quinta-feira, 24 de setembro de 2015

PRAIAS CRETENSES




O litoral setentrional da ilha de Creta tem o privilégio de dispor de uma sequência de praias magníficas, banhadas por águas tépidas e tranquilas. O sítio ideal para quem goste de tomar banhos de mar como se estivesse na banheira. De certo modo, recordam-me as praias da Tunísia, agora pouco frequentadas, por óbvias razões. Nem o Mediterrâneo seria o Mare Nostrum se não nos facultasse vantagens pouco frequentes noutras paragens.





Também é um facto que a costa norte da ilha se encontra dotada de óptimas unidades hoteleiras, de vários géneros e preços, oferecendo ao veraneante um leque de opções capaz de satisfazer as exigências mais diversas.



Tive a oportunidade de passar alguns dias, há duas semanas, num hotel de Amudara, uma localidade cerca de 10 km a oeste de Heraklion. Uma experiência que procurarei repetir. Não só pela excelência da praia como pela qualidade das instalações que utilizei.



Dotado de vários restaurantes e bares, tavernas e tendas "beduínas", piscinas e campos de jogos, o hotel dispõe ainda de uma capela, edificada no vasto parque, e de um teatro ao ar livre, além das funcionalidades habituais neste género de empreendimentos.





Independentemente do edifício principal, existem muitos bungalows, espalhados pelo parque ou debruçados sobre a praia.



Garanti-me, à partida, de que se tratava de uma zona calma e de um hotel mesmo sobre a praia, com uma frequência habitual de gente adulta, ao contrário da efervescência que reina em outras localidades turísticas da ilha. Verifiquei, à chegada, que havia até uma representação significativa da chamada terceira idade, o que conferia ao ambiente um sossego porventura difícil de encontrar noutras paragens. Também havia jovens e crianças, mas a percentagem destas era relativamente despicienda e impossível, por isso, de perturbar os adultos.


Com Manos, empregado do bar da esplanada

Do que me fui apercebendo, e também pelas perguntas aos funcionários, os ocupantes do hotel são, em média, 50% de franceses e belgas. Depois, vêm, em percentagens semelhantes, ingleses e alemães. Em quinto lugar, os russos. O remanescente distribui-se por várias nacionalidades, mas eu era o único português. E antes de mim, que se lembrassem, só um outro tinha por lá passado este ano.

Com a equipa de animação

No teatro

Com Nikos, empregado do bar do teatro (Nikos, que também é jogador de basquetebol, tem 2 m de altura!!!)




A "equipa de animação", composta por quatro rapazes (dois italianos, um espanhol, outro de ascendência peruana) e quatro raparigas, encarregavam-se de monitorizar actividades nas piscinas, jogos de bola (não sei quais), etc., e, à noite, exibiam-se no teatro, com shows divertidos, de compreensão acessível (a língua utilizada era, como em toda a parte, o inglês) mesmo para quem não entendesse o que diziam, pois o gesto é tudo e a coreografia e o cenário ajudam.




Em frente do hotel, ou melhor da série de hotéis que bordam a costa, um vasto conjunto de restaurantes e de lojas (supermercados, casas de souvenirs, etc,) compõem a paisagem local.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

OS ENCANTOS DE CRETA


"O Príncipe dos Lírios" (Fresco do Palácio de Cnossos, hoje no Museu Arqueológico de Herakleion)

Não é possível falar de Creta, que hoje faz parte do território da Grécia, sem uma breve alusão à história milenária da ilha. Habitada desde cerca de 6000 AC, os seus primeiros ocupantes terão vindo da Ásia Menor, durando a Época Neolítica até 2600 AC. A esta sucedeu a Idade do Bronze,  a que Arthur Evans chamou Época Minoica, em homenagem a Minos, rei de Creta, cujo célebre palácio em Cnossos aquele notável arqueólogo descobriu ao fim de porfiadas escavações.

Fortaleza de Koules, em Herakleion (Designação aliás pleonástica, já que a palavra grega 'koules' deriva do turco 'kule' que significa precisamente fortaleza)

A Época Minoica durou de 2600 a 1100 AC. Engloba quatro Períodos: Pré-Palacial (2600-1900 AC), Proto-Palacial (1900-1700 AC), Neo-Palacial (1700-1350 AC) e Post-Palacial (1350-1100 AC). Os historiadores consideram ainda um Período Sub-Minoico (1100-1000 AC), que coexiste com o Período Proto-Geométrico (1100-900 AC), resultante da chegada a Creta de vagas dóricas maciças. Este último período representa a entrada de Creta na parte propriamente grega da sua história.

Fortaleza de Koules (Vista do lado da cidade)

Até às escavações que puseram à vista os palácios de Cnosso e de Phaistos pouco se conhecia da Época Minoica, que permanecia mais no domínio da lenda do que da história. Permaneciam as alusões mitológicas e havia referências nos textos de Homero, Tucídides, Platão e Aristóteles. É um facto que a ilha se encontra numa posição particularmente favorável, quer para o domínio dos mares, quer para o desenvolvimento de uma grande civilização. Situada entre três continentes, aqui se encontraram e assimilaram três raças diferentes e as correntes culturais da Europa, da África e da Ásia, criando um novo modo de vida, uma nova concepção do mundo e uma forma de arte que ainda hoje surpreende pela sua frescura, a sua graça, a sua variedade e a sua  mobilidade. A mistura de raças é atestada pelos diferentes tipos de crânios encontrados nas escavações. De uma maneira geral, os minoicos podem ser incluídos na "raça mediterrânica", de estatura média, cabelos negros e olhos castanhos. Não se conhece a sua língua, pois ainda não foi possível decifrar os seus escritos. Todavia, parece tratar-se de uma categoria distinta das línguas mediterrânicas. Mais tarde, depois de 1450 AC, quando os aqueus se instalaram em Creta, a língua oficial que pouco a pouco a substituiu era uma forma muito arcaica do grego. Arthur Evans descobrira várias tabuinhas de argila em Cnossos, contendo três escritas que ele apelidou de "lineares". Duas ficaram conhecidas por Linear A e Linear B; a terceira é identificada como pictográfica ou hieroglífica cretense. A Linear B foi decifrada por Michael Ventris e, ao contrário do que Evans estava convencido, não era uma língua minoica mas sim uma língua helénica.Os eteocretenses (os verdadeiros cretenses) continuaram a falar o minoico, como atestam as inscrições encontradas em Creta oriental e que datam dos VI e V séculos AC. Esta escrita minoica, a Linear A, sem qualquer relação com a língua grega, continua por decifrar.

