sexta-feira, 16 de agosto de 2019
SALÓNICA XXII - MESQUITA DE HAMZA BEY
A Mesquita de Hamza Bey situa-se na Via Egnatia, próximo do cruzamento com a rua Venizelos. Foi mandada construir em 1467/8 por Hafsa Hatun, filha de Hamza Bey. É a mais antiga mesquita de Salónica. Danificada por terramotos e incêndios, foi renovada em 1619, ano em que foi retirada da entrada a inscrição da sua dedicatória.
Quando cessou a ocupação de Salónica pelo Império Otomano, a mesquita deixou de funcionar como edifício religioso e tornou-se propriedade do Banco Nacional da Grécia, servindo então para alojar diversos serviços militares.
Declarada monumento protegido em 1926, foi vendida a privados em 1928, tendo servido como centro comercial e cinema (o Alkazar), sofrendo profundas modificações.
Em 2006, foi entregue ao Ministério da Cultura, que iniciou trabalhos de restauro que duram até hoje. Um dos problemas da reconstrução tem a ver com as obras do nunca concluído metropolitano de Salónica, cuja linha passará sob a Via Egnatia. Acontece que à medida que os trabalhos de perfuração do solo vão prosseguindo, são constantemente encontradas ruínas antigas e os mesmos suspensos para verificação e preservação dos achados. Neste momento uma parte da zona envolvente encontra-se a céu aberto para a construção da estação de metro de Venizelos.
A mesquita conserva a sua cúpula mas o minarete foi removido em 1925.
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
SALÓNICA XXI - IGREJA DE PANAGIA DEXIA
A Igreja de Panagia Dexia encontra-se na Via Egnatia, próximo do Arco de Galério, e é um dos templos mais recentes da cidade. Construída em 1956, é arquitectonicamente devedora de elementos bizantinos combinados com influências neo-clássicas.
A origem do nome dever-se-á ao facto de a igreja possuir um ícone representando a Virgem Maria segurando o Menino Jesus com o braço direito, ao contrário do que é habitual em representações semelhantes em que o Menino se encontra do lado esquerdo. Daí "Dexia" ou "Dexiokratousa" (lado direito).
Ricamente decorada, é uma das igrejas mais frequentadas do centro da cidade.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
CAPRI E OS SEUS HÓSPEDES
A conhecida e louvada ilha italiana de Capri foi desde há muitos anos considerada um paraíso para os amantes de conquistas masculinas jovens. Talvez mesmo desde há muitos séculos: foi lá que o imperador Tibério construiu, no ano 27, a Villa Jovis (Vila de Júpiter), embora a razão principal tenha sido a sua segurança pessoal.
Mas nos dois últimos séculos a reputação da ilha alastrou por toda a Europa e motivou a deslocação de muitos visitantes ilustres, alguns dos quais aí instalaram permanente residência.
Entre os "exilados" de Capri conta-se o escritor e poeta francês barão Jacques d'Adelsward-Fersen (1880-1923), ainda pertencente à família do marechal sueco Hans Axel von Fersen, que teria sido amante da rainha Maria Antonieta. Devido a um escândalo em Paris, em 1903, envolvendo alunos dos principais liceus da cidade, e que, supostamente, além de outros óbvios aspectos, envolvia a realização de "missas negras", Fersen foi constrangido a anular o seu previsto casamento e considerado persona non grata na capital francesa. Rumou então a Capri, onde estivera com 17 anos, e aí construiu a Villa Lysis, lá vivendo a maior parte do tempo com um muito jovem operário, Nino Cesarini, que conhecera numa rua de Roma e que convertera em seu amante. Mesmo em Capri, devido à realização de algumas festas mais extravagantes, Fersen teve alguns dissabores, sendo obrigado por vezes a ausentar-se temporariamente da ilha, onde acabaria por morrer, ao que parece por suicídio, por meio de ingestão de uma overdose de cocaína, já que desde há longo tempo se tornara toxicodependente.
Vem isto a propósito de ter relido recentemente o livro L'exilé de Capri (1959), de Roger Peyrefitte, onde este, com abundante soma de pormenores, relata a vida de Fersen, aludindo também aos mais notáveis visitantes de Capri, como Oscar Wilde e Alfred Douglas, o general conde de Moltke, comandante militar de Berlim, o príncipe de Eulenburg, primo de Guilherme II, o célebre industrial alemão Friedrich Alfred Krupp (que acabaria por suicidar-se por denúncia de um escândalo de costumes), o fotógrafo Wilhelm von Gloeden (embora o seu domicílio permanente fosse em Taormina, na Sicília), Jean Cocteau, Gorki, Lenin, Axel Munthe, embora nem todos se tivessem deslocado pelos mesmos motivos. E ainda uma série de figuras, pertencentes ou não ao Gotha, que alimentava permanentemente a crónica da famosa ilha. Nem falta sequer uma alusão ao cardeal secretário de Estado Rafael Merry del Val, mas esse estava no Vaticano.
Esta biografia romanceada de Fersen, escrita por Peyrefitte, tem o mérito, como habitualmente todos os livros do autor, de desfrutar da sua extraordinária erudição, da sua arte de efabular os factos e de espicaçar a curiosidade do leitor. Peca, também como habitualmente, pelo excesso de personagens convocadas e pela soma de pormenores, alguns absolutamente supérfluos e que em nada contribuem para a exaltação da narrativa. Em qualquer caso, os vários livros de Roger Peyrefitte, sobre os mais diversos temas, ainda que neles focando privilegiadamente a homossexualidade, ajudam-nos a compreender determinadas facetas da sociedade da sua época.
Sobre ele escreveu o cardeal Tisserant, que foi decano do Sacro Colégio: «Peyrefitte frappe fort, mais rarement à côté. Vous verrez qu’un jour ses écrits apporteront des lumières pour ceux qui voudront comprendre notre temps».
