segunda-feira, 2 de julho de 2012

O PRINCÍPIO DO FIM



O primeiro-ministro David Cameron admitiu a hipótese de se realizar no Reino Unido um referendo sobre as relações do país com a União Europeia, dada a progressiva perda de soberania em favor de Bruxelas. Segundo as mais recentes sondagens, a maioria dos britânicos escolheria estar fora da União Europeia.

É bom recordar que De Gaulle, que detestava os ingleses e os americanos, sempre foi contrário à entrada do Reino Unido na então CEE, que os ingleses sempre foram cépticos ao ingresso na União e jamais aceitaram a moeda única, que a adesão sucessiva de países e a celebração de tratados foi realizada, na quase totalidade dos casos, à revelia dos povos interessados. O RESULTADO ESTÁ À VISTA.

A actual crise do euro, que é acima de tudo uma crise da União, não se resolve com fantasmáticas cimeiras e mini-cimeiras, ou com mais uns milhões de euros para aplacar as dívidas soberanas. O problema não é apenas de forma mas de fundo.

Não cabe neste espaço uma larga divagação sobre todos os acidentes de percurso desta União, que começou modestamente por três tratados entre seis países e que sempre ignorou as questões fundamentais. É verdade que face à emergência de novas grandes potências, como o Brasil, a China, a Índia, seria interessante que a Europa se apresentasse a uma só voz, mas tal não é possível. Nem estou certo que daí resultasse notório proveito. É fácil para os países citados, apesar dos seus imensos territórios, a adopção de uma política comum, tendo em conta que as suas populações partilham as mesmas tradições, ou quase. Esta apreciação é igualmente válida para os Estados Unidos ou para a Rússia. Não é, todavia, o caso da Europa. O Velho Continente, velho de mais de vinte séculos, tem no seu seio as mais diversas culturas, sucessivamente objecto de cruzamentos vários ao longo da história, e que as migrações das últimas décadas aprofundaram. Existem, entre os actuais países da Europa, antagonismos seculares, de carácter religioso, de origem étnica, de ideologia política (ainda que mais ao menos submetidos, mas não convencidos, ao monoteísmo de mercado), de estratégia militar, de tipo de mentalidade. Estão os países do sul da Europa mais próximos dos países do norte de África do que dos países do norte da Europa (se excluirmos a actual vaga islâmica intitulada Primavera Árabe). Nunca a União Europeia falará a uma só voz, a menos que sob a égide de uma potência tutelar, como pretendeu militarmente Hitler e parece agora pretender economicamente Angela Merkel.

Eu sei que é politicamente incorrecto profetizar o fim da União Europeia. Mas acredito que esteja próximo. Ela foi criada, além de outras razões mais explícitas e economicamente defensáveis, para evitar o eclodir de um terceiro conflito armado na Europa, de imprevisíveis consequências. E se a Segunda Guerra Mundial foi já verdadeiramente mundial, uma terceira será apocalíptica. Mas o caminho preconizado foi errado. A criação de uma super-burocracia em Bruxelas ajudou à desintegração da União. Não é novidade que os povos europeus nutrem o maior desprezo por Bruxelas, que lhes leva o dinheiro, lhes impõe normas surrealistas (no mau sentido), numa completa ignorância das realidades nacionais. Aliás as instituições europeias nem sequer funcionam, com um parlamento sem poderes, uma Comissão não eleita e um Conselho que não funciona, como ainda recentemente se constatou, observando o confrangedor espectáculo das reuniões Merkel/Sarkozy, que o mais desprovido encenador se recusaria a subscrever.

Muito, muito mais haveria a dizer, mas fiquemos hoje por aqui. Convém que comecemos a preparar os espíritos.

3 comentários:

skeptikos disse...

Subscrevendo este e tantos outros posts, deixo esta pérola: http://youtu.be/1cstARNy0Sc

Votos de boa semana.

skeptikos disse...

Curiosidade: Um gráfico revelador do esquema UE/CEE http://i.imgur.com/w8aAS.png

observador disse...

Temo que haja:

- uma Europa a Sul do eixo Pirenéus/Alpes, próxima do Norte de África, sendo o Mediterrâneo o "Mare Mostrum"

-Outra a Norte do eixo Pirenéus/Alpes essencialmente Germânica (seja Austro-hungara, prussiana, etc), que nunca perdoou A Conquista Romana;

- mais a leste uma Europa Eslava, a tentar-se reencontrar dos auto-isolamentos onde costuma cair;

- pelo meio as anomalias:
- A Portuguesa, que é atlântica, mas presa à Europa do Sul;

- A inglesa, também atlântica mas presa ao eixo USA/UK;

- puritana Europa do Norte

- e a confusão balcânica.

Com um caldeirão destes, o difícil é não azedar a sopa.