domingo, 3 de junho de 2012

TÂNGER, ANOS CINQUENTA



A escritora francesa Mona Thomas acabou de publicar um interessante livro, Tanger 54, sobre uma enigmática pintura comprada numa "feira da ladra" em Beuzeville.

Trata-se de um pastel com a inscrição "Will. S Burroughs TANGER 54".

Aproveita Mona Thomas para descrever a atmosfera de Tânger nos anos cinquenta, «une société exclusivement masculine, des fêtes et tout qu'il faut pour bien s'amuser». É nesta época que passam ou residem na cidade, ainda zona internacional e depois integrada no reino de Marrocos, algumas notáveis figuras das artes e das letras europeias e americanas. Referem-se Paul Bowles, Francis Bacon, William Burroughs, Tennessee Williams, Gore Vidal, Lucien Freud, Ian Fleming, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, a Beat Generation. Tânger, cidade que foi também lugar de eleição de Oscar Wilde, Paul Morand, André Gide, Jean Genet, Samuel Beckett, Truman Capote, Gertrude Stein, Roland Barthes, Michel Foucault e tantos outros vultos da cultura do século passado.



Como escreve, a propósito, Jérôme Garcin, no Nouvel Observateur, a cidade era «a capital de todos os prazeres interditos, paraíso artificial e inferno da prostituição», que oferecia as vantagens de uma cidade internacional, com oitenta e quatro bancos e mais de quinhentos bordéis, uma grande parte de rapazes.

As investigações da autora levaram-na a reconstituir algumas ligações homossexuais mais duradouras, especialmente as de Paul Bowles, escritor e compositor, que viveu cinquenta e dois anos na cidade, cuja obra se encontra traduzida em várias línguas, entre as quais a portuguesa, e cujo livro The Sheltering Sky (O Céu que nos protege), foi passado ao cinema por Bernardo Bertolucci. Manteve Bowles algumas relações continuadas, nomeadamente com os então muito jovens Mohamed M'rabet e Ahmed Yacoubi.

Refira-se, por curiosidade, que, de acordo com o seu site oficial na net, Paul Bowles viveu algum tempo em Portugal, na Costa da Caparica e em Albufeira.

Consultando numerosos documentos, e ouvindo os testemunhos dos que, ainda vivos, habitaram Tânger no seu "período áureo", que os marroquinos de hoje tentam apagar da história, Mona Thomas avança várias hipóteses, para o retratado e para o autor do desenho, considerando como provável que a pintura (a inscrição não é uma dedicatória) representa Ahmed Yacoubi, que foi amante intermitente de Francis Bacon, o célebre pintor que, a convite de Bowles, viajou até Tânger, onde passou largos períodos da sua vida. Sendo Yacoubi vocacionado para a pintura, Bacon muito o ajudou na sua carreira  e será do próprio Bacon a autoria do desenho. Existe uma única fotografia de ambos, que se reproduz.


Francis Bacon e Ahmed Yacoubi

Das peripécias para a identificação do desenho não cabe aqui falar (leia-se o livro) nem do que, durante muitos anos, Tânger representou para o imaginário (e o real) ocidental. Existe vasta bibliografia e, do ponto de vista dos autóctones, é fundamental a leitura dos livros de outro jovem, Mohamed Choukri, mais tarde publicados em francês e amplamente difundidos, sendo o mais significativo de todos Le pain nu, até há poucos anos proibido em Marrocos.

Regista-se aqui a edição de Tanger 54 para despertar o interesse dos estudiosos por um período riquíssimo de criação cultural, para lá dos aspectos do foro íntimo, também eles testemunho de uma época e de uma cultura ainda não sujeitas ao "politicamente correcto".

sábado, 2 de junho de 2012

O GOLO DE NANI


No jogo desta noite contra a Turquia, em que Portugal perdeu por 1-3, a honra da equipa salvou-se por um notável golo de Nani.

