quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O KUNSTHISTORISCHES MUSEUM



O Kunsthistorisches Museum (Museu de História da Arte, em tradução literal), de Viena, foi o último dos grandes edifícios que foram construídos na Ringstrasse, em frente ao Museu de História Natural, e tendo do outro lado da avenida a Heldenplatz e o Hofburg.

Mandado edificar e inaugurado, em 1891, pelo imperador Francisco José, alberga a Galeria de Pintura, a Colecção Egípcia, a Colecção de Antiguidades Gregas e Romanas, o Gabinete de Arte e a Colecção Numismática.

As colecções imperiais, até então espalhadas por vários edifícios da cidade, passaram a estar expostas num quadro correspondente aos critérios estéticos e científicos da época. Todavia, a quantidade de obras dificultava a sua fruição pelos visitantes. Só a situação política decorrente do banimento dos Habsburg, após a Primeira Guerra Mundial, permitiu à nova República recriar um museu verdadeiramente moderno, como hoje o conhecemos. As obras dos pintores e escultores da época barroca foram transferidas para o Österreichisches Barockmuseum, situado na secção inferior do Palácio do Belvedere; os quadros, as aguarelas e os desenhos dos mestres modernos passaram, uma parte para a Galeria de Arte Austríaca do século XIX, no Belvedere superior, e a outra parte para o Museu Albertina. A remodelação das salas de recepção do Novo Hofburg receberam as armaduras, armas de combate e de caça da Casa de Habsburg e também os célebres instrumentos de música antigos da família imperial. Uma parte das obras da colecção das Antiguidades, provenientes nomeadamente do sítio greco-romano de Éfeso, na Turquia, foi igualmente colocada no Neue Burg, no agora denominado Ephesos Museum. As carruagens da Corte encontram-se actualmente instaladas no Palácio de Schönbrunn.


A entrada para a Colecção Egípcia faz-se por uma escada do lado direito após se passar a porta principal do Museu. Até ao fim do século XVIII as antiguidades egípcias (de que os Habsburg possuíam desde há muitos anos um interessante acervo) eram conservadas como simples curiosidades e só após a expedição de Bonaparte ao Egipto, as informações dos sábios que o acompanharam e a posterior decifração dos hieróglifos por Champollion adquiriram o seu preciso valor histórico.

Deusa Sekhmet, à direita (XVIII dinastia)
Horus e o faraó Horemheb (XVIII dinastia)
Hipopótamo, em faiança azul (XI ou XII dinastia)
Leão a caminhar (Babilónia, século VI AC)
Tuthmosis III (XVIII dinastia)
Deusa Isis amamentando Horus (XXVI dinastia, provavelmente)
Modelo de barca (XII dinastia)

Passada a Colecção Egípcia e Oriental ingressamos na Colecção de Antiguidades Gregas e Romanas, passando depois ao Gabinete de Arte.



Entre as valiosíssimas peças, refiram-se as seguintes:

Busto do imperador Adriano



Jovem de Magdalensberg (cópia do século XVI de um original romano)

Apolo (bronze greco-romano do século I AC)

Héracles (bronze grego do século IV AC)
Gemma Augustea (onix, depois incrustado em ouro, dos anos 9 a 12 DC, terá pertencido ao imperador Augusto)
Serviço de mesa em ouro e porcelana do duque Carlos Alexandre de Lorena ( século XVIII)
O futuro imperador José I, aquando da sua coroação como rei romano (marfim, século XVII)
Imperador Leopoldo I (?)

Tesouro funerário em ouro de Nagyszentmiklós (hoje Sînnicolaul Mare, Roménia, arte proto-búlgara, século IX)
Idem

Saleiro de Francisco I (ouro parcialmente esmaltado - Obra-prima de Benvenuto Cellini, século XVI)
Relógio automático: Diana cavalgando um centauro (prata dourada e esmaltada, século XVII)
Taça em argila com figuras vermelhas: O adeus de um guerreiro (Atenas, 500 AC)
Imperador Rodolfo II (Adrian de Fries, século XVII)
Imperador Carlos-Quinto (Leone Leoni, século XVI)
Filipe II de Espanha (Pompeo Leoni, século XVI)

A Galeria de Pintura expõe alguns dos mais importantes quadros dos grandes mestres europeus.



