis [onde eu estive há meio século] e onde foram prestadas à rainha as maiores homenagens.

Entretanto, em Roma, Augusto procedia aos casamentos e aos divórcios da "Família", segundo as suas conveniências políticas, concentrando nas suas mãos um poder quase absoluto, embora permitisse, e quisesse, que permanecesse a ficção da República. Françoise Chandernagor, que não morre de amores por Caio Octaviano César Augusto, Princeps e Imperator, considera-o um autêntico Padrinho, um corleone siciliano.

Voltando a Selene, os seus amores com Juba, inicialmente reservados mas agora transbordantes, geraram o primeiro filho, aliás uma filha, Théa, apesar da rainha desejar um varão. Mas logo se sucederem dois gémeos, agora varões, Hiempsal e Alexandre, e depois uma outra rapariga, Élissa. 

Mas a sorte não foi favorável a Selene. Tendo ido assistir a festividades a Cartago, a convite de Lucius Domitius, que era casado com sua meia-irmã Antonia Maior e fora nomeado pró-cônsul de África, Selene fez-se acompanhar apenas por Théa, deixando os outros três filhos ao marido. No regresso, foi informada que uma febre assolara Cesareia e que os seus filhos estavam mortos. O desgosto de Selene foi brutal, até porque pusera nos rapazes a esperança de prosseguirem a dinastia ptolemaica. E Théa, como rapariga, estava excluída, segundo as leis berberes, da sucessão ao trono.

A reconstituição histórica de lugares, costumes ou ambientes efectuada pela autora é notável e demonstra um particular conhecimento da época, fruto de muitos e variados estudos. As fontes sobre esta Mauritânia romana são muito mais escassas que sobre a Roma de Augusto. Logo, muito maior a necessidade de efabulação, que não sendo rigorosamente histórica proporciona uma agradável leitura.

Não me alongarei sobre este riquíssimo livro e encetarei de imediato a leitura do último volume da Tetralogia.

domingo, 14 de maio de 2023

LERMONTOV, UM HERÓI DO NOSSO TEMPO

Li agora (era uma lacuna) Un héros de notre temps, de Mikhail Yurievitch Lermontov (1814-1841), um notável escritor russo, uma espécie de continuador de Pushkin que, como este, morreu num duelo.

O romance foi escrito entre 1837 e 1839, no Cáucaso, onde o autor esteve duas vezes exilado. O herói do livro é Grigori Alexandrovitch Petchorine, uma figura tenebrosa e subversiva, reflexo irónico de uma geração perdida.

Enfant terrible da poesia russa, Lermontov é um herdeiro virtual de Pushkin, precoce e rebelde como ele. Foi, aliás, a publicação do seu poema "A morte de um Poeta", em que acusa os servidores do poder de serem responsáveis pela morte de Pushkin, que determinou o seu primeiro exílio no Cáucaso. 

Compõe-se a obra de cinco contos que podem ler-se de forma autónoma, sendo a estrutura do livro a seguinte: Primeira Parte: "Bèla" (I) - conto do viajante e história de Petchorine e Bèla; "Maxim Maximytch" (II);  "Prefácio ao Diário de Petchorine" (morte de Petchorine); "Taman" (I); Segunda Parte: "A princesa Mary" (II); Um fatalista (III). Os algarismos romanos remetem para a numeração dos contos na obra, à maneira dos capítulos de um romance.

O livro foi publicado em dois volumes em Abril de 1840. 

A acção passa-se na Tchechénia, na Geórgia, na Ossétia, na Abcásia. Na página 47, o autor coloca esta frase na boca do capitão Maxim Maximytch, referindo-se aos ossetos: «Um povo estúpido. Acredite-me, não sabem fazer nada, são incapazes da mínima instrução. Ao menos, os nossos cabardinos [grupo circassiano] e os nossos tchechenos podem muito bem ser uns bandidos, uns pés descalços, mas são mesmo assim obstinados, mas estes nem sequer têm gosto pelas armas: não verá qualquer deles com um punhal decente. Eles são realmente ossetos!». 

"Taman" decorre na localidade de Taman, no Cáucaso, em frente à Península da Crimeia, no estreito de Kerch. `É hoje bem conhecida porque é de Taman que parte a ponte que liga a região de Krasnodar à Crimeia e que foi mandada construir e inaugurada em 2018 por Vladimir Vladimirovitch Putin.

O poeta morreu em 15 de Julho de 1841, em Piatigorsk, no Cáucaso, na sequência de um duelo fútil com o seu antigo colega de liceu Nikolaï Martinov, que o provocara, devido às constantes zombarias de Lermontov. Ainda hoje se considera que a sua morte foi um assassinato (provocado por um terceiro), ou um suicídio, uma vez que há quem afirme que Lermontov nutria uma paixão pelo antigo camarada e não podendo declarar-se, preferiu ser morto por ele. 

Também na morte Lermontov imitou Pushkin, igualmente morto em duelo quatro anos antes, por Georges Dantès, filho adoptivo (e amante) do embaixador dos Países Baixos em São Petersburgo, e também por uma questão fútil, desta vez de saias. Neste caso, Pushkin desafiou Dantès para o duelo, que este até tentou evitar, já que era seu cunhado (Dantès era bissexual), mas Pushkin (sabendo dos boatos que corriam sobre uma ligação daquele com sua mulher) insistiu... e morreu.

