segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
GERMANA TÂNGER
Morreu hoje, após ter completado há dias 98 anos, Maria Germana Tânger, conhecida figura do meio artístico português.
Actriz ocasionalmente, encenadora, declamadora, Germana Tânger era a última sobrevivente de uma estirpe de mulheres notáveis que muito contribuíram para o engrandecimento cultural de Portugal. Refiro-me, entre outras, a Amélia Rey-Colaço, Fernanda de Castro, Amália Rodrigues, Natália Correia, Teresa Leitão de Barros.
Professora do Conservatório Nacional, mestra na Arte de Dizer, pelas suas mãos passou a maior parte das actrizes e dos actores que pisam hoje os nossos palcos.
Tive o privilégio de conhecer pessoalmente Germana Tânger e de com ela conviver durante largos anos, no tempo em que acumulava com a minha vida propriamente profissional uma segunda vida dedicada ao teatro. Porque o passar dos anos vai afastando as pessoas, e Maria Germana já não morava agora ao pé do Teatro de São Carlos, perdi progressivamente o contacto com ela.
Conhecendo muitos dos seus alunos, sei quanto era admirada e amada por eles. As gerações mais novas já não beneficiaram dos seus ensinamentos, mesmo no meio teatral há hoje quem desconheça o seu nome. Porque a memória dos homens é cada vez mais curta. Mas o Teatro em Portugal deve-lhe inestimáveis serviços.
Os obituários, espero, hão-de referir a sua longa carreira, não tendo estas palavras outra intenção senão a de registar a minha admiração por uma Mulher que consagrou à Cultura, nomeadamente à Poesia e ao Teatro, o labor de toda uma vida.
À sua família, e em especial a seu filho, o embaixador António Tânger Correia, exprimo o meu sentido pesar.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
PORTUGAL EM VIAS DE EXTINÇÃO
O programa do Teatro Nacional D. Maria II para o corrente trimestre, que recebi há dias, intitula-se "Portugal em Vias de Extinção". O título reflecte a programação do nosso primeiro teatro dramático para o período em questão.
Segundo o director da Casa, Tiago Rodrigues, «Há um Portugal que está a desaparecer... Vamos olhar de perto para um interior desertificado e abandonado, onde o fecho de minas, fábricas e quintas deixou feridas que ainda não cicatrizaram. Vamos visitar os últimos clubes de amadores, os últimos artesãos, os últimos comerciantes, os últimos operários, desterrados para o sótão do esquecimento por uma sociedade de amnésicos. Vamos passear pelas últimas ruas que ainda não se parecem com o parque temático fácil de consumir que são cada vez mais as cidades...»
Não sei como resultarão os eventos programados mas que o país, como o conhecemos nas últimas décadas, está em vias de extinção a uma velocidade alucinante é uma verdade iniludível. Consequência do correr do tempo, sem dúvida, por via do "progresso", mas jamais as modificações foram tão rápidas e tão profundas como neste dealbar do século XXI. E, principalmente, consequência da globalização e dos "avanços" tecnológicos.
As pessoas com mais de 50 anos já não se reconhecem na paisagem actual e os políticos de serviço parecem incapazes de compreender que a marcha é em direcção ao abismo.
Todavia, não é só Portugal que está em vias de extinção, mas a Europa toda, e a perfilharmos as teses de Michel Onfray, toda a civilização ocidental.
Parece que o Teatro Nacional pretende com esta programação esconjurar o mal que se abateu sobre Portugal, para apenas nos restringirmos ao caso vertente. Intenção louvável, mas è tardì!
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
CONTO ERÓTICO EM 2018
Eram 4 da manhã e tinha ido parar à discoteca. Aproximei-me dele porque estava encostado ao balcão, como eu, recusando-se a dançar ao som de uma playlist pejada de hits que objetificam o corpo feminino. Olhei para ele, tinha aquele ar de quem surpreenderia muita gente caso fosse acusado de assédio. Apresentou-se.
“Sou o Jorge, nome fictício. Por favor, acredita em mim, não sou um tarado! Por favor, acredita em mim, não sou um tarado!”. Sugeriu que eu lhe pagasse uma bebida, pois discordava do cavalheirismo bafiento do homem que providencia bens a mulheres em implícita troca do ascendente sexual. Conversámos um pouco, aquela discoteca de música machista estava a fechar e eu propus que fôssemos para minha casa. Ele concordou, mas apenas se assinássemos um contrato de subarrendamento espontâneo em que eu permitia claramente que ele passasse lá a noite. Dividimos o Uber, preenchemos a papelada e lá fomos.
