quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

JOÃO HALL THEMIDO - MEMÓRIAS DA CARREIRA




Devido a uma tiragem muito reduzida, ou a quaisquer outras razões que desconheço, o livro Uma Autobiografia Disfarçada, do embaixador João Hall Themido, editado pelo Instituto Diplomático do MNE em fins de 2008, desapareceu há muito de circulação.

Consegui, finalmente, lê-lo, devido à generosidade de um amigo diplomata que possuía um exemplar na sua biblioteca e teve a gentileza de mo emprestar.

Nesta obra, em que relata episódios da sua vida profissional, o autor procede a uma análise da situação política nacional e internacional no tempo em que exerceu funções, quer no Ministério dos Negócios Estrangeiros, como Director-Geral dos Negócios Políticos e como Secretário-Geral, quer enquanto Chefe de Missão em Roma, Washington e Londres.

A sua actividade na capital norte-americana já havia sido previamente documentada na obra anteriormente publicada, Dez Anos em Washington, 1971-1981, editada em 1995. O embaixador Hall Themido constitui um caso particular na diplomacia portuguesa. Homem de tendências conservadoras, grande admirador de Franco Nogueira, fora nomeado embaixador em Washington em 1971. Por decisão de Mário Soares, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, foi mantido nesse lugar após a Revolução de 1974, com a intenção de tranquilizar os americanos acerca da evolução da política portuguesa. Recorde-se que, nessa ocasião, embora alguns diplomatas tenham sido saneados, a maioria dos chefes de missão continuou em funções, tendo contudo sido obrigados a trocar de posto por se entender que não era desejável manter numa capital, após a Revolução, um embaixador que defendera, no período anterior, posições muito diferentes daquelas que teria de assumir com a vigência do novo regime.


Naturalmente que em Uma Autobiografia Disfarçada, Hall Themido se ocupa principalmente das nossas relações com os Estados Unidos, reproduzindo até alguns textos já publicados em Dez Anos em Washington. As suas convicções ocidentalistas não o inibem, contudo, de fortes críticas à política norte-americana e ao american way of life, como, aliás, já fizera o embaixador Rosa Lã no seu livro Do Outro Lado das Coisas - (In)Confidências Diplomáticas, que comentámos aqui. 

O embaixador Hall Themido salienta a pouca importância concedida a Portugal na Casa Branca, no Congresso ou no Departamento de Estado, salvo por ocasião dos acontecimentos verificados no pós 25 de Abril, quando se registaram apreensões em Washington sobre os caminhos da nova democracia portuguesa. Mas, mesmo nessas circunstâncias, a preocupação dos americanos era sobretudo em relação à Base das Lajes, nos Açores, que os Estados Unidos consideravam, e ainda consideram, de importância estratégica para a defesa dos seus interesses.

Salienta Hall Themido o convencimento (que todos conhecemos) de Henry Kissinger quanto à inevitabilidade de uma "comunização" de Portugal, o que constituiria, em sua opinião, uma "vacina" para outros países do sul da Europa. Ficou a dever-se à persistência de Frank Carlucci, embaixador americano em Lisboa, o apoio aos movimentos mais moderados (e gozando de maior apoio popular) saídos da Revolução - leia-se, ao Partido Socialista, e particularmente a Mário Soares - dado que aquele diplomata, movimentando-se facilmente no "terreno", havia concluído que os portugueses escolheriam finalmente um regime democrático (na acepção ocidental do termo) ainda que de tendência socializante.

São variados os assuntos tratados na autobiografia, em que, como é de uso em obras este género, existe uma parte substancial dedicada à análise de problemas políticos domésticos e mundiais. Não sendo possível abordá-los num post, resta a evocação de alguns factos que despertarão mais facilmente a curiosidade do leitor.

Assim, salienta-se o ultimato americano a Portugal, aquando da guerra do Yom Kippur (1973), em que fomos obrigados a ceder, contra os nossos próprios interesses, a utilização da Base das Lajes para escala dos aviões americanos que transportavam material de guerra para Israel, então em guerra com o Egipto e a Síria, sendo a mensagem de Nixon para Marcelo Caetano de que "utilizariam os Açores com autorização ou sem ela".  Aliás, tínhamos já precedentes neste tipo de atitudes, quando o governo de Inglaterra, o nosso velho aliado (uma Aliança que ao longo dos séculos só funcionou num sentido e é portanto inútil) nos enviou também um ultimato em 1890, a propósito do pretendido Mapa Cor-de-Rosa. Aliás a cedência das Lajes aos americanos, que ocorreu na Segunda Guerra Mundial, e também com a interferência de Churchill, foi uma imposição a Salazar, que, todavia, conseguiu negociar da forma menos humilhante para Portugal.

