quarta-feira, 11 de maio de 2011
INCIDENTES EM ATENAS
Verificaram-se hoje violentos confrontos em Atenas e noutras cidades gregas para protestar contra o novo plano de austeridade exigido pela União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Centenas de milhar de pessoas desfilaram pelas ruas da capital helénica entoando slogans e empunhando cartazes. Em cumprimento da greve geral decretada pelos sindicatos, foram paralisadas as comunicações aéreas, ferroviárias e marítimas, não houve transportes públicos e as escolas, organismos ministeriais e autárquicos e hospitais (salvo os serviços de urgência) estiveram encerrados. Também não houve jornais.
Os gregos estão descontentes com o o plano de reestruturação da dívida, que exigirá novos sacrifícios a juntar aos que vêm sendo impostos á população.
Por outro lado notícias, entretanto desmentidas, anunciaram que a Grécia seria obrigada a abandonar o euro e a própria União Europeia, o que seria o prelúdio da desagregação da União, que aliás está já em movimento, com vários países, como a França, a Itália, a Dinamarca, a Bélgica a suspenderem os acordos de Schengen.
A manutenção do funcionamento da União Europeia nos moldes actuais exigiria que os dirigentes dos países que a integram fossem pessoas competentes, sérias, empenhadas na consolidação de um sistema complexo, dada a diversidade cultural, política e económica dos estados-membros. Sendo a União dirigida na generalidade por mentecaptos desonestos, mais vale que a mesma se desintegre e que cada um siga o seu caminho.
TERRAMOTO EM ESPANHA
Dois sismos consecutivos de magnitude 4,5 e 5,1 na escala de Richter foram registados hoje pelas 17.30 horas, em Lorca, nos arredores de Murcia, provocando pelo menos 12 mortos e dezenas de feridos, além de notáveis prejuízos materiais, tendo-se verificado desmoronamentos em igrejas, palácios e muitas residências. O presidente do governo espanhol, José Luís Zapatero, enviou unidades do exército para Lorca e o vice-presidente encontra-se a caminho do local.
Por ironia do destino, estava previsto para hoje, um terramoto em Roma, o que levou parte da população a abandonar a Cidade Eterna. A profecia, do sismólogo e astrónomo Raffaele Bendani, tem mais de 30 anos e foi levada muito a sério pelos italianos, embora a Fundação que tem o seu nome não confirme a existência de qualquer documento alusivo ao facto. No entanto, a protecção civil italiana manteve-se hoje de prevenção.
É de notar que grandes catástrofes tem assolado o mundo recentemente com uma inusitada frequência.
terça-feira, 10 de maio de 2011
A PROPÓSITO DE MINA
Noticiaram ontem os jornais que em resultado dos confrontos religiosos ocorridos na véspera no Cairo, entre cristãos coptas e muçulmanos, se registaram 12 mortos e 232 feridos. Foram detidas 190 pessoas, que, segundo o governo, serão julgadas pelo Supremo Tribunal Militar. É bom que a Junta Militar que dirige o país, após a queda do presidente Hosni Mubarak, mantenha a ordem e a tranquilidade públicas, evitando o aproveitamento da situação para acentuar as clivagens entre a maioria muçulmana sunita e a minoria cristã copta.
A violência ocorreu em Imbaba, um dos "bairros" ocidentais do Cairo, na margem esquerda do Nilo, uma das zonas mais pobres da cidade. O pretexto para a eclosão da violência foi o presumido sequestro de uma mulher que se teria convertida ao islão e que os cristãos manteria sequestrada numa igreja. Os muçulmanos salafitas (fundamentalistas islâmicos que defendem a adopção da sharia) incendiaram as igrejas de São Mina e de Santa Maria, por entre troca de tiros e de bombas incendiárias.
Para lá do relato dos incidentes, que demonstram a instabilidade política no Egipto e a acção de minorias religiosas dispostas a aproveitar o interregno do regime, até à adopção da nova Constituição e à eleição de um novo presidente da República, deve salientar-se a forma pouco cuidada como a imprensa portuguesa relata não só os acontecimentos mas os nomes egípcios.
