sexta-feira, 22 de julho de 2016

FERNANDO MEDINA E O MARQUÊS DE POMBAL




Como é sabido, o marquês de Pombal, "primeiro-ministro" do rei D. José I, ordenou a reconstrução de Lisboa sobre as ruínas do terramoto de 1755, de acordo com o plano elaborado pelo arquitecto Eugénio dos Santos. Uma obra notável erguida, com largos horizontes, em cima dos escombros de uma cidade destruída.

O que agora se verifica na capital do país é algo de muito diferente. A Câmara Municipal, presidida por Fernando Medina, decidiu arrasar uma parte importante da cidade, não sei exactamente bem para quê, ou porquê.

Com certeza que as cidades envelhecem, que as artérias carecem de conservação, que importa por vezes introduzir remodelações no traçado urbano. Mas tem de haver uma justificação plausível, até porque as obras custam dinheiro ao contribuinte, e aquelas actualmente em curso (desconheço os orçamentos e quem os aprovou, se é que isso existe) deverão atingir milhões de euros.

A generalidade das modificações que estão a ser efectuadas não tem aos meus olhos, e da maior parte dos lisboetas, a mínima justificação, e são feitas apenas pelo desejo de mudança, quiçá por preocupações eleitoralistas que provavelmente não renderão votos. Mudar o que está bem para o tornar pior é não só injustificável como altamente reprovável, para não usar outro termo.

Duvido da utilidade da maior parte destas obras, mas a sua execução em simultâneo, provocando uma confusão total no trânsito, com engarrafamentos monstruosos numa cidade onde já se circula com dificuldade, constitui um problema grave, e o estreitamento das faixas de rodagem ou o encerramento de várias ruas parece-me uma ideia aberrante e perigosa.

Se, por acaso, ocorresse uma catástrofe em Lisboa, a situação presentemente existente impediria a rápida prestação de socorros e verificar-se-ia uma tragédia nacional.

Não consigo compreender, para além dos presumíveis votos, o que faz correr Fernando Medina e os seus vereadores.

Mais valia que o dinheiro gasto nestas discutíveis transformações, sem que tivesse havido o indispensável debate por parte dos munícipes, se destinasse ao melhoramento dos transportes públicos, altamente deficientes em qualidade, frequência e circuitos, seja no Metro, na Carris, ou mesmo nos comboios suburbanos que servem a capital.

Definitivamente, Fernando Medina não é Sebastião José de Carvalho e Melo, nem o vereador Manuel Salgado é comparável a Eugénio dos Santos. E as motivações serão certamente outras.


terça-feira, 19 de julho de 2016

A ECONOMIA DE MERCADO E A TENTAÇÃO DO FASCISMO



Da grande entrevista de "L'Obs" (nº 2697, desta semana) a Nicolas Colin:

P: Le phénomène Trump est-il un autre «moment Polanyi»?

R: Oui, bien sûr. Toute cette dimension politique, dans tous les pays du monde, rappelle ce qui s'est passé dans les années 1930. Le fascisme est apparu un peu partout au même moment, sous des formes diverses, comme une réaction uniforme de la société à l'inadaptation des institutions. Quand les individus ne sont plus couverts contre les excès de l'économie de marché, ils éprouvent la tentation du fascisme.

Le fascisme, c'est la passion de la restauration d'un ordre ancien et d'une prospérité mythique. C'est le dépassement du clivage gauche/droite. Et c'est la tentation autoritaire face aux limites apparentes des régimes démocratiques. Nous y sommes. Tout le monde rêve d'un retour aux Trente Glorieuses (voyez le slogan «Make America great again!» de Trump). Le clivage gauche/droite n'existe presque plus. Et un discours autoritaire s'impose de plus en plus dans le débat public, pas seulement de la part de l'extrême-droite - chacun à sa manière, Nicolas Sarkozy comme Manuel Valls, entre autres, fait écho à cette «demande d'autorité» qui accompagne la montée du fascisme.


ERDOGAN E O CALIFADO




A Primeira Guerra Mundial determinou o fim do Império Otomano, com consequências que ainda hoje, um século depois, não cessam de nos interpelar. Os sultões otomanos ostentavam também, como é sabido, o título de Califa do Islão desde 1517, quando Selim I Yavuz (o Cruel), que reinou de 1512 a 1520, após a conquista do Hejjaz (Meca e Medina) donde trouxe para Istanbul as relíquias de Muhammad (Maomé), e do Egipto, onde depôs o último califa abássida Al-Mutawakkil III, assumiu essa dignidade religiosa dos sucessores do Profeta.

Durante séculos, o sultão otomano acumulou com as funções de soberano reinante a de chefe espiritual dos muçulmanos, indisputável no contexto político subsequente ao século XVI. E foi assim até 1922. A participação na guerra de 1914/1918 revelou-se desastrosa para o Império Otomano. O sultão Mehmet V morreu em Julho de 1918, tendo-lhe sucedido seu irmão Mehmet VI Vahdettin, tendo sido já com este soberano que foi assinado com a Entente o humilhante armístico de Mudros (31 de Outubro de 1918), que decepcionou os nacionalistas turcos. Os governos sucederam-se na Sublime Porta (Bâb-ı Âli), e a Grande Assembleia Nacional, presidida por Mustafa Kemal Atatürk, instalada em 23 de Abril de 1920, aboliu o sultanato em 1 de Novembro de 1922. Mehmet VI foi exilado para Itália, onde viria a morrer em 1926.