Não cabe aqui analisar o livro de Lermontov, que mais do que uma (ou várias) história(s), procede à análise das personagens envolvidas. A sua morte precoce, aos 26 anos, não permitiu evidenciar a grande capacidade criativa, que teria reflexos na literatura russa posterior.


sexta-feira, 12 de maio de 2023

AS SENHORAS DE ROMA

Li agora Les dames de Rome (2012), II volume da Tetralogia de Françoise Chandernagor La reine oubliée.

As "Senhoras" de Roma são as damas de elevada condição da sociedade romana que gravitavam na capital do Império em torno de Octávia Júlia Thurino, irmã de Octávio César Augusto, entre as quais Lívia, a mulher do próprio imperador ou Pompónia, mulher de Marcus Agrippa.

Recordemos que os filhos de Cleópatra VII, Alexandre Hélios, Cleópatra Selene e Ptolemeu Filadelfo foram enviados para Roma, na sequência do suicídio da mãe, a fim de figurarem no terceiro desfile do Triunfo de Octávio, celebrando a vitória sobre Marco António e a conquista do Egipto (15 de Agosto de 29 AC).

As crianças (Ptolemeu Filadelfo morreria a seguir ao desfile) ficaram à guarda de Octávia, que, não podendo abrigar na sua nova casa a colecção de arte que possuía na casa que fora de Marco António, "coleccionava" agora crianças, os seus filhos e os filhos dos seus parentes. Exemplifiquemos: habitavam em casa de Octávia os filhos do seu anterior casamento com Cláudio Marcelo (Marcelo, que Augusto adoptaria como filho, Cláudia Marcela Maior e Cláudia Marcela Menor); os filhos do seu casamento com Marco António (Antónia Maior e Antónia Menor); o filho do casamento de Marco António com Fúlvia  (Iullus; o outro filho, Antyllus, tinha sido mandado assassinar por Octávio ainda em Alexandria); Júlia, a Velha (a filha de Octávio, do seu primeiro casamento com Escribónia); Vipsânia (filha única de Marcus Agrippa); Lucius Domitius Ahenobarbus (filho de Domitius Ahenobarbus e de uma parente do trúnviro Lépido), que viria a casar com Antónia Maior, filha de Octávia; os filhos do primeiro casamento de Lívia Drusila, agora mulher de Octávio, com Tibério Cláudio Nero (o futuro imperador Tibério, adoptado por Octávio, e Nero Cláudio Druso) e, a partir de 29 AC, os filhos de Cleópatra e Marco António (Alexandre Hélios e Cleópatra Selene), além de ainda mais alguns parentes chegados.

Octávia, nesta altura a Domina de Roma, afeiçoava-se extraordinariamente às crianças, apesar de ter de cuidar dos bens pessoais da família, agora que o seu irmão Octávio se tornara imperador. Note-se que a designação latina de Imperator já fora usada por Júlio César e também António a usara. Octávio viria a ser também César, Princeps, o primeiro dos seus pares senadores, e, por fim, Augusto (o Divino), por proclamação do Senado Romano, além de sucessivamente Cônsul até morrer. Por isso, foi considerado o primeiro imperador de Roma. O seu nome próprio (tal como o de Júlio César) era Gaius (ou Caius). E sendo Octávio o nome da família, Octávio passou a designar-se Octaviano.

Os Octavii não faziam parte das principais famílias aristocráticas, embora tentassem "enobrecer-se" com o passar do tempo. Grandes famílias eram os Iullii, os Claudius, os Marcelli, os Antonii, os Lepidii, os Domitii, que partilhavam o poder, e o dinheiro, em Roma.

Em certa altura, Nicolau de Damasco, antigo preceptor dos filhos de Cleópatra que se passara para o lado de Octávio, trouxe para Roma Alexandre e Aristóbulo, filhos do rei Herodes da Judeia e de sua segunda mulher Mariamne, que este mandara executar dois anos mais cedo por adultério. Herodes entregou os dois rapazes, de uma dúzia de anos, à protecção de Octávio, como penhor de fidelidade. É claro que vieram engrossar o lote de crianças residentes em casa de Octávia, onde em breve se lhes juntou, também, o jovem Tigrane, filho do novo rei da Arménia.

Alexandre Hélios morreria pouco depois do irmão Ptolemeu Filadelfo. Uma morte quase súbita. O rapazinho queixou-se de ter sido envenenado mas nada se provou a tal respeito. Octávia desconfiou de feitiçaria (!) e mandou matar a velha ama que viera de Alexandria com as crianças. Agora só restava Selene.

No livro, Françoise Chandernagor procede a uma interessante descrição da vida quotidiana das famílias romanas e das idossincrasias de Octávio, um ser que ela resolutamente detesta (e com razão) e que disfarçava a sua crueldade sob a capa da "clemência de Augusto", virtude que realmente não exerceu.   Na verdade, o imperador viveu sempre aterrorizado pela possibilidade de ser assassinado, como acontecera a seu tio-avô e pai adoptivo, Júlio César. Ao longo do texto, tal como no volume anterior, a autora disseca psicologicamente a figura de Augusto, nas suas hesitações e contradicções, e mostra como, embora mantendo as instituições da República, o seu progressivo aumento de poder o tornou no autêntico senhor de Roma, levando os historiadores a considerá-lo o primeiro imperador romano.