Um dos principais livros de Jacques d'Adelsward-Fersen, que ficou mais conhecido pela sua vida excêntrica de que como escritor, é L'Hymnaire d'Adonis.
terça-feira, 13 de agosto de 2019
SALÓNICA XX - IGREJA DE NEA PANAGIA
A Igreja de Nea Panagia, dedicada à Assunção da Virgem, é um templo com três naves e tecto de madeira, que se encontrava encerrado quando por lá passei.
Fica situada junto à rua Dimitrios Gounari, e foi reconstruída em 1727, depois de ter sido destruída por um incêndio em 1690, quando ainda era um mosteiro bizantino do século XII. Depois do terramoto de 1978 foi novamente restaurada.
O seu interior, que não consegui visitar, possui uma notável decoração de murais, sendo o trono episcopal e o púlpito anteriores ao século XIX.
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
CITAÇÕES DE CALOUSTE GULBENKIAN
Estes dois cartões são reproduções de dois bilhetes, contendo as respectivas citações, que foram encontrados na carteira do senhor Calouste Gulbenkian, na ocasião da sua morte.
São distribuídos aos visitantes à entrada da exposição sobre a vida de Calouste Gulbenkian, aberta ao público na Fundação que ostenta o nome daquele mecenas.
Ignoro se Calouste Gulbenkian procedeu sempre de acordo com as reflexões que cuidadosmente guardava.
sábado, 10 de agosto de 2019
MÁRIO CESARINY, UM MUNDO SEM REGRESSO
Retirado, hoje, do mural de Paulo Marques:
O ESPELHO VAZIO
«Dos lugares que os homens criaram para se abrigar, o café é o que mais rua tem. Por isso, Mário Cesariny gostava tanto de cafés. Aí, sentia-se onde a poesia estava, onde “sempre esteve”. Aí, lembrando Lautréamont, podia fazê-la em comum. Foi em cafés que escreveu os poemas. Foi em cafés que conversou com os amigos e até com os inimigos. Foi em cafés que fitou os corpos com um olhar que os tornava mais visíveis. Era nos cafés, e no que eles tinham de rua, que se sentia verdadeiramente em casa. Cafés cheios de fumo e de fadiga e de fuga e de fúria. Cafés onde se estava porque não havia sítio melhor para estar. Cafés que resumiam o seu entendimento da vida: café-manicómio, café-convés, café-asilo, café-escritório, café-quase-salão e, pois claro!, café-de-engate. Viciado em cafés, nunca o vi aí tomar um café. Pedia uma água mineral e, muitas vezes, usava-a para lavar as mãos, porque desconfiava que, depois de bebida, a garrafa era enchida pelo dono da casa. Ria e, enquanto a vertia nos dedos em ablução ritual, olhava à volta para a “malandragem” que habitava as mesas e exclamava: “A água é a única coisa que não é de confiança neste café”. Nos tempos gloriosos do grupo surrealista, era nos cafés (Herminius, Royal, Gelo) que se incendiavam a eles próprios e era a partir dos cafés que queriam incendiar o mundo. Depois, toda a sua vida foi vivida, noturnamente, em cafés, até que os cafés acabaram e ele começou a acabar como eles.
Passei, durante anos todas as noites, milhares de horas com Mário Cesariny, nos cafés e nas ruas à sua volta. Esse tempo foi o mais lúcido e o mais bem aproveitado da minha vida. Estou a vê-lo chegar, alto, magro e direito, como um fidalgo que nunca perde o porte. Logo que entrava, punha-nos, com o que dizia, à altura do desconcerto do mundo. Se alguém estava a ler um jornal, perguntava: “Fala de nós?! Se não fala deita fora”. E sentava-se, com o olhar aceso de inteligência, gravidade, assombro, malícia e imaginação, a qual, como escreveu, é o contrário da fantasia e, por isso, habita o real. A conversa começava e não mais parava, a não ser quando ele fazia um silêncio para nos dar a ver melhor, como uma mímica só dele (que, para mim, se tornava uma mnemónica), o que queria dizer. Fazia perguntas para fazer das nossas respostas o chão a partir do qual levantava voo até às alturas onde o ar era mais puro e rarefeito: ou para descer aos abismos onde o fogo queimava mais. Costumava dizer, cingindo o rosto com as mãos, que tinha ardido num incêndio e aquele era o resultado. Esse incêndio era o Portugal da polícia de costumes, da censura, da PIDE, do “respeitinho é que é bonito” e do “trabalho é que educa”, onde viveu (não o esqueçamos nunca!) cinquenta anos da sua vida, uma parte deles perseguido por “suspeita de vagabundagem”, ele mostrava a perversidade do ataque, lembrando que, se a acusação fosse de “vagabundagem”, era fácil provar a sua verdade ou falsidade, mas que uma “suspeita de vagabundagem” não tinha prova possível e assim podia ser eterna…), e que afrontou da maneira mais intensamente livre que se pode: fazendo do seu corpo um lugar “tenebroso e cantante”, o sítio mais subversivo do universo. É por isso que a sua poesia nos ilumina e aquece e queima como a proximidade de um fogo alto e inextinguível.