São Sebastião (Andrea Mantegna, século XV)
A Ninfa e o pastor (Tiziano, século XVI)
O Baptismo (Guido Reni, século XVII)
A Coroação de espinhos (Caravaggio, século XVII)
A Senhora do rosário (Caravaggio, século XVII)
São Miguel expulsando os anjos renegados no inferno (Luca Giordano, século XVII)
Infanta Margarida Teresa, com oito anos, de vestido azul (Velázquez, século XVII)
Riva degli Schiavoni em Veneza (Canaletto, século XVIII)
O milagre de São Domingos (Francesco Guardi, século XVIII)
Aníbal olhando para a cabeça de Asdrúbal (Giambattista Tiepolo, século XVIII)
Cristo transportando a cruz - Painel do lado esquerdo de um retábulo da Crucificação (Bosch, século XV)
A Adoração da Santíssima Trindade (Dürer, século XVI)
Imperador Maximiliano I (Dürer, século XVI)
Crucificação (Lucas Cranach, o Antigo, início do século XVI)
Jane Seymour (Hans Holbein, o Jovem, século XVI)
Imperador Rodolfo II (Hans von Aachen, século XVII)
Alegoria do Fogo (Arcimboldo, século XVI)
A Torre de Babel (Peter Bruegel, século XVI)
Os Caçadores na neve (Inverno) - (Peter Bruegel, século XVI)
Os Quatro Continentes (Rubens, século XVII)
Jacob de Cachiopin (Van Dyck, século XVII)
Jovem com uma flecha (Giorgione, século XVI)
O Baptismo de Cristo (Perugino, finais do século XV)
Senhora do Belvedere (Raffael, século XVI)
A Conversão de São Paulo (Parmigianino, século XVI)
Judite com a cabeça de Holofernes (Veronese, século XVI)
Susana e os velhos (Tintoretto, século XVI)
A Destruição do Templo de Jerusalém (Poussin, século XVII)
A Tentação de Adão e Eva (Hugo van der Goes, século XV)
A Crucificação (Roger van der Weiden, século XV)
Retábulo dos Sãos João (São João Baptista, à esquerda e São João Evangelista, à direita (Hans Memling, século XV)
O Atelier (Vermeer, século XVII)
Auto-retrato (Rembrandt, século XVII)

Não é possível continuar com a reprodução das pinturas notáveis, mesmo só das mais notáveis, existentes no Museu. As que registámos pretendem constituir uma amostra da imensa riqueza deste extraordinário acervo e destinam-se tão só a despertar nos leitores a vontade de se deslocarem a Viena.

A cafetaria do Museu
O último piso
Exposição temporária sobre a presença do imperador Carlos-Quinto em Tunis

Porque este post já vai longo, dispenso-me de de referir algumas imagens, também importantes, do Gabinete de Arte e da Colecção Numismática.

Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum), edifício simétrico do Museu de História da Arte
Estátua da imperatriz Maria Teresa, na Maria Theresienplatz, entre os dois museus
Idem

Na escadaria monumental do Museu pode apreciar-se uma notável escultura de Antonio Canova e um busto do imperador Francisco José.

