sábado, 25 de abril de 2026

ALEXANDRIA - A CIDADE QUE MUDOU O MUNDO

 


Acabou de ser publicado Alexandria – A Cidade que Mudou o Mundo, de Islam Issa, tradução portuguesa de Alexandria – The City that Changed the World, editado em 2023.

Trata-se da primeira história da Cidade em língua portuguesa, uma vez que o trabalho que realizei sobre o mesmo tema em 2004 não chegou a ser editado em livro pelas razões que aqui expus há algumas semanas. Há por isso que saudar vivamente as Edições Presença que dão a conhecer ao leitor português a vida de uma das mais notáveis cidades do Mundo.

Este livro, com mais de 400 páginas, contém quase tudo o que eu registara no meu trabalho (embora não tudo) e muitas outras coisas sobre as quais entendi não escrever.

Na verdade, o autor debruça-se sobre numerosos aspectos não essenciais à evolução daquela urbe, que quebram amiúde a continuidade da narrativa - e que poderiam ser tratados (se entendidos como necessários) em notas de fim de capítulo ou de rodapé – e prescinde de outros que julgo realmente importantes. Também parece que Islam Issa não estabeleceu uma estrutura consistente da obra (ainda que seguindo, e bem, a ordem cronológica), dispersando-se muitas vezes pelo acessório em prejuízo do fundamental.

Quanto ao texto, importa registar algumas observações. Não conheço o original e por isso não posso avaliar da justeza de certas expressões que me parecem com pouco sentido, algumas mesmo sem qualquer sentido. Certamente lapsos de tradução, embora a versão, se me afigure, contudo,  globalmente correcta.

O tradutor adverte-nos, no início, que “modernizou as ortografias, e que as traduções do árabe, do francês e do latim são de sua autoria.” Ocorre, todavia, não ser conveniente alterar certos nomes já consagrados pelo uso, prática a que ele se entrega numerosas vezes, sob pena de ser difícil identificar, por parte dos menos familiarizados com a matéria, as habituais designações. Cito, apenas, um exemplo: o templo mandado edificar em Alexandria por Ptolemeu III (substituindo o de Ptolemeu I, danificado) em honra do deus Serápis é geralmente conhecido por Serapeum. Aportuguesar para Serapeu não soa muito bem. Mas há outras mais notórias que não registei.

Também há erros de tradução e outros mesmo de autoria.

Tomei nota de alguns:

Página 84 - «A oeste, entre Faros e onde existira Racótis estava o Portus Eunostos, também conhecido como Porto do Bom Regresso. A leste, encontrava-se o maior Portus Magnus, ou Grande Porto.» Isto está certo, só que no Mapa de Alexandria da página 12, o Grande Porto está designado como Portus Eunostos e não como Portus Magnus.

Página 124 – Na linha 25 está escrito “pantomina”. É um erro frequente mas convém escrever “pantomima”, já que provém de mimo.

Página 166 – Na linha 17 está escrito «circuncisavam os seus rapazes». Ora o verbo é “circuncidar”.

Página 170 – Quase no fim da página: «o furador escorreu – mesmo para o centro da palma da sua mão, perfurando-a». Suponho que será “escorregou” em vez de “escorreu”.

Página 171, e seguintes – O tradutor utiliza a expressão “Pais da Igreja”. Não é verdadeiramente incorrecto, mas é mais habitual “Padres da Igreja”.

Página 182 – No 3º parágrafo: «fizeram de Palmira (a actual Homs, na Síria) a sua capital». Ora a cidade de Palmira, na Síria, cujas ruínas visitei, fica perto da fronteira com o Iraque. Nada tem a ver com a cidade de Homs, também na Síria, que igualmente conheço, e que fica próxima da fronteira com o Líbano.

Página 251 – No fim do 2º parágrafo: «Masjid al-Attarine significa, literalmente, a Mesquita dos Vendedores de Especiarias». Embora “tarine” se possa referir a “especiarias” o termo em árabe designa especialmente “perfumistas” e assim os egípcios o entendem. A mesquita está situada no antigo Suq al-Attarine, o Mercado dos Perfumes.

Página 292 – No princípio do 3º parágrafo: «A mais famosa era uma pedra gravada em duas línguas com decretos ptolemaicos da época de Ptolemeu V». Ora todos sabemos que a famosa Pedra de Roseta está gravada em três línguas: hieroglífico, demótico e grego. Foi exactamente por causa disso que Champollion (que o autor nem sequer menciona) conseguiu decifrar os caracteres hieroglíficos, tendo previamente verificado que os textos em demótico (língua já conhecida) e em grego eram idênticos.

Página 344 – Na linha 11: Há uma referência ao intelectual “Ahmed Lufti”. Este erro é muito frequente. O nome é “Lutfi” e não “Lufti”.

Página 360 – Na linha 7: Onde está “general Muhammad Baguin”, deve ser “general Muhammad Naguib”.

Página 369 – Na linha 16: Onde está «Alexandria não é uma idade de bairros de lata» deve ser «Alexandria não é uma cidade de bairros de lata».

Página 370 - Na linha 27: Onde está “praça Tahir” deve ser “praça Tahrir”.

Página 384: Nas últimas linhas: «...há uma estátua de Alexandre Magno montado no seu fiel cavalo, Bucéfalo. Reparo pela primeira vez numa coisa: Alexandre segura uma pomba – vem em paz». Ora, como o autor poderia constatar pela fotografia da estátua que insere no livro, Alexandre não segura uma pomba mas a estátua de Niké, a deusa da vitória.

Registei estas faltas, mas há outras, apenas para salientar a importância que merece a revisão de um texto.

Quanto ao conteúdo propriamente dito não me pronuncio, pois teria de escrever uma dúzia de páginas. Como disse acima, o autor por vezes alarga-se em ângulos que considero menos relevantes e noutros casos poderia ser mais pormenorizado. Convém, todavia, salientar que Islam Issa é alexandrino de alma e coração, que professa uma especial devoção pela cidade e que chega a incluir no texto aspectos da sua vida pessoal. E daí decorre, às vezes, uma perspectiva romanceada na descrição de alguns acontecimentos.

Os mapas colocados no início do livro são essenciais para a compreensão do desenvolvimento da cidade, principalmente para quem não conhece Alexandria. O aparato iconográfico é pobre e a selecção das imagens não privilegia o essencial.

Nota-se a falta de uma Tábua Cronológica, tanto mais que Alexandria (e o Egipto) mudou de mãos (e de meias mãos) muitas vezes ao longo da História.

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FEITAS ESTAS RESSALVAS, IMPORTA DIZER QUE ESTE LIVRO PREENCHE UMA LACUNA GRAVE NO CONHECIMENTO QUE OS PORTUGUESES TÊM DE ALEXANDRIA. SAÚDA-SE A SUA PUBLICAÇÃO E RECOMENDA-SE VIVAMENTE A SUA LEITURA.

E ACRESCENTAR NUM SENTIDO MAIS AMPLO: NADA DO QUE DIZ RESPEITO AO EGIPTO NOS DEVE SER ESTRANHO!

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