Fortaleza de Koules (Vista do lado do mar - Na muralha, o Leão de S. Marcos)

Homero sabia que os habitantes de Creta eram de raças distintas, citando cinco: pelasgos, eteocretenses, cydonianos, aqueus e dórios, e que todos falavam uma língua diferente. Sabia também que Creta era extremamente povoada, com cerca de 100 cidades, das quais citava o nome de algumas. As escavações deram razão a Homero, quando foram descobertos numeroso centros minoicos, entre os quais quatro de grande sumptuosidade, os palácios de Cnossos e de Phaistos e também os de Malia e Zakros.

Basílica de S. Marcos (Hoje utilizada como galeria de arte)

É no Período Pré-Palacial que se começa a utilizar o bronze para fabricar utensílios e armas. Sabe-se que já se construíam casas de pedra e tijolo e que se usava o estuque vermelho para revestir as paredes. A economia assentava na agricultura, na pecuária, nos transportes marítimos e no comércio.

Basílica de S. Marcos (Interior)

No Período Proto-Palacial o poder é reunido nas mãos dos reis. Criam-se então os centros palaciais com grande influência cultural nas regiões adjacentes. As escavações põem a descoberto os palácios de Cnossos, Phaistos, Malia e Zakros. A cerâmica conhece um novo desenvolvimento, bem como a ourivesaria. Surgem os santuários no cume das montanhas. O panteão minoico é acrescido mas continuando a ter como centro a divindade mãe. Nos arquivos dos palácios constata-se que a escrita hieroglífica começa a ser substituída pela escrita linear. Por volta de 1700 AC uma terrível catástrofe, talvez um terramoto, destrói os palácios e as habitações dos cretenses.

Catedral de S. Minas

É no Período Neo-Palacial que a civilização minoica atinge o seu apogeu. São construídos novos palácios, muito mais sumptuosos,  sobre as ruínas dos antigos. As cidades são reconstruídas e estendem-se por toda a ilha, desenvolvendo intensa actividade. A economia floresce em todas as suas vertentes. A arte atinge aspectos de grande magnificência e intensificam-se as trocas marítimas com o mundo civilizado da época. A dimensão e esplendor dos palácios, que não cabe aqui descrever, é de inusitada grandiosidade. Refira-se, apenas, que o Palácio de Cnossos ocupa uma área de 22 km quadrados e possui 1.500 divisões e que a sua decoração é magnífica. O sistema social era provavelmente de tipo feudal e teocrático, sendo o rei de cada centro palacial igualmente o chefe religioso. É possível que tenha havido uma hierarquia destes reis grandes-sacerdotes, de que o soberano de Cnossos constituía o topo. Graças a este sistema a ilha conheceu um longo período de paz - a famosa Pax Minoica - que tornou possível um prodigioso desenvolvimento cultural, um modo de existência imbuído de finura e de alegria de viver, e o domínio dos mares. A escrita hieroglífica foi substituída pelo sistema linear A. Os textos que chegaram até nós, cerca de 200, estão escritos na língua minoica, que ainda nos é desconhecida, em tabuinhas de terracota. O Disco de Phaistos apresenta um texto único, em caracteres hieroglíficos, pertencendo ao começo deste período. A escritura hieroglífica teria contudo subsistido sendo utilizada pelos sacerdotes nos textos religiosos. Por volta de 1450 AC uma terrível erupção vulcânica na ilha de Santorini, a cerca de 100 km a norte de Creta, cuja intensidade se repercutiu em toda a bacia do Mediterrâneo, terá destruído esta brilhante civilização.

Catedral de S.Minas (Interior)

Após a grande destruição a vida reaparece em Creta com a chegada dos aqueus, por volta de 1350 AC, que constroem simples palácios micénicos.  Entramos no Período Post-Palacial. A presença desta dinastia, que fica sediada no Palácio de Cnossos, entretanto reconstruído, é atestada pela língua grega arcaica escrita em linear B, e por um novo estilo de cerâmica. Os aqueus espalham centros por toda a ilha, mas esta nova civilização revela-se muito empobrecida face à brilhante civilização minoica. A última fase desta época é um período de grande decadência e perturbações, devido ao movimento geral dos "povos do mar" no Mediterrâneo oriental. É nesta altura que chegam a Creta os primeiros dórios, como atestam novos elementos culturais, como a incineração dos mortos, armas e utensílios de ferro, e novos motivos geométricos.

Catedral de S. Minas (Interior)

Com as vagas maciças de dórios que aportam à ilha cerca de 1100 AC, Creta entra no período Proto-Geométrico que se estende até 900 AC e que coexiste com o que designamos por período Sub-Minoico que dura até 1000 AC. A tradição cultural cretense continua a resistir em certas regiões, nomeadamente nos centros montanhosos eteocretenses.

Igreja de S. Tito

Durante o Período Geométrico (900-600 AC), tem lugar a organização das cidades-estados da Creta dórica, com o estabelecimento de um regime político semelhante ao que vigorava em Esparta e com o mesmo sistema de recrutamento militar dos jovens. As relações com o Egipto favorecem o desenvolvimento de novas expressões artísticas, com influência na escola cretense "dedálica", cuja criação é atribuída ao herói lendário Dédalo.

Igreja de S. Tito (Interior)

É, todavia, na Época Arcaica (650-500 AC) que a arte dedálica conhece o seu apogeu, ainda que isso represente o último brilho da arte propriamente cretense. O espírito militarista e sobretudo as guerras que começam a opor as cidades-estados de Creta conduzem rapidamente à decadência cultural. A maior parte dos artistas emigra para o continente, contribuindo para a criação do milagre grego.

Igreja de S. Tito (Relíquias do santo)

Durante a Época Clássica (500-330 AC), Creta permanece cortada do resto da Grécia. Não participa nas Guerras Médicas e mantém-se neutral na Guerra do Peloponeso. Acentua-se o antagonismo entre as cidades, pouco propício à actividade artística. Verifica-se, contudo, que é nesta época que a numismática atinge o seu apogeu.

Fonte de Morosini

A Época Helenística (330-69 AC) é marcada pela continuação da luta ente as cidades cretenses, agora aliadas a cidades gregas, ou dos reinos helenísticos do Egipto e do Oriente. A intervenção de forças estrangeiras e o desenraizamento das populações após a destruição das suas cidades pelo inimigo é uma das razões que leva numerosos cretenses a alistarem-se nos exércitos estrangeiros.

Loggia veneziana

O Período Greco-Romano (69 AC-330 DC), inicia-se com o desembarque perto de Cydonia (ou Kydonia) de uma frota romana comandada pelo cônsul Quintus Caecilius Metellus em 69 AC, que, após três anos de combate, conquista toda a ilha. Creta torna-se uma província romana com a capital em Cnossos, mais tarde transferida para Gortys (ou Gortyna). Sob o reinado de Augusto, Creta é unida administrativamente à Cirenaica. As autoridades locais continuam a existir a título honorário mas o poder é exercido nas cidades pelos representantes romanos, dependentes do pretor sediado na capital. Este longo período de paz - a famosa Pax Romana - permitiu grandes construções e um importante desenvolvimento da estatuária. Cnossos foi dotada de numerosas casas romanas e há vestígios de necrópoles e cisternas monumentais desta época.