Quero notar que MINA é um santo e não uma santa. Portanto SÃO MINA e não Santa Mina, como vem noticiado no PÚBLICO (edição impressa de ontem, a edição online já foi alterada, omitindo-se a referência) e no "Correio da Manhã". Pede-se, por isso, aos jornalistas que não troquem o sexo dos santos.
SÃO MINA (285 - 309 ?) é um dos santos mais conhecidos não só no Egipto mas em todo o Médio Oriente. A sua festa é celebrada a 24 de Novembro pela Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria ou a 11 de Novembro em outras localidades. Mina ingressou no exército romano com 15 anos, mas três anos depois abandonou as forças armadas para se dedicar inteiramente a Cristo, retirando-se para o deserto. Durante o período em que viveu como eremita ouviu vozes que lhe disseram ser ele um abençoado desde a infância por três razões: o celibato (Mina não conheceu mulher), o ascetismo e o martírio. Depois desta revelação, Mina proclamou publicamente a sua fé e morreu como mártir. São-lhe atribuídos muitos milagres. Após a sua morte, foi sepultado na vizinhança de Alexandria, próximo do Lago Maryut . O Patriarca Copta de Alexandria, (Papa) Cirilo VI, mandou erguer um mosteiro em sua honra, perto do local da sua tumba inicial e da igreja que abrigou os seus restos mortais e que foi destruída durante a invasão árabe no século VIII. Nesse mosteiro, um dos mais famosos do Egipto, repousam hoje as relíquias do santo e os restos mortais de Cirilo VI.
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| Igreja de São Mina no Cairo e Mosteiro de São Mina em Alexandria |
Existia no Museu Greco-Romano de Alexandria (em obras, e encerrado, desde há mais de dez anos) uma famosa estela de São Mina (que tive ocasião de fotografar) e que se encontra hoje no novo Museu Nacional de Alexandria (onde também já me foi dado contemplá-la).
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| São Mina rodeado pelos dois camelos da lenda |
FRANÇOIS MITTERRAND
Pode concordar-se ou discordar-se das opções políticas e da trajectória pessoal de François Mitterrand. Não se pode negar, todavia, que foi um dos últimos estadistas franceses e europeus. Nesta época em que praticamente só se conhece lixo ambulante, importa registar a efeméride (30º aniversário da sua eleição como presidente da França) e lamentar que a Europa, toda a Europa, tenha chegado ao estado de anomia (como Durkheim explicava) a que chegou.
"Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis", para a Europa,
segunda-feira, 9 de maio de 2011
UM PASTOR PERTURBADOR
King Roger (Król Roger), de Karol Szymanowski, na Ópera da Bastilha (Paris), em 2009. Direcção de Kazushi Ono. Encenação de Krzysztof Warlikowski. Interpretação de Mariusz Kwiecien (King Roger), Olga Pasychnik (Roksana), Stefan Margita (Edrisi) e Eric Cutler (Pastor).
O compositor e pianista polaco Karol Szymanowski (1882-1937), compôs o Rei Roger em 1924. Homem de gosto requintado, autor de vários concertos e sinfonias, foi também poeta e autor de um romance (Efebos), destruído parcialmente pelo fogo em 1939, mas cujo capítulo central ("Symposium"), traduzido para russo, foi oferecido em 1919 a um seu amigo, o bailarino Boris Kochno, então com 15 anos, e que veio a ser mais tarde secretário e principal colaborador de Sergei Diaghilev, fundador dos Ballets Russes.
Szymanowski, um autêntico esteta, viajou pelo mundo, especialmente pelo, Maghreb, Médio Oriente e Sicília, ilha onde se inspirou para compor a ópera Rei Roger, inspirada na figura do rei Rogério II da Sicília (1095-1112-1154), monarca que governou também o sul da Itália e a África do Norte. Educado por preceptores gregos e árabes, cuja cultura apreendeu, Rogério II falava correctamente as línguas dos seus mestres e manifestou sempre grande paixão pelo mundo islâmico, tendo a sua corte sido um lugar de convivência de cristãos, judeus e muçulmanos.