Hall Themido relata também a sua opinião acerca de Kissinger (que é a opinião de todos nós), um homem inegavelmente culto e inteligente, mas extraordinariamente ambicioso, arrogante e sem escrúpulos. Acrescentaria eu, também capaz de promover as maiores atrocidades, como é documentado pelas numerosas intervenções que promoveu no estrangeiro, na América do Sul, por exemplo, factos ainda bem vivos na memória colectiva, mas pelos quais certamente nunca será julgado.

Outro assunto trazido à colação pelo embaixador é a "mitificação de Aristides de Sousa Mendes". A meio da sua estada em Washington começou Hall Themido a receber sucessivos pedidos de informação sobre aquele antigo cônsul português em Bordéus. O seu conhecimento sobre o caso do processo disciplinar a que Sousa Mendes fora submetido era, embora não pormenorizadamente, do seu conhecimento. Outros diplomatas portugueses, como os embaixadores Sampayo Garrido e Teixeira Branquinho, em Budapeste, tinham concedido, com grande coragem, vistos e asilo a numerosos judeus, mas sem desrespeitarem frontalmente as instruções do MNE. Tendo-se documentado posteriormente em Lisboa, concluiu Hall Themido que «O processo disciplinar que lhe foi movido quando era cônsul em Bordéus foi o último de vários de que foi alvo ao longo da carreira, quase sempre por abandono do posto ou concussão. Pelos visto, Aristides e Sousa Mendes, além de viver acima dos seus meios, o que tinha reflexo nas contas consulares, gostava de abandonar os postos, sem autorização, para visitar Paris, segundo se dizia movido por razões sentimentais. Como tem acontecido em outros casos mediáticos, a maioria desses processos disciplinares desapareceu misteriosamente do Arquivo Geral, onde todavia, ainda está, incompleto, o relativo a Bordéus. A Nota de Culpa menciona abandono de funções, concussão e desobediência.»  Sobre o caso Aristides de Sousa Mendes se referiu também o embaixador Carlos Fernandes no seu livro O cônsul Aristides Sousa Mendes - A Verdade e a Mentira, que comentámos aqui. Afigura-se, pois, pacífico que todo este processo de endeusamento de Sousa Mendes, mais do que uma homenagem póstuma à acção, ainda que irregular, do falecido cônsul, faça parte da propaganda sionista, na linha do que o cientista político judeu norte-americano Norman Finkelstein chamou corajosamente a "indústria do holocausto".

No início do livro, Hall Themido refere-se à "perseguição" que lhe foi feita no Ministério pelo embaixador António de Faria, «um produto acabado da escola de Teixeira de Sampaio». Por razões que seria ocioso explicar, Hall Themido fora designado, em 1947, para cônsul-adjunto em Tânger, que seria o seu primeiro posto. Ora Faria, sendo contrário àquela nomeação, envidou todos o esforços para o fazer desistir do lugar. Não logrando êxito, acabou por lhe vaticinar o pior destino na carreira, o que o futuro se encarregaria de desmentir. Segundo Themido, Faria tentou ainda durante muitos anos dificultar-lhe a vida.

Tânger era então uma pequena cidade, embora habitada por  notabilidades mundiais. Constituía à época uma Zona Internacional, administrada alternadamente pela França, Espanha, Portugal, Grã-Bretanha, Itália, Bélgica, Holanda, Suécia e Estado Unidos. Na altura, o administrador era português, o almirante Magalhães Corrêa, por acaso meu primo. Foi precisamente em Tânger, nos idos de 1949, que Themido conheceu Natália Correia. Fora a escritora ali passar a lua-de-mel do seu casamento com um americano, William Creighton Hyler. O consulado português prestou o apoio necessário, tendo-se  gerado um simpático ambiente de convívio entre o casal e o cônsul-adjunto, ainda que este suspeitasse que o matrimónio não era feliz. «A surpresa maior estava para acontecer na hora da despedida. Ao embarcar no avião da "Aero-Portuguesa", que assegurava as ligações com Lisboa, Natália Correia pediu-me que, no caso de haver um acidente no avião em que viajava e ela não sobrevivesse, fosse procurar Alfredo Machado, dono do Hotel Império, situado no ingresso da Rua Rodrigues Sampaio, próximo do cinema Tivoli (hoje Hotel Britânia), e lhe dissesse que, na verdade e não obstante ter-se casado, era dele que ela gostava.» Todavia, muito mais tarde, encontrando-se Themido em Washington, participou num almoço oferecido a Natália pela nossa Embaixada. Natália ignorou a sua passagem por Tânger e o conhecimento com Hall Themido, como voltaria a acontecer, em 1982, num jantar em casa do embaixador Hélder de Mendonça e Cunha.