Para a conversa tudo servia: o que acontecia e não devia acontecer e o que não acontecia e devia acontecer. Portugal (que, segundo ele, acabou na Segunda Dinastia, e de que desconfiava como se desconfia de alguém que já nos “fez várias”) ou o estrangeiro (a sua viagem ao México, por exemplo), a política ou o amor, a poesia, que para ele era o contrário da literatura, ou a magia, a pintura ou a filosofia esotérica, os Aztecas, os OVNIS, Sade ou o amor entre Rimbaud e Verlaine. E os Pré-Rafaelitas, Swedenborg, Blake, Breton, Artaud, Gener, Paz. Ou os Cancioneiros Medievais, Gil Vicente, Bocage, Antero, Gomes Leal, Cesário, Sá Carneiro, Pessoa, Raul Brandão, Pascoaes, Botto, E Giotto, Bosch, os painéis de Nuno Gonçalves, Picasso, Miró, Dalí, Bacon, Vieira da Silva, Paula Rego. E também (ora essa!) o senhor Manuel da Hortaliça, o Grande, a Galga, a Doble-Quina, Titânia, o Reinaldo ou o Gato (Quem quiser saber mais leia Titânia história hermética em três religiões e um só Deus verdadeiro com vistas a mais luz como Goethe queria: está lá tudo demonstrado). Dizia poemas de cor (sabia imensos e sabia-os dizer como ninguém), contava histórias do tempo em que “até os arrebentas tinham boca: queriam ser beijados”, falava de sonhos e de pesadelos, de coincidências e de acasos despectivos. E as troças que fazíamos eram esplêndidas. De repente, nele e em nós com ele, era como se comparecessem, todos juntos, os narradores do Decameron, das Mil e Uma Noites e dos Cantos de Cantuária, com as suas vozes ora roucas ora agudas, os olhos ora astutos ora inocentes, as mãos ora lentas ora ágeis. Quando a noite atingia o zénite, no meio do barulho do café, erguia-se a voz de Cesariny a declamar o Salve Rainha, dramatizando com gestos lúgubres o que ia dizendo. Ao chegar à passagem “A vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, bradava mesmo, com voz luctuosa e suplicante. Esta oração, que sabia toda de cor, era para ele como que uma “vera efígie” de um cristianismo enlouquecido, contra o qual tinha erguido a sua magnífica liberdade de corpo, de alma e de espírito.
É verdade: Cesariny adorava ouvir histórias e adorava contá-las. Para começar, as da infância, quando ia de férias para a casa da família, na Póvoa do Varzim. Havia um tio, homem “importante dos regimes”, que não tinha aceite, para não deixar a terra nem a pacatez, um lugar no governo de Salazar. A mulher dele, espanhola efusiva e ambiciosa, insultava-o por isso, enquanto ele permanecia silencioso, a trabalhar no escritório. Toda a manhã, ela andava pela casa atirando-lhe à cara um nome: estúpido. E, ao mesmo tempo, dizia baixinho, contentíssima para o jovem Mário: “Niño, já viste o que é chamar estúpido a um homem desta posição!” Beata, esperta e má, quando regressava da missa, inspecionava minuciosamente a limpeza da cozinha e apertava o pescoço das criadas, gritando. “Este tacho não tem o brilho que devia ter. Há aqui uma mancha. Isto é um pecado. Deus está nos pormenores”.
Outra história que o divertia e nos divertia era a do poeta-aristocrata do Tâmega, devotado imitador de Pascoaes, e roído por uma avareza ainda maior do que a sua fortuna. Recebia, ao serão, no grande solar e, todas as noites, a certa hora, aparecia, no salão, uma antiquíssima e idêntica caixa de bolos. Era o dono da casa quem apresentava a lata, abrindo-a e fechando-a, instantaneamente, em frente de cada pessoa presente, sem que alguém se atrevesse a tirar sequer uma migalha, porque sabiam que isso o poria rubro de raiva. Certa vez, um convidado desprevenido tentou tirar um bolo e foi imediatamente entalado pela tampa que o poeta, num gesto automático, fechou sobre a sua mão. O conviva deu um grito de dor e o avarento exclamou: “Nunca queres! Nunca queres!” Cesariny contava estas histórias e ria muito, muitíssimo. A sua ironia valia um ensaio literário. Ele gostava dos grandes poemas de Eugénio de Andrade (“Green-god”, “Espera”) e sabia-os de cor. Mas gostava menos de alguns, como dizer?, mais “preciosos”. Assim, quando às vezes se despedia de nós, dizia, mordaz: “Boa noite. Eu vou com as aves”, usando o verso de um desses poemas…
Durante anos, o Reimar, na rua das Pretas, foi um templo de visita quotidiana obrigatória. Chegava-se lá e a “coisa” já estava montada. Quero eu dizer: havia sempre “coisa”. Ao pé “daquilo”, Fellini era Cecil B. De Mille. As empregadas, a Mena e a Mina, tinham as vozes sempre no tom e na altura em que a Maria Callas brilhava. Quando chegava a hora do tiroteio, faziam do balcão uma trincheira, deitavam-se no chão e esperneavam como se estivessem ligadas à corrente eléctrica. E, se calhar, estavam! O senhor Manuel da Hortaliça, ou do Bairro Alto, que antes tinha descido o Chiado entre a mulher, dedicada enfermeira dos Hospitais Civis, e o amante, aprumado marujo do Alfeite, ameaçava (ou estaria a oferecer conteúdos?) a tropa especial, agitando a pochette. E dizia para as “amigas”, “Vai com este, que é muito limpinho e não mexe em nada”. Nesse magnificente antro, havia de tudo: putas e homens “coisa e tal”, chulos e travestis, artistas e ladrões, professores primários em crise de identidade e fadistas (com e sem voz), operários e vagabundos sem eira nem beira, filósofos ocultistas e jornalistas (proibidos, sob ameaça de morte, de falar do que ali se passava), funcionários públicos casados, mas com heterónimos sexuais, milionários em fuga para um Egipto qualquer, poetas e pintores, maiores e menores. E, se Cesariny era um enviado do fogo, havia também, apolíneos e dionisíacos, enviados (alguns fardados) dos outros três elementos, terra, mar e ar, a que se juntavam, em temível contraste, anões, gigantes coxos, zarolhos, corcundas, gagos e mudos. “Tudo boa gente”, dizia Cesariny. E acrescentava “Comparado com isto, o que Ulisses viu na viagem de regresso a Ítaca era banal…” Por entre a ginjinha e as imperiais, de que a Mina e a Mena bebiam golinhos, antes de as entregarem aos clientes (“é para ver se estão fresquinhas”, diziam), falava-se de Nietzsche e do marujo da mesa ao lado. Ali estávamos como se estivéssemos em plena idade Média, o seu tempo histórico do Ocidente preferido (“com tanta treva e tanta peste, deviam querer aproveitar bem o tempo, divertindo-se muito…”, explicava).
