quinta-feira, 13 de outubro de 2016

DARIO FO




Morreu hoje, com 90 anos, o escritor italiano Dario Fo, Prémio Nobel da Literatura em 1997. Conhecido especialmente como dramaturgo, foi também actor de teatro, encenador, cantor, pintor, uma personalidade culturalmente multifacetada.

Como activista político, Dario Fo foi um homem de esquerda, ligado aos movimentos anarquistas. Tornou-se inspirador do partido político italiano Movimento Cinco Estrelas e do seu líder Beppe Grillo, que em 2013 o indicou para concorrer à presidência da República de Itália. A sua peça Morte Acidental de um Anarquista (1970) tornou-o célebre em todo o mundo e os seus livros encontram-se traduzidos em mais de trinta línguas. Outra peça famosa, Não se paga! Não se paga! foi representada em Portugal pelo Teatro da Cornucópia em 1981.

A sua obra retrata exemplarmente a sua vida e as causas em que esteve envolvido.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A ECONOMIA NÃO É UMA CIÊNCIA EXACTA

 

Pela sua importância transcrevemos o artigo de Daniel Cohen, publicado no nº 2709 de "L'OBS" (6 a 12 de Outubro corrente)

 

L'économie n'est pas une science exacte, par Daniel Cohen

 

POINT DE VUE. Pour le directeur du département d'économie de l'Ecole normale supérieure, rien n'est pire que l'illusion scientiste, le chercheur sérieux doit accepter la contradiction.





"La réalité, c'est ce qui, quand on cesse d'y croire, ne s'en va pas." Cette phrase de Philip K. Dick, l’auteur de science-fiction, reprise par le sociologue Louis Chauvel, fait comprendre pourquoi l’économie fait partie du réel de nos sociétés. On peut éteindre son poste, cesser de penser au burkini et aux Gaulois, et ils disparaissent… Chercher un emploi, avoir du mal à finir le mois, sont des problèmes qui restent.

Si l’économie et ce qu’elle entraîne sont bien dans notre réel, les économistes en sont-ils les ingénieurs? Cette question hautement spéculative est revenue à la une, à la suite d’un essai au titre nauséabond ("le Négationnisme économique, et comment s’en débarrasser", par Pierre Cahuc et André Zylberberg, Flammarion). Les auteurs y affirment que l’économie est une science dans laquelle le seul obstacle à la manifestation de la vérité est le babil des faux savants.

Un peu de modestie aurait été un meilleur point de départ. Car les économistes se sont beaucoup trompés dans le passé. Les classiques, Malthus et Ricardo, ont cru que la pauvreté était la condition irrémédiable des ouvriers. Ils n’ont pas vu que le progrès technique allait permettre d’augmenter les salaires. Pendant la crise des années 1930, les économistes de renom se sont à nouveau égarés, recommandant d’abaisser les salaires pour soutenir l’emploi. Keynes a corrigé leur raisonnement mais, dans les années 1970, les keynésiens se sont à leur tour fourvoyés, recommandant une relance de la demande sans voir que leurs remèdes étaient devenus inflationnistes.

Les concepts forgés par Ricardo ou Keynes restent fondamentaux, mais leur usage exige du doigté, du jugement. Le problème de l’économie est en effet que son objet mute constamment, comme les espèces selon Darwin mais sur une échelle de temps infiniment plus courte… Le désarroi contemporain tient au fait qu’on ne sait pas où elle nous entraîne. Un monde de logiciels et de robots est en train de naître. Bien malin qui peut dire à coup sûr quelles en seront les conséquences sur la croissance et la répartition des richesses. Dans ce monde inquiet, les économistes tendent à produire un savoir de plus en plus compartimenté. Professionnellement, on leur demande d’être spécialisés dans des domaines étroits. La société leur adresse une demande exactement inverse : produire un savoir global, cohérent.