A turma nacional mostrou alguma desorientação, mau prelúdio para o próximo campeonato.

É justo referir-se que Nani é, hoje, um dos mais dotados futebolistas portugueses, e daqui lhe endereçamos as nossas felicitações, esperando que evidencie claramente os seus atributos nos desafios que se aproximam.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

OS SERVIÇOS SECRETOS



Nos últimos dias, em que tanto se tem falado de serviços secretos, e de relatórios sobre vidas privadas, resolvi reler um interessante trabalho do escritor e jornalista francês Gérard de Villiers, publicado em 1972 sob o título Brigade mondaine - Dossiers secrets. Neste livro, recolhe o escritor as histórias (algumas tocam o inverosímil), que lhe foram contadas pelo oficial de polícia Maurice Vincent, que foi chefe da equipa de estupefacientes da Polícia Judiciária francesa. 

Pertencendo durante vários anos à Brigade mondaine, criada em 1910 com o nome Brigade des Moeurs, depois rebaptizada, Maurice Vincent, também professor da École Supérieure de Police, efectuou as suas revelações após ter passado à situação de reforma.

Neste curioso livro, relatam-se vários episódios (que são um contributo para a história dos costumes em Paris na primeira metade do século passado) relativos aos "vícios" (as aspas são minhas) mais usuais da capital francesa: prostituição feminina e masculina, proxenetismo, pornografia, partousards du Bois, sadomasoquismo, voyeurs, exibicionistas, zoófilos, homossexualidade (trop voyante ou agressive), droga, aborto, adultério na alta sociedade, chantagem, etc.

Os protagonistas destes affaires não são identificados pelos nomes autênticos, o que preserva a sua intimidade.

Refira-se, a propósito, que Gérard de Villiers publicou posteriormente outros livros sobre matéria conexa, e é autor da série de espionagem SAS, com mais de 150 milhões de exemplares vendidos e tradução em diversas línguas. Antecipou nos seus livros os assassinatos do presidente Anwar El-Sadat, do Egipto, e da primeira-ministra indiana Indira Gandhi.

Os costumes de hoje em Paris, ou ailleurs, já não se apresentam de forma idêntica à que é relatada no livro (globalização oblige), mas a essência permanece sem grandes alterações. Poderosa é a natureza humana.

Um livro que merece ser lido.

terça-feira, 29 de maio de 2012

AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO EGIPTO

Mohammed Morsi


Realizada nos passados dias 23 e 24 deste mês a primeira volta das eleições presidenciais egípcias, os resultados deste escrutínio são, segundo as últimas informações divulgadas pelo "Guardian" e a Al Jazira, os seguintes:

- Mohammed Morsi - 5.764.952 - 24,3 %

- Ahmed Shafiq - 5.505.327 - 23,3 %

- Hamdin Sabahi - 4.820.273 - 20, 4 %

- Abdel Moneim Abul Fotuh - 4.065.239 - 17,2 %

- Amr Mussa - 2.588.850 - 10,9 %

- Os restantes candidatos obtiveram um número de votos residual.

A segunda volta terá lugar nos dias 16 e 17 de Junho, em que estarão em confronto o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohammed Morsi,e o candidato ex-primeiro-ministro de Mubarak, o marechal Ahmed Shafiq.

Segundo o presidente da Comissão Eleitoral, Faruq Sultan, a participação na primeira volta cifrou-se em 46 % dos eleitores.

Os resultados do escrutínio, admitindo que não se verificaram irregularidades na votação (especula-se sobre a existência de centenas de milhar de votos fraudulentos), são, no mínimo, curiosos.

