quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MINARETES

Cairo - A Mesquita de Al-Azhar

Começo por uma declaração de interesses: não gosto nem da Suíça, nem dos suíços.

Dito isto, que é de carácter estritamente subjectivo e pessoal, vamos aos factos. O recente referendo, ganho por uma escassa maioria de votos, que proíbe a construção de minaretes nas mesquitas do país é, antes de mais, um disparate. O minarete constitui parte integrante da mesquita e só a escassez de espaço e de recursos motiva que a maior parte das mesquitas suiças seja desprovida desse elemento. Também terão contribuído pressões, aquando da sua edificação, para reduzir as mesquitas existentes à sua expressão mais simples, mas não é isso que está agora em causa. Contudo, segundo o critério dos proponentes do referendo e porque estamos no domínio da arquitectura e dos projectos de construção, nada nos garante que amanhã não venha a proibir-se a construção de cozinhas nas casas, ou de chaminés, ou de instalações sanitárias.

O que na verdade pretendiam os políticos que desencadearam o referendo e os cidadãos que o votaram era a proibição de construção de mais mesquitas, mas não tiveram coragem para tal. Que seja interditado o apelo à oração a partir dos minaretes, feito hoje nos países muçulmanos através de altifalantes, é compreensível. Na maior parte das igrejas dos países católicos, especialmente nas cidades, também já não se tocam os sinos, pois há que diminuir a poluição sonora nesta sociedade de ruídos em que vivemos. Mas por essa razão não se impede que as igrejas continuem a construir-se com torres, com ou sem sinos, conforme os projectos arquitectónicos.

O resultado deste referendo já levou a ministra dos Estrangeiros suíça a desdobrar-se em intervenções e provocou o protesto do ministro dos Estrangeiros sueco (país que preside rotativamente à União Europeia), do primeiro-ministro turco e de diversos líderes muçulmanos. O eurodeputado Daniel Cohn-Bendit pediu mesmo aos países islâmicos que retirassem o seu dinheiro dos bancos suíços.

A Suíça, com a sua neutralidade tradicional (que tão bem tem sabido aproveitar) já nos habituou a comportamentos estranhos como a recente prisão de Roman Polanski, mais de trinta anos depois do seu processo e que passou largos períodos na Suíça durante as últimas décadas.

A Suíça é para mim sobretudo neve (de que não gosto), chocolates e queijo (que às vezes como) e relógios (que também uso por uma exigência de pontualidade). E ainda dinheiro (que não tenho) depositado aos milhões nos seus bancos e cuja história (autêntica) talvez desse um livro notável.

4 comentários:

Anónimo disse...

Suiça: "You know what the fellow said – in Italy, for thirty years under the Borgias, they had warfare, terror, murder and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland, they had brotherly love, they had five hundred years of democracy and peace – and what did that produce? The cuckoo clock." (in The Third Man, realização de Carol Reed). E a riqueza do país assenta no roubo, corrupção e miséria em países estrangeiros.

Roman Polanski: é impressionante como este caso é sistematicamente referido totalmente fora de contexto. O contexto não é o facto de o Polanski ter violado uma miúda de 14 anos. O contexto é que na devida altura ele confessou, e na melhor tradição do sistema de justiça norte-americano chegou-se a um acordo entre o procurador, a defesa e o juiz em como o homem seria avaliado psicologicamente (leia-se: preso) durante uns tempos, creio que cerca de 3 meses, não tenho a certeza, o que aconteceu e depois ficaria em liberdade condicionada. Mas o homem era europeu, era rico, era de Holywood, era esquisito, era intelectual (provavelmente o pior dos pecados) de modo que o juiz estava a preparar-se (muito publicamente) para renegar completamente o acordo (depois de o Polanski ter estado devidamente detido, todo o tempo estabelecido nos termos do acordo judicial) e lixá-lo bem lixado, para lhe dar uma lição. Não tanto, entenda-se por o homem ter violado uma adolescente, mas sobretudo por ser europeu, esquisito, elitista, intelectual, e portanto merecer um raio de um castigo exemplar. (Isto está tudo num documentário que se pode comprar na FNAC, com legendas em português e tudo!) O gajo fugiu e eu também fugia. No fim da palhaçada, o facto de ele ter violado uma adolescente já não era causa, tinha passado a mero pretexto. E entretanto, já passou demasiado tempo para haver um mínimo de objectividade, a moral é muito mais histérica hoje do que era na altura, e a miúda é uma mulher que está farta de dizer que deixem o homem (e ela) em paz. E este é que é o contexto.