Loggia veneziana

A Época Bizantina - Período A (330-824) decorre do facto administrativo de Creta ter sido, em 330, separada da Cirenaica e anexada à Ilíria. Com a morte de Teodósio I (395) e a divisão definitiva do Império Romano, a ilha ficou a pertencer ao Império Romano do Oriente ou Império Bizantino.O cristianismo desenvolveu-se muito cedo em Creta. O apóstolo Tito, companheiro do apóstolo Paulo, instalou-se em Gortyna e a partir daí organizou a igreja e instalou sacerdotes nas principais cidades, que constituíram mais tarde os primeiros bispados. Existem ruínas de basílicas paleocristãs em Panormo, Vyzari, Cnossos, Hersonissos,  Gortyna, Olus, Sitia, Falasarna, Kissamos e Elyros. A partir do século VII a ilha começa a ser objecto dos ataques dos árabes, que se tinham tornado uma força marítima, tendo o norte de África e a Síria como base de operações. A paz foi igualmente perturbada pela questão dos iconoclastas, tendo os cretenses tomado o partido dos iconólatras, contra Leão III.

Mosteiro de S. Pedro e S. Paulo (Em reconstrução)

A Ocupação Árabe (824-961) começa com o desembarque dos árabes vindos de Espanha sob o comando de Abu Hafs Omar I que queima os barcos para obrigar os seus soldados a lutarem com todas as suas forças para conquistarem a terra onde "correm o leite e o mel". Os cretenses opõem denodada resistência mas acabam por ser vencidos. Os árabes constroem a sua capital no local da actual Herakleion e rodeim-na de fortificações e de fossos profundos. Foi por causa do fosso ( خندق, em árabe) que a cidade tomou o nome de Khandaq, que subsistiu até ao século XIX sob a forma veneziana de Candia. As igrejas foram demolidas ou transformadas em mesquitas e os cretenses obrigados a converter-se ao islão. A ilha tornou-se um antro de piratas e um mercado de escravos. Os bizantinos esforçaram-se diversas vezes por reconquistar Creta mas foi só em 961 que o general Nicéforos Focas, comandando consideráveis forças terrestres e navais, e após um cerco a Khandaq que durou meses, conseguiu vencer e aniquilar os árabes, massacrando uns e reduzindo os outros à escravidão. Nada restou da cidade, cujos muros foram arrasados e não existem quaisquer vestígios da ocupação árabe, à excepção de uma série de moedas com o nome dos emires.

Biblioteca Municipal

O Período B da Época Bizantina (961-1212) caracterizou-se por devolver a Creta o seu carácter helénico e a sua religião. As mesquitas voltaram a ser igrejas e os convertidos ao islão regressaram ao cristianismo, como é de tradição no vaivém religioso. O general Focas pretendeu transferir a capital para o interior da ilha, mas confrontado com a oposição da população viu-se obrigado a reconstruir Khandaq, que continuou como sede do governo e da metrópole episcopal, que se tornou conhecida entre os habitantes como Megalo Kastro (Grande Castelo). Em 1182 foram enviados novos colonos pelo imperador Alexios II Comneno, a quem foram distribuídas grandes propriedades e que originaram uma nova aristocracia cretense. Quando em 1204 o Império Bizantino se desmoronou face à ofensiva dos Cruzados (as Cruzadas constituem dos mais negros episódios da história da Humanidade), os seus territórios foram distribuídos pelos respectivos chefes. O novo imperador (latino) deveria ter sido Bonifácio de Monferrato mas os venezianos, por razões políticas, optaram por escolher Balduíno da Flandres, tendo Creta sido atribuída a Bonifácio que preferiu permanecer em Salónica (como rei), cedendo a ilha aos venezianos por 1.000 thalers de prata. Entretanto, os genoveses anteciparam-se aos venezianos e, sob as ordens de Enrico Pescatore, conde de Malta, desembarcaram na ilha. Construíram fortes nos pontos estratégicos e repararam as muralhas de Khandaq, conseguindo resistir às investidas venezianas até 1212.

Sanitários públicos junto à Fortaleza (Uma utilidade que vai desaparecendo na Europa "civilizada")

Durante a Ocupação Veneziana (1212-1669), Creta foi dividida em três, e depois em quatro regiões, que correspondem grosso modo aos departamentos actuais. Khandaq, ou Candia, permaneceu como capital da ilha, que passou a designar-se Reino de Candia. Aqui se instalou o duca, com o seu conselho e o bispo latino. Os habitantes puderam permanecer ortodoxos, o clero inferior não foi perseguido, nem se tocou nos mosteiros ou nas suas fortunas, mas a igreja de Creta ficou acéfala, já que o arcebispo e os bispos ortodoxos foram obrigados a abandonar a ilha. Os pesados impostos e a atribuição de grandes propriedades aos soldados e aos colonos venezianos provocaram uma longa série de revoluções, especialmente durante os primeiros séculos da dominação veneziana, com as consequentes e violentas repressões. Com o tempo, invasores e súbditos chegaram a um entendimento nesta terra devastada. O extraordinário poder de assimilação de Creta e também interesses comuns levaram a uma "união" entre os antigos habitantes da ilha e os "novos cretenses" contra a soberania de Veneza. E Creta proclamou-se autónoma em 1363 sob a designação de Democracia de São Tito, mas foi rapidamente obrigada a submeter-se à metrópole. Todavia, as sublevações continuaram e a ilha foi igualmente flagelada por sismos, incursões de piratas e epidemias. Apesar de todas estas calamidades, Creta alcançou nesta época um importante desenvolvimento cultural. Com a tomada de Constantinopla pelos turcos (1453), a visão do Império desvaneceu-se para os cretenses, que se aproximaram de Veneza, que no seu espírito tomou de alguma forma o lugar de Constantinopla, tornando-se agora a sua verdadeira capital. Novamente Creta, como o fora na Antiguidade, vai contribuir para uma nova civilização europeia. Megalo Castro, o nome porque é agora conhecida a cidade de Khandaq, torna-se lugar de acolhimento a refugiados, mestres de filosofia, de teologia e de retórica, e também um centro de cópia de manuscritos gregos, trazidos de Constantinopla e difundidos em Itália pelos sábios bizantinos. Na "tipografia" de Aldo Manuzio, o cretense Marcos Moussouros, "o homem mais culto do seu tempo", imprime as obras de Sófocles, Eurípides, Platão e Aristóteles. Ao mesmo tempo, Zacharias Kallerghis cria a primeira "tipografia" propriamente grega e publica o Grande Dicionário Etimológico da Língua Grega, que constituiu uma contribuição de primeiro plano para os estudos gregos em Itália. O Renascimento europeu também faz sentir a sua influência em Creta, com o reaparecimento da poesia e do teatro. A literatura grega moderna tem as suas fontes neste desenvolvimento das letras cretenses. A pintura religiosa renova-se pela assimilação de elementos ocidentais e os ícones cretenses são procurados em todo o mundo ortodoxo. Citem-se os famosos pintores Damaskinos, Théophanis o Cretense, Emmanuel Tzanès, Bounialis e, especialmente, Doménikos Theotokópoulos (El Greco) que nasceu em Fodele (a 27 km da capital) em 1541, e aí fez, na juventude, a aprendizagem da sua arte. A arquitectura dos últimos anos da dominação veneziana deixou também uma herança rica em Creta, atribuindo a toda uma cidade ou região características inspiradas nos modelos ocidentais. Distinguem-se as fortificações, como a de Megalo Castro (Herakleion), que envolvia toda a cidade e era a maior do Mediterrâneo oriental, ou a Fortezza, em Rethymno, abrangendo a zona habitacional. O Megalo Koules (conhecido inicialmente como Castello a Mare), foi o mais impressionante de todos os portos venezianos e as suas muralhas ainda hoje resistem às vagas do mar. Também subsistem em Herakleion, a basílica de São Marcos (hoje transformada em galeria de arte), a igreja de S. Pedro e S. Paulo (em reconstrução), a loggia veneziana (recentemente reconstruída), ou a célebre fonte de Morosini (ou dos Leões). E pode admirar-se as magníficas portas de alguns palácios venezianos no Museu Histórico de Creta. Assim, os dois elementos da população da ilha (os cretenses originários e os vindos de Veneza) reconciliaram-se na arte, na literatura, na língua, e até na religião, durante o período final da ocupação veneziana. Em breve se encontrariam frente a um inimigo comum, os turcos, que se tornavam cada vez mais ameaçadores.