Chegamos a casa e ele pede-me autorização para me olhar de alto a baixo. Eu penso nas implicações dessa clara objetificação do meu corpo durante três minutos e acabo por aceder ao pedido. Ele olha-me então de alto a baixo. Foi sexy na sua espontaneidade. Sentamo-nos no sofá, a beber um copo de vinho. Falámos sobre o facto de todos os homens serem uns violadores e como ele tinha de arcar com esse fardo. A certa altura, eu tento beijá-lo. Mas ele para-me. Não podíamos fazer aquilo sem antes redigir uma declaração conjunta em que explicitávamos que os nossos lábios se tocariam de forma plenamente consentida, intermitentemente por período de duas horas, contrato renovável automaticamente. Chamámos um amigo dele que trabalha num notário do Areeiro, assinámos a cena e beijámo-nos com aquela paixão ardente que se vê nos filmes. É aí que ele requer anuência para pôr a mão nos meios seios, eu aceito e mando uma mensagem de voz para o grupo de Whatsapp das minhas amigas, para ficar com um registo claro e fiável das minhas intenções naquela altura.
Decido começar a despir-me, anotando, em papel timbrado, que peça despi e a que horas, e peço-lhe para me fazer sexo oral, isto já na presença dos nossos dois advogados, que, entretanto, foram chamados para assegurar que tudo estava dentro da lei. Aí ele levanta-se, liga à Câmara Municipal de Lisboa a solicitar renovação da autorização especial de ruído para me dar uma palmada no rabo, atempadamente aprovada por uma Junta Médica, que naturalmente fomos obrigados a convocar.
Puxei-o para mim e disse-lhe, “quero que me faças”. Fizemos o teste do balão, tirámos uma selfie e beijámos a Bíblia. Estava tudo a postos, começámos a fazer amor. Ele pede permissão a cada penetração. Eu grito, para que todo o prédio ouvisse, “Eu estou a fazer isto de livre vontade! Eu estou a fazer isto de livre vontade! Eu estou a fazer isto de livre vontade!”. As 24 testemunhas escolhidas aleatoriamente para presenciar o ato, entre populares, notáveis da sociedade, diplomatas e juristas, aplaudem em êxtase. Vizinhos desfraldam a bandeira, ouve-se o hino ao fundo, tambores retumbam na rua. Em lágrimas, Marcelo Rebelo de Sousa abraça os meus pais, “foi consensual, foi consensual, foi consensual”.
Chegamos a casa e ele pede-me autorização para me olhar de alto a baixo. Eu penso nas implicações dessa clara objetificação do meu corpo durante três minutos e acabo por aceder ao pedido. Ele olha-me então de alto a baixo. Foi sexy na sua espontaneidade. Sentamo-nos no sofá, a beber um copo de vinho. Falámos sobre o facto de todos os homens serem uns violadores e como ele tinha de arcar com esse fardo. A certa altura, eu tento beijá-lo. Mas ele para-me. Não podíamos fazer aquilo sem antes redigir uma declaração conjunta em que explicitávamos que os nossos lábios se tocariam de forma plenamente consentida, intermitentemente por período de duas horas, contrato renovável automaticamente. Chamámos um amigo dele que trabalha num notário do Areeiro, assinámos a cena e beijámo-nos com aquela paixão ardente que se vê nos filmes. É aí que ele requer anuência para pôr a mão nos meios seios, eu aceito e mando uma mensagem de voz para o grupo de Whatsapp das minhas amigas, para ficar com um registo claro e fiável das minhas intenções naquela altura.
Decido começar a despir-me, anotando, em papel timbrado, que peça despi e a que horas, e peço-lhe para me fazer sexo oral, isto já na presença dos nossos dois advogados, que, entretanto, foram chamados para assegurar que tudo estava dentro da lei. Aí ele levanta-se, liga à Câmara Municipal de Lisboa a solicitar renovação da autorização especial de ruído para me dar uma palmada no rabo, atempadamente aprovada por uma Junta Médica, que naturalmente fomos obrigados a convocar.
Puxei-o para mim e disse-lhe, “quero que me faças”. Fizemos o teste do balão, tirámos uma selfie e beijámos a Bíblia. Estava tudo a postos, começámos a fazer amor. Ele pede permissão a cada penetração. Eu grito, para que todo o prédio ouvisse, “Eu estou a fazer isto de livre vontade! Eu estou a fazer isto de livre vontade! Eu estou a fazer isto de livre vontade!”. As 24 testemunhas escolhidas aleatoriamente para presenciar o ato, entre populares, notáveis da sociedade, diplomatas e juristas, aplaudem em êxtase. Vizinhos desfraldam a bandeira, ouve-se o hino ao fundo, tambores retumbam na rua. Em lágrimas, Marcelo Rebelo de Sousa abraça os meus pais, “foi consensual, foi consensual, foi consensual”.
sábado, 13 de janeiro de 2018
A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
| Étienne de La Boétie (estátua em Sarlat, onde nasceu) |
Étienne de La Boétie (1530-1563), foi um filósofo e humanista francês, que morreu aos 32 anos, deixando uma reduzida obra literária: algumas traduções de obras greco-romanas e alguns textos originais. Todavia, entre os poucos livros que nos legou figura um que o tornaria célebre: o Discours de la servitude volontaire (Discurso sobre a Servidão Voluntária), escrito quando teria 18 anos e frequentava a Universidade de Orléans.