Mário Cesariny gostava de anarquistas, videntes, usurpadores, blasfemos, xamãs, incendiários e revoltosos. E de reis destronados, deuses abolidos, bruxas ameaçadas, fidalgos arruinados, náufragos salvos no último minuto. Gostava de gostar e gostava que gostassem-até dele. Gostava de não gostar e não gostava que alguns não gostassem dele. Nunca conheci ninguém que, ao mesmo tempo, tivesse em tão alto grau o sentimento trágico da vida e o sentimento cómico da vida. A sua palavra era grave e ameaçadora e alegre e ácida e inocente e ameaçado e leve e dura e genial, no juntar tudo isso na sua voz única, no seu olhar-clarão, na altivez, com que se impunha aos medíocres de todas as vaidades, culturas, universidades, classes, terras, aptidões, idades e especialidades. Gostava de falar da “inteligência estúpida” e da “estupidez inteligente”; contra o “discurso discursivo” e a “arte artística”. Este Cavafis de uma Lisboa-Alexandria, que, nas ruas, falava com malucos, tresnoitados, mulheres do trapo ( havia uma de quem dizia “é igual à Vieira”), visionários, apocalipticos e seres de outros planetas que vinham tomar a bica à Avenida da Liberdade. Nessas falas com eles, tinha o dom de as tornar o que eram: poetas.
O seu atelier da Calçada do Monte, onde ouvíamos incessantemente os concertos para violino e orquestra de Beethoven e de Tchaikovsky, ficava num pátio com diferentes oficinas (de estofador, por exemplo) e também tinha muita rua. Raro era o dia em que não acontecesse qualquer coisa que dava uma história para contar, desde o que se passou no pátio, a seguir ao 25 de Abril, com motins, intentonas, escândalo sexual do senhorio, plenário de inquilinos na voz do Operário e chapéu de palha comido por um ser humano, até ao vizinho que ele, uma tarde, descobriu, degolado e frio, atrás da porta, passando pelo estranho caso de um assaltante que lhe entrou no atelier, com as paredes cheias de quadros a que não atribuiu qualquer valor, e que não só não levou nada, como ainda esqueceu lá um guarda-chuva, deixado num canto, sem que Cesariny lhe quisesse tocar. Passado muito tempo, numa noite de súbita invernia, em que o único chapéu que havia era aquele, acabou por usá-lo e, debaixo dele, foi assaltado a caminho do Martim Moniz, onde ia apanhar táxi… Os vizinhos pressentiam-no célebre (até porque Mário Soares ia ao atelier), chamavam-lhe “senhor Mário”, mas tratavam-no como ele gostava de ser tratado: com a franca cortesia medieval praticada entre a gente das várias artes e ofícios…
“Tudo isto vive em mim para uma história, de sentido ainda oculto, lapidar e seca, como uma povoação abandonada aos lobos, lapidar e seca, como uma linha férrea ultrajada pelo tempo”, digo eu, agora, com versos dele. Houve uma época, já os cafés tinham acabado e ele estava muito em casa, andei ocupado e não o pude visitar com a assiduidade de que ele gostava e que era própria da nossa amizade. Uma tarde, o Al Berto, tinha morrido e eu fui à Basílica da Estrela. Quando entrei na capela mortuária, plena de gente, Cesariny estava sentado junto do corpo do poeta morto. Ao ver-me, ergueu-se e gritou, no silêncio: “Vens visitar um morto e não me vais visitar a mim, que ainda estou vivo!” Quando agora o velei no Palácio das Galveias, lembrei-me destas palavras, mas, estranhamente, não senti que estivesse junto de um morto: vi apenas um espelho Vazio. Mas a sua presença é tão forte em mim que nada, nem a morte, a consegue tocar. Por isso tenho vivido estes primeiros dias da sua ausência como quem olha, de olhos muito abertos, o escuro, perscrutando-o e sabendo que Cesariny é como um desses astros mortos que continuam a iluminar a nossa noite.»
José Manuel dos Santos, jornal Público (suplemento Mil Folhas), 8/12/2006
O MARECHAL LYAUTEY
Comprei este livro, Auprès de Lyautey, de Wladimir d'Ormesson (1963), num alfarrabista francês, há mais de três décadas, numa altura em que estive especialmente interessado no marechal Lyautey, uma das mais relevantes figuras do universo militar e político francês da primeira metade do século passado. Por razões diversas, designadamente a falta de tempo, só agora consegui lê-lo.
Importa fazer uma referência ao marechal e à sua obra. Hubert Lyautey (1854-1934), oriundo de uma família nobre, seguiu a carreira militar, distinguiu-se nas guerras coloniais (Tonquim e Madagáscar) e veio a ser o primeiro Residente Geral da França em Marrocos (os tempos do Protectorado), exercendo essas funções de 1912 a 1916. Tendo sido chamado a Paris para ocupar a pasta da Guerra no gabinete de Aristide Briand em Dezembro de 1916, regressa a França, mas pouco tempo permanece no lugar, considerando que nas circunstâncias ocorrentes a sua participação não só era inútil como pouco dignificante. Aceite a demissão, é-lhe proposto o regresso ao anterior lugar em Marrocos (1917), o que vem ao encontro dos seus desejos. Lyautey foi toda a vida um apaixonado por Marrocos e um amigo dos árabes. O marechal foi pela segunda vez Residente Geral até 1925, data em que regressou definitivamente a França. Em 1927, aceitou o lugar de Alto-Comissário da Exposição Colonial Internacional de Paris.
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| Marechal Lyautey |
A obra de Lyautey em Marrocos é imensa. Pacificou o território, consolidou o poder dos sultões, que era contestado pelos poderosos paxás, desenvolveu a economia, criou notáveis infraestruturas, impulsionou a educação, melhorou significativamente os cuidados de saúde, e impôs, tanto quanto possível, um tratamento igual para os europeus e os autóctones, o que lhe valeu muitas críticas dos franceses que entendiam gozar de um estatuto privilegiado. Ficou a dever-se a Lyautey a interdição de entrada dos não muçulmanos nas mesquitas, que não decorre de qualquer princípio islâmico mas da sua vontade de que os marroquinos não fossem incomodados nas suas orações. Esta restrição foi adoptada em todo o norte de África e só este ano pude entrar livremente numa mesquita em Tunis. Desde há duas décadas que existia uma excepção: a mesquita de Hassan II, em Casablanca, que se podia visitar, excepto à 6ª feira, em visita guiada e com entrada paga.