A propósito do riquíssimo Caio Mecenas, amigo e protector dos poetas e dos artistas (Horácio, Vergílio, Propércio), e também amigo de jovens (entre os seus amantes conta-se o célebre Bathyllus, mimo de Alexandria que foi seu escravo e depois liberto) e que serviu como "ministro" da Cultura de Augusto, de quem era muito próximo, e também responsável dos serviços secretos do imperador, refere a autora: «Il y a bien des avantages à ce que le chef de la police soit en même temps ministre de la culture. La censure devient critique de connaisseur, la propagande, "art responsable"...» (p. 252)

Não constitui surpresa para alguém que Augusto se serviu dos poetas para dourarem a sua imagem. E alguns destes, ainda que inicialmente resistentes, acabaram por se deixar seduzir ou intimidar pelo imperador. Escreve Chandernagor: «Un écrivain rampant, voilà ce qu'est devenu Properce. Nous aussi, nous connaissons ces métamorphoses - quand, pour séduire un Staline, un Mao, le prince des poètes devient crapaud... Mais en ces temps lointains, c'était neuf. Rendons à Auguste ce qui est de Auguste: en politique il a tout inventé, y compris l'embrigadement des plumitifs. Properce y perdu sont talent, puis sa vie.» (pp. 253-4)

Octávio Augusto empenhou-se em promover casamentos no seio da própria família. Assim, determinou que Marcelo, filho de sua irmã Octávia, desposasse Júlia, sua filha do primeiro matrimónio. Tornado genro e sobrinho do imperador, a Marcelo estava prometido um futuro auspicioso. Mas quis o destino que Marcelo morresse quase subitamente de uma febre, quando se encontrava em Baiae, na Campânia, apenas com 19 anos, pouco tempo depois do imperador ter sobrevivido também a uma estranha febre. Marcelo foi a primeira pessoa a ser sepultada no Mausoléu, ainda inacabado, destinado a Augusto. Octávio seguiu o féretro de cabeça baixa. Para ele, mais do que um desgosto familiar era uma catástrofe política. «Malgré son désarroi, il parvient à accélérer, car il ne doit pas se laisser rattraper. Pour le bon ordre de la cérémonie, L'ordre du monde. L'Ordre.» (p. 312)

«Cet enterrement de Marcellus, si singulier à nos yeux, je n'ai jamais pu le revoir sans entendre en même temps la musique que Purcell composa pour les funerailles de la reine Mary: l'appel solemnel des trompettes, le roulement sourd des timbales. Une marche lente, ponctuée de martèlements de plus en plus violents, un ligne mélodique simple, soutenue d'un crescendo propre à inspirer terreur et respect.» (p. 316)

Sobre Augusto: «Car il a toujours eu conscience de vivre derrière un masque. De parler du haut d'une scène. Il a toujours su que son métier était de feindre pour représenter. De tromper son public pour le dominer. S'il paraît si grand, c'est qu'on l'a juché sur des cothurnes. Et chaque nuit il fait le même cauchemar. Il rêve qu'à l'instant de jouer son rôle, lui le gringalet, le souffreteux, reste sans voix. La foule rougit, mais son dompteur n'a plus de fouet, son dompteur est aphone... "Si la comédie vous a plu, applaudissez."» (p. 341)

A autora prossegue com a descrição do ambiente em Roma, das intrigas, do luto de Octávia, que começa a desconfiar que o seu filho Marcelo foi envenenado. E suspeita de Lívia e das suas ambições quanto ao futuro dos seus filhos. Encontrando-se agora viúva a filha de Augusto, Júlia, Octávia imagina que Lívia a pretenda casar com seu filho Tibério e, numa jogada de antecipação, sugere a Augusto que case a filha com Agrippa, embora este seja casado com Marcela, a sua própria filha. O imperador aceita e Agrippa repudia Marcela para casar com Júlia. Entretanto é arranjado o casamento de Marcela com Iullus.

Através das pontuais aparições de Selene no romance, quase sempre de ficção já que sobre ela não há nesta época praticamente qualquer registo histórico, a autora compraz-se em descrever os jogos de poder e as preocupações quotidianas. E discorre sobre os enfants délicieux que povoavam as casas dos notáveis romanos.

«Dans sa jeunesse donc, Auguste, malgré son prétendu coup de foudre pour Livie, avait eu des maîtresses. Mais ensuite? Il eut, en tout temps, des enfants délicieux: c'était une question de standing. Les enfants qu'il achetait, le maître du monde les préférait maures ou syriens, dit-on. Sans doute échangeait-il avec eux quelques caresses et de long baisers "sur la bouche": un homme incapable d'apprécier sensuellement la peau des enfants, leur haleine parfumée et le doux toucher de leurs petites mains serait passait, en ce temps-là, pour un rustaud. Mais qui disait sensualité ne disait pas forcément sexualité: Auguste jouait avec ses enfants délicieux, il ne les violait pas.