Igreja católica de S. João Baptista

O começo da Dominação Turca (1669-1898) teve lugar com a tomada da capital pelos otomanos comandados pelo grão-vizir (albanês) Köprülü Fazil Ahmed Pasha, após 21 anos de cerco de Candia (iniciado em 1648), e da ocupação do resto da ilha desde 1645. Os cercados foram autorizados a partir em barcos venezianos, transportando os bens que puderam e os objectos de culto. Veneza conservou três fortalezas: Gramboussa, Souda e Spinalonga. Os turcos confiscaram os bens públicos e privados e obrigaram os cristãos a converter-se, ainda que muitos se tenham refugiado nas fortalezas venezianas e nas montanhas, onde se tornaram o terror dos ocupantes. Começou, assim, uma resistência organizada, sobretudo contra os janízaros que, por vezes ao arrepio das próprias autoridades turcas, exerciam um poder altamente repressivo na ilha. A revolução grega de 1821 encontrou Creta pronta para combater e decidida a adquirir a sua liberdade. Distinguem-se duas fases: a primeira, que durou até 1824, quando forças egípcias chamadas pelos turcos esmagaram os revolucionários após batalhas sangrentas; a segunda, iniciou-se com um movimento de revolta em Gramboussa que se estende com sucesso a toda a ilha, até 1830, altura em que os turcos estavam literalmente encerrados nas suas fortalezas. O reconhecimento da independência da Grécia (1832) não incluiu Creta, que seria vendida pelo sultão, por 20 milhões de marcos, a Mehemet Ali, khediva do Egipto. E, em 1840, Creta voltou às mãos dos turcos, mas as sucessivas revoltas, com a ajuda não oficial da Grécia, conseguiram melhorar as condições de vida dos cretenses. Os turcos foram obrigados a conceder uma Lei Orgânica aos cretenses, em que o poder seria exercido por cristãos e muçulmanos. Em 1897, após um massacre de cristãos, verificou-se a intervenção oficial da Grécia, que provocou uma guerra entre este país e a Turquia. As circunstâncias e as grandes potências (na altura ainda não se utilizava a designação de "comunidade internacional") forçaram os cretenses a aceitar o estatuto de independência sob a protecção do sultão (1898). Foi nomeado alto-comissário o príncipe Jorge da Grécia

Café-Bar La Brasserie (O único café abertamente gay em Herakleion)

O Período de Autonomia (1898-1912) foi marcado por diversas sublevações contra as potências ocupantes e pela vontade de união à Grécia. A cidade de Candia foi rebaptizada com o nome de Herakleion (cidade de Hércules), em memória do porto romano de Heracleum,  cuja localização exacta é desconhecida, e tornou-se, em 1971, a capital de Creta, em substituição de Chania (ou Hania, ou Caneia).

Café-Bar La Brasserie

Em fins de 1912, após a eclosão da guerra greco-turca, o cretense Venizelos, primeiro-ministro grego,  declarou aos representantes cretenses que a ilha passava a fazer parte do Reino da Grécia, decisão concretizada em 1913.

O porto de Herakleion

Em Maio de 1941, Creta foi atacada pela aviação alemã, travando-se duros confrontos entre os paraquedistas germânicos e o que subsistia da população cretense, uma vez que os seus militares tinham sido enviados para combater na Albânia. Esta ocupação terminou em Outubro de 1944.


Montra de uma livraria na Rua Korai, em Herakleion (Na primeira linha do expositor, um livro com a fotografia de Cavafy)

Este resumo da história de Creta, certamente muito sintético dado que essa história tem mais de 4.000 anos, destina-se tão só a fornecer um panorama da vida acidentada da simpática ilha. Mesmo assim, e eliminando aspectos que teria gostado de sublinhar, tenho a consciência de que me alonguei. Os leitores que me desculpem.


NOTA: As imagens referem-se à cidade de Herakleion.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

QUEM MATOU ROLAND BARTHES?




Acabou de ser publicado o segundo romance de Laurent Binet, La septème fonction du langage, cujo ponto de partida é a morte por atropelamento do célebre filósofo, sociólogo e semiólogo francês Roland Barthes, na Rue des Écoles, em 1980, após um almoço com François Mitterrand.

Neste livro, em que intervém uma parte significativa da intelectualidade francesa da época, segundo Binet todos são suspeitos. Adivinha-se, por isso, que suscitará polémica numa rentrée literária que se afigura de melhor qualidade relativamente aos anos anteriores.

Laurent Binet

Recorde-se que Laurent Binet publicou em 2010 um livro que obteve o Prémio Goncourt do primeiro romance, HHhH, e que comentámos aqui. O autor, agregado de letras e professor na Universidade de Paris, é também músico, produzindo-se como cantor-compositor do grupo Stalingrad.