domingo, 8 de maio de 2011
O CEMITÉRIO DE PRAGA
Foi publicada há dias a tradução portuguesa do último livro de Umberto Eco, O Cemitério de Praga. Trata-se de um grosso volume, de perto de 600 páginas, na linha das anteriores obras de ficção do autor, desde o seu primeiro e grande êxito editorial, O Nome da Rosa. Umberto Eco alia à intriga romanesca uma espantosa erudição, aliás própria de um mestre de Bolonha. (Qualquer semelhança com o "Processo de Bolonha" é pura e lamentável coincidência). Contudo, convém dizer desde já duas coisas. Primeiro, que a abundância de pormenores que recheiam o livro não só não facilita a leitura como a torna, por vezes, fastidiosa; com 200 páginas a menos a obra lucraria bastante em compreensão sem prejudicar quer o enredo, quer os detalhes que o autor julga indispensáveis, quer mesmo a mensagem que Eco pretende transmitir. Em segundo lugar, a tradução não é propriamente exemplar, e a designação de muitas instituições e cerimónias e de muitos acontecimentos históricos tem na língua portuguesa expressões já consagradas que o tradutor não utilizou, encontrando certamente equivalentes ad hoc da língua italiana. Apenas um exemplo: onde se lê Superior Artífice do Universo deveria estar Supremo Arquitecto do Universo.
No livro agora editado em Portugal, e cuja acção decorre no final do século XIX, cria Eco uma figura sui generis, Simone Simonini, falsário e espião, protagonista das mais variadas e inverosímeis façanhas, que permite ao autor discorrer sobre a sociedade contemporânea com a distância de um século e criticá-la com uma ironia feroz . Não perde Eco a oportunidade de jogar com os nomes das personagens e das pessoas reais. Recordemos o célebre monge cego de O Nome da Rosa, apelidado por Eco de Jorge de Burgos e que não era mais do que uma caricatura um pouco maldosa do célebre escritor, também cego, Jorge Luís Borges. Como agora o dr. Froïde é Freud.
Simonini, espião a tempo inteiro, navega entre o Piemonte, a Sicília e a França, intrigando, falsificando, assassinando e registando, finalmente, no seu diário as aventuras da sua existência e das do seu duplo, o abade Dalla Piccola,
O protagonista, influenciado pelas ideias de seu avô, é um feroz adversário dos jesuítas (um houve que o assediou quando era jovem, mas isto não passa de um pormenor), dos maçons e dos membros de todas as sociedades secretas e, muito especialmente, dos judeus. Aliás, a obra poderia passar por um requisitório anti-semítico, tais as acusações de que são objecto os filhos de Israel, mas Eco afirma que apenas pretendeu "dar um soco no estômago do leitor", ao criar a personagem repugnante e cínica por excelência de Simonini. Nem todos são dessa opinião, a começar pelo escritor e jornalista francês (e judeu) Pierre Assouline, que no seu blogue "La république des livres" acusa Umberto Eco de se entregar a um jogo ambíguo.
Para lá das peripécias políticas, militares, jurídicas, amorosas e j'en passe do livro, o cerne da obra é a invenção por Simonini de uma reunião secreta que teria tido lugar em 1800 no cemitério (judaico) de Praga, onde 13 rabinos teriam conspirado para dominar o mundo, em torno da tumba do rabino Simeão Ben-Yehuda, e a que ele chamou "protocolos praguenses"..
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| Cemitério judaico de Praga |
Pelo romance perpassam muitas personagens, entre as quais Léo Taxil, ex-maçon, convertido ao catolicismo que depois haveria de renegar. Taxil, é uma figura real (como as demais, segundo Eco, salvo o próprio Simonini) e bem conhecida, de que uma das obras, em dois volumes, até está traduzida em português: Os Mysterios da Franc-Maçonaria.
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| (Clique na imagem para ver melhor) |
Esta criação de Simonini, serviria ao seu autor não só para testemunhar o ódio aos judeus mas igualmente para, ao traficá-la, realizar consideráveis proventos. Haveria, finalmente, de ser vendida aos russos, a braços com o terrorismo interno e acabaria, segundo Eco, por dar origem ao livro, editado na Rússia em 1905 e logo difundido por todo o mundo, até hoje, Os Protocolos dos Sábios de Sião.