Son goût, de toute façon, ne le portait pas vers les garçons. En revanche, comme "l'empereur" Mao, il aimait dépuceler les fillettes - fillettes au sens ancien du terme, c'est-à-dire, selon le Grand Robert, "jeunes filles peu formées", préadolescentes. À propos d'Auguste, les historiens latins parlent en effet de puellae, et non de puellulae. Des "nymphettes", aurait dit Nabokov. Une fille romaine étant considérée comme nubile à douze ans (et souvent fiançée et "consommée " avant cet âge), on peut penser que les petites esclaves ou, horresco referens, les "fillettes" libres que se faisait livrer le Prince avec la complicité de Livie avaient entre dix et quatorze ans. Peut-être un peu moins... Il est vrai que, pour un Romain, l'âge ne faisait rien à l'affaire. L'atteinte à la virginité était déjà plus transgressive. Mais la perversion ultime consistait à mépriser les statuts juridiques - une hiérarchie sexuellement codifiée que traduit bien un mot d'esprit qui, paraît-il, enchanta Auguste: "Prêter son cul est une infamie pour l'homme libre, un devoir pour l'esclave, et une politesse pour l'affranchi..."» (pp. 424-4)

Entre casamentos, divórcios, recasamentos, Octávia, que depois da morte do filho e o êxodo das "crianças" agora já casadas, vivia quase em clausura, tendo mesmo deixado de receber os poetas e os aristocratas da cidade, decidiu jogar uma última cartada. Restava-lhe Selene, que não pensava em casar, atendendo à damnatio memoriae que caíra sobre os pais. Pois bem, a irmã de Octávio convenceu o imperador a autorizar o casamento de Selene com o ainda jovem Juba, filha do rei Juba I da Mauritânia, que Júlio César trouxera para Roma em miúdo e entregara aos cuidados da sua família. Assim, imprevisivelmente, Cleópatra Selene veio a tornar-se, pelo casamento com Juba II, agora colocado no trono da Mauritânia e Numídia, uma rainha, não com o prestígio da sua mãe, mas mesmo assim rainha.  A linhagem dos Ptolemeus iria continuar.

O casamento de Selene (então com 20 anos) com Juba (então com 29 anos) teve lugar em 19 AC. Juba II era um homem muito letrado, que seguira em Roma uma educação clássica sob a supervisão de Júlio César e depois do seu assassinato, da familia deste. 

Importa referir que a Mauritânia romana nada tem a ver com a actual República da Mauritânia. Aquela situava-se no território sensivelmente correspondente ao norte da Argélia actual. Quando morreu, Selene foi sepultada no Mausoléu Real da Mauritânia, em Tipasa, próximo de Argel. Mas os próximos acontecimentos da vida de Selene serão tratados nos restantes dois volumes da tetralogia de Françoise Chandernagor. 

Não se tendo tornado uma figura da História Universal, como sua mãe Cleópatra VII, mesmo assim, Cleópatra Selene não ficará como reine oubliée: para a sua recordação este contributo de Françoise Chandernagor é uma peça importante!


sexta-feira, 5 de maio de 2023

A HOMOSSEXUALIDADE DE FERNANDO PESSOA

Com o auditório repleto, foi hoje (aliás ontem, atendendo à hora a que escrevo) apresentado, na Casa Fernando Pessoa, o livro A Homossexualidade de Fernando Pessoa, de Victor Correia, que se tem dedicado a estudar este aspecto da vida do Poeta.

A obra foi apresentada pelo prof. Helder Bértolo e pelo escritor Fernando Dacosta, com uma intervenção final do autor, que sustenta a tese de que Fernando Pessoa teria sido homossexual, no que foi acompanhado pelos restantes membros da mesa.

Aliás, as grandes biografias pessoanas apontam nesse sentido. A mais antiga, a de João Gaspar Simões (1950), que ainda conheci pessoalmente, não valoriza esse aspecto, mas em contactos que tive com ele, nos anos 80, deixou-me entender que admitia que fosse essa a inclinação do Poeta. Também a biografia escrita por António Quadros (1981 e 1984) permite entrever essa possibilidade. Tendo sido amigo pessoal de António Quadros, abordei uma vez o tema, em conversa com ele, inferindo que, ainda que o assunto não lhe interessasse especialmente, pensava que Pessoa se tinha sempre sentido mais perto dos homens do que das mulheres. A última grande biografia publicada, a de Richard Zenith (2022) aponta nitidamente nesse sentido.

A obra de Fernando Pessoa (ortónimo ou heterónimo) fornece-nos todas as pistas para detectar uma inclinação homoerótica, em alguns casos bem explícita. Também a vida de Pessoa, ainda que até ao momento não se tenham descoberto quaisquer testemunhos de ligação física, convida-nos a pensar que o seu perfil se identifica com o de um homossexual. Os seus amigos mais chegados, Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Raul Leal, eram homossexuais, exibindo nas suas obras a exaltação do amor masculino.

Creio poder afirmar-se hoje, sem margem de erro, atendendo a tudo o que se conhece da vida e da obra de Fernando Pessoa, que ele foi um ente homossexual, pelo menos em espírito. Quanto a relações físicas nada se sabe  e talvez nunca alguma coisa se venha a saber. Convém não esquecer, contudo, que Pessoa era extremamente reservado quanto à sua vida privada, a que não tinham acesso nem os seus amigos mais íntimos. O Poeta viveu larga parte da sua vida em quartos alugados, alguns dos quais com porta independente. Nunca ele permitiu que algum amigo o visitasse. Mas ignoramos se levava alguém a sua casa. Nada mais fácil, naquele tempo e mesmo no nosso, até há uns vinte ou trinta anos, do que convidar um jovem empregado de restaurante ou café (e Pessoa conhecia bem os cafés de Lisboa) para uma rápida incursão nocturna. Praticamente ninguém recusava, nem que fosse a troco de parca quantia. Ainda não existiam as redes sociais e os sites de relacionamento sexual também não tinham sido inventados. E Lisboa, como Raul Brandão escreveu mas suas Memórias, foi sempre «como Nápoles» uma cidade especialmente vocacionada para esse género de actividades. Vinham longe os tempos actuais de puritanismo hipócrita, falsos assédios e discutíveis violações. E ninguém se lembrava de perguntar pela data de nascimento no bilhete de identidade (também não havia cartão de cidadão) antes de convidar alguém para a cama. 