Em 10 de Agosto de 1920, o grão-vizir Damat Ferit Pasha, ainda em nome de Mehmet VI, assinara com as potências vencedoras o Tratado de Sèvres, que concluía a partilha do Império, em proveito dos Aliados. Atatürk e os seus partidários não se conformaram com os termos impostos e travaram uma guerra em três frentes, que a Entente subestimara e de que saiu vencedor. E impôs condições que acabaram por ser consagradas no Tratado de Lausanne, em 24 de Julho de 1923.


Em 29 de Outubro de 1923 foi proclamada a República e Kemal Atatürk proclamado primeiro presidente, cargo que exerceu até à sua morte, em 10 de Novembro de 1938.

Todavia, o califado persistiu após a deposição de Mehmet VI. Sucedeu-lhe seu primo Abdülmecid II, que desempenhou as funções até 3 de Março de 1924, data em que o Califado foi oficialmente abolido e os seus poderes (no que à Turquia respeitava) transferidos para a Grande Assembleia Nacional. Atatürk considerara que a existência de um chefe do poder espiritual no país colidia com as instituições republicanas e alimentava esperanças quanto a um retorno à forma monárquica do regime.

Porque o califa de Istanbul era não só o chefe espiritual dos muçulmanos turcos mas de todos os muçulmanos, verificaram-se tentativas posteriores, extra-Turquia, de restabelecer o Califado. Realizaram-se conferências islâmicas no Cairo (1926), Meca (1926) e Jerusalém (1931), mas nunca se alcançou o consenso.

Que a ideia permaneceu mostra-o o recente auto-proclamado "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" (ISIS ou Daesh), cujo chefe, Abu Bakr el-Baghdadi se passou a intitular Califa Ibrahim.

Durante a sua presidência da República Turca, Atatürk, franco-maçon e homem de bom gosto,  introduziu profundas reformas no país, no sentido de o modernizar e ocidentalizar. Do vestuário à educação, da separação entre o político e o religioso, indo até à modificação da escrita, um trabalho ciclópico. Deve-se a Atatürk a adopção do alfabeto latino na língua turca, que até então utilizava o alfabeto árabe, ainda que as línguas sejam distintas. Por exemplo, o farsi e o urdu, falados no Irão e no Paquistão, continuam ainda hoje a utilizar os caracteres árabes.

Importa também recordar que o Império Otomano, no seu período de maior esplendor, abrangeu toda  a África do Norte (excepto Marrocos), o Médio Oriente, uma parte da Península Arábica, o sul da Ucrânia, a Grécia, os Balcãs e chegou mesmo, por duas vezes, às portas de Viena.

Esta pequena digressão histórica permitir-nos-á compreender melhor as motivações de Recep Tayyip Erdoğan, chefe do Partido da Justiça e Desenvolvimento (Adalet ve Kalkınma Partisi) (AKP), ex-primeiro-ministro (2003 a 2014) e actual presidente da República da Turquia (desde 28 de Agosto de 2014). Homem extraordinariamente ambicioso e defensor da islamização do país, Erdoğan vem prosseguindo, lenta mas persistentemente, uma acção exactamente contrária à de Atatürk, ou seja a desocidentalização da Turquia, o ofuscamento das Luzes, a destruição do Estado laico, num combate sem tréguas à secularização, hoje largamente perfilhada nos meios urbanos, que, sempre que podem, se manifestam contra o presidente, como aconteceu há poucos anos a propósito do projecto imobiliário do parque Gezi, ao lado da praça Taksim. É nos meios rurais que o presidente recolhe maior apoio e foram estes que lhe permitiram chegar à presidência, à primeira volta, em 2014, com 51,79% dos votos expressos. Um país dividido ao meio.

A recente tentativa de golpe de Estado, de contornos ainda mal definidos, surge como a oportunidade única de Erdoğan concretizar muitos dos planos ainda suspensos na sua agenda. À cabeça, a adopção de uma Constituição de tipo presidencialista, dotando o presidente da República de plenos poderes. Depois, e isso já está em curso, proceder ao saneamento de todos aqueles que lhe são desafectos, dos militares aos juízes, dos professores aos jornalistas, dos polícias aos funcionários públicos. O saneamento que iniciou há mais de dez anos, quando assumiu a chefia do Governo, continua agora de forma acelerada, até se desfazer completamente dos seus opositores ou correligionários que lhe possam fazer sombra. A purga que já começou e que não se sabe quando terminará, conferirá a Erdoğan plenos poderes para governar ditatorialmente sem qualquer contestação. Por isso, suscitou-se na opinião pública e nas chancelarias ocidentais a ideia de que o presidente estaria ele mesmo por trás desta tentativa de golpe, frustrada nas primeiras horas e realizada de forma tão amadorística que, a ser verdade, deixaria a credibilidade das forças armadas turcas pelas ruas da amargura, elas que já procederam, no último meio século, a vários golpes, sempre com êxito, para preservar a herança do Estado laico concebido por Atatürk e de que se consideram as legítimas guardiãs.


Parece que o sonho de Erdoğan não se extingue, contudo com os plenos poderes. Ele pretende, tal como Atatürk mas às avessas, revolucionar o país e reservar-se um lugar na História. Ao pronunciar-se sobre matéria religiosa e de costumes, como já o tem feito, o presidente aspira a uma chefia espiritual dos turcos, um lugar comparável ao de califa, ainda que seja impensável, mas nunca se sabe, que Erdoğan se venha a proclamar califa.