O candidato da Irmandade Muçulmana, que é uma segunda escolha, já que o primitivo candidato foi recusado pela Comissão Eleitoral, por não reunir as condições previstas na lei, obteve surpreendentemente mais um milhão e meio de votos que Abdel Fotuh, ex-membro da Irmandade e que se prefigurava como o favorito dos islamistas moderados. Por outro lado, o marechal Ahmed Shafiq, que foi o último primeiro-ministro de Hosni Mubarak, quase se lhe igualou em número de votos. Quanto a Hamdin Sabahi, a esperança dos liberais e que representaria uma solução de compromisso, não conseguiu passar à segunda volta. Também surpreendente é a fraca votação em Amr Mussa, que foi, em tempos, ministro dos Negócios Estrangeiros de Mubarak e depois, durante anos, secretário-geral da Liga Árabe.

Estão, pois, os egípcios, perante um cruel dilema: ou votam em Morsi, e terão um membro da Irmandade na presidência da República (note-se que os Irmãos já dominam a Assembleia Nacional) o que poderá conduzir a um governo islâmico com tendência a evoluir para uma ditadura religiosa; ou votam em Shafiq, com tudo o que isso significa de retorno ao anterior regime e terão um governo com tendência a evoluir para uma ditadura tipo Mubarak. Quanto à distribuição dos votos dos candidatos que não passaram à segunda volta, as intenções terão não só a ver com as indicações de voto destes aos eleitores, como à própria disposição dos eleitores. Se os votos de Fotuh passassem em bloco para Morsi, este obteria cerca de dez milhões, o que ultrapassaria Shafiq, que não poderá contar certamente com a globalidade dos votantes em Sabahi nem mesmo com todos os votos recebidos por Mussa. Teríamos, assim, Morsi como presidente, à segunda volta, um cenário possível.

Acontece, todavia, que muitos egípcios, sobretudo nas principais cidades, estão francamente desiludidos com o caminho da Revolução. A situação económica é crítica, o turismo, uma das principais fontes de recita, caiu a pique, a segurança pública tornou-se uma prioridade perante a onda de crimes que avassala o país. Depois, todos os não-muçulmanos (coptas à cabeça) receiam, com razão, a instalação de um poder islâmico. Estamos a falar de cerca de 15% da população.

Os egípcios (especialmente a juventude das cidades) que dinamizou a Revolução, pretendia um governo mais ou menos laico. Mas, nas eleições legislativas, os Irmãos e os salafistas tiveram 70 % dos votos. Os revolucionários manifestaram uma ingénua ignorância quanto ao Egipto profundo. É agora uma ironia do destino terem de escolher entre um islamista e um ex-ministro do anterior regime.

Para lá, contudo, dos resultados eleitorais, existe ainda uma condicionante: as Forças Armadas, que detêm uma parcela significativa do poder económico do país. Não tendo o Egipto, ainda, uma nova Constituição, sempre as Forças Armadas poderão regular os poderes do novo presidente. E, em caso extremo, estou certo de que não hesitarão em intervir, para garantir aquilo que consideram as linhas vermelhas que não poderão ser ultrapassadas: ligação ao Ocidente, acordos com Israel, manutenção do poder económico da esfera militar.

É da história que, em matéria de revoluções, sabe-se como começam mas nunca se sabe como acabam.

Aguardemos, por isso, com expectativa, os resultados do próximo escrutínio e os acontecimentos ulteriores.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

GÜNTER GRASS E A EUROPA



O escritor alemão Günter Grass (Prémio Nobel da Literatura 1999) publicou no jornal Süddeutsche Zeitung um poema em que critica a Europa (leia-se, a Alemanha) pela sua política em relação à Grécia, lamentando a humilhação que está a ser infligida a este país. O poema de Grass surge após as infelizes declarações de Christine Lagarde, directora do Fundo Monetário Internacional, que afirmou serem mais dignas de compaixão as crianças da África subsahariana do que as crianças de Atenas. E é também um ataque à política de austeridade cega preconizada pela chancelerina Angela Merkel.