Quanto aos muçulmanos só deveriam ter direito a minaretes (e talvez mesmo a mesquitas) quando houvesse liberdade religiosa efectiva (ou seja, templos da Igreja Católica Apostólica Romana ou da Church of Scientology) a funcionar sem problemas em todos os países de maioria muçulmana do mundo, incluindo a Arábia Saudita. Até lá, é bom que sofram uma bolsas de desconforto na diáspora, só lhes faz bem. Se forem os suiços a proporcionar-lhes o desconforto, paciência... eu se fosse suiço, neste referendo votava no sentido da maioria.

Do Médio-Oriente e afins disse...

PARA O ANÓNIMO DAS 20:36:

Há igrejas católicas, e cristãs em geral, a funcionar em países de maioria muçulmana.

Já estive em várias em Tunis, Tripoli, Alexandria, Cairo, Aswan, Istanbul, Aleppo, Damasco e Homs, que me lembre, mas também existem no Líbano, no Iraque (depois da invasão anglo-americana não sei se funcionam), na Argélia e em Marrocos.

É claro que estão proibidas na Arábia Saudita, e possivelmente nos países do Golfo, o que é lamentável, mas esses países são muito estranhos.

Anónimo disse...

Para o Anónimo das 20.36 :
1) Essa célebre frase dita pelo Orson Welles é muito engraçada. Mas (e pensando tambem nas opiniões do autor do Blog) a Suíça é mais coisas. Para já é bem bonita,com os Alpes,os lagos,as cidades históricas não destruídas por guerras absurdas em que teve a inteligência de não participar. Depois,tem acolhido organizações que se dedicam tant bien que mal a remendar os males do mundo,como a Sociedade das Nações,muito limitada pelos estatutos,mas que fez o que pôde, e está agora a ser reavaliada por alguns historiadores; a Cruz Vermelha, diz-lhes alguma coisa? Alem dos relógios de cuco,o Jean-Luc Godard,o Paul Klee,o Karl Jaspers,o Giacometti,são nomes que vos dizem algo? Será antipática,mas quem acolheu o Chaplin,o Nabokov,e outros artistas com problemas? Não foi em Lucerne que num acto de generosidade admirável Yehudi Menuhin se dispôs a tocar e gravar

o concerto de Beethoven com Furtwängler,restaurando assim o prestígio do maestro perseguido? A Suíça é tambem prosaicamente para mim terra de excelente comida,os "filets de perche" à beira do lago de Leman,a "viande des Grisons",as fondues,etc. E parte da minha juventude foi passada a namorar(muitos) e a comprar(poucos) dos maravilhosos livros da Guilde du Livre de Lausanne. Como quase tudo à superfície da terra,a Suíça tem de bom e mau,e por causa dos minaretes e do Polanski,não vamos desancá-la sem apelo.
2)Não sei se o Anónimo é jurista ou não,mas "violação" tem um significado específico que creio não se aplicar nem se ter aplicado ao caso do Polanski,como aliás não se aplica a muitos outros que os tabloides assim descrevem. Sejamos mais precisos,como os relógios do país que tanto os incomoda...

Anónimo disse...

Rápida correcção : Onde está Karl Jaspers leia-se Carl Jung. Pensei num e escrevi outro.