Poderia suscitar-se a velha questão, que opôs Proust a Sainte-Beuve, quanto à relação do homem com a obra. Eu estou com Sainte-Beuve e entendo que a tese de Proust não passou de um álibi para si mesmo. 

Poderia continuar a discorrer sobre a sexualidade de Fernando Pessoa, mas é preferível que os interessados leiam a sua obra e estudem a sua vida.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

AS CRIANÇAS DE ALEXANDRIA

Li agora, tinha-o comprado aquando da sua publicação, Les enfants d'Alexandrie (2011), de Françoise Chandernagor, I volume da Tetralogia La reine oubliée, que a autora dedicou aos filhos de Cleópatra VII, e cujos volumes seguintes foram: II - Les dames de Rome (2012); III - L'homme de Césarée (2020); IV - Le Jardin des Cendres (2022).

As "crianças de Alexandria" são, pois, os filhos de Cleópatra VII Filopátor (69-30 AC), a saber: Ptolemeu XV Césarion (47-30 AC), fruto da sua ligação com Júlio César (100-44 AC); os gémeos Alexandre Hélios (40-29 AC) e Cleópatra Selene II (40-6 AC) e Ptolemeu Filadelfo (36-29 AC), os três fruto da sua ligação com Marco António (83-30 AC). 

A "rainha esquecida" é Cleópatra Selene II, a única que chegou à idade adulta, tendo casado com Juba II, rei da Numídia e de Cesareia (Mauritânia Romana). Ptolemeu XV Césarion foi mandado assassinar por Octávio César Augusto (não lhe convinha um filho de Júlio César vivo). Alexandre Hélios e Ptolemeu Filadelfo foram levados por Octávio para Roma, tendo sido perdido o seu rasto (é suposto terem morrido entre 29 e 25 AC).

A narrativa de Françoise Chandernagor é brilhante. A autora explica em 'Note de l'Auteur' a forma como concebeu a estória. Ela assenta nas fontes históricas existentes (e manifestamente insuficientes quando se trata dos filhos de Cleópatra), que constituem a estrutura do romance. Os hiatos são colmatados pela criação ficcional, que tenta imaginar, com a proximidade possível, o que teria sido a realidade. Não sendo propriamente um romance histórico, o livro é um romance profundamente alicerçado na história. Essas explicações, que tratam dos nomes das personagens e dos lugares, e dos costumes, começam por aludir à grande obra de referência do género, as Mémoires d'Hadrien, de Marguerite Yourcenar. Lembro-me, a propósito, de outros clássicos semelhantes, os livros de Mary Renault, sobre Alexandre Magno, ou de Gore Vidal, sobre Juliano.

É justo reconhecer e enaltecer a grande erudição de Françoise Chandernagor, que lhe permite referências exactas à História Romana e do Egipto Ptolemaico e, simultaneamente, pertinentes alusões ao presente, um exercício difícil mas coroado de êxito.

Conta-se a vida quotidiana das crianças em Alexandria, mais tarde acompanhadas de Antyllus, filho de Marco António e de Fúlvia, e de Iotapa, filha do rei Artavasdes, da Média Atropatene, até à célebre batalha naval de 2 de Setembro de 31 AC, em que Octávio derrota (ou obriga a fugir) António.

Depois da batalha de Actium (ao sul de Corfu), a autora imagina um diálogo entre o fantasma de Júlio César e Marco António, e que termina por uma alusão a Cleópatra, ambos navegando no navio almirante da esquadra derrotada: «Baise-la, Marc Antoine, c'est la seule chose que tu fasses mieux que moi, ne l'en prive pas; baise-la» (p. 213).

Transcrevo das páginas 215/6: «Mais peut-être lui, jusque dans les moments d'égarement, continue-t-il à dialoguer avec César? Cette femme qu'ils ont tous les deux possédés, Antoine, ce soir, prend plaisir à la contraindre, à l'humilier: le corps de Cléopâtre est son seul empire désormais - trop petite pour être partagé! Vaincu, il veut vaincre - obliger la Reine à avouer qu'avec César elle n'a jamis joui, qu'il baisait maigre, comme un prêtre végétarien, l'un de ces dévots d'Isis qui sentent le navet: "Et ça, il te le faisait, ton amant, dis? Is savait, ton grand homme, que tu es une salope? Une pute, qu'il faut baiser  en pute!" Le bateau craque de toutes ses membrures sous les paquets de mer. Les dieux interdisent de s'aimer sur un navire en marche, mais elle veut qu'il oublie. Et elle dit "mon maître", dit "encore", dit "seulement toi"...»

«Pour la sexualité, les Anciens sont "modernes". Rien moins que puritains. La position du missionaire, très peux pour eux! Ce qui n'empêche pas qu'ils aient, comme un chacun, leurs dégoûts et leurs tabous. Différents des nôtres: rien de plus ordinaire à leurs yeux que la bisexualité, une notion qui n'a même pas de sens pour un Romain -"on baise, ou quoi?"; et rien de plus banal, de plus charmant, que la pédophilie: tous les partenaires sont permis pourvu qu'on garde un rôle "actif"; mais pas question, entre amants convenables, de s'ébattre en pleine lumière (on éteint la lampe), ni de confondre le haut avec le bas - dans la gymnastique amoureuse, le haut ne comunique qu'avec le haut, et le bas qu'avec le bas. Chez un "homme libre" et une femme respectable, la pureté des lèvres, la propreté de la langue sont sacrées. Fellatio? Cunnilinctus? C'est du latin, d'accord, comme Irrumo ("je t'en mets plein la bouche"), mais ce sont des insultes. Sauf quand on s'adresse à des esclaves. Ou à des courtisanes.»