Por outro lado, tem também a ambição de alargar o território actual da Turquia, numa tentativa, ainda que ténue, de ressuscitar o antigo Império Otomano. A protecção camuflada (e às vezes não tanto) que o presidente tem concedido ao "Estado Islâmico", sediado em territórios da Síria e do Iraque, denuncia a intenção de anexar essas regiões, caso a conjuntura lhe seja favorável. Daí a sua luta tenaz contra o presidente sírio Bashar al-Assad e contra todas as tentativas de emancipação dos curdos (quer os residentes na Turquia actual, quer os espalhados pela Síria e pelo Iraque), que, ao contrário dos arménios, nunca lograram um estado independente a partir dos destroços do Império Otomano no fim da Primeira Guerra Mundial.

Também a errática política externa de Erdoğan denuncia um oportunismo incompatível com uma visão de estadista. As recentes reconciliações com Israel, cujas relações haviam sido interrompidas após o Estado Judaico ter abatido cidadãos turcos num barco que se dirigia a Gaza, e com a Rússia, depois da Turquia ter abatido um avião russo sobre a Síria, denotam a vontade de assegurar, no curto prazo, a boa vontade de dois países vizinhos, militarmente poderosos, e com influências cuja utilidade o presidente não considera despiciendas.

As tentações totalitárias de Erdoğan constituem também um perigo para a Europa (a recente deriva impedirá definitivamente, espera-se, a adesão da Turquia à União Europeia, mas com o caos na liderança da UE não se avalia bem que espúrias decisões poderão ser tomadas) e um perigo para o mundo, pois sendo a Turquia um país membro da NATO e dotado do segundo mais poderoso exército da Aliança, a seguir aos Estados Unidos, a instabilidade na região, lugar estratégico por excelência, condiciona largamente a política internacional.

Decorre destas linhas que Recep Tayyip Erdoğan,eleito democraticamente sem sombra de dúvida, ainda que por uma escassa percentagem, tendo-se permitido, ao longo destes anos, decapitar não só as chefias militares e a magistratura mas amordaçar a sociedade civil, encetou o caminho da ditadura democrática, de que conhecemos exemplos pouco edificantes ocorridos no século passado.

sábado, 16 de julho de 2016

A TURQUIA, A DITADURA E A NATO




O golpe de Estado de ontem à noite na Turquia parece uma história para crianças. A impreparação revelada pelos revoltosos, que naturalmente não lograram obter a queda do regime, configura mais uma manobra de diversão do que a existência de uma verdadeira conspiração militar contra um homem ambicioso, fanático e sobretudo perigoso, não só para o povo turco, que ingenuamente o aplaude e nele vota, mas para a Europa e o Ocidente, uma vez que a Turquia é membro da NATO, militarmente um dos mais poderosos.

As manobras clássicas de ocupação da televisão, de encerramento do aeroporto e de algumas vias de comunicação por meia dúzia de soldados foi uma brincadeira face ao poderio do exército turco. Com as purgas que as forças armadas vêm sofrendo desde o começo do consulado de Erdogan, só uma preparação cuidada e o controle efectivo das principais unidades militares seria capaz de derrubar o candidato a ditador e restabelecer no país uma democracia laica, nos moldes concebidos por Mustafa Kemal Atatürk.

Mustafa Kemal Atatürk

Nem faltou o apelo de Erdogan à ocupação das rua pelo povo, no mais elementar estilo demagógico, surtindo efeito em multidões anestesiadas pela propaganda islamizante que o presidente tem desenvolvido nos últimos anos. Assim, pelo menos à primeira vista, a rebelião de algumas tropas saldou-se por um incomensurável fracasso que, não obstante, causou dezenas de vítimas.

Um exame cauteloso das notícias, das que dispomos pois muita coisa permanece ainda envolta em espessa névoa, leva a concluir que se tratou de uma operação organizada pelo próprio Erdogan e seus sequazes, para eliminar definitivamente os seus opositores e instaurar, de facto, uma ditadura, sob o manto diáfano da democracia.

Subsiste, todavia, outra hipótese: a de se tratar de um balão de ensaio, de um golpe falhado (como o 16 de Março de 1974, em Portugal), antes de eclodir a verdadeiras revolta contra o déspota. Mas a Turquia não é Portugal, e entretanto Erdogan terá já suprimido fisicamente os eventuais cabecilhas.

Os países ocidentais foram cautelosos, como a prudência aconselha, a emitirem declarações sobre os acontecimentos antes de saberem para que lado sopravam os ventos. E talvez não fossem de todo alheios a esta impreparada revolta (a ser autêntica), até porque o estreitamento de relações com Putin por parte de um membro da NATO deverá preocupar o senhor Jens Stoltenberg.

A verificar-se uma real vitória de Erdogan, sem necessidade do estabelecimento de compromissos, este não deixará de aproveitar a situação para fazer plebiscitar uma nova constituição que lhe confira plenos poderes para governar autocraticamente o país, eliminar militares e juízes desafectos, prosseguir a sua errática e oportunística política externa, e continuar a combater os curdos, já que o espectro de um Estado Curdo, na sequência da desagregação do Médio Oriente, assombra as noites do líder islamista.