Este poema de Günter Grass é o segundo texto do Nobel, em menos de dois meses, a provocar profunda polémica, quer na Alemanha, quer a nível internacional. Recorde-se que anteriormente Grass tinha afirmado que é Israel e não o Irão quem, devido ao seu potencial nuclear, ameaça a paz mundial, o que lhe valeu ser considerado persona non grata pelo governo judaico.

Publicamos, abaixo, o poema integral, na tradução de Carlos Leite, que retirámos do blogue "aventar":

A Vergonha da Europa

À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
Tu estás longe da terra que te serviu de berço.

O que buscou a Tua alma e encontrou
rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.

Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.

À pobreza condenada a terra da sofisticação
e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.

Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas
abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.

País a custo tolerado cujos coronéis
toleraste outrora na Tua Aliança.

Terra sem direitos a quem o poder
do dogma aperta o cinto mais e mais.

Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro
o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.

Contudo os sósias de Creso foram em procissão entesourar
fora de portas tudo o que tem a luz do ouro.

Bebe duma vez, bebe! grita a claque dos comissários,
mas Sócrates devolve-Te, irado, a taça cheia até à borda.

Os deuses amaldiçoarão em coro quem és e o que tens
se a Tua vontade exige a venda do Olimpo.

Sem a terra cujo espírito Te concebeu, Europa,
murcharás estupidamente.

sábado, 26 de maio de 2012

A DESAGREGAÇÃO PROGRAMADA DA EUROPA



O cientista político francês Pierre Hilard publicou em 2005 uma obra de profunda acuidade, La décomposition des nations européennes, de que saíu, há meses, uma segunda edição aumentada.

Porque se trata de um trabalho de notável reflexão sobre a desagregação planificada dos países europeus que, com avanços e recuos, segue uma trajectória que os seus autores pretendem irreversível, e atendendo à situação que hoje se vive no Velho Continente, afigura-se conveniente tecer algumas considerações sobre tão importante obra.

No Balanço introdutório, Hillard considera que a ratificação do Tratado de Lisboa e a eleição de Herman van Rompuy para a presidência do Conselho Europeu, em 2009, marca uma viragem decisiva nas ambições mundialistas. Segundo o autor, a União Europeia não é mais do que a componente de um vasto programa visando a emergência de blocos continentais dotados, cada um, de uma moeda, uma cidadania, um parlamento único, etc., devendo o conjunto destes blocos tonar-se num governo mundial. Citam-se outros blocos em formação ou já constituídos: Comunidade Económica Euroasiática (Rússia, Bielorússia, Cazaquistão, etc.); União das Nações Sul-Americanas (todo o continente à excepção da Guiana Francesa); Sistema de Integração Centro-Americano (América Central); Organização da Unidade Africana (depois União Africana); Conselho de Cooperação do Golfo; uma união asiática (sob a égide de três actores principais: Japão, China e Coreia do Sul); uma união norte-americana (englobando os Estados Unidos, o Canadá e o México).

Procede Pierre Hillard a uma rápida digressão sobre o poderio financeiro e aristocrático anglo-saxónico, desde a instauração da Magna Carta. Refere as companhias London Staplers, London Mercers Company e British East India Company, como pontas de lança do imperialismo britânico. Detém-se em Cecil Rhodes (curiosa figura, que viveu sempre rodeado das suas jovens amizades masculinas), ardoroso defensor do Império Britânico, convencido da superioridade da "raça" anglo-saxónica cuja preeminência deveria ser assegurada pela união de todos os países anglo-saxónicos (ou, mais exactamente, pela instauração de um bloco reunindo o Império Britânico e os Estados Unidos), precursor da ligação ininterrupta do domínio britânico do Cairo ao Cabo (que inutilizou o português mapa cor-de-rosa) e cujo nome haveria de ser dado a uma colónia britânica, a Rodésia, depois dividida em Rodésia do Norte e Rodésia do Sul, hoje os países independentes Zâmbia e Zimbabwe. A sua acção foi continuada por Lord Alfred Milner, seu sucessor e filho espiritual, que foi chefe do gabinete de guerra do primeiro-ministro Lloyd George durante o conflito 1914/1918, e a quem se deve realmente a redacção da célebre Declaração Balfour (emanada do ministro britânico dos Estrangeiros Arthur James Balfour) e dirigida a Lord Walter Rothschild, líder da comunidade judaica britânica, a fim de ser transmitida à Federação Sionista Internacional, e que preconizava a instalação na Palestina de um Lar Nacional para o Povo Judeu.