A este pequeno texto, tornado um clássico do pensamento filosófico, há a acrescentar a profunda amizade que por ele nutriu Michel de Montaigne (1533-1592), o famoso autor dos Essais. Tão íntima, que muitos aventam que ela possa ter consistido mesmo numa relação sexual.
A tese de La Boétie, exprimindo um pensamento radical que prefigura uma esquerda libertária, é muito simples: para não sofrer o poder de um tirano, basta não lho conceder (Soyez résolus de ne servir plus, et vous voilà libres).
Vem isto a propósito de um artigo que o filósofo francês Michel Onfray lhe dedicou no nº 1 (Janeiro de 2018) do "Nouveau Magazine Littéraire". Escreve Onfray sobre esta tese verdadeiramente original e pacificamente revolucionária: «Rien ne sert activement de combattre le tyran, qui n'est pas tant un homme que l'instance que détient le pouvoir, il suffit de ne plus lui donner sa soumission. Autrement dit, se rebeller sans violence: ne plus soutenir ce qui, dès lors, tombera naturellement.»
E referindo-se à sociedade actual, acrescenta: «Nul doute qu'aujourd'hui La Boétie ajouterait le cirque médiatique et la tyrannie des écrans, la dictature de la télévision, avec les chaînes d'information en continu ou les soirées dites de divertissement, la prolifération du cinéma comme art de faire du vraisemblable avec du faux, celles des séries télévisées qui font la même chose en moins bien, le tourisme de masse et le loisir généralisé, les fêtes obligatoires et les coupes du monde de football, sinon les Jeux Olympiques et autres façons de tenir le peuple en respect par le divertissement - au sens pascalien du terme. Ensuite, La Boétie précise que l'hédonisme - il n'utilise pas le mot mais renvoie à l'idée - fait également partie des techniques d'assujetissement: la multiplication des festins et des réjouissances, le goût des tableaux et les distinctions honorifiques, et autres "drogueries", fournissent autant d'occasions créées par le roi de faire en sorte que ses sujets regardent ailleurs et ne voient pas ce qui se passe réellement... À l'évidence, il faut voir dans cette énumération l'ébauche de ce qui deviendra au XXe siècle la société de consommation avec son éloge de tout ce qui flatte l'égotisme et le narcissisme: citations de La Boétie, la célébration de la cuisine et la religion de la gastronomie, la palinodie de l'art contemporain et la passion des décorations épinglées au revers de vestons des gens importants, mais aussi - ajouts post-La Boétie - la société de zombies perfusés aux anxiolytiques, au tabac, aux drogues douces et dures, les doudous pour adultes, du téléphone portable aux objects connectés - l' iCloud est aujourd'hui l'athanor dans lequel se cuisinent les prochaines tyrannies planétaires...»
No seu longo artigo, Onfray desenvolve o pensamento de La Boétie, considera-o, com Diógenes como grande antepassado e Rabelais como arquitecto da abadia de Thélème, um dos precursores da anarquia. Antes de morrer, La Boétie legou a Montaigne toda a sua obra, tendo o autor dos Essais passado quase vinte anos para editar o Discours, de forma a enquadrá-lo politicamente, uma vez que em França vigorava a Monarquia Absoluta. Entretanto, foi ultrapassado por edições piratas feitas por huguenotes menos escrupulosos.
Foi em intenção do seu amigo Étienne que Montaigne escreveu o capítulo 28 (De L'Amitié), do volume I dos seus Essais, onde disserta longamente sobre a amizade que o ligava a La Boétie: «Au demeurant, ce que nous appelons ordinairement amis et amitié, ce ne sont qu’accointances et familiarités nouées par quelque occasion ou commodité, par le moyen de laquelle nos âmes s’entretiennent. En l’amitié dont je parle, elles se mêlent et se confondent l’une en l’autre, d’un mélange si universel, qu’elles effacent, et ne retrouvent plus la couture qui les a jointes. Si on me presse de dire pourquoi je l’aimais, je sens que cela ne se peut exprimer qu’en répondant : "Parce que c’était lui, parce que c’était moi."»