A União Europeia tem sido cautelosa com a Turquia, pois este país é hoje (sempre foi) uma peça chave para o Velho Continente e as posições de Erdogan, que começou por apoiar Assad para depois se aliar aos terroristas islâmicos que devastam a Síria, ou a sua recente reconciliação com Israel, provocam a maior perplexidade ao Ocidente. Um exemplo das ambiguidades europeias em relação à Turquia foi, a propósito da tragédia dos refugiados, o comércio nefando celebrado entre Merkel (em nome da UE) e Erdogan para troca de refugiados a soldo de dinheiro. Diga-se, de passagem, que a Alemanha de hoje, por inspiração de Schäuble, pensa apenas em dinheiro.

As próximas horas, ou dias, ou mesmo semanas, poderão elucidar-nos acerca do que se passou. E os acontecimentos subsequentes permitirão compreender o que se jogou, ou se irá jogar no futuro. A Turquia continuará a ser, na expressão atribuída ao tsar Nicolau I "l'homme malade de l'Europe". Com um pé a pretender entrar agora na Europa e com outro a afastar-se dela.

Coitados dos turcos.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ATÉ QUANDO?




O ataque perpetrado ontem à noite em Nice é um acto horrível, que suscita profunda emoção e reclama a condenação absoluta do(s) seu(s) autor(es). Mas, independentemente da novidade do procedimento, não foi um ataque inesperado, uma vez que o autodenominado Estado Islâmico prometeu a prática continuada de acções semelhantes, designadamente em território europeu. Nem se pode dizer que a França estivesse desprevenida, pois, et pour cause, vigora desde os atentados de Paris o estado de emergência, que, aliás, foi agora prorrogado por mais três meses. A realidade ontem vivida em Nice permite-nos todavia concluir que tal estado excepcional para pouco ou nada serve, apesar de frequentemente nos ser dito que graças às medidas policiais foram evitados numerosos atentados nos últimos tempos. Como não temos acesso a essa informação, não a podemos confirmar ou infirmar.

Esta vaga de terrorismo dito islâmico, já que é suposto que todos os seus autores são muçulmanos e do qual o Daesh costuma reivindicar a autoria, tem assumido proporções significativas nos últimos anos, nomeadamente em solo europeu, mas não só (Istanbul, Baghdad, etc.,etc.), o que suscita a questão de saber se há dois alvos a atingir ou tão só dois meios de atingir o mesmo objectivo.

É incontroverso que esta onda de violência, nos presentes moldes, se iniciou após a invasão do Iraque, e a seguir da Líbia, com as tão aclamadas "primaveras árabes" e com a trágica guerra que continua a devastar a Síria.  É certo que o "mal-estar" no Médio Oriente e na África do Norte vem de trás: das colonizações francesa e britânica, com o propósito de uma "missão civilizadora"  junto de povos com civilizações muito anteriores à civilização ocidental, dos acordos Sykes/Picot, da Declaração Balfour, da criação do Estado de Israel, da manutenção manu militari da dinastia reinante na Arábia Saudita e principados aliados, etc. Mas nunca, antes da sinistra coligação encabeçada por Bush e Blair, se assistira ao espectáculo que aos nossos olhos é dado contemplar.

Tem insistido a comunicação social ocidental, sabe-se lá porque vias, que estamos face a um fundamentalismo islâmico e que as motivações destes actos terroristas é de carácter religioso. Oportunamente, os grandes islamólogos franceses vêm sustentando nos últimos tempos duas posições distintas: para uns, assiste-se a uma radicalização do islão, para outros a uma islamização do radicalismo. Tenho amigos nos defensores de ambas as correntes. Pessoalmente, partilho a segunda hipótese.

O modo como a França está gerindo esta crise, pois é já de uma crise que se trata, é risível. François Hollande, e com ele o seu governo com Manuel Valls à cabeça, ainda não compreendeu que não é declarando guerra ao terrorismo ou indo invadir outros países que resolverá o problema da segurança em França. Ainda há pouco tempo, Hollande preparava-se para invadir a Síria e derrubar o regime de Assad. No último minuto, graças a um telefonema de Obama, recuou, e a firmeza de  Vladimir Putin não foi alheia a essa decisão. Os terroristas são cidadãos franceses, nascidos e criados em França, e ocorrendo que a maioria tem antepassados árabes, nem sabemos das convicções religiosas profundas de muitos dos autores dos ataques. Sabemos, sim, que são normalmente indivíduos excluídos da sociedade e sem perspectivas de vida.

Acontece, também, que a Europa vem acolhendo no seu seio milhões de refugiados das guerras por ela e pelos Estados Unidos provocadas, embora não conste que haja refugiados entre os promotores dos atentados. Mas essa mão-de-obra barata, que tanto jeito faz ao Ocidente, e cujo ingresso no Velho Continente será impossível impedir (Umberto Eco dixit já há mais de vinte anos) constituirá um terreno de ressentimento propício a acções violentas.

Durante décadas a Europa tratou os imigrantes, nomeadamente os maghrebinos, como lixo. Assistimos agora ao reverso da medalha. Mesmo encerrando as fronteiras com muralhas, elas sempre serão permeáveis à passagem dos damnés de la terre (na expressão de Frantz Fanon). Nem o inenarrável "comércio" de Merkel com Erdogan, para os manter em "campos de concentração" na Turquia, servirá para alguma coisa.