Oportunamente registaremos a nossa opinião sobre a obra.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO E AS VERDADEIRAS CONSPIRAÇÕES




TUDO COMEÇOU MUITO ANTES.

Mas tomemos como ponto de partida o assassinato do Papa João Paulo I em Setembro de 1978. O conclave que teve lugar após a morte do Pontífice, um homicídio inédito nos últimos séculos, catapultou para a cadeira de Pedro uma figura sinistra, o cardeal Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, o primeiro papa não italiano em cinco séculos, que assumiu hipocritamente o nome de João Paulo II. Esta eleição não foi certamente inspirada pelo Espírito Santo mas imposta pelo governo secreto mundial (cuja existência muitos se empenham em negar), que "recomendou" a votação no prelado polaco, julgado capaz de provocar um sismo político na Europa: o desmoronamento da União Soviética e o fim do comunismo. Uma empresa de vulto, confiada a um homem considerado suficientemente hábil para alterar o equilíbrio de forças a nível  mundial.

Não hesitando nos meios para alcançar os fins, João Paulo II  manobrou as reivindicações laborais do sindicato polaco Solidariność, chefiado pelo corrupto Lech Walesa, convertendo-as numa contestação ao regime de Varsóvia. A eleição de Wojtyla foi conjugada pelo governo secreto com as eleições de Margaret Thatcher, para primeiro-ministro do Reino Unido, em 1979 (ficaria no lugar até 1990) e de Ronald Reagan, para presidente dos Estados Unidos, em 1981 (ficaria no lugar até 1989). Este "triunvirato" foi mandatado não só para alterar a ordem internacional saída de Yalta e Potsdam, isto é, a eliminação dos regimes comunistas da Europa, mas igualmente para iniciar o desmantelamento das estruturas socialistas e social-democratas dos países "ocidentais". Começaram assim as privatizações arbitrárias e os ataques ao "Estado Social" e abriu-se caminho para progressiva perda de influência dos partidos socializantes do chamado mundo livre, além da desregulação dos mercados financeiros e, do ponto de vista religioso, operou-se um retrocesso das posições da Santa Sé para um conservadorismo tridentino. Durante uma década, com o auxílio de alguns comparsas menores, estas três personagens realizaram um trabalho perseverante para a consecução dos objectivos que lhes haviam sido determinados, trabalho ora subterrâneo, ora à luz do dia, que contaria com a contribuição inesperada do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbatchov (eleito para o cargo em 1985), que por ingenuidade, fraqueza de espírito, ignorância política ou motivos pessoais acabou por se converter num aliado objectivo dos desígnios da tríade "libertadora".

Enquanto a Velha Rússia se afundava não só económica mas politicamente, Gorbatchov assumia em 1988 o cargo de presidente do Presidium do Soviete Supremo (sucedendo a Andrei Gromyko), e em 1989 passava a presidente do Soviete Supremo (cargo anteriormente não existente mas que se integrava nas proclamadas políticas da Perestroika e da Glasnost). Os dados estavam lançados, e em 9 de Novembro de 1989 caía o Muro de Berlim. Daí à reunificação da Alemanha foi um passo. Em 3 de Outubro de 1990 a República Federal da Alemanha (governada por Helmut Kohl) absorvia a República Democrática Alemã, e ficava livre o caminho para o estabelecimento do IV Reich. Em 15 de Março de 1990, Gorbatchov alterou mais uma vez a designação do seu cargo, passando a presidente da União Soviética. Entretanto, sucediam-se as mudanças nos países da Europa de Leste, com maiores ou menores convulsões, à excepção do episódio sinistro do fuzilamento de Nicolae Ceaușescu, em 25 de Dezembro de 1989, após um simulacro de julgamento transmitido pela televisão.

Em Agosto de 1991, estando Gorbatchov na sua datcha da Crimeia, um grupo de dirigentes políticos e militares da União Soviética tentou removê-lo do cargo, perante o descalabro generalizado do país e devido às suas contínuas cedências às exigências ocidentais. O golpe falhou, e Gorbatchov, que fora detido três dias, regressou a Moscovo, mas só lhe restava demitir-se, o que veio a suceder em 25 de Dezembro de 1991. Extinta a União Soviética, o ébrio Boris Yeltsin, que assumira a presidência da Rússia (10 de Julho de 1991) tornou-se o único interlocutor do antigo império soviético, mantendo-se no cargo até 31 de Dezembro de 1999, altura em que foi substituído por Vladimir Putin.

A primeira parte do plano do governo secreto mundial ficara concluída em 1991, mas não inteiramente. Restava a Jugoslávia. Havia, pois, que destruí-la. O país, composto por seis repúblicas, fora uma construção artificial criada no fim da Primeira Guerra Mundial. Aguentara-se no período entre as duas guerras, com lutas fratricidas durante as ocupações alemã e italiana, mas sobreviveu à Segunda Guerra, sob a liderança de Tito, que oportunamente se distanciara de Moscovo a favor do Movimento dos Não-Alinhados. Morto Tito, presidente vitalício, em 1980, sucederam-se rotativamente os presidentes das seis repúblicas. Em 1991, Slobodan Milošević foi eleito presidente da Sérvia, lugar que ocupou até 1997, quando se tornou o terceiro presidente da República Federal da Jugoslávia, até 2000. Mas desde Junho de 1991 que a Federação Jugoslava colapsara com a proclamação unilateral de independência por parte da Eslovénia e da Croácia, prontamente reconhecidas pelo Vaticano (com o entusiasmo proselitista de João Paulo II) e pela Alemanha. Recorde-se que a Eslovénia e a Croácia são católicas e a Croácia apoiara a Alemanha nazi. Também a Macedónia proclamara a independência em Setembro e a Bósnia/Herzegovina em Outubro. A União Europeia viria a proceder ao reconhecimento oficial em 1992, ficando a Jugoslávia então reduzida à Sérvia e ao Montenegro. Mas na Bósnia, de população maioritariamente muçulmana, as coisas não correram bem, devido a razões endógenas e também a influências exteriores. E sendo um terço da população ortodoxa, verificou-se uma intervenção da Sérvia. O conflito durou até 1995, registando-se mais de 250.000 mortos. Todavia, sobrava ainda o Kosovo, região autónoma da Sérvia, de população maioritariamente albanesa, que, em 1998, reivindicou igualmente a independência. Milošević não cedeu e enviou as suas tropas. Em Fevereiro de 1999 teve lugar a Conferência de Rambouillet, organizada pela NATO, a fim de resolver o problema do Kosovo. Foram feitas exigências inaceitáveis à Sérvia, que esta recusou. Apesar da hesitação de alguns países europeus, a secretária de Estado norte-americana, a famigerada Madeleine Albright, contra a vontade da maior parte dos participantes, exigiu o bombardeamento da Sérvia se esta não aceitasse o ultimato da NATO. Mesmo a França, aliada tradicional da Sérvia, se viu compelida a condescender. Abolido o conceito de independência das nações, ignorado o direito internacional, foi ultrapassado o conceito do direito de ingerência, substituindo-o agora pelo de dever de ingerência. A Sérvia foi bombardeada durante três meses (Março a Junho), com todas as suas infraestruturas destruídas e Belgrado largamente danificada, como eu pessoalmente tive ocasião de verificar. O primeiro-ministro português, António Guterres chamou-lhe "guerra humanitária", certamente um novo conceito jurídico. Milošević foi forçado a render-se, sendo substituído em 2000 por Vojislav Koštunica. O Kosovo passou a ser administrado pela ONU e proclamou a sua independência em 2008 (com um governo constituído por terroristas e traficantes de armas e droga), que não foi reconhecida por elevado número de países. Entretanto, os Estados Unidos instalaram no território uma importante base militar, o que era, aliás, a intenção norte-americana ao promover o conflito na Jugoslávia.