Grâce aux données qu’ils peuvent désormais mobiliser, les économistes disposent certes de compétences nouvelles, et les gouvernements seraient bien avisés de les utiliser pour évaluer l’efficacité de leurs politiques. Mais lorsque des questions "lourdes" sont posées – faut-il sortir de l’euro ? accueillir un million de réfugiés ? relancer la croissance de long terme ? – aucun économiste "sérieux" ne peut arguer qu’il détient le bon modèle. Il doit présenter ses arguments humblement, et accepter la contradiction. Rien n’est pire que l’illusion scientiste, l’anathème, dont l’usage grandissant témoigne davantage des temps mauvais que nous traversons que de l’annonce de nouvelles Lumières.

Daniel Cohen


sábado, 8 de outubro de 2016

A BÍBLIA SEGUNDO FREDERICO LOURENÇO




Foi apresentado no passado dia 22, no Centro Cultural de Belém, o primeiro volume de uma nova tradução da Bíblia, efectuada por Frederico Lourenço.


O plano da obra é o seguinte:

I - Novo Testamento - Os Quatro Evangelhos
II - Novo Testamento - Actos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse
III - Antigo Testamento - Os Livros Proféticos
IV - Antigo Testamento - Os Livros Sapienciais
V - Antigo Testamento - Os Livros Históricos
VI - Antigo Testamento - Os Livros da Lei

O I Volume desta nova edição abrange os Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João).

Tem este volume a particularidade de se tratar da primeira edição em língua portuguesa de uma tradução realizada a partir dos originais gregos. As traduções existentes em português têm sido feitas a partir da versão latina, a Vulgata, efectuada por São Jerónimo sobre o texto hebraico, entre o século IV e o século V.

Todos os 27 livros que integram o Novo Testamento foram escritos originalmente em grego. Os livros do Antigo Testamento foram originalmente escritos em hebraico (com algumas frases em aramaico, caso do Génesis, Jeremias e Esdras e especialmente Daniel), num total de 39, com excepção de sete livros escritos em grego: Tobite, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc, 1º Livro dos Macabeus e 2º Livro dos Macabeus. O que perfaz 46 livros, isto segundo a organização da Bíblia no cânone católico.

As principais divergências entre as diversas versões da Bíblia dizem especialmente respeito ao número de livros. A Bíblia Hebraica, que obviamente não inclui o Novo Testamento, contém 24 livros que, com outras divisões, constituíram os 39 livros do Antigo Testamento protestante. O Antigo Testamento católico conta 46 livros, os 39 escritos em hebraico mais os referidos outros sete escritos em grego. Todavia, o Antigo Testamento grego é ainda mais completo pois conta 53 livros, os 46 do cânone católico mais sete livros. É esta versão do Antigo Testamento grego que Frederico Lourenço nos dará a conhecer em português.

Este I volume abre com uma Introdução, instrumento imprescindível não só para a percepção daqueles que estão menos familiarizados com a Bíblia, como para compreender as opções do autor quanto à tradução, advertindo este que se trata de um trabalho científico e não confessional, pelo que se verificarão discrepâncias relativamente às traduções aprovadas pela Igreja Católica ou que são apresentadas pelas confissões protestantes. É pena que Frederico Lourenço nesta Introdução não estabeleça também comparações com a Bíblia do cânone ortodoxo, mas o que nos faculta é já bastante para suscitar os maiores aplausos. Acresce que o autor procedeu à tradução exacta do que está na versão grega, recusando "melhoramentos" do texto ou procurando adaptá-lo às conveniências da doutrina cristã.