Há ainda um aspecto curioso aquando destes ataques terroristas. Os seus autores, quando detidos, todos mortos à excepção de Salah Abdeslam, transportam sempre consigo a identificação,  permitindo às polícias investigar o seu passado e inquirir junto da família e vizinhos sobre os seus antecedentes. Como não acredito na tese de que pretendem averbar o seu registo como  mártires, fico sempre com imensas dúvidas acerca dessa preocupação identitária. Recordo-me, agora, de que os serviços policiais americanos, no dia seguinte ao ataque, informaram urbi et orbi que tinham encontrado entre os destroços das Torres Gémeas de Nova Iorque o passaporte de Mohammed el-Atta, um dos presumíveis desviadores de um dos aviões que colidiu contra as torres. Possivelmente intacto.

Muito haveria a escrever mas não vale a pena alongar-me. A questão do "terrorismo islâmico" é mais política do que religiosa. Nem se resolverá pela força das armas, antes pelo contrário. Consiga-se repor alguma ordem, se tal ainda for possível, no Médio Oriente, evite-se o aproveitamento que imams (ao serviço de quem?) fazem do descontentamento dos expulsos das suas terras, promova-se a melhoria de vida na região ao contrário de sugá-la até à última gota de petróleo e ao último jacto de gás.

Que obscuros interesses permitiram a rápida criação e armamento do Estado Islâmico, numa superfície superior à de Portugal? E porque susbsiste ainda hoje? Perguntas sem resposta!

Depois do mortífero atentado de ontem, ignoro que medidas adicionais poderá tomar Hollande, que protecção especial poderá reivindicar a Europa. Aguardemos. Mas compartilho do receio de todos aqueles que pensam que uma fuga para a frente só poderá comprometer ainda mais a segurança e a paz.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

AS MEMÓRIAS DE MAURICE ROSTAND




 "Maurice Rostand... Ce que je lui dois est innombrable et inestimable"

(Marcel Proust, Correspondance)


"Pour le brave coeur de Maurice Rostand je donnerais bien des intellects"

(Jean Cocteau, Le passé défini)


Consegui adquirir em França, há já alguns anos, num golpe de sorte, um exemplar usado das memórias de Maurice Rostand, Confession d'un demi-siècle (1948). Porque outras leituras se revelaram entretanto mais urgentes, só agora tive oportunidade de ler o livro onde o filho de Edmond Rostand (o célebre autor de L'Aiglon e de Cyrano de Bergerac) descreve a sua vida e a vida da família, o meio teatral francês, a sociedade parisiense da época, as amizades particulares (para utilizar a expressão de Roger Peyrefitte), enfim, muitas curiosidades de uma existência mundana na primeira metade do século passado.



Maurice Rostand (1891-1968), nasceu em Paris, foi autor de numerosos livros (teatro, romance, poesia) e algumas das suas peças obtiveram assinalável sucesso. Todavia, Maurice, irmão do famoso  cientista Jean Rostand, distinguiu-se especialmente por ter sido uma das mais evidentes personalidades homossexuais francesas do período que mediou entre as duas guerras mundiais.

Começa Maurice Rostand por evocar o seu nascimento, a infância, a juventude e a entrada na idade adulta. Tudo pontuado pela vida da família, especialmente do pai, que foi à época um dos grandes vultos do teatro francês. São contados os aspectos que rodearam a criação de algumas peças, designadamente Cyrano, e é omnipresente a figura de Sarah Bernhardt, que convivia de perto com Edmond Rostand, de quem foi amante e de cujas obras foi extraordinária intérprete. Aliás, Maurice não deixa de referir as muitas peculiaridades da famosíssima actriz, um dos ícones do teatro francês e mundial das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX.

A partir dos vinte anos, Maurice começa a relacionar-se com as principais personalidades da literatura e da vida social, nem sempre coincidentes, e conhece Jean Cocteau, Pierre Loti, Robert de Montesquiou, François Mauriac, Georges Feydeau, Léon Blum, Anna de Noailles, Abel Bonnard, Gabriele d'Annunzio, Duquesa de Pierrebourg, Marcel Proust, Ramon Fernandez (pai de Dominique Fernandez), Lucien Daudet, Don Louis d'Orléans-Bourbon (e os principais favoritos deste, o português António de Vasconcellos e o argentino José-Maria Soto, dois rapazes encantadores, segundo o autor),  Raymond Poincaré (que foi presidente da República Francesa), Francis Carco, Pierre Louÿs, Pierre Benoît, Maurice Sachs, Roland Dorgelès, Roger Peyrefitte, Guy des Cars, o marechal Lyautey, Sacha Guitry, etc., etc.

Ao longo da sua via, Maurice Rostand empenhou-se em exaltar a obra do pai, e quiçá seguir-lhe as pisadas, não tendo contudo, apesar de alguns romances e peças de teatro com aceitação, logrado alcançar a glória que os franceses tributaram a Edmond de Rostand. Nem foi recebido entre os Imortais, como o pai e o irmão Jean, pois a Academia Francesa não lhe abriu as portas.

Não quero deixar de realçar um aspecto digno de nota nestas memórias de Maurice Rostand: ao contrário de muitos escritores, que se servem deste género literário para ajustarem contas com terceiros, Maurice não diz mal nem dos amigos, nem dos concorrentes literários, resolutamente de ninguém. Ao invés, não perde a oportunidade para elogiar aqueles, que por uma ou outra razão, consigo se cruzaram ao longo de uma excitante vida. Auxiliou sempre quem necessitasse da sua influência ou mesmo do seu dinheiro, desinteressadamente, coisa já então rara. E mesmo quando uma obra literária não lhe agradava, encontrava nela algum mérito que lhe permitisse louvar o respectivo autor.