Mas o início do novo século traria mais novidades, como seria de esperar atendendo aos desenvolvimentos dos últimos 20 anos. Em 11 de Setembro de 2001, registou-se o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono, em Washington, logo atribuídos à Al-Qaida. A organização de Osama Bin Laden fora criada e apoiada militar e financeiramente pela CIA para ajudar a expulsar os soviéticos do Afeganistão. Cumprida a missão, teriam ficado sem trabalho os militantes dessa Base ou o ataque aos Estados Unidos continuou a fazer parte de um plano milimetricamente delineado? As opiniões dividem-se, mas a confusão das notícias provenientes da Casa Branca nos primeiros momentos e as investigações a que especialistas conceituados procederam posteriormente suscitam as maiores dúvidas quanto à natureza do ataque. Como foi possível destruir subitamente as Twin Towers por dois aviões de carreiras regulares sujeitos à monitorização das torres de controlo dos aeroportos?

Roosevelt precisou do ataque a Pearl Harbor para intervir na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Bush necessitava também de um acontecimento dramático para invadir o Médio Oriente. Assim, o ataque aos EUA caiu como sopa no mel. Será esta uma conclusão exagerada? Não me parece. Num primeiro momento desencadeou-se uma guerra inútil, a pretensa ocupação do Afeganistão, refúgio da Al-Qaida, sendo sabido que nem ingleses, nem russos alguma vez conseguiram ocupar o montanhoso país. Os afegãos não gostavam dos taliban que parcialmente os governavam depois da partida do soviéticos, mas gostavam ainda menos dos americanos que os bombardeavam. É claro que o objectivo final não era realmente o Afeganistão, mas o Iraque. E em 2003, George W. Bush, depois da infamante Cimeira das Lajes (16 de Março de 2003), onde se reuniu com Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, uma reunião que cobriu de opróbrio o nosso país, decidiu invadir o Iraque. Os neoconservadores americanos descobriram um pretexto infantil, a existência de armas de destruição maciça que Saddam Hussein estaria disposto a utilizar, pondo em perigo não só a Europa mas os próprios Estados Unidos. O ridículo não tem limites, mas os americanos ignoram o ridículo. Na altura, alguns jornalistas e analistas políticos portugueses, sem vergonha na cara, também defenderam acerrimamente aquelas posições e não me recordo que se tenham retractado. Honra seja feita à França que se demarcou da iniciativa e ao seu  ministro dos Negócios Estrangeiros, Dominique de Villepin, que proferiu no Conselho de Segurança da ONU um discurso que, ineditamente, foi calorosamente aplaudido. Houve mesmo quem jurasse ter visto as armas, pelo menos os comparsas das Lajes. Mas afinal não existiam. Em 20 de Março de 2003, americanos, ingleses e aliados da "coligação" começavam a bombardear o Iraque. Pelo meio ficou a estranha morte do cientista britânico David Kelly, ex-inspector da ONU no Iraque, que apareceu suicidado perto de sua casa, em Oxfordshire, em Julho de 2003. Blair irritou-se quando lhe foi perguntado por um jornalista no Japão, onde se encontrava, se tinha sangue nas mãos.

Diga-se em abono da verdade que a campanha de intoxicação promovida pelos Estados Unidos a nível mundial não logrou o efeito ambicionado e as manifestações que por toda a parte tiveram lugar, reunindo milhões de pessoas, em protesto contra esta nova guerra, evidenciou que os EUA podem sempre mentir mas já não podem convencer.

De novo na Europa, tivemos em 2004 a "Revolução Laranja" na Ucrânia, instigada pelos "serviços" ocidentais, a propósito do escrutínio que deu a vitória a Viktor Yanukovitch para a presidência da República. A votação viria a ser anulada, devido às manifestações, realizando-se novo acto que acabaria por confirmar a vitória de Viktor Yushchenko. Estas "revoluções laranjas", que seguem o manual "Otpor", já tinham determinado na Sérvia a expulsão de Slobodan Milošević, e foram decisivas nas manifestações, na Praça Tahrir, contra o presidente Hosni Mubarak. A agitação voltaria à Ucrânia, nomeadamente a Kiev, com a insurreição na Praça Maidan, em Dezembro de 2013, contra a oposição de Viktor Yanukovitch, agora presidente da República, à adesão da Ucrânia à União Europeia. Obrigado a fugir, Yanukovitch refugiou-se na Rússia e foi instalado um "governo popular" em Kiev, ao serviço do governo secreto mundial, cujo objectivo é o cerco da Rússia, na sequência do desmoronamento da União Soviética. Só que Putin não brinca em serviço e anexou a Crimeia, que, aliás, fazia parte da Rússia, antes de ter sido oferecida à Ucrânia por Nikita Khrushchov, além de ter começado a apoiar os ucranianos russófonos do Donbass.

Aquando da dissolução da União Soviética, havia um compromisso tácito da NATO e da União Europeia de que os países da Europa de Leste, e por maioria de razão as repúblicas que faziam parte da União, se manteriam independentes de blocos ocidentais, dado ter sido extinto o Pacto de Varsóvia. Mas nada disto aconteceu. Não só os países de Leste passaram a integrar a NATO e a própria UE, como as próprias ex-repúblicas soviéticas da Estónia, da Letónia e da Lituânia. Tudo isto com a aquiescência do bêbado Boris Yeltsin. Pretendia-se agora a Ucrânia. Não resultou!