Não é pretensão deste post fazer a biografia do marechal (há muitas biografias publicadas), mas o livro de d'Ormesson é dalguma forma uma biografia do tempo em que o autor foi oficial às ordens do marechal.
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| Wladimir d'Ormesson |
Wladimir d'Ormesson (1888-1973) foi apresentado a Lyautey em Paris, em 1911, no jantar de uma condessa, quando cumpria serviço militar. Parece que Wladimir era um rapaz muito bonito e desde há muito tempo que são públicas as inclinações homófilas de Lyautey. Assim, este arranjou forma de levar Wladimir com ele para Marrocos, tanto mais que o marechal era um homem interessado na cultura e o rapaz, de famílias nobres e cultas (os condes d'Ormesson), correspondia aos seus interesses, acabando por funcionar também como uma espécie de secretário particular. Diga-se que Wladimir era tio do recentemente falecido escritor Jean d'Ormesson, decano da Academia Francesa. Wladimir haveria de ser também, mais tarde, membro da Academia, além de diplomata, escritor e jornalista.
Wladimir permaneceu com Lyautey em Marrocos, durante o primeiro período (1912-1916), acompanhou-o depois a Paris, quando o marechal foi ministro da Guerra, e regressou com ele a Marrocos, onde se manteve até Dezembro de 1917, data em que regressou a França, por motivos de saúde, com grande e óbvio pesar do seu chefe.
O presente livro, além de considerações políticas gerais, é a reconstituição dos apontamentos que d'Ormesson diariamente tomava sobre a actividade do marechal.
Segundo a sua vontade, Lyautey foi inumado em Marrocos, tendo ficado sepultado no parque da então Residência Geral da França. Mais tarde, os seus restos mortais, por sugestão de Mohammed V ao general de Gaulle, foram repatriados e o seu túmulo encontra-se hoje nos Invalides, em Paris.
Curiosamente, não existe no livro a mais ténue referência às inclinações do marechal, o que é até compreensível, tanto mais que elas poderiam sugerir algum comprometimento do autor. Mas já é mais estranho que d'Ormesson refira as amizades literárias do marechal, e omita nomes como os de Jean Cocteau, André Gide, Jean Schlumberger, Roger Martin du Gard, e outros, todos eles claramente homossexuais, que frequentavam Lyautey. Mas isto é apenas um pormenor. O escritor André Maurois é autor de uma das mais importantes biografias de Lyautey, que todavia ainda não li. Também ele foi um dos escritores recebido em Marrocos, mas não é suposto partilhar das inclinações dos anteriores.
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| Túmulo de Lyautey nos Invalides |
Sobre a acção pormenorizada de Lyautey em Marrocos, os interessados têm também à disposição uma obra fundamental, em três volumes, de Daniel Rivet: Lyautey et l'institution du protectorat français au Maroc (1996).
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
O BAILARINO VALENTIM DE BARROS
Pelo seu interesse público, transcreve-se o artigo de Maria João Caetano no "Diário de Notícias":
“MÁRIO”: ESTA É A HISTÓRIA DE UM BAILARINO HOMOSSEXUAL NO ESTADO NOVO
O espetáculo é inspirado na vida de Valentim de Barros, que esteve durante 40 anos internado no Miguel Bombarda. Estreia esta quinta-feira [7/08/2019], no Cinema São Jorge, em Lisboa.
«"Pai, quero ser bailarina". Mário está feliz com o seu sonho mas, perante a incompreensão da família, o menino-quase-adolescente que não quer ser serralheiro mecânico como foram o seu pai e o seu avô, foge de casa, na Cova do Vapor (Almada), atravessa o rio e instala-se em Lisboa, junto ao porto, com os pescadores, as varinas, as gaivotas, os marinheiros, os pedintes e os gatos. É ali que aprende a ler e a contar, é ali que cresce. Às vezes abusam dele. "Chamam-me Mário Larilas." Mas ele não se importa.
Sozinho no palco da sala 2 do Cinema São Jorge, em Lisboa, o ator Flávio Gil vai trocando de roupa à medida que Mário cresce e muda de vida. Esta é a história de um rapaz homossexual que, durante o Estado Novo, foi protegido por padres e coronéis e foi objeto sexual de homens importantes, mas que apesar de vir de uma família pobre conseguiu cumprir o seu sonho de ser bailarino. Dançou para Balanchine na Ópera de Paris, foi bailarino no Ballet del Colon, em Buenos Aires, integrou o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Era conhecido na Lapa como Mariete. E era feliz.
Voltou a Lisboa após a Segunda Guerra Mundial e foi preso por andar na rua vestido de mulher. "E que mal tem isso, senhor doutor juiz?", indignou-se. A sociedade conservadora da época não tolerava tamanha liberdade. Mário foi internado no Hospital Miguel Bombarda onde lhe tentaram curar "o homossexualismo" com choques elétricos. "Primeiro, éramos pecadores e fomos condenados pelos padres. Depois, fomos criminosos, julgados por juízes. Agora somos doentes e somos tratados por médicos."
A história de Mário é ficção mas inspirada em factos reais. Durante o Estado Novo, não havia oficialmente homossexuais, mas aqueles que se atreviam a falar da sua condição em voz alta eram reprimidos, como se conta no livro Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida. Entre eles, estava Valentim de Barros.
Quem era Valentim de Barros?
Em 2018, na gala da Associação Abraço, os Fado Bicha apresentaram uma música nova, intitulada Valentim. Lila Fadista subiu ao palco com um colete-de-forças vestido e depois de ler o relatório médico de Valentim de Barros interpretou o tema que homenageia o bailarino que esteve internado durante 40 anos no Miguel Bombarda, só por ser homossexual.