Cita-se também Lionel Curtis, participante do Tratado de Versalhes  e autor da expressão Commonwealth of Nations e que teve um papel determinante na criação do think tank inglês, o Royal Institut of International Affairs (RIIA), conhecido como Chatam House (1920). E a Sociedade Fabiana (1884), impulsionada por Sydney Webb, George Bernard Shaw, Robert Owen, John Ruskin, etc., e cuja designação deriva do nome de Fabius Cunctator (contemporizador), general romano do tempo das guerras púnicas que praticava a política de guerrilha a fim de atingir os seus fins sem brusquidão mas implacavelmente. Os fabianos estiveram na origem da criação da London School of Economics, que formou no seu espírito gerações de políticos não só ingleses como de outras nacionalidades. Impregnado do ideal fabiano, o escritor Herbert George Wells desenvolveu os seus pontos de vista em numerosos livros, nomeadamente em The Open Conspiracy (1928), em que preconiza um estado mundial controlando tudo, e The New World Order (1940), em que retoma o tema da nova ordem mundial.

Outra instituição visando a criação do estado mundial é a Round Table (1910), devida a Lord Milner que, sendo grande admirador de Karl Marx, convenceu Lloyd George a apoiar firmemente a revolução bolchevique. Para dotar a Round Table de maior eficácia, foi decidido criar dois think tank em ambas as margens do Atlântico: do lado inglês, o já citado RIIA, do lado americano, o Council on Foreign Relations (CFR), em 1921, sob a égide de Edward Mandell House, conselheiro do presidente Wilson e personagem central entre o grupo Milner e os grandes de Wall Street (J.P. Morgan, Vanderlip, Rockfeller, Warburg, etc.). Warburg, que esteve à frente da Reserva Federal Americana (FED) desde a sua criação (1913), foi uma figura de primeiro plano na oligarquia anglo-saxónica.

Um outro instituto chamado a desempenhar um papel de primeiro plano na construção europeia é a Paneurope. Criada devido á acção do aristocrata austríaco Richard de Coudenhove-Kalergi (1894-1972), o seu objectivo era a unificação da Europa a fim de a integrar no quadro de uma organização política  mundial unificada. O seu primeiro congresso paneuropeu teve lugar em Viena, em 1926, sob a égide do presidente do Conselho francês Aristide Briand, que era o seu presidente de honra. Kalergi contribuiu largamente para a união parlamentar europeia, permitindo a criação, em 1949, do Conselho da Europa, e recebeu em 1950 o Prémio Carlos Magno, a mais alta distinção europeísta. Sucedeu-lhe à cabeça da Paneurope o arquiduque Otto de Habsburgo.

Nas manobras tendentes à concretização do governo mundial, importa referir a importância, óbvia, dos meios financeiros, muito bem explicada na obra que apreciamos. O apoio prestado pela aristocracia comercial e apátrida anglo-saxónica ao comunismo, ao nazismo e à tomada do poder por Franklin Delano Roosevelt encontra-se descrita na trilogia de Antony Sutton: Wall Street and the Bolshevik Revolution: The Remarkable True Story of the American Capitalists Who Financed the Russian Communists; Wall Street and the Rise of Hitler e Wall Street and FDR. Parecendo uma contradição, Sutton sustenta que o socialismo soviético, o nacional-socialismo e o New Deal são designações diferentes para a instalação de um socialismo monopolístico, ideal de organização que deveria ver o dia à escala planetária no quadro da nova ordem mundial. A guerra de 1939-1945 alterou os dados mas permitiu  a instauração de dois blocos aparentemente antagonistas mas obedecendo ao princípio hegeliano da tese e da antítese, sendo os dois mundos irrigados pelas mesmas fontes financeiras.