[Uma das mais antigas traduções efectuadas na Biblioteca de Alexandria foi a da Torah hebraica (correspondente aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, o Pentateuco), conhecida como Versão dos Setenta ou Septuaginta e realizada por determinação de Ptolemeu II (século III AC). Enquanto muitas traduções eram motivadas pela curiosidade intelectual ou pelo interesse científico, a tradução da Torah correspondeu também a razões de ordem prática. Estando a comunidade judaica fortemente helenizada em finais do século III AC, tornava-se necessário dispor de um texto grego do livro sagrado dos judeus. Segundo Aristeu, ele mesmo se teria deslocado a Jerusalém com a incumbência de solicitar ao Sinédrio não só a autorização para se traduzir o texto sagrado para grego, mas o envio de especialistas para procederem à referida tradução. Note-se que até então fora interdito verter o texto hebraico para uma língua profana, tal como só recentemente foi permitido traduzir o texto árabe do Corão para outra língua, ou como a Bíblia Católica até à Reforma foi editada exclusivamente em latim. O sumo-sacerdote Eliézer e os 71 sacerdotes aceitaram o pedido de Ptolemeu II e manifestaram-se dispostos a partir para Alexandria, mas verificando-se que a maioria não conhecia o grego, resolveram designar os seus representantes, 12 grupos de seis Anciãos, representando as 12 tribos de Israel. A tradição chamou-lhes os Setenta, mas eram na realidade 72, chefes de clans e perfeitos conhecedores da língua grega. Acolhidos pelo faraó (os reis da dinastia Lagida continuaram a usar o título de faraó), colocaram como única exigência para a realização do trabalho pretendido a de não ficarem instalados no Museu (Mouseion), o templo das Musas, que abrigava a célebre Biblioteca, pois consideravam-no um templo idólatra. O soberano colocou-os então em 72 celas isoladas, construídas na ilha de Pharos, de onde não poderiam sair até à conclusão da sua tradução. Afirma a crónica que os 72 tradutores terminaram ao mesmo tempo as respectivas traduções, ao fim de 72 dias, e que estas eram todas rigorosamente iguais. Também na ilha de Pharos foi por essa altura construído o célebre Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo, e daí o seu nome. O Farol manteve-se em funcionamento até à ocupação de Alexandria pelos árabes (642), entrando depois em progressiva degradação e uma sucessão de terramotos, especialmente por volta de 1100 e por volta de 1300, acabou por destruí-lo. No local existe hoje um forte mandado construir pelo sultão Qaytbey, e concluído em 1479. Ao longo dos séculos III e II AC foram traduzidos para grego os restantes livros do Antigo Testamento e a Septuaginta permanece ao fim de dois mil anos uma obra preciosa de toda a história das traduções e continua a ser indispensável para a prossecução dos estudos bíblicos.]

As precisões consignadas por Frederico Lourenço quer na Introdução, quer nas notas aos textos dos Quatro Evangelhos são preciosas, não cabendo aqui alongarmo-nos nos comentários mas recomendando vivamente a leitura desta obra e, sem dúvida, dos volumes que se seguirão.

Concluo referindo, para os mais distraídos, que Frederico Lourenço (doutorado pela Universidade de Lisboa) é não só tradutor prestigiado (Ilíada, Odisseia), mas ficcionista, ensaísta, poeta e  professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

* * *

Nota: O texto apresentado entre parênteses rectos, porque alheio à Introdução, é de minha exclusiva responsabilidade.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

JARDINS DO ORIENTE




Terminou no passado dia 25, no Institut du Monde Arabe, em Paris, a exposição "Jardins d'Orient - De l'Alhambra au Taj Mahal", com cerca de 300 peças emprestadas por grandes museus internacionais e colecções privadas da Alemanha, Inglaterra, Áustria, Bélgica, Egipto, Espanha, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, França, Irão, Líbano, Liechtenstein e Marrocos, fotografias gigantes e um jardim efémero recreado no pátio do IMA, uma interpretação contemporânea dos jardins do Oriente.

A exposição analisou as fontes de inspiração do jardim oriental, os seus códigos e as suas declinações, antes de procurar os laços que foram tecidos com os jardins do Ocidente no decorrer dos séculos. Com a água corrente como fio condutor.