Importa aqui notar uma semelhança com outra obra, talvez menos conhecida, e a que Tolstoï se refere no seu "Apelo aos homens políticos". Escreve o autor de Guerra e Paz: «...um escritor americano pouco conhecido conta como recusou pagar ao governo americano um dólar de imposto» porque não queria «participar nas obras de um governo que autoriza a escravatura.». O escritor americano a que Tolstoï se refere é nem mais nem menos que Henry David Thoreau, autor da Civil disobedience (1849). Este tratado sobre A desobediência civil tem uma evidente filiação na obra de La Boétie, na medida em que partilham a ideia de um governo assente no consentimento popular. Ou mesmo na ausência de um governo, uma proposta evidentemente utópica, mas devemos considerar que Thoreau se referia especialmente aos Estados Unidos e ao período das guerras travadas internamente ou contra os mexicanos.
Thoreau conclui o seu livro interrogando-se se a democracia, tal como a conhecemos [no seu tempo, e hoje por maioria de razão] será o último progresso possível em matéria de governo. E prossegue, perguntando se não será possível avançar mais um passo no reconhecimento e organização dos direitos do homem. «Nenhum Estado será verdadeiramente livre e esclarecido enquanto não reconhecer o indivíduo como o poder mais alto e independente, no qual têm origem todo o seu próprio poder e autoridade, tratando-o correspondentemente.» (Tradução da edição portuguesa).
Voltando a Onfray: «À l'origine, donc, dans l'hypothèse d'un état de nature, les hommes sont libres et aiment la liberté. La servitude est une affaire de culture, d'acquisition. Les hommes naissent libres et deviennent serfs. ... La Boétie ne méprise pas les personnes ou les peuples assujettis, parce qu'ils les comprend. Quand on a jamais connu la liberté et que l'on a vécu que dans la servitude, comment pourrait-on avoir l'idée même qu'on puisse se désassujettir? ... Le jeune auteur du Discours ne compose pas son texte comme un exercice de rhétorique afin de montrer à son lecteur qu'il sait briller en casuistique, ce que Montaigne, effrayé par la puissance subversive d'un pareil texte, aimerait qu'on croie, mais il veut que sa pensée soi suivi d'une pratique. Et sa pratique, c'est tout une politique. La Boétie donne le mode d'emploi de la destruction de tout pouvoir quand il est tyrannique, arbitraire, autocrate, despotique: il suffit à ceux qui le subissent de ne plus vouloir le subir et d'éviter de le rendre possible. D'où l'intérêt de la généalogie qui est une dynamite.»
Muito haveria a dizer sobre a matéria, a começar pela diferença de cinco séculos que nos separam de La Boétie, e pela existência de um mundo global e digitalizado como o que hoje, infelizmente, temos. Mas, mesmo no século XVI, as coisas não eram assim tão simples, e Montaigne protelou a divulgação do Discours de La Boétie para preservar a sua memória, em nome da amizade que os ligava, pois as considerações do humanista de Sarlat eram altamente subversivas, ainda que reservando-lhe a classificação de utópicas. Por essa época, Thomas Morus, o famoso autor da Utopia, era executado, nesse paraíso da liberdade e da democracia que é a Inglaterra. O que não significa que, como exercício académico, devamos revisitar La Boétie ou mesmo Thoreau, pois das suas contribuições sempre poderemos colher ensinamentos úteis.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
CÉLINE, OUTRA VEZ
Publicou "L'Obs" (nº 2774 - 4 a 10 Janeiro 2018) um longo artigo sobre a decisão das edições Gallimard de publicar os chamados "panfletos anti-semitas" de Louis-Ferdinand Céline.
Em causa, três livros: Bagatelles pour un massacre (1937), L'École des Cadavres (1938) e Les Beaux Draps (1941).
Informa o artigo: em 19 de Dezembro passado, Antoine Gallimard, 70 anos, patriarca das letras francesas, cuja casa publicou vários prémios Nobel e Goncourt, foi convocado por uma coisa chamada Dilcrah (Délégation interministérielle à la lutte contre le racisme, l'antisémitisme et la haine anti-LGBT), a fim de responder sobre a reedição, anunciada algumas semanas mais cedo, dos referidos escritos do autor de Voyage au bout de la nuit. Fez-se acompanhar de Pierre Assouline, ele mesmo judeu e encarregado de redigir os prefácios dessas obras.
Acontece que os livros em questão foram publicados em 2012 no Canadá, sem a menor polémica. Por outro lado, estes textos estão desde há muito disponíveis na internet e podem ser facilmente descarregáveis.
Durante muitos anos, a viúva de Celine, Lucette Destouches, hoje com 105 anos mas perfeitamente consciente, opôs-se à reedição das obras, que, segundo ela "ils ne nous ont apporté à Louis et à moi que du malheur". Várias tentativas para a demover da sua intenção resultaram em fracasso. Mas eis que finalmente cedeu. Segundo alguns por questões financeiras, já que tem de ser assistida por três pessoas 24 horas por dia. Ou talvez não, já que nem sequer existe à-valoir no contrato de concessão. Aliás, Dominique de Roux já consagrara a Céline um "Cahier de l'Herne" e, em 2015, foi reeditado o livro Décombres, de Lucien Rebatet.