A estratégia de desestabilização teria de incluir, para além do Iraque, o resto do Mundo Árabe. É assim que surge em fins de 2011 a "Primavera Árabe", com as manifestações da Tunísia, que levaram à fuga do presidente Ben Ali, as manifestações no Marrocos e na Argélia (estas prontamente dominadas, pelo menos por ora), a insurreição na Líbia contra Qaddafi, de que foi especial arauto o pseudo-filósofo judeu francês (ao serviço do sionismo internacional) Bernard-Henri Lévy e que teve o apoio de Nicolas Sarkozi (cuja campanha eleitoral Qaddafi havia subsidiado) e de David Cameron e ainda as manifestações contra Hosni Mubarak, no Egipto, que determinaram a renúncia deste ao cargo presidencial. E também, como teria de ser, as manifestações na Síria, contra Bashar Al-Assad, que não fugiu e enfrentou a contestação, protagonizada mais por estrangeiros do que por sírios, como já então se sabia, e é agora meridianamente claro.

Não sendo Qaddafi propriamente uma personagem muito frequentável, representava uma garantia de estabilidade no Norte de África, mas os líderes ocidentais entenderam que teria de ser derrubado (e assassinado, para não dar com a língua nos dentes) e o governo secreto obteve do Conselho de Segurança da ONU autorização para a NATO bombardear a Líbia, a (falso) pretexto de que o coronel ia massacrar toda a população do seu país. O aval da ONU era limitado mas as forças ocidentais ignoraram os seus termos e liquidaram o país. A Líbia, hoje, é um caos.

No Egipto, após o episódio Morsi (da Irmandade Muçulmana) surgiu o marechal Al-Sisi que tenta repor um pouco de ordem na casa. A Tunísia, país a que me ligam fortes laços, foi largamente infiltrada pelo terrorismo internacional.

Mas é na Síria que, desde 2011, a situação é mais dramática. A chamada oposição democrática a Assad, que nunca foi democrática, acabou por ser ultrapassada pelos guerrilheiros islamistas, a maior parte estrangeiros, e o país mergulhou numa trágica guerra civil, que já provocou vários milhões de mortos, feridos e refugiados. Um remake do Iraque. As primeiras reacções ocidentais inclinavam-se, na sua sanha contra Assad, a bombardear o país, como estava decidido a fazer o insignificante Hollande, travado no último minuto por Obama, que se terá apercebido, in extremis, do disparate total desse tipo de intervenção.

É neste contexto que surge, em 2014, o "Estado Islâmico" (EI) ao qual já nos referimos várias vezes neste blogue. E surge por geração espontânea, já armado e equipado, qual Minerva saída da cabeça de Júpiter. E ocupando, de um dia para o outro, um território com uma superfície equivalente à de Portugal. Os guerrilheiros do EI, especializaram-se em decapitações (frente às televisões), em ataques a cristãos, mas também a muçulmanos menos rigorosos, na destruição de igrejas, e mesmo de mesquitas, e no aniquilamento do património histórico das regiões que ocupam. Neste caos total, impõe-se uma questão: Quem financia o EI? Quem lhe fornece armamento? Quem lhe transmite as informações indispensáveis às operações que conduz? A Arábia Saudita, o Qatar, a Turquia, Israel, a própria CIA? Insondáveis são mais uma vez os desígnios do governo secreto mundial.

Como cereja no topo do bolo, temos agora (já havia em menor escala e aumentaram com a deposição de Qaddafi) o drama dos refugiados. Despojados de tudo, especialmente os sírios, buscam na Europa o seu porto de abrigo. Mas vêm (já vinham) do Norte de África, morrendo aos milhares no Mediterrâneo, primeiro em busca de melhor vida, depois fugindo ao jihadismo global. Mas vêm agora, em números imprevisíveis (ou não), através da Grécia, pela Bulgária, pela Sérvia, pela Hungria, pela Áustria, procurando alcançar a Alemanha.

Um êxodo nunca visto desde a Segunda Guerra Mundial ou a confirmação, como tem afirmado o Papa Francisco, de que estamos já na Terceira Guerra.

Estas linhas, apressadamente escritas, pretendem demonstrar que nada do que se diz acima aconteceu por acaso. Podem os estadistas (se ainda algum existe) ocidentais rasgar as vestes mas é impossível acreditar que os acontecimentos descritos se devem ao acaso, ou à imperícia dos homens, ou à falta de previsibilidade das suas acções. NÃO! O que acontece obedece a um plano cujos objectivos já não são apenas o petróleo ou outras riquezas naturais, nem tão só a redefinição de fronteiras do Médio Oriente traçadas pelo Acordo Sykes-Picot. Está em causa um paradigma civilizacional, e a entrada de um número que tende a ser ilimitado de refugiados, ou migrantes, ou como lhe quisermos chamar, implica uma miscigenação da Europa. Com que fim? Para alargar o terrorismo ao Velho Continente? Com certeza que não. As populações que se deslocam não são terroristas, e se algum vier incluído, mais facilmente ganharia a Europa por outro meio de transporte.

Fizemos um resumo, muito sucinto, dos acontecimentos estranhos dos últimos trinta anos. Muito e muito ficou por dizer. Mas apontámos alguns marcos essenciais.

Que há uma mão invisível (ou não tanto) por detrás de tudo isto, é inegável. Chamámos-lhe o "governo secreto mundial". Quem o compõe? Há muitas teorias. Numerosos são os que afirmam tratar-se dos Sábios de Sião. Ignoro!

Como terá escrito Unamuno (ou talvez até Cervantes), «yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay».

terça-feira, 1 de setembro de 2015

PASSAGEM PARA A ÍNDIA



Foi publicada o mês passado a tradução portuguesa (Verão Ártico) do livro Arctic Summer (2014) do sul-africano Damon Galgut (n.1963), onde é ficcionada a vida do célebre escritor E.M. Forster (1879-1970), um dos mais famosos romancistas britânicos do século passado, autor de obras inolvidáveis, como Passagem para a Índia, que seria adaptada ao cinema (1984) por David Lean, obtendo uma carreira triunfal.

O romance de Damon Galgut, que recorreu a vasta bibliografia (referida em apêndice) para escrevê-lo, ainda que eu duvide que a tenha lido integralmente, centra-se fundamentalmente em quatro períodos:  a vida de Edward Morgan Forster em Inglaterra, enquanto estudante universitário, as duas estadas na Índia, e os três anos que permaneceu em Alexandria, entre as viagens àquele país.

Porque é sul-africano (além de pessoa de evidente sensibilidade), e porque a África do Sul foi outrora como a Índia, e de alguma forma o Egipto, um domínio britânico, Damon Galgut encontra-se em posição privilegiada para discorrer como os ingleses tratavam os nativos, independentemente da sua condição social e cultural. A segregação evidente entre os súbditos de Sua Majestade e os autóctones foi uma constante da política imperialista da Grã-Bretanha até ao desmoronar do seu vastíssimo Império. O apartheid na África do Sul mais não foi do que o prolongamento de uma atitude que durou séculos. Nas suas deambulações pela Índia e Alexandria, o próprio Forster se sentiu também segregado, duplamente segregado, primeiro porque sendo homossexual não podia (não devia) estabelecer relações íntimas com os indígenas, nem com os ingleses intoxicados pela moral vitoriana, depois porque a própria socialização com aqueles lhe era proibida pela situação política vigente. E eram sobretudo os indianos e os egípcios que interessavam a Forster. A sua vida, em Inglaterra ou no estrangeiro, foi sempre a de um "marginal", apesar da progressiva celebridade literária que ia conquistando.