A acompanhar a exposição foi editado um precioso catálogo, cujos capítulos indicamos:

- Apprivoiser la nature
- Dessiner un jardin d'Orient
- Un miroir de la société
- Fascination réciproque
- Le jardin oriental, source de modernité

Na impossibilidade de reproduzir aqui todas ou mesmo só as estampas principais, registamos, um pouco ao acaso, as seguintes:

Egyptian Landscape (Ali Selim, antes de 2009)
Makhzan al-Asrar (Colófon de "O Tesouro dos Segredos", de Nizâmi, Bukhara (?), século XVI
Pátio interior de uma casa particular tradicional de Damasco (Gérard Degeorge, 1989)
Mausoléu de Akbar, em Sikandra ( Anónimo, Jaipur, 1790)
Madînat al-Zahrâ, jardim moderno no pátio da Dar al-Jund
Jardim do Partal, na Alhambra

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CARDEAL CEREJEIRA



Ao arrumar uma das minhas estantes, descobri ontem esta preciosidade, um minúsculo livro sobre D. Manuel Gonçalves Cerejeira, 14º Patriarca de Lisboa, dignidade a que foi elevado em 18 de Novembro de 1929 pelo Papa Pio XI, que o nomearia cardeal-presbítero da Santa Igreja Romana do título dos Santos Marcelino e Pedro, em Consistório de 16 de Dezembro desse mesmo ano. O conteúdo deste livrinho, publicado em 1930, é uma delícia.


Encontrei também um cartão de visita do Cardeal Cerejeira agradecendo cumprimentos, possivelmente de Boas Festas.

Fino cultor das letras, o Cardeal Cerejeira, professor catedrático da Universidade de Coimbra e notável académico, criou um estilo que viria a fazer escola. Não resisto a transcrever, desse livro, as primeiras linhas da Provisão que, como presidente do Cabido Patriarcal (era à data Arcebispo de Mitilene) publicou por ocasião do falecimento do seu antecessor, o Cardeal Antonio Mendes Bello:

«Tendo expirado no ósculo do Senhor, hoje pelas 10 horas da manhã, Sua Eminência Reverendíssima o Senhor D. Antonio I, Cardial Presbítero da Santa Igreja Romana do título dos Santos Marcelino e Pedro, Patriarca desta Santa Igreja de Lisboa, cuja memória abençoada se conservará perenemente na alma da grei, pela grandeza moral da sua vida e pelo prodígio de piedade que foi a sua morte; e tendo-Nos eleito por sufrágio unanime, apesar da Nossa indignidade, Vigário Capitular o Exmº e Reverendíssimo Cabido da Santa Igreja Patriarcal, em conformidade com as normas do Direito; Havemos por bem......»

(Respeitei a grafia original)

Nota: os Patriarcas de Lisboa usavam (não sei se hoje ainda usam) os seus nomes próprios numerados, tal como os reis de Portugal e os duques de Bragança.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

ANDRÉ GIDE, O CONTEMPORÂNEO CAPITAL




Por razões que não vêm ao caso, acabei de reler por estes dias Si le grain ne meurt, de André Gide. Livro publicado em 1926, nele o autor recorda a sua vida desde que nasceu (1869), isto é, desde as primeiras recordações, até à sua viagem à África do Norte, em 1893, e à morte da mãe, em 1895.

A primeira parte do livro (cerca de três quartos do texto) é uma espécie de diário, ainda que Gide tenha escrito dois volumes do seu Journal (postumamente publicados), um consagrado ao período 1887-1925 e o outro ao período 1926-1950. Da segunda parte do livro consta a descrição dessa viagem à Tunísia e à Argélia. A publicação de Si le grain ne meurt provocou grande escândalo, apesar de Gide ter dado já à estampa Corydon, em 1924 (que teve anteriormente uma edição de tiragem reduzida e sem nome de autor), ensaio sobre os amores socráticos e destinado a combater os preconceitos contra a pederastia. É que nesse livro André Gide descreve as suas aventuras sexuais com os jovens maghrebinos, a primeira em Sousse, com Ali, depois em Argel, com Mohammed e em Biskra, com Athman. Os rapazinhos teriam entre 14 e 16 anos e Gide, Prémio Nobel da Literatura em 1947, seria hoje certamente acusado, julgado e condenado, apesar de ser um dos maiores escritores franceses e universais do século XX. O tempora o mores! Foi também na Argélia que André Gide conheceu pessoalmente Oscar Wilde (e Alfred Douglas), na companhia do qual se aperfeiçoou no seu encontro com os autóctones.