Entretanto, Serge Klarsfeld, defensor infatigável da memória da Shoah e perseguidor de nazis, saiu a campo para reclamar a interdição de qualquer reedição. Está instalada a polémica, com defensores e argumentos de ambos os lados. Deve recordar-se que Henri Godard, o grande especialista de Céline, autor da sua biografia, dirigiu na Pléiade a edição das suas outras obras. E que mesmo os livros agora em questão podem ser já adquiridos na Amazon em formato kindle.
O próprio historiador Pierre-André Taguieff, não sendo ele mesmo judeu, segundo as suas palavras, mas muito próximo dos círculos judaicos, coautor de Céline, la race, le Juif, não é contrário à reedição, mas considera insuficiente a apresentação prevista pela Gallimard, pretendendo um aparato crítico mais completo.
Mesmo Mein Kampf, de Adolf Hitler, vai ser reeditado em Março pela Fayard, seu editor original. E está já traduzido há muito tempo em quase todas as línguas; em português existem três edições, a primeira das quais das Edições Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello, em 1976.
No caso vertente, Klarsfeld considera que não há comparação com Mein Kampf, que é uma obra histórica incontornável. Mas que estes escritos de Céline podem cair sob a alçada da lei, tal como O Mercador de Veneza, de Shakespeare, o que, neste caso, ninguém pretende.
A questão é que existe em França, país que sob a aparência de grandes liberdades sempre foi mais ou menos totalitário, uma lei, a Lei Gayssot (13 de Julho de 1990), do nome do autor da sua iniciativa, o deputado Jean-Claude Gayssot, que reprime qualquer acto racista, anti-semita ou xenófobo, como a contestação da existência de crimes contra a humanidade, definidos pelo Tribunal Militar Internacional de Nuremberga, e que é considerada por eminentes vultos franceses como um atentado à liberdade de expressão e à investigação histórica em geral.
Assim, Antoine Gallimard, logo após o estalar da polémica, enviou uma nota à imprensa manifestando a sua vontade de republicar os panfletos, mas omitindo a data de Maio de 2018 para a sua publicação. O que poderá significar um recuo, ou não.
Muitos políticos, historiadores e filósofos manifestaram-se já contra esta lei, entre eles o professor negacionista Robert Faurisson, que lhe chama lei Fabius-Gayssot, referindo-se ao multimilionário judeu e ex-ministro socialista Laurent Fabius. Mas entre os contestatários da lei figuram Jacques Chirac, Jean-Louis Debré, François Fillon, Alain Peyrefitte, Simone Veil, Pierre Vidal-Naquet, Pierre Nora, François Furet, Robert Badinter, Éric Zemmour, Michel Tournier, Michel Houellebecq, Alain Robbe-Grillet, Jean Daniel, Paul Ricoeur, etc. De facto, esta lei impede a investigação histórica, porque a contestação de quaisquer "verdades oficiais" é legalmente punida, e as verdades oficiais não são sempre.
Aguardemos o desenrolar desta polémica.
domingo, 7 de janeiro de 2018
OS CAFÉS LITERÁRIOS
Foi publicada há meses, mas só agora tive tempo de começar a lê-la, a reedição do livro Les Cafés Littéraires, de Gérard-Georges Lemaire, um profundo conhecedor da matéria, do qual possuo também L'Europe des cafés (1991) e Cafés d'autrefois (2000). O autor, infatigável viajante, nutre um especial interesse pela instituição "café", originária do mundo turco-árabe e que penetrou na Europa a partir do cerco de Viena de 1683, período em que no Santo Império foi também divulgado esse delicioso bolo que ainda hoje comemos em todo o mundo: o croissant (crescente).
Na Europa, os cafés foram os cadinhos da cultura moderna, das teorias literárias, dos movimentos artísticos mais inovadores, das metamorfoses do teatro e da música, dos grandes combates da filosofia e da crítica, das utopias e das causas perdidas, das grandes ilusões políticas e das revoluções. A seu respeito, pode afirmar-se que, durante quatro séculos, constituíram as academias da liberdade de pensamento.
Assistimos hoje à decadência dos cafés um pouco por todo o mundo. Portugal não é excepção. Perante a globalização por ora ainda triunfante, o monoteísmo de mercado e o culto do dinheiro ao qual as sociedades contemporâneas quase exclusivamente sacrificam, o café deixou de ser rentável, pior, tornou-se perigoso, porque sendo lugar de discussão de ideias, arriscava converter-se num espaço em que fosse interrogada a verdade do "pensamento único".