Teseu derrotando o centauro (Canova)
Imperador Francisco José (Caspar Zumbusch)


Catálogo actual
Idem
Catálogo ao tempo da minha primeira visita há mais de dez anos
Muito ficou por escrever e por mostrar, mas o que se referiu permite avaliar a riqueza do Kunsthistorisches Museum de Viena, certamente um dos grandes museus da Europa, que não tendo o acervo nem as dimensões do Louvre, do British Museum, do Ermitage, do Prado (no que toca à pintura) ou do complexo dos museus de Berlim e do conjunto dos museus de Roma, par não falar já dos museus do Vaticano, é indubitavelmente um dos grandes espaços artísticos do Velho Continente.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

PASSEANDO POR ROMA




O escritor Dominique Fernandez, ilustre membro da Academia Francesa, publicou no final do ano passado um interessante livro, Le piéton de Rome, onde fornece preciosa informação a todos quantos pretendam visitar, com uma atenção que não se compadece com a rapidez das visitas turísticas, a Cidade Eterna. Eterna não só do Catolicismo mas também, e muito especialmente, do Paganismo e da influência que este projectou na longa caminhada cristã.

O texto, adverte-nos o autor, retoma parcialmente o do seu álbum fotográfico Rome, editado em 2004, com fotografias de Ferrante Ferranti, seu companheiro de há muitos anos nestas lides de ilustrar as obras que Fernandez tem publicado sobre as viagens aos mais diversos países do mundo. Todavia, o presente ensaio mais do que duplica o texto desse álbum, além de corrigir e refazer as páginas então escritas. E de acrescentar numerosas recordações pessoais do seu autor.

Não se trata, evidentemente, de um guia turístico de Roma, acessível em qualquer boa livraria, mas de um olhar perspicaz não só sobre coisas que os mais interessados conhecem mas igualmente sobre outras que passam despercebidas a quem não possui, como Fernandez, a intuição profunda que o conduz a explorar os mais recônditos locais para os quais a sua curiosidade é convocada.

Ao longo dos diversos capítulos, sem uma preocupação topográfica especial, Dominique Fernandez evoca-nos a Roma Antiga, da República e do Império, a Roma da Igreja Católica, a Roma do Renascimento, a Roma dos nossos dias. Desfilam perante nós os palácios, as colinas, as villas e jardins, as igrejas, os obeliscos, as fontes. Alguns capítulos merecem especial referência: os dedicados ao imperador Adriano, ao Caravaggio, a Bernini. Tudo isto acompanhado das reflexões pessoais do autor e da narração de episódios vividos por ele na cidade, onde foi pela primeira vez enquanto estudante e que depois não deixou de frequentar assiduamente durante a sua vida.

Há todavia um aspecto, que já se tornou recorrente na vastíssima obra de Dominique Fernandez, e em relação ao qual só posso manifestar a minha discordância. Trata-se da sua abordagem do assassinato de Pier Paolo Pasolini. Insiste o autor na tese de um crime exclusivamente ligado ao "negócio" entre o famoso realizador italiano e o rapaz que nessa noite fatídica engatara na Stazione Termini de Roma, lugar que Pasolini diariamente frequentava para encontros sexuais.

Nas várias obras que publicou e em que é mencionada esta situação, nomeadamente no seu romance Dans la main de l'ange, exactamente sobre a  vida de Pasolini e pelo qual obteve o Prémio Goncourt, e também no livro de que hoje nos ocupamos, Dominique Fernandez persiste em afirmar que se tratou de um "encontro" que correu mal e que desencadeou a violência homicida. Certamente não ignora Fernandez que desde o primeiro momento se admitiu a possibilidade do crime ter sido um acto político a coberto dos costumes sexuais do realizador de Salò, já que este se tornara uma personagem incómoda para a Igreja Católica, para a Democracia Cristã e a extrema direita e até para o próprio Partido Comunista Italiano de que fora membro; há uma considerável bibliografia sobre a matéria. Não se compreende por isso que Fernandez negue aprioristicamente o que parece uma evidência, sem proceder, pelo menos, à mínima referência à tese do assassinato político.

Deve acrescentar-se que Le piéton de Rome é um livro muito interessante, mas cuja leitura aproveitará especialmente às pessoas que já conheçam razoavelmente Roma ou que, pelo menos, tenham visitado a cidade uma vez.