Nascido em 1916, Valentim de Barros começou a aprender a dançar aos 14 anos. Terá sido também por essa altura que iniciou a sua vida sexual e que percebeu como os homens, ricos e importantes, gostavam dele e o poderiam ajudar a concretizar os seus sonhos. Pintava e chegou a ter aulas de dança com a professora Ruth Aswin no Teatro Nacional D. Maria II, às escondidas da família. Aos 20 anos, como contou Bruno Horta numa longa reportagem publicada em 2015, Valentim de Barros fugiu para Espanha. Em Madrid, dançou em boites e fez "danças de fantasia". Daí terá ido para Berlim e depois para Estugarda, onde integrou o corpo de baile do Teatro de Ópera. Regressou a Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, expulso da Alemanha não se sabe por que motivos.
A sua ficha na Polícia de Vigilância e Segurança do Estado (PVDE) data de 1939. Valentim tinha 22 anos. A 23 de março, o relatório policial fala da possibilidade de uma doença mental. Foi internado pela primeira vez no Hospital Miguel Bombarda a 18 de junho de 1939. "Modos afeminados, melífluos, dengosos, denunciantes da sua inversão sexual. Perfeitamente calmo, humor natural. Respostas adaptadas, longas, circunstanciadas, voz afeminada" - assim determinou o primeiro exame naquela instituição. "Toda a sua atividade está dirigida no sentido sexual", anotou o médico do hospital, num exame posterior, para quem a intensa vida sexual de Valentim seria patológica. Diagnóstico: "Psicopatia homossexual e pederastia passiva."
Nos anos seguintes alternaria entre períodos de internamento e períodos em que procurava ter uma vida normal e prosseguir com a sua carreira de bailarino. Mas havia sempre problemas: vestia-se de mulher, envolvia-se em distúrbios. A 10 de junho de 1948 Valentim de Barros foi leucotomizado. A operação deveria acalmar-lhe a "constante agitação". Em janeiro de 1949 foi internado definitivamente.
Quando Luís d'Oliveira Nunes o entrevistou para um artigo publicado no Diário de Lisboa, em 1968, encontrou-o no quarto-cela "a fazer tricot, rodeado de santos, pássaros e flores, a falar fluente e corretamente alemão, francês e espanhol." Dedicava-se à pintura (fazia cenários em lençóis) e participava nas festas de natal do hospital.
A seguir ao 25 de abril de 1974, Valentim de Barros passou a ter liberdade de movimentos e visitava muitas vezes a irmã mas continuou a morar na enfermaria do hospital. Maria João Avilez entrevistou-o para o Expresso em 1980 e descreveu-o como "mais personagem que doente, mais caso social que mental e sobretudo mais memória que vida". Morreu em fevereiro de 1986, tinha 80 anos.
Valentim foi praticamente esquecido até que, em abril de 2013, Sandro Resende, professor de arte no Hospital Júlio de Matos, organizou no Pavilhão 31 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos, para onde foi transferido o acervo do Miguel Bombarda), a exposição coletiva Distopia, onde se incluía um cenário de seis metros por três desenhado e pintado por Valentim de Barros em 1974. Em novembro desse ano, no mesmo Pavilhão 31, Sandro Resende montou a exposição "Valentim de Barros", com desenhos, cenários, postais de Natal e bonecas que o bailarino produziu, assim como uma gravação áudio captada no quarto do bailarino.
A história de Valentim de Barros também foi contada, em 2017, no ensaio de António Fernando Cascais, "Onde eu não dance, a solidão fá-lo por mim: Valentim de Barros", incluído no livro Hospital Miguel Bombarda 1968. Nesse mesmo ano, foi homenageado na gala da Abraço. No seu discurso, Inês Marto diz: "Valentim de Barros é aquele que dançou na cara do preconceito. Valentim de Barros é aquele que, acima de todas as opressões, continuou a dizer que voltaria ao palco, que voltaria à vida. Valentim de Barros, mais que tudo, é aquele que contra tudo, fez restar sonhos, habitou-se deles, e não deixou de se chamar Bailarino."
De Valentim a Mário
A ideia inicial foi da encenadora São José Lapa que, depois de ler uma reportagem de São José Almeida no jornal Público, ficou com vontade de fazer um espetáculo sobre Valentim de Barros e encomendou um texto a Fernando Heitor. "Eu propus-lhe fazer uma peça a partir dessa história mas com uma outra personagem, porque não tinha dados suficientes, iria ter sempre que inventar, portanto decidi criar uma personagem nova: têm em comum o facto de serem bailarinos e terem estado internados no Miguel Bombarda para curarem a homossexualidade", explica o dramaturgo. "Mas a São José Lapa não conseguiu apoio para fazer o espetáculo e eu fiquei com o texto em casa."
Um dia, ao falar disto com Flávio Gil, ator e dramaturgo que costuma trabalhar no Teatro Maria Vitória, começou a nascer entre eles a ideia de fazer um espetáculo, mesmo sem terem dinheiro. "Juntámos um grupo de pessoas e decidimos avançar. Não tínhamos espaço, batemos a várias portas, levámos com elas na cara e depois tivemos sorte e o São Jorge acolheu-nos. E aqui estamos."
Ao início, Fernando Heitor não sabia muito sobre Valentim de Barros. Além de pesquisar sobre o bailarino, fez também uma enorme investigação sobre a época. Tanto ele como Flávio Gil leram muito e viram vários filmes, para terem uma ideia de como era a vida na Lisboa dos anos 50 e 60 do século XX. "Ajudou-me muito a poesia de Mário de Sá Carneiro, de António Botto, de Mário Cesariny", explica o autor, que decidiu incluir excertos de alguns poemas. "O Botto fala muito desta Lisboa boémia, do Cais do Sodré, da vida nos bairros." Há um momento em que Mário sobe para cima de uma cadeira e declama: "Desde pequeno o meu sonho era ser homem, ser marujo, embarcar."