Católico, foi também um pacifista e um socialista, tal como o pai e o irmão. Dotado de uma cortesia extrema, aliada a um profundo sentido de humor, era um "coração de ouro", segundo o testemunho dos seus contemporâneos.



Em 1994, Christian Gury, advogado na Cour d'Appel de Paris e autor de várias obras sobre homossexuais franceses que se tornaram célebres (Proust, Barthes, o marechal Lyautey, o cardeal Grente, por exemplo), publicou L'extravagant Maurice Rostand - Un ami de Proust et de Cocteau, onde descreve, a traços largos, a carreira exuberante desta personagem, recorrendo em parte às suas memórias, mas acrescentando coisas que o filho de Edmond Rostand e de Rosemonde Gérard se abstém de contar, por natural discrição familiar. Ficamos assim a saber que o casal exemplar para o mundo era tudo menos isso, que Edmond teve inúmeras amantes mas manteve-se sempre insatisfeito (como Don Juan, o que leva Gury a suspeitar da sua homossexualidade "inconsciente") e que Rosemonde, que viveu até ao fim agarrada ao filho, teve também numerosos amantes, alguns amigos (e possivelmente mais do que isso) de Maurice.

O livro de Maurice Rostand, escrito naturalmente ao estilo peculiar do autor e à maneira de grande parte dos livros coevos do género, insistindo demasiado nas figuras que com ele se cruzaram no decorrer de uma vida aparentemente frívola, mas não tanto como se poderá deduzir à primeira vista, contém, todavia, alguns nacos de prosa que nada ficam a dever aos grandes escritores e consagra reflexões que revelam um conhecimento profundo dos homens (estou a referir-me à humanidade, como é óbvio) e das suas motivações mais profundas. Abrangendo o período que decorre do nascimento do autor até 1940 (depois da morte da mãe, sua eterna companheira, Maurice entrou em depressão profunda e passou os últimos anos da sua vida recolhido por seu irmão Jean), Confession d'un demi-siècle ilustra especialmente um período crucial da vida francesa, o intervalo entre as duas guerras mundiais, isto é, o fim de uma determinada maneira de estar e de viver, e o começo de outra que, alucinadamente se vem prolongando até aos nossos dias.

Desenganem-se, porém, os que pensam encontrar nestas memórias a descrição das aventuras sentimentais de Maurice Rostand. Em matéria de relações íntimas, que Maurice cultivou abertamente, o livro é de uma discrição que poderíamos considerar mesmo excessiva. Apenas uma frase ou outra permitem subentender que para lá de um convívio social existiu algo de mais profundo, o que sendo um mérito é também uma lacuna para a história dos costumes. Nem se poderá invocar o respeito pela privacidade alheia, já que a maioria das figuras envolvidas estaria morta à data da publicação da obra. Mas respeita-se, obviamente, a opção do autor.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A FRANCO-MAÇONARIA NO MUNDO ÁRABE





O último número da revista "Qantara" (Nº 99, Abril), inclui um dossier consagrado à Maçonaria no Mundo Árabe.

A Franco-Maçonaria foi introduzida muito cedo em terras do Islão. Reservada inicialmente apenas aos Ocidentais, abriu-se depois aos judeus e aos cristãos do Oriente e, a partir de meados do século XIX, aos muçulmanos.


Nas lojas do Médio Oriente reúnem-se os partidários da modernidade e do constitucionalismo, alguns dos quais desempenharão importante papel na agitação política da viragem do século XIX para o século XX. Essas lojas suscitam por vezes, curiosamente, uma aproximação entre os ritos maçónicos e os ritos sufis. Mas a maçonaria é atacada de muitos lados, acusada de exaltar a heresia e o ateísmo, senão mesmo, para alguns detratores, de servir interesses sionistas, o que os leva a invocar a existência de uma "conspiração judaico-maçónica". Depois das respectivas independências, a maçonaria será interdita na maioria dos países muçulmanos.

A Grande Loja de Inglaterra começa por fundar uma loja em Fort-William, nas Índias, em 1728. Uma segunda é constituída em Saint-Jean d'Acre (hoje Akko, em Israel), no Império Otomano. Seguem-se lojas em Esmirna, Constantinopla, nas Índias e até em Batavia (hoje Djakarta) na Sumatra, em 1764.

As principais obediências maçónicas activas em terras do Islão, no século XVIII, são as Grandes Lojas de Inglaterra e da Escócia, o Grande Oriente de Génève e a Loja-Mãe escocesa de Marselha.

Em nome do combate contra a ignorância, os franco-maçons fundam também escolas gratuitas, normalmente laicas, em Istanbul, Tunis, Alexandria e Tânger. Algumas cabeças coroadas entram discretamente na Ordem, como o sultão Murat V, da Turquia (1872), o khediva Muhammad Tawfiq, do Egipto (entre 1870 e 1880), o rei Habibullah, do Afeganistão (1907), o sultão Ibrahim, de Johore, na Malásia (1820) ou o rei Mulay Hafid, de Marrocos (1920).

Mas a Franco-Maçonaria, apesar da sua abertura aos muçulmanos, não deixa de ser um dos pilares do imperialismo britânico, tal como serve, na África do Norte, a "missão civilizadora" da França.

A primeira grande loja autónoma num país muçulmano aparece no Egipto, em 1864 e a seguir no Império Otomano, em 1909. Em meados do século XX,  a maior parte dos países muçulmanos possui as suas obediências autónomas, à excepção da Arábia Saudita, da Argélia, do Afeganistão e do Paquistão.