Mas o que importa aqui referir, mais do que evocar a infracção das regras da moral definida pelo código aprovado, é a sua própria "libertação" dessas regras. Educado numa austera família protestante, Gide travará sempre uma luta entre os rigores do puritanismo (tantas vezes hipócrita) e as tentações da carne. Interrogar-se-á neste livro sobre os benefícios da virtude e sobre os malefícios do pecado. É curiosa uma alusão à Suiça, país que visitou e pelo qual professa um manifesto horror. A rigidez calvinista é-lhe insuportável.

A primeira parte deste livro, a mais extensa, é rica em pormenores sobre o percurso do jovem Gide, as relações familiares, as suas amizades, as escolas e os professores domésticos, o ambiente da cidade e do campo, o início da carreira literária.

A vida de André Gide (a vida e a obra) encontra-se retratada em inúmeras biografias, a última das quais o monumental estudo em dois volumes de Frank Lestringant. Mas também a de Claude Martin (de que apenas foi publicado um primeiro volume), a de Pierre Lepape, a de Eric Deschodt, a de George Painter, etc. A vida de Gide ocupou o último quartel do século XIX e a primeira metade do século XX. Permitiu-lhe assistir a duas guerras mundiais e a profundas modificações na sociedade, tornou-o testemunha de progressos científicos e tecnológicos (para o bem e para o mal) até então impensáveis. É, pois, de impressionante riqueza o depoimento dos seus livros, sejam de ficção, poesia, ensaio, teatro. No total, cerca de uma centena de obras.

Creio que a época conturbada que vivemos impõe um regresso à leitura de André Gide.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O BURKINI: PRÓS E CONTRAS




O programa televisivo "Prós e Contras" da passada  segunda-feira foi dedicado à recente polémica em França sobre a permissão do uso do burkini. Não costumo ver este programa, aliás raramente vejo televisão, mas voz amiga chamou-me a atenção para o tema tratado esta semana. Por isso, ontem decidi-me repescá-lo para observar os comentários dos participantes.

Começo por declarar que subscrevo, na generalidade, as intervenções de Faranaz Keshavjee e de Miguel Vale de Almeida e que discordo, na generalidade, das intervenções de André Freire e de Inês Pedrosa. Pareceu-me, também, muito oportuna a declaração, a partir da plateia, de José Vera Jardim, presidente da Comissão da Liberdade Religiosa.

O assunto em apreço é simultaneamente muito simples e muito complexo. Tentarei alinhar algumas considerações que à discussão importam. E situá-las no teatro de operações que foi convocado para essa discussão, a Europa, já que trazer à colação a Arábia Saudita, como fez Inês Pedrosa, me parece fora do contexto.

Em primeiro lugar, não compete aos Estados determinar como os cidadãos se vestem (ou se despem). Mais do que ao gosto e conveniência de quem os usa, os trajos estão especialmente submetidos à ditadura da moda e do mercado. Já nem o sexo é determinante das normas de trajar desde que grande parte das mulheres passou a usar calças. E embora não seja habitual ver homens de saias, não creio possam ser presos por usá-las. Os limites decorrem dos imperativos constitucionais. Assim, é proibida ao cidadão a ausência de vestuário (o nu integral é permitido nas praias, mas só em algumas), como deve ser proibido o uso de burka, pela simples razão que esta peça de indumentária oculta completamente o rosto, impedindo a identificação do portador.