"Tinha noção que ser homossexual naquela altura seria muito diferente, mas não deixei de me supreender com toda a pesquisa. Fui conhecendo outras histórias, que não são a do Mário nem do Valentim, mas são absolutamente inacreditáveis para alguém que, como eu, nasceu em 1990", explica o ator Flávio Gil. "Estamos a falar de alguém que termina a vida privado da sua liberdade. Acho que esta peça, mais do que nos dizer como eram as coisas antes, vem recordar-nos a importância de termos evoluído tanto e de já não ser assim. E é uma chamada de atenção para darmos importância ao que conquistámos e não abdicarmos disso a troco de coisa nenhuma."
Em Portugal desde 1982 que a homossexualidade deixou de ser considerada um crime e os últimos anos têm sido de progressiva aceitação: desde 2010 que é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As mudanças vão para além da lei. "Há uns anos não seria sequer possível fazer este espetáculo. Evoluímos muito nos últimos 20 anos", diz Fernando Heitor. Ainda no outro dia, a equipa saiu para a rua para fazer os vídeos de promoção do espetáculo e Flávio Gil andou pela avenida de liberdade com um vestido e pés descalços, sem provocar sequer um revirar de olhos. "Está aqui um homem de saia, de lantejoulas, e ninguém liga nenhuma. Isso é muito bom sinal", conclui o encenador.»
Maria João Caetano, jornal Diário de Notícias (7/08/2019)
Mário
Cinema São Jorge, Lisboa
de 8 de agosto a 1 de setembro
De quinta a domingo às 19.00 (ao sábado também às 22.00)
Interpretação - Flávio Gil
Texto e Encenação - Fernando Heitor
Direção Musical - João Paulo Soares
Movimento - Carlos Prado
Desenho de Luz - José Álvaro Correia
O espetáculo é inspirado na vida de Valentim de Barros, que esteve durante 40 anos internado no Miguel Bombarda. Estreia esta quinta-feira [7/08/2019], no Cinema São Jorge, em Lisboa.
«"Pai, quero ser bailarina". Mário está feliz com o seu sonho mas, perante a incompreensão da família, o menino-quase-adolescente que não quer ser serralheiro mecânico como foram o seu pai e o seu avô, foge de casa, na Cova do Vapor (Almada), atravessa o rio e instala-se em Lisboa, junto ao porto, com os pescadores, as varinas, as gaivotas, os marinheiros, os pedintes e os gatos. É ali que aprende a ler e a contar, é ali que cresce. Às vezes abusam dele. "Chamam-me Mário Larilas." Mas ele não se importa.
Sozinho no palco da sala 2 do Cinema São Jorge, em Lisboa, o ator Flávio Gil vai trocando de roupa à medida que Mário cresce e muda de vida. Esta é a história de um rapaz homossexual que, durante o Estado Novo, foi protegido por padres e coronéis e foi objeto sexual de homens importantes, mas que apesar de vir de uma família pobre conseguiu cumprir o seu sonho de ser bailarino. Dançou para Balanchine na Ópera de Paris, foi bailarino no Ballet del Colon, em Buenos Aires, integrou o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Era conhecido na Lapa como Mariete. E era feliz.
Voltou a Lisboa após a Segunda Guerra Mundial e foi preso por andar na rua vestido de mulher. "E que mal tem isso, senhor doutor juiz?", indignou-se. A sociedade conservadora da época não tolerava tamanha liberdade. Mário foi internado no Hospital Miguel Bombarda onde lhe tentaram curar "o homossexualismo" com choques elétricos. "Primeiro, éramos pecadores e fomos condenados pelos padres. Depois, fomos criminosos, julgados por juízes. Agora somos doentes e somos tratados por médicos."
A história de Mário é ficção mas inspirada em factos reais. Durante o Estado Novo, não havia oficialmente homossexuais, mas aqueles que se atreviam a falar da sua condição em voz alta eram reprimidos, como se conta no livro Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida. Entre eles, estava Valentim de Barros.
Quem era Valentim de Barros?
Em 2018, na gala da Associação Abraço, os Fado Bicha apresentaram uma música nova, intitulada Valentim. Lila Fadista subiu ao palco com um colete-de-forças vestido e depois de ler o relatório médico de Valentim de Barros interpretou o tema que homenageia o bailarino que esteve internado durante 40 anos no Miguel Bombarda, só por ser homossexual.
Nascido em 1916, Valentim de Barros começou a aprender a dançar aos 14 anos. Terá sido também por essa altura que iniciou a sua vida sexual e que percebeu como os homens, ricos e importantes, gostavam dele e o poderiam ajudar a concretizar os seus sonhos. Pintava e chegou a ter aulas de dança com a professora Ruth Aswin no Teatro Nacional D. Maria II, às escondidas da família. Aos 20 anos, como contou Bruno Horta numa longa reportagem publicada em 2015, Valentim de Barros fugiu para Espanha. Em Madrid, dançou em boites e fez "danças de fantasia". Daí terá ido para Berlim e depois para Estugarda, onde integrou o corpo de baile do Teatro de Ópera. Regressou a Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, expulso da Alemanha não se sabe por que motivos.
A sua ficha na Polícia de Vigilância e Segurança do Estado (PVDE) data de 1939. Valentim tinha 22 anos. A 23 de março, o relatório policial fala da possibilidade de uma doença mental. Foi internado pela primeira vez no Hospital Miguel Bombarda a 18 de junho de 1939. "Modos afeminados, melífluos, dengosos, denunciantes da sua inversão sexual. Perfeitamente calmo, humor natural. Respostas adaptadas, longas, circunstanciadas, voz afeminada" - assim determinou o primeiro exame naquela instituição. "Toda a sua atividade está dirigida no sentido sexual", anotou o médico do hospital, num exame posterior, para quem a intensa vida sexual de Valentim seria patológica. Diagnóstico: "Psicopatia homossexual e pederastia passiva."