Os cafés foram também sítio de reunião de estudantes, que, durante décadas, os utilizaram, ao preço de uma bica, para, sozinhos ou acompanhados, se debruçarem sobre as matérias que deveriam conhecer. Mais, muitos cafés serviram também como lugares de "engate", quer entre os frequentadores habituais, quer para os jovens que não estudando, não escrevendo, não discutindo ideias, ali se deslocavam para oferecer os seus corpos a quem estivesse interessado, a troco de uma remuneração mais ou menos simbólica, a justificar "moralmente" os serviços prestados.
Um pouco por toda a parte, os cafés vão sucessivamente encerrando portas, para dar lugar a outros comércios mais lucrativos, conservando-se alguns ainda abertos, já não para satisfação dos antigos clientes mas para gáudio dos turistas que, ao frequentá-los, julgam encontrar resquícios de uma atmosfera desaparecida, de que só restam, na verdade, as paredes, por vezes já transformadas, desses templos de plural convívio que animaram gerações de novos e de velhos e largamente contribuíram para a difusão cultural.
Fui um frequentador quase diário de cafés e vi com profundo desgosto o seu sucessivo desaparecimento. Neles estudei, neles encontrei amigos de estudo e não só, neles li e escrevi, neles discuti artes e letras, e mesmo política, numa palavra, neles vivi uma parte da minha vida. Quando comecei a frequentá-los, alguns, que a literatura refere, tinham já desaparecido, mas recordo com saudade o Chiado, o Nacional, o Monte Carlo, o Monumental, o Gelo, a Brasileira (a do Chiado e a do Rossio), o Nicola, o Martinho (o do Rossio e o da Arcada), o Chave d'Ouro, o Portugal, o Palladium, o Lisboa, e outros que agora me escapam. Destes, quatro restam abertos (descaracterizados) para júbilo das hordas ululantes de turistas que, verdadeiramente ignorantes do passado das cidades, cruzam por estes dias os quatro continentes, conduzidas por guias que nada sabem das histórias locais (e, mesmo que soubessem, quem os compreenderia), fotografando com os seus telemóveis tudo o que julgam poder mostrar aos seus conterrâneos ou publicar nas redes sociais, fotografias que os próprios mais tarde nem sequer verão e, caso as vejam, não saberão identificar.
Voltando ao livro em apreço, Lemaire fala-nos dos cafés do Oriente, dos de Paris, especialmente, e dos de Itália, Inglaterra, Espanha, Portugal, Bélgica, Alemanha, Suiça, Áustria, República Checa, Hungria, Polónia, Roménia, Jugoslávia, Bulgária, Rússia e Países-Baixos. Com mais de 600 páginas e profusamente ilustrado, não é possível dar aqui conta do conteúdo. Direi que, relativamente a Portugal, são citados o Martinho do Rossio e o da Arcada, o Marrare (que já não conheci) a Brasileira do Rossio e a do Chiado, o Nicola, etc.
Nas minhas digressões pelo estrangeiros, tento sempre frequentar os cafés que foram célebres (alguns ainda mantêm as características originais) e recolher uma réstia do espírito da época em que cumpriram exemplarmente a sua função.
Com tempo e paciência, voltarei a falar sobre cafés. Para já, deixo aqui as capas de alguns livros aos mesmos dedicados:
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| Café Slavia, em Praga |
Não me recordo de todos os cafés que frequentei no estrangeiro, mas lembro-me de uma dúzia: La Paix, Flore, Deux Magots, Procope, St. André-des-Arts, Coupole, em Paris; Quaddri e Florian, em Veneza; Gerbeaud e New York, em Budapeste; Fishawi, Riche e Groppius, no Cairo; Elite, em Alexandria; Paris, em Tunis; De France, em Casablanca; Central, Hawelka, Landtmann e Museum, em Viena; em Berlim, um na Unter den Linden e outro na Friedrichstrasse; em Belgrado, dois óptimos no Largo do Museu Nacional e da Ópera; o Literary, na Nevski Prospect, em São Petersburgo; o Slavia, o Kafka e o da Obecni Dum, em Praga; e muitos outros cujos nomes não me ocorrem, designadamente em Atenas, Sofia e Bucareste.
Como gostaria de voltar!
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
A ORDEM DO DIA
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| O famoso industrial Gustav Krupp |
Foi publicado em finais do ano passado, e logo obteve o Prémio Goncourt 2017, o pequeno livro de Éric Vuillard, L'ordre du jour, que o autor classificou como récit, pois não sendo uma novela ou um romance, situando-se antes a meio caminho de um livro de história, tal classificação permitiu-lhe concorrer ao referido prémio.
Nesta obra, Vuillard evoca o Anschluss (a Anexação da Áustria pela Alemanha, em Março de 1938), os seus antecedentes e as suas consequências.