Escreve Eco, pela boca de Simonini, a propósito dos hebreus: «É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora, o sentido da identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. é necessário cultivar o ódio como uma paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos identificados na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra-natura. Não se ama alguém para toda a vida; dessa esperança impossível nascem o adultério, o matricídio, a traição do amigo... Pelo contrário, pode odiar-se alguém durante toda a vida. Desde que esteja sempre lá, para reacender o nosso ódio. O ódio aquece o coração.» (página 432)
Num enredo recheado de rituais satânicos (a faceta medieval de Umberto Eco já utilizada em O Nome da Rosa), o protagonista vai melhorando a sua versão dos "protocolos praguenses" até a vender, no final, ao espião russo Golovinski, um jovem mujique flácido e míope, mas astuto, que lhe exige uma versão melhorada da história, para satisfazer o interesse da polícia secreta do Czar.
Transcreve-se um dos parágrafos (páginas 526 e 527) da versão definitiva proposta por Simonini (sobre os judeus): «"Quando estivermos no poder, retiraremos dos programas educativos todas as matérias que possam perturbar o espírito dos jovens e vamos reduzi-los a crianças obedientes, que amarão os seus soberanos. Em vez de os fazer estudar os clássicos e a história antiga, que contêm mais exemplos maus do que bons, vamos fazê-los estudar os problemas do futuro. Apagaremos da memória dos homens a recordação dos séculos passados, que poderia ser desagradável para nós. Com uma educação metódica, saberemos eliminar os resíduos daquela independência de pensamento da qual nos temos servido para os nossos fins desde há muito tempo... Vamos aplicar uma dupla taxa sobre os livros com menos de trezentas páginas, e estas medidas obrigarão os escritores a publicar obras tão longas que terão poucos leitores. Nós, pelo contrário, publicaremos obras baratas para educar a mente do público. A taxação determinará uma redução da literatura prazenteira, e ninguém que nos deseje atacar com a sua pena encontrará um editor." Quanto aos jornais, o plano hebraico prevê uma liberdade de imprensa fictícia, que sirva para maior controlo das opiniões. Dizem os nossos rabinos que teremos de açambarcar o maior número de periódicos, de maneira que exprimam opiniões aparentemente diversas, para dar a impressão de uma livre circulação de ideias, embora, na realidade, todos reflectirão as ideias dos dominadores judaicos. Observam que comprar os jornalistas não será difícil, porque constituem uma Maçonaria e nenhum editor terá a coragem de revelar a trama que os liga a todos ao mesmo carro, porque ninguém é admitido no mundo dos jornais que não tenha tomado parte em algum negócio duvidoso na sua vida privada. "Naturalmente, ter-se-a de proibir todos os jornais de dar notícias de crimes, para que o povo creia que o novo regime até acabou com a delinquência. Mas não nos devemos preocupar demasiado com as obrigações impostas á imprensa, porque o povo não se dá conta se a imprensa é livre ou não, agrilhoado que está ao trabalho e à pobreza. Que necessidade tem o proletário trabalhador de que os tagarelas tenham o direito de palrar?"»
Estes seriam alguns dos princípios de um governo mundial dominado pelos judeus, que haveriam de ficar cristalizados nos célebres Protocolos dos Sábios de Sião, e que Umberto Eco aproveita como enredo do seu romance. Os Protocolos tiveram, e continuam a ter, uma espantosa difusão pelo mundo, e até Hitler os citou na sua obra matriz do nazismo Mein Kampf. Todavia, são considerados hoje uma falsificação da polícia czarista.
É claro que qualquer semelhança entre o texto que se transcreveu e a realidade actual é pura coincidência.
sábado, 7 de maio de 2011
A ESQUERDA EM PORTUGAL
Pode discordar-se de Francisco Louçã em muita coisa, nomeadamente quando o Bloco de Esquerda apoiou a improvável candidatura de Manuel Alegre á presidência da República. Mas deve registar-se que a sua intervenção de hoje, que ouvi na rádio, na sessão de abertura da VII Convenção Nacional do Bloco, denunciando o descalabro da governação dos últimos dez anos (Guterres, Durão, Sócrates, já que Lopes não passou de um episódio passageiro) foi totalmente consistente.
Francisco Louçã apontou explicitamente o governo sombra (ipsis verbis) que nos dirige como a causa principal da situação a que chegámos e propôs medidas alternativas ao empréstimo da troika internacional, que arruinará definitivamente a situação económica do país.
Pode ler-se aqui uma parte da alocução de Louçã.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
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