De uma maneira geral, Hall Themido elogia os seus colegas da Carreira, com raras excepções, como a já referida de António Faria, com quem, todavia, acabaria por manter boas relações, mas muito mais tarde. Há contudo algumas personalidades que Themido enaltece especialmente, sendo uma delas Alberto Franco Nogueira, pela sua cultura, pela sua competência, pela sua integridade, pelo seu sentido de Estado e do cumprimento do dever. É certo que Themido e Nogueira eram politicamente próximos, mas elogios à capacidade e frontalidade do embaixador Franco Nogueira tenho-os ouvido das bocas mais desafectas ao regime anterior. Franco Nogueira, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, empenhou-se de alma e coração na defesa da política ultramarina de Portugal delineada por Salazar. Nunca tergiversou, embora Themido confesse que pressentiu algumas vezes que Nogueira, jamais o declarando, não acreditava já no êxito dessa política, mas entendia que, uma vez definida pelo chefe do Governo, e nas circunstâncias de então, não havia alternativa no quadro do Regime. E, de facto, não havia.

Não sendo objecto deste post uma análise de todos os capítulos do livro, não posso deixar de referir uma acção de que Hall Themido especialmente se orgulha: a aquisição para sede da nossa Embaixada em Roma da célebre Villa Barberini, na Via Riccardo Zandonai (do nome do compositor italiano autor de numerosas óperas, mas que se celebrizou especialmente por Francesca da Rimini, sobre a tragédia de Gabriele D'Annunzio, mas isto Themido não refere). Passámos, assim, a dispor de uma condigna representação diplomática na capital italiana, em igualdade de circunstâncias com a nossa Missão junto da Santa Sé, instalada na Villa Elia.

João Hall Themido terminou a sua carreira diplomática como embaixador em Londres, um posto certamente ambicionado. Instalada em famoso edifício, em Belgrave Square, a Embaixada tinha todas as condições para proporcionar uma  estada na capital britânica de especial agrado para Hall Themido, bem como o meio londrino que indiscutivelmente apreciava. Verdadeiramente, um happy end, ao fim de 40 anos ao serviço da diplomacia portuguesa.

Não se esqueceu o embaixador de mencionar alguns dos seus mais ilustres antecessores na Corte de Saint James: o marquês de Pombal, o marquês de Soveral, o duque de Palmela e Armindo Monteiro. Facto digno de nota, em 12 de Maio de 1986, a rainha Isabel II visitou a embaixada de Portugal, onde foi recebida por Mário Soares, durante as cerimónias das comemorações dos 600 anos do Tratado de Windsor.

Mais haveria a comentar mas já me alonguei demasiado. O livro do embaixador Hall Themido é indiscutivelmente interessante, embora me pareça que a matéria mereceria uma estruturação mais adequada  e sobretudo uma sequência cronológica dos acontecimentos ou, em alternativa, a indicação das datas dos eventos, o que não sucede na maior parte dos casos.

De qualquer maneira, a consignação em livro das memórias dos nossos representantes diplomáticos representa sempre uma mais valia para o estudo das relações internacionais, embora, como é de regra, os embaixadores refiram, de uma maneira geral, apenas os êxitos e nunca os insucessos nas carreiras. Os  livros de memórias permitem também registar os fait divers inerentes à vida diplomática, sempre curiosos, e o contacto mais directo com povos de outros países, ainda que, na maior parte dos casos, as histórias que poderiam ser mais interessantes são geralmente omitidas por óbvias razões de natureza pessoal.

2 comentários:

Luis Soares disse...

Boa noite,

Pretendo adquirir o livro "Uma Autobiografia Disfarcada" de João Hall Themido
Sabe onde encontrar à venda, pois já contactei várias editores e todas elas respondem sem Stock

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

Recém-chegado do estrangeiro, informo que o livro em questão, cuja leitura devo à amabilidade de um amigo,colega do embaixador, que mo emprestou, se encontra desde há muito tempo esgotado