Começa por descrever a célebre reunião secreta de 20 de Fevereiro de 1933, em que 24 homens distintos, verdadeiros cavalheiros, representantes máximos da indústria e das finanças da Alemanha, se reúnem no Reichstag, acolhidos por Göring, para ouvirem da boca do Führer os seus projectos acerca do futuro da Alemanha, a que, naturalmente aquiesceram. Os seus nomes são-nos, na maioria, desconhecidos, talvez à excepção de Gustav Krupp, mas não as empresas de que eram proprietários, que floresceram antes e durante o III Reich, e continuaram prósperas nos nossos dias, como se nada tivesse acontecido entre o princípio dos anos 30 e o fim dos anos 40 do século passado. Vejamos: além da Thyssen-Krupp, figuravam a BASF, a Bayer, a Agfa, a Opel, a IG Farben, a Siemens, a Allianz, a Telefunken, a BMW, a Daimler, a Shell, a Schneider, etc. Foram estas empresas que sustentaram o esforço de guerra nazi e utilizaram para o seu trabalho os deportados e os prisioneiros do regime.
A tibieza do Ocidente face ao projecto megalómano de Adolf Hitler é indesculpável, embora os políticos tenham tentado isentar-se de culpas nas suas memórias do pós-guerra.
Quando o Conde de Halifax, várias vezes ministro, antigo vice-rei das Índias e então Lord Presidente do Conselho, aceitou o convite pessoal de Göring para uma caçada, deslocando-se à Alemanha, em Novembro de 1937, não poderia ignorar a máquina de guerra que estava em movimento. Halifax encontrou-se mesmo com Hitler em Berchtesgaden, prosseguindo a sua "política de desanuviamento", obviamente ineficaz. A propósito dessa entrevista com o Führer, escreverá a Baldwin: «Le nationalisme et le racisme sont des forces puissants, mais je ne les considère ni contre nature ni immorales!». E mais tarde: « Je ne puis douter que ces personnes haïssent véritablement les communistes. Et je vous assure que si nous étions à leur place, nous éprouverions la même chose.» (p. 32). Uma cegueira, quando era sabido que alguns dias antes Hitler havia confiado aos seus chefes militares a intenção de ocupar pela força uma parte da Europa, em primeiro lugar Áustria e a Checoslováquia, numa espiral delirante sobre os destinos do povo alemão, na linha de Herder, Fichte, Hegel e Schelling, a fim de alargar o "espaço vital" (lebensraum) indispensável ao crescimento da nação.
A Áustria tinha já enveredado por um caminho autoritário pela mão do chanceler Dolfuss, todavia julgado insuficiente pelos militantes nazis, que viriam a assassiná-lo. O seu sucessor, Schusnigg, prosseguiu a política repressiva de Dolfuss, proibindo os sindicatos, perseguindo os socialistas, instaurando a censura e mantendo uma diplomacia hipócrita e sinuosa com o Reich. Mas Hitler queria mais e em 12 de Fevereiro de 1938 chamou Kurt von Schusnigg ao Berchtesgaden. Tratava-se de um diktat. Acolhido por von Papen é recebido por Hitler que o acusa de traição aos interesses do Reich. E apresenta o ultimato: Que a Áustria e a Alemanha se consultem sobre as relações internacionais que interessem aos dois países, que as ideias nacionais socialistas sejam autorizadas na Áustria e libertados todos os presos nazis, incluindo os criminosos confessos, e que o nazi Seyss-Inquart seja nomeado ministro do Interior, dotado de plenos poderes e o nazi Glaise-Horstenau ministro da Guerra. Em contrapartida, a Alemanha reafirma a independência da Áustria. O chanceler austríaco tenta algumas modificações nos detalhes, ao menos para salvar a face. O Führer é inflexível e Schausnigg acaba por ceder. Mas utiliza uma última e inesperada jogada, que deixa Hitler perplexo. Segundo a Constituição, cabia ao presidente da República nomear os membros do Governo. Hitler, que não cuidava destes detalhes constitucionais mas pretendia salvar as aparências, fica momentaneamente desconcertado. Mas acaba por exigir a execução do acordo num prazo de cinco dias.
Todavia, surgiu o imprevisível. O presidente da República, Wilhelm Miklas, uma figura puramente decorativa, resolve não aceitar a demissão de Schaunigg. É o pânico. Ninguém esperava semelhante atitude do filho de um carteiro que ocupava, na circunstância, a chefia do Estado. Mas perante as manobras militares iniciadas por Hitler na fronteira, aceita ceder poucas horas antes de expirar o ultimato. Era tarde. A 12 de Março, as tropas da Wehrmacht entram em território austríaco e a 13 a Alemanha anuncia a sua anexação, como mais uma província do Reich. Em 10 de Abril, um plebiscito avalizará a anexação com uma votação de 99,75% de votos favoráveis !!!