Portanto, o clamor verificado em França, nomeadamente na Côte d'Azur, devido à presença de mulheres, presumivelmente muçulmanas, usando burkini, é perfeitamente ridículo, e a proibição decretada por alguns presidentes de câmara decorre quer da alucinação dos edis, quer da presunção de ganhos eleitorais. Esteve bem o Conselho de Estado ao invalidar essas proibições, por serem contrárias à lei, e ao bom senso.

O burkini não constitui qualquer ameaça à segurança, não representa uma escalada do islamismo radical, nem é atentatório dos "bons costumes". Ainda não há muitos anos, em pleno Ocidente civilizado, as mulheres eram proibidas de se apresentarem nas praias demasiado despidas; agora, são proibidas por estarem demasiado vestidas. O relativismo da moral ocidental.

Ouvi várias vezes no programa a invocação dos "nossos valores". Mas o que são os nossos valores, se é que existe agora no Mundo Ocidental algum valor que não seja o do dinheiro?

As mulheres muçulmanas têm todo o direito de se passearem na Europa de véu, hijab ou niqab, como as mulheres europeias se passeiam no mundo árabo-islâmico "ocidentalmente" vestidas. Ressalvam-se países como a Arábia Saudita, o Irão e poucos mais, mas constituem, apenas pelas piores razões, a excepção que confirma a regra.

Mesmo em Portugal, não vai longe o tempo em que as mulheres não iam para a rua de cabeça descoberta. Vivendo em Lisboa, recordo-me de minha mãe que, durante muitos anos, punha na cabeça um lenço, se saía para uma volta perto de casa, ou um chapéu, se ia à Baixa, a um teatro, ou jantar fora. E só nos últimos anos da sua vida minha mãe passou a sair de casa de cabeça descoberta. E recordo-me também, no tempo em que passava férias no campo com os meus pais, de ver todas as mulheres com lenço na cabeça.

Argumentou-se, igualmente, no debate, que o uso do burkini configurava uma provocação, uma afirmação ostensiva dos valores islâmicos. E porque não? Não foi de uso corrente, até há muito pouco tempo (e ainda hoje) homens e mulheres usarem ao pescoço um fio com um crucifixo pendente? E os sikhs não se deslocam de turbante nos Estados Unidos ou no Reino Unido?

Eu preferia, por convicção íntima, que não se fizesse exibição pública de símbolos religiosos. Mas aceito que, tal como os cristãos, cidadãos de crenças não cristãs (no caso vertente, muçulmanos), já europeus ou ainda migrantes, queiram afirmar a sua identidade no momento em que se assiste a uma campanha anti-islâmica na Europa, a pretexto de actos terroristas praticados por indivíduos supostamente muçulmanos. E haveria aqui lugar para outra questão, mas isso seria outra conversa, a de saber as origens do "radicalismo islâmico". Trata-se de uma radicalização do Islão, como afirma o meu amigo Gilles Kepel, ou de uma islamização do radicalismo, como sustenta Olivier Roy, ambos famosos islamólogos franceses. Perfilho a segunda hipótese.

Como não pretendo alongar o texto - já escrevi mais do que o previsto - terminarei com uma consideração porventura lateral, mas indissociável. Proclama-se que o Islão está em guerra com o Ocidente. Desde que Samuel Huntington (sabe-se lá porquê ???) sustentou a tese do "clash of civilizations" que não deixou de se falar no assunto. Opinião não surpreendentemente partilhada pelo centenário islamólogo anglo-americano Bernard Lewis, um grande crítico de Edward Saïd. Não penso que haja uma "guerra" do Islão contra o Cristianismo, apesar do termo "cruzada" ter sido utilizado pelo inominável George Bush após os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. Mas concedo que existe por parte dos árabes (mais propriamente daquilo a que se convencionou chamar a rua árabe) um sentimento de desconforto relativamente aos europeus, primeiro, e também aos americanos, depois.