Uma das coisas que muito indignou Marco António foi a violação do seu testamento, depositado à guarda das Vestais, antes da sua segunda campanha na Arménia. Octávio cometeu um acto sem precedentes, ilegal e sacrílego: ameaçar a Grande Vestal para que esta lhe entregasse o testamento de um homem vivo! Era, nesse tempo, mais chocante de que violar uma sepultura (p. 225). Pois Octávio quebrou os selos e leu partes do testamento no Senado, ocultando a data. O documento repartia os reinos (do Oriente) pelos filhos de Cleópatra e confirmava a filiação de Césarion. Como as chamadas Doações de Alexandria não tinham sido ratificadas pelo Senado, António parecia confirmá-las para desafiar o povo romano. Chegou-se ao ponto de pretender que, qual pai indigno, havia deserdado as filhas nascidas de Octávia. 

Octávio César Augusto, que todos veneramos, que foi o primeiro imperador de Roma, o artífice da Pax Romana e que transformou o Mediterrâneo no Mare Nostrum, é realmente (mesmo para os padrões da época) um carácter mesquinho, vingativo, ambicioso, cruel, calculista, puritano, dissimulado. Os grandes homens têm defeitos (por vezes grandes) mas Octávio exagerou e foi muito diferente de seu tio-avô e pai adoptivo, Júlio César.

«Un personnage de théâtre: depuis que, par Séléné, j'ai découvert Marc Antoine, je le vois comme un héros shakespearien - Shakespeare n'a-t-il fait de lui le protagoniste de deux tragédies? L'une où rayonne l'Antoine juvénil, orateur superbe et conquérant, force de la nature et soleil invancu; l'autre où s'éteint le vaincu d'Actium, l'homme humilié des dernières années dont le regard s'embue de tristesse et d'álcool. Personne, cependant, n'a la moindre idée du physique d'Antoine: Octave a détruit ses portraits... On sait juste qu'il fut d'une "éclatante beauté". À vingt ans, pareille beauté vaut titres; à quarante, la vie exige bien d'autres garanties pour consolider le crédit» (p. 244).

Les enfants d'Alexandrie é um romance sobre os filhos de Cleópatra. Mas é também um romance sobre Cleópatra e sobre Marco António. E sobre Octávio. Françoise Chandernagor não esconde a sua antipatia por Octávio e exprime-a sempre que a oportunidade surge. Octávio, que ficou para a História pelo seu génio político, é uma figura humanamente pouco recomendável. Quanto a Cleópatra, a posição de Chandernagor é mais equilibrada, apontando-lhe as supostas qualidades e defeitos. Mas quem a autora verdadeiramente aprecia é Marco António, cujas virtudes, a par de menores vícios, se compraz em exaltar. E eu estou de acordo com ela. António é um ser humano, talvez demasiado humano, e merece por isso a minha simpatia. Belo, culto, valente, amante dos prazeres da vida, generoso e solidário, foi o oposto de Octávio. Creio, mas posso estar errado, que o grande Júlio César (que poderia ter sido historicamente o primeiro imperador de Roma) se situa entre Octávio César Augusto e Marco António. 

* * * * *

Mas António foi abandonado pelos deuses e perdeu Alexandria e tudo o mais. Não resisto em publicar aqui, a propósito, o célebre poema de Constantin P. Cavafy, o eterno Poeta da cidade:

 

O deus abandona António

 

Quando, subitamente, à meia-noite,

ouvires passar um cortejo invisível,

com música deliciosa, com vozes –

não lamentes a tua sorte, agora vacilante,

as tuas obras que fracassaram, os teus projectos de vida

que se revelaram um equívoco, não os lamentes em vão.

Como homem há muito preparado, como homem cheio de coragem,

diz o teu último adeus à Alexandria, que se afasta.

Acima de tudo, não te iludas, não digas

que foi um sonho, ou que os teus ouvidos te enganaram;

não te humilhes a esperanças tão vagas.

Como homem há muito preparado, como homem cheio de coragem,

como convém a quem foi digno de uma tal cidade,

aproxima-te resolutamente da janela,

e escuta, com emoção, mas não

com as lamentações e as súplicas dos covardes,

escuta, é o teu último prazer, os sons

da música deliciosa desse estranho cortejo,

e diz o teu último adeus à Alexandria que perdes.

 

(Tradução minha a partir do original grego e das versões portuguesas, francesas e inglesas) 

 

* * * * *

O livro termina com o ataque de Octávio ao Egipto e o suicídio de Marco António e de Cleópatra. A descrição não corresponderá exactamente à verdade histórica, mas também não conhecemos os detalhes do que verdadeiramente ocorreu em Alexandria. Ptolemeu XV Césarion fugira para sul do país, por decisão de Cleópatra, mas sabemos que posteriormente regressou à cidade e foi mandado assassinar por Octávio. Alexandre Hélios, Selene e Ptolemeu Filadelfo foram enviados para Roma para serem incorporados no desfile do Triunfo de Octávio. Antyllus foi também mandado assassinar por Octávio ainda em Alexandria. Iotapa, devolvida à sua família. De Alexandre Hélios e de Ptolemeu Filadelfo, cujo rasto se perdeu, supõe-se que terão morrido pouco tempo depois. Quanto a Selene, a autora dedica-lhe os três seguintes volumes da obra.