Nos anos seguintes alternaria entre períodos de internamento e períodos em que procurava ter uma vida normal e prosseguir com a sua carreira de bailarino. Mas havia sempre problemas: vestia-se de mulher, envolvia-se em distúrbios. A 10 de junho de 1948 Valentim de Barros foi leucotomizado. A operação deveria acalmar-lhe a "constante agitação". Em janeiro de 1949 foi internado definitivamente.
Quando Luís d'Oliveira Nunes o entrevistou para um artigo publicado no Diário de Lisboa, em 1968, encontrou-o no quarto-cela "a fazer tricot, rodeado de santos, pássaros e flores, a falar fluente e corretamente alemão, francês e espanhol." Dedicava-se à pintura (fazia cenários em lençóis) e participava nas festas de natal do hospital.
A seguir ao 25 de abril de 1974, Valentim de Barros passou a ter liberdade de movimentos e visitava muitas vezes a irmã mas continuou a morar na enfermaria do hospital. Maria João Avilez entrevistou-o para o Expresso em 1980 e descreveu-o como "mais personagem que doente, mais caso social que mental e sobretudo mais memória que vida". Morreu em fevereiro de 1986, tinha 80 anos.
Valentim foi praticamente esquecido até que, em abril de 2013, Sandro Resende, professor de arte no Hospital Júlio de Matos, organizou no Pavilhão 31 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos, para onde foi transferido o acervo do Miguel Bombarda), a exposição coletiva Distopia, onde se incluía um cenário de seis metros por três desenhado e pintado por Valentim de Barros em 1974. Em novembro desse ano, no mesmo Pavilhão 31, Sandro Resende montou a exposição "Valentim de Barros", com desenhos, cenários, postais de Natal e bonecas que o bailarino produziu, assim como uma gravação áudio captada no quarto do bailarino.
A história de Valentim de Barros também foi contada, em 2017, no ensaio de António Fernando Cascais, "Onde eu não dance, a solidão fá-lo por mim: Valentim de Barros", incluído no livro Hospital Miguel Bombarda 1968. Nesse mesmo ano, foi homenageado na gala da Abraço. No seu discurso, Inês Marto diz: "Valentim de Barros é aquele que dançou na cara do preconceito. Valentim de Barros é aquele que, acima de todas as opressões, continuou a dizer que voltaria ao palco, que voltaria à vida. Valentim de Barros, mais que tudo, é aquele que contra tudo, fez restar sonhos, habitou-se deles, e não deixou de se chamar Bailarino."
De Valentim a Mário
A ideia inicial foi da encenadora São José Lapa que, depois de ler uma reportagem de São José Almeida no jornal Público, ficou com vontade de fazer um espetáculo sobre Valentim de Barros e encomendou um texto a Fernando Heitor. "Eu propus-lhe fazer uma peça a partir dessa história mas com uma outra personagem, porque não tinha dados suficientes, iria ter sempre que inventar, portanto decidi criar uma personagem nova: têm em comum o facto de serem bailarinos e terem estado internados no Miguel Bombarda para curarem a homossexualidade", explica o dramaturgo. "Mas a São José Lapa não conseguiu apoio para fazer o espetáculo e eu fiquei com o texto em casa."
Um dia, ao falar disto com Flávio Gil, ator e dramaturgo que costuma trabalhar no Teatro Maria Vitória, começou a nascer entre eles a ideia de fazer um espetáculo, mesmo sem terem dinheiro. "Juntámos um grupo de pessoas e decidimos avançar. Não tínhamos espaço, batemos a várias portas, levámos com elas na cara e depois tivemos sorte e o São Jorge acolheu-nos. E aqui estamos."
Ao início, Fernando Heitor não sabia muito sobre Valentim de Barros. Além de pesquisar sobre o bailarino, fez também uma enorme investigação sobre a época. Tanto ele como Flávio Gil leram muito e viram vários filmes, para terem uma ideia de como era a vida na Lisboa dos anos 50 e 60 do século XX. "Ajudou-me muito a poesia de Mário de Sá Carneiro, de António Botto, de Mário Cesariny", explica o autor, que decidiu incluir excertos de alguns poemas. "O Botto fala muito desta Lisboa boémia, do Cais do Sodré, da vida nos bairros." Há um momento em que Mário sobe para cima de uma cadeira e declama: "Desde pequeno o meu sonho era ser homem, ser marujo, embarcar."
"Tinha noção que ser homossexual naquela altura seria muito diferente, mas não deixei de me supreender com toda a pesquisa. Fui conhecendo outras histórias, que não são a do Mário nem do Valentim, mas são absolutamente inacreditáveis para alguém que, como eu, nasceu em 1990", explica o ator Flávio Gil. "Estamos a falar de alguém que termina a vida privado da sua liberdade. Acho que esta peça, mais do que nos dizer como eram as coisas antes, vem recordar-nos a importância de termos evoluído tanto e de já não ser assim. E é uma chamada de atenção para darmos importância ao que conquistámos e não abdicarmos disso a troco de coisa nenhuma."
Em Portugal desde 1982 que a homossexualidade deixou de ser considerada um crime e os últimos anos têm sido de progressiva aceitação: desde 2010 que é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As mudanças vão para além da lei. "Há uns anos não seria sequer possível fazer este espetáculo. Evoluímos muito nos últimos 20 anos", diz Fernando Heitor. Ainda no outro dia, a equipa saiu para a rua para fazer os vídeos de promoção do espetáculo e Flávio Gil andou pela avenida de liberdade com um vestido e pés descalços, sem provocar sequer um revirar de olhos. "Está aqui um homem de saia, de lantejoulas, e ninguém liga nenhuma. Isso é muito bom sinal", conclui o encenador.»
Maria João Caetano, jornal Diário de Notícias (7/08/2019)
Mário
Cinema São Jorge, Lisboa
de 8 de agosto a 1 de setembro
De quinta a domingo às 19.00 (ao sábado também às 22.00)
Interpretação - Flávio Gil
Texto e Encenação - Fernando Heitor
Direção Musical - João Paulo Soares
Movimento - Carlos Prado
Desenho de Luz - José Álvaro Correia
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