Recordemos. Ainda antes do desmoronamento do Império Otomano, quando o general Bonaparte em 1798 invadiu o Egipto, começou a chamada Questão do Oriente. Os ingleses substituíram os franceses, que foram depois ocupar o Marrocos e a Tunísia, mais tarde protectorados, e a Argélia, que se tornou uma província francesa. Os italianos ocuparam a Líbia. Após a Primeira Guerra Mundial, e sobre os escombros otomanos, com os Acordos Sykes/Picot e a Declaração Balfour ingleses e franceses partilharam o Médio Oriente e criaram o Estado de Israel. O conflito israelo/palestiniano permanece até hoje e a invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, foi a cereja em cima do bolo do neo-colonialismo ocidental, com a pretensão estulta de exportar a democracia e o falso pretexto das armas de destruição maciça. Depois, as "primaveras árabes", aparentemente louváveis mas habilmente comandadas do exterior, consolidaram a insegurança e o caos. O ataque anglo-americano-francês à Líbia transformou o país do discutível Qaddafi num território sem governo e sem lei, abrindo a fronteira sul a todos os movimentos da África sub-sahariana. A intervenção camuflada dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, Arábia Saudita, Turquia, Irão, Qatar, etc., na guerra civil que há cinco anos destrói a Síria, transformou uma revolta popular num conflito de proporções inimagináveis. De tudo isto nasceu o Daesh (ou ISIS), armado pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita, e que se revela um pesadelo intra e extra-muros.

Nestas circunstâncias, quem pode admirar-se da vaga de imigrantes que demanda a Europa. As vítimas do Iraque, da Síria, da Líbia, entre mortos, feridos e deslocados contam-se já por vários milhões. A Europa, não as suas populações, a não ser pelos dirigentes que elegem, mas pelos governos dos seus países, é cúmplice desta chacina contemporânea.

Eu sei que é difícil para os europeus receberem tanta gente, mas não vale a pena erguerem muralhas, pois, como afirmou Umberto Eco, já em 1997, no Convénio sobre as Perspectivas do Terceiro Milénio, organizado pelo Município de Valência, « Os fenómenos que a Europa tenta ainda enfrentar como casos de emigração são pelo contrário casos de migração. O Terceiro Mundo está a bater às portas da Europa, e entra mesmo quando a Europa não está de acordo. O problema já não é decidir (como os políticos fingem acreditar) se se admitem em Paris raparigas estudantes com o chador ou quantas mesquitas devem erigir-se em Roma. O problema é que no próximo milénio (e como não sou profeta não posso especificar a data) a Europa será um continente multirracial, ou se preferirem "colorado". Se lhes agradar, será assim; e se não lhes agradar, será assim na mesma.» [Tradução portuguesa publicada em Cinco Escritos Morais (1998)].

Os europeus terão de conviver com esta situação, serão obrigados a compreendê-la. Espanta que governos ditos socialistas, como o francês, disputem à extrema-direita a ofensiva anti-muçulmana. Não ganharão votos por causa disso, pois é sempre preferível o original à cópia. E a Frente Nacional, que passou oportunamente de anti-semita a anti-islâmica, acabará por encontrar uma fórmula que lhe permita a aceitação dos muçulmanos tal como já operou uma prudente viragem a favor dos homossexuais.

Regressando ao burkini, em nada ele fere a laicidade ou os "nossos valores". Acima de tudo, reclama-se bom senso e bom gosto, a fim de que o tempo, esse grande escultor, possa encontrar a solução mais adequada.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

NAUFRÁGIO DE UM JORNALISTA




No "Magazine Littéraire" deste mês de Setembro (nº 571), o director editorial Maurice Szafran publica na última página a crónica que se transcreve:

Naufrage d'un intellectuel





Ma génération doit beaucoup à Edgar Morin. C'est notamment avec lui, grâce à sa réflexion sur les sujets les plus divers et à ses livres, que nous avons appris à penser un peu moins... faux. Après avoir refermé Autocritique, nous n'avions plus le droit d'entretenir la moindre illusion sur la véritable nature (criminelle à tant de points de vue) du communisme ; La Rumeur d'Orléans nous fut d'un précieux secours, retirant l'illusion qu'après Auschwitz l'antisémitisme s'était dissous à jamais en Occident et en Europe ; avec Vidal et les siens, saga familiale, Morin nous rappela à la fois qu'il écrivait somptueusement bien et que notre destin individuel et collectif dépendait aussi, peut-être même avant tout, de nos racines, familiales et autres. Je n'insisterai pas sur le rôle précurseur de Morin dans la prise de conscience écologiste, Morin qui jamais - et ils sont fort peu nombreux dans ce cas - ne tomba dans le dogmatisme et le verbiage antiscientifique.
Depuis fort longtemps certes, nous avions choisi de passer outre la phobie anti-israélienne de Morin. Dans son cas, il ne s'est jamais agi de dénoncer, à raison, l'idéologie ultra agressive de la droite nationaliste en se rangeant, par exemple, aux côtés des militants de La Paix maintenant ; non, c'est l'essence même d'Israël, d'un État juif, que Morin a toujours remis en cause. Sa maladie sénile d'un gauchisme persistant. Cela serait sans importance si, par glissements successifs, il n'appliquait désormais cette grille de lecture gauchisto-mécanique, et, disons-le, débile, à l'islamisme terroriste et aux tueurs de Daech. Pour le détecter, il aura donc suffi d'un tweet, cette expression nouvelle des intellectuels branchés, quelques signes pour exprimer une pensée a priori complexe. Cette « pensée » - les guillemets sont indispensables - renvoient bourreaux et victimes dos à dos : « Les barbares tuent indistinctement par attentats suicides, les civilisés tuent indistinctement par missiles et drones. »
Désagrégation de la pensée. Confusion volontaire entre bourreaux et victimes. Edgar Morin, nouvelle recrue, de choix celle-là, des islamo-gauchistes, ceux-là mêmes qui ont pour fonction idéologique de dédouaner, d'excuser l'égorgeur de Daech, de lui trouver, avec une dialectique stupide parce que mécanique, des excuses sociales, des justifications culturelles.
Mais comment l'auteur d'Autocritique, cette confession prémonitoire, peut-il à ce point s'égarer et, conséquemment, tromper ses lecteurs, les plus lucides d'entre eux étant atterrés, désolés de constater pareil naufrage ?
Passons au plus vite sur les explications convenues - l'obsession anti-occidentale d'un vieux tiers-mondiste qui n'a pas vu le temps et l'histoire passés ; la recherche désespérée d'un prolétariat de substitution, réunissant d'abord les immigrés du Maghreb, du Proche-Orient et d'Afrique, pour la plupart d'entre eux musulmans ; la conviction, partagée avec Michel Onfray notamment, que la responsabilité première de cette « barbarie » (Morin utilise le mot) pèse davantage sur les Bush et leurs alliés que sur les califes et les émirs de Daech. Thèses et thèmes éculés d'un penseur qui, désormais, pense fermé, d'un penseur qui s'interdit la prise en compte du réel pour s'en tenir à renvoyer dos à dos le bourreau et la victime - une manière, même pas habile, de dédouaner l'assassin.
Il est nécessaire d'insister : Edgar Morin occupe et occupera une place importante dans la pensée française au XXe siècle. Mais subsistera aussi cette tache : un jour, il aura accouru au secours des fanatiques musulmans et de leurs communicants, les islamo-gauchistes. Oui, une tache.

 * * * * *

Uma leitura objectiva permite concluir que se trata mais do naufrágio do jornalista Maurice Szafran do que do intelectual Edgar Morin. Não conheço Szafran, mas é lícito suspeitar que se trata de um caso de islamofobia, para resumir, numa palavra, aquilo que penso do texto.