As notas que Françoise Chandernagor inclui no fim deste I volume revelam profunda ilustração, fornecem preciosas indicações, especialmente para quem não esteja familiarizado com o tema, e contribuem para uma ampla compreensão da forma como a autora imaginou e escreveu a obra.

Logo que possível, lerei os restantes volumes que compõem a Tetralogia. Nunca tinha lido Chandernagor. Não perdi o meu tempo.


sábado, 15 de abril de 2023

OS OTOMANOS

Por sugestão de um amigo, comprei e li o livro Os Otomanos - Cãs, Césares e Califas, de Marc David Bauer, no original The Ottomans - Khans, Caesars, and Caliphs.

A narrativa apresenta-se desorganizada e confusa, o que alonga o livro para mais de 500 extensas páginas. Falta de sistematização, informação desnecessária e repetitiva, mistura de acontecimentos, incorrecção dos factos, de tudo isto sofre a narrativa. Superficialmente detectei vários erros, alguns dos quais anotei. Mas é possível que existam muitos mais, que não procurei confirmar.

Na pág. 142, o autor escreve que Solimão I «foi o primeiro sultão a denominar-se califa». Não é verdade. O primeiro sultão que se tornou califa foi o pai deste Selim I, após a conquista do Egipto em 1517. Mais adiante (pág. 149) escreve que «Selim I não se proclamou califa. Transferiu Al-Mutawakkil, o califa descendente dos membros da dinastia abássida que tinham sobrevivido ao saque de Bagdade pelos mongóis e que se haviam refugiado junto dos mamelucos, do  Cairo para Istambul». É verdade que após a conquista do Egipto, Selim I levou para Istanbul o último califa abássida, Al-Mutawakkil III, mas este transferiu para Selim I a dignidade califal, até porque as relíquias do Profeta Muhammad já tinham sido levadas de Meca e de Medina para a capital otomana.

Na pág, 161, o autor escreve: «Carlos V estava mais concentrado em conquistar a península italiana do que em solucionar a disputa interna na Alemanha, e o seu filho Fernando, que pôs à frente da Alemanha...». Ora Fernando não era filho de Carlos V, mas irmão, e só ficou à frente da Alemanha depois da abdicação de Carlos Quinto (1556), quando foi proclamado imperador do Santo Império Romano Germânico, pela Dieta Imperial em 1558).

Na pág. 190, o autor escreve: «Em vez de seguir a rota direta através do Mediterrâneo e mar Vermelho e depois cruzar o oceano Índico até à costa de Malabar, na Índia, Vasco da Gama desceu ao longo da costa ocidental de África, contornou o cabo e em seguida subiu pela costa leste, em 1497, porque os otomanos e o Império Mameluco no Egito controlavam o comércio no Mediterrâneo Oriental». Não existindo à data o Canal de Suez, pergunta-se como poderia Vasco da Gama ter efectuado o percurso sugerido pelo autor?

Há, todavia, um aspecto que transforma o livro numa calamidade: a tradução. Não li o original inglês mas não é necessário para mergulhar num pântano de disparates. Não é só a tradução geral que é medíocre, a tradução dos nomes próprios chega a ser ininteligível, porque não respeita qualquer regra de uniformidade. E na transliteração de nomes árabes, os ingleses até costumam ser melhores do que os franceses, por isso admito que o original esteja de acordo com as regras. Ninguém deveria traduzir livros com nomes árabes ou turcos (até Atatürk os turcos utilizavam o alfabeto árabe) sem possuir umas noções elementares de árabe.

Eis alguns exemplos: 

- Hádice em vez de hadith

- Gidá em vez de Jeddah

- Mocha em vez de Mokha 

- Mádi em vez de Mahdi

- Hayreddin em vez de Khair ed Din

- Gazi em vez de Ghazi 

E muitos mais, inumeráveis.

Na página 82, está escrito: «Numa escaramuça, a infantaria otomana abateu o cavalo de João Hunyadi, que se desmoronou debaixo dele..». Não é usual um cavalo desmoronar-se.

Na página 210, diz-se que harém significa lar. Verdadeiramente, harém significa o que é proibido, ao contrário de halal que significa o que é permitido. Na sua significação corrente usa-se para indicar o lugar reservado às mulheres do sultão no seu palácio, um local por natureza proibido, mas não é propriamente um lar.

Há muitos outros disparates que não anotei.

Existe, todavia, um aspecto enfatizado pelo autor ao longo de todo o livro, e ao qual dedica mesmo um capítulo especial: a Pederastia. Sabemos todos que as relações homossexuais masculinas foram hábito corrente e normal entre os turcos durante todo o Império Otomano e mesmo depois, embora desde há mais de um século, devido aos complexos ocidentais, os turcos se empenhem em omitir este facto ou a desvalorizá-lo. Essas relações eram mantidas entre homens em geral, mas mais particularmente entre homens e rapazes. Nunca ninguém pensou que pudessem ser classificadas de crime ou pecado. Se alguém o dissesse aos turcos, ou até aos árabes, receberia de resposta uma expressão de espanto e um sorriso compadecido.