Em 1877, estala a unidade maçónica, com a secularização das obediências francesa (Grande Oriente de França), italiana e espanhola, que deixam de impor, contrariamente às regras antigas da Ordem, a crença em Deus (G:.A:.D:.U:., o Grande Arquitecto do Universo) aos futuros candidatos. Estas obediências rejeitam também o princípio da neutralidade política (uma regra tradicional da maçonaria britânica herdada dos clubes ingleses). Em consequência, a Franco-Maçonaria britânica, que continua a respeitar os antigos usos, põe termo às suas relações com as obediências secularizadas (que qualifica de irregulares), situação que se mantém até hoje.

Selo do Grande Oriente da Síria

Os muçulmanos, como os os cristãos e os judeus do Oriente ficam divididos face a esta ruptura. Muitos entendem manter a crença em Deus, mas têm dificuldade em se desinteressar das questões políticas. Um maçon cristão libanês, Jurjî Zaydan, descreve, no final do século XIX, a maçonaria como "um modelo de sociedade não confessional, mas estruturada em torno de crenças comuns a todos os indivíduos de tradição monoteísta: o grande arquitecto do universo, a imortalidade, o respeito da moral".

O franco-maçon Shukri al-Quwatli, primeiro presidente da República da Síria, no Parlamento de Damasco, após a sua eleição

A tolerância maçónica permitiu a recepção de judeus, desde o século XVIII, em Inglaterra e nos Países Baixos, numa organização originalmente de essência cristã, reaproximou católicos e protestantes, e favoreceu uma abertura mais alargada com o acolhimento de muçulmanos. A prestação do juramento, que se fazia tradicionalmente sobre a Bíblia, passou a fazer-se sobre o Corão, quando se tratava de novos membros muçulmanos. As lojas passaram a acolher também os ortodoxos, misturados aos católicos a aos protestantes. E nas lojas muçulmanas passaram a conviver sunitas e xiitas, ismaelitas, drusos e até zoroastrianos.

Tawfiq Pasha, khediva do Egipto, grão-mestre da Grande Loja Nacional do Egipto

Deve dizer-se, contudo, que a tolerância absoluta, que substituiu em 1877 a tolerância interconfessional, não exerceu grande atracção sobre os muçulmanos e os cristãos do Oriente, que preferiam partilhar o mesmo deus mais do que favorecer o ateísmo.

O Emir argelino Abdelkader

Em 19 de Agosto de 1864, tem lugar a iniciação de Abdelkader na loja francesa Les Pyramides d'Égypte, em Alexandria, a pedido da loja parisiense Henry IV, do Grande Oriente de França. Embora Abdelkader frequentasse pouco as lojas depois da sua iniciação, a sua entrada constituiu um acontecimento extraordinário, tendo em conta a personalidade emblemática do emir argelino, considerado o muçulmano esclarecido e o sufi franco-maçon.

Proclamação da iniciação do Emir Abdelkader

Desde muito cedo que os muçulmanos entenderam que a maçonaria seria parente próxima das suas próprias confrarias sufis, à medida que foram descobrindo as semelhanças entre os rituais de recepção, a estrutura hierárquica e o carácter secreto das duas organizações. Daí que a palavra árabe tariqa (via, caminho, confraria sufi) designe a ordem maçónica do Egipto à Indonésia. Nos anos 1860 os rituais maçónicos são traduzidos em árabe, turco otomano, persa e urdu.

Em 1738, o Papa Clemente XII, pela bula In eminenti apostolatus specula, proibiu os católicos de se tornarem membros de lojas maçónicas. Posteriormente, surgiram outras condenações, entre as quais a de Pio IX (Multiplices inter, 1865) e as de Leão XIII (Humanum genus, 1884 e Annum ingressi, 1902), um dos mais ferrenhos opositores da Ordem. As interdições pontifícias conduziram ao desenvolvimento de um anti-maçonismo em terras do Islão. Os padres católicos e ortodoxos não cessaram de recordar as disposições do Vaticano e os maçons foram acusados, em muitas regiões, de praticar a magia e de invocar o diabo.

O facto de o templo de Salomão ocupar um lugar central na mitologia maçónica levou os muçulmanos a pensar que os judeus estavam na origem da criação da Ordem. E a literatura anti-maçónica é lida em muitos países muçulmanos. Léo Taxil, que associa a maçonaria ao satanismo, é traduzido em Istanbul em 1911. E os Protocolos dos Sábios de Sião (1903) são vertidos, a partir de 1921, em árabe, turco, urdu, indonésio. No começo do século XX são emitidas diversas fatwas no Egipto e depois na Jordânia. Os jesuítas, principalmente no Líbano, fazem uma guerra implacável aos maçons desde o século XIX até ao princípio do século XX.

Selo da Loja Nouvelle Carthage, da Tunísia

Em resumo, poderíamos dizer que a crítica, que dura até hoje, contra a Franco-Maçonaria é fundamentada na teoria da conspiração que pretende que a maçonaria se tornou o instrumento da vingança dos judeus contra os Estados e as religiões que os perseguiram. A ordem maçónica é acusada de servir a causa do sionismo, com a instalação das primeiras comunidades judaicas na Palestina, a Declaração Balfour (1917), e sobretudo com a criação do Estado de Israel em 1948.