Syed Ross Masood e E.M. Forster

O escritor viajou pela primeira vez para a Índia devido à insistência de um jovem estudante indiano que conhecera em Inglaterra, Syed Ross Masood, por quem se apaixonara. Galgut conta (reinventa) a permanência de Forster naquele subcontinente com abundância de peripécias e de locais visitados. Como não conheço a Índia, não me posso pronunciar sobre a verosimilhança desta "peregrinação". Todavia, é verdade que Masood gostava muito dele, insistia que com o seu talento deveria escrever um livro sobre o seu país, mas a relação não foi consumada devido às objecções do indiano.

Mohammed El-Adl

Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, Forster foi colocado em Alexandria, ao serviço da Cruz Vermelha Internacional. Durante a sua permanência na cidade, Forster, que ainda era virgem, tem a sua primeira experiência sexual com um soldado numa gruta de praia junto ao Palácio de Montazah, residência real mandada construir por Fuad I, no extremo leste da cidade. Em 1917, conhece o condutor de carros eléctricos Mohammed El-Adl, um jovem de 17 anos, que será a sua segunda e última verdadeira paixão. Neste caso, e apesar das reservas do rapaz, haverá um "comércio" carnal. Bem como a visão dos muitos prazeres proibidos que a cidade oferecia. Teria também a oportunidade de conhecer o grego Cavafy, o "poeta da cidade" como lhe chamava Durrell, outro grande escritor que habitou em Alexandria, também durante outra Guerra Mundial, a Segunda, e registou as suas impressões nessa inesquecível tetralogia que é O Quarteto de Alexandria. Cavafy (um dos nomes maiores da poesia do século XX), mais expedito e mais liberto do que Forster, conhecia bem o submundo da cidade, que evoca em alguns dos seus poemas, e fazia as suas conquistas no Café Billard (hoje desaparecido), na rua Safiya Zaghlul, um pouco acima do Café Elite, que ainda se mantém. Mas rapazes disponíveis não faltavam por toda a cidade, e existiam mesmo casas de prostituição masculina a par das de prostituição feminina, permitidas pelo governo egípcio e toleradas pela administração britânica. Refere Galgut as aventuras e desventuras de Forster em Alexandria, com a citação de inúmeros locais frequentados pelo escritor ou onde este se encontrava com Mohammed. Porque a maior parte desses locais continua a existir, embora a cidade tenha crescido desde então desmesuradamente, os nomes estão certos mas, por vezes, fico com a sensação de que a distância entre eles não é compatível com a descrição de Galgut. Terá Galgut estado em Alexandria e visitado os sítios? Ou será informação documental? Sobre a Índia, que não conheço, não me permiti opinar sobre as deslocações atribuídas a Forster, mas sobre Alexandria, que conheço bem, subsistem-me algumas dúvidas.

A segunda viagem de Forster à Índia será a convite de Bapu Sahib, marajá de Dewas, um conhecimento dos tempos universitários em Inglaterra, a fim de ocupar o cargo de secretário particular. Também aqui há envolvimentos físicos, mas sem especial relevo. O ambiente de fim de época continua a desiludi-lo e apressa o seu regresso à pátria, não sem passar pelo Canal de Suez, onde reencontra Mohammed, já então gravemente doente. Forster visitará a Índia uma terceira vez, mais tarde, então escritor de renome internacional, mas para participar em cerimónias oficiais.

Masood e Mohammed morrerão ainda em vida de Forster, o que lhe provocará profunda mágoa.

São ainda referidas no livro as relações de Forster com Leonard e Virginia Woolf e com Edward Carpenter. Muitas outras haveria a mencionar.

Como referi acima, insere Damon Galgut em apêndice uma vastíssima bibliografia sobre Forster, incluindo quatro biografias do escritor. Não as li, mas creio que Galgut terá retirado delas o que de mais importante julgou para nos dar a imagem do escritor. Com este livro, penso que Galgut não pretendeu escrever uma biografia (obviamente), nem mesmo uma biografia romanceada, mas um romance biográfico. No entanto, e do que conheço sobre Forster, parece-me que se alongou em certos períodos e reduziu ou omitiu outros. Também não conheço o original de Galgut, mas algumas das transliterações dos nomes árabes são francamente más, talvez por ignorância do tradutor, já que os ingleses (ao contrário dos franceses) são quem melhor reproduz o alfabeto árabe.

Arctic Summer, é o título de um livro que Forster nunca chegou a concluir.

A obra de E.M. Forster, que começou a escrever quando ainda estudava no King's College, em Cambridge, é vasta. Importa destacar Passagem para a Índia (A Passage to India), que lhe conferiu celebridade mundial (1924); Where Angels Fear to Tread (1905); The Longest Journey (1907); A Room With a View (1908); Howards End (1910); e Maurice, escrito entre 1913 e 1914, mas publicado postumamente em 1971, o único romance homossexual de Forster. Como se disse, Passagem para a Índia foi adaptada ao cinema por David Lean (1984) . O realizador James Ivory encarregar-se-ia de transpor para o ecrã A Room With a View (1985), Maurice (1987) e Howards End (1992). Sublinhe-se que Forster escreveu também muitos contos, alguns famosos, onde se permitiu ir mais longe em matéria homossexual, mas que, por isso mesmo, só foram publicados, os mais ousados, depois da sua morte, e alguns ensaios, de que Aspects of the Novel (1927) é o mais importante.

No campo musical, Forster escreveu (de parceria com Eric Crozier) o libretto (1951) para a ópera Billy Budd, de Britten, baseada no romance homónimo de Herman Melville.

Ainda uma referência a dois livros fundamentais sobre Alexandria: Alexandria: a History and a Guide (1922) e Pharos and Pharillon (1923), o primeiro dos quais é indispensável para se compreender histórica e geograficamente Alexandria no princípio do século passado.

Dito isto, que é pouco mas poderá despertar a vontade de mergulhar na obra de Forster e no seu universo (a Índia e Alexandria, muito mais do que, por exemplo, a Itália que também visitou e amava), fico com a sensação de que fiz um resumo imperfeito. Recomendo, por isso, a leitura de Verão Ártico, que não sendo um livro notável, e apesar de algumas reservas, se lê com agrado. E, a seguir, a leitura dos principais livros do famoso escritor britânico.