Após a Segunda Guerra Mundial, foi Winston Churchill quem relançou a ideia da unificação da Europa, no discurso de Zurique de 19 de Setembro de 1946: "É preciso construirmos uma espécie de Estados Unidos da Europa".

Uma outra etapa é a criação em Montreux (Suíça), em Agosto de 1947, sob a égide de Max Habicht do World Federalist Movement (WFM) e da Union of European Federalists (UEF). A Declaração da WFM propõe, entre outras coisas, a "limitação das soberanias nacionais", a "transferência para a Confederação dos poderes legislativo, executivo e judicial", a "criação de uma força armada supra-nacional" e "uma justa perspectiva federalista que deve integrar os esforços feitos nos planos regional e funcional. A formação de uniões regionais (sublinhado do autor) - na medida em que não constituem um fim em si e não correm o risco de se cristalizar em blocos - pode e deve contribuir para o bom funcionamento da Confederação mundial". Paralelamente, a UEF defende o ideal de uma Europa unificada segundo o princípio federal e inspirada no modelo suíço. Tem "filiais" em vários países europeus e inspirou a "Constituição Giscard", que foi um prelúdio ao Tratado de Lisboa. O "grupo Milner" e os fabianos foram sempre favoráveis à unificação da Europa,desde que esta se fizesse sob direcção anglo-saxónica. Por isso, no decurso das duas guerras mundiais, as tentativas de unidade europeia sob direcção alemã, potência terrestre, não podiam ser aceites por Londres e por Washington, porque a talassocracia anglo-saxónica se encontrava excluída dos assuntos do velho continente.

O Congresso da Haia (7-10 maio 1948), sob a presidência de honra de Churchill, que reuniu cerca de 800 militantes pró-europeus, lançou os primeiros fundamentos de uma Europa unificada. A figura de proa deste Congresso foi o seu secretário-geral Joseph Retinger (1888-1960), que, como a maioria dos verdadeiros actores da história, permaneceu nos bastidores.


Não cabe aqui referir todos os aspectos, personalidades, organizações e acontecimentos mencionados por Pierre Hillard. Anotemos apenas  a Fundação Bertelsmann, o Clube de Bilderberg (cujo primeiro presidente foi o príncipe Bernardo da Holanda e é hoje dirigida pelo visconde Étienne Davignon), a Trilateral (criada em 1973 por David Rockfeller e Zbigniew Brzezinski), o Komitee für eine Demokratische UNO (KDUN), a própria Igreja Católica (declarações de João XXIII e Bento XVI). Tudo coroado pelo Tratado de Lisboa. Na prossecução dos objectivos descritos importa não esquecer a acção das principais figuras das realezas europeias.

Cita-se o curioso pormenor de Herman van Rompuy, que foi convidado por Davignon para presidente do Conselho Europeu, ter sido submetido previamente a uma prova oral, em 12 de Novembro de 2009, perante os representantes do Clube de Bilderberg, entre os quais o antigo secretário de Estado americano Henry Kissinger.

Transcrevemos a conclusão da Introdução de Hillard:

«Cette rapide description de l'histoire des tenants du mondialisme remontant du Moyen Âge jusqu'au début du XXIe siècle souligne que cette tendance est très ancienne. Elle repose sur une cupidité sans limites, le contrôle complet des richesses planétaires et le rejet d'une autorité spirituelle qui rappelait la primauté de l'au-delà sur la recherche effrené des biens terrestres. Cette évolution n'a fait que prendre de la vitesse au fur et à mesure que le "clergé" mondialiste, successeur de Nimrod, réussissait à imposer son mode de pensée au niveau temporel et spirituel en faveur du nouvel ordre mondial. Depuis la chute du mur de Berlin, les événements s'accélerent; la crise aussi. La décennie 2010 sera décisive por le genre humain car le mondialisme est un messianisme pressé. Que peut-on dire d'autre? Humainement, ils ont gagné la partie... fermez le ban.»