Os turcos não chegaram ao refinamento dos antigo gregos, que fizeram praticamente da pederastia uma instituição, mas eram extraordinariamente receptivos à prática, apesar de algumas equívocas condenações no Corão, decorrentes dos textos da Torah e da Bíblia judaica, aliás os mesmos livros. A pederastia turco era menos codificada, e por isso mais livre, do que a pederastia grega, assemelhando-se mais à romana e à que teve grande expressão na Europa durante o Renascimento, em especial no Renascimento italiano.

Mas Marc David Baer empenha-se em recordar-nos alguns episódios historicamente documentados, para lá de descrever o clima reinante, quer no Palácio Imperial, quer entre os cidadãos comuns.

O capítulo em questão começa por incluir um poema de Maomé II (Mehemet II) dedicado a um seu jovem amante cristão. «Os poetas que eram atraídos por mulheres em vez de rapazes eram descritos como estranhos» (p. 237). As cidades que possuíam os rapazes mais belos eram, segundo o autor, Belgrado, Bursa, Edirne, Istanbul e Rize. 

Na zona de Gálata, do outro lado do Corno de Ouro (a parte genovesa da cidade) havia então um bairro onde nas suas tabernas os turcos se deleitavam com rapazes cristãos seus amantes.

Havia também mulheres que amavam mulheres, embora isso fosse inconcebível para a maioria dos homens otomanos. No teatro de sombras otomano, possivelmente trazido do Egipto para Istanbul por Selim I, eram representadas peças libidinosas, nas quais ninguém tentava conservar a virtude ou lutar contra as tentações de Satanás. 

O historiador otomano Mustafa Ali (século XVI) «apresentou uma etnografia sexual de rapazes de diferentes nações. Olhando com sobranceria para os orientais (árabes e turcos), o escritor de origem bósnia louvou "os rapazes escravos, altos e de lábios grossos, da Bósnia [que] estão sempre recetivos para o serviço". Os curdos imberbes eram "irrepreensíveis e obrigados a ser afáveis e muitíssimo obedientes em tudo o que lhes seja proposto" e tingiam-se "no baixo-ventre com hena". Aqueles que desejavam a "célebre beleza do rosto e queriam fervorosamente ser servidos por ciprestes de corpo argênteo, de estatura elevada e movimentos elegantes" voltavam-se para os bailarinos do Sudeste da Europa, ou os circassianos, ou os "croatas almiscarados e deleitáveis saídos dos janízaros". Os albaneses roubavam o coração aos seus amantes, mas eram "impertinentes e obstinados". Os georgianos e russos também estavam disponíveis para "prazeres eróticos". (p. 242)

 

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Independentemente da tradução e para lá de uma narrativa quiçá desorganizada e com algumas incorrecções, o livro dá-nos uma perspectiva da importante posição do Império Otomano na Idade Moderna (que começou, segundo os historiadores, com a tomada de Constantinopla, em 1453) e na Idade Contemporânea. O Império foi um poderoso estado euro-asiático e contribuiu em muitos aspectos para a modernidade. Como potência muçulmana, foi muito mais tolerante com as outras religiões do que a Europa cristã, acolhendo geralmente bem os judeus, que para lá emigraram depois da expulsão de Espanha e de Portugal. Ao longo de cinco séculos, o Império Otomano foi uma realidade incontornável numa Europa católica, ortodoxa e protestante. O sultão, e também califa, pretendeu desde muito cedo tornar-se césar (afinal, era o "sucessor" do imperador bizantino) e conquistar Roma (e talvez encarnar o Papado (?). Mas a ambição da Sublime Porta, a designação habitual do Governo otomano, foi travada às portas de Viena. Diga-se, de passagem, que a Sublime Porta (ela mesma, a porta, Bab i-Ali) ainda existe. Era a porta que dava entrada para o palácio do Grão-Vizir, nas proximidades do palácio de Topkapi. Tenho uma fotografia minha à entrada. Também podemos considerar que se registou um Renascimento naquela extremidade da Europa que, ao contrário das versões que circulam entre nós, era extraordinariamente culta. A nota negativa vai mais no sentido da crueldade muitas vezes verificada em circunstâncias injustificadas, se é que alguma vez ela se justifica. Especialmente, o hábito dos sultões, quando subiam ao trono, mandarem matar todos os irmãos (e às vezes tios e primos) para evitar disputas da sucessão. Mas o Ocidente, naqueles séculos, não era também muito clemente. E foi no Império Otomano (aliás, logo a seguir à sua queda e à proclamação da República da Turquia) que se operou a mais notável modificação de escrita do último século, quando Mustafa Kemal Atatürk decidiu substituir o alfabeto árabe que era utilizado pela língua turca pelo alfabeto latino.

Os últimos tempos do Império encontram-se bem documentados ainda que a descrição, como habitualmente, seja emaranhada. O livro dedica largo espaço ao extermínio dos arménios, ensaiando explicações para o sucedido, um acontecimento estranho no Império que, ao longo dos séculos, e salvo situações pontuais, se empenhara, de uma maneira geral, na convivência dos seus súbditos, independentemente de raça, língua ou religião. Conclui Marc David Baer que tal se ficou a dever à simultaneidade de um conjunto de circunstâncias, no decorrer da Primeira Guerra Mundial. Na sequência desta, e da ocupação da Turquia pelos exércitos ocidentais, Mustafa Kemal organizou o restante das forças turcas, promoveu a constituição da Grande Assembleia Nacional, que viria a determinar a extinção do Sultanato, em 1922 e a abolição do Califado, em 1924. Em 1923, foi proclamada em Ancara a República Turca, secular e ocidentalizada. O Estado Otomano tinha acabado.