No dia seguinte, conta o autor, Neville Chamberlain, primeiro-ministro de Sua Majestade, oferece um almoço de despedida a Joachim von Ribentrop, que cessara as funções de embaixador em Londres por ter sido nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros do Reich. Ribbentrop é uma personagem sui generis, um bom conversador, amador de desportos, fluente em línguas estrangeiras, com notável capacidade de sedução. O almoço prolonga-se e entretanto é entregue uma missiva a Chamberlain anunciando a invasão da Áustria. O primeiro-ministro britânico tenta abreviar o almoço e alguns convidados, apercebendo-se da situação, começam a retirar-se, mas Ribbentrop permanece, arranjando motivos para se demorar. Até que Chamberlain, invocando razões de Estado, dá por terminada a recepção. Conhecedor de tudo o que se estava a passar, Ribbentrop, como grande comediante que era, aproveitara a oportunidade para uma grande representação no seu melhor estilo.
Hitler, ele mesmo, desloca-se a Viena, e é recebido apoteoticamente pelas massas, as que restaram das purgas anteriores. Mas é indesmentível que o Führer, como tem sido geralmente descrito, possuía uma capacidade magnética de atracção, quase um dom hipnótico, o que lhe terá permitido galvanizar muitos espíritos, mesmo os mais cépticos às suas teses e aos seus subterfúgios. Falando de uma tribuna frente ao Hofburg, electriza o povo que, compactamente, o aplaude na Praça dos Heróis.
O mundo continua a tolerar a expansão do Reich, fingindo ignorar os progressos da sua máquina de guerra. Num derradeiro, e patético, esforço, os primeiros-ministros britânico e francês, Neville Chamberlain e Édouard Daladier vão a Munique, em 29 de Setembro de 1938, para assinar com Hitler e Mussolini o célebre Acordo que permite a invasão de parte da Checoslováquia, com a garantia, efémera, de que será a última anexação de Hitler. No seu regresso, Chamberlain e Daladier são recebidos como heróis pelos seus compatriotas, mas não ignoram já o desfecho da farsa a que se prestaram.
Em 10 de Março de 1939, Hitler, desrespeitando os termos do Acordo, ordena a invasão do resto da Checoslováquia. Depois, conhecemos o que se seguiu...
Sendo uma obra ficcionada, apenas se registaram os aspectos propriamente históricos, mas o livro bem merece uma leitura, até porque é breve e bem escrito e num estilo particularmente agradável.
Seja-me permitida uma nota. Não me espanta o acolhimento dos austríacos ao Führer. Sempre o nazismo encontrou na Áustria um terreno fértil para prosperar. E o presente governo de Viena é disso exemplo. Mais. Mesmo na Alemanha, particularmente na Baviera, continua a ser patente o saudosismo do nacional-socialismo e da figura que melhor do que ninguém o incarnou. Uma breve estada em Munique é o suficiente para confirmar esta asserção.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
UMA NOVA VELHA REVISTA
O "Magazine Littéraire", prestigiada revista cultural francesa, que compro praticamente desde a sua criação (1966), tem passado ao longo dos últimos anos por diversas modificações, tendentes a "modernizar" a publicação mas que, em minha opinião, têm resultado em sucessivos fracassos.
Em Novembro de 2014, Pierre Assouline, escritor de quem sou amigo e autor do blogue "La république des livres", assume a coordenação da revista e introduz-lhe uma orientação radicalmente diferente. Não creio que a opção fosse a mais indicada e a continuada quebra das vendas só confirma a minha convicção. Reservá-la quase exclusivamente à crítica dos livros publicados, especialmente de certos livros e de certos autores, deve ter reduzido o número de leitores.
Surge agora, neste mês de Janeiro de 2018, o nº1 de "Le Nouveau Magazine Littéraire", dirigido por Raphaël Glucksmann, com novas propostas redactoriais. Ainda não tive tempo para digerir este primeiro número, mas receio que não se afaste muito do figurino anterior. Recordo com alguma saudade, o passado longínquo da revista, que para além da crítica literária oferecia sempre uma panorâmica mais alargada da vida cultura francesa, e não só.
Entretanto, o "Magazine Littéraire" entrou na órbita das edições dos proprietários da empresa Le Monde Libre, a que pertencia o "Nouvel Observateur", curiosamente chamado desde há algum tempo apenas "Observateur" ou "Obs". Quer dizer, uma perdeu o nouvel e a outra ganhou o nouveau: ironias dos tempos.
Aguardemos os próximos números, para avaliar da pertinência da nova orientação, receando, como aconteceu com as sucessivas modificações do "Obs", que cada alteração acabou sempre por piorar o conteúdo da revista. Como confirma esta constatação: perderam-se muitos dos antigos leitores e poucos foram aqueles que se adquiriram.
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