Recomenda-se a leitura do livro para se perceber bem como a primazia outorgada aos regionalismos em detrimento das unidades nacionais é vital para o desmembramento das nações europeias. Um programa prosseguido com avanços e recuos, mas cujo objectivo permanece inalterado. Nesta obra constata-se igualmente a progressiva preponderância da Alemanha sobre o resto do continente europeu, na tradição do Santo Império Romano-Germânico (o Primeiro Reich). Aniquilados o Segundo e o Terceiro, os alemães tentam agora impor o Quarto.Uma "composição" de interesses devidamente analisada por Hillard, a partir das unidades de regionalização transfronteiriças alemãs.

Serão os homens mais felizes se, destruídas as nações, forem dirigidos por um Governo Europeu? Ou, caso extremo, por um Governo Mundial? Parece altamente improvável! Num mundo que apenas sacrifica no altar da finança, será o "socialismo" teoricamente subjacente a alguns dos ideais unitários um socialismo real ou apenas um simulacro para satisfação das oligarquias reinantes? Cabe a cada um tirar as devidas conclusões.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

MAIS UM INCÊNDIO



Esta manhã, o fogo destruiu mais um prédio no centro de Lisboa. O edifício nº 253 da Rua da Palma, agora consumido pelas chamas, era ocupado pela Pensão Residencial Noite Cristalina, no 1º e 2º pisos, existindo no rés-do-chão um supermercado nepalês e uma loja de carregamento de telemóveis.



É oportuno recordar que o imóvel foi sede da Federação Espírita (encerrada pelo Estado Novo), quando existia no piso térreo o célebre Cinema Rex, espaço que foi mais tarde ocupado, durante um curto período, pelo Teatro Laura Alves.



Depois do incêndio de hoje no prédio, que é propriedade particular mas cujos donos não compareceram no local, segundo informa o PÚBLICO, restarão no local mais uns escombros a acrescentar a todos os restos de imóveis destruídos pelo fogo nos últimos anos no centro da cidade, e em cujos locais se erguem depois novas construções.

As causas do sinistro são desconhecidas, e nunca serão provavelmente conhecidas, pelo menos dos cidadãos, como é de uso nestes casos.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ATENTADO NO IÉMEN



Desde que os Estados Unidos e seus comparsas invadiram o Afeganistão, depois do suposto ataque da Al-Qaeda a Nova Iorque e Washington, que não houve mais descanso no Mundo Árabe. Até parece que os acontecimentos se sucedem segundo um cenário previamente preparado.

Ontem em Sana'a, capital do Iémen, um bombista disfarçado de soldado, fez-se explodir durante o ensaio de uma parada militar que deveria comemorar o 22º aniversário da reunificação do norte e do sul do país. O atentado saldou-se por uma centena de mortos e várias centenas de feridos, no mais sangrento incidente até hoje verificado na cidade.

Segundo a Al Jazira, o ataque foi reivindicado pela Al-Qaeda, autoria também reclamada pela Ansar Al-Sharia, uma filial daquela organização na Península Arábica. Na confusão reinante, é, de facto, difícil, saber quem faz o quê. A evolução dos acontecimentos, que hoje se processa mais rapidamente do que no passado, permitir-nos-á, num futuro próximo, determinar com alguma certeza quais os interessados na desestabilização que assola todo o Médio Oriente desde há uma década. Como nos permitiu saber quem foram os autores, em épocas transactas, dos conflitos que abalaram esta tão sacrificada região.