Outras críticas ligam a maçonaria às ideologias filosóficas e políticas rejeitadas pela maioria dos muçulmanos conservadores: o comunismo, o socialismo e até o capitalismo. Os partidos políticos nacionalistas fustigam o cosmopolitismo e o seu internacionalismo, que a seus olhos põe em perigo o patriotismo.

O franco-maçon Jurjî Zaydân, célebre escritor e editor libanês

Também é grave para os muçulmanos o facto de a maçonaria favorecer uma leitura esotérica do Corão ou de pretender encontrar o sentido oculto dos seus versículos. Isto conduziria a maçonaria a uma heresia abominável, o batinismo (de bâtin, secreto, oculto), com ligações com o ismaelismo. Este desvio religioso é o bastante para desencadear as fúrias dos teólogos do Islão sunita e xiita, dos salafistas e dos wahhabitas.

A emergência de novos Estados sobre as ruínas do Império Otomano após 1919, e em meados do século XX, a seguir à descolonização no Médio Oriente, no Egipto e no Maghreb, leva à interdição da Franco-Maçonaria e, por vezes, à perseguição dos seus membros. A Ordem é interdita no Iraque (1958), no Egipto (1964), na Síria (1965), na Argélia e na Tunísia, depois das independências. Mas também na Indonésia (1961) , no Paquistão (1972) e no Irão (1989).

Mantém-se, contudo, ainda que com dificuldades, em Marrocos e no Líbano. Continua a ser tolerada na Turquia, apesar de algumas tentativas parlamentares para promover a sua interdição. Existe, igualmente, em algumas províncias da Malásia. Depois da queda do comunismo, foi introduzida na Albânia, na Bósnia, no Kosovo, na Macedónia, na Bulgária.

O franco-maçon Mustafa Kemal Atatürk, primeiro presidente da República da Turquia

Podemos concluir que, em relação à primeira década do século XX, a Franco-Maçonaria declinou nitidamente no conjunto do mundo muçulmano.   A própria evolução da actual situação política na Turquia, com a progressiva islamização de uma sociedade que, desde Atatürk (ele mesmo um maçon) se pretendia laica, não augura perspectivas tranquilizadoras.

 * * * * *

Este post é largamente devedor do texto introdutório de Thierry Zarcone no dossier em referência. Que inclui capítulos especializados sobre a Maçonaria no Líbano, na Síria, no Egipto e no Maghreb. Não sendo possível analisar cada país de per si, recomenda-se aos interessados a consulta da revista "Qantara".


domingo, 26 de junho de 2016

AS ELEIÇÕES EM ESPANHA



As eleições legislativas de hoje em Espanha registaram um resultado que contrariou as primeiras sondagens. O PSOE manteve-se como segunda força política, não sendo ultrapassado pelo Podemos, como inicialmente se previu, mas ficando muito próxima. E o Ciudadanos, partido de centro-direita, baixou substancialmente a sua votação, com óbvia transferência de votos para o PP. A abstenção foi de 30%, o que manifesta um paradoxal e preocupante desinteresse da população (mas os cidadãos terão as suas razões).

Dos votos entretanto contados decorre que a Espanha se encontra dividida ao meio: a soma dos votos do PP e do Ciudadanos é sensivelmente igual à dos votos do PSOE e do Podemos. Isto é, temos duas Espanhas, uma de direita, conservadora, monárquica, católica e outra de esquerda, progressista, parcialmente republicana, laica. É por isso que recomendo a revisitação do livro de Fidelino de Figueiredo, As Duas Espanhas (1932), que referi aqui em 2011.


Aliás, esta partição ao meio dos países europeus é cada vez mais notória. O resultado do recente referendo no Reino Unido saldou-se praticamente por 50%/50%, com uma ligeira vantagem para o Brexit. As sondagens em França dão os resultados que se conhecem; na Itália, o Movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo, não pára de subir e obteve há dias a Câmara de Roma. E por aí fora.

Para além da questão direita/esquerda existe a questão das secessões. A Escócia vai certamente abandonar o Reino Unido, como já foi afirmado publicamente pela sua primeira-ministra. E aguardemos pela Irlanda do Norte. A Catalunha continua a reivindicar a independência (como o País Basco) e acabará por obtê-la, com a consequente desagregação da Espanha. A Flandres quer separar-se da Valónia. Isto para citar apenas os casos mais evidentes. Talvez estas aspirações não se manifestassem  não fora a Guerra da Jugoslávia, que a Alemanha incentivou e o Vaticano apadrinhou, mas agora é tarde.

Aguarda-se com curiosidade como será formado o próximo governo espanhol, já que se exclui, pelo menos em teoria, um terceiro escrutínio. Uma aliança do PP com o Ciudadanos não chega, uma aliança do PP com o PSOE será uma certidão de óbito para o segundo, uma aliança do PSOE com o Podemos implica a aceitação de um referendo na Catalunha, que o PSOE dificilmente aceitará.

À medida que têm lugar eleições na Europa mais periclitante é o destino da União Europeia. Depois do Brexit, da vitória do Syriza na Grécia (com um governo provisoria e tacticamente calado), do governo (apoiado à esquerda) do PS em Portugal, um governo de esquerda em Espanha seria um pesadelo para a União (leia-se, para a Alemanha), isto além do persistente espectro da Frente Nacional, em França, e dos movimentos italianos.

É por isso que os próximos tempos, os próximos meses até ao próximo ano, nos reservarão certamente algumas surpresas.